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quinta-feira, 27 de julho de 2017

O texto de Camões no exame de Português do 12.º ano, em 2017 – 2.ª fase

 96




5

Nas naus estar se deixa, vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe descobre;
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juízo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.
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20





Este rende munidas fortalezas;
Faz trédoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava às vezes as ciências,
Os juízos cegando e as consciências.
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15
A Polidoro mata o Rei Treício,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortíssimo edifício,
Com a filha de Acriso a chuva d’ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro vício
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quási afogada em pago morre.

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30
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude!

Luís de Camões, Os Lusíadas, Canto VIII, edição de A. J. da Costa Pimpão, 5.ª ed., Lisboa, MNE/IC, 2003, p. 221

O excerto corresponde às estâncias finais do Canto VIII de Os Lusíadas, e vem complementado pelas seguintes notas explicativas: 
Acriso (v. 12) – rei de Argos que, para impedir o cumprimento da profecia de que seria morto por um neto, prendeu a filha [Dánae] numa torre, porém, Júpiter introduziu-se na torre sob a forma de chuva de ouro e [engravidando-a] tornou-a mãe de Perseu, que veio a assassinar Acriso; “A Polidoro mata o Rei Treício” (v. 9) – quando a cidade de Troia estava prestes a cair em poder dos Gregos, o soberano mandou o filho, Polidoro, com uma considerável riqueza em ouro, ao “Rei Treício”, para que o protegesse, mas este apoderou-se do metal e matou o jovem; cor (v. 32) – aparência exterior; munidas (v. 17) – bem fortificadas; perjúrios (v. 27) – juramentos falsos, mentiras; Regedor (v. 4) – Catual; Tarpeia (v. 13) – jovem romana que, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos, que sitiavam Roma, lhes abriu as portas da cidade, mas os inimigos não a pouparam [ficou soterrada debaixo do ouro que exigia para se render]; trédoros (v. 18) – traidores.
As indicações entre [] não constam do enunciado.
No texto transcrito – correspondente ao conjunto dos comentários, sentenças, exclamações, lamentos e elogios do poeta (uma vertente que assume a sua importância a par das vertentes da mitologia, da historia de Portugal e da narrativa da Viagem) – o poeta – verdadeiro condutor do discurso épico – faz advertências e tece considerações sobre o vil poder do ouro, que leva à corrupção a outros hediondos crimes.
***
Contextualização
O comentário-dissertação surge quando os portugueses ainda estavam na Índia. Enquanto Vasco da Gama aguardava a resposta do Samorim aos tratados que lhe havia proposto em nome do Rei de Portugal, Paulo da Gama explicava ao Catual, que estava a bordo, as figuras representadas nas bandeiras das embarcações, contando os episódios com elas relacionados: Luso (figura mítica), Ulisses (figura histórico-lendária), Viriato, Sertório, Conde Dom Henrique, Dom Afonso Henriques, Egas Moniz, Dom Fuas Roupinho, São Teotónio, Mem Moniz, Geraldo Sem Pavor, Martim Lopes, o Bispo Dom Mateus, Dom Paio Correia, Dom Nuno Álvares Pereira, Pero Rodrigues, os Infantes Dom Pedro e Dom Henrique, Dom Pedro e Dom Duarte,
Retoma-se assim o plano da História de Portugal, em narração homodiegética, desta vez a cargo de Paulo da Gama. E, voltando ao plano da Viagem, regista-se a retirada do Catual da armada, a audiência de Vasco da Gama com o Samorim e o confronto deste com o Catual. Com efeito, depois da partida do Catual, surgiram novas dificuldades, mais uma vez maquinadas por Baco junto do ex-hóspede da armada portuguesa e do próprio Samorim. Baco aparece em sonhos a um sacerdote brâmane e instiga-o contra os visitantes estrangeiros através da informação de que vieram com o intuito de pilhagem, pelo que era forçoso aniquilar a frota dos ocidentais. É um passo do plano da Mitologia a ilustrar a realidade das intrigas contra os portugueses, tecidas pelos humanos em contexto religioso.
O Samorim interroga Vasco da Gama, que acaba por o deixar regressar às naus. Entretanto, é retido no caminho pelo Catual, que põe como condição para deixar partir os portugueses a entrega das fazendas que traziam: ouro e outros bens, nomeadamente especiarias.
É na real a segunda vez que Vasco da Gama se salva sem a ajuda de Vénus (a primeira foi com o Adamastor em que valeu a postura firme e interpelante da pergunta de Gama ao monstro: “Quem és tu? Que esse estupendo corpo, certo me tem maravilhado!”) nem de mais ninguém, mas só pelos seus próprios meios.
Camões, nas estâncias transcritas, assume uma vez mais a sua postura de condução da espinha dorsal da epopeia no quadro do entretecimento dos mencionados três planos da narrativa (Viagem, História e Mitologia) e constitui-se como a voz do ideólogo e pedagogo humanista em termos do bom senso e da ética, servindo o aviso de correção e de apelo à mudança atitudinal. É a ocasião oportuna para que o Vate teça considerações sobre o poder do ouro, que tudo e a todos corrompe, mesmo os eclesiásticos, “Até os que só a Deus omnipotente Se dedicam”.
Em termos da prova de exame, parece suficiente o enquadramento contextual fornecido para obviar às respostas às três questões colocadas aos alunos:
“Após a chegada a Calecute, os portugueses são recebidos pelo Catual; entretanto, Baco aparece em sonhos a um sacerdote, convencendo-o de que o objetivo dos portugueses era subjugar os indianos. O Catual prende Vasco da Gama e só o liberta a troco de mercadorias trazidas das naus. Finalmente, Vasco da Gama regressa a bordo, onde ‘estar se deixa, vagaroso’.”
***
Análise do texto
O texto transcrito pode dividir-se em duas partes lógicas: a 1.ª abrange a estância 96, em que o Poeta parte do exemplo concreto daquilo que sucedeu com Vasco da Gama para enunciar em tese o poder do dinheiro, que explana nas estâncias seguintes; a 2.ª parte é constituídas pelas estâncias 97 a 99, em que o Vate ilustra com exemplos mitológicos e lendários da Antiguidade a sua tese sustentada proximamente no episódio ocorrido com o Gama e, depois, com situações várias de corrupção transtemporal provocadas pelo perfume do dinheiro.
Assim, na estância 96, o Poeta dirige-se aos que têm a curiosidade de ajuizar, de julgar do bem e do mal, “juízo curioso”, advertindo-os de que devem ver o poder negativo e ilimitado que o dinheiro exerce sobre todos, sem distinção de classes ou de condição social e económica, “quanto no rico, assi como no pobre”.
É de relevar a utilização da primeira pessoa do plural ‘nós’ (a enálage de pessoa), o pronome indefinido ‘tudo’ (a modos de quantificador universal) e o verbo obrigar. Ao incluir o sujeito de enunciação na trama urdida pelo vil metal, o humanista alarga a crítica a todos, incluindo-se ele próprio no barco dos atingidos pela crítica e assumindo-a também para si. Com efeito ninguém, nem aquele que reflete sobre o problema, escapa ao poder aviltante do dinheiro. A palavra ‘tudo’ implica a não exclusão de nada do objeto desta crítica sobre o dinheiro: permitem-se todos os dislates, atropelam-se todos os valores. E o verbo obrigar mostra a situação de arrastamento a que o dinheiro leva quer voluntariamente por força da depravação quer involuntariamente por força do instinto de supremacia, poder e ganância.
- Em relação à 1.ª questão de interpretação do texto levantada na prova, “Relacione o conteúdo da estância 97 com a opinião formulada na estância anterior”, há que responder.
Não se trata de uma simples opinião, mas dum apelo ditado pela sabedoria do raciocínio e da experiência. É um apelo à reflexão ponderada e não a juízos precipitados sobre o que é bom ou mau. É certo que a curiosidade representa uma mais-valia no humanismo, mas ela tem de ser acompanhada pela ponderação e pelo discernimento. Ademais, o apelo-sentença ou advertência surge após a má experiência de Vasco da Gama na relação com os interlocutores que ele considerava estarem de boa-fé, tendo vindo a descobrir que o tal Regedor afinal era “cobiçoso”, “corrompido e pouco nobre” (caraterizado com três adjetivos). Ora, não podendo fiar-se dele, “nas naus estar se deixa, vagaroso”. Há de ser o tempo que lhe descobrirá o que deve fazer.
Assim, na resposta, devem ser abordados, pelo menos, os aspetos seguintes: a explicitação da opinião do Poeta, na estância 96 (prefiro “advertência, apelo, sentença…”) de que “a avidez de dinheiro e de ouro pode levar o ser humano a adotar atitudes condenáveis”; e a referência ao conteúdo da estância 97, “apresentação de situações/exemplos que comprovam a tese/opinião do Poeta.
Na estância 97, o Poeta evoca três situações protagonizadas por conhecidas figuras mítico-lendárias da Antiguidade que comprovam a tese sustentada por si na estância anterior, evidenciando o modo como a avidez de dinheiro e de ouro pode levar o ser humano – rico ou pobre – a assumir atitudes condenáveis, como a traição ou a deslealdade. As três situações evocadas são:
O rei Treício recebe da parte do rei de Troia uma considerável riqueza em ouro para a gerir e proteger Polidoro, o filho do rei troiano. Em vez da garantia da proteção, o rei Treício, movido pela ambição de se apoderar do tesouro, matou o jovem e ficou com tudo para si. Foi a ambição!  
Acriso, rei de Argos, para impedir o cumprimento da previsão de que seria morto por um neto, prendeu a filha Dánae numa torre, mas, Júpiter introduziu-se na torre sob a forma de chuva de ouro e engravidou-a, pelo que ela se tornou a mãe de Perseu, que veio a assassinar Acriso. Foi o medo da morte, a afronta ao destino e o capricho da sedução/violentação sexual!
E a sede do dinheiro levou Tarpeia, jovem romana, na esperança de obter anéis de ouro dos Sabinos, que sitiavam Roma, a abrir-lhes as portas da cidade. Porém, os inimigos não a pouparam e soterraram-na debaixo do ouro que ela exigia para se render. A avareza gerou a traição e a traição gerou a subjugação mortal.
Nas estrofes 98 e 99, repete-se sete vezes anaforicamente o pronome demonstrativo “este”, cujo referente é o “metal luzente e louro”, metáfora de ‘dinheiro’, para enunciar, juntamente com o desfile de antíteses (a mostrar que o dinheiro converte tudo no seu contrário), os diversos efeitos perniciosos do dinheiro, que são os seguintes: “faz render munidas fortalezas”; torna traidores e falsos os amigos (“Faz trédoros e falsos os amigos”); corrompe os mais nobres carateres (“a mais nobres faz fazer vilezas”) e as maiores purezas (“corrompe virginais purezas”); “entrega capitães aos inimigos”; deturpa o conhecimento (“deprava às vezes as ciências”) e entorpece a consciência (“os juízos cegando e as consciências”); condiciona os textos e as leis (“interpreta mais que sutilmente os textos; faz e desfaz leis”); origina as difamações (“causa os perjúrios”); favorece a tirania dos reis (“tiranos torna os reis”) e autoridades equiparadas; degrada, sob a aparência de virtude, até os sacerdotes e religiosos (“Até os que só a Deus omnipotente Se dedicam”).
Enfim, Camões ataca todos os subjugados pelo poder do dinheiro e dos demais bens materiais, nomeadamente: militares, cientistas, governos, clérigos e religiosos.
- Assim, há que dar resposta à 2.ª questão da prova, “ Releia os versos 17 a 28. Explicite três dos valores postos em causa pelo poder do “metal luzente e louro” (v. 14). Apresente, para cada um desses valores, uma transcrição pertinente.
Abordados que foram os diversos efeitos perniciosos do dinheiro, a resposta deve abordar três dos valores que o “metal luzente e louro” põe em causa, cada um deles devidamente fundamentado com uma transcrição pertinente (seguem-se no essencial as indicações dos autores da prova): a lealdade (aos amigos) ea amizade, uma vez que transforma amigos em traidores (“Faz trédoros e falsos os amigos”, v. 18); a fidelidade (à pátria), visto que são traídos os interesses da pátria (“Este rende munidas fortalezas”, v. 17, “E entrega Capitães aos inimigos, v. 20); a bondade/a dignidade, pois transforma pessoas nobres em vis (“Este a mais nobres faz fazer vilezas”, v. 19); a honra/a virtude/a castidade, já que corrompe a própria pureza (“Este corrompe virginais purezas”, v. 21); a verdade, dado que corrompe as consciências e origina enganos e intrigas (“Este deprava às vezes as ciências, / Os juízos cegando e as consciências”, (vv. 23 e 24)/ “Este causa os perjúrios entre a gente”, (v. 27); a justiça, na medida em que as leis são manipuladas de acordo com interesses pessoais (“Este interpreta mais que sutilmente / Os textos; este faz e desfaz leis”, (vv. 25 e 26); a justiça social, porque a ganância promove a tirania (“E mil vezes tiranos torna os Reis”, (v. 28). Talvez o pior seja o atropelo à sanidade do juízo e à lucidez, serenidade e responsabilidade das consciências, que devem orientar as justas decisões, bem como à equidade das leis, que devem proteger a sociedade e o homem dos inimigos do bem comum.  
Entre os versos 17 e 28, o Poeta salienta que o “metal luzente e louro” (v. 14) exerce tal poder no ser humano (“Quanto no rico, assi como no pobre” – v. 6) que o induz a agir de forma indigna e em desconformidade com os princípios que defende. Por um lado, aponta-se a fidelidade à pátria como um dos valores não respeitados, na medida em que são traídos os interesses superiores da nação, o que se constata no verso “E entrega Capitães aos inimigos” (v. 20). Por outro lado, também é corrompida a dignidade do ser humano, já que a ganância consegue transformar pessoas nobres de caráter em pessoas vis, como o comprova o verso “Este a mais nobres faz fazer vilezas” (v. 19). Por fim, observa-se que a ganância promove a tirania, pondo em causa a justiça social, o que é evidenciado em “E mil vezes tiranos torna os Reis” (v. 28).
- Os organizadores da prova trataram à parte, na 3.ª questão, os valores atingidos pelo dinheiro nos vv. 29 a 32: “Interprete o sentido dos versos 29 a 32, enquanto crítica dirigida ao clero”.
Na resposta, devem ser abordados os aspetos seguintes: crítica ao clero, classe que, devendo estar imune ao poder do dinheiro, também se deixa corromper; e constatação de que o clero esconde a sua ganância sob uma aparência de virtude. [Não sei se apenas os clérigos escondem a sua ganância sob a capa da virtude ou se é o fumo do dinheiro e valores materiais e sociais congéneres que aparecem sob a forma de virtude]. A este propósito e por analogia, recordo os versos de António Aleixo:
“Pra a mentira ser segura / E atingir profundidade / Tem que trazer à mistura / Qualquer coisa de verdade”.
Nos versos referidos, o poeta estende a crítica ao clero, classe social que, em princípio, estaria imune ao poder de sedução do dinheiro – “este encantador” (v. 31); todavia, o que se verifica é que, frequentemente – “mil vezes ouvireis” (v. 30) –, [o encantador e virtuoso] “metal luzente e louro” (v. 14) não só corrompe o clero como o leva a agir com hipocrisia, escondendo a ganância sob uma aparência (“cor”) de virtude (v. 32).
Concluindo
A crítica do épico dirige-se à cobiça provocada pelos bens materiais, simbolizados metaforicamente no ouro ou no dinheiro, que leva muitas altas ou muito santas figuras (ou tidas como tais) a inesperadas atitudes iníquas. E este drama não é exclusivo o século XVI. É tão intemporal e transtemporal que se verificou na Antiguidade e campeia nos dias de hoje num feroz capitalismo livre ou de Estado, às escâncaras ou sem rosto, marcado pela ambição do ouro, do prestígio ou do poder, levando tudo por diante qual potente e deletério DC 6. É a tirania letal do poder financeiro a condicionar o poder político e a negar a ergoeconomia, a ecologia e a economia ecológica.
Estejamos atentos!

2017.07.26 – Louro de Carvalho

domingo, 14 de agosto de 2016

A Batalha de Aljubarrota – 1385

Passa hoje, dia 14 de agosto, o 631.º aniversário da Batalha de Aljubarrota, batalha que marca o auge e momento decisivo da crise política de 1383-1385 e da concomitante guerra luso-castelhana. Num tempo de depressão coletiva, talvez seja oportuno recordar o feito épico.
Depois de levantar o cerco de Lisboa, D. João I de Castela voltou a reunir tropas para tentar de novo a conquista de Portugal, a fim de fazer valer o direito, por morte de D. Fernando, de sua esposa D. Beatriz à coroa portuguesa nos termos do tratado de Salvaterra. E, a 13 de agosto os Castelhanos chegavam a Leiria, tentando adiar o encontro com as tropas de D. João I de Portugal para o dia 14.
Nuno Álvares Pereira, vendo a superioridade numérica do inimigo, inverteu rapidamente as suas frentes de batalha, posicionando-as na estrada de Leiria-Lisboa. E as tropas portuguesas, embora com pior equipamento militar, derrotaram os Castelhanos mercê da qualidade do comando e das táticas indicadas pelo Condestável. Durante três dias se manteve a hoste lusa no campo de Aljubarrota, em sinal de vitória, em conformidade com o espírito cavaleiresco do tempo.
***
De facto, D. João I, mestre de Avis, recém-aclamado Rei de Portugal nas Cortes de Coimbra (março de 1385), tentava em julho conquistar Torres Novas e Alenquer, enquanto os Castelhanos, atravessada a fronteira da Beira, se dirigiam para Coimbra, que não tentaram tomar, prosseguindo para Lisboa.
Reunidas em Abrantes, as tropas o rei português e as do seu Condestável Nuno Álvares Pereira, decidiram, depois da hesitação de alguns, intercetar os invasores, avançando até Tomar e Porto de Mós, ao mesmo tempo que os Castelhanos chegavam a Leiria. E, a 13 de agosto, os portugueses viram surgir das bandas de Leiria as avançadas castelhanas.
Como o sol já declinava e as suas tropas vinham cansadas, o rei de Castela, doente e numas andas, adiara o ataque para o dia subsequente. E, a 14, vendo o acanhado do seu acampamento, o comandante castelhano – cujos homens todo o dia 13 se haviam mantido formados à torreira do sol e sem comer – determinou fazer desfilar as suas incontáveis tropas pelo flanco esquerdo da posição, para evitar subir a colina íngreme e no duplo intuito de cortar de Lisboa os portugueses e paralisá-los de terror. Esta orgulhosa parada durou meio dia e assombrou a bisonha peonagem dos concelhos, mal armada, mal defendida em suas armaduras de ferro. Porém, o Condestável via a manobra castelhana e, sem se abalar, inverteu de súbito as suas frentes de batalha “de como as tinha ordenado com as costas para Leiria e as tornou contra onde estavam seus inimigos”, posicionando-as na estrada de Leiria-Lisboa, por Alcobaça, entre dois ribeiros a sul da Cavalaria.
Segundo os melhores cálculos, o Condestável dispunha de 1700 lanças, 800 besteiros e 4000 peões, ao todo 6500 homens, fortemente concentrados na sua posição, admiravelmente guarnecida. Por seu turno, os castelhanos traziam 5000 lanças, entre as quais muitos cavaleiros gascões e franceses, 2000 cavalos, 8000 besteiros e 15000 peões, num total de 30000 homens, com 700 carroças, milhares de animais carregando mantimentos e munições, 8000 cabeças de gado e muitos pajens e outra gente de serventia. Tão extenso e desordenado era o comboio castelhano que ainda a cauda da coluna vinha a léguas de distância quando a cavalaria da vanguarda se defrontou com os Portugueses.
Entretanto, o Condestável dispôs as suas forças em três alas, com uma forte reserva à retaguarda.
A vanguarda, de 600 lanças, alinhava-se com a frente para o sul, em torno do pendão do Condestável, a meio da charneca, terreno pouco acidentado, igualmente vantajoso para ambas as partes. A ala esquerda era a célebre ala dos namorados, comandada por Mem Rodrigues e Rui Mendes de Vasconcelos, 200 lanças de cavaleiros todos moços valorosos. Na ala direita, comandada por António Vasques, formavam 200 homens de armas, entre os quais os famosos arqueiros ingleses assoldados em Londres. As 700 lanças de reserva à retaguarda, comandadas pelo Rei, mantinham-se em ligação interior com a vanguarda por uma dupla manga de peões e de besteiros. Por todo o campo ondulavam os balsões e insígnias dos cavaleiros, a bandeira verde da ala dos namorados, o pendão real das quinas e castelos, o estandarte branco e piedoso do Condestável. O curral do parque, com os pajens, cavalos, armaduras e toda a bagagem da hoste, ficara estabelecido à retaguarda da reserva, bem guarnecida também por besteiros e homens de pé, que não só defendiam a carriagem, como apoiavam os flancos da reserva contra eventuais surpresas.
Já o sol baixava a poente, quando as trombetas de Castela soaram na tarde cálida:
Deu sinal a trombeta Castelhana,
Horrendo, fero, ingente e temeroso;
Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
Atrás tornou as ondas de medroso.
Ouviu[-o] o Douro e a terra Transtagana;
Correu ao mar o Tejo duvidoso;
E as mães, que o som terríbil escuitaram,
Aos peitos os filhinhos apertaram. (Os Lusíadas, IV,28)

Camões descreve a batalha em tom hiperbólico, quer nas referências ao número e valor dos inimigos, quer nos pormenores dos preparativos e nas alusões aos lances de valentia.
O som da trombeta inimiga é qualificado, em gradação crescente, de “Horrendo, fero, ingente e temeroso”, que até atemoriza os elementos da natureza e, como é óbvio, as mães e os filhinhos que ouviram o famigerado sinal sonoro.                                              
A batalha começou pelo estrondear das catapultas, que nos portugueses causou espanto. Mas, a artilharia tosca, de pedra, rebentou aos primeiros tiros, matando alguns dos próprios artilheiros.
Refeita da primeira hesitação, a vanguarda do Condestável pôs-se em marcha, vagarosamente, consoante as instruções recebidas. Entretanto, nos seus cavalos de guerra, a extensa frente de batalha castelhana avançava bastante desordenada, apoiada pelo tiroteio dos besteiros, ameaçando envolver a escassa frente portuguesa. Porém, os cavaleiros castelhanos, com surpresa por verem os portugueses apeados, começaram a encurtar as suas lanças para as tornar mais manejáveis – o que lhes deteve o ímpeto e fez oscilar toda a linha, reduzindo-lhes a frente e deixando para trás os extremos, que se misturaram aos cavaleiros da retaguarda.
Assim se formou, em massa profunda, uma espécie de cunha, cujo choque foi tão violento, que toda a vanguarda portuguesa vacilou, rompeu ao centro, e, fletindo em ambos os lados, deixou penetrar pela brecha no seu campo quase toda a cavalaria da vanguarda inimiga.
Camões dá-nos a impressão de que transcreve o relato de quem presenciou o espetáculo, dado o realismo descritivo e teor visualizante e auditivo, marcado pelo ritmo martelado do tropel dos cavalos, em que avultam as consoantes oclusivas (p, t, c, b, d, g), as aliterações associadas a esse ritmo martelado e sugerindo onomatopaicamente os tiros e silvos das setas com a sucessão de consoantes sibilantes, dentais e nasais. A estrofe seguinte, a terminar com um subtil jogo de palavras (pouca e apouca), constituí um belo exemplo deste ambiente bélico:
Já pelo espesso ar os estridentes
Farpões, setas e vários tiros voam;
Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam.
Espedaçam-se as lanças, e as frequentes
Quedas co’ as duras armas tudo atroam.
Recrescem os imigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca. (Os Lusíadas, IV,31)

Desligadas, perplexas, à espera de ordens, as duas alas de Castela não se moveram para reforçar o ataque. Ao invés, na frente portuguesa, com admirável coesão, as duas linhas quebradas tornaram-se a fechar sobre si mesmas, reconstituindo a face do quadrado e cortando a frente da retaguarda inimiga; e, enquanto da ala direita lusa os arqueiros ingleses tranquilamente flechavam os cavaleiros castelhanos entrados no campo dos portugueses, a ala dos namorados acometia-os do seu lado com brava fúria. Imediatamente el-rei D. João de Portugal, avançando com a sua reserva de 700 lanças, acaba por esmagá-los entre a sua massa e a ala dos namorados.
Mais perplexas, pela unidade do ataque e pela incompreensão do que se passava, a retaguarda e uma das alas castelhanas recuaram intempestivamente, emaranhando-se nas próprias bagagens e produzindo maior confusão e um pânico súbito, que alastrou logo por todo o campo. O próprio rei castelhano, o primeiro a dar o exemplo, fugiu com a sua escolta para Santarém que ainda se lhe mantinha fiel. Os portugueses, redobrando de energia, precipitaram o espantoso desbarato de tão orgulhosa e poderosa hoste.
E apenas o Mestre de Alcântara fez ainda um desesperado esforço para evitar a vergonhosa derrota. Com a sua cavalaria fez um largo rodeio pela direita para atacar, à retaguarda, a peonagem do rei D. João I, de Portugal; mas, a essa altura, já o Condestável, vitorioso, pôde acorrer com a sua cavalaria aos seus peões e animá-los a repelir o tardio ataque. 
Falhado este derradeiro golpe, tornaram-se indescritíveis o terror e o desbarato dos castelhanos. À exceção do corpo de cavalaria, que retirou logo para Santarém, o resto, mesmo as duas alas que podiam ter coberto a retirada, abalaram em fuga desordenada por todo o campo. Fizeram-se milhares de prisioneiros, tomou-se toda a bagagem, o despojo foi magnífico. E tudo se resolveu em pouco mais de meia hora.
Chegado alta noite a Santarém, nem ali se sentiu seguro D. João de Castela, pelo que foi rio abaixo até Lisboa, onde embarcou numa galé da frota para Sevilha. E a hoste portuguesa manteve-se, durante três dias, no campo de Aljubarrota, em sinal de vitória, segundo o espírito cavaleiresco da época.
A estrondosa derrota desmoralizou irreversivelmente o inimigo – D. João I de Castela decretou luto por dois anos – e ainda os que resistiam em cidades portuguesas, a ponto de, a partir daquele momento, as operações militares se reduzirem quase só às zonas de fronteira. Por outro lado, o ambiente de contradições que ainda reinava no país levou os partidários de D. João I a acentuarem vivamente o triunfo e a considerá-lo um sinal de proteção divina, fazendo do acontecimento motivo de propaganda.
De facto, a descrição da batalha por Fernão Lopes e a construção do Mosteiro da Batalha, ou melhor, de Santa Maria da Vitória, mostram bem o aproveitamento ideológico que dele se fez.
Veja-se, por exemplo, o que refere Fernão Lopes sobre a Batalha na sua Crónica de D. João I.
O cronista descreve a façanha duma forma bem mais espontânea (e quase infantil) que Luís de Camões e numa ótica marcadamente providencialista:
“E sendo a batalha cada vez maior e muito ferida de ambas as partes, aprouve a Deus que a bandeira de Castela fosse derribada e com ela o pendão da divisa, e alguns dos Castelhanos começaram a voltar atrás. Os moços portugueses que tinham as bestas começaram a bradar em altas vozes: Já fogem! Já fogem! E os Castelhanos, para não fazerem deles mentirosos, começaram a fugir cada vez mais.”
***
Foi tal o caráter providencial e mítico da Batalha que lhe ficou agregada a lenda da “Padeira de Aljubarrota”. Segundo a lenda, Brites de Almeida, com a sua pá de padeira, teria morto sete castelhanos que encontrara escondidos no seu forno.
A padeira teria nascido em Faro, em 1350, de pais pobres e de condição humilde, donos de uma pequena taberna. Desde pequena, se revelou uma mulher corpulenta, ossuda e feia, de nariz adunco, boca muito rasgada e cabelos crespos. Estaria talhada para ser uma mulher destemida, valente e, de certo modo, desordeira. Teria 6 dedos nas mãos, o que teria alegrado os pais, pois julgaram ter em casa uma futura mulher muito trabalhadora. Contudo, isso não teria sucedido, sendo que Brites teria amargurado a vida dos progenitores, que faleceriam precocemente. Aos 26 anos, ela já estaria órfã, facto que se diz não a ter afligido muito.
Vendeu os parcos haveres que possuía, resolvendo levar uma vida errante, negociando de feira em feira. Muitas são as aventuras que supostamente viveu, desde a morte de um pretendente no fio da sua própria espada até à fuga para Espanha a bordo de um batel assaltado por piratas argelinos que a venderam como escrava a um poderoso senhor da Mauritânia.
Acabaria, entre uma lendária vida pouco virtuosa e confusa, por se fixar em Aljubarrota, onde se tornaria dona duma padaria e tomaria um rumo mais honesto de vida, casando com um lavrador do local. Encontrar-se-ia nesta vila quando se deu a batalha entre portugueses e castelhanos. Derrotados os castelhanos, 7 deles fugiram do campo da batalha para se albergarem nas redondezas. Encontraram abrigo na casa de Brites, que estava vazia porque a dona teria saído para ajudar nas escaramuças que ocorriam.
Quando Brites voltou, tendo encontrado a porta fechada, logo desconfiou da presença de inimigos e entrou alvoroçada à procura de castelhanos. Teria encontrado os 7 escondidos dentro do seu forno. Intimou-os a sair e a renderem-se. Porém, vendo que eles não respondiam, pois fingiam dormir ou não entender, bateu-lhes com a sua pá e matou-os. Diz-se também que, depois do sucedido, Brites teria reunido um grupo de mulheres e constituído uma espécie de milícia que perseguia os inimigos, matando sem dó nem piedade.
Apesar de mera lenda, é inegável que a história da padeira se tornou célebre e Brites foi transformada numa personagem portuguesa, uma heroína celebrada pelo povo nas suas canções e histórias tradicionais. Talvez o poeta de Mensagem tenha razão, quando vaticina:

O mito é o nada que é tudo.
 O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo —
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

2016.08.14 – Louro de Carvalho