Mostrar mensagens com a etiqueta Enviado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Enviado. Mostrar todas as mensagens

domingo, 13 de janeiro de 2019

Pelo nosso Batismo, tornamo-nos todos discípulos missionários


Com a Festa do Batismo do Senhor, abre-se em grande, a porta do Tempo Comum, em pleno Ano Missionário (e rumo a outubro de 2019, o mês missionário extraordinário). Jesus não Se manifesta de modo aparatoso e extraordinário. Antes Se manifestou extremamente humilde no Presépio; passou despercebido na família de Nazaré 30 anos; continua igual a Si mesmo, escondido entre o povo, entre a fila dos pecadores; desce às águas do Jordão e deixa-Se batizar por João; e inicia a Sua vida pública. E nós recordamos que, por via do Batismo, nos tornámos todos discípulos missionários no alinhamento com o mote para o Ano Pastoral em curso na diocese do Porto. 
A liturgia desta dominga de festa, que funciona como o domingo I do Tempo Comum, tem como pano de fundo o projeto salvador de Deus. No Batismo de Jesus nas margens do Jordão, o Pai revela-nos com gosto o Seu Filho muito amado, que enviou ao mundo a salvar e libertar os homens e que ungiu como Messias, com o Espírito Santo. E, cumprindo a vontade do Pai, Jesus fez-Se um de nós, partilhou a nossa fragilidade e humanidade, libertou-nos do egoísmo e do pecado e empenhou-Se em promover-nos para chegarmos à vida plena. Se, no presépio, surgiu como criança deitada em palhinhas, no Jordão apresenta-Se ao Batista como um simples penitente. E, quando o Batista se inibe, porque devia ser o Mestre a batizar o precursor, “Jesus respondeu-lhe: ‘Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça’.” (Mt 3,15). 
***
Na 1.ª leitura (Is 42,1-4.6-7), num trecho pertencente ao Livro da Consolação ou Deuteroisaías (cf Is 40-55) anuncia-se um Servo, eleito por Deus e enviado a instaurar o mundo de justiça e de paz sem fim. Animado pelo Espírito de Deus, concretizará a missão com humildade e simplicidade, sem recurso ao poder, imposição ou prepotência, pois esses não são os critérios de Deus.
As duas partes em que se divide esta passagem de Isaías afirmam – como dois movimentos concêntricos e centrípetos, que partem do mesmo sítio e terminam de modo similar – a eleição do “Servo” e a sua missão.
Na primeira parte (vv 1-4) desenvolvendo-se mais o aspecto da vocação ou chamamento, afirma-se que o Servo é um eleito (behir) de Deus, alguém que Deus escolheu (bahar), entre muitos, para uma missão especial e universal. A ordenação ou configuração do Servo para a missão faz-se através do dom do Espírito (ruah), que lhe dá o alento de Jahwéh e a capacidade para levar a cabo a missão: é o mesmo Espírito que Deus derrama sobre os chefes carismáticos do Povo. Com esse Espírito, o “Servo” levará, sem desânimo, mas com ousadia e coragem, “a justiça (mishpat) a todas as nações”, que será a base duma ordem social consonante com o projeto de Deus e cuja instauração não se dará com o recurso à força, violência, espetáculo, mas através da bondade, mansidão, misericórdia e simplicidade – definidas pela lógica de Deus (cf Mt 5,3-11).
Já na segunda parte (vv 6-7), embora comece por afirmar-se que o Servo foi chamado por Deus, sobressai mais a missão: a instauração da justiça, ou seja, o estabelecimento de uma reta ordem social. Assim, Deus convida o Servo a ser “a luz das nações”, abrindo os olhos aos cegos, tirando do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas – uma missão de libertação e de salvação (cf Is 61,1-3; Lc 4,17-19).
Fica, enfim, claro que o Servo é um instrumento pelo qual Deus age no mundo para levar a salvação aos homens. Escolhido entre muitos para a missão de trazer a justiça e propor a todas as nações uma nova ordem social de que desaparecerão as trevas alienantes e impeditivas de caminhar e de oferecer a todos a liberdade e a paz. Por outro lado, fica evidente que Deus está na origem da missão do Servo e no acompanhamento da sua concretização, a garantir-lhe o pleno êxito.
***
O Evangelho (Lc 3,15-16.21-22) mostra a concretização, em Jesus, da promessa profética de Isaías veiculada pela 1.ª leitura. Porém, Jesus mais que o Servo é o Filho de Deus enviado pelo Pai. Sobre Ele repousa o Espírito para que realize a missão de libertação dos homens. Obediente ao Pai tornou-se uma pessoa humana, identificou-Se com as nossas fragilidades, caminhou ao nosso lado, com vista a levar-nos à reconciliação com Deus, que nos dará a vida em plenitude.
O Batismo de João, um batismo de penitência, não é o Batismo que Jesus instituiu, o da nova economia da Aliança, o que abre o caminho da salvação e da comunhão com Deus:
Eu batizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu (…). Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo.” (Lc 3,16).
Todavia, é importante por revelar a teofania da filiação divina de Jesus e da missão messiânica:
Todo o povo tinha sido batizado; tendo Jesus sido batizado também, e estando em oração, o Céu rasgou-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado’.” (Lc 3,21-22).
Fica evidente que o contexto da sagração de Jesus para a missão é a assimilação ao povo, aos irmãos e a oração. Depois, ao invés do fechamento céu para os judeus, que tolhia a comunicação de Deus com os homens (não enviava profetas, estavam sujeitos ao jugo romano: parecia que Deus os tinha abandonado), agora o Céu rasga-se: o Espírito Santo desce em forma corpórea e o Pai fala. E diz de e a Jesus: Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado’. Que mais queremos para a teofania divina em Jesus e para a sua missão? A sua unção messiânica não é comum: não é unção com o óleo humano, mas unção radical e totalmente divina.
Em efervescência messiânica, a figura e a atividade de João Batista na Palestina criam a suspeita do seu messianismo. Mas João rejeita categoricamente tal suspeita. Ele não é o Messias; a sua missão, mesmo como ministrador do batismo de penitência e de purificação, é a de preparar o Povo para o tempo novo que vai começar com a chegada do Messias, que João define como “aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno desatar as correias das sandálias”. “Desatar as correias das sandálias” era tarefa de escravo, pelo que a tradição rabínica proibia o discípulo de desatar as correias das sandálias do mestre. Assim, João confessa-se o “escravo” cuja missão é estar ao serviço do Messias que está a chegar e que “batizará com o Espírito e com o fogo”. O batismo no Espírito Santo e a fortaleza são prerrogativas que enformam o Messias que Israel esperava. Por isso, o testemunho de João não oferece dúvidas: chegou o tempo do Messias. Na ótica lucana, esta predição joânica concretizar-se-á no dia de Pentecostes: Do fogo do Messias derramado sobre os discípulos reunidos no cenáculo nascerá um Povo novo e livre, a comunidade da nova Aliança.
O cenário do batismo identificará claramente o Messias anunciado por João com o próprio Jesus (vv 21-22). O Espírito Santo, que desce sobre Jesus “como uma pomba”, remete para a figura do Servo descrito por Isaías, já referido. E a voz celeste apresenta Jesus como o Filho muito amado de Deus (v 22), cuja missão será, como a do Servo: “abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas” (Is 42,7). E, para concretizar essa missão, Ele batizará no Espírito e inserirá os homens numa dinâmica de vida nova – a vida no Espírito.
No “baptismo” de Jesus, o testemunho de Deus acerca de Jesus é acompanhado por três factos estranhos que, no entanto, devem ser entendidos em referência a factos e símbolos do Antigo Testamento: abertura do céu, que significa a sua união com a terra – imagem inspirada em Is 63,19 (Quem dera que rasgasses os céus e descesses, derretendo os montes com a tua presença), onde o profeta pede a Deus que abra os céus e desça ao encontro do seu Povo, refazendo a relação que o pecado interrompeu (Assim, Lucas anuncia que a atividade de Jesus vai reconciliar o céu e a terra, vai refazer a comunhão entre Deus e os homens); símbolo da pomba, que, podendo ser uma alusão à pomba que Noé libertou e que retornou à arca, com maior probabilidade evocará a pomba que, em certas tradições judaicas, é símbolo do Espírito de Deus que, no início, pairava sobre as águas e agora significará a nova criação que se realizará a partir da atividade que Jesus vai iniciar e que fará aparecer um Homem Novo animado pelo Espírito de Deus; e a voz do céu – forma muito usada pelos rabis para expressar a opinião de Deus acerca duma pessoa ou dum acontecimento –, que declara que Jesus é o Filho de Deus.
Jesus não precisava dum batismo cujo significado estava ligado à penitência, ao perdão dos pecados e à mudança de vida. Contudo, ao receber este batismo de penitência e de perdão dos pecados, Jesus solidarizou-Se com o homem limitado e pecador, assumiu a sua condição, colocou-Se ao lado dos homens para os ajudar a sair desta situação e para percorrer com eles o caminho da libertação rumo à vida plena.
O Batismo de Jesus revela, portanto, que Jesus é o Filho de Deus, que o Pai O envia ao mundo a cumprir um projeto de libertação em prol dos homens. E, como Filho, Jesus obedece ao Pai e concretiza o Seu desígnio salvador: vindo ao encontro dos homens, solidariza-Se com eles, assume as suas fragilidades, caminha com eles, refaz a comunhão entre Deus e os homens que o pecado interrompeu e conduz os homens ao encontro da vida em plenitude. Daqui resultará, pois, uma nova criação, uma nova humanidade.
Por fim, é de reconhecer que Jesus, a partir do Seu Batismo na água, deu um novo sentido ao Batismo: veio o Espírito, que O levará ao deserto, à criação do colégio apostólico, à cruz e nos dará o Pentecostes. E, tal como Jesus, após o batismo, ficou mandatado para a missão, também nós, pelo batismo que recebemos em nome de Cristo, ficamos matriculados como discípulos na escola do mestre com vista à missão que nos entregou aquando da Sua ascensão aos Céus:
E disse-lhes: ‘Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto’. Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu.” (Lc 24,46-51).
 Somos, pois, discípulos missionários a partir do Batismo, com a nossa incorporação em Cristo.
***
A 2.ª leitura (At 10, 34-38) leva-nos a uma leitura pascal e missionária do Batismo de Jesus. à luz da qual também nós somos seres pascais, porque revestidos da luz de Cristo, e missionários porque testemunhas suas e seus mandatados para ir por todo o mundo proclamar o Evangelho a toda a criatura (cf Mc 16,15).
Pedro diz que, depois do batismo de João, Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, que “passou pelo mundo fazendo o bem” e libertando todos os que eram oprimidos. Entretanto, mataram-No, suspendendo-O de um madeiro. Mas Deus ressuscitou-O, ao terceiro dia, e permitiu-Lhe manifestar-Se às testemunhas anteriormente designadas por Deus, “a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos”. E mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído, por Deus, juiz dos vivos e dos mortos (cf At 10,37-42). Tem, assim, tudo origem no Batismo do Jordão na perspetiva petrina. Com efeito, enquanto os evangelhos sinóticos, após o Batismo O remetem para o deserto, conduzido pelo Espírito para ser tentado e depois se afirmar como o Ungido de Deus e pregar a proximidade do Reino, o 4.º Evangelho apresenta-O, a seguir ao batismo, como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e a recrutar e selecionar os discípulos para o colégio apostólico e para a missão. Pedro assim reafirma que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou ao mundo para concretizar um projeto de salvação e que é este o testemunho que os discípulos devem dar, para que a salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da terra.
O livro dos Atos contém, em modo narrativo e, por vezes, oratório, uma abundante catequese, na etapa inicial da Igreja, sobre a forma como os discípulos, após a partida de Jesus deste mundo, assumiram e continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram a todos os homens.
O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf At 1-12), apresenta-se a difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; e, na segunda (cf At 13-28) apresenta-se a expansão do Evangelho fora da Palestina (até Roma), sobretudo por ação de Paulo.
O trecho assumido nesta liturgia inere-se na primeira parte, numa perícopa que descreve a atividade missionária de Pedro na planície do Sharon, planície junto da orla mediterrânica palestina. O texto expõe o testemunho de Pedro em Cesareia. Assim, convocado pelo Espírito (cf At 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a família (cf At 10,23b-48).
A relevância do episódio reside no facto de Cornélio ser o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze, o que significa que se destina a todos os homens, sem exceção, a vida nova que nasce de Jesus.
No seu discurso, Pedro reconhece que a oferta da salvação é universal, ou seja, destina-se a todas e a cada uma das pessoas, sem distinção de qualquer tipo (vv 34-36). Israel foi, na verdade, o primeiro recetor da Palavra de Deus, mas Cristo veio trazer a boa nova a todos os homens. E agora, por intermédio das testemunhas de Jesus, essa proposta de salvação chega “a qualquer nação que o teme e põe em prática a justiça”. Ou seja, todo o homem e mulher, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, que aceita a proposta e adere a Jesus, beneficiam da salvação, porque “Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, é-lhe agradável (cf 34-35).
E definidos os contornos universais da proposta salvadora de Deus, Pedro apresenta um resumo da fé primitiva (vv 37-38), que põe em ato a missão fundamental dos discípulos: anunciar Jesus e testemunhar essa salvação que deve chegar a todos os homens. O trecho de hoje contém apenas a parte inicial do “kérigma” primitivo e resume a atividade de Jesus que “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele” (v 38). No entanto, o anúncio de Pedro continua com a catequese sobre a morte (v 39), sobre a ressurreição (v 40) de Jesus e sobre a dimensão salvífica da Sua vida (v 43).
***
Partindo do Batismo no Jordão, em que o Pai e o Espírito revelam a filiação divina de Jesus e o ungem como Messias, fazendo a caminhada no colégio discipular e apostólico até à cruz, onde Jesus sofreu na carne o Batismo do sangue e do fogo, e ao túmulo vazio, em que se perspetiva a vitória, e apoiando-nos no episódio da Última Ceia, encontramos o segredo do mistério de Jesus Cristo, a relevância do nosso ser de cristãos e filhos de Deus e o imperativo da nossa missão.
2019.01.13 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Do precursor ao apóstolo


A solenidade do Nascimento de São João Batista dá azo a reflexão na linha do enunciado vertido em epígrafe. Com efeito, no hino de Vésperas, dirigindo-nos ao Santo, rezamos:
Um mensageiro vindo das alturas / Vosso nome bendito anunciou, / Profetizando o vosso ministério / Precursor”.
O Evangelho da Missa da Vigília (repare-se que esta é das poucas solenidades com textos próprios para a Missa da Vigília – as outras são: a do Natal, a da Páscoa, a do Pentecostes, a de São Pedro e São Paulo e a da Assunção de Nossa Senhora), tomado de Lucas, no atinente ao anúncio do nascimento de João (Lc 1,5-17), refere que o anjo Gabriel apareceu ao sacerdote Zacarias já de avançada idade, que oficiava no Templo, a predizer-lhe que Isabel, sua esposa, estéril e de idade avançada (eram um casal justo e cumpridor irrepreensível  de todos os mandamentos e leis do Senhor) iria conceber e dar à luz um filho, ao qual ele poria o nome de João. E, ante a estupefação de Zacarias, o mensageiro marcou detalhadamente a missão de João como precursor, o que vai à frente:
Será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor”. 
E o Evangelho da Missa do Dia, também de Lucas (Lc 1,57-66.80) mostra Zacarias aquando da circuncisão do menino (8 dias de pois do seu nascimento) a colocar por escrito (pois tinha emudecido) a ordem do anjo “João é o seu nome”, tal como Isabel tinha dito aos circunstantes. Depois, abriu-se-lhe a boca e soltou-se-lhe a língua; e, começando a falar, bendisse a Deus, com a admiração de todos, que se encheram de temor e levaram  a que por toda a região montanhosa da Judeia se tenham divulgado estes factos. 
Por outro lado, o cântico do “Benedictus”, proferido por Zacarias na mesma ocasião, se bem revela que este nascimento significa a visita misericordiosa de Deus ao seu povo e a redenção do mesmo povo pela mão dum salvador poderoso que aí vem e que nos fará viver em santidade e justiça todos os dias da nossa vida na presença do Senhor, também precisa que João não é o Salvador, mas o menino que será chamado profeta do Altíssimo porque irá à frente do Senhor a preparar os seus caminhos e a dar a conhecer ao povo a salvação pela remissão dos pecados.
Assim e por isso, o precursor “será grande aos olhos do Senhor e cheio do Espírito Santo desde o seio materno” e “muitos se alegrarão com o seu nascimento” (Lc 1,15.14), pois foi enviado por Deus para dar testemunho da luz e preparar o povo para a vinda do Senhor (cf Jo 1,6-7; Lc 1,17).
Na sua estrita e importante missão de precursor, João advertiu: Eu não sou o Messias” (Jo 1,20). E declarou: Eu sou a voz de quem grita no deserto:Retificai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías” (Jo 1,23; cf Mt 3,3; Mc 1,2-3). E Lucas refere ainda os resultados esperados:
Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.” (Lc 3,5-6).
Assim, João justificou:
Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. É aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias.” (Jo 1,26).
Ou de outro modo, enfatizando a conversão e referindo o poder judicativo do Messias:
Eu batizo-vos com água, para vos mover à conversão; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de lhe descalçar as sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na sua mão a pá de joeirar; limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo inextinguível.” (Mt 3,11-12; cf Mc 1,7-8; Lc 3,16-17).
No dia seguinte, coube-lhe fazer a apresentação presencial de Jesus. Vendo que Ele se dirigia ao seu encontro, exclamou, frisando o dado nuclear da messianidade, o resgate pascal do pecado:
Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim vem um homem que me passou à frente, porque existia antes de mim’.” (Jo 1,29-30).
Mais, depois do Batismo que João ministrou a Jesus, também Lhe cedeu alguns dos seus discípulos com vista à realização da messianidade, pois, como refere o evangelista,
No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus!’. Ouvindo-o falar assim, os dois discípulos seguiram Jesus, o qual se voltou e, notando que o seguiam, perguntou-lhes o pretendiam. Eles disseram: ‘Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?’. Ele respondeu-lhes: ‘Vinde e vereis’. Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia.” (Jo 1,35-39).
Mais tarde, surge um novo testemunho do Batista sobre Jesus. Tendo Jesus ido com os seus discípulos para a região da Judeia, onde convivia com eles e batizava, e, estando João a batizar em Enon, perto de Salim, vinha gente ter com um e com outro para ser batizada, em razão da abundância da água. Levantou-se, então, uma discussão entre os discípulos de João e um judeu acerca dos ritos de purificação. Foram, pois ter com João a dizer-lhe ciosamente: ‘Aquele que estava contigo na margem de além-Jordão e de quem deste testemunho está a batizar e toda a gente vai ter com Ele’ (cf Jo 3,22-23.25-26). Aí, João esclareceu desinteressada e perentoriamente:
Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: ‘Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente.’ O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir.” (Jo 3,27-30).
Ficou, assim replasmado em definitivo, neste segmento, o papel do precursor com a afirmação humilde e designiacional da necessidade do crescimento do Messias e da diminuição funcional daquele que foi enviado à sua frente com uma missão propedêutica. Quantos, porém, ao longo do tempo, não souberam circunscrever-se à missão de precursores e se quiseram empoleirar na função de Messias ou de seus lídimos lugares-tentes, com todos os poderes e honras!
***
E Jesus confirma a missão precursora do Batista e tece largos elogios à sua personalidade e ao cumprimento cabal da sua missão propedêutica e antropagógica.
Assim, para Jesus, João é um profeta e mais que um profeta: aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. Tanto assim é que entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele, porque o Reino é arrebatado pelos simples, pelos humildes e pelos persistentes. Desde o tempo do Batista até agora, o Reino do Céu tem sido objeto de violência e os violentos apoderam-se dele à força. Todos os Profetas e a Lei anunciaram isto até João. E, quer se acredite quer não, ele é o Elias que estava para vir (cf Mt 11,9-14; Lc 7,26-28). 
Por outro lado, o Mestre faz saber – em resposta a um pedido de esclarecimento de emissários que vinham da parte do precursor, ora preso nas masmorras herodianas – que o Messias estava já em franca atividade missionária a Patre e especificou os sinais:
Ide contar a João o que vedes e ouvis: Os cegos veem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo.” (Mt 11,4-6; Lc 7,22-23).
Com efeito, nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos (Lc 7,21) – totalmente em consonância com a missão messiânica plasmada no cap. 4 de Lucas na sequência da profecia de Isaías, cumprida em Jesus: 
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).
No Evangelho de Mateus, o ensinamento de Jesus compendia-se nas Bem-aventuranças, que abrem o discurso do Sermão da Montanha (vd Mt 5,1-12); e, no de João, a finalidade da vinda de Jesus ao mundo é que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E isto pode ser dito e redito de muitos modos a teor do Evangelho, mas basta que retenhamos o segmento fixado perentoriamente no Evangelho de Marcos “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos” (Mc 10,45; cf Mt 20,28) e o apelo do Mestre vertido no Evangelho de João:
Se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.” (Jo 13,14-15). Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” (Jo13, 34-35).
***
E pronto. Já percebemos tacitamente como a missão do discípulo que se fez apóstolo (pois ninguém pode ser apóstolo se não for discípulo; e é insensato e inútil ser discípulo sem ser apóstolo…) passa necessariamente por assumir a missão messiânica com a humildade do precursor e com a alegria de quem tem o privilégio de estar com o esposo e ouvir a sua voz. Com efeito, tanto João como Jesus anunciavam a chegada e a proximidade do Reino de Deus e pediam a adesão ao mistério e projeto do Reino através da metanoia da mente, da do coração, da das atitudes e comportamentos pessoais e da das estruturas sociais.
Por outro lado, é mister do discípulo-apóstolo estar disponível para, à semelhança do Mestre, servir e dar a vida para que todos tenham a vida e a tenham em abundância. E isto implica ser fiel à unção recebida do Espírito do Senhor para estar em saída levando a Boa Nova aos pobres, proclamando a libertação aos cativos, recuperando a vista dos cegos, fazendo andar os coxos, com que fiquem limpos os leprosos, os surdos ouçam e os mortos ressuscitem, mandando em liberdade os oprimidos e proclamando o tempo do favor e graça da parte do Senhor.
Os apóstolos têm o mandato do Senhor, que implica saída, ação e confiança:
Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.” (Mt 28,19-20; cf Mc 16,19-20).
Mas este mandato, além do ensino e do Batismo, implica a compreensão profunda das Escrituras, o revestimento da força do Alto (para ir em saída), a pregação e a aceitação do perdão e o testemunho no Espírito Santo. Com efeito, em Lucas (26,45-49), pode ler-se:
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.
E, no Evangelho de João, estabelece-se a conexão entre a paz, a alegria, o afastamento do medo, o envio, o dom do Espírito Santo e o perdão dos pecados – tudo dádivas pascais. Com efeito, na aparição aos Onze na tarde da Ressurreição, Ele mostrou-se O que fora morto e agora redivive:
Veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: ‘A paz esteja convosco!’ Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: ‘A paz convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.’. Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos’.” (Jo 20,19-23).
Por conseguinte, se ensinam e santificam e encaminham, fica confirmada, na missão, a dupla qualidade dos discípulos de Luz do Mundo e Sal da Terra (cf Mt 5,13-16), mantendo e renovando constantemente o vigor transformador do sal, para que não sejam considerados servos inúteis, e fazendo brilhar a luz discipular diante dos homens, de modo que, vendo as boas obras, glorifiquem o Pai, que está no Céu. 
E, de facto, Pedro sintetizou bem no discurso do Pentecostes a súmula do anúncio – “Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado” (At 2,36) – e o resultado da aceitação da pregação – “Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo” (At 2,38)
Em suma, o essencial do apostolado está na seguinte verificação: Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles” (At 4,33). Se isto acontecer, os que abraçam a fé terão “um só coração e uma só alma” e não haverá “ninguém necessitado” (cf At 4,32.34), porque a doutrina e o dinamismo das bem-aventuranças se evidenciarão. Importa que os apóstolos escutem o Espírito e também aceitem, a jusante, a humildade e a determinação que o precursor teve a montante – que o Mestre cresça. Na verdade, o apóstolo tem de ser, perante muitos, um verdadeiro precursor em relação a Jesus, ou seja, um verdadeiro propedeuta, um pedagogo – não uma autorreferência – e, em sentido recíproco, um veículo da graça e do favor misericordioso para cada um dos redimidos. Graças sejam, entretanto dadas a Deus pela plêiade de precursores/apóstolos que têm feito ao longo da História discípulos de Cristo e obreiros e educadores da paz!
***
Poderá ser neste espírito que os crentes tenham, desta feita, celebrado João Batista, o único santo, com a Virgem Maria, de quem a Liturgia celebra o nascimento para a terra – o que se deve à missão única, que, na História da Salvação, foi confiada a este homem, santificado, no seio de sua mãe, pela presença do Salvador (que ia no ventre de Maria aquando da sua visita a Isabel), que mais tarde, dele fará um belo elogio (Lc 7,28), como foi referido. 
Elo de ligação entre a Antiga e a Nova Aliança, João foi acima de tudo, o enviado de Deus, uma testemunha fiel da Luz, aquele que anunciou Cristo e o apresentou ao mundo. Profeta por excelência, a ponto de não ser senão uma “Voz” de Deus, é o Precursor imediato de Cristo: vai à Sua frente a apontar, com a palavra e com o exemplo da vida, as condições necessárias para se alcançar a Salvação. 
A Solenidade do Precursor é, pois, um convite a que reconheçamos Cristo, Sol que nos vem visitar na Eucaristia, a que dêmos testemunho d’Ele, com o ardor, o desprendimento e a generosidade do Batista e a que interiorizemos a tarefa de discípulos e a missão de apóstolos.
2018.06.25 – Louro de Carvalho