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domingo, 27 de janeiro de 2019

Lisboa será palco da Jornada Mundial da Juventude em 2022


O anúncio, feito pelo cardeal irlandês Kevin Farrell, Prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, foi escutado ao vivo, na Cidade do Panamá por Dom Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal de Lisboa, e por Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República Portuguesa. E foi recebido com uma salva de palmas pelas centenas de milhares de participantes na Missa conclusiva da JMJ 2019.
Presidente e Patriarca vincaram vitória para Portugal e para a África lusófona. Em declarações à agência Ecclesia e à Rádio Renascença, os dois mostraram-se muito satisfeitos com a decisão, com o Presidente a dizer que esta é uma vitória da Igreja em Portugal, mas não só:
Vitória também da língua portuguesa e da lusofonia, porque na discussão no Vaticano, um ponto essencial era a abertura a África, continente onde nunca houve estas jornadas. E pensou-se ‘qual é o país que é a melhor plataforma giratória para todos os continentes e também para África. E como é possível que venham de África muitos peregrinos e muitos jovens’. Isto foi um argumento também decisivo.”.
Dom Manuel Clemente, sublinhando também a importância da proximidade com África para esta decisão do Papa e frisando que a escolha de Lisboa para organizar JMJ em 2022 é “uma excelente notícia”, declarou:
Estamos num canto da Europa onde a Europa se aproxima de África, onde Europa e África já olham por este Atlântico para as Américas. Toda a gente lá vai estar com gosto e empenho e nós vamos fazer o possível para que corra de uma maneira fabulosa, tão fabulosa como foi esta feliz notícia que o Papa acaba de nos dar.”.
A Jornada Mundial da Juventude é um evento que reúne centenas de milhares, ou mesmo milhões, de jovens de todo o mundo. Realiza-se de três em três anos ou, excecionalmente, de dois em dois, normalmente variando entre continentes.
Desde a primeira edição das JMJ sob a égide se São João Paulo II, o Papa tem estado sempre presente, pelo que é previsível que Francisco ou um seu enviado especial ou, eventualmente, o seu sucessor, regresse a Portugal para participar no evento.
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Em Portugal, a primeira reação eclesiástica anotada foi do Bispo do Porto. Com efeito, Dom Manuel da Silva Rodrigues Linda reagiu à notícia da escolha de Lisboa como a próxima cidade a acolher a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em 2022, dizendo:É uma alegria indescritível, imensa”. Nos próximos três anos, disse ainda, a Igreja em Portugal terá de se “dedicar muito mais à pastoral juvenil”, afinando a sua linguagem pela linguagem que os jovens entendam. É expectável que centenas de milhares de jovens se desloquem a Portugal por ocasião da JMJ. “O nome de Portugal será o mais falado naquele contexto por todo o mundo e durante muito tempo, antes e depois”, disse o prelado, alertando que “temos de saber acolher”.
Sobre as razões que terão induzido o Papa a escolher Portugal como país anfitrião da próxima JMJ, o prelado portucalense considera que se deve à proximidade a África, a nível geográfico e sentimental, explicitando:
Nós soubemos contactar com os africanos e, salvo algumas épocas um bocado mais difíceis, como foi a guerra colonial, a nossa relação com África foi relativamente pacífica. E, portanto, se soubemos ao longo do tempo conviver, agora saberemos acolher.”.
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Segundo a agência Ecclesia, a CEP (Conferência Episcopal Portuguesa) reagiu com “grande alegria” ao anúncio de que a próxima JMJ vai decorrer em 2022, na cidade de Lisboa. Com efeito, o Padre Manuel Barbosa, o secretário da CEP e porta-voz do episcopado, destaca, em comunicado, que este é um acontecimento:
Em que a Igreja em Portugal e, de modo particular o Patriarcado de Lisboa, conta com o apoio da Presidência da República e a colaboração das entidades governamentais e autárquicas”.
Prosseguindo, explicita:
A JMJ vai envolver todas as Dioceses do país ao longo dos próximos três anos e meio na sua preparação, constando de encontros de oração, celebração e reflexão, e de inúmeros acontecimentos a nível religioso e cultural. Culminará nos últimos dias com a presença em Lisboa de centenas de milhares de jovens vindos de todo o mundo, em celebrações presididas pelo Santo Padre.”.
E deixa votos de que JMJ em Portugal seja “um forte momento de graça para todos os jovens renovarem o dinamismo da sua vocação, respondendo ao convite de Jesus Cristo a serem autênticos discípulos missionários na vida da Igreja e da sociedade”.
Do Panamá, o Bispo de Bragança-Miranda reagiu ao anúncio com uma mensagem enviada à Ecclesia pelo secretariado diocesano das Comunicações Sociais:
Com o Papa Francisco queremos ser servidores da alegria dos jovens que são o agora da Igreja e do mundo. Eis-me aqui! Faça-se segundo o Evangelho.”.
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Por seu turno, o Reitor do Santuário de Fátima, que está no Panamá a chefiar uma delegação do Santuário que levou, de forma inédita, a Imagem n.º 1 da Virgem Peregrina de Fátima a uma Jornada Mundial da Juventude, afirmou esta manhã que a escolha de Lisboa como capital da JMJ de 2022 é “uma grande alegria e uma enorme responsabilidade”.
Além disso, o Padre Carlos Cabecinhas afirmou, numa reação imediata ao anúncio pelo cardeal D. Kevin Farrell (já de tarde em Lisboa), de que a capital portuguesa é a cidade escolhida para acolher a próxima Jornada Mundial da Juventude, em 2022:
Para nós é motivo de grande alegria enquanto membros da Igreja portuguesa, mas também para Fátima, pois as Jornadas Mundiais da Juventude representam uma ocasião que proporciona a muitos jovens a visita a Fátima”.
“Se nos enchemos de alegria por toda a Igreja portuguesa, sentimos também a enorme responsabilidade para que Fátima saiba acolher e receber os jovens que para aí remarem” – precisou ainda o sacerdote que, desde o passado dia 22, acompanha a Imagem n.º 1 da Virgem Peregrina de Fátima, que empreende uma viagem extraordinária ao encontro dos jovens de todo o mundo, na JMJ, mas cumprindo paralelamente um programa autónomo que a levou a alguns lugares mais periféricos como o Centro Penitenciário Feminino da Cidade do Panamá e amanhã a levará a um hospital de doentes oncológicos.
Por outro lado, hoje, durante a Missa internacional na Basílica da Santíssima Trindade, o Santuário de Fátima teve presente esta Jornada que se encerrou no Panamá. Assim, no texto duma das preces da Oração Universal, os peregrinos foram especialmente interpelados a rezar “pelos jovens e por todos os participantes na JMJ para que, anunciando a fé viva e o rosto jovem do evangelho, trabalhem na construção de uma sociedade mais justa e fraterna”.
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O DN on line abria a rubrica respetiva com o título: E no Panamá disseram: ‘Até Portugal, Lisboa 2022’. E continuava:
A próxima cidade a receber a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é Lisboa. O local está escolhido. Será no Parque Tejo, entre Lisboa e o Trancão. A capital pode receber um milhão de peregrinos. O desafio começa agora.”.
E referia que, apesar de a tarde lisboeta estar fria e ventosa, muitos jovens se juntaram na Paróquia do Parque das Nações para ouvirem o anúncio, no Panamá, de que a próxima cidade a receber a JMJ é Lisboa, sendo esta a paróquia de receção da próxima JMJ. E frisava que, a ver em direto estavam mais de 200 jovens de várias paróquias de Lisboa, que, tendo iniciado este encontro no sábado à noite a acompanhar a vigília no Panamá, festejaram com vivas, palmas e confetis e muitos gritos de “Portugal, Portugal!”.
Segundo este diário, bem como segundo o JN, a ouvir Francisco estavam os 300 jovens que viajaram até àquele país para participarem neste evento. O cardeal Dom Manuel Clemente, seis bispos, vários sacerdotes, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, em representação do Governo, vários embaixadores e o Presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina.
Manhã cedo, no Panamá, milhares de jovens participavam na última celebração da JMJ 2019, mas para os portugueses e para os jovens da lusofonia, estas jornadas tinham um sabor especial: o novo destino será Lisboa. Dom Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, recebeu a Cruz das Jornadas, símbolo da passagem de testemunho. Da assembleia ouviram-se gritos de “Portugal! Portugal! Portugal!”.
Os jovens aplaudiram. E a Igreja Portuguesa, sobretudo a diocese de Lisboa, que avançou com a candidatura, também. Marcelo já tinha dito que, a confirmar-se poderia ser um incentivo à sua recandidatura. Para todos, o desafio começa agora. Lisboa poderá receber em duas semanas quase tantos peregrinos como turistas num ano: um milhão.
O Presidente da República considera que a realização da JMJ em Lisboa é “uma vitória também do episcopado”, dirigindo uma palavra a Dom Manuel Clemente, que “tanto lutou por isto”.
Segundo o JN, o anúncio era aguardado com expectativa, também por milhares de católicos em Portugal. No Multiusos de Gondomar reuniram-se cerca de dois mil jovens de Lisboa, Vila Franca de Xira, Fátima, Viseu, Guarda, Santarém, Vila Real, Bragança, Viana do Castelo, Braga e Aveiro para assistirem em direto à transmissão da celebração desde a Cidade do Panamá. Dom Manuel Linda, bispo do Porto, marcou presença neste encontro de jovens, adrede agendado.
Na sua conta no Twitter, o Papa escreveu:
A vocês, queridos jovens, um muito obrigado por #Panama2019. Continuem a caminhar, continuem a viver a fé e a compartilhá-la. Até Lisboa em 2022.”.
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Segundo o que apurou o DN, será às portas de Lisboa que milhares e milhares de jovens receberão o Papa na JMJ anunciada por Francisco para a capital portuguesa em 2022. Depois de várias hipóteses colocadas na mesa, como o Campo de Tiro de Alcochete ou as bases do Montijo e da Ota, as autoridades religiosas e políticas já definiram um local: será no Parque Tejo, no Parque das Nações, prolongando-se para Norte, e na Bobadela, ali ao lado.
Apesar das cautelas entre a Igreja portuguesa (até porque, há meses, houve uma irritante fuga de informação que poderia ter estragado tudo), de eventual escolha alternativa de Estocolmo para a realização do encontro de 2022, as autoridades já tinham ido ao terreno verificar as condições logísticas. Pela zona norte do Parque das Nações já passaram o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, o vereador do Urbanismo, Manuel Salgado, e o próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
O anúncio da localidade para o encontro de 2022 foi feito oficialmente no Panamá, no encerramento da XXXIV Jornada Mundial da Juventude.
A comitiva portuguesa que se deslocou àquele país da América Central vincava o que está em causa e torcia pela escolha. O Presidente da República e o Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, foram acompanhados do presidente da autarquia lisboeta, que é também o presidente da Área Metropolitana de Lisboa, Fernando Medina – e que fontes ouvidas garantiram estar muito empenhado na escolha da capital – e do pároco do Parque das Nações, Paulo Franco.
Quer Marcelo quer Clemente tinham adotado o discurso cauteloso de quem diz ter “esperança” de poder trazer a próxima edição destas jornadas para Lisboa, porque assim determina a diplomacia do Vaticano: é ao Papa que cabe o anúncio formal. Mas há meses que a preparação avançava. E, entre os aspetos logísticos, estava a escolha do local, que poderá acolher cerca de um milhão de jovens.
A opção pelo Parque das Nações e Bobadela obrigará à construção de pontes pedonais para vencer o obstáculo natural que divide o espaço previsto para as jornadas, que é a foz do rio Trancão, e à remoção dos contentores existentes na Bobadela, entre a EN10 e a A30/IC2, porque as jornadas decorrem por vários dias (no Panamá, por exemplo, realizaram-se de terça-feira a domingo) e os jovens inscritos, sempre em número inferior ao que depois participa nos dois últimos dias no acolhimento ao Papa, são distribuídos por milhares de alojamentos diferentes.
É esta logística a que também responderá a organização portuguesa, que será coordenada pelo Presidente do Conselho da Administração da Rádio Renascença, o Cónego Américo Aguiar: arranjar alojamentos para acolher milhares de jovens.
Recorde-se que, em 2016, quando o encontro teve lugar em Cracóvia, Polónia, estavam inscritos oficialmente cerca de 360 mil jovens para a semana de atividades e, no fim de semana, para a vigília e a missa, o número disparou para cima do milhão e meio de jovens. Nesses dias, havia 37 mil espaços para acampar. Em 2011, em Madrid, havia 7000 espaços de alojamento, incluindo em Portugal, para os dias anteriores ao fim de semana em que o bispo de Roma participa na Jornada Mundial da Juventude.
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As cidades que já receberam as JMJ foram: Roma 1985 (Vaticano / Itália, 23 de março) – a primeira edição das JMJ, no Ano Internacional da Juventude, ficando decidido que, nos anos ímpares, a reunião seria realizada numa cidade do mundo, escolhida pelo Papa; Buenos Aires 1987 (Argentina, 11-12 de abril), 1.ª JMJ fora da Europa – onde 1 milhão de participantes ouviu as mensagens do Papa São João Paulo II; Santiago de Compostela 1989 (Espanha, 19-20 de agosto) – aonde 600 mil jovens foram em peregrinação; Częstochowa 1991 (Polónia, 10-15 de agosto) – com 1,6 milhões de jovens; Denver 1993 (EUA, Colorado, 10-15 de agosto) – com 900 mil jovens; Manila 1995 (Filipinas, 10-15 de janeiro) – com mais de 4 milhões de jovens; Paris 1997 (França, 19-24 de agosto) – com 1,2 milhões de jovens; Roma 2000 (Vaticano / Itália, 15-20 de agosto) – com cerca de 2 milhões de jovens (2,5 milhões, segundo a imprensa local) e o jubileu das JMJ a coincidir com o jubileu do milénio; Toronto 2002 (Canadá, 23-28 de julho) – com 800 mil jovens; Colónia 2005 (Alemanha, 16-21 de agosto), a 1.ª JMJ de Bento XVI – com 2 milhões de jovens; Sydney 2008 (Austrália, 15-20 de julho) – com 500 mil jovens; Madrid 2011 (Espanha, 16-21 de agosto) – com cerca de 2 milhões de jovens; Rio de Janeiro 2013 (Brasil, 23-28 de julho), a 1.ª JMJ de Francisco – com 3,7 milhões de fiéis; Cracóvia 2016 (Polónia, 26-31 de julho) – com 2,5 milhões de jovens; e Panamá 2019 (Panamá, América Central, 22-27 de janeiro) – ainda sem contabilização oficial.
E Lisboa 2019 (Portugal) constitui o desafio próximo para Portugal e a esperança para o triénio. De que Portugal é capaz não restam dúvidas, mas é mister que a Igreja em Portugal corresponda à confiança que nela se deposita e aproveite o ensejo para se rejuvenescer!
2019.01.27 – Louro de Carvalho

domingo, 12 de agosto de 2018

Jesus é o Pão da Vida


Esta categórica asserção de Jesus de que é o Pão da Vida ou o Pão Vivo (expressões equivalentes, sendo que a primeira é um hebraísmo) ocupa de algum modo todo o capítulo 6.º do Evangelho de São João (Jo 6,1-71); é precedida da afirmação da sua divindade, como vem desenvolvido no cap. 5.º; e emparelha com as afirmações de que é a Luz do Mundo (Jo 7,1-10,42) e a Vida do Mundo (Jo 11,1-12,50). João – mais atento, ao significado do gesto do lava-pés, ao mandamento novo do amor e do serviço, bem como à preocupação de Cristo com a unidade dos discípulos e a disponibilidade destes à aceitação da força consoladora do Espírito Santo – não incluiu no seu relato evangélico da Última Ceia a referência à bênção do pão durante a Ceia, como o fazem os Evangelho sinóticos (Mt 26,26; Mc 14,22; Lc 22,19). Porém, o discurso do Pão da Vida retém e expõe as ideias que muito influíram na afirmação da doutrina da Eucaristia na tradição cristã.
Com efeito, no contexto cristológico, o uso do título “Pão da Vida” é similar ao de “Luz do Mundo”. Na verdade Jesus afirma Eu sou a luz do mundo; quem me segue, de modo nenhum andará nas trevas, pelo contrário terá a luz da vida” (Jo 8,12). Estas são afirmações expandem o tema cristológico iniciado em João 5,26, onde Jesus declara possuir a Vida, dada pelo Pai, e a capacidade de a dar aos que o seguem.
O capítulo 6.º de João fornece excertos tomados como leitura do Evangelho para a Missa dos domingos XVII (1-15), XVIII (24-35), XIX (41-51), XX (51-59) e XXI (60-69) do Tempo Comum, neste Ano B.
Discurso do Pão da Vida é antecedido pelo episódio da multiplicação dos cinco pais e dos dois peixes depois de a multidão faminta ter escutado o ensino de Jesus, para o que o Mestre não prescindiu do pouco de comida que os discípulos tinham consigo e levou a multidão a sentar-se em conjunto e a compartilhar da comida disponível, que deu para todos e ainda sobejou. Repare-se que a bênção que ali o Senhor pronunciou sobre o pão é similar da referida pelos sinóticos aquando da Última Ceia (XVII domingo). Como era de esperar, as multidões ficaram entusiasmadas e quiseram aclamá-Lo rei. Jesus, porém, percebendo-lhes o intento, afastou-se sozinho para o monte. Entretanto, os discípulos deram conta de que Jesus caminhava sobre as águas e tiveram medo. E lá teve o Senhor que os tranquilizar.
No dia seguinte, as multidões aperceberam-se de que nem Jesus nem os discípulos estavam no lugar onde era suposto estarem. Meteram-se então em barcos e foram ter com eles lá para os lados de Cafarnaum. Foi então que Jesus resolveu pôs os pontos nos is e dar o devido esclarecimento. No deserto, depois da murmuração junto de Moisés e de Aarão, com saudades balofas da abundância do Egito, mas sob o signo da opressão e da escravidão, os antepassados comeram o Maná e as codornizes, como se leu no XVII domingo, na 1.ª leitura. Porém, agora eles ficaram satisfeitos, não pelos milagres nem pela Palavra, mas porque supostamente tinham quem lhes desse de comer sem terem de fazer qualquer esforço. Ora, como no deserto Deus – e não Moisés – lhes acudira em situação de necessidade, também agora por ação do Pai, Jesus colmatara a necessidade pontual da multidão, mas clarificou duas coisas: por um lado, cada um e todos têm de trabalhar para conseguirem o alimento de que necessitam e não esperar que ele surja de surpresa e sem esforço; por outro lado, é preciso trabalhar para conseguir o alimento que não pereça e tratar de o manter disponível em cada dia de passa. Ora este alimento é justamente o Pão da Vida.
E é exatamente, quando eles pedem a Jesus que lhes dê sempre desse pão, que se abre o núcleo do discurso do Pão da Vida:
Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não mais terá fome e quem crê em mim jamais terá sede. Mas já vo-lo disse: vós vistes-me e não credes. Todos aqueles que o Pai me dá virão a mim; e quem vier a mim Eu não o rejeitarei, porque desci do Céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade daquele que me enviou é esta: que Eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu, mas o ressuscite no último dia. Esta é, pois, a vontade do meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e nele crê tenha a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.” (Jo 6,35-40).
(XVIII domingo)
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Se no deserto, o povo murmurava porque não tinha comida, tinha sede e lhe custava a aguentar as agruras do deserto, agora os judeus murmuram contra Jesus por ter dito:Eu sou o pão que desceu do Céu’. E diziam: “Não é Ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a mãe? Como se atreve a dizer agora ‘Eu desci do Céu’?”.
Admite-se que os judeus não tivessem conhecimento da génese da encarnação do Verbo, mas censura-se-lhes a supina ignorância sobre o mandato celeste confiado por Deus aos profetas, bem como o apoio divino à missão profética. Na sua autossuficiência e na mania de que tudo sabiam acerca daquela personalidade, fecharam-se ao mistério e até se desdisseram do que professaram anteriormente: Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo!” (Jo 6,14).
Mas Jesus, sabendo que o murmúrio nada resolve e constitui pecha impeditiva da abertura ao mistério e ao outro, enclausurando-nos nos nossos esquemas e prejudicando os outros, ordenou: “Não murmureis entre vós”. E reafirmou com autoridade reforçada o discurso do Pão da Vida como suporte e resultado da fé:
Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não atrair; e Eu hei de ressuscitá-lo no último dia. Está escrito nos profetas: E todos serão ensinados por Deus. Todo aquele que escutou o ensinamento que vem do Pai e o entendeu vem a mim. Não é que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que tem a sua origem em Deus: esse é que viu o Pai. Em verdade, em verdade vos digo: aquele que crê tem a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram. Este é o pão que desce do Céu; se alguém comer dele, não morrerá. Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei de dar é a minha carne, pela vida do mundo.” (Jo 6,44-51).
Jesus não tenta discussão com quem se escandaliza nem tenta persuadir com argumentos irrefutáveis, mas apela à fé e a que se interroguem com sinceridade sobre aquilo de que Deus é capaz de fazer em prol do seu povo, lembrado as intervenções divinas ao longo da História e apresentando-Se como o garante de que Deus continuará a dar a Sua graça e agora em plenitude na pessoa do Filho, que é Ele próprio e que se apresenta como o Pão vivo descido do Céu, penhor de vida eterna. Para tanto associa a aceitação deste Pão ao ensino que Deus faz.
(XIX domingo)
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O XX domingo retoma no Evangelho (Jo 6,51-58) do discurso do Pão da Vida o segmento “Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu: se alguém comer deste pão, viverá eternamente; e o pão que Eu hei de dar é a minha carne, pela vida do mundo – com que reforça a sua condição de pão vivo não fabricado pelo homem, mas descido do Céu, e de garantia de vida eterna para quem dele comer, pois quem dele comer não morrerá como morreram os que se alimentaram do maná. Mais: este pão é a carne do próprio Cristo. E aqui surge novo murmúrio:
Então, os judeus, exaltados, puseram-se a discutir entre si, dizendo: ‘Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?’!” (Jo 6,52).
Mas Jesus não desarma e continua insistindo mais explicitamente:
Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei de ressuscitá-lo no último dia, porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue, uma verdadeira bebida. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e Eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim. Este é o pão que desceu do Céu; não é como aquele que os antepassados comeram, pois eles morreram; quem come mesmo deste pão viverá eternamente.” (Jo 6,53-58).
Desde os tempos dos primeiros cristãos se entende que o discurso do Pão da Vida se refere à Eucaristia, como os sinóticos explicitam no relato da Última Ceia, ali não de forma polémica como no cap. 6.º de João, mas na intimidade da refeição pascal, embora Jesus soubesse que seria traído, negado e abandonado, mas que tudo seria remediado e reforçado por ação do Espírito Santo, a força do Alto.
Trata-se, pois, de comer realmente o Corpo do Senhor e beber do Seu Sangue, o Corpo e Sangue do Filho do Homem – título que no 4.º Evangelho evoca sempre os mistérios indissociáveis da Encarnação e da Páscoa. Come-se e bebe-se a carne do Cristo Ressuscitado sob os sinais ou sacramento do pão e do vinho consagrados. E daí consegue-se que Cristo more em nós e nós nele. Mas não consegue tal alimento quem não acreditar na Palavra de Deus e do Seu Filho e não se deixar alimentar por ela. Mas quem o fizer terá a vida eterna e será ressuscitado no último dia porque o Senhor é a Ressurreição e a Vida, tal como é aqui e em toda a parte, agora e para sempre, o Caminho, a Verdade e a Vida.
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E o evangelho do XXI domingo (Jo 6,60-69), partindo do murmúrio, não das multidões, mas agora de muitos dos discípulos, reforça e encerra o discurso do Pão da Vida. De facto, “depois de O ouvirem, muitos disseram: ‘Que palavras insuportáveis! Quem pode entender isto?’.
Mas, como era de supor, o murmúrio (provindo da dureza de coração) não passou despercebido a Jesus, pois sabia que os discípulos murmuravam no seu íntimo a respeito disto, pois os conhecia por dentro, pelo que os interpela: “Isto escandaliza-vos?”. E, apelando aos valores do espírito e à inanidade da carne, que atrai a muitos, sabedor de que muitos não acreditam, desafiou:
E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? É o Espírito quem dá a vida; a carne não serve de nada: as palavras que vos disse são espírito e são vida. Mas há alguns de vós que não creem.”.
O evangelista não se esquece de frisar que efetivamente “Jesus sabia, desde o princípio, quem eram os que não criam e quem era aquele que O havia de entregar”, como se refere a vv. 70-71:
Disse-lhes Jesus: ‘Não vos escolhi Eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo’. Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes, pois esse é que viria a entregá-lo, sendo embora um dos Doze.
E, segundo João, era por isso que os advertira: “Eu vos declarei que ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for concedido pelo Pai”.  
O autor do 4.º Evangelho sublinha que, a partir dali, muitos dos discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele. Então, desafiou os Doze: “Também vós quereis ir embora?”.  Mas, de pronto, Simão Pedro adiantou-se e confessou: “A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso, nós cremos e sabemos que Tu é que és o Santo de Deus”.   
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O discurso do Pão da Vida foi longo e perturbado pela murmuração e pelo abandono de discípulos. Mas foi pedagógico, progressivo, insistente e claro, tendo a resposta (inspirado do Alto) plasmada na fé de Pedro, como sinal de adesão ao quadro messiânico que emoldura a figura e a missão do Senhor. De facto, Jesus é a Palavra de Deus feita carne.
Aceitamos nós de verdade este discurso do Pão da Vida? Deixamo-nos alimentar e agarrar na vida toda pela Eucaristia-banquete, Eucaristia-sacrifício-memorial, Eucaristia-sinal da parusia?
2018.08.12 – Louro de Carvalho

domingo, 15 de outubro de 2017

Ainda o encerramento do Centenário das Aparições em Fátima

Por ocasião do encerramento do Centenário das Aparições, o Santo Padre, além da referência que lhe fez na audiência geral na Praça de São Pedro, no passado dia 11 de outubro, quis associar-se ao momento celebrativo da Eucaristia do encerramento das celebrações centenárias com uma videomensagem em que apelou: “Nunca deixeis o Rosário”. Falando de viva voz em espanhol aos peregrinos através da predita videomensagem transmitida pelos ecrãs espalhados no Recinto de Oração, Francisco disse abençoando, saudando, recordando e incentivando:
Queridos Irmãos, neste dia em que celebrais o encerramento do Centenário das Aparições da Santíssima Virgem em Fátima, quero enviar-vos a minha bênção e a minha saudação.
Trago ainda no meu coração a memória da viagem e as bênçãos que a Virgem me quis dar e dar à Igreja nesse dia. Nunca tenhais medo, Deus é muito melhor do que todas as nossas misérias; e gosta muito de nós.
Ide em frente. E nunca vos afasteis da Mãe. Como uma criança que está junto a sua mãe e se sente segura, assim também nós ao lado da Virgem nos sentimos muito seguros. Ela é a nossa garantia.
E, finalmente, quero-vos dar um conselho: Nunca deixeis o Rosário; nunca deixeis o Rosário, rezai o Rosário, como Ela o pediu. Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E rezem também por mim. Obrigado”.
O Bispo de Leiria-Fátima explicou que a mensagem papal fora gravada numa audiência privada concedida a responsáveis da diocese, a 30 de setembro, no Vaticano. E acrescentou:
Hoje, estamos aqui a viver um momento histórico e único, para Fátima, para a Igreja, para Portugal e para todos os peregrinos de Fátima, o encerramento solene do Centenário das Aparições”.
O prelado deixou uma palavra de saudação aos peregrinos, que são os genuínos responsáveis por manter a atualidade da mensagem de Fátima: “Fátima é sempre nova, não envelhece”.
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Por seu turno, o Presidente da República destacou Fátima como “lugar de projeção de Portugal” no mundo, elogiando a mensagem de paz e solidariedade que aqui tem sido transmitida. Com efeito, no início da sessão solene de encerramento do Centenário das Aparições, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, formulou o seguinte voto:
Que a mensagem de Fátima, a mensagem da paz, a mensagem da fraternidade, a mensagem da solidariedade, a mensagem da humanidade, a mensagem do amor em todas as suas dimensões possa inspirar-nos a todos, possa inspirar a sociedade portuguesa, possa inspirar a humanidade, no presente e no futuro”.
E o Chefe de Estado declarou:
É uma mensagem que, mesmo quando virada para o Alto, olha para cada um dos seres humanos e apela à paz, à fraternidade, à solidariedade, à atenção relativamente aos que mais sofrem, aos que mais necessitam, àqueles que tantas vezes se encontram nas periferias de que tantos outros tão depressa se esquecem”.
Marcelo Rebelo de Sousa, que estivera em Fátima por diversas ocasiões, designadamente em maio, aquando da visita do Papa, evocou Fátima como espaço de “projeção de Portugal no mundo e do mundo em Portugal”, recordando os milhões de emigrantes portugueses e o “mundo que chega” a Portugal e em Fátima “se encontra”. E observou:
É em nome de Portugal, de todo o Portugal, de todos os portugueses, de todos os crentes e não crentes, católicos, cristãos e não cristãos, de todos eles, que aqui está o Presidente da República, cumprindo uma missão nacional”.
Querendo sublinhar, “a duplo título”, o significado da sua presença enquanto Chefe de Estado e evidenciando o Centenário “devidamente celebrado”, frisou:
Um Centenário que assinala a presença de Fátima na história contemporânea de Portugal, ou mais genericamente na História de Portugal, pelo encontro ao longo de 100 anos de milhões de portuguesas e de portugueses, que aqui vêm agradecer pelas suas alegrias, chorar as suas dores, formular os seus pedidos, testemunhar a sua fraternidade”.
O Presidente sublinhou que Fátima foi “ponto de chegada” de sucessivos Papas, aludindo às visitas de Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco “em momentos diversos da história de Portugal”, e acentuando a mensagem de paz que o Pontífice atual deixou, no dia 13, aos peregrinos na mensagem partilhada no final da eucaristia que encerrou a última grande Peregrinação Internacional do ano do Centenário.
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Já Dom António Marto, insistindo na ideia de que o Centenário permitiu viver um momento “histórico e único para Fátima, para a Igreja e para Portugal”, disse, naquela sessão, que a “incontável multidão” de peregrinos que, ao longo do ano, ali acorreu é “grata expressão de que o Santuário continua a ser lugar congregador das sedes e esperanças da humanidade”. Fátima é, segundo o prelado, um espaço de acolhimento incondicional de todos os homens e um oásis espiritual “onde as pessoas encontram a frescura capaz de regenerar a alma e a fé”. E frisou:
Ao longo de um século, Fátima confirma que a história definitiva, essa que tem horizontes largos e não se prende com nada de menor, se reza com a simplicidade dos humildes que estão dispostos a oferecer-se para bem dos demais”.
O Bispo fatimita falou ainda dos povos que “encontraram em Fátima o símbolo de esperança que alimentou a sua resiliência”, no último século. E acrescentou que este Centenário “toca as profundezas da humanidade, a verdade nua do mistério do homem”, pois, como sublinhou:
São muitos os caminhos que vêm dar a este lugar que guarda a memória da presença de Deus: os peregrinos chegam de todos os cantos do mundo e de todos os cantos da profundidade humana”.
A sessão solene da tarde do dia 13 encerrou um ciclo celebrativo de 7 anos, em resposta ao “repto” lançado a 13 de maio de 2010, na Cova da Iria, pelo Papa Bento XVI:
Possam os sete anos que nos separam do centenário das aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade”.
A este respeito, o Bispo de Leiria-Fátima falou num “itinerário de festa” para públicos variados, e num momento de ação de graças pelo facto de Fátima “se ter espalhado pelo mundo inteiro deixando um rasto de luz e de esperança”.
A sessão solene de encerramento das celebrações do Centenário, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, prosseguiu com o concerto da Orquestra e Coro Gulbenkian, dirigidos por Joana Carneiro. A primeira parte do programa integrou a estreia absoluta das obras ‘Salve Regina’ e ‘The Sun Danced’, de Eurico Carrapatoso e James MacMillan, respetivamente.
Além dos 400 convidados, puderam assistir ao concerto, através de ecrãs exteriores, os milhares de peregrinos que se encontravam em Fátima, nomeadamente nas colunatas do Recinto.
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Das celebrações do encerramento do Centenário das Aparições no estrangeiro, destaca-se a que decorreu em Paris sob a presidência do cardeal-patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, que tem estado em Paris até hoje, domingo dia 15, para esse efeito, e que sublinhou a importância da existência de um santuário português mariano na capital francesa. O cardeal-patriarca presidiu, no dia 12 à noite, a partir das 21 horas, à peregrinação no Santuário de Nossa Senhora de Fátima-Maria Medianeira em Paris XIXème, que celebra a “aparição” de 13 de outubro de 1917 – incluindo a recitação do terço, missa e procissão de velas. E hoje, dia 15, celebrou a missa, com a ministração do Sacramento da Confirmação, no mesmo Santuário de Nossa Senhora de Fátima-Maria Medianeira.
Em conferência de imprensa, o também Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa disse que “tinha de vir alguém de Portugal” celebrar o centenário e sublinhou que o Santuário Nossa Senhora de Fátima de Paris “tem um impacto muito grande, não só na cidade, mas além da cidade” e “não só na comunidade portuguesa, mas além dela”. E especificou:
É importante haver um santuário português aqui em Paris e é importante haver um santuário de Fátima em Paris. As coisas ligam-se muito bem não só pelo que Fátima é em Portugal, mas porque os portugueses que aqui se reúnem transportam aquilo que é tão próprio e identificativo do católico português que é esta expressão mariana”.
Para o cardeal Fátima acaba por ser e começa por ser um marco da identidade portuguesa, sendo hoje “um altar do mundo” porque “quem vai hoje a Fátima encontra ali o mundo todo”.
Na predita conferência de imprensa, Dom Manuel Clemente abordou vários assuntos da atualidade que a Igreja Católica acompanha, nomeadamente, o fluxo migratório para a Europa, lembrando que, quando se chegar “à metade deste século, a maioria da população da Europa não será autóctone”, algo que vê como positivo e com esperança. E referiu:
É positivo porque isto também pode tornar o nosso continente europeu num balão de ensaio de uma verdadeira globalização que parta daí, do encontro de pessoas, de povos, de culturas, de civilizações e que crie um mundo mais solidário. Essa é a nossa esperança”.
O cardeal-patriarca advertiu que “os movimentos radicais chamados jihadistas são um prejuízo” tanto para cristãos como para os muçulmanos, lembrando:
Os movimentos radicais que surgiram no campo islâmico têm muitas vezes como alvo os próprios muçulmanos que eles acham que não são suficientemente religiosos e que são os primeiros a sofrer”.
Considerando as contradições a que a corrupção do dado religioso dá lugar, disse:
Esta corrupção do religioso, transformada num aspeto que vai acirrar as diferenças étnicas, culturais, etc., em contradição com o outro, isto pode acontecer com todos. Eu julgo que dentro do próprio Islão há muita gente e há gente que sente esta problemática tal e qual como eu estou aqui a expressá-la e outros que são apanhados por conflitos interiores e exteriores que fazem da religião um pretexto para a violência. Mas isso é a contradição da religião.”.
Interpelado sobre a sua preocupação com a ameaça nuclear face à escalada de tensão entre os EUA e a Coreia do Norte, Dom Manuel Clemente disse “como ser humano” que “ao menos valha uma coisa: o instinto de sobrevivência”. E avisou:
Quando as coisas se podem tornar assim tão graves e até calamitosas com um potencial de destruição de que a humanidade nunca dispôs, mas de que hoje, infelizmente, alguns – muito poucos – dispõem em prejuízo de todos, ao menos que o instinto de sobrevivência faça pensar duas vezes e faça parar à beira do abismo porque isso poderá ser um caminho sem retorno”.
Na sua deslocação, de especial relevância para a comunidade portuguesa emigrante, o cardeal visitou também a delegação em França da Fundação Calouste Gulbenkian e o Consulado-Geral de Paris, onde teve um encontro sobre a emigração portuguesa.
A jornada do cardeal patriarca de 12 a 15 de outubro contou com a presença do Cônsul de Portugal em Paris, do capelão nacional dos Portugueses, do secretário-geral do Conselho das Conferências Episcopais da Europa e de representantes de algumas comunidades católicas e de associações portuguesas, entre outros.
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No rescaldo do encerramento das celebrações centenárias e para a vivência do Dia do Senhor, a Missa dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima contou com a participação de 46 grupos provenientes de 16 países.

Na homilia que proferiu para a animação e consolidação da fé dos peregrinos, o reitor do Santuário, o Padre Carlos Cabecinhas, desafiou esta manhã os participantes na celebração eucarística a responderem “generosa e prontamente” aos sucessivos convites de Deus, imitando os pastorinhos “numa entrega ao seu amor sem condicionalismos”.
Partindo da perícopa do Evangelho – que narra a parábola do banquete nupcial aplicada ao Reino de Deus (Mt 22,1-14) – que, neste domingo, o 28.º do Tempo Comum no Ano A, é proclamado nas igrejas de todo o mundo, o Padre Cabecinhas, que presidiu à missa dominical no Recinto de Oração, frisou que o essencial do texto evangélico não é apenas o convite que Deus nos faz a todos sempre de forma amorosa e gratuita (a iniciativa é sempre de Deus), mas a qualidade da nossa resposta. E, nesse capítulo, a Mensagem de Fátima “é um desafio” porque nos apresenta “um modelo de entrega” protagonizado pelos pastorinhos.
Perante os milhares de peregrinos, o reitor alertou para dois perigos de uma vida cristã rotineira: a indiferença e a indignidade.
Sobre a indiferença, que alguns consideram como um lodaçal a eclipsar a vida da fé, disse:
A indiferença é a primeira forma de recusa ao convite de Deus. É a atitude de quem está demasiado ocupado consigo mesmo e centrado nos seus projetos;  demasiado centrado em si para prestar atenção a Deus e aos seus apelos e isto pode acontecer a cada um de nós.”.
Sobre a outra forma de negação – a  indignidade de quem aceita o convite de Deus, adere às suas propostas, recebe o batismo, mas tem uma vida diferente da proposta por Jesus, advertiu:
A parábola representa esta advertência: não basta entrarmos na sala do banquete, dizer que somos cristãos e batizados. É preciso um estilo de vida próximo de Jesus.”.
Lembrou o Padre Cabecinhas que a veste nupcial que somos convidados a vestir (e que é o próprio Deus que nos dá), da qual fala o evangelho, “é a de uma vida vivida, em sintonia com a palavra de Deus” – “é a nossa vida, os nossos valores, atitudes e comportamentos que mostram como aderimos ao convite de Deus”.
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No final da celebração, o Reitor do Santuário procedeu à bênção duma imagem de Nossa Senhora de Fátima, idêntica à da Capelinha das Aparições, com 70 cm de altura, oferecida pelo Santuário de Fátima ao velejador solitário Gonçalo Diniz e que será levada até ao Brasil numa viagem que demorará mais de um mês, com a qual o solitário navegador pretende assinalar, simultaneamente, os 100 anos das Aparições de Fátima e os 300 anos da Senhora da Aparecida. 
A partir de Fátima Ricardo Diniz cumprirá o primeiro de 6 dias a pé até Peniche, numa peregrinação pessoal de mais de 80 quilómetros que, no final do mês, o levará daquela localidade piscatória do distrito de Leiria até São Salvador da Baía, um percurso de cerca de 6.600 quilómetros, a solo, num veleiro com 20 metros, coberto de flores frescas. 
Ao aportar a São Salvador da Baía, o navegador solitário entregará a imagem de Nossa Senhora às autoridades eclesiásticas locais. 
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É assim. O Centenário marcará o início de uma nova etapa fatimita, repleta de iniciativas, de espiritualidade, de comunhão com outros santuários e com outras comunidades, acentuando o sentido e o dinamismo da peregrinação e a força da evangelização. Espera-se outrossim que o Santuário de Fátima satisfaça todas as exigências compaginadas na Carta Apostólica em forma de “Motu Proprio” Sanctuarium in Ecclesia do Sumo Pontífice Francisco, com a qual transferiu para o Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização as competências  sobre os Santuários, designadamente: o seu papel evangelizador e de incentivo à religiosidade popular; a promoção da pastoral orgânica do Santuário como centro propulsor da nova evangelização; a promoção de encontros nacionais e internacionais em prol da obra comum de renovação da pastoral da piedade popular e da peregrinação rumo a lugares de devoção; a promoção da formação específica dos agentes dos Santuários e dos lugares de piedade e devoção; a oferta aos peregrinos, nos lugares de passagem, de assistência espiritual e eclesial concreta que permita o maior fruto pessoal destas experiências; e a valorização cultural e artística do Santuário segundo a via pulchritudinis como modalidade de evangelização.

2017.10.15 – Louro de Carvalho