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terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

A proteção de menores na Igreja não está no ano zero


Na iminência do encontro sobre “A proteção dos menores na Igreja”, com os Presidentes de todas as conferências episcopais (CEP) que se realizará, no Vaticano, de 21 a 24 de fevereiro, Fabio Colagrande fez para o Vatican News uma resenha do percurso feito até agora pelos Papas, pelo Vaticano e Igrejas locais na luta contra o abuso sexual de menores, cometidos por clérigos.
Contudo, não pode deixar de se vincar que o encontro agendado para este mês de fevereiro é o primeiro a envolver, a nível mundial, todos os presidentes das CEP e os responsáveis das ordens religiosas, para enfrentar o problema com um olhar do Evangelho – um encontro eclesial de pastores com caraterísticas ‘sinodais’ sem precedentes, que indica como a luta contra a chaga dos abusos perpetrados por membros do clero é prioritária para Francisco no atual contexto histórico. E alguns dos objetivos do evento são ouvir as vítimas, aumentar a consciência e o conhecimento, desenvolver novos nomes e procedimentos e partilhar boas práticas.
Não obstante, o encontro que se avizinha não constitui o primeiro passo da Santa Sé, nem das CEP neste rumo. É uma etapa histórica de um percurso que a Igreja católica tem em realização há mais de 30 anos, em países como Canadá, Estados Unidos, Irlanda e Austrália, e há dez anos, na Europa, e que prosseguirá após este evento.
Nos últimos 20 anos, os Papas dedicaram a este tema tão doloroso vários gestos, discursos e documentos. Às vezes, a publicação de normas e protocolos não produziu logo uma mudança de mentalidade, imprescindível para combater os abusos. Por isso, há 18 anos, vem-se procedendo, no Vaticano, à renovação e intensificação das normas canónicas atinentes à matéria. E, depois de muita tinta ter corrido, muitos casos de crimes e encobrimentos terem sido verificados, muita aplicação da justiça civil e eclesiástica (a nível discreto e mediático) nas vésperas do evento, desejado e convocado pelo Papa, não se pode falar de ano zero do compromisso da Igreja neste campo. Tem, ao invés de se reconhecer, que esta é uma etapa de um longo percurso.
A CEP do Canadá foi, em 1987, uma das primeiras a produzir orientações sobre a violência sexual de menores num contexto eclesiástico. E, em 1989, depois de a opinião pública ter sido reiteradamente abalada por notícias de violência sexual contra menores por parte de clérigos, a Igreja canadense criou uma Comissão que, em 1992, publicou o documento “Do sofrimento à esperança”, com cinquenta “recomendações” dirigidas aos católicos, bispos e responsáveis pela formação de sacerdotes.
A CEP dos Estados Unidos abordou, pela primeira vez, oficialmente, a violência sexual contra menores por parte de sacerdotes, na Assembleia de junho de 1992, estabelecendo “5 princípios a ter em conta e impondo a pronta remoção do “presumível culpado de suas tarefas ministeriais” e a referência a “um julgamento adequado e intervenção médica”, caso a acusação seja comprovada por provas suficientes. Apesar disso, a difusão do fenómeno nos anos subsequentes e a inadequação da sua gestão, apurada em investigação do Boston Globe, levou São João Paulo II a convocar os cardeais estadunidenses para Roma, em abril de 2002.
A Igreja na Irlanda, em 1994, instituiu o ‘Comité Consultivo dos Bispos Católicos da Irlanda sobre Abuso Sexual de Crianças por Padres e Religiosos’ (Irish Catholic Bishops’ Advisory Committee on Child Sexual Abuse by Priests and Religious) que publicou o primeiro Relatório Final em dezembro do ano seguinte. E a Igreja na Austrália aprovou, em dezembro de 1996, tornando-se operacional em março de 1997, o documento ‘Towards Healing’ (Para a cura), um dos primeiros protocolos no mundo sobre como tratar nas dioceses dos casos de pedofilia cometidos por membros do clero foi publicado.
Desde o início do século XXI, a Santa Sé, sobretudo por ação do Cardeal Ratzinger, mais tarde Papa Bento XVI, começou e levou a cabo uma profunda renovação das normas canónicas para intervir nos casos de abusos, atualizando competências, procedimentos e penalidades. Assim, logo em 2001, o Motu proprio ‘Sacramentorum sanctitatis tutela’, de João Paulo II,  insere o delito de abuso sexual de menores por parte de clérigo entre os “delicta graviora” (“delitos mais graves”), cujo tratamento é reservado à Congregação para a Doutrina da Fé (CDF).  
Em 2008, Bento XVI começou a encontrar-se regularmente com as vítimas de abuso nas suas viagens apostólicas aos EUA, Austrália, Grã-Bretanha, Malta e Alemanha – gesto replicado, depois, por Francisco com encontros privados recorrentes, na residência de Santa Marta e nalgumas das suas viagens apostólicas.
Em 2009, na Irlanda, após anos de trabalho de Comissões governamentais específicas, foram publicados os Relatórios Ryan, sobre abusos ocorridos no sistema escolar, e Murphy, sobre abusos de menores perpetrados há 30 anos por eclesiásticos da Arquidiocese de Dublin. E o eco suscitado pelos relatórios, que põem a nu as deficiências com que a Igreja lidou com os casos de abuso, levou Bento XVI a convocar os bispos irlandeses para Roma e, em março de 2010, a publicar a “Carta pastoral” dirigida aos católicos do país, em que pede medidas realmente evangélicas, justas e eficazes em resposta a essa traição da confiança, e a programar uma viagem apostólica ao país, de novembro 2010 a março de 2012.
Em 2010, Bento XVI fez com que a CDF publicasse as novas “Normas sobre delitos mais graves” que aceleram os procedimentos, criando o procedimento “por decreto extrajudicial”, dobrando o tempo de prescrição de 10 para 20 anos e inserindo o crime de “pornografia infantil”. E, no mesmo ano, na Alemanha, onde as primeiras “Diretrizes” sobre o tema tinham sido publicadas em 2002, a explosão do caso do Colégio Canísio dos Jesuítas de Berlim, levou a CEP a renová-las, aumentando a colaboração com as autoridades.
Outra etapa relevante deste já longo percurso foi a publicação, em maio de 2011, pela CDF, da Carta circular a solicitar a todas as CEP a elaboração de “Diretrizes” para o tratamento de casos de abuso e a assistência das vítimas e a fornecer indicações a esse respeito para harmonizar a ação das dioceses da respetiva região, elegendo o Bispo diocesano como primeiro responsável no tratamento dos crimes de abuso sexual de menores por parte dos clérigos. E, a fim de ajudar as CEP e as Congregações religiosas a prepararem adequadamente as “Diretrizes”, a Santa Sé encorajou a organização do Simpósio Internacional “Rumo à Cura e Renovação”, que decorreu na PUG (Pontifícia Universidade Gregoriana), em fevereiro de 2012. O encontro, que teve o mesmo objetivo mundial do que, desta vez, vai ser realizado, envolveu os representantes de 110 Conferências episcopais e os Superiores de 35 Institutos Religiosos. Durante o Simpósio, foi anunciado o nascimento, na Gregoriana, do Centro para a Proteção de Menores, dirigido pelo Padre Zollner para formar pessoas especializadas na prevenção de abusos.
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O primeiro passo importante na prevenção e luta contra os abusos sob o pontificado do Papa Francisco foi a criação, em dezembro de 2013, da nova Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, sendo alguns dos seus intentos estabelecer um modelo para as “Diretrizes”, organizar cursos para bispos recém-nomeados e propor um Dia de Oração pelas Vítimas de Abuso.
Por outro lado, Francisco introduziu inovações canónicas, normativas e procedimentos relativos a abusos. Assim, em novembro de 2014, um “Rescrito” do Papa estabelece, dentro da CDF, um Colégio para o exame de apelos eclesiásticos para julgamentos em matéria de “crimes mais graves”, confiado ao Arcebispo Scicluna, com o objetivo de garantir um exame mais rápido dos casos de abuso de menores. Em junho de 2016, avançou com o Motu proprio “Como uma mãe amorosa”, sobre a questão da responsabilidade das autoridades eclesiásticas, que estabelece a remoção de bispos ‘negligentes’ quanto à gestão de abusos sexual de menores de acordo com os procedimentos canônicos previstos. Em outubro de 2017, para sublinhar como o compromisso da Igreja com a proteção de menores se move não só a nível interno, mas também em colaboração a toda a sociedade, sustentou e promoveu o Congresso internacional ‘Dignidade da Criança no Mundo Digital’, organizado na Gregoriana. E, na viagem apostólica ao Chile, em janeiro de 2018, enfrentou diretamente o escândalo das divisões criadas na Igreja local pelo caso do Padre Fernando Karadima, considerado culpado de abusos pela Santa Sé em 2011.
Depois duma investigação confiada, em fevereiro, a Dom Scicluna, o Papa escreveu aos bispos chilenos, em abril, reconhecendo os “erros graves de avaliação e perceção da situação por falta de informações verdadeiras”. Depois, em maio, convocou o episcopado chileno para um encontro, em Roma, que se concluiu com o pedido de demissão ao Papa por parte de todos os bispos. Porém, só alguns dos pedidos de resignação foram aceites.
Neste contexto, emergem os documentos pastorais mais recentes dedicados pelo Papa ao tema. Na “Carta ao povo de Deus em caminho no Chile”, de maio de 2018, Francisco agradece às vítimas de abuso pela coragem e pede o compromisso de todo o povo de Deus para combater o clericalismo na base dos abusos. Depois, surge a “Carta ao Povo de Deus”, de agosto de 2018, em que Francisco relaciona abuso sexual, de poder e de consciência e afirma que dizer não aos abusos é dizer não ao clericalismo. E, na sua viagem à Irlanda para o Encontro Mundial das Famílias, no mesmo mês, Francisco fala do “fracasso das autoridades eclesiásticas em enfrentar adequadamente esses crimes repugnantes” que “despertaram justamente a indignação e continuam a ser motivo de sofrimento e vergonha para a comunidade católica”.
Por fim, no mais recente documento pastoral sobre o tema, a “Carta aos Bispos estadunidenses” de janeiro de 2019, o Papa afirma que a ferida na credibilidade, causada pelos abusos, postula não só uma nova organização, mas também “a conversão de nossa mente”, do nosso modo “de rezar, de administrar o poder e o dinheiro, e de viver a autoridade”.
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Na conferência de imprensa, que decorreu no dia 18, na Sala de Imprensa da Santa Sé, para a apresentação do próximo Encontro sobre “A proteção dos menores na Igreja”, que terá lugar na Sala nova do Sínodo, intervieram o Cardeal Blase J. Cupich, Arcebispo de Chicago, Membro do Comité organizador; Monsenhor Charles J. Scicluna, Arcebispo de Malta, Secretário Adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, membro do Comité Organizador; Padre Federico Lombardi, SJ, Presidente da Fundação do Vaticano, Joseph Ratzinger – Bento XVI , Moderador da Reunião; Padre Hans Zollner, SJ, Presidente do Centro para a Proteção de Menores da Pontifícia Universidade Gregoriana, Relator do Comité Organizador; e Irmã Bernadette Reis, FSP, Assistente do Diretor Interino da Sala de Imprensa da Santa Sé.
Respondendo às perguntas dos jornalistas, Scicluna, disse que o encontro parte dum caminho já iniciado há anos e quer criar as condições certas, para depois haver o concreto “follow-up”.
Os bispos retornarão às suas dioceses, cientes das suas responsabilidades, para continuar o trabalho, estabelecendo “procedimentos”. Quando se trata de “proteção da inocência”, insistiu, “não devemos desistir”: é preciso encontrar soluções cada vez mais adequadas para o problema, para que “a Igreja seja um lugar seguro para todos, especialmente para as crianças”. E falou de “expectativas” sobre o encontro, afirmando que se pode partir de “expectativas razoáveis”, pois,  em “três dias”, não poderão ser resolvidos todos os problemas, fundamental será depois a declinação nas realidades individuais das decisões tomadas.
Por sua vez, Cupich falou dum “novo amanhecer no que diz respeito à transparência” e disse que os bispos presentes, na sua maioria presidentes das CEP, devem entender claramente as suas responsabilidades na matéria e que um “programa de proteção” pontual poderá evitar que se repita o sucedido no passado. Frisou que muitos dos que participarão no Encontro tiveram encontros com as vítimas, como solicitado pelo Papa, e que cada um “traz no coração as feridas” daqueles de quem membros da Igreja abusaram. E referiu a homossexualidade como não “causa de abusos” e os métodos de “screening” (triagem) a pôr em ato para quem deseja entrar no seminário, de modo que seja impedida a entrada daqueles sobre quem impenda o risco de casos abuso de menores.
Quanto à publicação de dados e estatísticas sobre vítimas de abusos e o comportamento dos membros da Igreja para enfrentar o problema, Scicluna disse que provavelmente será feita, mas que não basta publicar os números, mas é necessário aprofundado estudo para dar o contexto. Sobre o procedimento de denúncia de abusos ou a conduta de “bispos negligentes”, recordou a o documento “Como uma mãe amorosa”, de Francisco, para enfatizar:
A negação é um mecanismo primitivo, mas devemos afastar-nos do código do silêncio, quebrar a cumplicidade, porque o silêncio não é aceitável”.
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Enquanto o Papa, no dia 17, após a recitação do Angelus, convidou a rezar por este evento que reputa como ato de forte responsabilidade pastoral face a um desafio premente do nosso tempo, 
Outras diligências avançavam, além das mencionadas.
Assim, o Padre Frederico Lombardi apresentou a dinâmica do Encontro, dizendo que os três dias de discussão serão dedicados cada um a um tema específico: a responsabilidade dos bispos; a “accountability” (isto é, a quem e como os bispos e superiores das ordens religiosas devem prestar contas); e a transparência. Os 190 presentes na Sala nova do Sínodo ouvirão três conferências por dia (feitas também por três mulheres), seguidas de perguntas e respostas e trabalhos em grupo. Depois, haverá testemunhos dos sobreviventes e momentos de oração, na abertura e no encerramento do dia. O Papa abrirá os trabalhos com uma intervenção introdutória e encerrá-los-á no dia 24 com um discurso após a missa. Na tarde do dia 23, haverá a liturgia penitencial. A celebração eucarística de domingo terá lugar na Sala Regia às 9,30 horas, com homilia pronunciada pelo Arcebispo Mark Coleridge, presidente da Conferência Episcopal da Austrália. E a Comissão organizadora reunir-se-á, em privado, com representantes das associações das vítimas.
Foi ativado o site do evento – pbc2019.org – será “instrumento para desenvolver as iniciativas futuras”. O Padre Hans Zollner ilustrou o portal, que será atualizado regularmente, e o questionário proposto aos participantes. E a Irmã Bernadette Reis, anunciou que será distribuído um kit à imprensa para ajudar o trabalho dos órgãos de comunicação social.
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Prosit em nome do bem de todos!
2019.02.18 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

“As relações entre Portugal e Angola são excelentes, mas…”

Na noite do dia 23 de janeiro, em Davos, na Suíça, aconteceu a segunda reunião entre António Costa e João Lourenço, em menos de dois meses, marcados pela divergência de Angola sobre a forma como a justiça portuguesa está a conduzir o processo contra Manuel Vicente e sobre a desconfiança do Ministério Público Português (MP) em relação à justiça angolana.
O Primeiro-Ministro até solicitou um parecer ao Conselho Consultivo da PGR sobre o caso que envolve o antigo vice-presidente de Angola no âmbito da operação “Fizz”, com acusações de corrupção ativa e branqueamento de capitais – parecer que entendeu não publicar pelo facto de, no âmbito dos poderes que lhe cabem, o haver classificado como reservado.
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O Presidente da República falou sobre a matéria no próprio dia 23, após a cerimónia de lançamento de Cascais como Capital Europeia da Juventude 2018, no Centro de Congressos do Estoril. E afirmou que a relação política e diplomática de Portugal com Angola “não podia ser melhor” e é feita de “múltiplos contactos”, alguns mais públicos e formais, outros menos, mas todos importantes.
Questionado pelos jornalistas se o Primeiro-Ministro, António Costa, partilhara consigo o parecer solicitado à Procuradoria-Geral da República sobre este caso, decorrente da operação Fizz, que não foi tornado público, o Presidente da República escusou-se a responder à questão, dizendo apenas: “Isso é uma matéria sobre a qual não me vou pronunciar publicamente”.
Porém, declarou sobre as relações luso-angolanas: “Aquilo que quero dizer, neste momento, é que as relações políticas e diplomáticas são excelentes”. E reforçou: “Não podia ser melhor o nosso relacionamento”. A declaração completa que se estriba em anteriores afirmações dos Chefe da Diplomacia angolana e portuguesa é do teor seguinte:
As relações políticas e diplomáticas entre Portugal e Angola são excelentes e, como se viu, ontem, pelas declarações dos Ministros dos Negócios Estrangeiros e das Relações Exteriores, há uma sintonia, há uma convergência clara no sentido de mostrar que, como acontece entre povos, não podia ser melhor o nosso relacionamento.
Interpelado sobre se considera decisivo o encontro entre o Primeiro-Ministro e o Presidente de Angola, marcado para ontem à noite, em Davos, na Suíça, onde decorre o Fórum Económico Mundial, o Chefe de Estado respondeu:
Como imaginam, esta temática (as relações com Angola) são matérias que eu acompanho dia e noite há dois anos”.
E considerou que “a vida é feita de múltiplos encontros, e de múltiplos contactos”, sendo que “alguns são públicos e notórios, e são formais ou relativamente formais, outros são informais”. E completou: “Todos são importantes”.

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Depois da conversa ocorrida entre António Costa e João Lourenço em Davos, o Chefe do Governo caraterizou como “fraternas” e de “excelência” as relações político-económicas luso-angolanas, mas referiu que o processo judicial que envolve o ex-vice-Presidente de Angola Manuel Vicente mantém congeladas as visitas de alto nível entre os dois países.
O Primeiro-Ministro falava aos jornalistas no final de uma reunião de 40 minutos com João Lourenço, que decorreu em Davos, na Suíça, no hotel em que o líder do executivo português está instalado e que começou com cerca de 50 minutos de atraso. E narrou:
Este foi um encontro no quadro das relações permanentes que temos mantido – dos bons encontros que tenho mantido com o Presidente João Lourenço. Fizemos o ponto das relações muito fraternas que existem entre Portugal e Angola, que, felizmente, decorrem muito bem dos pontos de vista económico, das relações entre as nossas empresas, das relações culturais e entre os nossos povos”.
Logo a seguir, Costa referiu-se ao processo da Procuradoria-Geral da República portuguesa que envolve o ex-vice-Presidente angolano Manuel Vicente no âmbito da operação “Fizz”, em que está acusado de branqueamento de capitais e de corrupção ativa.
O Primeiro-Ministro frisou que não se pode ignorar “que existe uma questão – e uma só questão – que não depende dos poderes políticos de Portugal e de Angola e que decorre exclusivamente da responsabilidade das autoridades judiciárias e que tem uma única consequência: Não haver visitas de alto nível de uns e outros aos respetivos países”.
Quanto ao mais, disse, já depois de ter referido que a última reunião entre ambos foi há menos de dois meses, em Abidjan, na Costa do Marfim:
Felizmente, tudo o resto decorre com toda a normalidade na excelência das nossas relações. Sempre que me encontro com o Presidente João Lourenço encontramo-nos como bons amigos”.
Tendo-lhe sido perguntado se este encontro teve alguma consequência positiva para desbloquear o problema do foro judicial existente entre os dois países, António Costa respondeu que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. E explicitou:
A forma calorosa como o Presidente João Lourenço cumprimentou a delegação portuguesa é um bom sinal das boas relações que existem entre nós. Na vida das pessoas, entre amigos, muitas vezes há problemas que se metem pelo caminho – problemas que nem uns nem outros podem resolver. Neste caso, nem as autoridades políticas de Angola, nem as portuguesas, podem resolver, mas esse problema não perturba o que é essencial: Como disse o ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola [Manuel Domingos Augusto], recentemente, as relações luso-angolanas são insubstituíveis.”.
António Costa sustentou que, da parte dos empresários, dos professores universitários ou escritores continuam a estreitar-se as relações entre os dois países. E tranquilizou numa mensagem mais informal para desdramatizar o estado das relações luso-angolanas:
Vamos aguardar serenamente que as decisões que as autoridades judiciárias têm de tomar sejam tomadas. Um dia, seguramente, poderei encontrar o Presidente João Lourenço ou em Luanda ou em Lisboa. Enquanto não nos encontramos em Lisboa ou em Luanda, também não faltam lugares no mundo para nos encontramos – e as relações vão prosseguindo.
Em resposta a questões colocadas por jornalistas de Angola, o Primeiro-Ministro assegurou que as relações luso-angolanas “têm uma grande intensidade”, exemplificando com o número de voos entre os dois países “ou a força dos investimentos bilaterais”. E disse:
Sempre que estamos juntos em algum sítio, seja em Abidjan na Costa do Marfim, ou aqui na Suíça, nunca perdemos uma oportunidade para falar e manter as nossas boas relações”.
Sobre a evolução da política em Angola, exprimiu-se nestes termos:
É com muita satisfação que vemos a situação político-económica angolana a evoluir muito positivamente e a restabelecerem-se as condições de confiança de investimento das empresas portuguesas em Angola – isso é muito positivo que aconteça e vai prosseguir”.
Ainda em relação ao caso que envolve o ex-vice-Presidente angolano, Costa insistiu em dizer que Angola “mantém a sua posição, entendendo que o processo deve ser remetido para Angola para ali ser tramitado”.
Interpelado sobre eventuais consequências negativas de o caso que envolve Manuel Vicente se prolongar por muito tempo, o Chefe do Governo referiu-se “a uma única restrição”: “visitas ao mais alto nível de chefes de Estado e de Governo aos dois países”. E acrescentou:
Fora essa restrição, tudo decorre normalmente. Os angolanos continuam a ser bem-vindos Portugal e os portugueses muito bem-vindos a Angola. Mesmo nas relações políticas entre os dois países, sempre que se encontram, são de grande estima e de amizade.”.
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Também o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Angola se congratulou ontem com a decisão da Justiça portuguesa de separar o processo do ex-vice-Presidente angolano Manuel Vicente, dizendo que corresponde a um passo no sentido desejado pelas autoridades de Luanda.
Manuel Domingos Augusto falava aos jornalistas no final da reunião entre o Primeiro-Ministro português e o Presidente angolano, em Davos, na Suíça. Com efeito, o Chefe de Estado angolano delegou no seu Ministro dos Negócios Estrangeiros as declarações à comunicação social sobre os resultados da reunião com o Primeiro-Ministro português. E este começou por salientar que “Angola nunca interrompeu o diálogo com Portugal”.
Sobre o processo da Justiça portuguesa contra o ex-vice-Presidente Angolano Manuel Vicente, o responsável máximo da diplomacia angolana discorreu:
Todos desejamos que o problema venha a ser resolvido o mais breve possível para que a harmonia que tem caraterizado as nossas relações possa ser retomada. Nós, hoje, tivemos a oportunidade de trocar algumas ideias com o Primeiro-Ministro português e não fugimos à questão que a todos incomoda.”.
Manuel Domingos Augusto referiu-se, neste contexto, à decisão judicial do dia 22 de separar o processo de Manuel Vicente no âmbito da operação “Fizz” e especificou:
Tomámos nota da evolução que o processo está a conhecer e reafirmámos a esperança de que haja a muito breve trecho um desfecho que corresponda à vontade dos dois governos, mas também dos povos angolano e português”.
Segundo o Ministro, a delegação governamental angolana já se encontrava em Davos quando tomou conhecimento deste desenvolvimento no processo judicial. E, sobre este facto, referiu:
Tomámos conhecimento da decisão judicial sobre a separação dos processos. Sem entrar em detalhes técnicos, acreditamos que se trata de um passo no sentido do desejo das autoridades angolanas e acredito que também das autoridades portuguesas. Não há razões para que este processo continue a ser uma sombra naquilo que são as relações harmoniosas e altamente desejadas pelos povos dos dois países.”.
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Percebo que a diplomacia tenha necessidade duma linguagem cuidadosa, dúbia e até próxima da não verdade total. Não obstante, cansa-me esta hipocrisia dos chefes da diplomacia angolana e portuguesa, do Primeiro-Ministro e do Presidente da República.
O Presidente representa o Estado no seu todo e o Primeiro-Ministro (à frente do Governo) é responsável pela definição da política interna e externa do país. Ora, se há um espinho, um problema levantado pelo sistema judiciário português – com razão ou sem ela – a descontento das autoridades judiciárias angolanas, como é que as relações podem ser excelentes?
Já me sinto saturado com o argumento de que é a Justiça que tem um problema e que o poder político não o pode resolver. Primeiro, a administração da justiça é feita por um órgão de soberania, os tribunais, que integram, segundo a Constituição, o poder político; e os tribunais administram a justiça em nome do povo. É, pois, um ato político. Segundo, quem organiza o processo-crime, com base na investigação, não é o tribunal, que é independente, mas o MP, que, embora autónomo, é o braço do Estado para a investigação criminal e para a consequente acusação. E o topo do MP é de nomeação tipicamente política pelo Presidente da República sob proposta do Governo (do que está em funções aquando do ato), entidades a quem incumbe a eventual exoneração após o mandato (ou antes de ele ser totalmente cumprido). Corpo sofre se o membro sofre!
E será que João Lourenço já desistiu de travar as nossas exportações, hostilizar as nossas empresas, fechar consulados? E como são tão excelentes (nem podiam estar melhor) as relações se os líderes cimeiros não se podem encontrar dentro dos territórios dos dois países?
Talvez me agrade mais a tirada do Ministro angolano que diz serem as relações insubstituíveis, ser necessário retomar a harmonia que tem caraterizado as relações e esperar que o caso se resolva, pois não há razões para que o processo continue a ser uma sombra no que são as relações harmoniosas e altamente desejadas pelos dois povos. Sejam claros!

2018.01.24 – Louro de Carvalho 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Fátima: um projeto de espiritualidade e formação aberto ao público

O Santuário de Fátima faz jus à experiência acumulada ao longo de anos, nomeadamente nos sete a que respeita a celebração do Centenário das Aparições na multiplicidade das vivências que acolhe e promove, e decidiu criar um dinamismo formativo a que denomina “Escola do Santuário”, que assume a modalidade de “Itinerários de aprofundamento da espiritualidade da Mensagem de Fátima”
“Escola do Santuário”, na ótica dos seus promotores, é um projeto de espiritualidade e formação aberto ao público em geral.
E, nesta ordem de ideias, o Santuário de Fátima promove já a partir deste mês de janeiro um novo projeto de espiritualidade e formação intitulado “Escola do Santuário”, cujas atividades se realizarão na Casa de Retiros de Nossa Senhora do Carmo.
A “Escola do Santuário” propõe vários itinerários abertos à participação do público em geral, num máximo de 40 participantes por sessão. Estes itinerários formativos são alicerçados na ideia de que Fátima é um lugar de experiência de Deus, onde cada peregrino é convidado a experimentar esta presença.
A missão da “Escola do Santuário” realiza-se na descoberta e aprofundamento da Mensagem de Fátima e da sua espiritualidade promovendo a iniciação, o crescimento e o amadurecimento espiritual a partir da Mensagem e o reconhecimento da eclesialidade da Mensagem e da sua relevância pastoral, bem como a leitura da Mensagem em relação com experiências significativas da contemporaneidade.
Nos vários itinerários a realizar, além dos momentos orantes e das sessões orientadas em sala, de deslocações a diversos lugares do Santuário, a Aljustrel e aos Valinhos, os participantes hão de poder interpretar e refletir sobre Maria a partir de outras linguagens, nomeadamente a linguagem artística presente nos vitrais da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, que em si encerram uma verdadeira catequese sobre o Acontecimento e a Mensagem deixada neste local por Nossa Senhora há cem anos.
Neste primeiro ano de 2018, em consonância com o plano pastoral em boa hora apresentado, o Santuário propõe a realização de três itinerários de dois dias abertos ao público em geral, em janeiro, março e abril, cada um deles com um tema diferente. Propõe também os Encontros de Espiritualidade para Aposentados, com a duração de quatro dias, em março. Finalmente, em maio, o itinerário maior, durante uma semana.
Já em janeiro, entre os dias 27 e 28, o tema será: “Nossa Senhora de Fátima - Qual Maria?”. Desta pergunta do Papa Francisco se constrói o primeiro itinerário, que tem por objetivo aprofundar as interrogações deixadas pelo Papa na Capelinha das Aparições, na primeira peregrinação internacional do Centenário, para corrigir alguns desvios da devoção mariana e descobrir Maria como “uma Mestra da vida espiritual”; a “bendita por ter acreditado”; e a “Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja Orante”.
Em março, a Escola proporá um itinerário de aprofundamento da dimensão trinitária e da dimensão eucarística da mensagem de Fátima, sob o tema genérico “Trindade e Eucaristia, adoração e solidariedade”. Este Itinerário realiza-se nos dias 17 e 18 de março.
Nos dias 21 e 22 de abril, a Escola debruçar-se-á sobre o “Sofrimento e liberdade, sacrifício e reparação”, aprofundando, deste modo, o sentido do sofrimento e do sacrifício na espiritualidade da Mensagem de Fátima.
O último Itinerário da Escola do Santuário previsto antes do verão realizar-se-á entre 21 e 27 de maio e terá como tema “O Rosário, itinerário evangélico de vida teologal”. Neste, durante uma semana, os participantes são convidados a refletir sobre o sentido do Rosário como prática de oração mariana cristocêntrica e a sua importância na Mensagem de Fátima. O seu objetivo é que cada um deles possa experimentar o valor desta oração na sua vida pessoal e comunitária.
Além destes fins de semana temáticos, no mês de março, de 5 a 8, de 12 a 15 e de 19 a 22, serão propostas três edições de um itinerário dirigido a um público específico: pessoas com mais de 65 anos, a viver a aposentação, reforma ou jubilação. Serão os “Encontros de espiritualidade para aposentados”, que visam aprofundar o conhecimento do significado do acontecimento Fátima nos dramas do século XX e do novo milénio. Além disso, proporcionarão uma descoberta da Mensagem como fonte de espiritualidade para viver de forma gratificante e fecunda a aposentação.
A equipa da “Escola do Santuário” integrará o capelão Padre José Nuno Silva, responsável pela pastoral da Mensagem de Fátima; a Irmã Ângela Coelho, ex-postuladora da Causa de Canonização de Francisco e Jacinta Marto; a Irmã Nanci Leite, da congregação Filhas do Coração de Maria, Pedro Valinho Gomes, teólogo, e André Pereira, assessor da reitoria do Santuário de Fátima.
O período de inscrições para cada uma das propostas decorre durante o mês anterior ao da sua realização, através dum formulário próprio disponível. As inscrições são gratuitas, mas obrigatórias e sujeitas a confirmação. Cada itinerário aceitará um número máximo de 40 participantes.
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O período para as inscrições para  a primeira sessão sob o tema “Nossa Senhora de Fátima – Qual Maria?” (Papa Francisco) terminou no passado dia 31 de dezembro.
Dado o seu interesse espiritual, formativo e motor do discernimento, alude-se aqui à questão lançada pelo Papa na noite de 12 de maio de 2017 – o móbil do primeiro tema desta escola.
Primeiro, toca a essencialidade do marianismo do ser cristão e do sentido da recitação do terço:
Na verdade, ‘se queremos ser cristãos, devemos ser marianos; isto é, devemos reconhecer a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele’ (Paulo VI, Alocução na visita ao Santuário de Nossa Senhora de Bonaria-Cagliari, 24/IV/1970). Assim, sempre que rezamos o Terço, neste lugar bendito como em qualquer outro lugar, o Evangelho retoma o seu caminho na vida de cada um, das famílias, dos povos e do mundo.”.
Depois, questiona a nossa postura de peregrinos com Maria e como a entendemos ou tratamos:
Peregrinos com Maria… Qual Maria? ‘Uma Mestra de vida espiritual’, a primeira que seguiu Cristo pelo caminho ‘estreito’ da cruz dando-nos o exemplo, ou então uma Senhora ‘inatingível’ e, consequentemente, inimitável? A ‘Bendita por ter acreditado’ (cf Lc1,42.45) sempre e em todas as circunstâncias nas palavras divinas, ou então uma ‘Santinha’ a quem se recorre para obter favores a baixo preço? A Virgem Maria do Evangelho venerada pela Igreja orante, ou uma esboçada por sensibilidades subjetivas que A veem segurando o braço justiceiro de Deus pronto a castigar: uma Maria melhor do que Cristo, visto como Juiz impiedoso; mais misericordiosa que o Cordeiro imolado por nós?”.
E faz a relação entre Maria e Deus e entre a justiça e a misericórdia relevando a supremacia da misericórdia como pauta da justiça de Deus:
Grande injustiça fazemos a Deus e à sua graça, quando se afirma em primeiro lugar que os pecados são punidos pelo seu julgamento, sem antepor – como mostra o Evangelho – que são perdoados pela sua misericórdia! Devemos antepor a misericórdia ao julgamento e, em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia. Naturalmente a misericórdia de Deus não nega a justiça, porque Jesus tomou sobre Si as consequências do nosso pecado juntamente com a justa pena. Não negou o pecado, mas pagou por nós na Cruz. Assim, na fé que nos une à Cruz de Cristo, ficamos livres dos nossos pecados; ponhamos de lado qualquer forma de medo e temor, porque não se coaduna em quem é amado (cf 1 Jo 4,18). ‘Sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho. Nela vemos que a humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes (…). Esta dinâmica de justiça e de ternura, de contemplação e de caminho ao encontro dos outros é aquilo que faz d’Ela um modelo eclesial para a evangelização’ (Exort. ap. Evangelii gaudium, 288).”.
E conclui exortando a que sejamos com Maria sinal e sacramento da misericórdia, podendo cantar como Ela as misericórdias de Deus, despojados de honrarias, e rezar ao Senhor sentindo a ternura da Mãe, que nos cobre com seu manto e nos põe junto do seu coração:
Possamos, com Maria, ser sinal e sacramento da misericórdia de Deus que perdoa sempre, perdoa tudo. Tomados pela mão da Virgem Mãe e sob o seu olhar, podemos cantar, com alegria, as misericórdias do Senhor. Podemos dizer-Lhe: A minha alma canta para Vós, Senhor! A misericórdia, que usastes para com todos os vossos santos e com todo o vosso povo fiel, também chegou a mim. Pelo orgulho do meu coração, vivi distraído atrás das minhas ambições e interesses, mas não ocupei nenhum trono, Senhor! A única possibilidade de exaltação que tenho é que a vossa Mãe me pegue ao colo, me cubra com o seu manto e me ponha junto do vosso Coração.”. 
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E, nesta linha de escola e arejamento doutrinal e espiritual que o Santuário pratica, pelo menos, desde 1967, não será descabido mencionar as recoleções e retiros organizados para o clero com a anuência dos bispos de Portugal, abertos aos padres diocesanos e religiosos de todo o país que neles queiram participar. Assim, após a celebração do Centenário das Aparições, o Santuário de Fátima propõe-se “Dar graças pelo dom de Fátima”. Continua, pois, a aprofundar e a viver os dons que a Mãe concedeu à Igreja e à humanidade, a acolher e a corresponder ao desafio a sermos mensageiros, intercessores e construtores da paz nos corações e nas relações entre as pessoas, os grupos e os povos, como fizeram os santos Francisco e Jacinta e a Irmã Lúcia.
Ao apresentar o calendário das recoleções e retiros para 2018 em Fátima, o Santuário convida os sacerdotes a participarem, deixando-se encontrar e envolver pelo manto materno de Maria. A escuta e a meditação da Palavra de Deus, a oração e a adoração eucarística, a possibilidade de celebrar o sacramento da reconciliação, recebendo o abraço misericordioso de Deus, e o encontro fraterno com outros sacerdotes são momentos de graça assim proporcionados. Deste modo, quem participa nestes momentos sairá fortalecido para a missão pastoral e obterá maiores frutos para o Reino de Deus.
As recoleções, que não carecem de inscrição prévia, começam às 10,30 horas, com a recitação da Hora Intermédia, e terminam com o almoço. Realizam-se na Casa de Retiros de Nossa Senhora do Carmo. A de 8 de janeiro é orientada pela Doutora Maria do Rosário Soveral; a de 5 de fevereiro, por Dom Manuel Pelino Domingues; a de 5 de março, pelo Padre Manuel Armindo Pereira Janeiro; a de 7 de maio, pelo Padre Tiago Alexandre de Jesus Silva; a de 4 de junho, por Frei Bruno Andrade Peixoto, OFM; a de 2 de julho, pelo Padre Joaquim Augusto Nunes Ganhão; a de 6 de agosto, pelo Padre José Manuel Victorino de Andrade; a de 3 de setembro, pelo Padre Francisco António Clemente Ruivo; a de 1 de outubro, pela Irmã Maria Amélia da Costa, CONFHIC; a de 5 de novembro, pelo Padre Gonçalo Corrêa Mendes Teixeira Diniz; e a de 3 de dezembro, pelo Padre Jorge Manuel Faria Guarda.
Já os retiros – cuja inscrição deverá ser feita, por escrito, até 10 dias antes de cada data, para Serviço de Alojamentos, Santuário de Fátima 2496-908 FÁTIMA ou para seal@fatima.pt principiam com o jantar do primeiro dia, às 20 horas, e terminam com o almoço do último dia, às 12 horas, na Casa de Retiros de Nossa Senhora do Carmo. O de 9 a 13 de julho é orientado pelo Padre Vicente Nieto Moreno; o de 15 a 19 de outubro, pelo Padre Dário Simões da Costa Pedroso, SJ; o de 5 a 9 de novembro, pelo Padre Abílio Pina Ribeiro, CMF; e o de 19 a 23 de novembro, por  Dom Gilberto Canavarro dos Reis.
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E continuam: as visitas ao Museu do Santuário de Fátima, a organização de exposições temáticas temporárias; os filmes; os serviços de arquivo e biblioteca; e as conferências – tudo no âmbito da cultura e formação que o Santuário se propõe.
Em relação à exposição temporária evocativa da aparição de outubro de 1917 “As cores do Sol: a luz de Fátima no mundo contemporâneo”, deve dizer-se que se encontrará encerrada nos dias 8 a 10 de janeiro de 2018, para trabalhos de conservação e restauro. Porém, depois, continuará disponível até 31 de outubro de 2018, no Convivium de Santo Agostinho, Basílica da Santíssima Trindade, das 9 às 19 horas no regime de entrada livre.

Estão previstas visitas guiadas temáticas a 2 de maio, 6 de junho, 4 de julho, 1 de agosto, 5 de setembro e 3 de outubro de 2018, das 21,15 às 22 horas. E está disponível na Net a “visita virtual”.

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E ainda:
A Casa de Retiros de Nossa Senhora do Carmo, no Santuário de Fátima, acolhe o XI Encontro de Reitores dos Santuários nos próximos dias 8 e 9 de janeiro – um encontro de caráter formativo, que, nas edições anteriores contabilizou quase 80 responsáveis por santuários.
Dia 8, o encontro tem início com o almoço e o acolhimento aos participantes. Pelas 15 horas, o Padre Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário de Fátima, fará a primeira conferência do encontro onde falará de “Propostas de oração nos Santuários”, prosseguindo o encontro com outra conferência pelas 17 horas e a assembleia geral pelas 18,45 horas.
Dia 9 de janeiro, a manhã inicia com a oração laudes, seguindo-se uma mesa redonda com os animadores litúrgicos, a que se seguirá a partilha de experiências pastorais de cada santuário.
A Capelinha das Aparições acolhe pelas 12,30 horas a Eucaristia presidida por Dom António Vitalino Dantas, Bispo emérito de Beja e vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.
A Associação dos Reitores dos Santuários de Portugal (ARSP) constitui uma resposta aos desafios lançados pelo documento do Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes publicado em 8 de maio de 1999. E pretende ser um canal de trabalho em rede, querendo contribuir para uma maior eficácia na divulgação dos santuários.
O seu contributo é feito de várias maneiras, onde se destaca a partilha, a troca de experiências e a elaboração de projetos conjuntos.
Além do encontro de formação anual realizado na segunda e terça-feira a seguir à Festa do Baptismo do Senhor, a ARSP tem em curso vários projetos de divulgação, a nível nacional, do património cultural e espiritual dos santuários portugueses.
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De facto, muito se pode ensinar/aprender e viver no Santuário!


2018.01.05 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O amor é a única força capaz de tornar o mundo um lugar melhor

Esta é convicção do cardeal Jean-Louis Tauran, que está à frente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso desde 2007. Por outro lado, este eminente purpurado ressalta que os vários encontros inter-religiosos realizados em 2017 demonstram a importância para os cristãos de permanecerem ancorados com coerência na sua fé, ante as dificuldades de um mundo tão plural, sem ceder ao desânimo, para testemunhar que a convivência é possível.
No balanço que fez, a 29 de dezembro de 2017, das atividades do dicastério a que preside, no ano transcorrido, Tauran, convicto de que o diálogo é sempre um caminho a ser percorrido, pelo que deve ser promovido, “apesar de tudo”. Com efeito, o cristão é chamado a dar o seu claro e coerente testemunho também nas dificuldades, sobretudo num mundo em que sempre mais violências são cometidas em nome de Deus ou da religião.
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E justamente nestes dias em que os refletores dos órgãos de comunicação social se dirigem à “questão Jerusalém”, o cardeal, que anunciou a eleição de Francisco, reitera ao L’Osservatore Romano a sua firme posição contra qualquer tentativa de instrumentalizar a religião com fins políticos. Pensa que as recentes escolhas da administração Trump reacenderam as tensões na Cidade Santa, mas está convicto de que existem esperanças de uma paz estável no Oriente Médio. Para tanto, sustenta que o diálogo deve prosseguir em todos os níveis. E justifica:
Basta pensar no que ocorreu por uma significativa coincidência em seis de dezembro, quando foi anunciada a decisão da Casa Branca. Naquela mesma manhã, o Papa recebeu, antes da Audiência Geral, os participantes de uma reunião entre o nosso dicastério e a comissão para o diálogo inter-religioso do Estado da Palestina. Na delegação de alto nível, guiada pelo Xeique Mahmoud Al-Habbash, juiz supremo, o Pontífice fez uma exortação à colaboração, que encontrou resposta na assinatura de um memorandum de intenções para a criação de um grupo de trabalho permanente. Enfim, tratou-se de um exemplo de testemunho inter-religioso muito relevante, uma prudente aproximação no sinal da amizade, na direção oposta ao incendiário propagar-se do ódio e da ira..
Sobre a possibilidade do diálogo a partir da cultura e das ações do encontro, diz:
Nós acreditamos nisto: no fundo, não obstante as posições que, por vezes, possam parecer distantes, é necessário promover espaços de diálogo sincero. Apesar de tudo, nós estamos muito convencidos de que se pode viver juntos, como demonstra o Papa que quotidianamente continua a sublinhar a importância do respeito recíproco com os fiéis de outras tradições. E não somente com o islão, mas também por exemplo com os budistas, como fez durante a recente viagem à Ásia.”.
E à dica do L’Osservatore Romano “ou como o Papa faz nos encontros que, às vezes, precedem as Audiências Gerais das quartas-feiras, responde:
Está-se tornando uma espécie de hábito: Francisco recebe pequenas delegações que nós acompanhamos. Recordo o encontro de março com as superintendências iraquianas para xiitas e sunitas e aquela para cristãos, yazidis, sabeus/mandeus: ‘Todos somos irmãos, e onde há fraternidade, há paz’, disse Francisco naquela ocasião, recorrendo à imagem dos dedos de uma mão: “são cinco, mas todos diferentes’. Mais recentemente, houve em setembro a audiência ao secretário-geral da Liga muçulmana mundial, Muhammad Al-Issa, e, em outubro, à World Conference os religions of Peace, durante a qual o Papa reiterou a importância ‘da cooperação inter-religiosa para contrapor-se aos conflitos e fazer avançar o desenvolvimento’. Que é o que faz o nosso dicastério por meio da organização de seminários em Roma ou a participação em conferências internacionais.”.
Dos encontros mais importantes do ano transcorrido refere:
“2017 foi aberto com o anual encontro com os membros do Departamento para o diálogo Inter-religioso e a cooperação do Conselho Ecuménico das Igrejas (Wcc, sigla em inglês), realizado em nossa sede após a semana de oração para a unidade dos cristãos. Em fevereiro, fui ao Cairo para um simpósio organizado pela Universidade de Al-Azhar sobre o papel do Grão Imã e do Vaticano para combater os fenómenos do fanatismo e do extremismo em nome da religião. E em maio, fui a Rabat para um dia de estudos promovido pela Academia Real de Marrocos. Por fim, em novembro, realizou-se em Taiwan o sexto colóquio budista-cristão sobre o tema da não-violência: nos trabalhos pronunciou-se o subsecretário Mons. Indunil Kodithuwakku, enquanto eu proferi a conferência conclusiva. Por fim, a ser recordada a minha participação – a convite da comunidade Santo Egídio – na conferência ‘Caminhos de paz’,  que em 6 de novembro me deu a ocasião de compartilhar momentos de fraternidade com o Grão Imã de al-Azhar.”.
Depois falou das viagens do secretário do dicastério:
Viajou muito o bispo secretário Miguel Ángel Ayuso Guixot: em março, ao Catar para a quinta conferência do Research center for islamic legislation and ethics sobre o tema ‘Conflito e resistência ética: para uma compreensão crítica da jihad e da “guerra justa’; e, em julho inicialmente ao Egito, onde na sede da nunciatura apostólica foi estudado um documento de intenções com al-Azhar para uma futura colaboração comum, e então à República dos Camarões para a 11.ª assembleia plenária da Acerac (Associação das conferências episcopais da região da África Central). Em agosto, o missionário comboniano foi até ao Japão para o 30.º encontro de oração pela paz realizado no monte Hiei, em Kyoto, e então ao Chile para a segunda conferência ‘América em diálogo. Nossa casa comum’. Por fim, foi a Berkeley, Califórnia, com Mons. Khaled Akashed, responsável pelo islão, ao quarto fórum católico-muçulmano, nascido da famosa Carta dos 138 ‘Uma Palavra Comum’.”.
E em relação à assembleia plenária do Pontifício Conselho – na metade do ano – dedicada ao ‘papel das mulheres na educação à fraternidade universal’, um tema inovador, declarou:
É uma chave de leitura que se inspira no magistério pontifício. Francisco sempre pediu para valorizar a presença feminina dando-lhe maior espaço. E, recebendo-nos no final dos trabalhos, reiterou que “a mulher, possuindo caraterísticas peculiares, pode oferecer uma importante contribuição ao diálogo com a sua capacidade de escutar, de acolher e de abrir-se generosamente aos outros.”.
Também se pronunciou sobre o significado das mensagens que enviou, em nome do seu dicastério, por ocasião das festas de outras religiões:
Trata-se de gestos de cortesia, nos quais nos unimos aos momentos de alegria vividos pelos fiéis em várias partes do mundo. Basta pensar na mensagem que há cinquenta anos dirigimos aos muçulmanos no mês do Ramadão, focada este ano de 2017 no cuidado pela casa comum. Pelo Vesakh/Hanamatsuri pedimos aos budistas para percorrer juntos o caminho da não-violência, enquanto para o Diwali exortamos os hinduístas a irem contra a intolerância. Além disso também escrevi uma carta aos trabalhos da Christian-Confucian consultation realizada na Coreia.”.
Assentiu que existe uma imagem que poderá simbolizar os trabalhos realizados ao longo do ano transcorrido:
Talvez justamente a publicada no L’Osservatore Romano na primeira página por ocasião da audiência pontifícia de 7 de novembro ao Grão Imã de al-Azhar, Ahmed Muhammad al-Tayyib. No final, Francisco convidou o Xeique para o almoço na Santa Marta, para onde os dois foram a pé, conversando durante o percurso.”.
Tira a ilação de que “os esforços do Papa e nossos se concretizaram nesta frutuosa visita do líder religioso do islão sunita realizada em uma atmosfera de simpática familiaridade”.
E conclui sobre o significado destas ações:
Tudo isto demonstra a importância para nós cristãos de permanecer ancorados com coerência na nossa fé, ante as dificuldades de um mundo tão plural, sem ceder ao desânimo: por uma melhor compreensão dos desafios caraterísticos de uma realidade multicultural e para testemunhar que é possível conviver, na convicção de que o amor é a única força capaz de tornar o mundo um lugar melhor”.
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Talvez seja interessante fazer referência às mensagens que, em nome do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso, enviou aos budistas, aos muçulmanos e aos hindus.
A 22 de abril, enviou mensagem aos budistas por ocasião do Vesakh, desejando que a “festa infunda alegria e paz em todos”, nas “famílias, comunidades e nações” e apelando a que “Cristãos e budistas: percorramos juntos o caminho da não-violência”. Entre outras coisas, diz:
Embora reconheçamos a unicidade das nossas duas religiões, com as quais permanecemos comprometidos, concordamos que a violência brota do coração do homem e que os males da pessoa causam males estruturais. Por isso, somos chamados a um empreendimento comum: estudar as causas da violência; ensinar os nossos seguidores a combater o mal nos seus corações; libertar do mal tanto as vítimas como os que praticam a violência; formar os corações e as mentes de todos, especialmente das crianças; amar e viver em paz com todos e com o meio ambiente; ensinar que não existe paz sem justiça, nem verdadeira justiça sem perdão; convidar todos a colaborar para a prevenção dos conflitos na reconstrução das sociedades fragmentadas; encorajar os meios de comunicação social a evitar e combater discursos de ódio e relatórios de parte e provocatórios; fomentar as reformas no campo da educação, para prevenir a deturpação e a má interpretação da história e dos textos das Escrituras; e, por fim, rezar pela paz no mundo, percorrendo juntos o caminho da não-violência.[…] Podemos dedicar-nos ativamente à promoção no seio das nossas famílias, assim como nas instituições sociais, políticas, civis e religiosas, um novo estilo de vida em que se rejeite a violência e se respeite a pessoa humana.”.
A 2 de junho, a mensagem aos muçulmanos para o Ramadão assegura a solidariedade orante no tempo de jejum no Ramadão e na celebração conclusiva do ‘Id al-Fitr, estendendo de coração os melhores votos de serenidade, alegria e abundantes dons espirituais, e destacou: “Cristãos e muçulmanos: juntos no cuidado da casa comum”. Depois, refere, entre outras coisas:
O Papa Francisco afirma que ‘a crise ecológica é um apelo a uma conversão interior profunda’ (Laudato Si’ n. 217). O que é necessário é a educação, uma abertura espiritual e uma ‘conversão ecológica global’ para enfrentar adequadamente este desafio. Como crentes, o nosso relacionamento com Deus deve ser cada vez mais evidente, através do modo como nos relacionamos com o mundo que nos rodeia. A nossa vocação para ser os guardiões da obra de Deus não é nem opcional nem marginal em relação ao nosso compromisso religioso como cristãos e muçulmanos: é uma parte essencial dela.”.
E formula os seguintes votos:
Que os pensamentos religiosos e as bênçãos que derivam do jejum, da oração e das boas obras possam sustentar-vos, com a ajuda de Deus, no caminho da paz e da bondade, a cuidar de todos os membros da família humana e de toda a criação!”.
E, a 19 de outubro, na mensagem aos hindus para transmitir cordiais saudações pela festividade de Deepavali, desejando que a “celebração ilumine as vossas mentes e a vossa vida e dê alegria aos vossos corações e às vossas casas, fortalecendo famílias e comunidade”, estabelece o propósito: “Cristãos e hindus: além da tolerância”. E diz, entre outras coisas:
Devemos aceitar o desafio de ir além dos confins da ‘tolerância’ e mostrar respeito pelos indivíduos e comunidades, pois cada um merece e deseja ser valorizado segundo a sua dignidade inata. Isto exige a construção de uma verdadeira cultura do respeito, capaz de promover a resolução dos conflitos, a construção da paz e uma vida harmoniosa. Radicados nas nossas tradições espirituais e unidos na preocupação partilhada pela unidade e o bem-estar de todos, possamos nós, cristãos e hindus, juntamente com outros crentes e pessoas de boa vontade, encorajar nas nossas famílias e comunidades, e através dos ensinamentos religiosos e dos meios de comunicação, o respeito por todas as pessoas, especialmente de culturas e crenças diversas das nossas, que vivem no meio de nós. Deste modo, iremos além da tolerância para construir uma sociedade harmoniosa e pacífica, na qual todos são respeitados e encorajados a cooperar para a unidade da família humana com o seu contributo único.”.
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É uma boa folha de serviço e um bom caderno de encargos a desenvolver, cumprir e ampliar semeando Evangelho oportuna e importunamente com respeito, mas também com clareza.

2018.01.01 – Louro de Carvalho