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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Migrantes e refugiados: problemas velhos e novos e rotas de esperança


A Santa Sé apresentou hoje, dia 17 de janeiro, dois novos documentos do Departamento para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral sobre migrantes e refugiados: “Diretrizes Pastorais sobre o Tráfico de Pessoas” e “Luzes nas Ruas da Esperança” – Ensinamentos do Papa Francisco sobre migrantes, refugiados e tráfico humano”.
Diretrizes Pastorais sobre o Tráfico de Pessoas” é o resultado dum processo de consulta com as conferências episcopais, congregações e organizações religiosas católicas. Compendia uma série de orientações pastorais para compreender, reconhecer, prevenir e erradicar o tráfico de pessoas, além de proteger as vítimas e promover a reabilitação de sobreviventes. E emite um alerta para o crescente contrabando de migrantes, além dum pedido de ação a nível internacional em defesa das vítimas. O texto, direcionado às comunidades católicas e instituições religiosas, adverte ainda para a linha ténue que separa o contrabando de migrantes e o tráfico humano.
A Santa Sé defende, assim, um reforço dos programas humanitários governamentais e não-governamentais, para a erradicação do tráfico humano. Nesse sentido, pode lê-se no documento:  
Os Estados devem estabelecer ou melhorar programas e mecanismos para proteger, reabilitar e reintegrar as vítimas, atribuindo-lhes os recursos económicos apreendidos aos traficantes”.
O segundo documento é uma coleção de ensinamentos do Magistério do Papa Francisco sobre migrantes e refugiados, compilados desde o início do pontificado até ao final de 2017. Ao plano de ação vem acoplada uma versão eletrónica do programa de pesquisa, disponível no site da Santa Sé, a atualizar a cada seis meses, incorporando os novos ensinamentos pontifícios.
Participaram na conferência de imprensa de apresentação dos documentos o Dr. Paolo Ruffini, Prefeito do Dicastério para Comunicação; o Padre Fabio Baggio, CS, Subsecretário da Secção de Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral; e o Padre Michael Czerny, SI, Subsecretário da sua Secção de Migrantes e Refugiados.
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Mons. Bruno-Duffé, Secretário do Dicastério para Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, interveio numa conferência realizada no passado 8 de janeiro, no Colégio Universitário de Santa Catarina de Siena, em Pavia sobre “Migrações globais e novos nacionalismos. A Igreja, diante da xenofobia, populismo, racismo, recordando que a esperança do Reino de Deus não pode ser identificada com uma nação, mas permanece um horizonte que convida à conversão com vista à construção duma sociedade de justiça na qual é acolhido e protegido cada filho de Deus. E disse:
O acolhimento e a ajuda aos migrantes ‘desestabilizam’ os pensamentos e as referências que temos dentro de nós. Não são tanto os meios a faltar-nos. A ser tocada em nós pela presença daqueles que vêm de longe, que não falam a mesma língua, não têm a mesma religião e carecem das coisas necessárias para a sobrevivência, é a nossa representação da família, da comunidade e da humanidade.”.
Além disso, como explica, trata-se de pontos de referência de construção da nossa segurança imaginária, da nossa casa simbólica, da nossa tranquilidade espiritual. Pelo vincou:
Na verdade, os migrantes, com a sua presença, impulsionam-nos a repensar os limites que construímos com grande dificuldade, ao longo dos anos, de gerações, guerras e crises. Não pertencem à nossa família, à nossa história e nós sofremos ao ouvir a sua própria história que nos parece ainda mais distante, não se expressando necessariamente com nossa própria experiência.”.
E Dom Duffé sublinhou:
A esperança do Reino de Deus não pode ser identificada com uma nação ou com um sistema político. A realização do Reino continua a ser um horizonte que convida à conversão construindo, dia após dia, uma sociedade de justiça e de direito, na qual cada filho de Deus é acolhido, nomeado e protegido.”.
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O L’Osservatore Romano publicou vários trechos do discurso de Mons. Duffé na sua edição de 13 de janeiro.
Aí se pode ler que o orador partiu duma experiência que viveu em França, em 2015. Numa atividade de receção e apoio a migrantes que viviam na rua após o despejo pela polícia duma propriedade inutilizável e insalubre, ocupada ilegalmente, topou acomodação temporária para duas famílias num acampamento rural. Porém, o prefeito convocou-o e disse-lhe que a chegada dessas famílias “desestabilizaria” o município. Obviamente a dita desestabilização não dizia respeito a “uma questão de números, mas à solidariedade, ou seja, “ele não queria o elo de conhecimento e gratidão que unisse os habitantes da comunidade a abrir-se a essas duas famílias. Além disso, havia o problema da escolaridade das crianças, pois, como a lei obriga os municípios a fornecer educação escolar a cada menor, independentemente da situação social dos pais, era a recusa de se encarregar dessas crianças, aduzindo que pesavam no orçamento social do município. Assim se pode concluir que “a recepção e a ajuda dos migrantes ‘desestabilizam’ os pensamentos e referências que temos dentro de nós”, bem como os hábitos instalados.
Depois, a nossa memória coletiva alberga medos e suspeitas em relação ao que desconhecemos e cria incertezas quanto à capacidade de mantermos os nossos haveres e as nossas culturas face à suposta “invasão” alheia concorrente, mesmo que pacífica.     
Porém, como é acentuado recorrentemente, as migrações não são um fenómeno novo. Com efeito, “são há milhares de anos um elemento constitutivo da história humana e talvez da mesma história de vida, pois, para Duffé, trata-se dum “movimento dos seres vivos em busca da terra e da água para sobreviver”. E “as migrações contemporâneas surpreendem as sociedades sedentárias, que realizaram o seu desenvolvimento graças à concentração urbana em torno dos recursos naturais”, e “hoje, muitas famílias tornaram-se famílias ‘internacionais’ ao longo de duas gerações, ao mesmo tempo que esquecemos de que somos fundamentalmente ‘migrantes’. E esse esquecimento faz com que se vejam os migrantes como seres “fora de seu mundo” e do nosso. Assim, o medo dos migrantes, ensinando que o homem pode perder a memória da sua humanidade quando cria raízes num mundo fictício, “é um medo semelhante ao que nos lembra a fragilidade de nossa condição de mortais. 
Por outro lado, não podemos esquecer que as migrações contemporâneas levantam questões específicas do nosso tempo. Uma delas é a da alteridade, pois “o outro que atraca em nossos países ou nos atravessa as fronteiras por caminhos montanhosos nem sempre é outro fascinante e compatível com os critérios de êxito que a sociedade consumista produziu e disseminou”. Ao invés, “tem o rosto dum homem crucificado que arriscou a sua vida para tentar salvá-la e que carrega os estigmas dum ser abandonado, reduzido à nudez daquele que perdeu tudo”. Outra questão prende-se com a mistura de culturas e a fusão de origens, que induz o rejuvenescimento da população, mas em que emerge a diferença como uma desafiante caraterística ambivalente, da possibilidade de enriquecimento ou da ameaça de perda. A pari, significa o desafio ao dar e comporta o risco do receber bem e mal. E essa ambivalência produz em nós comportamentos estranhos que nos fazem desviar o olhar quando encontramos os que estão sem teto ou na rua, inventando razões para o fazer, ou nos arrancam o compromisso para olhar para eles. De facto, o olhar “é o risco pelo qual nos encontramos com o outro”. A reunião com o outro (em particular, o estrangeiro migrante) questiona e redefine de feição necessária a imagem que construímos do devir e do porvir. E a história será diferente porque teremos de a escrever junto com quem veio. É a aventura que nos leva a rotas que não conhecemos e onde pensamos que a nossa generosidade nos fará perder a nós mesmos. Porém, isto é surpreendente numa sociedade e cultura globalizadas que tendem a considerar que o planeta “como uma aldeia”, a supostamente implicar o fim de fronteiras. E o medo de habitar este mundo aberto, em que o mais distante se tornou próximo tenta-nos à retirada e à busca dum lugar fechado onde estaríamos afastados do outro. Ora, o desafio, no centro da experiência das migrações contemporâneas, é o de “viver juntos” numa terra comum, mas que não pertence a ninguém em exclusivo.
No horizonte do problema, cruzam-se a dimensão psicológica, a económica, apolítica, a ética e a espiritual, incluindo o impacto da experiência das relações humanas em si mesmas, na tensão entre proximidade e solidariedade, ou seja, tentarmo-nos a primeiro a lidar com os quem está perto e só depois lidar com a miséria de que vem de longe. Ora, temos de saber que as sociedades se constroem e renovam em hospitalidade mútua, sendo o compartilhar um valor e nunca um enfraquecimento.
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Quanto à xenofobia, populismo e racismo, Duffé vê nos discursos que os sustentam, como nas teorias que supõem uma hierarquia nas culturas e nos grupos humanos (elevando o conceito de ‘raça’), a forma de justificar a exclusão do outro e fechar a porta a qualquer reunião.
A xenofobia é claramente o medo do estrangeiro. Efetivamente a vinda de alguém originário de outro país ou de outro estilo inquieta, por significar subjetivamente “perigo” ou “intrusão”, e induz uma atitude defensiva para proteger o que acreditamos que nos pertence.
A palavra ‘populismo’ pode ter aceções diferentes. Se a entendermos como ‘expressão popular’, daí não vem mal ao mundo. Mas, se a alçarmos a discurso político que realce o medo coletivo para afirmar um poder com solução para todos os problemas, torna-se altamente perigosa. Com efeito, propala a distinção entre cidadãos bons e maus, os que têm direitos e os que não podem tê-los; e, para desviar o medo e aproveitar as aspirações do povo, advoga o benefício de um poder que busca o controlo social e rejeita iniciativas concretas de solidariedade.
E o racismo – diz Duffé – resulta duma “elaboração teórica que introduz uma hierarquia fictícia e imaginária na relação entre indivíduos e entre comunidades humanas”. Nesta ótica, havia seres humanos com vocação à liderança e outros fadados à escravidão. Esta suposta predestinação conduz ao fechamento e ao ódio, pois, a olhos racistas, a cor da pele, a história peculiar, a pertença a uma comunidade étnica ou religiosa “decidem o que temos de fazer”, não sendo possível alterar essa classificação – dita natural – que é resultado duma ideologia justificativa de “uma história de guerra e colonialismo”.
Mas o populismo, apresentado por quem o promove como resposta às preocupações do povo, levanta questões, como: quem são as pessoas de que se fala, o que pensam as pessoas ser a referência dos discursos populistas e quem é o povo?
Para responder é de referir que os elementos constitutivos dum povo “são os eventos fundadores e libertadores, os encontros e alianças, uma memória e um espírito compartilhados”. Não obstante, nesse povo há necessariamente pessoas diferentes, pois “não é apenas uma identidade ancestral que define o povo, mas a sua história” toda, com suas reuniões, descobertas e esperanças. E, nela, o estrangeiro, o migrante, o transeunte, têm a função de abertura e de revelação – com uma mensagem que rompe a solidão e faz descobrir o que ainda não sabemos.
Se as pessoas são definidas como em comunidade histórica e como em experiência de uma esperança compartilhada – um passado comum e um futuro que procura ser escrito –, “o pensamento de um povo não pode ser fixo” ou “definido para sempre”, mas pensamento em processo e na paciência do diálogo, em termos de encontro e complementaridade. E isto “está no centro do pensamento cristão do povo de Deus”, na linha do que diz o Apóstolo Paulo, sendo cada membro comparável a um membro do corpo humano, de modo que “nenhum membro do corpo pode dizer para outro: eu não preciso de ti” (vd 1Cor 12,12). Assim, as “pessoas” estão “a caminho”, graças a essa hospitalidade mútua pela qual nos damos as boas-vindas.
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Duffé abordou também a problemática da missão da Igreja diante do(s) nacionalismo(s).
É pertinente assumir a aceitação dos pequenos e pobres e a abertura ao outro e à universalidade como o centro da missão de Cristo confiada aos seus discípulos, tal como é pertinente lembrar que a Igreja compartilha, em todos os tempos, “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje” (cf Gaudium et Spes, 1). Por isso, a missão da Igreja começa com a escuta e consideração das preocupações e aspirações humanas; e, enviada ao coração desta humanidade (onde transeuntes e migrantes se encontram) oferece e recorda a alegria da fraternidade. 
Também aqui importa invocar os princípios da DSI (Doutrina Social da Igreja), que abrem espaço ao encontro: dignidade inalienável da pessoa humana, materializada no respeito pelos direitos fundamentais de o todo ser vivo; subsidiariedade ou partilha de responsabilidades; solidariedade ou reconhecimento mútuo; bem comum ou bem da comunidade; escolha primária de proximidade dos mais pobres, os amados de Deus. E esses princípios (éticos e espirituais) postulam as seguintes convicções, inspiradas na fé cristã: a pessoa carrega em si o sinal do amor de Deus; a responsabilidade exerce-se em reciprocidade e complementaridade; e a comunidade cresce na humanidade e espera quando os mais frágeis são amados, ao modo de Deus, isto é incondicionalmente.
A Igreja, comunidade de pessoas batizadas, é construída como comunhão entre os membros duma coletividade nacional; constitui-se no elo entre mulheres e homens que participam no desenvolvimento duma unidade nacional; e participa na construção de laços de reconhecimento entre todos os cidadãos duma nação. A pari, lembra, a partir do ensinamento e da ação de Cristo, que o estrangeiro é convidado a participar da vida da comunidade e beneficia do legado da esperança – o que vale para o samaritano (com quem os judeus não falam) e para a mulher siro-fenícia que Jesus mantém à distância antes de reconhecer a sua fé, mas com quem se regozija ao vê-la tornar-se membro da comunidade de crentes. Ora esta evocação da pregação da atitude de Cristo compagina a abertura do espírito, que não justifica o nacionalismo ou a segregação que mantêm fora da comunidade quem pede para entrar. Obviamente a distinção entre nação política e Igreja evidencia-se como componente decisiva da teologia política da Igreja Católica, já que a esperança do Reino de Deus não se identifica com uma nação ou com um sistema político. A realização do Reino é o horizonte que insta à conversão a uma sociedade de justiça e de direito, em que é bem-vindo, nomeado e protegido cada filho de Deus.
E o orador termina com a evocação da mensagem papal para o LII Dia Mundial da Paz. Considerando que este texto do Magistério papal sobre a paz instou à renúncia ao medo e à ameaça, começou por lembrar a virtualidade da assunção da boa política e apontar a dificuldade em a levar à prática:
A autêntica vida política, baseada na lei e no diálogo justo entre os sujeitos, é renovada com a convicção de que toda a mulher, todo o homem e toda a geração contêm em si uma promessa que pode libertar novas possibilidades relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Tal confiança nunca é fácil de viver porque os relacionamentos humanos são complexos. Em particular, vivemos nestes tempos num clima de desconfiança que está enraizado no medo do outro ou do estranho, na ansiedade de perder suas vantagens, e infelizmente também se manifesta no nível político, através de atitudes de fechamento ou nacionalismo que questionam a fraternidade de que o nosso mundo globalizado tanto precisa.”.
Depois, apontou a premência da aflição das pessoas vulneráveis, do discurso político acusatório e do valor da paz e dos seus pressupostos:
O terror das pessoas mais vulneráveis ​​contribui para o exílio de populações inteiras na busca de uma terra de paz. Discursos políticos que tendem a acusar migrantes de todos os males e privar os pobres de esperança não são sustentáveis. Por outro lado, deve-se ressaltar que a paz se baseia no respeito de toda pessoa, qualquer que seja a sua história, pelo respeito da lei e do bem comum, pela criação que nos foi confiada e pela riqueza moral transmitida pelas gerações passadas.”. (cf Mensagem do Papa Francisco para o LII Dia Mundial da Paz, §§ 5-6).
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Enfim, a Igreja e, nela, os cristãos não podem deixar de encarar a migração voluntária como fenómeno legítimo, mas têm de encarar as causas e as consequências das migrações globais contemporâneas e contribuir ativamente para combater as suas causas pecaminosas e os fenómenos nefastos que as acompanham, designadamente o contrabando, a exploração e o tráfico de pessoas, bem como as falsas soluções para os problemas dos povos, como a xenofobia, os populismos e o racismo – nas suas diversas formas –, mas não se coibindo de chamar as coisas pelos seus nomes, com receio de acusações indevidas, nem se pondo a designar com estes nomes tudo e todos, a criar problemas onde eles não existam.
2019.01.17 – Louro de Carvalho

domingo, 30 de setembro de 2018

O fermento da fraternidade nunca deixa de produzir os seus frutos


Disse-o o Papa Francisco a cerca de sete mil membros da Associação Nacional da Polícia de Estado, que recebeu em audiência a 29 de setembro, na Sala Paulo VI, no Vaticano.
É uma associação une os membros da Polícia ainda em atividade e aqueles que, mesmo tendo terminado seu serviço, ainda se sentem parte dela e levam por adiante os seus ideais, nomeadamente a transmissão das “tradições da Polícia de Estado”, favorecendo a união de todos os seus membros, em licença ou em serviço. No dizer do Papa, valorizam-se, deste modo, “a experiência dos membros idosos e o seu património histórico-cultural, que não deve ser esquecido ou diluído, mas transmitido e ampliado e reforça-se o vínculo entre as gerações, às vezes, afetado no contexto das relações sociais”.
E, na ótica do compromisso com o bem comum, Francisco sublinhou:
É muito significativo que fazem parte dessa associação os cidadãos comuns que, mesmo não sendo membros da Polícia, assumem os seus valores e o seu compromisso. Assim, vós formais uma grande família: uma família aberta a todos aqueles que se querem comprometer com o bem comum a partir de seus princípios, uma família que gostaria de envolver e acolher todo o cidadão para difundir uma cultura de legalidade, respeito e segurança.”.
Para o Pontífice, sem tais fundamentos, nenhum contexto social pode alcançar o bem comum, mas tornar-se-á um emaranhado de interesses pessoais contrapostos, pois o bem duma sociedade não é dado apenas pelo bem-estar da maioria ou pelo respeito dos direitos de quase todos, mas pelo bem da coletividade como um conjunto de pessoas, de forma que, se alguém sofre, todos os membros sofrem com ele. Disse-o respaldado na palavra de Paulo no cap. 12 da 1.ª Carta aos Coríntios de que, “se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; e, se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria” (1Cor 12,26). Ora, nós somos o corpo de Cristo e cada um, pela sua parte, é um membro (cf id 12,27) e, quanto mais fracos parecem ser os membros do corpo, tanto mais são necessários; aqueles que parecem ser os menos honrosos do corpo, a esses rodeamo-los de maior honra, e aqueles que são menos decentes, nós os tratamos com mais decoro, sendo que os que são decentes não têm necessidade disso (cf id 22-24).
Vincando que “toda a injustiça afeta sobretudo os mais pobres”, os mais pobres e atribulados do nosso tempo, explicou:
Quando faltam a legalidade e a segurança, os vulneráveis são os primeiros a serem prejudicados, porque possuem poucos meios para se defenderem e proverem a si mesmos. Toda a injustiça afeta sobretudo os mais pobres e todos aqueles que de várias formas são os últimos. Últimos, neste nosso mundo, são aqueles que deixam a sua terra por causa da guerra e da miséria e devem recomeçar do zero num contexto totalmente novo. Os últimos são aqueles que perderam a casa e o trabalho e lutam para manter a sua família, os últimos são aqueles que vivem marginalizados e doentes, ou são vítimas de injustiças e abusos.”.
E, assinalando o papel da polícia, frisou:
Vós estais próximos a todas essas pessoas quando procurais prevenir o crime, combater o bullying e fraudes, quando colocais à disposição o vosso tempo e as vossas energias na formação dos jovens e na vigilância das escolas, na proteção do território e do património artístico, na organização de encontros e na formação de cidadãos mais ativos e conscientes”.
Ora, a associação a que se dirigiu introduz, segundo o Pontífice, “na massa da sociedade, o fermento da igualdade e da fraternidade que nunca deixa de produzir seus frutos (...), valores transmitidos pelo Evangelho” que transformaram radicalmente as mentalidades e as vidas. Ea introdução dos valores da solidariedade e da paz, que encontram o seu ápice na pessoa e na mensagem de Jesus, foram e ainda hoje são capazes de renovar as relações interpessoais e sociais” – disse Francisco, que enunciou como conclusão o seguinte:
É isso que desejamos para o nosso tempo, sabendo que, quando colocamos em prática a caridade, ela muda o mundo e a história, mesmo que não percebamos logo os seus efeitos. Esse é o nosso objetivo e essa é a contribuição dada pela Associação Nacional da Polícia de Estado todas as vezes que, seguindo o exemplo de seu Padroeiro, São Miguel Arcanjo, se opõe a tudo o que fere ou destrói o ser humano..
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Também o Papa Francisco, ao comentar, por ocasião do Angelus com a multidão reunida na Praça de São Pedro, os textos da Liturgia da Palavra deste XXVI domingo do Tempo Comum no Ano B (dia 30 de setembro), nos remete para o dinamismo da fraternidade, que requer um percurso pedagógico. Tanto Josué como os discípulos de Jesus se encheram de ciúmes por indivíduos que não tinham entrado na tenda da reunião, no primeiro caso, segundo o texto do Livro dos Números (vd Nm 11,25-29 -1.ª leitura) ou que não eram do grupo, no segundo caso, conforme o relato de Marcos (vd Mc 9,38-43.45.47-48), profetizarem ou expulsarem demónios.
Efetivamente, quando o Senhor desceu na nuvem sobre a tenda da reunião e falou com Moisés, tirou-lhe uma parte do Espírito que nele pousava para os 70 anciãos, que profetizaram, mas não continuaram. Entretanto, Eldade e Medad, que ficaram no acampamento, profetizavam. E Josué sugeriu a Moisés que lho proibisse totalmente. Porém, Moisés, sabendo que o Espírito não se deixa aprisionar por espaços por mais nobres que sejam nem pelas pessoas, falou assim:
Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do SENHOR profetizasse, que o SENHOR enviasse o seu espírito sobre ele!” (Nm 11,29). 
Este desejo de Moisés realiza-se hoje em cada crente que recebeu o Batismo (e a Confirmação) por força do Pentecostes, em que o Espírito Santo irrompeu sobre os discípulos com a abundância dos seus dons e está disponível para agir por intermédio de quem, mesmo sem conhecer a Cristo, vive e atua segundo a sua consciência e movido pelo amor fraterno.
Por seu turno, o Evangelho de Marcos (3.ª leitura) mostra-nos os discípulos, pela voz fogosa de João, a queixarem-se de que um homem que não era do grupo expulsava demónios. Mas Jesus, conhecendo os pensamentos ciumentos deles, disse-lhes:
Não o impeçais, porque não há ninguém que faça um milagre em meu nome e vá logo dizer mal de mim. Quem não é contra nós é por nós, pois, seja quem for que vos der a beber um copo de água por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.” (Mc 9,39-41).
Ao lado da coerência, Jesus enaltece a dádiva e a cortesia de a receber, venha da parte de quem vier. Porém, Francisco chamou a atenção para o facto de o comportamento dos discípulos de Jesus ser muito humano, muito comum, e o podermos encontrar “nas comunidades cristãs de todos os tempos, provavelmente também em nós mesmos”. E considerou que “o Evangelho deste domingo nos apresenta um daqueles particulares muito instrutivos da vida de Jesus com os seus discípulos”.
Segundo o Papa, “João e os outros discípulos manifestam um comportamento de fechamento diante dum acontecimento que não entra nos seus esquemas, neste caso a ação, mesmo sendo boa, de uma pessoa ‘externa’ ao grupo de seguidores”. Mas Jesus, ao invés, “parece muito livre, plenamente aberto à liberdade do Espírito de Deus, que não é limitado na sua ação por nenhum confim e por nenhum recinto”.
E o organizador do Missal Quotidiano Ferial, da Paulus (2016) sustenta:
As palavras que, um dia, Jesus dirigiu aos Doze têm agora um alcance eclesial. A Igreja não tem o monopólio do bem [como poderia dizer que dentro da Igreja ninguém tem o exclusivo do bem], pois o Espírito também atua fora das suas fronteiras. No dia do Juízo, Deus reconhecerá como Seus todos os que tiverem agido com os outros, movidos pelo amor.”.   
Francisco diz que Jesus quis então educar os discípulos e a nós hoje nesta liberdade interior.
Para o Pontífice, que disse fazer-nos bem “refletir sobre este episódio e fazer um pouco de exame de consciência”, aponta a existência do medo da ‘concorrência’ de que alguém possa atrair novos seguidores. E então não se consegue apreciar o bem que os outros fazem: não é bom porque ele “não é um dos nossos”. É uma forma de autorreferencialidade, estando aqui a raiz do proselitismo. E a Igreja, como disse Bento XVI, não cresce pelo proselitismo, mas pela atração, isto é, “cresce pelo testemunho dado aos outros com a força do Espírito Santo”.
Segundo o Papa, “de boa-fé, aliás, com zelo, gostar-se-ia de proteger a autenticidade duma certa experiência, tutelando o fundador ou o líder dos falsos imitadores”. Mas a grande liberdade de Deus (que ninguém pode tolher) em doar-se a nós “é um desafio e uma exortação a mudar os nossos comportamentos e nossas relações” e “um convite que Jesus nos faz hoje”. E – disse ainda o Papa – “Ele convida-nos a não pensar segundo as categorias do ‘amigo/inimigo’, ‘nós/eles’, ‘quem está dentro/quem está fora’, ‘meu/seu’, mas a ir além, a abrir o coração a fim de reconhecer a presença e a ação de Deus mesmo em âmbitos incomuns e imprevisíveis e em pessoas que não fazem parte de nosso círculo”. “Trata-se de estarmos mais atentos à genuinidade do bem, do bonito e do verdadeiro que é realizado, do que ao nome e procedência de quem o faz”. E, como sugere o Evangelho,  “em vez de julgar os outros, devemos examinar-nos e “cortar”, sem pactos, tudo o que pode escandalizar as pessoas mais fracas na fé”.
Com efeito, o Evangelho, remando contra o escândalo – em que se pode incluir o fenómeno desastroso da pedofilia e dos abusos sexuais de menores, sobretudo por figuras proeminentes das Igrejas – embora não devam ser tomados à letra os diversos elementos metafóricos, mas sendo de tomar toda a sua força normativa e apelativa, é fortemente radical ao estipular: “Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria para ele atarem-lhe ao pescoço uma dessas mós que são giradas pelos jumentos e lançarem-no ao mar”.
Do mesmo modo se deve acolher o aviso de que se a mão, o pé ou um dos olhos são ocasião de pecado, mais vale cortar, pois é perdível entrar na vida mutilado (maneta), coxo ou cego a ir inteiro para a Geena de fogo inapagável e onde o verme não morre. O mesmo se diga de qualquer elemento corporal.
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Também a fraternidade implica a não acumulação de riquezas que leva ao seu apodrecimento, como espelha a advertência aos ricos por parte de Tiago (vd Tg 5,1-6), mas à divisão (partilha) solidária e equitativa, ainda que não igualitária. A fraternidade não admite que o ouro e a prata dos ricos se enferrujem enquanto o salário que não pagaram aos trabalhadores que lhes ceifaram as searas está a clamar ao céu contra eles. Com efeito, a ferrugem do ouro e da prata, ou seja, o perfume das riquezas acumuladas ou a busca do lucro pelo lucro, à custa da exploração e espezinhamento dos outros, servirá de testemunho contra quem acumula e não sabe repartir e devorará a sua carne como o fogo.
De facto, ninguém pode servir a Deus e às riquezas ou ao dinheiro. Por isso, em nome do amor fraterno, que entronca no amor de Deus, Tiago apela ao arrependimento e à conversão:
Chorai em altos gritos por causa das desgraças que virão sobre vós” (Tg 5,1).
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E o Papa concluiu a sua alocução, pedindo a Maria, “modelo de acolhimento dócil das surpresas de Deus, que nos ajude a reconhecer os sinais da presença do Senhor no meio de nós, descobrindo-O em todo lugar em que Ele se manifestar, até mesmo nas situações mais impensáveis e incomuns”; e que “ela nos ajude a amar a nossa comunidade sem ciúmes e fechamentos, sempre abertos ao horizonte vasto da ação do Espírito Santo”.
Será a fraternidade em projeto e em ação.
2018.09.30 – Louro de Carvalho