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sábado, 29 de dezembro de 2018

A quadra natalícia também sob o signo do martírio


Nem seria muito de admirar se não fosse muito doloroso, mas o Natal também obriga a contemplar a vertente do martírio. Desde logo, o Menino nascido na gruta belemita vinha destinado ao martírio redentor do Gólgota. Tanto assim é que a cruz é o caminho de Cristo como há de ser o caminho dos seus discípulos e seguidores:
Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la.” (Mt 16,24-25).
E uma estrofe do cântico de Natal “Cristãos, alegria que nasceu Jesus” contém esta mística:
Lá nos altos Céus, / Honra e glória a Deus / Que nos deu Jesus! 
 Paz na terra à alma / Que serena e calma / Vive unida à cruz!”.
Depois, a 26 de dezembro, celebrou-se a festa de Santo Estêvão, o protomártir, que foi detido pelas autoridades judaicas e levado diante do Sinédrio (a suprema assembleia de Jerusalém), que o condenou por blasfémia, sendo sentenciado a apedrejamento. Entre os presentes na execução, estaria Saulo, o futuro São Paulo, durante os seus dias de perseguidor dos cristãos.
Muitos Padres da Igreja, como Santo Agostinho, atribuem a conversão de Saulo às orações de Estêvão. Agostinho diz: Si Stephanus non orasset, ecclesia Paulum non haberet.
A 27, celebrámos a festa de São João, Apóstolo e Evangelista. Conforme tradição unânime, viveu em Éfeso em companhia de Nossa Senhora e foi colocado, sob o imperador Domiciano, dentro duma caldeira de óleo a ferver, daí saindo ileso e, todavia, com a glória de ter dado testemunho. Depois do exílio de Patmos, tornou definitivamente a Éfeso, onde exortava continuamente os fiéis ao amor fraterno, como resulta das suas três cartas, acolhidas entre os textos sagrados, como também o Apocalipse e o Evangelho. Morreu carregado de anos em Éfeso durante o império de Trajano (98-117) e aí foi sepultado.
A 28, celebrou-se o martírio dos Santos Inocentes, evocando o evento bíblico conhecido como o Massacre dos Inocentes, em que Herodes, rei da Judeia, terá condenado à morte todos meninos da cidade de Belém e arredores, com medo de perder o seu trono para o recém-nascido “Rei dos Judeus”, anunciado pelos magos. Os meninos assassinados ficaram conhecidos na Igreja como os “Santos Inocentes” e como os primeiros mártires cristãos.
A primeira comemoração do Dia dos Santos Inocentes na igreja ocidental remonta ao ano de 485, no “Sacramentário Leonino”. A data da celebração varia entre o dia 27 e o dia 29, consoante o tipo de Igreja. Para a Igreja Católica, a Igreja da Inglaterra e a Igreja Luterana, a data da celebração é o dia 28 de dezembro.
Francisco, depois de, no dia 26, ter estabelecido a similitude entre Estêvão e Cristo, no dia dos Santos Inocentes veio exortar a acolher em Jesus o amor de Deus. O twitter do Papa inspira-se na sua Mensagem de Natal de 2017, em que recordou todos os cantos do mundo onde as crianças sofrem. Diz agora o Papa:
Acolhamos no Menino Jesus o amor de Deus e vamos empenhar-nos em tornar o nosso mundo mais digno e humano para as crianças de hoje e de amanhã”.
Na Mensagem do Natal de 2017, o Santo Padre recordava todos os lugares do mundo onde as crianças sofrem, visualizando Jesus nos rostos das crianças no Oriente Médio, onde “continuam a sofrer com o aumento das tensões entre israelenses e palestinos”, nos rostos das crianças da Síria, “ainda marcados pela guerra que ensanguenta esse país há anos”, ou ainda os rostos das crianças do Iraque, do Iémen, da África; nos rostos de todas as crianças que vivem em “áreas do mundo onde a paz e a segurança estão ameaçadas pelo perigo de tensões e novos conflitos”, ou naqueles rostos de “tantas crianças forçadas a deixar os seus países, a viajarem sozinhas em condições desumanas, sendo presas fáceis para os traficantes de seres humanos”. E afirmava:
Enquanto o mundo está a ser atingido por ventos de guerra e um modelo de desenvolvimento já obsoleto continua a causar degradação humana, social e ambiental, o Natal convida-nos a recordar o sinal do Menino e que o reconheçamos nos rostos das crianças, especialmente daquelas para quem, como Jesus, não há lugar na estalagem”.

Historia Antiga (1937) – Miguel Torga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas, por acaso ou milagre aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora, fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou esse palmo de sonho
Para encher o mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

***
Obviamente, não podemos ficar a olhar só para os martírios do passado. Hoje eles praticam-se e são bem bárbaros, nada ficando a dever aos demais martírios que a História regista.
Assim, no ano que está prestes a terminar, a agência Fides apresenta o relatório com números e circunstâncias em que missionários – “batizados comprometidos na vida da Igreja” – foram mortos em diversas partes do mundo de forma violenta, embora não necessariamente por ódio à fé. No total são 40, quase o dobro de 2017, os missionários assassinados no ano que está prestes a acabar. A maior parte deles, sacerdotes, em número de 35.
Segundo dados recolhidos pela Fides, após 8 anos consecutivos em que o número mais elevado de missionários assassinados foi registado na América, desta feita, em 2018 é a África a ocupar o primeiro lugar neste ranking trágico. Também, neste ano  muitos perderam as suas vidas durante tentativas de roubo ou furto em contextos sociais de pobreza, degradação e onde a violência é a regra da vida, a autoridade do Estado ausente ou enfraquecida pela corrupção ou onde a religião é instrumentalizada para outros fins.
São 19 sacerdotes, um seminarista e uma leiga as vítimas em África. Comove a morte de Thérese Deshade Kapangala, da República Democrática do Congo, que tinha apenas 24 anos de idade e estava a preparar-se para começar o postulantado entre as Irmãs da Sagrada Família. Foi assassinada em janeiro 2018 na violenta repressão dos militares que tentavam sufocar os protestos contra as decisões do Presidente Kabila, promovidos por leigos católicos em todo o país. Cantava no coro da paróquia e era muito ativa na Legião de Maria. Tendo naquele dia participado na Missa na cidade de Kintambo, ao norte de Kinshasa, tentou organizar uma marcha de protesto. Os militares do exército, postados do lado de fora da igreja, abriram fogo contra os manifestantes que buscavam abrigo no templo. Thérese foi atingida ao tentar proteger uma criança com o seu corpo.
Um massacre brutal em que foram mortos na Nigéria o Padre Joseph Gor e o Padre Felix Tyolaha por pastores jihadistas nos povoados de Mbalom, no Estado de Benue, na parte central do país que divide o norte de predominância muçulmana, do sul em grande parte habitado por cristãos. O massacre ocorreu na madrugada de 24 de abril de 2018, durante a Missa matinal, muito frequentada. Tinha acabado de se iniciar a celebração e os fiéis ainda estavam a entrar para a igreja, quando foram disparados vários tiros por um grupo armado. Foram mortas a sangue frio 19 pessoas, incluindo os dois padres. A seguir, os bandidos, entrando no povoado, saquearam e destruíram mais de 60 casas.
Também o idoso e muito amado padre Albert Toungoumale-Baba, centro-africano (de 71 anos), foi morto na Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, não muito distante do bairro PK5 Bangui, capital da República Centro-Africana, onde houve um massacre provocou a morte de, pelo menos, 16 pessoas e causou uma centena de feridos. Um grupo armado atacou a paróquia, enquanto o Padre Albert e alguns fiéis estavam a celebrar a Missa da festa de São José no 1.º de maio de 2018. O sacerdote, um dos mais idosos da diocese de Bangui, muito estimado pelos fiéis, encontrava-se na igreja para a celebração como capelão do movimento “Fraternité Saint Joseph” e foi assassinado de súbito.
Também a América pagou alto tributo de vidas em 2018. Foram assassinados 12 padres – 7 somente no México – e 3 leigos. Entre as vítimas, chama atenção a história do Padre Juan Miguel Contreras García, ordenado sacerdote pouco antes de morrer. Tinha apenas 33 anos, quando foi morto na noite de 20 de abril de 2018,no final da Missa que celebrava na Paróquia São Pio de Pietrelcina, em Tlajomulco, Estado de Jalisco (México), onde estava em substituição de outro sacerdote ameaçado de morte. Um comando invadiu a igreja e dirigiu-se à sacristia, onde abriu fogo contra o sacerdote.
O Padre Riudavets Carlos Montes, um jesuíta espanhol de 73 anos, foi encontrado amarrado e com sinais de violência na comunidade indígena peruana de Yamakentsa. O Padre Riudavets tinha formado centenas de líderes indígenas e era totalmente consagrado à sua missão, sempre disponível. Amava a comunidade e por ela era amado.
Das diferentes histórias que a Fides relata neste final de 2018, surge um único denominador comum: a partilha que, em cada latitude, padres, religiosos e leigos são capazes de estabelecer com as pessoas, levando um testemunho evangélico de amor e de serviço para todos, e a coragem pela qual, mesmo diante de situações de perigo, os missionários permanecem no seu lugar para serem fiéis aos seus compromissos.
***
Por sua vez, Pietro Parolin, Cardeal Secretário de Estado da Santa Sé, que celebrou o Natal com as comunidades cristãs do Iraque, em entrevista ao Vatican News, confessa: No Iraque toquei a fé de uma igreja mártiruma Igreja que, entre sofrimentos e tribulações, testemunha a alegria e a beleza do Evangelho”. Compartilha a esperança dos fiéis iraquianos duma visita do Papa e ressalta a importância da colaboração entre cristãos e muçulmanos para um futuro pacífico. E diz que a palavra “emoção” é a correta para descrever o que viveu no Iraque: “uma grande emoção” e alegria sua e das comunidades. Sentiu-se “muito feliz” por lhes poder levar “a proximidade do Papa, o seu afeto, a sua bênção, a atenção com que ele sempre seguiu os seus acontecimentos”. Naturalmente, a visita “foi uma ocasião para compartilhar os sofrimentos dos anos recentes e também um pouco das incertezas do presente, mas ao mesmo tempo, também as esperanças pelo futuro”.
Sobre a vivência da fé com alegria no meio de tantas tribulações, refere:
Nos pronunciamentos que fiz, sobretudo nas homilias, insisti muito neste ponto: ‘Vós sois um testemunho para a Igreja universal’. A Igreja universal é-vos grata pelo que vivestes, como vós vivestes isso,  e deve pegar no  vosso exemplo, desta capacidade de suportar sofrimentos, aflições, pelo nome de Jesus’. Eu diria que esta é uma exemplaridade que eles propõem a toda a Igreja que – tal como diz o Concílio – ‘vive entre as perseguições do mundo e as consolações de Deus’. No entanto, o que mais me impressionou foi o orgulho – no bom sentido da palavra – com que esses irmãos e irmãs vivem a sua fé: sentem-se orgulhosos por serem cristãos e por continuarem a sê-lo no meio de tantas dificuldades, tantas provações e sofrimentos!”.
Em relação às imagens fortes e tocantes da visita ao Iraque, confessa que foram muitas, pois tem cada encontro gravado na sua memória. Porém, destaca a destruição da cidade de Mosul. Na verdade, foi confrangedor “ver as igrejas, mas também as casas, os prédios, a parte inteira da cidade que mais sofreu pelos acontecimentos bélicos”.
Outra coisa que o chocou foram essas igrejas (tanto as caldeias como as sírio-católicas) “cheias de gente, cheias de homens, de mulheres, de crianças e de jovens”, em que “todos cantavam e rezavam”, impressionando “pela sua maneira de rezar”. Por outro lado, em Mosul, “era difícil andar pela rua porque havia entulho no meio”. O governador de Mosul quis cumprimentar o Cardeal, que sentiu o momento em que o governador lhe pegou pela mão “como um momento muito bonito, que deveria ser simbólico daquela que é a colaboração entre cristãos e muçulmanos: tomar-se pelas mãos e ajudar-se mutuamente”. E, naquele instante, estando a chover muito, apareceu um lindo arco-íris no céu, no que vê o símbolo “da paz, da aliança”.
A visita do Cardeal Secretário de Estado acendeu as esperanças duma visita de Francisco ao Iraque. A este respeito, o purpurado disse:
As pessoas ficaram muito contentes por essa presença. Sentiram também na presença do Secretário de Estado a presença do Papa […] Mas todos, a uma só voz, esperam que ele possa visitar o Iraque em breve e confortá-los pessoalmente. E a essa esperança dos cristãos iraquianos também eu me uno: que sejam criadas as condições,  naturalmente, para que o Santo Padre possa ir ao Iraque e possa compartilhar momentos de oração e de encontro com nossos irmãos.”.
Sendo-lhe recordado o discurso de saudação de Natal à Cúria, em que o Pontífice falou de duas grandes aflições, o martírio e os abusos sexuais por parte de membros do clero, Parolin, frisou:
As minhas esperanças são que este encontro, convocado pelo Papa, de todos os presidentes das Conferências Episcopais, possa fortalecer ou continuar, melhor dizendo […] a atenção em favor das vítimas, e sobretudo a criação de condições de segurança para menores e pessoas vulneráveis. Parece-me que é sobretudo neste ponto que a atenção dos participantes estará concentrada: isto é, como criar um ambiente seguro para os menores e as pessoas vulneráveis.”.
Ainda sobre o encontro de fevereiro, diz esperar que, a partir de então, se caminhe nesta estrada e que exista uma abordagem cada vez mais comum, “de toda a Igreja diante desse fenómeno”, mas que, “naturalmente, depois cada um” possa aplicar, “também de acordo com a situação local em que se vive, mas que seja clara a ‘política’ para todas as Igrejas” e “que seja também uma abordagem que tenha presente todos os aspetos do fenómeno, que são múltiplos e interconectados entre si”, procedendo-se, depois, com uma abordagem “inspirada pelos critérios do Evangelho em relação a todas as pessoas”.
E, a concluir, o Cardeal Parolin faz votos, para 2019, por que, diante de tantos desafios atuais,o Senhor sustente o Santo Padre na sua entrega contínua em favor da Igreja e das comunidades cristãs que se encontram em situações de dificuldade e marginalidade” e que “possa continuar a acender essa esperança e esse amor nos corações dos homens, motivo pelo qual tantos lhe querem tão bem e tantos o sentem particularmente próximo”, vendo muitos nele “a esperança de um mundo mais solidário, de um mundo mais pacífico, de um mundo feito à medida do homem e da fraternidade”.
***
Enfim, martírio de morte para uns, martírio de tribulação para outros e proximidade de quantos sofrem ou se alegram – eis a onda diversificada e intensa que marca a Igreja peregrina, que vive a beleza exigente do mistério do Natal do Senhor, alimentando-se do banquete da Última Ceia e anunciando a Sua Morte e proclamando a sua Ressurreição até que Ele Venha.
2018.12. 29 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mascarenhas Barreto, um português polivalente

Morreu em Lisboa, no passado dia 3 de janeiro, Mascarenhas Barreto – de seu nome completo Augusto Cassiano Neves Mascarenhas de Andrade Barreto, que o mundo do fado assume como seu. Mas ele era historiador, musicólogo, poeta de fado e tradutor. Tinha 93 anos (faltavam 24 dias para completar os 94), muitos deles dedicados à escrita e à tradução de livros, sobretudo policiais (uma das suas maiores paixões), mas também à poesia para fado, onde se notabilizou ao lado do fadista e compositor António dos Santos. E também foi cantado por Carlos Ramos, Carlos do Carmo e outros fadistas a partir dos anos 60 até aos dias de hoje. Foi o autor de livros de investigação sobre o fado e as suas origens. São dele as obras “Fado, A Canção Portuguesa” (1959), “Portugal do Fado” (1960) – este em parceria com Carlos Branco, um arrojado livro que juntava fotografias e poesia – e “O Fado – Origens Líricas e Motivações Poéticas” (1980).
Recentemente, vários jovens fadistas incluíram poemas de Mascarenhas Barreto nos seus discos – nomeadamente Marco Oliveira, “Gaivotas em Terra” e Ricardo Ribeiro “Fado é Canto Peregrino” e “Partir é Morrer um Pouco”) – todos eles extraídos do reportório de António dos Santos. Também editou livros sobre tourada, como “Breve História da Tauromaquia em Portugal”, e, nas últimas décadas, notabilizou-se por vários livros em que sustenta a sua polémica tese de que Cristóvão Colombo era, afinal, português. Em meados dos anos 60 foi o organizador, com José Freire, de uma coletânea em LP “The Styles of Fado”, edição da Estúdio, que reunia gravações de Francisco Carvalhinho, Armandinho, Plínio Sérgio, Maria José da Guia, Maria da Fé, Manuel de Almeida, Glória, Adriano Franco e Nuno de Aguiar.
A agência Lusa referia que falecera “o investigador, romancista, tradutor e poeta Augusto Mascarenhas Barreto, de 93 anos, autor da obra “O Fado – Origens Líricas e Motivações Poéticas”. E à mesma agência Lusa dizia o fadista Ricardo Ribeiro: “Morreu um grande fadista, um português de talento, um erudito”.
Ricardo Ribeiro gravou, de Mascarenhas Barreto, “Fado é Canto Peregrino”, uma criação de António dos Santos, intérprete que, deste autor, gravou também “Partir é Morrer um Pouco”. O recém-finado, que ia completar 94 anos no próximo dia 27, é autor, entre outras obras históricas, de “O Português Cristóvão Colombo, Agente Secreto do Rei D. João II” (1988), da Editora Referendo, que foi editada em inglês sob o título “The Portuguese Columbus – Secret Agent of King John II” (1992), da Editora McMillan (Grã-Bretanha). E foi um destacado investigador sobre as origens de Cristóvão Colombo, que apontava como portuguesas. Segundo Mascarenhas Barreto, Colombo não era genovês, mas português, natural de Cuba, no Baixo Alentejo, filho de D. Fernando, duque de Beja e de Viseu, e de Isabel Gonçalves Zarco, tendo sido um espião ao serviço do rei D. João II. No âmbito desta problemática investigatória, publicou “Colombo português: Provas Documentais” (1997), em dois volumes”, da Editora Arrancada.
A sua tese é compartilhada por Manuel Luciano da Silva, médico e pesquisador luso-norte-americano, que publicou, juntamente com a mulher, Sílvia Jorge da Silva, o livro “Cristóvão Cólon (Colombo) Era Português”.
As principais conclusões do seu trabalho são que Cristóvão Colombo não era genovês, mas português, natural de Cuba, Alentejo; era filho de Dom Fernando, duque de Beja e de Viseu, e de Isabel Gonçalves Zarco; o nome de Cristóvão Colombo era um criptónimo de Salvador Fernandes Zarco; sendo filho de Dom Fernando, era neto do rei de Portugal; foi também neto de João Gonçalves Zarco, um dos descobridores de Porto Santo e da Madeira; e foi uma espécie de espião, ao serviço de sua majestade, neste caso, El Rei D. João II (que a história consagrou como “Príncipe Perfeito”), cuja missão bem-sucedida, foi a de desviar a atenção dos Reis de Castela, Fernando e Isabel, do caminho marítimo para a Índia, oferecendo-lhes “de bandeja” um caminho alternativo, presumivelmente mais curto, pelo Ocidente, e um novo continente que já constava já nos mapas portugueses.
Pretendia-se que os Reis Católicos acreditassem que tinham chegado à Índia, tese que Cristóvão Colombo, sempre fiel à coroa portuguesa, defendeu – por lealdade para com o rei de Portugal, que o recebeu no regresso da primeira expedição – até à sua morte em 1506.
Na esteira deste trabalho de investigação sobre o Colombo Português, Manuel da Silva Rosa esclarece detalhadamente o caso com a publicação, em 2009, do livro “Colombo Português – o Homem que enganou os reis espanhóis e serviu o genial rei D. João II”, da Editora Ésquilo, cujo editor afirma que “algo está a mudar na historiografia portuguesa” e com prefácio de Joaquim Veríssimo Serrão. Mas a sua tese, embora afirme a nacionalidade portuguesa do navegador, dá-lhe outra identidade.
***
Na edição do passado dia 10 de janeiro do semanário “O Diabo”, Brandão Ferreira, oficial Piloto Aviador, não é parco em loas a Mascarenhas Barreto, destacando nele a honra, a parcialidade e a portugalidade e considerando-o “um Homem de caráter e um Português inteiro”, de que nos dá o perfil biográfico.
Nascido em 27 de janeiro de 1923, em Lisboa, terminou o curso liceal no Liceu Pedro Nunes com a idade de 17 anos. E, querendo ir para África, preparou-se na Escola Superior Colonial, que frequentou por 2 anos ao mesmo tempo que cursava árabe na Faculdade de Letras de Lisboa. E, em 1944, partiu para Angola onde serviu como secretário do Governador-Geral e do Governador do Congo. Ali, colaborou nos jornais “Província de Angola” e Diário de Luanda” e escreveu algumas obras.
Regressado à Metrópole em 1949, cumpriu o serviço militar no Regimento de Lanceiros 2 e ingressou na GNR onde atingiu o posto de capitão, mas vindo a abandonar a vida militar para ingressar na RTP em 1958, onde ocupou o lugar de chefe de serviço dos estúdios, no que lhe foi útil o curso de Rádio Televisão e Radar, que tirou durante a prestação do serviço militar, ministrado na Escola Eletromecânica de Paço d’ Arcos.
Interrompeu, por 2 anos, o serviço na RTP para desempenho dum cargo no SNI (Secretariado Nacional de Informação), que visava dar início ao turismo, tendo criado as primeiras zonas turísticas do país. 
Regressou à RTP, onde se manteve até ao ano de 1974, ano da revolução abrilina que lhe ofereceu um despedimento por “justa” causa. Passou a lecionar, sucessivamente, no Instituto de Novas Profissões e no Instituto do Designe Marketing, em Lisboa, tendo deixado a lecionação aos 75 anos.
Foi escolhido, em 1983, para responsável de um dos núcleos da XVII Exposição de Arte, Ciência e Cultura, que teve como centro expositor a Torre de Belém, em Lisboa.
Além de ter estudado russo e tétum no Instituto de Ciências Ultramarinas (hoje Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade de Lisboa) e medicina social, foi um emérito desportista, praticando hipismo, boxe, esgrima, pentatlo militar, vela e tiro – vindo a ficar em 1.º lugar em várias competições internacionais e tendo participado nas Olimpíadas de Helsínquia, em 1952. Também tirou o brevet de piloto particular de aviões e foi pegador de touros, durante 11 anos, no Grupo de Forcados de Vila Franca de Xira e no Grupo de Forcados de Cascais.
Com os livros dedicados a Colombo, quebrou a tese plurissecular da origem genovesa do almirante das Américas ou das Índias Ocidentais a ponto de os académicos, não abertos à reabertura da investigação sobre temas “conseguidos”, começarem a responder dizendo que este discurso não passava da mera ficção, provavelmente por não ser tratar de um quadro ilustre das Academias. É o domínio do politicamente correto ou do cientificamente instalado.
Seja como for, Mascarenhas Barreto, como diz Brandão Ferreira, “relançou o debate sobre aquela figura maior da História Universal, aproximando-se muito de poder provar inequivocamente que aquele navegador era um nobre português, que esteve ao serviço de D. João II”. Denunciou a instalação de muitos interesses, aguentou muitos debates e controvérsias e proferiu dezenas de conferências no país e no estrangeiro, tendo sido apoiado por numerosas individualidades, ao mesmo tempo que suportou inúmeros ataques desferidos contra si.
Pelo seu desempenho na investigação sobre a vida de Colombo, era membro honorário da Associação Cristóvão Colon, cujo objetivo é provar a nacionalidade portuguesa do “descobridor” do novo mundo.
Era efetivamente um português polivalente e amante da vida e da atividade.

2017.01.13 – Louro de Carvalho

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Trumpestade: perigo de contágio ou sintoma do défice de democracia?

Jorge Sampaio, em artigo ensaísta que o Público deu à estampa a 14 de novembro, lançou o apelo à travagem da “corrida para o abismo” potenciada pelo Brexit e pela vitória de Trump nas presidenciais norte-americanas, avisando que não haverá paz duradoura se a desconfiança persistir. Referindo-se ao resultado das presidenciais nos Estados Unidos, que deram a vitória ao magnata republicano, adverte que é “impossível não olhar já para as eleições de 2017 em França e na Alemanha como próximas etapas prováveis desta corrida para o abismo”.
De facto, torna-se iminente e perigosa a eventual vitória do partido de Le Pen ou a da extrema-direita alemã, como a dos populistas italianos. E não se pode esquecer que em países do norte europeu, em que a socialdemocracia parecia ser a solução, partidos de direita quase extrema integram governos de coligação ou integram maiorias parlamentares que sustentam governos.
Neste sentido, o ex-presidente manifesta-se preocupado com o rumo do projeto europeu, cujas feridas têm contribuído para a “emergência dos populismos”. E contra os que pensam que foi com o Brexit ou com Trump que surgiu a insatisfação, o ensaísta (são 5 as páginas que o seu artigo ocupa no aludido diário) reconhece que o problema não é de agora, mas a resposta aos sintomas que têm surgido revelaram-se insuficientes e até inadequadas. Começaram com o “não” da França e dos Países Baixos ao Tratado Constitucional Europeu e culminaram mais recentemente na decisão do Reino Unido em deixar a UE (União Europeia).
E podia ter referido o que se passou nas Filipinas em maio passado, quando os eleitores entregaram o voto presidencial a um candidato que fez o mesmo tipo de discurso insultuoso, perseguidor e vindicativo, xenófobo, misógino, homofóbico e pró pena capital, nomeadamente para traficantes – Rodrigo Duterte. Agora, dum lado do Pacífico está Duterte; do outro, Trump.
Um e outro falaram àqueles e àquelas que estão desiludidos como o sistema, que não encontram situação económica favorável, apoio social sustentável, emprego duradouro, segurança de pessoas e de bens. E são figuras que se alimentaram do sistema que passaram a combater, arvorando-se em Messias do povo. Olham os sintomas e originam a mudança no seu pior.
É óbvio que Donald Trump tem consideravelmente mais influência no mundo que Rodrigo Duterte, mas este leu primeiro os sintomas e percebeu o caminho da subida ao poder.
Cingindo-se ao continente Europeu, Sampaio coloca a origem das clivagens na falta de soluções para os problemas económicos e financeiros com que a UE se confronta. E aponta como exemplos “o baixo crescimento”, as “altas taxas de desemprego” e a “elevada dívida pública e privada”, esta apenas disfarçada pela intervenção do Banco Central Europeu que mantém o problema “em suspenso”. Além disso, considera que “ninguém parece acreditar que Bruxelas (ou Berlim) tenha qualquer iniciativa para responder à crise da ‘eurozona’, para alterar a ortodoxia financeira dos credores ou para criar as condições institucionais e orçamentais que tornem possíveis programas de reforma nas economias mais frágeis”. É o egotismo em peso.
No capítulo da dívida, o articulista poderia ter frisado a sujeição a que foram votados os países periféricos a sul, mormente os que foram sujeitos a programas de resgate nacional e bancário, que pagam juros exorbitantes sobre o valor monetário do resgate a favor dos bancos centrais alemão e francês. Por outro lado, em diversos países, ganharam corpo – e estão prestes a ganhar eleições – movimentos e partidos de extrema-direita, preferencialmente preocupados com a defesa e segurança, eivados dum nacionalismo xenófobo e protecionista, alguns deles a querer alimentar a homofobia, purificar os costumes, preservar a dita raça e reabilitar a pena de morte.   
Depois, aflorou a incapacidade da UE para lidar com a recente vaga migratória ou de prófugos e para se organizar equilibradamente na preservação das liberdades e na luta contra o terrorismo, ora de caraterísticas singulares (sobretudo o do Ísis) – o que abriu caminho para os discursos radicalizados que têm encontrado eco em muitos setores da sociedade.
A adicionar-se a esta problemática, surgiu o “Brexit”, que, para Sampaio, representa “um ponto de não retorno” e, no meu entender, pouco pior que uma eventual permanência na UE nos termos excecionais em que o anterior primeiro-ministro britânico conseguiu negociar. Porém, como assegura o ex-presidente, nada ficará como dantes e está aberta a porta para que outros países lhe sigam o caminho.
O antigo Chefe de Estado sustenta que “a confiança está hoje abalada de forma sistémica e sistemática” e pergunta se esta “desconfiança está já demasiado cimentada para ser reversível e evitar os populismos de toda a sorte”. Defendendo que, no atual contexto europeu e internacional, “reconstruir a confiança” constitui “um desafio grande, moroso, complexo, mas incontornável”, deixa o alerta:
“Não há economia, nem mercado, nem política, nem democracia sem esse cimento de base, a confiança. Não há paz duradoura se a desconfiança minar as relações entre comunidades, povos e nações, se o pacto social for rompido.”.
Não obstante, advoga que, para evitar o trilho do “abismo”, incumbe “à Europa contribuir para reinventar a democracia para a nossa era da globalização”, até porque “a Europa não é só parte dos problemas, mas é também da solução, dando aos países mais controlo sobre políticas que se tornaram globais”; e entende que a Portugal o momento merece “um balanço rigoroso e exaustivo da nossa participação europeia na dupla vertente do que a Europa tem feito por nós e do que podemos fazer por ela”.
O ex-presidente Jorge Sampaio sublinha que é mesmo preciso proceder à “recapacitação” das democracias ocidentais ao nível nacional, central e local, o que passa pelo "resgate da democracia representativa na Europa”. E, no atinente a Portugal, deixa mesmo algumas pistas; como: maior sentido de rigor “em relação à Europa que queremos”; e recusa de todo o tipo de iniciativas restritivas que se baseiem em critérios passadistas e obsoletos, como as que “recorrem à figura dos membros fundadores”.
No quadro dos novos equilíbrios intraeuropeus resultantes da saída do Reino Unido da UE, que devem merecer a atenção de Portugal, está aberto o caminho para que a Alemanha passe a ser o principal interlocutor dos EUA no seio da UE. Assim, Portugal deve, segundo Sampaio, “concentrar-se sobre as suas relações com a Alemanha e com a Espanha, que é o principal parceiro de Berlim (e de Washington) na Península Ibérica”.
A este respeito, interrogo-me se não deveria reforçar-se o peso da UE como um todo, valorizando a diplomacia comum, coordenada pela Alta Representante da UE responsável pelas relações exteriores e segurança e tutelada pelo Presidente do Conselho Europeu. De outra forma, estaremos a legitimar a hegemonia insistente e ilegítima da Alemanha e até as intervenções do superministro Wolfgang Schäuble ou a pretensão de Hollande de negociar secretamente a martelação das contas francesas de modo a exceder o défice, porque “a França é a França”.    
***

O Presidente da República considerou que Sampaio escreveu “um artigo lucidíssimo” sobre a situação internacional, tendo razão quanto ao risco de divisão da Europa. A este respeito, declarou:
“O presidente Sampaio tem razão quando diz que, depois de tantos anos a construir a Europa, haver o risco da sua fraqueza, da sua divisão, do seu esvaziamento por guerras entre países, por movimentos populistas, por situações de xenofobia, de demagogia, de fechamento, a Europa fechar-se, isso é muito grave”.
No seu entender, contudo, entende Marcelo que “em Portugal não há essa situação, há uma grande estabilidade no sistema de partidos”, o que apontou como “situação única relativamente a muitos outros países europeus”.
Na intervenção que fez durante a inauguração da sede da associação empresarial GS1 Portugal, em Lisboa, o Presidente desviou-se do tema do seu discurso para falar do predito ensaio do ex-Chefe de Estado e partilhar “uma nota” que disse ter-lhe ocorrido, de manhã, sobre os desafios atuais. Segundo o Chefe de Estado, no atual contexto “o primeiro grande desafio é não só não deixar morrer a Europa, mas dar força à Europa”. E prosseguiu:
“Esse é um grande desafio para todos nós. Não é que não haja a vocação para o mundo, uma vocação universal, mas é diferente uma vocação universal com uma Europa partida, dividida, despedaçada, ou com uma Europa unida”.
Marcelo referiu-se, em seguida, aos desafios nacionais, que defendeu serem pensar a médio prazo, combinar investimento com inovação e promover o diálogo social. No entanto, reforçou a sua mensagem sobre o estado da Europa: “É neste momento importante na vida do mundo manter viva a Europa e melhorá-la e projetá-la no futuro”.
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Também, em conferência de imprensa após várias reuniões de trabalho, incluindo uma sessão conjunta entre os chefes de diplomacia e os ministros da Defesa da União Europeia, Augusto Santos Silva e Azeredo Lopes afirmaram que o risco de divisão da Europa apontado pelo antigo Chefe de Estado e corroborado pelo Presidente da República é real e deve ser enfrentado.
Santos Silva admitiu que “se a questão é saber se nós hoje corremos riscos e se o projeto de construção europeia corre riscos, a resposta é ‘sim’ e riscos sérios”. E apontou entre os “principais riscos”: risco de desintegração resultante da “tendência para renacionalizar políticas que já hoje são e devem ser políticas europeias” e “europeizar os falhanços”; maior influência que se sente hoje nos sistemas políticos e opiniões públicas por parte forças ou ideias populistas; e “o de se cavar ainda mais a distância entre cidadania e quadro institucional europeu”, por incapacidade deste de responder às necessidades que os cidadãos vivem. Porém, convicto de que “não há nenhuma alternativa à integração europeia para responder melhor aos problemas que afligem as economias e sociedades europeias”, afirmou:
“A Europa tem todas as possibilidades e tem todas as capacidades para reagir a estes riscos, contrariá-los e vencê-los, consolidando o projeto de integração europeia e consolidando e melhorando as políticas, os instrumentos de que dispõe”.
Já Azeredo Lopes comentou que politicamente a Europa tem hesitado entre uma ‘realpolitik’ algo despida de valores e um pragmatismo por vezes estranho, por excessivo”. E declarou:
“A UE não poderá com toda a certeza escapar à crise que é anunciada e descrita pelo Dr. Jorge Sampaio (…), não poderá com certeza sobreviver bem à crise que hoje enfrenta, se aceitar negociar valores fundamentais, que era a sua matriz definidora”.
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É o alerta de quem sabe e a esperança de quem deve! Um sintoma que se torna contágio.

2016.11.15 – Louro de Carvalho

domingo, 6 de novembro de 2016

Estamos na varanda sobre as eleições norte-americanas

As coisas são como são e não como deveriam ser. Em termos normais, estas eleições deveriam interessar apenas aos americanos e os demais povos deviam poder olhar para elas com sentido de aceitação, de crítica ou mesmo de solidariedade cívico-política. Porém, dado que os EUA são uma grande potência mundial e se armam em polícias do mundo, as eleições interessam a todos e é pena que não possamos todos votar nelas.
A campanha eleitoral que os candidatos estão a corporizar é, a todos títulos, lamentável e exprime à saciedade aquilo que qualquer manual de ciência política devia escrever que não pode ser feito.
Creio que é a primeira vez que um candidato coloca em dúvida a aceitação dos resultados ou que declara aceitá-los apenas se ganhar. Se é normal solicitar a recontagem de votos nalgumas assembleias de voto por dúvidas surgidas a respeito de putativas irregularidades, não se afigura lícita a rejeição de resultados ou a dúvida sobre a sua aceitação anunciada por antecipação e profetizando a fraude do sistema. Parece ser a postura de quem julga os outros por si próprio. 
Ora, que fique bem claro: o mais importante para o mundo – e necessariamente para os EUA – é que todos aceitem o resultado das eleições independentemente de quem ganhe e que possam continuem a funcionar com normalidade democrática as sólidas instituições do país.
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Na verdade, Donald Trump ganhou, quase contra todas as expectativas iniciais, as eleições primárias republicanas e tornou-se o mais heterodoxo candidato presidencial dos EUA desde há muitos anos. Foram excessivos e fortes os insultos, insolentes as afirmações feitas a propósito do Estado, dos cidadãos e, em especial, das mulheres. Falou contra os emigrados, as etnias mais desfavorecidas, promete fazer com que a América torne a ser grande, dando a ideia de que pretende a purificação da raça como se houvesse uma raça americana. Afinal, quem são e donde provêm os americanos? Todavia, não creio estar a reavivar-se a teoria hitleriana da raça pura!  
Por seu turno, Hillary Clinton parece ter subestimado o adversário e parece ter superacreditado no sentido das expectativas e previsões que apontavam quase em uníssono para um passeio fácil da candidata democrata rumo a uma apoteose eleitoral a 8 de novembro. Porém, a opinião pública – e a máquina eleitoral do concorrente avivou-lhe a memória – não esqueceu a sua prestação como Secretária de Estado durante o primeiro mandato de Barack Obama, sobretudo no atinente ao uso do e-mail pessoal para correspondência e tratamento de assuntos de Estado e das relações internacionais, com o que isso significa de falta de transparência e de segurança. Contudo, veio agora o FBI revelar que os novos e-mails não revelam quaisquer indícios de crime. Ora, o correto era investigarem primeiro e divulgar depois, não?!
Por outro lado, a candidata respondeu de forma pouco assertiva a alguns ataques de Trump nos debates televisivos; e agora o sistema judiciário ressuscitou a questão dos e-mails pessoais de Hillary.
Também aqueles que gostam de brincar às eleições ou que estão descontentes com o panorama e a prestação das candidaturas principais têm produzido declarações que não ajudam, incluindo a distribuição maciça de cartazes com o slogan “Everybody sucgks” (todos sugam, ou nenhum deles presta). E o estribilho replicou-se em autocolantes, pins e T-shirts, que rapidamente se espargiram pelo país.
Assim, em vésperas das eleições presidenciais nos EUA e contra quase todas as expectativas iniciais, Trump tem pelo menos algumas hipóteses de ser o próximo Presidente dos EUA. É verdadeiramente extraordinário que este candidato, tão unanimemente denunciado e desprezado pelo establishment político-mediático (e mesmo segmentos importantes e influentes do Partido Republicano), tenha conseguido chegar a esta situação. É certo que o crasso egocentrismo de Donald Trump não lhe permitirá apreciar assim os factos em caso de derrota, que esperamos seja real, mas chegar a este ponto é já uma vitória independentemente do resultado das eleições. Em Portugal, um candidato deste jaez que almejasse uma posição similar desta cantaria vitória mesmo durante e depois da contagem dos votos contra si e apesar de si.
Trata-se de uma situação vitoriosa de Trump que, por muito que se não goste dele, importa mais compreender do que censurar ou condenar. No seu percurso para o ato eleitoral a sua dinâmica de campanha alimentou-se, desde início, do ódio dirigido contra o candidato. E Trump, não tendo nada a perder, foi extremamente hábil em converter a atenção mediática que lhe foi dada pelos seus múltiplos e diversos atacantes em dois ativos preciosos: imenso tempo de antena grátis; e a construção duma imagem de outsider, atacado por todos os lados por desdizer do sistema vigente.
Essa imagem, por mais que ele queira exibir em contrário, é irreal em muitos aspetos. Com efeito, ainda há poucos anos atrás, Trump elogiava publicamente Bill e Hillary Clinton e integrava o respetivo círculo de amizades e influências. E, pela sua própria atividade empresarial, Trump tem sido muito mais um insider e um fã do sistema do que um outsider clássico que se rebela contra o sistema, que denuncia. Mais: tem usado a seu favor ao longo dos anos os vícios do sistema vigente, que agora descarta tão fácil e despudoradamente.
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O clima político adensou-se de tal modo que a maioria dos americanos que, a 8 de novembro, vão eleger o 45.º Presidente dos Estados Unidos acha que nenhum dos candidatos presta. Uma sondagem recente da Gallup, empresa americana de estudos de opinião, revela que 65% dos eleitores tem uma opinião desfavorável sobre Trump e 55% não veem com bons olhos a possibilidade de Hillary vir a ser presidente. E somente metade dos eleitores que têm uma opinião positiva dos candidatos se mostra “muito favorável” à sua candidatura – diz o mesmo estudo. Depois, se a imagem dos candidatos não se alterou até à convenção e de julho passado se tem vindo a degradar, dificilmente se terá alterado para melhor nos últimos dias da campanha.
Por seu turno, um estudo da Pew Research Center refere ser esta a primeira vez que menos de 50% dos eleitores estão satisfeitos com as possibilidades de escolha do Presidente, escolha que, segundo o sistema eleitoral americano, não é feita direta e correspondencialmente com o voto dos eleitores – os eleitores escolhem os grandes eleitores, sendo que estes escolhem o Presidente, pelo que pode o número de votos totais num candidato não ser decisivo para que ele seja o Presidente. O valor mais baixo de eleitores satisfeitos com as candidaturas ocorreu em 1992, com 53% de norte-americanos a sentirem-se satisfeitos ou muito satisfeitos com os candidatos. Agora esse valor fica-se nos 33%. E é a primeira vez que esse valor percentual desce após as convenções partidárias. Em junho passado cifrava-se nos 40%.
De facto, a popularidade dos candidatos está em mínimos históricos.
Neste contexto geral de insatisfação, percebe-se que os eleitores votem no candidato que entendem ser o menor de dois males. E, contra todas as expectativas, será difícil prever quem sairá vencedor desta eleição presidencial. Segundo a sondagem do The Washington Post e do ABC News, a uma semana das eleições, Hillary terá 46% das intenções de voto e Trump 45% (mas sondagens anteriores davam justamente posição inversa). E longe, mas com desempenho que pode influenciar o resultado final, estão os candidatos Gary Johnson e Jill Stein, com 4% e 2%, respetivamente. Numa corrida só a dois, a vantagem da candidata democrata aumentaria para mais 3%, mas sempre dentro da margem de erro.
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Segundo os padrões normais das eleições americanas, o que ele disse e o que ele fez ou outros fizeram por ele ou contra ele – ainda há pouco um grupo prometeu fazer guerra se Trump não ganhar as eleições e Trump teve de ser retirado do palco num comício devido a um burburinho que eclodiu na plateia – todas as polémicas que o candidato republicano originou ou acalentou seriam mais do que suficientes para retirar a Trump qualquer esperança de vencer a corrida à Casa Branca. Porém, esta está longe de ser uma eleição normal.
Esta imagem, habilidade tática e inimputabilidade de Trump de nada valeriam se não houvesse uma base popular de apoio recetiva à sua mensagem. O livro de Charles Murray, Coming Apart: The State of White America, 1960-2010, publicado antes do fenómeno Trump, de alguma forma antecipa a sua base sociológica. A candidatura de Trump e o movimento popular e populista a ela associado acabam por veicular as múltiplas frustrações e revoltas duma grande porção populacional. Desde vastos segmentos blue-collar que sentem ter sido ostracizados com a globalização até pequenas faixas mais ideológicas como a nova direita revolucionária agregada na alt-right ou elementos associados ao paleoconservadorismo que veem no candidato um indisfarçável némesis na sua longa cruzada contra o neoconservadorismo, Trump significa coisas diferentes para grupos muito diferentes, sendo mais sintoma do que causa. Encarando o candidato republicano como pragmático (numa leitura otimista) ou como oportunista (numa leitura razoavelmente demolidora), a sua postura é associada à retórica protecionista e moralizante. Dada a importância da globalização para o desenvolvimento, a erradicação da pobreza e a melhoria da vida de centenas de milhões de pessoas, a deriva protecionista nos EUA é um enorme risco para a economia do mundo.
Já Bernie Sanders quase ganhava as primárias democratas em nome do protecionismo e Hillary inverteu posições anteriores denunciando a NAFTA e declarando oposição ao TPP. Isto, ao mesmo tempo que os chavões da antiglobalização capitalizam também na Europa e unem sob a mesma bandeira, por exemplo, Marine Le Pen e as demais extremas-esquerdas.
Assim, ao invés do que os analistas previam reiteradamente (e não raro arrogantemente), não espero que Hillary tenha vitória esmagadora. Ao contrário: tudo está em aberto, embora com vantagem para Clinton. E o mais importante para os EUA – e para o mundo – é que os resultados sejam aceites por todos e o eleito ou a eleita disponha de condições para cumprir o mandato sem percalços; e não como Obama, que teve sérias dificuldade no segundo mandato – e que decidiu intervir na campanha para salvar a honra do convento democrata (o que em Portugal seria mal visto).
E a América é assim e não como queríamos que fosse!

2016.11-06 – Louro de Carvalho