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domingo, 27 de maio de 2018

Deus Uno e Trino urge a edificação da comunidade e a integração trinitária


A Solenidade da Santíssima Trindade, não sendo um apelo à decifração do mistério oculto num “Deus em três pessoas”, convida à descoberta da profunda intimidade e do verdadeiro rosto de Deus e, por conseguinte, à contemplação do Deus uno que, na trindade de pessoas e na diversidade de funções, é amor, família e comunidade e que pretende fazer comungar nesse mistério de amor os homens, já que para isso os criou. É o Deus da relação e da familiaridade.
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O Evangelho (Mt 28,16-20) mostra Jesus a indicar aos discípulos em nome de quem lhes confia o mandato. Com efeito, o discípulo tem de se vincular à comunidade de Pai, Filho e Espírito Santo, participando, por obra de Deus, no mistério intratrinitário. Por isso, o Mestre confia aos discípulos a missão de testemunhar a sua proposta de vida no meio do mundo e de apresentar a todos os homens e mulheres, sem exceção, o desafio de integrar a comunidade trinitária.
O trecho leva-nos à Galileia, após a ressurreição (sem especificar que tempo se passou desde a descoberta do túmulo vazio – cf Mt 28,1-15). Jesus, antes da prisão, marcara encontro com os discípulos na Galileia (cf Mt 26,32); na manhã da ressurreição, os anjos aparecidos às mulheres (cf Mt 28,7) e o próprio Jesus, redivivo (cf Mt 28,10) reiteram o agendamento do encontro de Jesus com os discípulos na Galileia. A Galileia – a região nortenha da Palestina – era próspera, bem povoada, fértil e bem agricultada. Pela situação geográfica, fez-se ponto de encontro de muitos povos e habitação de muitos pagãos. Por isso, os judeus da Galileia viviam a religião de modo diverso dos de Jerusalém e da Judeia suavizando a prática da Lei e fazendo uma interpretação mais livre dalgumas regras como as referentes às impurezas rituais resultantes do contacto com não judeus – o que induzia os hierosolimitas a considerar que da Galileia “não podia sair nada de bom”.
Não obstante, foi lá que Jesus viveu quase toda a sua vida terrena e começou a anunciar o Evangelho do Reino, reunindo em torno de si um grupo de discípulos (cf Mt 4,12-22). Mateus vê no facto a dimensão universal do anúncio libertador, ou seja, que se destina a judeus e pagãos.
Mateus situa o encontro final entre o Ressuscitado e os discípulos no monte que Jesus indicara. Porém, sendo uma montanha da Galileia impossível identificar geograficamente é conexa com a da tentação (cf Mt 4,8) e a da transfiguração (cf Mt 17,1) e simbolicamente, como no Antigo Testamento, o lugar onde Deus se revela aos homens.
O trecho evangélico divide-se em duas partes. A primeira (vv 16-18) descreve o encontro. O Ressuscitado revela­-se aos discípulos, que O reconhecem como o Senhor e O adoram. Depois, Mateus acrescenta uma expressão traduzida por uns como “alguns ainda duvidaram” e por outros como “eles que tinham duvidado”. Assim, a expressão significaria que a fé não é certeza científica e não exclui a dúvida ou aludiria à dúvida recorrente dos discípulos – patente em vários momentos, ao longo da caminhada para Jerusalém – e que ora deixa de fazer sentido. Segue-se a solene manifestação do mistério de Jesus, que reflete a fé da comunidade de Mateus: Jesus é o Kyrios, com todo o poder no céu, no mundo e na história; é “o mestre”, cujo ensinamento será sempre a referência para os discípulos; é o Emmanuel (Deus­ connosco), que acompanha pari passu a caminhada dos discípulos na história. Na 2.ª parte (vv 19-20), surge o igualmente envio em missão pelo mundo. A Igreja é, pois, a comunidade missionária cuja missão é testemunhar a proposta de salvação e libertação que Jesus veio trazer aos homens, mas deixada no coração e nas mãos dos discípulos. Em primeiro lugar, assinala-se a universalidade do envio e da missão (a “todas as nações”); em segundo, notam-se duas fases na iniciação cristã, conhecidas da comunidade mateana: o ensino e o batismo. Primeiro, ministra-se a catequese, com as palavras e os gestos de Jesus (começava-se pelo catecumenato, com as bases da proposta de Jesus); depois, já devidamente informados da proposta de Jesus, os catecúmenos recebiam o batismo – a selar a íntima vinculação do discípulo com a Trindade – Pai, Filho e Espírito Santo.
Jesus garante o apoio e acompanhamento constante aos discípulos, “até ao fim dos tempos”. Por isso, todos os crentes da comunidade sabem que o Ressuscitado estará sempre com a Igreja, acompanhando-a na marcha pela história, a ajuda-la na superação das crises e dificuldades.
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A 1.ª leitura (Dt 4,32-34.39-40) mostra-nos o Deus da relação a criar comunhão e familiaridade com o Povo, o Deus único que vem ao encontro dos homens, se faz próximo deles, lhes fala, lhes aponta caminhos seguros de liberdade e vida, está permanentemente atento aos seus problemas e intervém no mundo para os libertar de tudo o que os oprime e para lhes oferecer perspetivas de vida plena e verdadeira.
O Deuteronómio é o livro da Lei ou o livro da Aliança descoberto no Templo de Jerusalém no 18.° ano do reinado de Josias (622 a.C., cf 2 Rs 22). Nele, os teólogos deuteronomistas – originários do Norte, mas refugiados no Sul após as derrotas dos reis do norte frente aos assírios – sintetizam a essência da sua teologia: há um só Deus (não um entre outros), que deve ser adorado por todo o Povo num único local, Jerusalém; este Deus amou e elegeu Israel, com quem fez uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um único Povo, a propriedade pessoal de Jahwéh.
Compõem o livro o tríplice discurso de Moisés proferido nas planícies de Moab. Pressentindo a proximidade da morte, Moisés deixa ao Povo um “testamento espiritual”: lembra-lhe os compromissos assumidos para com Deus e convida-o a renovar a aliança.
O trecho tomado para esta Solenidade é parte do 1.º discurso de Moisés (cf Dt 1,6-4,43). A princípio (cf Dt 1,6-3,29), em estilo narrativo, o autor põe na boca de Moisés uma resenha da história do Povo, desde a estada no Horeb/Sinai até à chegada ao monte Pisga, na Transjordânia; e, na parte final (cf Dt 4,1-43), em estilo exortativo, vem uma súmula da Aliança e das suas exigências. Esta secção começa com a expressão “e agora, Israel …”, que enlaça esta secção com a precedente, para mostrar que o compromisso pedido a Israel se apoia nos acontecimentos históricos anteriormente expostos. A ação de Deus ao longo da caminhada do Povo pelo deserto deve conduzir ao compromisso o mesmo Povo, que pela sua experiência secular foi ganhando progressivamente a consciência da presença operante Deus na sua história de Povo.
O cap. IV do Deuteronómio é redigido na fase final do Exílio na Babilónia. Perdido em terra estrangeira, mergulhado numa cultura estranha, hostilizado ao tentava afirmar a fé em Jahwéh e celebrá-la pelo culto e impressionado pelo esplendor ritual e solenidades do culto pagão, o Povo da Bíblia corria o risco de trocar Jahwéh pelos deuses babilónicos, que escravizam. Neste contexto, os deuteronomistas convidam o Povo a olhar a história, a redescobrir nela a presença salvadora e amorosa de Jahwéh e a comprometer-se com o Deus da Aliança, o Deus da liberdade e da esperança.
No trecho proposto, o autor convida Israel a contemplar a história “desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra”. O resultado dessa contemplação é a verificação do contínuo empenho de Jahwéh em oferecer ao Povo a vida e a salvação. Toda a história da relação entre Deus e Israel é uma história de relação, em que se manifesta o amor do Deus empenhado em estabelecer comunhão e familiaridade com o Povo, em criar unidade na diversidade. Jahwéh escolheu Israel de entre todos os povos da terra, veio ao seu encontro, falou-lhe ao coração e realizou gestos destinados a trazer ao Povo ao encontro da vida. De muitos modos fez ouvir a Sua voz, indicou caminhos e guiou o Povo da escravidão para a liberdade. Por isso, o autor ensina como se deve situar Israel diante de Deus e responder aos Seus apelos.
Na ótica deuteronomista, Israel deve, antes de mais, reconhecer que “só o Senhor é Deus e que não há outro”. D’Ele e só d’Ele brotam a vida, salvação, felicidade e liberdade. Por isso, o Povo não pode colocar a sua esperança e a sua realização noutros deuses, noutras propostas ilusórias e enganadoras. Deve, sim, cumprir as leis e os mandamentos de Deus, pois são o caminho seguro para a felicidade. Este “caminho”, apontado aos crentes de Israel (e aos de todas as épocas e lugares) não é caminho de dependência e servidão, mas de felicidade. Deus não se imiscui na vida dos homens para os tornar dependentes, mas para libertar cada um e o levar à felicidade plena.
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A 2.ª leitura (Rm 8,14-17) confirma que o Deus em quem acreditamos não é distante e inacessível, que se tenha demitido do papel de Criador e de Providência como se assistisse indiferente e impassível aos dramas dos homens. É, sim, um Deus que acompanha com paixão a caminhada da humanidade e não desiste de propiciar aos homens a vida plena. Nenhum de nós Lhe é indiferente. Embora saiba que somos livres de O aceitar ou de O recusar, não desiste de nós. E, nessa persistência paciente, torna-se exemplo para a nossa persistência paciente com os outros, para o estabelecimento e melhoria da relação mútua e do encaminhamento para Deus.
Esta epístola, serena e amadurecida, da pena de Paulo por volta do ano 57/58 e no qual o apóstolo apresenta uma síntese da sua mensagem e pregação, tem como pretexto o projeto de passagem por Roma, a caminho de Espanha (cf Rm 16,23-24), pois, sentindo terminada a sua missão no Oriente, intenta anunciar o Evangelho de Jesus no Ocidente. Porém, esta passagem por Roma parece ser, sobretudo, o pretexto para apóstolo se dirigir aos Romanos e lhes expor as suas ideias acerca da salvação. Na comunidade de Roma, como em quase todas as comunidades cristãs de então, havia divergências entre cristãos vindos do judaísmo e cristãos vindos do paganismo acerca do caminho cristão. Para os primeiros, a salvação dependia também da prática da Lei de Moisés; para os pagano-cristãos, a adesão a Cristo bastava. A uns e a outros, Paulo apresenta o essencial da mensagem cristã e insiste no facto de a salvação não ser uma conquista do homem (resultando dos seus atos ou méritos), mas um dom do amor de Deus. Na verdade, todos os homens vivem mergulhados no pecado, pois o pecado é uma realidade universal (cf Rm 1,18-3,20). Mas Deus, na sua bondade, a todos “justifica” e salva (cf Rm 3,1-5,11); e essa salvação é oferecida por Deus ao homem através de Jesus Cristo, restando ao homem aderir a essa proposta de salvação, na fé (cf Rm 5,12-8,39).
O trecho proposto integra um capítulo em que Paulo reflete sobre a vida nova que Deus oferece ao batizado e que Paulo chama “a vida no Espírito”. O pensamento paulino atinge aqui um dos pontos culminantes da sua teologia, pois aqui se cruzam os seus grandes temas teológicos (o projeto salvador de Deus em prol dos homens; a ação libertadora de Cristo, pela sua vida de doação, sua morte e ressurreição; a nova vida que faz dos crentes Homens Novos e os torna filhos de Deus).  
Paulo procura mostrar que os cristãos, libertos da Lei, do pecado e da morte por Jesus Cristo, deixaram a vida velha da carne (em oposição a Deus, na vida de egoísmo, autossuficiência, orgulho, fechamento) para viverem a vida nova do Espírito (em relação com Deus, escutando a Sua proposta e sugestões, na obediência ao projeto de Deus e na doação da própria vida aos irmãos), numa relação pessoal e comunitária com o Deus Uno e Trino e na relação recíproca com os irmãos que edifica a comunidade na comunhão com Deus, com os irmãos e com a Criação.
O crente que acolhe a proposta de salvação que Deus faz em Jesus vive “no Espírito”. Aceitar esta proposta de vida é aceitar a vida de relação e comunhão com Deus. Nessa relação, o crente é alimentado com a vida de Deus. Quem aceita receber a vida de Deus e vive “no Espírito” é “filho de Deus”: Deus é, para ele, um Pai que continuamente o cria e lhe dá vida. A partir de então, o crente integra a “família de Deus”, tornando-se irmão dos seus semelhantes. Os crentes não são escravos a viver no medo do patrão entronizado, ciumento e exigente (como era a Lei de Moisés), mas são “filhos” queridos, que Deus ama com amor infinito. Ao dirigirem-se a Deus, usam pelo Espírito Santo, com toda a propriedade, a palavra “Abba” (com que as crianças se dirigem ao pai e que pode traduzir-se por “papá”) – expressão de intimidade filial, que define a relação marcada pelo amor, familiaridade, confiança e ternura e que, por Cristo, nos irmana na filiação divina.
A condição de “filhos” equipara a Cristo os crentes, que se tornam, assim, “herdeiros de Deus e herdeiros com Cristo”. E a “herança” que lhes está reservada é a vida plena e imorredoira, que Deus oferece a quem aceita a proposta de Cristo e percorre com Ele a rota do amor, doação e entrega da vida. O nosso Deus é, na ótica paulina, o Deus da relação, seriamente apostado em vir ao encontro dos homens, em oferecer-lhes generosa e alegremente a vida, em integrá-los na sua família, em amá-los com amor de Pai, em torná-los herdeiros da vida plena.
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E, se o Pai Se revelou de muitos modos, sendo o mais insigne a Revelação por Seu filho feito um de nós, que assumiu a morte e ressurreição e nos enviou o Espírito consolador, convém advertir que este Espírito Santo é a mais misteriosa das Pessoas divinas, pois Se revela na Sua ação invisível no meio do mundo, soprando onde e como quer, e no coração de cada pessoa humana, bem como no fervilhar da comunidade. É por Ele que nos tornamos filhos da adoção divina, é por Ele que chamamos Pai a Deus, é Ele que anima, dirige e impulsiona a Igreja para a missão, fazendo-a comunidade (divina e humana, institucional e carismática, una e diversa) renovando-a nas fontes do Evangelho e conduzindo-a à comunhão intratrinitária. 
Quem acolheu o convite para integrar a comunidade trinitária, torna-se testemunha e arauto da vida de Deus. Os discípulos continuam a missão de Jesus, testemunhando o amor de Deus pelos homens e convidando-os homens a integrar esta família. Assim, é de nos questionarmos se os irmãos com quem nos cruzamos recebem este testemunho através das nossas palavras e gestos e se as comunidades são imagem viva da família de Deus, apresentando um convite credível e convincente aos homens para que integrem a comunidade intratrinitária.
A missão que Jesus confiou aos discípulos é universal. Temos consciência de que Jesus nos envia a todos – sem distinção de raça ou etnia, de diferenças religiosas, sociais ou económicas – a anunciar o amor de Deus convocando todos para integrar a comunidade trinitária?
É cómodo e pobre ficarmos distraídos na alegação da incompreensibilidade do mistério. Importa, antes, contemplá-lo e assumi-lo como projeto de Deus para todos, pois nos foi revelado tudo quanto precisávamos de saber para saborear e agir.
2018.05.27 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Já não há Deus sem homem!

É a grande afirmação do Papa na homilia da Missa da Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus.
Começando por afirmar que o novo Ano se inicia sob a égide da Mãe de Deus, assegura que “Mãe de Deus” é o título mais importante de Maria. E, se no passado alguns pretendiam que os cristãos se cingissem a chamar-lhe apenas Mãe de Jesus, a Igreja, sem negar essa dimensão da maternidade, fixou na doutrina o título de Mãe de Deus, porque em Jesus divindade e humanidade são indissociáveis.
E Francisco, de forma lúcida e grata, vê na expressão ‘Mãe de Deus’ “uma verdade esplêndida sobre Deus e sobre nós mesmos”, a saber: “desde que o Senhor Se encarnou em Maria (desde então e para sempre), traz a nossa humanidade agarrada a Ele”. Assim, “já não há Deus sem homem: a carne que Jesus tomou de sua Mãe, continua ainda agora a ser d’Ele e sê-lo-á para sempre”. Com efeito, “Deus está perto da humanidade como uma criança da mãe que a traz no ventre”.
Remetendo para a etimologia da palavra mãe (mater, em latim), o Papa aproxima-a da palavra matéria. E infere que o Deus que é puro espírito Se fez também matéria como nós:
Em sua Mãe, o Deus do céu, o Deus infinito fez-Se pequenino, fez-Se matéria, não só para estar connosco, mas também para ser como nós. Eis o milagre, eis a novidade: o homem já não está sozinho; nunca mais será órfão, é para sempre filho.”.
Proclamando Maria como Mãe de Deus, sentimos “a alegria de saber que a nossa solidão está vencida”. E esta é “a maravilha de nos sabermos filhos amados, de sabermos que esta nossa infância nunca mais nos poderá ser tirada”. Espelhamo-nos no Deus frágil e menino recostado nos braços da Mãe e vemos como a humanidade é querida e sagrada para o Senhor. E, por isso, assentimos com o Pontífice que “servir a vida humana é servir a Deus”, e que “toda a vida – desde a vida no ventre da mãe, até à vida envelhecida, atribulada e doente, à vida incómoda e até repugnante – deve ser acolhida, amada e ajudada”.
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Depois, o Santo Padre convida a deixarmo-nos “guiar pelo Evangelho” da Solenidade, frisando que “da Mãe de Deus, se diz só uma frase: guardava todas estas coisas, meditando-as no seu coração”. E sublinha a forma verbal “guardava”, para anotar que “Maria não fala”. Com efeito, “d’Ela, o Evangelho não refere uma palavra sequer, em toda a narração do Natal”. E Francisco vê nesta atitude da Mãe uma associação ao Filho infante, isto é, “sem dizer palavra”. É que ainda não tinha chegado o tempo e a hora de Jesus falar ou de a Mãe dizer: “Não têm vinho!”.
E considera o Papa Bergoglio:
Ele, o Verbo, a Palavra de Deus que ‘muitas vezes e de muitos modos falara nos tempos antigos’ (Heb 1,1), agora, na ‘plenitude dos tempos’ (Gl 4,4), está mudo. O Deus, na presença de Quem se guarda silêncio, é um menino que não fala. A sua majestade é sem palavras, o seu mistério de amor desvenda-se na pequenez. Esta pequenez silenciosa é a linguagem da sua realeza. A Mãe associa-Se ao Filho e guarda no silêncio.”.
A propósito, as palavras seguintes de Francisco fazem-me lembrar um dos temas pelos quais o Reitor do Santuário de Fátima abordou este mistério na celebração da Missa do Dia de Natal:
E o silêncio diz-nos que também nós, se nos quisermos guardar a nós mesmos, precisamos de silêncio. Precisamos de permanecer em silêncio, olhando o presépio. Porque, diante do presépio, nos redescobrimos amados; saboreamos o sentido genuíno da vida. E, olhando em silêncio, deixamos que Jesus fale ao nosso coração: deixamos que a sua pequenez desmantele o nosso orgulho, que a sua pobreza desinquiete as nossas sumptuosidades, que a sua ternura revolva o nosso coração insensível.”.
Daqui surge a clarividência exortativa do Papa:
Reservar cada dia um tempo de silêncio com Deus é guardar a nossa alma; é guardar a nossa liberdade das banalidades corrosivas do consumo e dos aturdimentos da publicidade, da difusão de palavras vazias e das ondas avassaladoras das maledicências e da balbúrdia”.
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E o Pontífice levanta a questão: Quais eram as coisas que Maria guardava e meditava em seu coração? De facto, falar de coisas é aparentemente muito pouco. Mas o orador especifica:
Eram alegrias e aflições: por um lado, o nascimento de Jesus, o amor de José, a visita dos pastores, aquela noite de luz; mas, por outro, um futuro incerto, a falta de uma casa, ‘porque não havia lugar para eles na hospedaria’ (Lc 2,7), o desconsolo de ver fechar-lhes a porta; a desilusão por fazer Jesus nascer num curral. Esperanças e angústias, luz e trevas: todas estas coisas preenchiam o coração de Maria.”.
E que fez Maria? O Papa explica, recusando que as tenha remetido para a solidão e amargura:
Meditou-as, isto é, repassou-as com Deus no seu coração. Nada conservou para Si, nada encerrou na solidão nem submergiu na amargura; tudo levou a Deus. Foi assim que guardou. Entregando, guarda-se: não deixando a vida à mercê do medo, do desânimo ou da superstição, não se fechando nem procurando esquecer, mas dialogando tudo com Deus. E Deus, que Se preocupa connosco, vem habitar nas nossas vidas.”.
Enfim, o Pontífice ressaltou “os segredos da Mãe de Deus: guardar no silêncio e levar a Deus. Isto realizava-se – conclui o Evangelho – no seu coração”. É o coração que leva a “pôr os olhos no centro da pessoa, dos afetos, da vida”.
“Também nós, cristãos em caminho, no início do Ano, sentimos a necessidade de recomeçar do centro, deixar para trás os fardos do passado e partir do que é importante”. E Maria, a Mãe de Deus, constitui o ponto de partida que temos diante de nós. Ela “é exatamente como Deus nos quer, como quer a sua Igreja: Mãe terna, humilde, pobre de coisas e rica de amor, livre do pecado, unida a Jesus, que guarda Deus no coração e o próximo na vida”. Por isso:
Para recomeçar, ponhamos os olhos na Mãe. No seu coração, bate o coração da Igreja. Para ir adiante, nos diz a festa de hoje, é preciso recuar: recomeçar do presépio, da Mãe que tem Deus nos braços.”.
Por fim, o Papa esclareceu que “a devoção a Maria não é galanteria espiritual, mas uma exigência da vida cristã”. Com efeito, “olhando para a Mãe, somos encorajados a deixar tantas bagatelas inúteis e reencontrar aquilo que conta”, pois “o dom da Mãe, o dom de cada mãe e cada mulher é muito precioso para a Igreja, que é mãe e mulher”. E, enquanto o homem muitas vezes abstrai, afirma e impõe ideias, a mulher, a mãe sabe guardar, fazer a ligação no coração, vivificar. Porque a fé não se pode reduzir apenas a ideia ou doutrina; precisamos, todos, de um coração de mãe que saiba guardar a ternura de Deus e ouvir as palpitações do homem.
E o desejo de Francisco é “que a Mãe, autógrafo de Deus sobre a humanidade, guarde este Ano e leve a paz de seu Filho aos corações e ao mundo inteiro”.
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E é no voto papal de paz que se estabelece a conexão com a alocução que fez à multidão que enchia a Praça de São Pedro neste primeiro dia do ano e 51.º Dia Mundial da Paz.
Naquele momento, reiterou o seu desejo de ser “voz destes nossos irmãos e irmãs que invocam para o seu futuro um horizonte de paz”: os migrantes e refugiados a quem dedicou a sua previa a este Dia Mundial da Paz. Por outro lado, sublinhou que Maria, a Mãe de Deus e dos homens, se coloca entre o seu Filho Jesus e os homens, na realidade das suas privações, indigências e sofrimentos, especialmente os mais fracos e em dificuldades.
Aos milhares de fiéis e turistas presentes o Papa recordou que a Igreja coloca na “primeira página do ano novo que o Senhor nos concede”, “uma estupenda miniatura, a solenidade litúrgica de Maria Santíssima Mãe de Deus”. E, assim, convida a fixarmos nela o olhar, “para retomarmos sob a sua materna proteção, a longa jornada ao longo dos caminhos do tempo”.
Observa que o Evangelho da Solenidade nos leva à Belém, com a chegada dos pastores à estrebaria, que falam a Maria e José sobre o anúncio que receberam dos anjos, de que o recém-nascido é o Salvador. Todos ficaram maravilhados, porém, “Maria conservava todas estas coisas em seu coração”. E tira a ilação:
 “A Virgem faz-nos entender como deve ser acolhido o evento do Natal: não superficialmente, mas no coração. Indica-nos o verdadeiro modo de receber o dom de Deus: conservá-lo no coração e meditá-lo. É um convite dirigido a cada um de nós para rezar contemplando e saboreando este dom que é o próprio Jesus.”.
Além de ser Mãe de Jesus, ela é também a sua “primeira discípula”, dilatando, desta forma, a sua maternidade. Por meio dela, realiza-se o primeiro “sinal milagroso” em Caná, o que “contribui para suscitar a fé dos discípulos”. E “com a mesma fé” – disse o Papa – Ela está presente “aos pés da cruz e recebe como filho o apóstolo João” e, “após a ressurreição, torna-se mãe orante da Igreja sobre a qual desce com poder o Espírito Santo no dia de Pentecostes”:
Como mãe, Maria desempenha uma função muito especial: coloca-se entre seu Filho Jesus e os homens na realidade das suas privações, na realidade de suas indigências e sofrimentos. Maria intercede, consciente de que enquanto mãe pode, aliás, deve apresentar ao Filho as necessidades dos homens, especialmente os mais fracos e em dificuldades.”.
É a estas pessoas – recorda o Pontífice – que é dedicado o tema do Dia Mundial da Paz hoje celebrado: “Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz”.
E Francisco reitera o seu desejo de fazer-se “voz destes nossos irmãos e irmãs que invocam para o seu futuro um horizonte de paz”, uma paz que, sendo dom Deus e fruto da Páscoa anunciado no Natal, é direito de todos; e “muitos deles – observa – estão dispostos a arriscar a vida em uma viagem que em grande parte dos casos é longa e perigosa, a enfrentar dificuldades e sofrimentos”. Pelo que exorta:
Não apaguemos a esperança de seus corações; não sufoquemos as suas expectativas de paz! É importante que da parte de todos, instituições civis, realidades educacionais, assistenciais e eclesiais, exista o esforço de assegurar aos refugiados, aos migrantes, a todos, um futuro de paz.”.
Pedindo que, neste ano, possamos agir “com generosidade para realizar um mundo mais solidário e acolhedor”, convidou todos a rezarem por esta intenção e confiando “a Maria, Mãe de Deus e Mãe nossa, o ano de 2018 recém-iniciado”, recordou que os antigos monges russos, místicos, diziam que em tempos de tribulação espiritual, era necessário colocar-se sob o manto da Santa Mãe de Deus. Nestes termos e pensando nas tantas tribulações de hoje, mas sobretudo nos migrantes e refugiados, exortou a que rezemos como eles [os monges] nos ensinaram a rezar”:
Sob a tua proteção buscamos refúgio, Santa Mãe de Deus: não desprezes as nossas súplicas que passamos por provações, mas livra-nos de todo perigo, ó Virgem gloriosa e bendita”.
Após rezar o Angelus, o Papa Francisco, no “limiar de 2018”, dirigiu a todos os seus  “cordiais votos de todo bem pelo novo ano”. Agradeceu e retribuiu as felicitações recebidas na noite do dia 31 do Presidente da República italiana, Sergio Matarella, desejando ao povo italiano “um ano de serenidade e de paz, iluminado pela constante bênção de Deus”. Manifestou o seu apreço “pelas múltiplas iniciativas de oração e de ação pela paz, organizadas em todas as partes do mundo por ocasião do Dia Mundial da Paz”, recordando as diversas organizações e entidades envolvidas, com particular referência à Comunidade de Santo Egídio, responsável pela manifestação “Paz em toda a terra” realizada em Roma e em muitos países. E, renovando os votos de “um ano de paz na graça do Senhor e com a proteção materna de Maria, a Santa Mãe de Deus”, despediu-se pedindo aos presentes para não se esquecerem de rezar por ele.

2018.01.01 – Louro de Carvalho