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domingo, 22 de setembro de 2019

O Livro do Profeta Amós: palavras de Amós, que foi pastor de Técua


A 1.ª leitura da Liturgia da Palavra do 25.º domingo do Tempo Comum no Ano C é uma passagem do livro do profeta Amós (Am 8,4-7) que denuncia os comerciantes sem escrúpulos, preocupados em ampliar cada vez mais as suas riquezas, que pensam em explorar a miséria e o sofrimento dos pobres. E Amós avisa que Deus não está do lado de quem, pela obsessão do lucro, escraviza os irmãos. Ou seja, a exploração e a injustiça não passam em claro aos olhos de Deus.
Dada a pertinência do livro hoje e porque tem réplicas atualizadas no 3.º Evangelho e na Carta de Tiago, propõe-se uma reflexão sobre a intenção e o conteúdo do Livro de Amós.
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O Profeta
Amós pertence ao conjunto do chamado “livro dos doze”, expressão usada para referir os doze profetas menores da Bíblia Hebraica. Vem a seguir Joel (que vem depois de Oseias) e antes de Abdias. O Seu nome é único no Antigo Testamento (AT): 'āmos. E ocorre 7 vezes (1,1; 7,8.10.11.12.14; 8,2). Não deve ser confundido com o Amós ('āmôs), pai do profeta Isaías (2Rs 19,2.20). A identificação com o Leão – metáfora que aponta para a ferocidade da palavra que exige mudança irrevogável – aparece mais de uma vez no livro (1,1; 3,4.8.12; 5,19) e parece indicar ora a palavra de Deus, ora a palavra do profeta.
Era natural de Técua, localidade situada no deserto do reino de Judá, a 8 km a sudeste de Belém. Em 1,1 diz-se que era pastor e, em 7,14 reafirma-se esta profissão e afirma-se que também cultivava sicómoros. O mister de pastor faz dele um homem pobre e alegadamente sem cultura. Mas o livro mostra que conhece bem a geografia e certos acontecimentos dos países vizinhos, a História sagrada do seu povo e toda a problemática social, política e religiosa de Israel.
Economicamente, não deveria ser um assalariado; provavelmente guardava os rebanhos e cultivava os terrenos que eram propriedade sua. Não era um profeta convencional e profissional; não tinha qualquer relação com a profecia e com os grupos proféticos. Não narrando o livro diretamente a sua vocação, faz-lhe referência em 7,14-15. O Senhor enviou-o a profetizar Israel, isto é, ao Reino do Norte, não se sabe quando, mas foi em tempos do rei Jeroboão II (século VIII a. C.), quando o rei de Judá era Juzias, provavelmente entre os anos 760-750 a.C. Chamado por Deus, deixa a sua terra e parte para o reino vizinho para gritar à classe dirigente a sua denúncia profética. A rudeza de discurso, aliada à integridade e afoiteza da fé, traz algo do ambiente duro do deserto e contrasta com a indolência e o luxo da sociedade israelita da época. Deve ter pregado em várias localidades do reino do Norte até chocar com a oposição dos dirigentes em Betel (7,10-13), nomeadamente Amacias, o que lhe dificultou o exercício da ação profética.
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A época
Após a divisão dos dois reinos, a seguir à morte de Salomão, o reino do Norte viveu períodos de grande instabilidade, sujeito aos constantes ataques dos reinos arameus do Norte, às lutas internas e à consequente perda de territórios e influência. A situação alterou-se no início do século VIII: quando a Assíria começou a expandir-se, atacou Damasco, o que permitiu a Israel recuperar alguns territórios e reorganizar-se internamente.
Governava então em Israel Joás e, logo a seguir, Jeroboão II, seu filho, em cujo reinado houve um certo progresso social e económico e tranquilidade política: as conquistas de Jeroboão II alargaram consideravelmente os limites do reino e permitiram a entrada de tributos dos povos vencidos; a população aumentou; os recursos agrícolas cresceram; o comércio e a indústria (sobretudo a mineira e a têxtil) desenvolveram-se significativamente; as construções da burguesia urbana atingiram um luxo e magnificência até então desconhecidos (os palácios eram luxuosos). Amós dá-nos conta deste progresso.
No entanto, a melhoria económica tem o seu reverso da medalha. A prosperidade e o bem-estar das classes favorecidas contrastam com a miséria das classes baixas. O sistema de distribuição estava nas mãos de comerciantes sem escrúpulos que, aproveitando o bem-estar económico, especulavam com os preços, diminuíam as medidas e falseavam as balanças. Com o aumento dos preços dos bens essenciais, as famílias de menores recursos endividavam-se e acabavam por se ver espoliadas das suas terras em favor dos grandes latifundiários. O pequeno proprietário via-se sufocado pelos interesses dos poderosos. A classe dirigente, rica e poderosa, dominava os tribunais e subornava os juízes, impedindo que o tribunal fizesse justiça aos mais pobres e defendesse os direitos dos menos poderosos. Acentuava-se a divisão entre ricos e pobres e a ambição dos ricos não conhecia fronteiras: geravam-se injustiças sociais gritantes e os pobres ficavam à mercê dos que detinham o poder. Empréstimos com juros, hipotecas, serviço como escravo, falsificação dos pesos e das medidas no comércio, corrupção nos tribunais, luxo desmedido dos ricos...
Tudo isto continua, com as mesmas ou com novas modalidade, no nosso século XXI com a contrafação na produção, desvio da distribuição de produtos essenciais, tráfico de influências, especulação financeira e imobiliária e esmagamento dos trabalhadores com baixíssimos salários e aumento do custo de vida. E Amós, que denunciava todas estas situações, teria muito que fazer hoje entre nós.
Com a decomposição social, vem a corrupção religiosa: santuários pagãos, falsidade do culto (tanto se adorava o Senhor como outras divindades; praticava-se o culto para encobrir as injustiças sociais), falsa segurança e complexo de superioridade por pertencer ao povo escolhido. É nesta situação de prosperidade económica e política, de injustiças e desigualdades sociais, de paganismo e corrupção religiosa que atua o profeta. O objeto da palavra do profeta são as injustiças sociais.

O livro
O livro de Amós desenvolve-se em 9 capítulos e o modo como o livro se organiza reflete um longo processo de composição. Não obstante, uma análise mais profunda deixa aparecer a vastidão do problema. São muitos os modos dos estudiosos para dividir o livro. Pela sua relevância, apresentam-se duas. A divisão em quatro partes; e a divisão em três secções.

A divisão em quatro partes
Depois do título (1,1) e de um breve prólogo (1,2), o livro de Amós divide-se em quatro partes:
I. Oráculos contra sete nações vizinhas de Israel e contra Judá e Israel (1,3-2,16).
II. Oráculos contra Israel (3,1-6,14). Nesta parte encontram-se as principais críticas de Amós à corrupção social e religiosa e o anúncio do castigo (3,13-15; 5,1-3.16-20; 6,8-14).
III. Castigos divinos (7,1-9,10). São cinco visões, das quais as primeiras quatro começam com a mesma fórmula e a quinta é diferente. No meio das visões encontra-se a narração da expulsão de Amós do santuário de Betel (7,10-17) e outros oráculos (8,1-14; 9,7-10).
IV. Esperança messiânica como oráculo de salvação (9,11-15):
Virão dias em que o lavrador seguirá de perto o ceifeiro e o que pisa os cachos seguirá o semeador. Os montes destilarão mosto; todas as colinas se derreterão. Restaurarei o meu povo de Israel. Hão de reconstruir e habitar as cidades devastadas. Plantarão vinhas e beberão do seu vinho, cultivarão pomares e comerão dos seus frutos. Hei de plantá-los na sua terra e nunca mais serão arrancados da terra que lhes dei!”. 
No livro predomina o tom poético, excetuando o v. 1 do cap. 1, todo o cap. 7 e os três primeiros versículos do cap. 8. Lê-lo como poema e ter alma de poeta ajudam à sua interpretação.
O tema dominante do livro de Amós, segundo alguns, é a denúncia o castigo. Nas duas primeiras visões vê-se que o profeta intercede e pede perdão pelo povo; mas, nas outras três, já não há remédio e que a catástrofe é iminente. No entanto, dá a solução e aponta a esperança.
Segundo Amós, são contrários ao plano de Deus na História o luxo e a ostentação da riqueza, a exploração dos pobres e dos oprimidos, a fraude e todo o tipo de injustiças sociais, o culto sem o necessário compromisso ético, o sincretismo religioso e as falsas seguranças apoiadas na eleição de Israel. E, como Deus não tolera estes abusos, a única forma de fazer o povo sentir estes males é o castigo por meio da invasão militar. Ora, dizer isto em tempos de Jeroboão II, numa época de prosperidade económica, pareceria obra de louco. Porém, décadas mais tarde (em 722), as tropas assírias conquistam a Samaria e o Reino de Israel desapareceu do mapa.
Amós não se limita a anunciar o castigo; explica porque é que ele vai acontecer, e aponta a única saída possível: buscar o Senhor para viver (vd 5,6); buscar o bem e não o mal (vd 5,14). Lutar por uma sociedade mais justa é, para o profeta, o meio de escapar do castigo. E é notável a sua descrição do Dia do Senhor, apresentado como um dia de trevas e de calamidade, mesmo para o povo eleito (8,8-14) – parecido com Joel e diferente de Abdias (este anuncia o triunfo de Israel). Os evangelistas e, com eles, a Igreja Apostólica interpretam o martírio de Cristo, o Eleito de Deus, à luz destes textos de Amós (Mt 27,45-46; Mc 15,33-41; Lc 23,44-49; Jo 19,36-37).

Na perspetiva das três secções
Secção A (1,3-2,16). Parece que um dos principais critérios para tal afirmação parte da observação de que uma fórmula é repetida nesses textos: 1,3.6.9.11.13; 2,1.4.6 – “Assim falou o Senhor”. Assim, em hebraico, kōh 'āmar Yhwh (assim falou YHWH) 'āl she lōshāh pîshe 'ēy (por três pecados de) w e 'al ’ar e bā'āh (por quatro).
Secção B (3,1-6,14). Os autores observam que os oráculos são bem marcados com a presença do verbo ouvir, em hebraico a raiz shāma‘: Ouvi esta palavra que YHWH falou contra vós, filhos de Israel (3,1). Ouvi esta palavra, vacas de Basã (4,1). Ouvi esta palavra que eu sentencio sobre vós, como lamento, casa de Israel (5,1). Com a expressão “vacas de Basã” o profeta refere ironicamente as mulheres de Samaria que não se preocupam com os pobres. Ainda nesta secção, é notável o uso da interjeição “ai” que se constitui, em exegese bíblica, como indicativo de um género literário de condenação ou juízo. Encontra-se em 5,18 e 6,1.
Secção C (7,1-9,15). Apresenta 5 relatos de visões do profeta (7,1-3; 7,4-6; 7,6-9; 8,1-3 e 9,1-4) e a promessa de restauração final (9,11-15).
Como se vê, a diferença na divisão do livro fica-se aqui pela junção de duas partes da anterior divisão na secção C. O importante é que no livro de Amós as distancias se encurtam.
No livro fica bem patente a preocupação social do profeta. A situação dos habitantes de Israel no século VIII a.C. acusa uma despreocupação com os pobres e isso é motivo da condenação desencadeada pelo profeta. Note-se que a divisão do livro não funciona apenas como motivo literário: é uma espécie de funil a atingir os destinatários da mensagem de castigo.
Cabe agora ver as particularidades de cada uma destas secções. Com efeito, de um lado, há um grande número de géneros literários no livro: notas biográficas, oráculos contra nações vizinhas de Israel e oráculos contra o próprio Israel, lamentos e convites ao arrependimento, relatos de visões, mensagens de esperança e algumas passagens que parecem ser fragmentos de hinos. Por outro lado, uma série de termos e expressões marcam mudanças de tonalidade e obrigam a perceber novas formas e novos modos de expressão da palavra do profeta.
Na secção A, a primeira informação, no v. 1, parece funcionar como um título geral do livro, pois menciona os dois elementos principais: palavras e visão. Traz algumas referências pessoais e informações sobre Amós. São comuns entre os profetas notas como essa (vg.: Os 1,1; Is 1,1 e Jr 1,1). Nesta secção, fica patente a preocupação principal do profeta com os crimes cometidos pelas nações vizinhas de Israel e pelo próprio Israel. A lista referente aos crimes e castigos faz desfilar aos nossos olhos a índole beligerante das palavras de Amós contra tais crimes cometidos contra a pessoa humana. Há exceção apenas para Judá (2,4-5) cujo crime é não ter seguido a lei (Torah) de YHWH. Todavia, há coerência na palavra de Amós, visto que seguir a lei é, sobretudo, resgatar a importância e o valor do ser humano.
Surge nestas linhas uma curiosa numerologia bíblica: pode ser identificada nos oráculos contra as nações (2,6-8) uma lista de 7 transgressões, bem como 7 anúncios de castigo (2,14-16). Há 7 anúncios de acusação e 7 de castigo. E os oráculos dirigidos às 7 nações sugerem o clímax (7+1) para a oitava nação, isto é, Israel. Estes oráculos contra as nações parecem refletir os “famosos textos egípcios de execração, onde se quebravam vasos que traziam a inscrição dos nomes dos inimigos”, o que denota a origem cultual dos oráculos.
A Secção B mostra um conjunto de oráculos contra Israel com palavras muito duras. É de anotar que o processo de afunilamento começa a ficar visível na obra, dado que a última nação citada, na secção anterior, foi Israel. Nesta altura, o profeta denuncia a corrupção do ambiente social e a do culto. Nota-se, numa extremidade do texto, a marcação com o verbo ouvir (3,1; 4,1; 5,1) e, na outra, com a interjeição “ai” (5,18; 6,1). O centro (5,1-17) pode ser identificado como elo entre as ditas extremidades. Assim, o destaque de 3,1-4,13 é o mandato de ouvir a palavra do Senhor. A parte intermediária é, assim, o ponto central e culminante da secção.
O profeta olha em perspetiva negativa todas as ações de Israel: é Israel que pratica a violência e a opressão (3,9-10); e é traçada com palavras excessivamente hostis (3,14-15; 4,4-5) a corrupção cultual. Israel vira suas costas ao convite de volta e arrependimento (4,6-11), o que leva a um ato final do julgamento terrivelmente ameaçador: “Portanto, prepara-te para encontrar teu Deus, Israel” (4,12). É ameaça àqueles que odeiam a justiça e a sinceridade (5,10).
A secção C é marcada pelo ciclo das 5 visões, que aparecem, respetivamente, em 7,1-3 (sobre os gafanhotos); 7,4-6 (sobre o fogo); 7,7-9 (sobre o fio de prumo); 8,1-3 (sobre o cesto de frutos maduros); e 9,1-4 (destruição do santuário). Uma das principais questões desta parte da obra é a busca de resposta para a dimensão e alcance do juízo presente nas 5 visões, mais terrível na última. E a hipótese é a de que pode ser encontrado, nos textos que antecedem o relato visionário (7,1-8,14), o motivo ou motivos para o juízo anunciado em 9,1-4. Seriam motivos ligados exatamente ao descuido com o pobre e à prática da injustiça social e cultual.
Nesta secção encontra-se o confronto, com narrativa em 3.ª pessoa, entre o profeta e o sacerdote Amacias, sacerdote de Betel (7,10-17). É, como se viu, a segunda nota biográfica do livro (a primeira em 1,1-2), que se impõe com grande importância. Um ponto de destaque na neste texto é o seu posicionamento entre a 3.ª visão e a 4.ª, posicionamento que gera perguntas pelo facto de se tratar de um texto narrativo que interrompe a série de visões desta secção. Parece pertencer ao conjunto geral do livro face aos muitos pontos de contacto com o material à sua volta no ciclo das visões.  
Após as 4 primeiras visões, vêm alguns oráculos (8,4-14), aos quais se segue a 5.ª visão (9,1-4). Em 9,5-6, temos uma doxologia, um fragmento de hino, que se harmoniza com 4,13 e 5,8-9. Vêm, em 9,7-10, palavras de juízo. E o último texto do livro (9,11-15) apresenta fortes traços de redação muito posterior ao tempo de Amós cuja análise tem sido tema de debate.
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Concluindo 
A destruição vertical de Israel, ou seja, a que parte das forças diretivas do povo, induz a desestruturação do poder social. O contexto histórico de tranquilidade e expansão de Israel no século VIII a. C. pode lançar luzes importantes. A religiosidade do povo e a certeza do olhar favorável de Deus (4,4; 5,5.21-23) deixa transparecer que tudo está correto. Todavia esse bem-estar e pretensa paz têm as suas raízes na injustiça social: a indiferença à situação de pobreza e a provocação do seu aumento, com a ausência de perspetiva moral e ética da parte do poder.
Amós dirige-se, em 8,4-14, a um grupo de difícil identificação. Porém, nota-se que esse grupo é distinto daquela categoria que abrange os indigentes, pobres e fracos. E esta observação induz que muitos pontos têm de ser levados em conta tendo em vista a perspetiva social que não privilegiava os pobres da terra. A apropriação ilícita e o acúmulo de bens merecem ataque decidido e ferrenho por parte do profeta. Certamente que a opressão ao pobre constitui o ponto central da pregação condenatória de Amós.
Os comerciantes lamentam-se por terem que esperar a passagem do sábado e das festas porque perdem dinheiro (8,5), que poderia ser ganho com a exploração. Em lugar do culto a Deus, o que está em jogo é o enriquecimento ilícito às custas dos pequenos. Mais uma vez se observa a ligação do culto com a exploração social. E há uma particular acusação contra os que compram e necessitados com prata e o pobre com um par de sandálias (8,6). Já se havia condenado os que vendem o justo (2,6). Parece tratar-se de um comércio de escravos e, se a interpretação é procedente, é significativo que uma das possibilidades de fuga, na 5.ª visão, seja o cativeiro (shebî). Para lá são levados os prisioneiros que perdem, como os escravos, os seus direitos. Deus não tolera a exploração humana que chega ao ponto do comércio de vidas, ao engano de incautos e indefesos, à repressão de opostos.
O livro aponta para o desenvolvimento e condenação da injustiça, injustiça que alastra gerando a miséria e a morte, enquanto se erguem cânticos de festa no santuário. A palavra profética procura pôr termo a esta estrutura de pecado e exploração que, como uma cárie, corrói o povo. Isso não está tão distante do século XXI, pelo contrário, parece até refleti-lo com luzes ainda mais brilhantes. E os profetas de agora – não tão frequentes como é desejável – ou não são ouvidos ou são escarnecidos. E, em muitos lugares, são torturados e mortos, às vezes até por quem se diz amigo de Cristo, cujo sacrifício parece teimar em não chegar, por culpa dos homens, a todas as pessoas, lugares e tempos.

(cf 25.º Domingo do Tempo Comum – Ano C, https://www.dehonianos.org/portal/25o-domingo-do-tempo-comum-ano-c0/; Altamir Celio de Andrade, A Estrutura Literária do Livro de Amós,

2019.09.22 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Os atentados no Sri Lanka ensombram o fulgor da Páscoa


Refere o Público on line que os atentados do Sri Lanka – com 290 mortos e 500 feridos, segundo o mais recente número oficial – que pode ainda aumentar – entram para o lote dos piores de que há registo, embora ainda estejam no topo da lista os ataques da Al-Qaeda em território norte-americano em 2001, os piores de sempre, em que morreram 2977 pessoas. 
Com efeito, os ataques deste domingo de Páscoa – em igrejas cristãs e no centro de Colombo, a capital – mataram pelo menos 290 pessoas e fizeram mais de meio milhar de feridos, entre os quais cerca de três dezenas de estrangeiros, um dos quais era um português de Viseu, que ali estava em lua-de-mel (ficando uma viúva precoce) e três filhos do homem mais rico da Dinamarca.
De acordo ainda com a AFP, citada pela revista Time, em janeiro passado, a polícia daquele país apreendeu explosivos e detonadores e deteve quatro elementos do NTJ (National Towheed Jamath). E, segundo a Reuters, vários muçulmanos do Sri Lanka juntaram-se ao ISIS, na Síria.
O Governo pensa que o NTJ, grupo terrorista islâmico recém-criado, será o autor dos ataques e confirma que os serviços secretos tinham sido avisados 14 dias antes da Páscoa. Nesse sentido, vinha a informação da AFP (a Agência France-Presse) segundo a qual um grupo recém-formado de extremistas islâmicos estaria há vários dias sob vigilância das autoridades cingalesas, que temiam atentados suicidas contra igrejas católicas por parte do NTJ.
Como refere Valentina Marcelino, do DN, as autoridades anunciaram a detenção de 7 suspeitos, mas não foi confirmada ainda a ligação àquele grupo. O Governo apenas confirma que são extremistas religiosos, para evitar que haja reações contra a comunidade em causa.
Entretanto, o Conselho Muçulmano do Sri Lanka – duma comunidade que representa menos de 10% da população, que tem uma maioria budista, com cerca de 70% – condenou os atentados “contra os irmãos e irmãs ‘cristãos’ na celebração da Páscoa”, bem como nos hotéis em Colombo, e exprimiu pesar pela perda de “vidas inocentes devido a elementos extremistas e violentos que querem criar divisões entre religiões e grupos étnicos para marcar a sua agenda”.
O Sri Lanka declarou estado de emergência em 2018, depois de multidões de budistas terem atacado mesquitas, casas e propriedades muçulmanas na cidade de Kandy. Estes ataques terão sido a retaliação a um espancamento de um budista por um muçulmano.
Entretanto, nova explosão foi hoje, dia 22, registada no Sri Lanka, na cidade de Colombo, perto da igreja de St. Anthony, local de culto já tinha sido afetado nos ataques do passado domingo – conta a NBC News. O jornalista do The Guardian Michael Safi partilhou um vídeo onde se veem várias pessoas a fugir, em pânico, e o próprio alega ter havido uma “pequena explosão”.
E Azzam Ameen, repórter da BBC, publicou um tweet onde afirma que a explosão terá ocorrido quando as autoridades estavam a tentar desativar um novo engenho explosivo localizado dentro dum veículo. Publicou também, mais tarde, uma imagem da zona onde se deu a nova explosão. Ainda não há relatos de baixas.
Como recorda a já mencionada Valentina Marcelino, durante 30 anos, uma guerra civil sangrenta assolou o Sri Lanka, tendo morrido mais de 70 mil pessoas (o Vatican News fala em 80 mil mortos). A maioria budista levantou-se contra os tâmiles do norte, que reivindicavam um Estado independente, até que, em 2009, a vitória governamental contra os rebeldes, os ditos Tigres Tâmil, criou a expectativa de paz no país. Porém, os ódios religiosos e étnicos parecem continuar a marcar aquele território.
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Em outro artigo no DN, a predita jornalista faz um apontamento sobre a História e a Geografia do Sri Lanka. Começa por relacionar a forma lacrimal da ilha com a história recente do país, marcada por banhos de sangue e muitos ódios entre a maioria cingalesa (comunidades budistas), hindus, muçulmanos e os tâmiles (hinduístas e católicos).
Assinala a edificação da fortaleza de Galle pelos portugueses liderados pelo navegador Lourenço de Almeida, que lá chegou em 1505, arrastado por uma tempestade e relaciona com Sri Lanka (antigo Ceilão) a “Taprobana” (nome romano) de que fala Camões na 1.ª estância da sua epopeia. Foram efetivamente os portugueses os primeiros europeus a desembarcar, em 1505, na ilha de aparência paradisíaca e território mítico, há séculos, na Europa pelas suas especiarias, sobretudo a canela.
Depois, evoca o santo lá canonizado pelo Papa Francisco em 2015: São José Vaz, nascido em 1651, na localidade indiana de Benaulin, em Goa, na época território administrado por Portugal, foi ordenado sacerdote na Congregação de São Felipe Neri. Enviado ao Sri Lanka, em 1687, como missionário para minorar a forte pressão que budistas e calvinistas exerciam contra a Igreja Católica, ali fundou mais de 15 Igrejas e 400 capelas, traduziu o Evangelho nos dois idiomas do país, o tâmil e o cingalês e morreu em Kandy (Sri Lanka), a 16 de janeiro de 1711
Releva que dos tempos de presença portuguesa ficou uma pequena comunidade cristã e uma cidade/fortaleza, Galle, nome cuja origem estará nos galeões portugueses ou nas “galés”, ou ainda no “galo” português, que os holandeses vieram a utilizar como símbolo no local.
A fortificação portuguesa, sob a invocação da Santa Cruz, foi erguida junto com uma capela franciscana e, mais tarde, serviu de prisão para cingaleses que se opuseram ao domínio português. Nos 150 anos de colonização portuguesa, foram criadas importantes feitorias: além de Galle, surgiram Colombo, Jafanapatão, Negumbo, Baticalo e Tricomalee. Mas os vestígios mais nítidos da presença portuguesa veem-se nos apelidos de mais de metade da população, como Perera, Fernandes, Sousa, Silva, ou Fonseca.
Sarath Fonseka é o nome do mais famoso general do país e que foi o arquiteto da estratégia do Governo que venceu os tâmiles em 2009, ano da morte do “Tigre” desta minoria que lutava por um estado independente no norte do país.
A guerrilha dos “Tigres de Libertação do Eelam Tâmil” (TLET) desferiu inúmeros ataques suicidas e outros atentados contra alvos civis e militares. Entre as vítimas, conta-se Rajiv Gandhi, ex-primeiro-ministro indiano, atingido por uma “mulher-bomba” em 1991.
Em mais de três décadas de conflito, não há inocentes, pois os rebeldes e o Exército Cingalês são acusados de violação dos direitos humanos e abusos vários por organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch.
A derrota dos tâmiles levou o país a uma fase de aparente acalmia, só interrompida por ataques esporádicos dos maioritários budistas contra mesquitas e propriedades muçulmanas. No entanto, tais ataques levaram à declaração do Estado de Emergência em março de 2018, com o país a preparar-se para as legislativas de 2020. E o presidente Maithripala Sirisena anunciou, este ano, a retoma da pena de morte num país cuja última execução dum prisioneiro remonta a 1976.
Hugo Cardoso, investigador da Faculdade de Letras de Lisboa, em recente estudo, identificou no Sri Lanka uma comunidade de milhares de falantes de crioulo, que tem como origem a presença dos portugueses. Diz o linguista:
A língua é muito opaca, conseguimos imediatamente identificar algumas palavras, mas só depois de nos habituarmos à fonética é que começamos a reconhecer muitas mais palavras. Percebemos que o léxico é quase todo português, com transformações interessantes, com alguns arcaísmos e influência do holandês, do inglês e do tâmil. Mas, continua a ser fundamentalmente português.”.
Esta comunidade identifica-se como sendo a dos burghers – termo que significa “cidadãos” em holandês e que passou a designar todos os que tivessem ascendência euro-asiática (incluindo os portugueses e os holandeses) no Sri Lanka.
Na sua pesquisa, divulgada em março, Hugo Cardoso descobriu que a “Baila”, um estilo de música muito popular no país, tem também raízes portuguesas. E explicou:
Baila é um estilo de música do Sri Lanka, extremamente popular no país ao ponto de ser considerada a música nacional e que tem as suas raízes, tal como o nome indica, na presença portuguesa e nas tradições musicais destas comunidades burghers. Existe a baila cantada em crioulo português, mas também é cantada em tâmil ou cingalês.”.
Em 2014, Pedro Passos Coelho, então Primeiro-Ministro, esteve com elementos desta comunidade num orfanato apoiado pela AMI, cerca de 70 km a sul da capital, onde plantou uma mangueira (árvore nativa da Ásia), descerrou uma placa alusiva à sua visita, içou uma bandeira portuguesa e ofereceu às crianças uma bola da Federação Portuguesa de Futebol.
A Igreja Católica Romana no Sri Lanka tem origem na chegada dos portugueses àquele país, em 1505, na altura designado Taprobana. Os católicos representam atualmente cerca de 7% da população de 21 milhões de habitantes. Em 2015, como ficou dito, o Papa Francisco canonizou São José Vaz, missionário do século XVI.
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De acordo com o Público on line, o Sri Lanka entra na lista dos atentados mais mortíferos desde o 11 de Setembro. Na verdade, a série de atentados contra igrejas e hotéis de luxo que se verificou no Sri Lanka no domingo de Páscoa é um dos piores ataques terroristas de sempre.
Segundo uma contabilidade feita pelo The Guardian, está em segundo lugar um ataque do Daesh a 12 de junho de 2014 contra a Academia da Força Aérea na cidade de Trikrit (Iraque), cujo nome oficial era Camp Speicher, em que foram raptados e mortos no deserto mais de 1500 cadetes, 1500 xiitas e não muçulmanos.  
Cerca de 600 pessoas morreram e mais de 300 ficaram feridas a 14 de Outubro de 2017, quando foi provocada a deflagração dum camião cheio de explosivos no centro de Mogadíscio, capital da Somália. A explosão detonou um camião de combustível que estava perto, criando uma imensa bola de calor que incinerou pessoas e edifícios.
Em dezembro de 2008, o Exército de Resistência do Senhor, uma milícia ugandesa, atacou várias aldeias, na República Democrática do Congo, cercando pessoas que celebravam o Natal. De acordo com vários relatos nos media, foram mortas mais de 620 pessoas.
Em agosto de 2007, pelo menos 500 pessoas morreram e pelo menos 1500 ficaram feridas em ataques com carros armadilhados contra a comunidade yazidi perto de Mossul (Iraque) e haveria, mais tarde, mais mortos, bem como perseguidos e expulsos das suas casas, por obra do Daesh.
A 1 setembro de 2004, um comando (com membros das repúblicas islâmicas russas da Inguchétia e da Tchetchénia), enviado por Shamil Basaev (líder separatista tchetcheno), ocupou uma escola em Beslan (da Ossétia do Norte, região do Cáucaso). No 3.º dia do bloqueio (com 777 reféns), as forças de segurança russas invadiram o edifício e usaram gás venenoso. Morreram 334 pessoas além dos terroristas.
Em julho de 2016, pelo menos 340 pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas numa série de ataques bombistas coordenados no distrito de Karrada, em Bagdad, habitado maioritariamente por xiitas – ato reclamado pelo Daesh.
Em maio de 2014, militantes do Boko Haram – que reivindica ser o Estado Islâmico na África Ocidental – atacaram as cidades de Gamboru e Ngala no Norte da Nigéria, matando mais de 300 habitantes locais em meio dia. A violência desta organização jihadista afetou a Nigéria, o Chade, o Níger e o Norte dos Camarões.
Pelo menos 258 pessoas morreram em Julho de 2018, na cidade de Sweida, no sudoeste da Síria, numa ofensiva do Daesh. Antes da guerra, a zona era habitada pela minoria druza, e é uma área que se tem mantido sob controlo do Governo do Presidente Bashar Al-Assad.
Cerca de 40 homens armados atacaram, em novembro de 2017, uma mesquita perto da cidade egípcia de Bir al-Abed, matando 200 pessoas – o pior atentado terrorista no Egito.
A 11 de março de 2004, perto das eleições legislativas, explosões quase simultâneas nos comboios de Madrid mataram 193 pessoas e feriram cerca de 2000 pessoas. E a teoria, ativamente encorajada pelo Governo de José Maria Aznar, do PP (Partido Popular), de que a responsabilidade era da organização terrorista ETA, não de radicais islâmicos, contribuiu para a reviravolta eleitoral que levou ao poder o PSOE, de José Luis Rodríguez Zapatero.
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O Papa Francisco, após ler sua mensagem de Páscoa Urbi et Orbi, condenou os atentados:
Recebi com tristeza e dor a notícia dos graves atentados que, precisamente hoje, no dia da Páscoa, levaram luto e dor a algumas igrejas e outros locais de encontro no Sri Lanka. Desejo manifestar a minha afetuosa proximidade à comunidade cristã, atingida enquanto estava reunida em oração e a todas as vítimas de tão cruel violência. Confio ao Senhor os que morreram tragicamente e rezo pelos feridos e por todos aqueles que sofrem por causa deste acontecimento dramático.”.
E hoje, dia 22 e segunda-feira de Páscoa, aquando da recitação do Regina Coeli, Francisco reexpressou a sua proximidade ao povo do Sri Lanka ferido pelos atentados no domingo de Páscoa e assinalou o facto de ter havido uma explosão nesta segunda-feira. Disse o Pontífice:
Expresso novamente a minha proximidade espiritual e paterna ao povo do Sri Lanka. Estou muito próximo ao meu querido irmão, o cardeal Malcolm Ranjith Patabendige Don, e a toda a Igreja arquidiocesana de Colombo. Rezo pelas numerosas vítimas e feridos, e peço a todos para que não hesitem em oferecer a esta querida nação toda a ajuda necessária. Espero também que todos condenem estes atos terroristas, atos desumanos, não justificáveis.
A seguir, o Papa convidou os fiéis presentes na Praça São Pedro a rezarem uma Ave-Maria pelo Sri Lanka.
Também o Governo português condenou os ‘cobardes atentados’ no Sri Lanka. Assim, o Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) lamentou, no dia de Páscoa, a morte de um português nos atentados em igrejas e hotéis no Sri Lanka, sublinhando a “determinação em combater o terrorismo sob todas as formas”. Lê-se num dos três ‘tweets’ do MNE:
Lamentamos profundamente a morte de um cidadão português no Sri Lanka, que se encontra entre as vítimas dos atentados ocorridos hoje nesse país. Expressamos as nossas condolências à sua família.”.
O MNE afirma também que a solidariedade do Governo “está com as vítimas, o povo e as autoridades”, pois “a nossa determinação é combater o terrorismo sob todas as formas”. E exprime sem equívocos o teor da condenação dos atos terroristas:
O Governo português condena nos termos mais veementes os cobardes atentados que atingiram, hoje, igrejas e hotéis no Sri Lanka, causando a morte a muitas dezenas de pessoas”.
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Enfim, a fúria terrorista continua a destruir bens e a ferir e matar pessoas indistintamente! Porquê e para quê?
2019.04.22 – Louro de Carvalho