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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Teletrabalho: destratamento dos docentes e desigualdade de alunos


A FENPROF (Federação Nacional dos Professores) resume os sentimentos dos professores em teletrabalho nesta frase que se prevê emblemática: “O ensino não é isto, nem nada que se pareça!” – cuja autoria é duma docente que participou num inquérito de opinião sobre o ensino à distância promovido por esta organização sindical.
O questionário contou com 3548 respostas validadas e recolhidas online. Dos professores, que responderam ao inquérito durante a 1.ª quinzena de maio, 96,1% lecionam no ensino público; 63,9%, são professores do 3.º Ciclo e Secundário; 20,2% do 2.º Ciclo; 18,1% do 1.º Ciclo; e 7,8% da educação pré-escolar. Há uma forte participação de professores e educadores com 50 ou mais anos de idade e com mais de 30 anos de serviço (o que reflete o envelhecimento da classe). Além das perguntas de pesquisa, para respostas de escolha múltipla, os inquiridos forneceram contributos e apreciações em perguntas para resposta aberta.
Os professores partilham o que sentem e pensam, como veem o ensino à distância e o que mais os preocupa. Há críticas à gestão do processo e preocupações quanto às desigualdades; emerge o desgaste e a exaustão; nota-se o excesso de trabalho imposto, sobretudo burocrático (“Aqueles que às aulas somam funções de direção de turma referem que são quase 24 sobre 24 horas no contacto com alunos, colegas e encarregados de educação”). Há queixas de desrespeito nos aspetos laborais, pelos limites legalmente fixados do horário de trabalho, do esquecimento das questões da carreira, do eclipse das medidas para rejuvenescer o corpo docente e da supina persistência da precariedade. As desigualdades aprofundaram-se, aos alunos com necessidades educativas especiais faltam apoios sem os quais as suas dificuldades aumentam e são muitos os que temem que, num contexto destes, a avaliação acabe por ser injusta.
Dos mais de 10 mil comentários, a FENPROF selecionou alguns pela sua “acutilância, clareza e objetividade”: “Por muita tecnologia que exista e se possa utilizar, nada substitui o ensino presencial”. “Para ensinar a pregar um prego é sempre preciso o martelo, o prego e sentir todo esse processo, mesmo que se magoe o dedo”. “A sobrecarga de trabalho é assustadora e doentia, como se os professores, por permanecerem em casa, tivessem de estar 24 horas disponíveis para a escola”. “A minha maior preocupação é com os alunos com dificuldade de aprendizagem que não são capazes de realizar os trabalhos de forma autónoma e, como grande parte dos pais estão a trabalhar, os alunos ficam sem suporte”. “O excesso de voluntarismo da nossa parte, professores, deixa a tutela descansada, apesar de desnorteada e alheada da realidade”. “Os elogios feitos agora aos docentes são despropositados, hipócritas, cínicos”. “A classe docente deu sempre o seu melhor, em todas as circunstâncias”. “O Ministério contou com os recursos de cada professor, sem que nada fizesse para resolver essa situação”. “Querem fazer flores com o material dos professores.”
O inquérito revela que 54,8% não tinham conseguido contactar com todos os seus alunos a meio do 3.º período e que, em alguns casos, foi estabelecido mais tarde tal contacto, mas sem que tal significasse uma participação regular na atividade letiva.
Ao arrepio das dificuldades inerentes à pandemia, 70,5% dos docentes lecionaram novos conteúdos, enquanto cerca de 30% se limitaram a reforçar conteúdos já trabalhados em sala de aula, e 47,8% irão avaliar novos conteúdos. E, considerando os défices que se verificarão no final do ano letivo, os professores têm como inevitável o esforço da sua superação e do reforço apoios pedagógicos aos alunos no próximo ano letivo. E, dos professores de Educação Especial inquiridos, 43,9% consideram adequadas as medidas de apoio aos alunos portadores de necessidades educativas especiais, 15,3% dizem ser não adequadas e 40,8% dizem desconhecer tais medidas, inferindo a FENPROF não ter havido qualquer descomprometimento dos professores, mas que o ensino à distância “não está em sintonia com a inclusão” e que, “sem surpresa, a distância escava fossos que dificultam o encontro”.
Assim, 93,5% dos professores referem que as desigualdades se agravaram e 92,9% dizem que é preciso superar défices no próximo ano letivo. E 65,1%, entendem que o ensino à distância tem um grau de exigência maior que o presencial, sobretudo pela necessidade de estabelecer contactos individualizados, por e-mail ou por telefone, após as sessões síncronas. A apreciação das emissões televisivas do #EstudoEmCasa é positiva: 43,9% dão “bom”, 8% “muito bom”, 40,5% “insuficiente” e 7,6% não têm opinião.
No âmbito do trabalho desenvolvido, os professores recorrem, regra geral, às plataformas digitais para trabalhar em grupo e ao e-mail para contactar os alunos, enviar literatura e documentos de apoio e reforço das aprendizagens, receber trabalhos, entre outros elementos importantes para a avaliação. Quanto a alunos de grupos etários mais baixos (até aos 12 anos) e alunos com problemáticas complexas e baixo nível de funcionamento autónomo, é necessário o acompanhamento informado e permanente por parte dum adulto, o que nem sempre acontece.
É de nota positiva o apoio das escolas, pais e encarregados de educação. Porém, a maioria dos professores desconhece os apoios dados pelas autarquias locais. Já em relação ao Ministério da Educação (ME), 60% dos professores e educadores sentem que não deu o apoio a que estava obrigado e que se exigia dos responsáveis, em particular do Ministro. Apenas 20% consideram ter sido adequado o apoio prestado pelo ME. E, nas respostas abertas, “muitos docentes” afirmam que “soaram a hipocrisia os elogios que ouviram dos governantes”.
A FENPROF sublinha dois tópicos que os docentes destacam: o desgaste e o cansaço pela adaptação a um modelo inédito de atividade, pela distância que não facilita o acompanhamento de todos os alunos, pelo “facto de a atividade profissional ter tomado conta de todas as horas do dia e, ao invadir a casa de cada professor, dificultar a sua indispensável e saudável separação da vida familiar; e o agravamento, por vezes perigoso, da desigualdade entre os alunos. E vinca a postura dos professores que foram, como sempre, “solidários com os alunos e colocaram ao seu serviço a casa, o computador, a Internet, o telemóvel e até a sua privacidade. Fizeram-no por terem percebido que a tutela não estava a fazer a sua parte. Limitava-se a emitir, em cascata, ordens, orientações, circulares, disposições, plataformas ou aplicações, ao passo que, em vez de, atempadamente, criar condições efetivas para o que designou por E@D, “deixou cada um à sua sorte e todos por sua conta”.
Por sua vez, a FNE (Federação Nacional da Educação) exige a clarificação do enquadramento legal das condições de trabalho que recorram às TIC na área da Educação, pois é essencial “um espaço de negociação e de diálogo social que vise o enquadramento destas situações” e uma forte intervenção sindical que proteja a “saúde e o bem-estar de todos os que coabitam nas nossas escolas”. Com efeito, o recurso às ferramentas e plataformas digitais deve ser “ocasional e complementar e não sistemático”. E, “se é verdade que estas ferramentas revelam algumas vantagens”, também é certo que “elas não são substitutivas da atividade letiva presencial”, para lá de poderem “dar origem à desregulação do tempo de trabalho, à sobreposição entre a vida profissional e a vida familiar e a uma maior intensidade de trabalho e consequente agravamento do desgaste físico e psíquico dos docentes” (refere a FNE em comunicado).
A FNE identifica várias linhas reivindicativas para o futuro próximo no âmbito do trabalho docente em contexto de teletrabalho. Refere que, neste processo, há um conjunto de fatores a ter em conta, como: o combate à desregulação do tempo de trabalho; a determinação do direito a desligar; a dotação de recursos indispensáveis ao teletrabalho e compensação dos gastos acrescidos associados; a defesa da saúde; o investimento na formação contínua para a utilização adequada das ferramentas digitais; a cibersegurança; a disciplinação de encarregados de educação e alunos; e a conciliação da vida profissional com a vida pessoal e familiar. E enfatiza:   
O direito a desligar-se deve estar previsto e regulamentado, evitando-se dessa forma a tendência para a instalação de culturas de trabalho caracterizadas pela intensidade autoimposta e pela disponibilidade constante. (…) As condições de defesa da saúde devem constituir outro aspeto essencial a regulamentar, em áreas como a organização do seu trabalho e do seu local de trabalho, devendo ser garantido o acompanhamento de avaliações e gestão dos riscos psicossociais, tal como o stresse.”.
Além disso, a FNE defende a abertura duma linha de atendimento e aconselhamento sobre os cuidados básicos a nível de saúde em contexto de teletrabalho, a criação dum portal sobre recursos educativos online por parte do ME, a criação de mecanismos que permitam a partilha de boas práticas, a compensação pelo exercício da função docente em teletrabalho e a publicação de guias práticos para professores, alunos, pais e encarregados de educação.
O ensino à distância não pode ser perpetuado nem ser a norma, segundo a FENPROF. E, caso se mantenha no início do próximo ano letivo, esse cenário tem de estar previsto no despacho normativo de organização do ano letivo e ser alvo de discussão que envolva toda a comunidade escolar. O ensino à distância não pode ser uma alternativa permanente, como defendem as várias organizações sindicais que representam a classe docente.
Para Mário Nogueira, secretário-geral da FENPROF, o ensino à distância, até como confirmam os resultados do inquérito realizado, “cava fossos muito fundos de desigualdades” e põe em causa a própria Constituição na defesa de uma escola pública promotora de igualdade de oportunidades. Ora, se “este foi um ano de exceção”, já “o próximo vai ser um ano em que também se vai refletir muito do que se passou agora”.
Sobre o pacote de 400 milhões de euros, anunciado pelo Governo, no âmbito do Orçamento Suplementar, para apoiar a Escola Digital, o dirigente sindical acentua que é bem-vindo se for para atualizar o parque tecnológico e para a formação dos docentes nas TIC. Porém, sustenta que, “se for para eternizar o ensino à distância e não apenas para o ter preparado para eventuais situações excecionais que surjam, então será dinheiro mal gasto”.
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Todos reconhecemos as vantagens dum ensino à distância em situação excecional ou em complementaridade com o ensino presencial. Porém, torná-lo único ou preponderante é, como sentimos e referem ilustres peritos em educação, um desvio à socialização e à eficácia educativa da escola, que não pode limitar-se a debitar conteúdos e a fazer avaliações sumativas, nem pode ser encarada como mera oficina laboral. Será que da abstrusa pretensão da escola a tempo inteiro se quer passar à escola hiperminimalista?
2020.06.18 – Louro de Carvalho

sábado, 18 de novembro de 2017

O Dia Mundial dos Pobres visa a relação de acolhimento transformador

No próximo dia 19 de novembro, XXXIII domingo do Tempo Comum no Ano A, penúltimo domingo do Ano Litúrgico, a Igreja Católica vai assinalar o Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco no final do Ano Santo da Misericórdia (dezembro 2015-novembro 2016), pela Carta Apostólica Misericordia et misera (n.º 21), de 26 de novembro de 2016.
Neste documento pontifício, Francisco escreve:
Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho”.
A propósito desta jubilosa e operativa efeméride, o Pontífice emanou para a Igreja e para o Mundo uma substanciosa mensagem, em torno do tema joânico “Não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade” (1Jo 3,18), em que alerta para a necessidade de a Igreja não se resignar ao escândalo da pobreza. Com efeito, “não podemos ficar inertes nem tão pouco resignados” perante o escândalo do “alastramento da pobreza nos grandes setores da sociedade do mundo inteiro”.
O Dia Mundial dos Pobres constitui para toda a comunidade cristã, na esteira do Ano Jubilar da Misericórdia, uma ocasião para testar a capacidade “de estender a mão aos pobres, aos débeis, aos homens e às mulheres aos quais muitas vezes é espezinhada a dignidade”, como explicou o arcebispo Dom Rino Fisichella, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, apresentando o texto da mensagem na manhã de terça-feira, 13 de junho, na Sala de imprensa da Santa Sé. Nesta perspetiva, o dicastério preparou um subsídio pastoral que esteve disponível a partir do mês de setembro, para permitir “que sacerdotes e o mundo do voluntariado vivam ainda mais intensamente” o sentido desta jornada.
O momento central de 19 de novembro será a missa presidida pelo Pontífice com a participação de 4000 pobres e voluntários. Em particular, para estes últimos está prevista também uma vigília de oração hoje, sábado dia 18, em São Lourenço fora dos Muros: uma ocasião para fazer memória do diácono e “grande santo romano” que elevou “a figura do pobre a verdadeiro e único ‘tesouro’ da Igreja”. Esta atenção privilegiada representou uma constante na história eclesial, como sublinhou na sua intervenção o bispo José Octavio Ruiz Arenas, secretário do dicastério, recordando que para o Papa Francisco “a opção pelos pobres é uma categoria teológica antes de ser cultural, sociológica, política ou filosófica”, constituindo “uma forma especial de primazia no exercício da caridade cristã, da qual toda a tradição da Igreja dá testemunho”. Por outro lado, almoçarão com o Pontífice 1500 homens e mulheres dos mais necessitados provindos de várias partes do mundo acompanhados por dezenas de voluntários, ao som dos acordes da banda da polícia vaticana e um coro de crianças entre os 5 e os 14 anos.
Também Francisco fez, no dia 16 uma visita surpresa ao pequeno hospital de campanha montado na Praça Pio XII, junto do Vaticano, por ocasião do I Dia Mundial dos Pobres. O espaço, com várias tendas, oferece consultas médicas e de enfermagem a pessoas necessitadas que vivem na capital italiana.
O Papa cumprimentou o pessoal médico, voluntários e várias pessoas que se encontravam na fila à espera de consulta gratuita. E falou com voluntários da Confederação das Misericórdias italianas, que lhe ofereceram, como fazem a todos os que deslocam ao espaço, uma bebida quente para combater o frio.
Em Lisboa, um conjunto de organizações católicas de solidariedade vai assinalar a data numa iniciativa promovida pela Cáritas Portuguesa que começa no Largo da Trindade e prossegue às 11 horas, na igreja de São Roque, presidida por Dom António Vitalino, bispo emérito de Beja e vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.
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O Semanário Ecclesia, do dia 17, apresenta uma entrevista com Teresa Vasconcelos, vogal da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), em que a entrevistada faz a sua leitura do significado da efeméride, da mensagem pontifícia e das preocupações da CNJP.
E a ideia fulcral de Teresa Vasconcelos é que “a relação da Igreja com os pobres passa por acolhimento transformador”, o que implica a transformação das relações humanas e sociais e uma caminhada conjunta em que todos têm algo a dar e a receber.
Segundo a entrevistada, a iniciativa do Papa de instituir o Dia Mundial dos Pobres é fundamental e vem na linha de vários predecessores de Francisco, nomeadamente João XXIII, “que chamaram a atenção para a questão dos pobres, com um desafio aos cristãos: não se pode pôr em prática a mensagem do Evangelho sem olhar para os mais desprotegidos”. E “esta é uma linha já coerente, dentro da Igreja Católica”.
O facto de Francisco ter lançado este dia mundial constitui “a possibilidade de, no contexto de uma jornada, se refletir sobre esta questão da pobreza no mundo”. Na verdade, “nunca, a não ser no tempo da escravatura ou da exploração total dos trabalhadores, houve tanta desigualdade – e o nosso país é um dos piores a nível da Europa – entre uma minoria dos mais ricos e uma maioria de pobres. E, apesar de em Portugal, as coisas estarem um pouco “mais estabilizadas”, “este cancro que mina a sociedade” existe. Com efeito, encontramos cada vez mais pessoas que optam por viver na rua ou para ela são empurradas e “famílias que vivem muitas vezes uma pobreza escondida”.
Porém, no seu desafio, o Papa “pega nas coisas um bocadinho ao contrário, ao dizer que os pobres – cuidar dos pobres, pensar nos pobres – podem ser um meio fundamental para o nosso crescimento, a exemplo de Jesus Cristo”. Ora, “se nós cultivarmos, e se a Igreja nos ajudar a cultivar, esta atenção prioritária aos pobres, nós cada vez mais caminhamos na linha dos Evangelhos, daquilo que Cristo nos interpelou”.
Francisco não se contenta com olhar os pobres numa ótica assistencialista, “mas como companheiros de crescimento”. Ora, esta interpelação papal “vem colocar-nos num patamar superior”. Assim, o apelo não é à “caridadezinha” – mas “é fundamental, na situação de crise, providenciar com aquilo que é urgente, necessário” – é, antes, a que “nos debrucemos realmente sobre as estruturas injustas das sociedades em que vivemos para, de alguma forma, encontrarmos meios de trabalhar para uma maior justiça social”. E a entrevistada evoca o exemplo de Teresa de Ávila:
Eu lembro sempre uma coisa muito bonita de Santa Teresa de Ávila, quando ela tinha as experiências místicas, nomeadamente na Sétima Morada, dizia sempre: a união com Deus, tal como eu a experimento, é provisória, é temporária. Eu tenho de regressar ao mundo e fazer obras”.
Este é o apelo: “a nossa vida será sempre trabalhar para o Reino de Deus”, no mundo, “aqui e agora”, também ao nível da sociedade portuguesa, “a que mais diretamente nos interessa, mas também ao nível do equilíbrio entre ricos e pobres no mundo”, cuja “situação é absolutamente dramática”.
A entrevistadora Lígia Silveira pergunta se a mensagem do Papa é recado para quem está numa situação social diferente para que olhe para a pobreza sem perpetuar estruturas assistencialistas que consideram que pobreza haverá sempre. Ao que T. Vasconcelos responde:
Mais uma vez, o Papa fala num patamar diferente. Questiona estruturas da Igreja e da sociedade civil, e lança-lhes a questão de saber em que medida estão a fazer apenas um remedeio temporário ou estão a ajudar os pobres a serem donos do seu próprio destino, dando-lhes meios, educação, trabalho, para que o ciclo da pobreza seja interrompido.”.
Falando da sua antiga experiência de trabalho numa IPSS, diz que “há um salto qualitativo que a Igreja”, em sua opinião, “deve fazer, formando as direções e quem trabalha nestas instituições, para uma postura de acolhimento dos pobres que seja um acolhimento transformador e não algo que os humilhe, que os faça sentir que são um ‘cancro’ na sociedade”. E sustenta que “há um trabalho muito grande a fazer, se queremos desenvolver, como o Papa nos desafia, uma verdadeira atitude de compaixão e de misericórdia”.
No atinente ao facto de Francisco indicar exemplos, como a figura de São Francisco de Assis, com uma intenção pedagógica, porque este “fazer caminho com” acaba por ser transformador aduz que este processo “envolve o nosso coração”, pois, “neste caminho transformador, é preciso encarar o pobre, que muitas vezes não é atrativo, a maior parte das vezes – o pobre da rua, vestido Deus sabe como, sem os mínimos cuidados de higiene…”. E explicita:
É preciso acolher como iguais, aqui no verdadeiro sentido de hospitalidade: acolher o outro, mas não de cima para baixo, pensando que eu posso fazer alguma coisa pelo pobre e que ele pode fazer muita coisa por mim. No verdadeiro sentido do que são as obras de misericórdia, corporais e espirituais. Eu também posso ser objeto das obras de misericórdia.”.
Em relação à  pobreza evangélica de que fala o Papa, disse com amarga ironia:
Estamos muito longe, a começar por mim, que nem sempre penso que há outros que vivem pior do que eu. Depois, as estruturas mais altas da Igreja Católica não são sempre exemplo de um abraçar do Evangelho e aí também é importante que todos olhem para este estado de coisas e nos possamos perguntar: o que é que Cristo faria se estivesse no meu lugar?”.
E assegura: 
Se levarmos a sério a profundidade desta questão ‘Como é que Cristo faria no meu lugar”, a Igreja Católica e o mundo, em geral, serão muito mais justos e solidários. Tenho a convicção absoluta de que foi para isso que Cristo viveu entre nós.”.
O que se pergunta a cada um, na ótica da entrevistadora, “é não tanto que o fazes ao teu dinheiro, mas o que o teu dinheiro faz de ti”. E a entrevistada acorre, de imediato, com a universalidade da questão:
É para todos. Esta interpelação é para todos. Eu posso ter o meu dinheiro e ter liberdade interior em relação a ele, saber que o dinheiro é para o serviço da comunidade. Posso ter, infelizmente, a atitude oposta, inclusive em pessoas que se autodenominam católicas, que é a ganância. Dizer: eu quero mais, eu quero mais, eu quero mais dinheiro. Pode ser uma dependência como qualquer outra.”.
E conclui que “é importante que os cristãos se interpelem uns aos outros”, dizendo que é a razão pela qual está, como vogal, na CNJP, “para que, de uma forma mais institucional, aquilo em que acredito possa ter impacto na sociedade”.
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Replicando à entrevistadora, que aduz que “o Papa recorda a pobreza que atinge os jovens que não conseguem encontrar o seu primeiro emprego” e que pergunta se “esta é uma realidade que a sociedade portuguesa enfrenta muito, como a chamada pobreza envergonhada”, explica-se com base em situações diferentes, incluindo aspetos pessoais:
Há níveis muito diversificados de pobreza. Mais facilmente penso na pessoa que está à porta de uma igreja a pedir pão, mas se nós fôssemos mais solidários com os jovens… Por exemplo, quando me aposentei, fui convidada por uma universidade, podendo acumular rendimentos, e eu disse: não, há dezenas de jovens que fizeram os seus graus e que vocês devem contratar. Para mim é uma questão ética.”.
Sobre as questões que os jovens nos podem colocar neste âmbito, sustenta:
Os jovens podem questionar se os cristãos estão a ser solidários com eles, se estamos a viver a vida das primeiras comunidades cristãs, onde cada qual vivia de acordo com as suas necessidades e havia uma partilha de bens. Isso é o que os Atos dos Apóstolos nos dizem.” (cf At 2,42-47; 4,32-37).
E, pretendendo estender a interrogação a todos nós, questiona-se:
Como é que eu partilho, nos tempos de hoje, com os mais jovens que não conseguem o primeiro emprego ou trabalham com níveis de salários absolutamente escandalosos”?
Estriba-se nas estatísticas para vituperar a sociedade. Na verdade estas “dizem que, mesmo numa situação de ligeira melhoria, as relações laborais – exploração, subemprego – pioraram”. E acusa que “continuam a piorar”, pois “não vivemos, por muito que haja tentativas de melhorar as coisas, numa sociedade mais justa”. Com efeito, “todas as estruturas, a nível micro, meso ou macro, devem ser passadas em revista por nós, cristãos, de uma forma crítica, para depois se pensar, individualmente ou em grupo, como é que se podem abalar essas estruturas”.
É a coesão social que está fendida quando quem não tem um emprego e não aufere um salário digno para cobrir as suas despesas não tem vontade de participar civicamente. A isto, Teresa Vasconcelos diz que “o primeiro passo da cidadania é a consciência de que se pode participar” e que a participação de cada um “tem impacto”; ao invés, “as pessoas desistem e conformam-se”. E confidencia:
Das piores situações que vi, no mundo, foi na Índia, porque a pobreza é absolutamente conformada. Há uma aceitação tácita de que, porque se nasceu numa casta, não se tem hipótese. Cá, sem termos um sistema de castas, temos um sistema que referencia pessoas que assumem que não há nada a fazer ou vivem à sombra de uma caridade que não é uma caridade que transforme a situação.”.
Contra a apatia, o conformismo e a aceitação das fendas da coesão social, há que estabelecer e desenvolver a “cultura do encontro”, expressão tão cara ao Papa Francisco, e da pró-atividade. Segundo esta dinâmica cultural, apesar de “vivermos numa situação de esperança perante o absurdo da sociedade”, somos induzidos “a continuar o trabalho que todos somos chamados a fazer”. Ora, “é preciso que a Igreja e os cristãos divulguem este tipo de ações”, que pretendem colmatar as fendas de coesão, puxam à solidariedade, promovem a cidadania consciente, responsável e com impacto, criam o encontro. De facto, “sermos companheiros de viagem é”, como diz, “a essência desta carta e o chamamento que Deus, através de Jesus Cristo, nos faz”.
Quanto a um futuro influenciado positivamente pelo Dia Mundial dos Pobres, a entrevistada adianta:
Vamos esperar que, ano a ano, uma vez que se atribui um Dia Mundial dos Pobres pouco antes de iniciar o Advento, este dia nos traga uma reflexão imbuída de ação para melhorarmos estruturas injustas. Mas também para, à semelhança de São Francisco de Assis, nos tornarmos companheiros não dando de cima para baixo, mas entrando no mesmo caminho. Os pobres podem interpelar-nos, chamar à ação e treinar o nosso olhar para a verdadeira misericórdia – essa palavra que vem do coração.”.
O que ressalta na mensagem é “a forma ampla como o conceito de pobreza é tratado pelo Papa”. Quando ele diz isto, é porque o vive e “isso é uma grande bênção”. De facto, a pobreza interpela-nos, para que de algum modo refaçamos a vida, juntamente com os pobres.
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É imperioso que a Mensagem de Francisco leve a que o Dia Mundial dos Pobres constitua um marco de referência que evidencie para todos os anseios gritantes dos pobres, mesmo que silenciados ou sufocados. Que a pobreza humana não seja mais uma fatalidade, que os cristãos saibam enveredar pela séria partilha dos bens espirituais, sociais, culturais e materiais. É a dignidade do homem que o postula. Há sempre alternativa.

2017.11.18 – Louro de Carvalho