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quinta-feira, 2 de maio de 2019

As relações entre o “Azul” e o “Cinzento”


O azul, a partir das oportunas declarações de chineses que estudaram português, passou, nesta visita de Marcelo, a metaforizar Portugal enquanto a China persiste no habitual tom cinzento. Isto, de acordo com a reportagem de Filipe Santos Costa no Expresso on line a 30 de abril.
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Antes da Visita de Estado
O Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa esteve 6 dias de visita à República Popular da China, de 26 de abril a 1 de maio. Falou das boas relações entre os dois países e das expectativas para a viagem, disse acreditar que há um novo tempo nas relações com o gigante asiático e destacou o papel de Portugal como país estratégico na ligação entre oriente e ocidente.
Embora a visita de Estado só tivesse início a 29 de abril, Marcelo esteve antes a participar na 2.ª edição do fórum “Faixa e Rota”, iniciativa chinesa de investimento em infraestruturas da Ásia à Europa (Portugal aderiu através de memorando), num painel sobre ambiente e desenvolvimento sustentável, que decorreu à porta fechada e não foi transmitido no centro de imprensa.
No quadro da iniciativa, em Pequim, no dia 27, Marcelo referenciou o “respeito efetivo pelos direitos humanos” e a “implementação do Acordo de Paris”, perante o Presidente da China, Xi Jinping, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, e vários líderes mundiais. 
De acordo com o discurso escrito, a que a Lusa teve acesso, o Chefe de Estado afirmou: 
O mais importante é combinar a ação multilateral com diálogo político, porque essa é verdadeiramente a única via para garantir um mundo melhor, em que a paz, o desenvolvimento, a justiça e o efetivo respeito pelos direitos humanos prevaleça.
Mais tarde, em declarações aos jornalistas, o próprio Chefe de Estado português destacou essa referência aos direitos humanos dizendo:
“Eu terminei a intervenção – como, aliás, o secretário-geral António Guterres, foram duas das intervenções em que me recordo que isso foi citado expressamente – dizendo que o objetivo cimeiro disso é naturalmente efetivar os direitos humanos”.
Questionado se o Presidente Xi Jinping comentou esta matéria, Marcelo respondeu: 
“Ouviu a exposição, fez o comentário falando da conversa que tínhamos tido e da cooperação entre Portugal e a China, em função do encontro que tínhamos tido em Lisboa. Portanto, não focou pontos concretos da minha intervenção.”.
No atinente às alterações climáticas, o Presidente Marcelo pediu uma “liderança forte e ambição política” ao nível global para implementar o Acordo de Paris. Defendeu que “o direito a um ambiente saudável constitui um direito fundamental” e que se deve “combinar ação multilateral com diálogo político” para preservar o planeta para as futuras gerações, frisando que Portugal “apoia totalmente a neutralidade de emissões de carbono até 2050”, pois as alterações climáticas são a questão decisiva do nosso tempo. E considerou:
Passaram-se três anos desde o Acordo de Paris que definiu um novo rumo para o esforço global no combate às alterações climáticas. Mais do que nunca, será preciso liderança forte e ambição política para implementar este acordo histórico..
O Presidente da República frisou que os governos dos países subscritores do acordo devem “elaborar quadros nacionais que permitam uma cooperação multifacetada incluindo com o setor privado, a sociedade civil e parcerias com universidades”. E observou:
“Acredito que os avanços tecnológicos – incluindo os combustíveis não-fósseis, materiais de construção sustentáveis e acumuladores com maior capacidade – em conjunto com avanços na agricultura sustentável irão reforçar os nossos esforços para limitar as alterações climáticas”.
Enaltecendo a atuação de Portugal, referiu que mais de metade da eletricidade consumida no país é gerada por fontes renováveis, “o terceiro resultado mais alto da União Europeia”. E acrescentou que “Portugal apoia totalmente os esforços do secretário-geral das Nações Unidas para consagrar a ação contra as alterações climáticas como prioridade na agenda internacional”, bem como a agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável.
(Assinado por 195 países a 12 de dezembro de 2015, na capital francesa, e em vigor a partir de 4 de novembro de 2016, o Acordo de Paris intenta limitar a subida da temperatura global pela redução das emissões de gases com efeito de estufa)
Também nesses dias que precederam a visita oficial, o Presidente português participou em encontros entre promotores da cultura e língua portuguesa na China e em encontros com empresários chineses e portugueses. Aos empresários chineses, cujo contributo reconheceu para o nosso combate à crise económica, sugeriu que doravante investissem sobretudo na nossa economia real; e aos portugueses incitou à internacionalização das empresas aproveitando as boas relações diplomáticas entre os dois países.
Ademais, cumpriu um sonho antigo, visitar a Muralha da China, e passou pela Cidade Proibida.
De visita à Grande Muralha da China o Presidente mostrou-se impressionado e falou da importância do monumento para Portugal. Num passeio de 45 minutos numa secção da Grande Muralha, a cerca de 70 quilómetros do centro de Pequim, falou várias vezes à comunicação social e repetiu a mensagem do salto qualitativo das relações luso-chinesas, de que está a haver uma “elevação do nível de colaboração política” entre os dois países, (implicando encontros anuais entre os primeiros-ministros dos dois Estados) “ao nível que existe com as principais potências europeias e com os Estados Unidos da América”.
A Cidade Proibida é hoje o “Palácio Museu” e continua a ser um lugar apaixonante e uma fonte quase inesgotável de prazer para um turista que conheça razoavelmente a história chinesa.
A sua construção, ordenada pelo Imperador Yongle, da dinastia Ming, demorou 14 anos e ficou concluída em 1420. Acredita-se que foram precisos mais de 200 mil homens para concluir a obra. A empreitada requereu uma logística complexa, porque foi necessário transportar a madeira da Província de Sichuan e a pedra de uma pedreira que ficava a cerca de 70 quilómetros de distância. De facto, a pedra foi trazida através duma habilidosa técnica, o que implicou criar um caminho artificial de gelo durante o inverno para facilitar a passagem dos trenós carregados.
Era sítio perigoso para ali se viver. Muitas festas acabavam mal (o imperador chegou a matar, numa das festas, os convidados todos); eram frequentes os incêndios; e eram comuns as execuções por traição ou desobediência e, de facto, havia muitos crimes cometidos por guardas, concubinas, eunucos (estes eram a maioria) e servos por razões de ciúme ou de honra.
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A visita de Estado repartida por Pequim, Xangai e Macau
A visita oficial do Presidente da República português começou, a 29 de abril, na emblemática Praça Tianamen, com a deposição duma coroa de flores no monumento aos heróis do povo. Seguiu-se o encontro com o Primeiro-Ministro chinês, Li Keqiang, na sua residência oficial Diaoyutai. E a manhã terminou com uma visita ao templo budista dos Lamas, um complexo do budismo tibetano do século XVII – onde dialogou abertamente sobre várias matérias (e defendeu a liberdade religiosa), nomeadamente filosóficas e místicas, com o monge que o guiou na visita.
A tarde foi reservada para a conversa mais importante, com o Presidente chinês, Xi Jinping. Marcelo foi recebido no Grande Palácio do Povo, numa cerimónia com honras militares. Após o encontro entre os dois chefes de Estado, com um período a sós e outro alargado às respetivas delegações, Xi Jinping ofereceu em sua honra um banquete oficial.
No dia 30, Marcelo prosseguiu a visita com agenda económica e cultural participando, na cidade de Xangai (a capital económica do país), num seminário económico luso-chinês, onde foram assinados acordos bilaterais; visitou a Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, que tem um dos departamentos de língua portuguesa mais antigos da China; e afirmou, na Câmara de Comércio e Indústria de Xangai, que Portugal e a China estão a viver um momento único e singular que se reflete já em novos investimentos.
E o dia 1 de maio foi dedicado à Região Administrativa Especial de Macau (RAEM).
O Chefe de Estado chegou a Macau no dia 30 de abril à noite, tendo ali passado 24 horas, mas já admitiu a hipótese de voltar no final do ano, para as celebrações do 20.º aniversário da transição da administração do território de Portugal para a China.
A Santa Casa da Misericórdia de Macau, fundada há 450 anos, foi o primeiro lugar que Marcelo visitou, pelas 10,30 horas, tendo seguido dali para as ruínas da Igreja de São Paulo, com um passeio a pé pelo centro histórico.
Depois, teve uma reunião com Fernando Chui Sai On, o chefe do executivo da RAEM, que está a terminar o seu segundo e último mandato, estando a posse do sucessor prevista para 20 de dezembro, data em que se celebram os 20 anos da transição de Macau para a China.
Sem intervalos, o Presidente partiu da sede do Governo para um encontro com a comunidade portuguesa, autoridades locais, empresários e agentes culturais, na residência do cônsul-geral em Macau e, a seguir, visitou a Escola Portuguesa de Macau e o Consulado Geral de Portugal.
O último ponto do programa, antes de regressar a Lisboa, foi um jantar em sua honra oferecido por Fernando Chui Sai On, num hotel de Macau.
Acompanharam o Presidente da República nesta visita de Estado à China os deputados Adão Silva, do PSD, Filipe Neto Brandão, do PS, Telmo Correia, do CDS-PP, pelo líder parlamentar do PCP, João Oliveira, e por Heloísa Apolónia, do Partido Ecologista “Os Verdes”.
BE e PAN optaram por não integrar a delegação parlamentar desta visita, o que justificaram com a situação de não respeito dos direitos humanos e das liberdades na China.
Pela parte do Governo, integraram a comitiva oficial os ministros dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, e o Secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias.
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Em jeito de balanço, o Presidente da República destacou no dia 1 de maio, em Macau, a assinatura do acordo que vai permitir uma representação do IPOR (Instituto Português do Oriente) em Pequim para o ensino do português na China continental. A este respeito declarou:
Acabou de ser assinado um acordo que vai permitir uma antena do Instituto Português do Oriente em Pequim para o ensino do português na China continental. Toda. E não especificamente apenas na Região Administrativa Especial de Macau.”.
Depois, vincou terem sido dados “passos muito concretos” num domínio que é estratégico e “portanto futuro” – a língua portuguesa e a educação –, mas também noutro domínio estratégico que é economia e finanças, numa altura em que Macau assinala os 20 anos de transferência de administração de Portugal para a China. E disse:
É mais importante a aposta na educação, na língua portuguesa, na cultura portuguesa, no mandarim e no seu ensino em escolas portuguesas e no intercâmbio cultural porque tem efeitos de médio e longo prazo em muitas gerações, do que os muitos importantes passos dados em matéria económica e financeira [durante esta visita]”.
Por outro lado, sublinhou que, até final do ano, 48 universidades da China estarão a ensinar português – só em Macau, há 45 escolas primárias e secundárias a ensinar português. Frisou que, em Macau, houve também “razões de superação de expectativas”, destacando-se como a mais importante o anúncio do Governo da RAEM de que vai apoiar a expansão da EPM (Escola Portuguesa de Macau), “uma pretensão de muitos anos”. E afirmou:
O Governo de Macau comunicou que tem terreno, está disponível para o lançamento da primeira pedra ainda este ano, para o arranque da elaboração do projeto e para a concretização do novo polo da Escola Portuguesa de Macau”.
Antes, o Presidente visitou o consulado-geral de Portugal em Macau e Hong Kong e o IPOR, situado no mesmo edifício. No IPOR, fundado em 19 de Setembro de 1989 pela Fundação Oriente e pelo Camões-Instituto da Cooperação e da Língua, inaugurou o Laboratório de Línguas, assistiu à assinatura do protocolo de cooperação entre a Universidade de Macau, o Camões e o IPOR e do protocolo EPLP (“Empresa Promotora da Língua Portuguesa”) entre o Camões e a SJM (Sociedade de Jogos de Macau).
O estatuto de EPLP, criado em 2017, prevê a atribuição desta classificação a qualquer empresa, mediante uma contribuição financeira destinada à promoção da língua portuguesa.
Antes da receção à comunidade portuguesa e da visita à EPM, Marcelo Rebelo de Sousa reuniu-se com o chefe do Governo de Macau. Fernando Chui Sai On realçou que a cooperação entre Macau e Portugal tem sido intensificada com a assinatura de cada vez mais acordos, mostrando-se satisfeito com os resultados no âmbito da Comissão Mista Macau-Portugal, de acordo com um comunicado adrede divulgado. E os dois responsáveis destacaram a importância do desenvolvimento do ensino da língua portuguesa em Macau, tendo Chui Sai On concordado com a sugestão adiantada pelas autoridades portuguesas sobre a expansão da EPM.
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O sentido do Azul na China segundo Filipe Santos Costa
Dizia o referido repórter que Marcelo ouviu, em Xangai, “Lisboa Menina e Moça”, explicou a importância do futebol em Portugal, foi-lhe dito qual a cor do nosso país em contraste com o cinzento que domina as cidades chinesas e pôs em prática a diplomacia dos afetos.
‘Cristiano’ (nome do português mais famoso do mundo de hoje) é também o nome de um dos vários estudantes de português na Shanghai International Studies University, uma das 47 universidades chinesas que têm cursos de língua e literatura portuguesa (no próximo ano letivo serão 48). Marcelo esteve ali a dar estímulo a professores e alunos, conhecer os jovens da licenciatura e mestrado e saber o que os levou a aprender a língua dum país tão longínquo.
Santos Costa anota, quanto ao nome que “não é uma enorme coincidência o facto do rapaz se chamar Cristiano: é comum, na China, adotar-se um nome ocidental, para facilitar o relacionamento com estrangeiros.
E Crstinao explicou a razão por que decidiu aprender esta língua: queria falar a mesma língua que o seu ídolo (Cristiano Ronaldo) fala.
Também Roberto, colega de Cristiano, se afirmou ‘fã de futebol’, de Ronaldo e da vitória portuguesa no Euro 2016 – que permitiu ao nossos futebol “ser finalmente reconhecido pelo mundo” –, perguntou ao Presidente “o significado do futebol para um país”.
Marcelo explicou que o futebol é “muito popular em Portugal porque é praticado pelo povo e é praticado pelas crianças desde pequeninas”. Lembrou que não são apenas os futebolistas que levam o nome de Portugal pelo mundo, mas também os treinadores e anotou que “Xangai é um bom exemplo da ligação entre Portugal e a China pelo futebol”, pois a principal equipa da cidade, a atual campeã chinesa, é orientada pelo português Vítor Pereira e por toda uma equipa técnica de portugueses. Depois, acabou por admitir que “o futebol é uma razão como qualquer outra para aprenderem português”.
Para além dos cursos superiores de português, com mais de 4000 alunos chineses inscritos em diversas províncias da China, foi lançado, em 2017, um projeto-piloto na cidade de Xangai – os alunos de 4 escolas secundárias e uma escola primária têm uma aula de português por semana. Conhecem a nossa língua, a história, a gastronomia, o modo de vida e a cultura. Para esses alunos, mesmo que não ousem cantá-lo, o fado não é uma sonoridade estranha. E dois alunos da universidade visitada por Marcelo cantaram o fado.
Diz o mencionado repórter que, pela amostra, ficou a saber-se que, tal como há “o pato à Pequim”, também pode haver “o fado à Xangai”, acompanhado à viola, sem guitarra portuguesa, cantado em dueto com harmonização de vozes (e não à desgarrada, como costuma ser o fado cantado a dois) e com uma pronúncia carregada de cantonês. Surgiu “Lisboa Menina e Moça” (de Carlos do Carmo) como uma espécie de fado que mostrou o empenho dos cantores e constituiu um dos momentos mais envolventes da viagem.
Desde que aterrou na China, o nosso Chefe de Estado tem insistido na importância de língua e da cultura como elos de ligação entre os dois países, sob a tese de que, na corrida global para fazer negócios com a China, Portugal tem a vantagem duma relação que dura há 500 anos, sem guerras nem conflitos, mas com “uma empatia natural”. E, num fórum de negócios bilaterais promovido pela AICEP, disse:
 Chegámos à China e ficámos. Tal como a China ficou em Portugal. Ficámos os dois no coração um do outro.”.
No âmbito da diplomacia dos afetos, Marcelo conseguiu uma mais-valia perante os alunos de português, sustentando que “falar e compreender uma língua significa compreender o que vai no coração dos outros”. Por isso, nesta rota de aproximação à China vai ser alargado o ensino de mandarim nas escolas portuguesas. E à questão lançada por Rebelo de Sousa à plateia, “Depois de aprenderem português, com que ideia ficaram de Portugal? Que palavra escolheriam para definir Portugal?”, Patrícia respondeu num português fluente: “Azul. O céu é muito azul. Impressionou-me muito o azul.
Esta professora-estagiária de português numa das escolas secundárias envolvidas no projeto-piloto não respondeu apenas com base na língua, mas também baseada na experiência de ter feito uma parte do seu estudo em Portugal. Diz o repórter que “basta ter acompanhado os primeiros 5 dias da viagem” de Marcelo à China, em Pequim e Xangai, para perceber que o azul impressione”, pois, “tirando o primeiro dia, na Grande Muralha, não voltou a haver qualquer dia de céu azul”. Com efeito, entre a névoa e a poluição, domina o cinzento”. E Patrícia acrescentou outra palavra que, para si, define Portugal: “carinho”. Por isso, o Presidente dos afetos recompensou-a com dois beijinhos um cumprimento incomum entre dois estranhos na China.
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É de saudar o incremento da relação política, cultural e económica luso-chinesa. A História o permite, o futuro o postula. Por isso e atendendo ao facto de Macau ter estado tantos séculos sob administração portuguesa (até 1999), foi um erro o corte de relações diplomáticas pelo Estado Novo, como não se entende hoje o silêncio da direita sobre a situação política da China. Na verdade, há que exigir o respeito e a promoção do exercício dos direitos humanos, travar uma provável onda de sobredomínio à boleia da cultura e da economia e não desistir da diplomacia.
2019.05.02 – Louro de Carvalho

sábado, 16 de julho de 2016

Participação Portuguesa na JMJ de 2016

Decorrerá de 26 a 31 de julho, em Cracóvia, na Polónia, a XXXI Jornada Mundial da Juventude tendo como tema a bem-aventurança evangélica Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (Mt 5,7) – sugerido pelo Papa Francisco em mensagem de 15 de agosto de 2015 e como 3.º vetor e remate do tríptico temático das últimas três JMJ. Os anteriores elementos são também formulação de bem-aventuranças registadas pelo Evangelho de São Mateus – “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu (Mt 5,3 – JMJ de 2014) e Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8 – JMJ de 2015).
Além dos jovens de todo o mundo e dos conteúdos da JMJ no contexto do Ano da Misericórdia, o Papa Francisco será uma das principais atrações da Jornada. Porém, a Organização da JMJ, que integra o Conselho Pontifício para os Leigos e a Arquidiocese de Cracóvia, estima em 2 milhões o número de peregrinos participantes na JMJ. Portugal é, até ao momento, o nono país, com mais de cinco mil peregrinos inscritos.
A organização tinha um pré-anuncio de 160 mil peregrinos e, na última semana de junho, o número de participantes registados saltou para os 360 mil. Nas celebrações e eventos com o Papa chegam a estar quatro vezes mais participantes do que os registados.
O prazo de inscrição fechara a 30 de junho, mas, atendendo aos pedidos que chegavam um pouco de toda a parte, foi alargado até 22 de julho, quase até às portas da JMJ. Este módulo de inscrição ‘Last minute’ permite a inscrição tanto de grupos até 150 pessoas como de peregrinos individuais, mas apenas inclui a possibilidade de participação nos atos centrais, em Cracóvia.
A chegada dos jovens provenientes das diversas partes do Orbe ocorrerá nos dias 25 e 26; e a cerimónia de abertura será no dia 26 com a missa concelebrada pelos bispos presentes e pela maior parte dos sacerdotes participantes. Pelos dias 26 a 29, realizar-se-á a feira das vocações, o festival da juventude e as catequeses com os bispos. No dia 28, far-se-á o acolhimento ao Santo Padre durante um encontro no Parque de Blonia, um dos maiores da Europa. Próximo deste local, está a ser montada uma “Área da Reconciliação”, com centenas de confessionários abertos aos jovens que queiram confessar-se e também uma tenda para a adoração ao Santíssimo Sacramento.
A Via Sacra terá lugar ao fim da tarde de sexta-feira, dia 29, revelando o lado penitencial da jornada, e a Cruz da JMJ será transportada em procissão pelas ruas da cidade, podendo os vários momentos de oração decorrer simultaneamente em vários pontos importantes da cidade.
A edição deste ano da JMJ termina em Brzegi, num “Campus da Misericórdia” com mais de 200 hectares e onde decorrerão a vigília e a missa conclusiva do evento, que deverá ser acompanhada por cerca de 2,5 milhões de pessoas, sendo que os jovens serão convidados a atravessar a “Porta Santa” ali instalada.
Durante a vigília, jovens de vários países vão ter oportunidade de expressar ao Papa as suas preocupações e dificuldades, desde o desemprego às dependências, passando pelas perseguições a que estão sujeitos nos dias de hoje.
O grande destaque da JMJ vai obviamente para a vigília, que decorrerá no final do dia de sábado (dia 30) e na manhã de domingo (dia 31). O Santíssimo Sacramento será exposto ao fim do dia de sábado diante do Papa e dos jovens peregrinos.
No domingo, terá lugar o último ato central, a Missa de Encerramento e envio, na qual o Papa Francisco anunciará o local da próxima Jornada Mundial da Juventude.
Após a Missa, está previsto um encontro do Papa com os voluntários que apoiaram a JMJ.
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A escolha de Cracóvia para sede da 31.ª edição da JMJ não foi por acaso. A jornada de 2016 releva a famosa devoção da Divina Misericórdia, cuja festa de origem polaca foi instituída para toda a Igreja pelo Papa João Paulo II, no ano 2000 (Provavelmente quando agendou, em 2013, a XXXI JMJ para Cracóvia, o Papa já teria em mente a celebração do Ano da Misericórdia nesta ocasião). Cracóvia, aliás, foi o local onde João Paulo II viveu boa parte da sua vida, tendo-se tornado arcebispo desta arquidiocese antes de ser eleito Papa. Atualmente, até os museus da cidade contam a história do antigo padre, antigo pastor da arquidiocese e Sumo Pontífice da Igreja Católica.
Importa referir que, entrosado com o programa da JMJ, o Papa cumprirá também um programa próprio de visita à Polónia. Este programa inclui visitas aos antigos campos de concentração nazis de Auschwitz e Birkenau, no dia 29 de julho. Durante a sua permanência no local, o Papa rezará junto ao chamado “muro da morte”, no Bloco n.º 11, e na cela de São Maximiliano Kolbe. Antes disso, depois de aterrar em solo polaco, no dia 27, Francisco vai encontrar-se com o Presidente da República da Polónia, Andrzej Duda, com membros do Governo do país e com os bispos e responsáveis pela Conferência Episcopal Polaca. Além do encontro com os representantes católicos, o Papa terá a oportunidade de rezar na Catedral de Cracóvia e no templo nacional de Wawel, onde estão as relíquias do bispo e mártir Santo Estanislau. No dia 28, o destaque vai para a missa que Francisco irá celebrar no Santuário Mariano de Czestochowa, por ocasião dos 1050 anos do Batismo da Polónia. E, no dia 30, o programa papal inclui uma visita ao Santuário da Divina Misericórdia, em Cracóvia, e ao Santuário de São João Paulo II, onde celebrará uma Missa com sacerdotes e consagrados de toda a Polónia. Estes dois santuários são igrejas jubilares, no quadro do Ano Santo da Misericórdia em curso, e a data constituirá ensejo para Francisco transpor as suas “portas santas” e convidar à prática da misericórdia e da solidariedade para com todos. 
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Como era de esperar, Portugal não podia deixar de comparecer com os seus jovens e seus mentores da JMJ – bispos, sacerdotes e leigos empenhados. Por isso, são de destacar algumas situações interessantes.
Leopoldina Reis Simões, assessora de Imprensa, é membro da Equipa Sénior Internacional de Comunicação para a JMJ 2016 e vai, nesta condição, participar na XXXI JMJ. Após o primeiro encontro do grupo de trabalho, em abril, em Roma, e da participação numa ação de formação em Cracóvia, promovida pelo Conselho das Conferências Episcopais da Europa, em maio, e do restante trabalho em equipa à distância, uma distância que novos meios e tecnologias atenuam – a participante levará consigo um cachecol de Portugal, convicta de que “será bom encontrar na Polónia o tão grande número de portugueses que se anuncia”.
Segundo informação do DNPJ (Departamento Nacional da Pastoral Juvenil), seis bispos portugueses participarão na JMJ de 2016: D. Joaquim Mendes, bispo auxiliar de Lisboa, que acompanha o DNPJ como vogal da Comissão Episcopal para o Laicado e Família; D. Manuel Felício, bispo da Guarda, D. José Manuel Cordeiro, Bispo de Bragança, e D. Virgílio Antunes, bispo de Coimbra (que “vão apresentar em cada dia um tema diferente relacionado com a misericórdia”) no jubileu dos jovens; e D. Nuno Brás, bispo auxiliar de Lisboa, e D. António Francisco dos Santos, vogais da Comissão da Educação Cristã e Doutrina da Fé, que decidiram acompanhar os portugueses.
Porém, a novidade reside na escolha de Cuca Roseta para participar na festa portuguesa da juventude em Cracóvia. Na verdade, o diretor do DNPJ revelou que a fadista Maria Isabel Rebelo do Couto Cruz Roseta vai participar na ‘LusoFesta’, o encontro dos portugueses durante a JMJ, na Polónia. Em entrevista à agência Ecclesia, o padre Eduardo Novo explica que a ‘LusoFesta’, que decorrerá no dia 27 de julho, em Cracóvia, vai contar com o testemunho e voz da fadista Cuca Roseta (é este o seu nome artístico), uma participação que “que muito privilegia e alegra” por apresentar a música como “arte de bem combinar os sons e a espiritualidade”.
E Cuca Roseta, de 34 anos, entrevistada pela mesma agência Ecclesia, cantora porque tem esse talento, afirma que “o fado é oração” e diz que a Igreja Católica é a “casa” aonde vai “buscar o sentido para tudo”, insistindo na dimensão espiritual da sua vida, desde pequena, que nunca esquece apesar da “vida fútil” do ambiente artístico. Referindo que “é importante não ter vergonha de ser católico”, aceitou como presente participar na JMJ, um encontro onde nunca conseguiu estar, apesar de muitas expectativas criadas. Vai cantar e falar aos jovens portugueses que estarão na Polónia. O DNPJ desafiou-a a estar presente na ‘LusoFesta’ e o seu fado vai ser apresentado no Krakow Congress Centre, na Polónia.
Sobre a mensagem a transmitir aos jovens, diz que “o fado é uma espécie de prece”. Assim:
“Quem é espiritual consegue encontrar poemas que lhe digam muito nesse sentido. Eu canto muitos fados, tenho até amigos padres que às vezes escrevem letras para mim, que têm este sentido mais espiritual e vou poder cantar esses fados todos. O meu fado, que é uma música extremamente emocional e sentimental, tem tudo a ver com a mensagem católica.”.
Nega que o fado se tenha modernizado, pois, do seu ponto de vista:
“O fado mantém-se o mesmo, se calhar juntou-se umas baterias e percussões que não existiam (a Amália também juntou o baixo), mas o fado acima de tudo é a palavra, é o poema. Nós escolhemos poemas que têm a ver connosco e os jovens identificam-se com as nossas histórias. Pessoas da minha idade, ou mais novos, identificam-se com uma história de amor, de tristeza, perda ou esperança. É por isso que também têm vindo tantos jovens ao fado. É uma geração de muitos fadistas novos, com letras mais modernas.”.
Quanto ao modo “como o fado pode ajudar os jovens” ou se “quem procura o sentido da vida encontra pistas no fado”, explicita a dimensão interior, espiritual e de oração do fado:
“Cada fadista passa o seu interior. E o meu sentido, toda a minha vida, tem um sentido espiritual. Quer queira, quer não, esta espiritualidade passa de uma forma muito forte. O fado é muito sentimental, muito emocional, muito intenso e, por si, toca as pessoas. Se tiver uma mensagem espiritual, esta luz, só pode ser explosiva. Pelo menos é isso que tento, ser instrumento dessa explosão de luz. Através do fado, da música, da arte, consegue-se chegar à alma. Dizem que o fado é a música da alma e é a alma que nos liga a Deus.”.
De Francisco – embora tenha gostado muito de Bento XVI (para este cantou em Lisboa, no Terreiro do Paço a 11 de maio de 2010) e de João Paulo II – sente que é fantástico, “chega realmente muito próximo das pessoas” e “tem feito muito pela Igreja Católica”.
Confessa que sem a religião a sua vida “não faz sentido”, que não se “imaginaria a viver sem ser católica, tudo o que fizesse seria vazio, não teria sentido, morreria, pois “pertencer à Igreja Católica é viver, é dar sentido à vida”. Belo testemunho por ocasião da JMJ 2016!
2016.07.16 – Louro de Carvalho