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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

O 29.º Curso Anual para os Bispos do Brasil


Realizou-se entre os dias 27 e 31 de janeiro, no Centro de Estudos do Sumaré, no Rio de Janeiro/RJ, organizado pela respetiva arquidiocese, o 29.º Curso Anual para os Bispos do Brasil, sob o tema “A dinâmica humana e espiritual da formação permanente dos presbíteros”, com 119 participantes, sendo 66 arcebispos e bispos titulares de dioceses, bispos auxiliares e eméritos e vigários episcopais do Rio.
Neste ano, assinala-se também o centenário de nascimento de Dom Eugénio Sales, criador e incentivador da proposta, que, segundo o Cardeal Dom Orani Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro, tem como marcas o zelo presbiteral, a coerência, a santidade e a unidade com o magistério de Pedro.  
Os participantes aprofundaram as temáticas concentradas em dois documentos: Ratio Fundamentalis, publicada em 8 de dezembro de 2016 pela Congregação para o Clero, e Ratio Nacionalis, aprovada pela Assembleia Geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e publicada em 12 de outubro de 2019, como Documento n.º 110. 
O tema da formação dos presbíteros fora debatido na 56.ª Assembleia Geral da CNBB, em Aparecida (SP), de 11 a 20 de abril de 2018, em torno do tema “Diretrizes para a formação dos presbíteros na Igreja no Brasil”, passando a vigorar em 12 de outubro de 2019.
O Documento, lançado no ano passado, traz orientações para a formação de novos presbíteros no Brasil e a necessidade de formação permanente e refere que o novo presbítero precisa de ter características como “coragem de alcançar todas as periferias geográficas e existenciais que precisam da luz do Evangelho, em uma atitude acolhedora e misericordiosa”. Trata-se de um texto inspirado na Ratio Fundamentalis – O dom da vocação presbiteral e suas quatro características que devem ser destacadas: a formação deve ser única, integral, comunitária e missionária. Publicado no dia 8 de dezembro de 2016, atualiza as orientações de 1985. As atuais diretrizes visam enriquecer a formação espiritual, humana, intelectual e pastoral dos futuros sacerdotes “com novos impulsos vitais, consoantes com a índole peculiar do nosso tempo”.
O Cardeal Dom Orani Tempesta, aquando da programação do encontro, exprimia este voto:
Que o nosso Encontro de Bispos seja inspirado para que na maturidade da formação presbiteral e na vivência de uma espiritualidade do serviço sacerdotal pleno possam os nossos presbíteros verdadeira e coerentemente viver e testemunhar a dinâmica humana e espiritual da formação permanente dos presbíteros”.
Os conferencistas deste ano foram Dom Jorge Carlos Patrón Wong, Arcebispo secretário da Congregação para o Clero; Dom Jaime Spengler, Arcebispo de Porto Alegre (RS) e 1.º vice-presidente da CNBB e membro da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica; o padre Stanislaw Morgalla, professor da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor do Centro de St. Peter Favre, para formadores do Sacerdócio e da Vida Consagrada; o padre Luiz Fernando Ribeiro Santana, do clero do Rio de Janeiro, e mestre em Teologia pela PUCRio, onde é professor; e a doutora Luciana Campos, professora do seminário São José, de Niterói, e autora de livros como “Resiliência e Habilidades Sociais”, “A dor invisível: A Síndrome de Burnout e depressão entre os Religiosos” e a “A Dor Invisível dos Presbíteros”.
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Dom Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro e anfitrião, esclareceu que “o curso não é uma assembleia para decisões, mas um tempo em que os bispos aproveitam o período de férias para descansar, rezar e partilhar, num clima de muita fraternidade, sendo os temas de cada ano “relacionados com a vida da Igreja” e havendo conferencistas de renome internacional e do Brasil que ajudam a pensar e ver como aplicar o conteúdo nas dioceses.
Segundo o mesmo cardeal, o Curso dos Bispos, nos seus 30 anos de existência, tem uma história de serviço à Igreja. Esta é apenas a 29.ª edição, porque não se realizou o curso em 1991, devido à proximidade do curso anterior e, em 2007, devido à Conferência de Aparecida. Neste período, levando em consideração a presença, em média, de cem bispos em cada um, o curso já reuniu 2.900 bispos, embora muitos tenham participado várias vezes.
O curso que, tal como foi referido, é iniciativa de Dom Eugenio de Araujo Sales, na sua primeira edição, contou com a presença do então Cardeal Joseph Ratzinger. Desta feita, foi organizado por Dom Karl Josef Romer, bispo emérito da Arquidiocese do Rio, e Dom Joel Portela, bispo auxiliar do Rio e secretário-geral da CNBB, aos quais Dom Orani agradeceu todo o trabalho de organização e condução.
Dom Joel Portela vincou que, após a publicação da “Ratio Fundamentalis”, a CNBB foi a primeira a fazer as diretrizes em âmbito nacional, a “Ratio Nacionalis”. Recordou que a formação permanente é um processo muito amplo, eminentemente catecumenal, e que os dois documentos contemplam com destaque o princípio antropológico. E observou:
Dois princípios que sempre estiveram presentes na vida da Igreja, mas que agora sobressaíram nesses dois documentos. A formação é um processo que deve percorrer a vida toda. Não é apenas o tempo de seminário, que é intenso, mas é um tempo curto, levando em consideração que se exerce o sacerdócio, em média, por 60 anos. A formação começa do nascer e vai até ao último suspiro. A pessoa humana é mais importante do que qualquer concretização. Antes de ser seminarista ou padre, é um ser humano.”.
Dom Jorge Carlos Patrón Wong, na sua primeira conferência, abordou “O discipulado como processo de configuração com o Cristo Bom Pastor – sobre a formação e o acompanhamento nos seminários”; na segunda, sobre “Espiritualidade, vida e ministério do presbitério diocesano junto ao povo de Deus e ao lado do seu bispo”, fez um resgate de elementos da espiritualidade cristã, comuns a todos os batizados, que estão na base da espiritualidade episcopal e sacerdotal, e que constituem passos na caminhada até o chamado de Deus; e, na terceira, falou sobre “O processo de acompanhamento dos sacerdotes durante a formação permanente”, que tem um caráter comunitário e se desenvolve com a colaboração de um inteiro presbitério e seu pastor.  
Dom Jaime Spengler apresentou o processo de elaboração do Documento 110 em três tópicos: o histórico, os elementos a considerar na aplicação e considerações gerais sobre formação.
O Padre Stanislaw Morgalla proferiu três conferências durante o curso. Na primeira, sobre “Antropologia da vocação cristã”, abordou o paradoxo da vida cristã no seu contexto antropológico, espiritual e aspetos psicológicos; na segunda, sobre “Celibato e obediência do sacerdote, em meio aos desafios da vida quotidiana”, refletiu sobre o modo de viver a afetividade (sexualidade), em virtude da opção vocacional; e, na terceira, sobre “A formação inicial e permanente, uma realidade unitária”, sustentou que não é possível separar a formação permanente do presbítero da sua formação inicial.
Na sua conferência sobre “O esgotamento existencial dos presbíteros: causas e pistas para ação das dioceses na prevenção e tratamento”, a psicóloga Luciana Campos partilhou a sua experiência no atendimento a sacerdotes de todo o Brasil, salientando a Síndrome de Burnout como “o esgotamento emocional, psíquico e laboral” originado pelo excesso de trabalho e referindo que “as pessoas em geral não imaginam que os sacerdotes são acometidos por esses problemas”, do que decorre “a importância de dar visibilidade à temática”. Contou que procura ajudar os sacerdotes a serem menos centralizadores, a aprenderem a delegar e a confiarem nos outros, porque é impossível uma pessoa só dar conta de tudo. E observou:  
Preparado para ser pastor 24 horas por dia, o sacerdote é sugado todo o tempo e dá-se desmedidamente, até que começa a sentir os efeitos dessa doação desacerbada. Muitas vezes, ele começa a sentir-se frustrado, irritado e perdido a ponto de se isolar, a ter crise de fé e de questionar a própria vocação.”.
Segundo a psicóloga, a Síndrome de Burnout é uma doença silenciosa e, para não deixar que ela se instale, é preciso proceder a mudanças, ter uma agenda com horários específicos que incluam momentos de descanso, lazer e, sobretudo, de socialização. A socialização entre pares é útil para discutir “problemas comuns e caminhos para o resgate da saúde emocional”.
Nesta linha, Dom Orani referiu que o sacerdote também tem as suas necessidades e limitações, chegando a irritar-se às vezes e a ficar tenso com algumas situações que enfrenta, pelo que precisa de alguém que o compreenda e o ajude a dar passos. E frisou:
Só seremos perfeitos no céu. Enquanto estamos aqui, precisamos de nos ajudar mutuamente. Por isso, a necessidade de rezar, compreender e acompanhar a vida e a missão do sacerdote, e neste aspeto, a comunidade paroquial pode ajudar a transformar a realidade.”.
Por fim, o padre Luiz Fernando Ribeiro Santana apresentou a última conferência do curso, sobre “A escuta e a direção espiritual como partes da formação permanente dos novos e dos atuais presbíteros”. Firmado na sua experiência de quase três décadas na direção espiritual de leigos, religiosos e, de modo particular, com presbíteros, assegurou que a direção espiritual é parte integrante da formação permanente e sustentou:
É importante redescobrir o valor da direção espiritual na formação permanente dos presbíteros, sobretudo, na dimensão da escuta. Tem sido um desafio e um treinamento de colocar-se disponível no acolhimento, em cada encontro inteiramente único.”.
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Acresce referir que, no dia 29 de janeiro, os bispos visitaram o túmulo do Servo de Deus Guido Schäffer, instalado na Paróquia Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Durante a visita, que foi concluída com a Oração de Vésperas, presidida por Dom José Luiz Majella Delgado, Arcebispo de Pouso Alegre (MG), os bispos ouviram o testemunho de Nazareth Schäffer, mãe do Servo de Deus, médico e seminarista, e o andamento do processo a cargo do delegado arquidiocesano para a causa dos santos, Dom Roberto Lopes, OSB.
E foi agendado o próximo curso dos Bispos para  25-29 de janeiro de 2021, também no Sumaré, cujo tema gravitará em torno da catequese, sendo um dos conferencistas Dom Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.
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Está visto que os bispos não podem e não devem reunir-se apenas para tomar decisões; devem também reunir para aprenderem uns com os outros e com especialistas nas diversas matérias. Aliás como podem ser o núcleo duro da função docente da Igreja se não estão disponíveis para continuar a aprender, ou seja, para o discipulado contínuo? Se calhar, a CNBB é um exemplo!
2020.02.06 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Ensinam também quando estão em greve e quando morrem em serviço


Nas “palavras cruzadas” da revista do Expresso do passado dia 13 de julho, o primeiro tópico na horizontal é Ensinam quando não estão em greve”, cuja chave é obviamente “professores”.
Convenhamos que, após os ataques aos professores surgidos de tantos setores da nossa sociedade, à cabeça dos quais vêm os sucessivos governos desde o de Durão Barroso, sendo que o atual até encontrou neles pretexto para desferir uma crise política vergonhosamente anulada pelos partidos que pontificaram no Governo anterior, a alfinetada do autor do passatempo acima referenciado passaria supostamente despercebida. Ou melhor, só as pessoas muito inteligentes se aperceberiam de que a luta contra os professores – que alegadamente ganham bem e saem cedo, até porque muitos dizem saber como funciona a escola porque também deram aulas (Sabe Deus como e porque não sabiam fazer mais nada: e a escola não era o que é hoje, mas disto não sabem) – se mantém, embora em banho-maria, já que eles não podem sugar a sociedade e arrastar consigo as outras classes profissionais. Porém, os professores, que também são inteligentes, deram conta e não deixam que lhes comam o caldo na careca e denunciam o labéu, que, dado ocupar o primeiro lugar na peça “passatempista”, funcionou como o lead ou parágrafo-guia de texto noticioso, que toda a gente lê e entende. Isso não configura a liberdade de expressão: é insulto!
Assim, a Fenprof (Federação Nacional dos Professores), fazendo-se eco das múltiplas queixas que lhe chegaram, veio interpretar tal expressão como reveladora de “uma enorme falta de respeito para com os docentes e a Escola portuguesa” e declara enfaticamente (como é necessário e era de esperar) que a “ausência de um pedido de desculpas seria indesculpável!”. Por outro lado, interpreta, com toda a razão, que a insinuação pretende, “inegavelmente, transmitir a ideia de que os professores estão sempre em greve, ficando as sobras para ensinar”.
Sabe aquela organização sindical que Portugal, apesar de ser dos países “que menos investem na Educação, com a percentagem do PIB que lhe é destinada muito abaixo do que relatórios de organizações internacionais dizem ser o adequado”, considerando “esse baixo investimento”, é “um dos que apresenta melhores resultados dos seus alunos, para os quais os docentes foram determinantes”, muito embora alguns atribuam quase em exclusivo os mérito dos resultados às políticas educativas, às lideranças, aos pais, esquecendo o trabalho dos professores e da escola, mas a quem assacam tantas vezes a responsabilidade pelo insucesso.
Se falarmos de inteligência e capacidades, a Fenprof proclama que “os professores portugueses são dos docentes, em todo o mundo, mais qualificados e os relatórios mais recentes que têm sido publicados tornam claro que, apesar das condições de trabalho em que exercem a sua profissão e do desrespeito que sucessivos governos têm tido para com estes profissionais, Portugal tem sido dos países que mais evoluíram em aspetos como o do combate ao insucesso e ao abandono escolares”. E estriba o seu juízo de valor num importante tópico de avaliação da qualidade de ensino entre nós, “a procura externa de profissionais altamente qualificados em áreas fundamentais para o desenvolvimento dos países, que o nosso país não valoriza”. 
A razão por que a Fenprof exige, “veementemente, um pedido de desculpas aos professores portugueses” é que “estes são profissionais que colocam o melhor de si na sua atividade profissional, com rigor, exigência e resultados que não podem deixar de ser valorizados”. 
Reiterando que “os Professores portugueses têm, legitimamente, lutado pelos seus direitos que são também os da Escola”, esclarece que “o recurso à greve não é feito sem prejuízos dos próprios professores”, que perdem, nesses dias, o vencimento, que lhes faz falta, e continuam com a responsabilidade pelo cumprimento dos programas, sendo que, no âmbito dos cursos profissionais, compensam as aulas perdidas com aulas dadas mais tarde. Não obstante, a greve, como diz a Fenprof “é também um recurso a que têm direito e de que não abdicarão, apesar das pressões, essas sim, ilegítimas, que sobre eles possam ser exercidas”. Mais adianta que “os docentes, quando fazem greve, quando lutam pela valorização do seu trabalho e da sua condição profissional, também ensinam, dando importantes lições de cidadania”.
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No entanto, respondendo ao “artista” do Expresso, devo dizer que formalmente não é só quando estão em greve que os professores não ensinam. É também quando estão doentes, dormem, estão de férias, ficam em casa a cuidar da saúde dos filhos, ou quando lhes morrem familiares, quando vão ao médico ou fazem exames complementares de diagnóstico, quando faltam para cumprimento de obrigações legais, para frequentar ações de formação ou por motivos não imputáveis ao funcionário, quando estão aposentados ou depois de rescisão por mútuo acordo.
Se alinhar com a Fenprof – e não tenho motivos para não alinhar – devo dizer que os professores não só ensinam em tempo de greve dando lições de cidadania e direitos humanos, como também ensinam quando morrem em serviço dando lições de vida, mostrando dedicação ao serviço público e dando a entender a desfaçatez da sobrecarga de trabalhos com que são inexoravelmente prendados.
E não deixa de ser pertinente o pedido que esta lutadora estrutura sindical faz ao MP (Ministério Público) para que investigue a morte de três professores em trabalho e o facto de ter vindo a terreiro declarar que é “indispensável que os partidos clarifiquem, desde já, as suas posições para a próxima legislatura”, pelo que a predita organização sindical lhes enviará diversas perguntas cujas respostas serão divulgadas junto dos professores durante o mês de setembro.
Na verdade, o secretário-geral disse hoje, dia 16, no Porto, que solicitará ao MP que averigúe as causas da morte de três professores enquanto trabalhavam, nos últimos meses, sublinhando:
Quando as coincidências são muitas, podem, de facto, não ser coincidências, e nós temos de saber disso. Iremos pedir ao MP que averigúe e tiraremos as conclusões. Há uma coisa que é verdade, os professores estão exaustos. Há um estudo que diz que mais de 70% dos professores apresentam níveis elevados de burnout.”.
Mário Nogueira falava numa conferência de imprensa destinada a fazer a avaliação do ano letivo, o balanço da legislatura e a perspetivação do futuro. Aí referiu o caso duma professora, de Manteigas, que, “em plena sala de aula, fulminantemente, caiu para o lado”. E, apontando o caso de uma outra do Fundão, vincou:
Pode ser coincidência ou não, mas essa professora era titular de todas as turmas do 7.º ao 12.º ano de inglês, seis níveis diferentes de preparação de aulas diariamente. (…) Estava a corrigir 60 provas aferidas, a lançar as notas dos seus alunos e a fazer vigilâncias de exames. Aparece morta em cima do teclado do computador em pleno lançamento das notas.”.
Um terceiro caso ocorreu num agrupamento de Odivelas:
O professor enviou por e-mail, cerca da 1 hora, os dados pedidos pela escola. No outro dia não apareceu, a medicina legal concluiu que teria morrido por essa hora.”.
E, mencionando uma escola do distrito de Braga que, “a propósito da implementação do regime de educação inclusiva, realizou 56 reuniões ao longo do ano”, Nogueira considerou:
Há uma coisa que é verdade, os professores estão exaustos e chegam ao final do ano, às vezes ao final do primeiro período, já completamente cansados, já muito desgastados”.
Dizendo que “isto é uma coisa absolutamente absurda”, frisou:
Os professores estão completamente massacrados com todo um trabalho burocrático. É uma coisa curiosa, num ano letivo em que há estudos que indicam que os professores estão numa situação de desgaste, de burnout e de exaustão emocional, como nunca, com 24% dos professores em situação grave de burnout que estas mortes aconteçam.”.
Assegurando que os professores têm de estar disponíveis para os alunos, mas que estão sobrecarregados com projetos, reuniões e outras tarefas que nada têm a ver com o trabalho com alunos”, observou:
O mínimo que se deve fazer é perceber se é uma coincidência. Iremos solicitar que se averigúe através dos exames da medicina legal e tentar perceber se houve ou não sobrecarga destas colegas que literalmente morrem a trabalhar.”.
E Nogueira acrescentou que “é bom que se perceba se tem a ver com o excesso de trabalho a que estavam sujeitos” estes colegas e “é bom que se ponha cobro a isso”, pois, “podemos estar a chegar a situações-limite”.
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No atinente ao desempenho dos governantes em relação à educação, à escola pública e aos professores e educadores, o dirigente da Fenprof fez uma avaliação negativa, discorrendo:
A Fenprof “avalia negativamente o resultado final de quatro anos de subfinanciamento da educação, assim como a ação do Ministério no que respeita à sua relação com os professores e educadores, que fica marcada por desrespeito e abusos. Finalmente, por ausências repetidas e consequente falta de elementos de avaliação, o Ministro da Educação chumba por faltas. É o que acontece a quem foge à escola para andar atrás da bola.”.
É elucidativa e acutilante a comparação latente das ausências do Ministro nos assuntos mais graves com os miúdos que fogem às aulas para jogarem a bola e é premente o desafio lançado aos partidos no sentido de clarificarem o que pensam para a próxima legislatura respondendo às perguntas que Fenprof lhes vai enviar.
Aquela estrutura sindical irá promover uma iniciativa a 2 de Setembro em defesa do rejuvenescimento da profissão docente e lançará um abaixo-assinado a repor os principais objetivos de luta dos docentes para o ano lectivo 2019/2020. Isto, além da manifestação nacional em Lisboa marcada para 5 de Outubro para assinalar o Dia Mundial do Professor.
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É de recordar que, a 19 de outubro do ano passado, Samuel Silva dava conta do estudo intitulado “Inquérito Nacional sobre as Condições de Vida e Trabalho na Educação em Portugal”, da FCSH (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas) da UNL (Universidade Nova de Lisboa), encomendado pela Fenprof e apresentado no II Encontro Internacional sobre o Desgaste na Profissão Docente, em Lisboa, que revela dados demonstrativos da grave situação dos professores. Assim, mais de 20 mil professores acham que consomem medicação a mais; também 9000 docentes revelam estar preocupados com o seu consumo de álcool ou drogas; alguns docentes usam estas substâncias como doping para conseguirem aguentar o ritmo de trabalho e as exigências da organização das escolas.
Num universo de 145,549 professores que estavam ao serviço em 2016 (é este o valor de referência usado pelo estudo), são 18,7% dos professores os que se preocupam com o seu consumo de, pelo menos, uma destas substâncias: medicamentos, álcool e drogas. Destes, a maioria (correspondente a 15,4% dos docentes) mostra inquietação face ao consumo de medicação. Outros 3,2% dos docentes (cerca de 4600) mostram preocupação com o seu consumo de drogas, a mesma percentagem é a dos que revelam poder estar a consumir álcool a mais. E cerca de 3% apresentam consumos combinados de álcool, droga e medicamentos.
Os dados apresentados correspondem a autoperceções, ou seja, os professores revelavam a sua própria perceção dos seus consumos, não havendo uma caraterização médica que permitisse perceber se estes são ou não excessivos e se há casos de dependências. O estudo apresentava uma margem de erro de apenas 0,5% e uma confiança nos seus resultados de 99%. Foram inquiridos quase 16 mil docentes. Medicamentos, drogas e álcool eram considerados não como substâncias associadas a consumos recreativos, mas enquanto doping. E Raquel Varela investigadora da UNL e coordenadora do projeto esclarecia que “estas substâncias são usadas pelos professores para conseguirem acompanhar os ritmos de trabalho e a forma como se organiza o trabalho” e que os resultados mostram que há uma “percentagem elevada” de professores que estão a trabalhar “muito doentes”.
Perante esta situação, António Leuschner, psiquiatra e presidente do CNSM (Conselho Nacional de Saúde Mental), alertava para a necessidade de se “olhar com muito cuidado para estes dados”, evitando extrapolações, já que o estudo não identifica o tipo de medicação que os professores consideram que estão a tomar em excesso, sendo “muito diferente” falar-se de psicofármacos ou de analgésicos. Mesmo assim, admite que uma parte dos docentes possa, de facto, tomar antidepressivos em excesso à semelhança do que sucede com a generalidade dos portugueses.
Segundo a Fenprof, aquele estudo da UNL mostra também que 47,8% dos professores (quase metade) revela sinais no mínimo preocupantes de exaustão emocional: 20,6% mostram sinais “preocupantes”; 15,6%, “sinais críticos”; e 11,6%, “sinais extremos” de esgotamento.
Os investigadores cruzaram estes indicadores com os do consumo de álcool, drogas ou medicamentos e encontraram relação de “fortíssima dependência” entre as duas variáveis. Ou seja, os professores em situação de esgotamento emocional extremo são os que se revelam mais preocupados com os seus níveis de consumo. E Raquel Varela referia que, embora o estudo mostre que os níveis de exaustão nos professores portugueses são superiores aos da generalidade dos países com que é feita uma comparação, o recurso a medicamentos, álcool e drogas como doping tem indicadores “muito semelhantes” aos encontrados em outros países.
Para a Fenprof, o estudo prova que o problema é de organização do trabalho. Em comunicado, a organização sindical refere que “o afastamento entre as expectativas dos docentes e a realidade do exercício da sua profissão é a principal causa dos problemas diagnosticados”.
Por outro lado, a Fenprof apresentou a investigação da UNL como “um instrumento valioso de intervenção e ação”, facto a que o Ministério da Educação não quis fazer comentários. Segundo o estudo, 42,5% dos professores não estão realizados profissionalmente. Essa é uma das três dimensões que permitem caracterizar uma situação de burnout. As outras duas são a exaustão emocional e a sensação de despersonalização (que se observa quando o profissional que trabalha com pessoas começa a encará-las como “coisas”). Esta última aparece com uma prevalência muito baixa entre os professores (7,6%). Ademais, o estudo mostra estreita correlação entre o esgotamento dos professores e a vontade de encurtarem as respetivas carreiras. Quase 70% dos docentes mostraram vontade “muito elevada” de aposentação antecipada. E, se acrescentarmos os que demonstram vontade “elevada” de deixarem de trabalhar mais cedo, o valor sobe para 84,2%. São “praticamente todos” (sublinham os investigadores). Apenas 2,4% têm vontade “muito baixa” de se aposentarem mais cedo. No mesmo sentido, 94,8% dos professores mostram-se favoráveis à existência de alterações legais no regime de reforma da profissão.
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Até quando, os decisores políticos ficarão cegos e surdos perante estas dramáticas evidências? Até quando o Ministério da Educação tem um mínimo de cuidado com a saúde e a segurança dos seus professores e dos demais trabalhadores que tutela? Tutela (do verbo latino “tueri) não significa defesa, proteção, apoio, guarda?
2019.07.16 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 31 de maio de 2019

OMS inclui ‘Burnout’ na lista de doenças com efeitos a partir de 2022


Como a comunicação social salientou, a Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou, no passado dia 27 de maio, que passou a incluir na lista de doenças o burnout, estado de esgotamento físico e mental, causado pelo exercício de uma atividade profissional.
Burnout é um termo inglês que se pode interpretar como “queimar por completo”. É a chamada “síndrome da exaustão”, em que se atinge um ponto extremo de cansaço devido a uma atividade profissional exigente e stressante, que esgota a energia e leva a “desligar do mundo”.
Na classificação internacional de doenças da OMS, que serve de base às estatísticas de saúde, o burnout surge na secção consagrada aos “problemas associados” ao emprego e desemprego, descrito como “uma síndrome resultante de ‘stress’ crónico no trabalho que não foi gerido com êxito”. A doença, de acordo com a OMS, carateriza-se por “um sentimento de exaustão, cinismo ou sentimentos negativistas ligados ao trabalho e eficácia profissional reduzida”.
A sua inclusão na lista das doenças da OMS não corresponde à invenção de mais uma doença, mas à sua autonomização da depressão ou da ansiedade. Com efeito, desde há anos que os especialistas tratam os sintomas do burnout, que localizam sobretudo em determinados grupos profissionais (pelo que era designado correntemente por “burnout laboral”), em que sobressaem os professores. Agora, a autoridade mundial de saúde adota esta doença como específica e a merecer um tratamento adequado.
A entrada do burnout ou stresse profissional na nova classificação internacional de doenças da OMS, que vigorará a partir de 1 de janeiro de 2022, baseia-se nas conclusões de peritos de saúde de todo o mundo e foi adotada pela Assembleia-Geral da organização, que decorreu até ao passado dia 8, em Genebra, na Suíça. Segundo o JN, aos jornalistas, Tarik Jasarevic, um porta-voz da OMS, declarou: “É a primeira vez que o ‘burnout’ entra na classificação”.
E, apesar de a nova categorização entrar em vigor apenas em 2022, serve, desde já, como um alerta para a relação entre saúde mental e trabalho.
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Segundo o Jornal da USP no Ar (da Universidade de São Paulo, Brasil), o esgotamento profissional foi cunhado com o termo burnout, nos anos 80, por um psicanalista americano. Porém, especialistas como José Fernando Santos Almeida, psiquiatra no Hospital Lusíadas Porto, recuam ao início dos anos 1970 (mais propriamente a 1974) e atribuem a designação ao psicanalista e psicoterapeuta Herbert J. Freudenberger (1926-1999), que verificou em si mesmo este estado de esgotamento físico, mental e emocional. Desde então, surgiram novos estudos para tentar entender os danos causados à saúde mental por longa exposição a condição ou ambiente de trabalho stressante.
A este respeito, o doutor Rodrigo Leite, coordenador dos Ambulatórios do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, falou ao Jornal da USP no Ar indicando a existência de “vários fatores que podem, a longo prazo, causar a síndrome”, sendo que a questão profissional tem um peso maior. E o especialista explicita:
Muitos fatores podem gerar os sintomas da doença, mas o trabalho é preponderante, porque as pessoas são expostas cronicamente a dificuldades de relacionamento com colegas e chefia e risco de demissão iminente, por exemplo. O contacto humano diário, comum nas áreas da saúde e educação, também é algo stressante, e as pessoas expostas, anos a fio, a essas condições são mais prováveis [propensas a] de desenvolver esse problema.”.
O diagnóstico não é fácil e os tratamentos têm de ir além de medicamentos e acompanhamento psicológico. Para o especialista, os principais sintomas são constante desânimo, crises de pânico, choro fácil, tonturas, dor de cabeça e similaridades com quadros de depressão e transtorno de ansiedade generalizada. E o especialista chama a atenção para as condições de trabalho, pois as caraterísticas da síndrome são uma questão de trabalho e de saúde pública.
O coordenador dos ambulatórios do IPq da USP realça a necessidade da criação de políticas públicas de reinserção de pacientes no mercado de trabalho, para não serem ainda mais prejudicados por conta da síndrome; frisa que a solução do problema é coletiva; e aponta a discussão sobre as relações de trabalho como essenciais para se saber lidar com a doença, pois a intervenção médica não será suficiente se não for acompanhada de mudança de vida, que pode significar, por exemplo, afastamento ou redirecionamento da carreira. E o especialista explica:
Estudos indicam medicação, psicoterapia, alguns até falam da importância da atividade física. Eu acho que o tratamento do burnout, na verdade, também é voltado à saúde de forma mais ampla, incluindo mudanças de hábitos, como passar a fazer exercícios físicos, parar de fumar, parar de beber… É todo um plano voltado à recuperação do indivíduo, um tratamento multifatorial.”.
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A síndrome de que uma das fontes é o desajustamento laboral tem cura. Há mais de 4 décadas, Herbert Freudenberger anotou que alguns colaboradores apresentavam, após um ano de atividade, desmotivação, queixas somáticas (dores nas costas, problemas gastrointestinais, dores de cabeça…) e mudanças de humor (irritabilidade, cólera, disforia…), tornavam-se intolerantes ao stresse e incapazes de gerir novas situações. Foi então que o burnout foi descrito pela primeira vez. E, desde então, surgiram diferentes definições para esta síndrome. Atualmente, a generalidade dos autores considera-a uma resposta complexa ao stresse profissional prolongado ou crónico. 
Segundo um estudo a nível nacional, publicado na Acta Médica Portuguesa em 2016, em 1728 pessoas (466 médicos e 1262 enfermeiros), 21,6% apresentavam um burnout moderado e 47,8% um burnout elevado. Nos fatores estudados, as más condições de trabalho eram o maior preditor de burnout. Também se prevê uma elevada incidência desta síndrome em polícias e nos profissionais da área da educação (sobretudo em docentes de instituições e de turmas com elevada indisciplina), como refere José Fernando Santos Almeida.
O diagnóstico é frequente em profissionais com atividades exigentes e stressantes, muitas vezes sujeitas a turnos, como é o caso de médicos, enfermeiros e professores, mas pode afetar, por exemplo, estudantes, sob a pressão dos exames e sujeitos a períodos de poucas horas de sono.
Para a “Rota da Saúde – Lusíadas”, o doente pode sofrer um conjunto muito amplo de sintomas:
- Afetivos, como tristeza, irritabilidade, perda de controlo emocional, desânimo, apatia, humilhação, revolta, mágoa, fúria, preocupação;
- Cognitivos, por exemplo, dificuldades de atenção e de concentração, dificuldades de memória, diminuição da autoconfiança, do autoconceito, da autoestima e da autoimagem;
Alteração das atitudes em relação ao trabalho, sendo mais frequentes as atitudes e os comportamentos negativos relativamente ao trabalho, com desmotivação e, consequente menor entusiasmo, empenho e eficácia profissionais;
- Físicos ou sintomas psicossomáticos (como falta de ar, coração acelerado, sintomas gastrointestinais, problemas cutâneos, queixas musculares), fadiga, hipertensão arterial, entre outros; e
- Alterações comportamentais, que podem ser múltiplas e traduzir-se em comportamentos tão diversificados como do ligeiro aumento da rispidez ao comportamento marcadamente agressivo, ou distanciamento relativamente ao outro e isolamento social, consumo de substâncias (desde logo o álcool), comportamento de jogo, propensão para acidentes, etc.
Em geral, pode dizer-se que, sobre as causas do burnout, que pode ocorrer quando há uma maior competitividade no local de trabalho, uma pressão inadequada (desajustamento nas funções atribuídas, sobrecarga de tarefas, alterações no horário de trabalho) ou quando a atividade exercida é muito intensa, sujeita a riscos, como exemplifica o psiquiatra José Fernando Santos Almeida.
As causas do burnout podem dividir-se em três fontes:
- Fontes de stresse habituais da atividade profissional, ou fontes de stresse típicas da atividade profissional que abranjam áreas de conflito: competência(s),  autonomia, relação com os clientes, realização pessoal, falta de apoio social de colegas e superiores;
- Fatores organizacionais, que podem ser, entre outros, a elevada sobrecarga de trabalho, o desajustamento entre os objetivos da instituição e os valores pessoais dos profissionais, o isolamento social no trabalho; e
- Fatores de ordem pessoal, entre os quais estão as relações familiares e as amizades.
Qualquer trabalhador pode sofrer de burnout. Na fase inicial, pensava-se que os profissionais com envolvimento mais direto e intenso (área da saúde ou forças policiais) haveria maior propensão para o desenvolvimento de burnout. Mas esta perspetiva foi alargada a todas as atividades.
O tratamento implica a melhoria das circunstâncias e condições que originaram o burnout, de que se destacam a melhoria das condições de trabalho e relações profissionais com diminuição do isolamento. Não raro, implica a retirada temporária (que pode ser definitiva) do local de trabalho, a reorganização das suas atividades, um adequado investimento em outros interesses, como um maior convívio com família e amigos, a prática de exercício físico ou de atividades relaxantes.
Pode ser necessária ajuda médica, sobretudo quando a pessoa tem sintomas como a depressão e a ansiedade e justificam farmacoterapia. A psicoterapia pode a ajudá-la a compreender melhor as razões que a levam a padecer de burnout e a evitar procedimentos semelhantes no futuro.
Na maioria das situações, o burnout tem cura. A ajuda dum profissional de saúde é relevante no processo. Todavia, quando não é devidamente tratada, pode estar associada à evolução para a cronicidade ou pode originar outro problema, como a dependência do álcool.
burnout é, pois causado por uma exaustão ou stresse profissional e, uma vez retirada dessa situação, a pessoa melhora significativamente e recupera. Mas pode ser acompanhado de uma depressão e, nesta circunstância, é mais provável que a pessoa continue a estar depressiva (com humor triste, baixa da autoestima, apatia, falta de prazer e/ou desinteresse por atividades que eram agradáveis, sem energia, apetite, cansaço) apesar de já não vivenciar essa experiência que a levou ao burnout. Não obstante, os sintomas de burnout e de outros problemas, como a depressão ou as insónias, são muitas vezes sobreponíveis. Por exemplo, a insónia pode estar presente na depressão. Daí que o diagnóstico diferencial nem sempre seja fácil.
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No dia 27, a OMS alterou a definição da síndrome de burnout ou esgotamento profissional, que foi oficializada como resultante de “stresse crónico de trabalho que não foi administrado com sucesso”. E definiu melhor as caraterísticas predominantes para o diagnóstico da síndrome.
Segundo Ana Maria Rossi, PhD e presidente da International Stress Management Association do Brasil (ISMA-BR), a mudança pode ajudar os profissionais que sofrem com o problema. Para ela, o efeito que a definição possa ter para os trabalhadores ainda é incerto, pois ainda não se chegou a um consenso sobre esta alteração da OMS. Diz a especialista:
Com o código internacional que relaciona a síndrome com o ambiente de trabalho, uma decisão na área jurídica pode ter mais clareza, pois vai ser validada contra diferentes interpretações. Mesmo para especialistas da área a definição era um tanto vaga, imagine-se para um juiz ou desembargador. Acho também que, para os profissionais que tratam e se especializam na área de stresse, ficará mais específico.”.
A especialista explica que a posição do burnout no capítulo dos transtornos depressivos causava confusão entre a síndrome e a depressão e que, tal como o stresse negativo, ou distresse, pode causar efeito físicos, como dores de cabeça e de estômago, a depressão é um dos sintomas comuns do transtorno, a síndrome resulta de níveis devastadores de stresse.
Dos muitos sintomas do transtorno, contam-se, entre os principais, os seguintes: cansaço extremo, físico e mental; desmotivação; isolamento; dores de cabeça fortes e frequentes; insónias; tonturas; tremores; falta de ar; oscilações de humor; dificuldade de concentração; e problemas digestivos. Porém, a referida especialista organiza-os em três pontos fundamentais, no alinhamento com a definição da OMS, para obter o diagnóstico: falta de energia e exaustão; distanciamento mental do trabalho; e redução de eficácia. E explica:
- Exaustão. É a sensação de que [a pessoa] foi além dos seus limites, quando sente que está sem recursos físicos e mentais para lidar com a sua situação de trabalho. Pode tirar férias ou folgas e licenças ou descansar no feriado, mas não é um cansaço normal: arrasta-se. (Diz a especialista).
- Ceticismo. É falta de reação, o profissional torna-se insensível ao que ocorre à sua volta. É especialmente devastador para profissionais de saúde, pois quando têm burnout, tornam-se insensíveis com o paciente, olham para a pessoa que têm que ajudar sem sentimentos ou capacidade de empatia. É ainda caraterizado por confusão, reações negativas e alienação. (Diz a especialista).
- Ineficácia. A pessoa sente-se incompetente. Nota quedas na sua produtividade e um aumento na sua margem de erros. A sua atenção torna-se espúria. Até se esforça por trabalhar mais, mas não tem condições de recuperar. (Diz a especialista).  
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Tendo em conta que o burnout ocorre devido ao stress extremo da atividade profissional, mudar as condições de trabalho é um dos primeiros passos a dar. E pode ser benéfica a ausência por folga ou férias para alterar as rotinas e tentar relaxar. Depois, é conveniente: realizar atividades de relaxamento; organizar o tempo e decidir prioridades; participar em momentos de lazer com familiares e amigos; seguir uma dieta equilibrada; e procurar ajuda profissional.
Mas o melhor é mesmo preveni-lo e evitá-lo.
Como evitar o burnout? O melhor conselho é manter o equilíbrio entre o trabalho, lazer, família, vida social e atividades físicas, sem descurar no descanso diário.
Ora, isto postula a atenção do Governo, enquanto órgão de superintendência na administração pública, para o cuidado com os seus trabalhadores, e enquanto regulador das condições da atividade; dos gestores públicos e privados, no atinente ao recrutamento, seleção, gestão e avaliação (não só do desempenho e mérito, mas também da saúde) dos seus trabalhadores e colaboradores; das entidades que zelam pela saúde, higiene e segurança no trabalho; dos dirigentes sindicais e bastonários de ordens profissionais; dos trabalhadores independentes, agentes associativos, artísticos e culturais; e das famílias e das escolas, onde tudo começa.
Enfim, torna-se premente a conciliação permanente entre a vida pessoal, familiar e laboral, a bem da real produtividade e do bem-estar, que passa pela boa saúde, com a qual todos lucram!  
2019.05.31 - Louro de Carvalho