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terça-feira, 1 de maio de 2018

“O fim da maior parte da vida no planeta”


A propósito da conferência programada para o Porto no próximo dia 6 de julho, cuja estrela será Barack Obama a discorrer sobre as alterações climáticas, parece-me oportuna a reflexão ameaçante do cientista britânico Mayer Hillman numa inquietante entrevista ao The Guardian, em que assegura que “não há forma de reverter o processo de alteração climática que está a derreter as calotes polares”. E frisa que “é o fim da maior parte da vida no planeta”.
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Hillman é um cientista social britânico de 86 anos, com um currículo académico recheado de estudos de dossiês ligados a transportes, planeamento urbano, segurança rodoviária, ambiente e alterações climáticas – de que ressaltam enunciados de “grande assertividade” e “invulgar capacidade de projetar ideias à frente do seu tempo e de antever, em suas dissertações, aspetos que, mais tarde, se vêm a confirmar ou soluções que, a posteriori, acabam por ser aplicadas.
Anote-se, em termos de reconhecimento do seu pioneirismo, que o coloca bem “à frente do seu tempo”, em 1972, criticou a abertura de centros comerciais fora das cidades, mais de 20 anos antes de o Governo britânico, mudando as regras de planeamento, impedir a sua expansão; em 1980, recomendou a cessação do encerramento de linhas férreas – mas apenas agora algumas das linhas encerradas estão a reabrir; em 1984, propôs a instituição de classificações de energia para as habitações, o que foi adotado como política do Governo inglês em 2007; e, ainda, algumas das suas posições políticas acabaram por se tornar comuns – como a defesa de limites de velocidade de 20 km/h nalgumas zonas.
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Doutorado pela Universidade de Edimburgo, Escócia, e professor (agora emérito) do Policy Studies Institute, sustenta que o aquecimento global é irreversível. Apesar de todos os esforços encetados e dos acordos climáticos firmados,  porfia que “não há forma de reverter o processo que está a derreter as calotes polares, sendo que muito poucos estão “preparados para dizê-lo”. Mas o cientista londrino não se inibe de assumir em letra de forma que “estamos condenados”.
Com efeito, na predita entrevista, Hillman declara, sem rodeios, que “o resultado é a morte” e “o fim da maior parte da vida no planeta” por nos termos tornado “tão dependentes da queima de combustíveis fósseis”. Por isso, é sombria a sua previsão das consequências das alterações climáticas, enfatizando que, tendo nós o abismo à nossa frente, “defender a utilização das bicicletas como o principal meio de transporte é quase irrelevante”. E propõe a obrigação de paramos de “queimar combustíveis fósseis”. Mais: havendo, a par de “muitos aspetos da vida que dependem de combustíveis fósseis”, tantos como “a música, o amor, a educação e a felicidade, não precisando de “combustíveis fósseis”, será nestes que “nos devemos focar”.
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É certo que “o cerne do pensamento de Hillman no último quarto de século” tem incidido sobre as alterações climáticas. Porém, o cientista é mais conhecido no Reino Unido pelo estudo na área da segurança rodoviária e nos efeitos da utilização massiva dos automóveis (Hillman acredita que a sociedade não conseguiu vencer a supremacia do carro). Observou que, por exemplo, em 1971, 80% das crianças inglesas de 7 e 8 anos se deslocavam para a escola sozinhas; e hoje é praticamente impensável uma criança com estas idades ir a pé até a escola sem a companhia dum adulto. Frisando que “removemos as crianças do perigo em vez de remover o perigo das crianças”, anota que estamos a encher as estradas com carros poluentes a caminho das escolas. Neste contexto social, “o ato de levar as crianças de carro para a escola por parte dos encarregados de educação exigiu, no ano 1990, um total de 900 milhões de horas aos adultos que as levaram, custando à economia 23 mil milhões de euros por ano”.
Assim, facilmente o cientista infere que “o fracasso da nossa sociedade em compreender o verdadeiro custo dos veículos está na génese desta dificuldade de combater as alterações climáticas”. O que dá para entender, do meu ponto de vista, que o uso e abuso do automóvel, com o quase abandono ou a subutilização de outros meios de transporte terrestre – comboio, bicicleta, dorso de animal, elétrico, troley-car, pedibus calcantibus… – se criaram as condições para o aquecimento global (foram registadas temperaturas positivas no Polo Norte no inverno quatro vezes entre 1980 e 2010, mas agora ocorreram também em quatro dos últimos cinco invernos) e se adensaram os problemas económicos, sem se resolverem os problemas da segurança de pessoas e bens.
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Obviamente que problema não está só no automóvel, mas em tudo o que tem vindo ou venha a contribuir para o desequilíbrio do ecossistema (vg: poluição, queimadas, desmatamento…).
Assim, não deixa de ser preocupante o que se passa com o permafrost ou pergelissolo, um tipo de solo existente na região do Ártico. Consiste numa espessa camada de solo congelado que, em princípio, não derreteria, dado ser uma camada formada ao longo de milhares e milhares de anos que armazenou grandes quantidades de metano e carbono no seu interior. Porém, nas épocas mais quentes do ano, a camada mais superficial de gelo do permafrost derrete, formando-se um terreno pantanoso; e, com o regresso das temperaturas baixas, o terreno volta a congelar.
Todavia, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente lançou, em 2012, o alerta sobre o derretimento acentuado do permafrost. O problema reside no facto do derretimento libertar grande quantidade de metano e de carbono, até aí aprisionada no gelo. Em contacto com a atmosfera, tal carbono transforma-se em dióxido de carbono, um dos principais gases responsáveis pelo agravamento do efeito de estufa. Quanto ao metano, gás com efeito de estufa mais potente que o CO2, foi descoberta uma perfuração desta camada de gelo.
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Para Hillman, os dados são claros: o clima está a aquecer e sobe o nível dos oceanos.
De resto, o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (IPCC) estimava que o mundo, no seu curso atual, iria aquecer até 3ºC até 2100. Contudo, modelos revistos ​​recentemente sugerem uma estimativa mais favorável de 2,8ºC. Não obstante, Hillman lembra que os cientistas ainda estão confrontados com a dificuldade de prever o real impacto, no futuro, de situações como as da libertação de metano pelo derretimento dos permafrost.
Depois, o cientista londrino mostra a sua surpresa pelo facto de as análises nos media raramente se estenderem para lá do horizonte de 2100, referindo:
Isso é o que eu acho extraordinário quando os cientistas alertam que a temperatura pode subir para 5ºC ou 8ºC. E vão parar aí? Que legado estamos a deixar às futuras gerações? No início do século XXI, não fizemos nada de bom para dar resposta à mudança climática no planeta. Os nossos filhos e netos serão extraordinariamente críticos.”.
Hillman sustenta que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera foi confirmada em mais de 400 partes por milhão, o nível mais elevado em, pelo menos, três milhões de anos (quando o nível do mar era 20 metros mais alto do que agora). Adiantando que, “mesmo supondo que o mundo tivesse hoje uma pegada zero-carbono, isso não nos salvaria porque passámos do ponto sem retorno” ou, dito de outro modo, “mesmo que não emitíssemos, em absoluto, dióxido de carbono, daqui em diante, o que se conseguiria era uma redução do ritmo de subida das emissões, não a redução das emissões”.
Em coerência com as conclusões dos seus estudos, nos últimos mais de vinte anos, Hillman não viajou de avião como parte do compromisso pessoal de reduzir as emissões de carbono. No entanto, mostra desdém pelo contributo das ações individuais que descreve como “tão boas quanto fúteis”. Aliás, pela mesma lógica, segundo Hillman, também é irrelevante a ação nacional “porque a contribuição da Grã-Bretanha é diminuta” e, “ mesmo se o Governo fosse para zero carbono, isso não faria quase diferença alguma”.
Como solução, o cientista londrino propõe que a população mundial passe a ter, em todos os campos, zero emissões, desde a agricultura, às viagens aéreas, da navegação, ao aquecimento de casas – para abrandar o ritmo de aumento da temperatura global.
Outro pressuposto apontado pelo cientista é a redução da população humana. Porém, tal não pode ser feito sem um colapso da civilização. Tanto assim parece que Hillman lançou em tom provocatório ao entrevistador do The Gaurdian as seguintes questões:
Consegue ver todas as pessoas do mundo numa democracia a voluntariarem-se para desistir de voar? Consegue ver a maioria da população a tornar-se vegetariana? Consegue ver a maioria a concordar em restringir o tamanho dos seus agregados familiares?”.
Não há dúvida de que o cenário futurista traçado por Hillman é assustador, quase catastrófico, em que se acentuam dramaticamente as desigualdades, como explica o cientista: “as pessoas ricas serão mais capazes de se adaptar, mas a população mundial deslocar-se-á para regiões do planeta, como o norte da Europa, que será temporariamente poupado dos efeitos extremos da mudança climática”. E surge pertinente a questão: “Como vão essas regiões responder”?
E o cientista chama a atenção para o que se vê agora: os migrantes impedidos de chegar.
O The Guardian lembra que um pequeno grupo de artistas e escritores, como o projeto Dark Mountain de Paul Kingsnorth, abraçou a ideia de que a “civilização” terminará numa catástrofe ambiental, mas poucos cientistas sugeriram isso. Mas, quando o jornalista questiona o cientista sobre se a sua visão é consequência da velhice e/ou da doença, ele não se inibe de responder: “Eu há trinta anos que venho afirmando este tipo de coisas, quando era forte e saudável”.
E o mais notável na entrevista ao The Guardian é o facto de este cientista ter insistido com o jornalista que o entrevistou que não deveria apresentar o seu pensamento sobre as alterações climáticas como “uma opinião”.
(vd a este respeito: https://www.wattson.pt/2018/04/30/3447/; e https://brasilescola.uol.com.br/geografia/aquecimento-global.htm).
Hillman acusa os líderes – dos religiosos aos cientistas, passando pelos políticos – de não discutirem honestamente o que fazer para passarmos para emissões zero de carbono. E lamenta:
Eu não acho que eles podem, porque a sociedade não é organizada para permitir que eles façam isso. O enfoque dos partidos políticos é no emprego e no PIB, os quais dependem da queima de combustíveis fósseis.”.
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Já sabemos que Trump nega o problema das alterações climáticas, no pressuposto de que o espantalho foi criado e agitado para dar cobertura à emergência de algumas economias e evidenciar a ambição de notoriedade política de alguns líderes. Espero vir a conhecer o que vem dizer Obama ao Porto. Para já remeto-me para a releitura da Encíclica de Francisco Laudato Si, sobro cuidado da Casa Comum, que sublinha a responsabilidade de todos pelos erros cometidos contra o planeta, mormente os decisores, que não regulamentam as atividades económicas, e os empreendedores eivados da sede desmedida do lucro, colocando em risco milhões de pessoas que não veem meio de sair do limiar da pobreza e mesmo miséria. Haja Deus!
2018.05.01 – Louro de Carvalho  

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Donald Trump cumpre: rasga acordo de Paris e quer renegociá-lo

A saída do Acordo de Paris foi uma das promessas eleitorais de Trump. Por consequência e apesar de ter recebido com bonomia a encíclica Laudato Si’ do Papa Francisco, declarando que não se esqueceria de nada do que o Pontífice lhe disse, o Presidente anunciou, a 1 de junho, nos jardins da Casa Branca, que os EUA vão abandonar o Acordo de Paris, assinado por Barack Obama em 2015, durante a Cimeira do Clima, declarando:
“Vamos começar a renegociar e ver se é possível alcançar um acordo que seja justo”.
No seu longo discurso, que ignora a medida do mundo, explicitou:
“Estamos a cumprir com as nossas obrigações e não quero que nada se meta no nosso caminho. Luto todos os dias pelo grande povo da América e, por isso, para cumprir o meu dever solene de proteger a América e os seus cidadãos, os Estados Unidos vão sair do Acordo do Clima de Paris.”.
Enumerando todos os feitos alcançados pela sua administração desde a tomada de posse, a 20 de janeiro, Trump garantiu que manteve todas “as promessas” que fez “ao povo americano durante a campanha”. E, garantindo ser alguém que se preocupa “profundamente com o clima”, disse não poder apoiar conscientemente um acordo que “prejudica os Estados Unidos da América” – um acordo “muito injusto para os Estados Unidos ao mais alto nível”, pois limita o poder de decisão do Governo norte-americano e intromete-se nos assuntos internos. E, sem explicar em que consistia a alegada intromissão em concreto, sustentou:
“Os líderes mundiais não devem ter mais poder de decisão sobre o que se passa nos Estados Unidos do que os seus cidadãos. A nossa Constituição é única no mundo e é minha obrigação – e grande honra – protegê-la. E fá-lo-ei.”.
Considerando aquele tratado internacional uma “ferida autoinfligida na economia” norte-americana, o Presidente pintou um cenário negro: se os EUA permanecessem no acordo, haveria grandes riscos para o país, pois, trata-se duma “distribuição massiva da riqueza dos Estados Unidos para os outros países”. Esquece que muitos americanos provêm de outras paragens!
E, procurando afastar os receios sobre o aumento das emissões de CO2, o Presidente garantiu que os EUA iriam ser o “país mais limpo” do mundo em ar e águas, desafiando mesmo os líderes mundiais a voltarem a Paris a fazer um acordo que seja justo para os EUA e para o povo norte-americano, dizendo: “Se conseguirmos, é bom; se não o conseguirmos, não faz mal”.
Scott Pruitt, presidente da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, elogiou esta decisão “corajosa” que reflete “o compromisso” de “colocar a América em primeiro lugar”, salientando:
“Prometeu que a América estaria em primeiro lugar e fez isso de diversas formas. Hoje pôs a América em primeiro lugar no que diz respeito aos acordos internacionais do clima.”.
Frisando que os EUA têm “finalmente um líder que responde apenas ao seu povo”, aquele responsável salientou que tudo o que o que Trump faz o “faz pelos homens e mulheres esquecidos deste país”, sendo que assim “a classe trabalhadora vai beneficiar com esta decisão” e o Presidente “com esta ação declara que as pessoas são novamente líderes deste país”.
Scott Pruitt, garantindo que os EUA não devem desculpas “a outros países”, afirmou que o país deve procurar dar o exemplo e ensinar os outros Estados a diminuírem as emissões de CO2, assegurando: “Lideramos com ações, não com palavras”. Dispensa-se a lição!
Trump sempre se mostrou cético em relação ao aquecimento global (até chegou a admitir tratar-se de uma invenção dos chineses). Já depois das eleições, a atual administração deixou claro que iria abandonar todas as metas de emissões estabelecidas pelo Governo de Barack Obama, ou seja, o compromisso de ajudar os países mais pobres a combater o aquecimento global e reduzir o investimento na investigação de novas soluções. E, depois de muita especulação, Trump revelou no dia 31 de maio, pelo Twitter, que iria anunciar publicamente a sua decisão relativa ao acordo às 20 horas deste dia 1 de junho. Durante o dia, vários jornais norte-americanos, citando fontes oficiais, davam como certa a saída dos EUA do acordo.
Recorde-se que o Acordo foi assinado em dezembro de 2015, em Paris, com o objetivo de conter as alterações climáticas, reconhecendo que estas representam uma ameaça iminente e potencialmente irreversível para o planeta. Entre vários pontos, o documento prevê a redução das emissões de gases com efeito de estufa, mantendo o aumento da temperatura abaixo dos 2º C. O documento foi firmado entre 195 Estados, à exceção da Nicarágua e a Síria.
Embora tenha participado na cimeira, a Nicarágua não assinou o documento por não concordar com o facto de todas as medidas serem voluntárias e não existirem punições para quem não cumpra com o estipulado. E entendia que os Estados mais ricos deviam ser responsabilizados pelas alterações climáticas, por serem os principais responsáveis por elas.  
Ao invés da Nicarágua, a Síria nem participou na Cimeira do Clima. As razões são claras: o país não era visto com bons olhos pela comunidade internacional. Além disso, as sanções aplicadas tanto por europeus como por norte-americanos impossibilitavam a deslocação a França de qualquer membro do Governo de Bashar al-Assad, como explica o The Washington Post.
Não obstante, a verdade é que estes dois países são responsáveis por uma percentagem muito pequena das emissões de gases com efeito de estufa, quando comparados com as grandes potências, como os EUA ou a China, que representam cerca de 38% das emissões globais.
Com a saída dos EUA, este torna-se no terceiro país a não ter a assinatura no Acordo de Paris.
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França, Alemanha e Itália emitiram um comunicado conjunto afirmando que o Acordo de Paris não pode ser renegociado. Refere o documento:
“Consideramos irreversível o movimento gerado em Paris, em dezembro de 2015, e acreditamos firmemente que o Acordo de Paris não pode ser renegociado, uma vez que é um instrumento vital para o nosso planeta, sociedades e economias”.
Sustentando que “a implementação do Acordo de Paris oferece oportunidades económicas substanciais para a prosperidade e crescimento dos nossos países a uma escala global”, reafirmaram o compromisso de implementar o tratado, que inclui “metas de financiamento climático”, encorajando os parceiros “a acelerarem as suas ações para combateram as alterações climáticas” e prometendo intensificar os “esforços para apoiar os países em desenvolvimento, em particular os mais pobres e vulneráveis, a alcançarem os seus objetivos de mitigação e adaptação”. Ficam, nesta ótica, os EUA e o seu Presidente orgulhosamente sós.
Esta posição conjunta foi reiterada a título pessoal pelo Presidente francês, Emannuel Macron, que afirmou, durante uma conferência de imprensa, que não há nada que possa ser negociado, revelando ter falado ao telefone com o seu homólogo norte-americano, cuja decisão respeita, mas julgando que “é um erro para os Estados Unidos e para o nosso planeta”. Afirmando a crença da França e do mundo nos EUA, Macron frisou que França não vai deixar de “lutar” contra o aquecimento global. E escreveu no Twitter: Make our planet great again (“vamos tornar o nosso planeta grande outra vez”).
Também Angela Merkel telefonou a Trump minutos depois do anúncio, lamentando a decisão tomada pelo Presidente norte-americano. De acordo com o porta-voz da chanceler alemã, Steffen Seibert, Merkel garantiu que continuará a trabalhar para “salvar o nosso planeta”.
E, segundo a CNN, a primeira-ministra britânica mostrou-se desapontada com a decisão. Para May, o acordo “fornece o quadro global correto para proteger a prosperidade e segurança das gerações futuras, mantendo a energia acessível e segura para os nossos cidadãos e empresas”.
O Ministro da Energia australiano, Josh Frydenberg, também já reagiu ao comunicado de Trump. À ABC, mostrou-se dececionado com a decisão tomada pelo Presidente, dizendo:
“Ainda acredito que é um acordo importante. Foi assinado por mais de 190 países em tempo recorde e foi ratificado por 146. Portanto, mesmo sem os Estados Unidos, cerca de 70% das emissões mundiais estão abrangidas pelo acordo.”.
De acordo com a CNN, 50 presidentes de câmara norte-americanos emitiram uma nota em que apelam a Trump que mantenha o Acordo de Paris.
Também Barack Obama, que foi quem assinou o Acordo do Clima de Paris, em 2015, não ficou indiferente à decisão presidencial e emitiu um comunicado onde relembra que “foi a audaz ambição americana que encorajou dezenas de outras nações”. O antigo Presidente dos EUA lamentou a administração Trump que se junta agora “às nações que rejeitam o futuro”. No comunicado, Obama mostrou que foi a inovação das empresas e investimento público em indústrias crescentes como as eólicas e solares que contribuíram para o “maior fluxo de aumento de emprego da história [dos Estados Unidos]”. E explicitou:
“O Acordo de Paris abriu portas para as empresas, cientistas e engenheiros desencadearem investimentos e inovações de alta tecnologia e de baixa emissão de carbono a uma escala sem precedentes”.
Obama termina o comunicado confiante nos “estados, cidades e empresas” que, acredita, vão “ajudar a proteger as gerações futuras do planeta”.
Por seu turno, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima afirmou, em comunicado, que o Acordo de Paris não pode ser renegociado “com base no pedido” de apenas um país. Apesar disso, o organismo está disponível “para dialogar com o Governo dos Estados Unidos relativamente às implicações deste anúncio”.
O Presidente da República de Portugal defendeu que as alterações climáticas são uma evidência que “se vai impor”, mesmo que haja alguém que “se considere importantíssimo no mundo que negue isso”. E reforçou:
“É uma evidência tão óbvia a necessidade de olhar para as alterações climáticas que bem pode haver quem se considere importantíssimo no mundo que negue isso que não altera a realidade. A realidade é o que é. E vai ser o que é, e não para por causa de uma posição isolada, por muito importante que se considere.”.
De visita à ilha das Flores, nos Açores, afirmou ainda que a Europa deve unir-se e “continuar a ser uma campeã desta causa”.
Também o nosso Ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, considerou a saída dos EUA “uma decisão grave”, sublinhando que o aquecimento global “é uma questão que nenhum país pode resolver sozinho”. Em declarações à agência Lusa, o Ministro defendeu que a decisão de Trump é negativa para os EUA e declarou:
“Não existe espaço no mundo, mesmo numa economia de grande dimensão como a americana, para imaginar que essa mesma economia pode crescer baseada no carvão”.
Sobre o impacto da desvinculação do Acordo de Paris por parte dos EUA, o titular português da pasta do Ambiente afirmou “acreditar que, do ponto de vista da reversão efetiva da redução das emissões poluentes, não venha a ser tão negativa quanto isso”. Para Fernandes, “um país e uma democracia como os Estados Unidos da América [são] muito mais do que a sua administração”.
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Porém a reação mais lúcida veio pela pena de Guterres: “Se um governo coloca em causa a vontade e a necessidade mundiais, é uma razão para todos os outros se unirem ainda mais”.
O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas) considerou “absolutamente essencial” que o acordo de Paris contra as alterações climáticas seja concretizado, quando se admite que os EUA possam mudar de posição face ao mesmo. No seu primeiro grande discurso consagrado ao aquecimento global e às subsequentes alterações climáticas, António Guterres considerara que os objetivos fixados pelo acordo, estabelecido em 2015, deveriam ser cumpridos “com uma ambição acrescida”. E lembrou que os EUA integram o conjunto de 147 Estados e entidades que assinaram e ratificaram este texto histórico que visa limitar o aquecimento global do planeta a menos de dois graus centígrados, através da redução da emissão de gases com efeito de estufa.
Guterres não evocou diretamente os recentes questionamentos de Donald Trump, mas afirmou que, “se um governo coloca em causa a vontade e a necessidade mundiais quanto ao que respeita a este acordo, é uma razão para todos os outros se unirem ainda mais”. Por isso, devemos fazer todo o possível para reforçar as nossas ações e ambições até que consigamos inverter a curva das emissões e reduzir o aquecimento mundial
Durante a cimeira do Grupo dos 7, no último fim de semana, Trump recusou juntar-se aos representantes das outras grandes economias na garantia da concretização do acordo de Paris, prometendo, na sua esperteza saloia, que iria revelar a sua decisão durante esta semana. 
Entretanto, o secretário-geral da ONU, que qualificou o acordo como um “momento notável na história da Humanidade”, assegurou que as empresas do setor da energia não tinham esperado as políticas governamentais para se atualizarem na economia verde e advertiu:
“Os que falharem na transição para a economia verde vão conhecer um futuro cinzento”.
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As reações contra o anúncio de Trump têm-se multiplicado. Ressalta o caso do grande empresário e conselheiro do Presidente, Elon Musk, que reagiu à decisão presidencial de abandono do Acordo de Paris contra as alterações climáticas, deixando o grupo de conselheiros de Donald Trump. O CEO da Tesla e da SpaceX escreveu, no dia 30 de maio, no Twitter:
“Estou de saída do conselho presidencial. Alterações climáticas são reais. Deixar Paris não é bom para a América ou o mundo.”.
Musk, que já tinha revelado que estava a tentar mudar a opinião do Presidente e de outras pessoas na Casa Branca, prometera deixar os cargos de conselheiro caso Donald Trump anunciasse a saída dos EUA do acordo global pela redução dos efeitos das alterações climáticas.
Elon Musk era um dos 18 empresários conselheiros de Trump, num grupo conhecido por Fórum Estratégico e de Políticas. E aconselhava-o na sua iniciativa para criar empregos na indústria.
Também Fareed Zakaria, jornalista da CNN e especialista em assuntos internacionais, considera que esta decisão tirou aos EUA o estatuto de “líder do mundo livre” e que “este foi o dia em que os Estados Unidos se demitiram de líderes do mundo livre”. O especialista defendeu, ainda, que o acordo das alterações climáticas era “extraordinariamente flexível”, daí não compreender a “irresponsabilidade” desta decisão.
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Sim, é mesmo duma decisão irresponsável que se trata e de um atropelo à solidariedade entre os povos. A negação da interdependência e da cooperação sobrepôs-se descarada e soberbamente à necessidade de correção de estilos desviantes em relação à sanidade do Planeta e aos legítimos interesses dos seus habitantes. Resta a ação de resposta coletiva que deixe a descoberto a vergonhosa nudez da Administração norte-americana!

2017.06.01 – Louro de Carvalho