Mais
de uma dúzia de países da União Europeia (UE) contestam os planos da Comissão
Europeia para tornar a eletricidade mais barata do que o gás, através de
tributação preferencial, advertindo que Bruxelas está a ultrapassar as suas
competências e que as propostas comprometeriam o controlo nacional da
fiscalidade da energia e dos encargos de rede.
Num
encontro de ministros da Energia da UE, no Luxemburgo, a 28 de outubro, a Alemanha,
a Itália, Malta, a Chéquia, a Bulgária, a Eslováquia, a Finlândia, a Roménia, a
Croácia, a Polónia, a Letónia, a Estónia e a Hungria estiveram entre os países
que pediram a supressão da controversa proposta do executivo comunitário de
incentivo às famílias e às empresas a passarem dos combustíveis fósseis para a
eletricidade, numa altura em que a procura da indústria, centros de dados,
bombas de calor e veículos elétricos continua a crescer, estando a repercutir-se,
cada vez mais, nos consumidores, através de faturas mais elevadas, o aumento
dos custos de expansão e de exploração das redes elétricas europeias.
A
proposta surge no contexto da crise energética, agravada, desde a guerra dos
Estados Unidos da América (EUA) e de Israel contra o Irão, que fez disparar os
preços e aumentou a pressão sobre Bruxelas para aliviar o peso nas famílias e na
indústria. E já antes do conflito no Médio Oriente, os preços da eletricidade,
na Europa, eram o dobro dos praticados nos EUA e na China, levando os
industriais europeus a exigirem ação “urgente e arrojada”.
Numa
cimeira informal, em fevereiro, os líderes da UE comprometeram-se a baixar os
preços da energia, tornando a tributação da eletricidade mais suave do que a do
gás natural, na tentativa de reduzir as faturas. Contudo, vários países defendem
que a política fiscal deve ser tratada na revisão em curso da Diretiva da
Tributação da Energia (DTE), que exige unanimidade, em vez de maioria
qualificada, como propõe a Comissão. Neste sentido, Ebba Busch, ministra sueca
da Energia, apelou a melhor regulação, em vez de mais burocracia. “Tendo em
conta as diferenças muito significativas nas redes e nas respetivas caraterísticas
em toda a União, não existe uma solução única que sirva a todos para a conceção
das tarifas”, afirmou.
A
Espanha, a Dinamarca e o Luxemburgo apoiaram a Comissão, mas pediram alguma
flexibilidade. “As propostas devem incluir flexibilidade para os estados-membros
fixarem prioridades políticas claras para políticas ambiciosas de
eletrificação, de forma a garantir o ritmo e a dimensão da expansão da rede”,
afirmou o diplomata e representante permanente dinamarquês, Søren Jacobsen.
A
França procurou uma via intermédia, defendendo que a base jurídica seja
garantida e sugerindo que a medida seja associada a circunstâncias específicas,
como uma crise do gás. E o Luxemburgo sugeriu substituir a disposição por uma
obrigação geral de promoção da eletrificação.
A
oposição mais forte atinge o plano da Comissão para definir regras comuns sobre
a forma de cálculo das tarifas das redes elétricas, em toda a UE, sem ter de
pedir nova aprovação aos estados-membros e ao Parlamento Europeu (PE), de cada
vez. A Itália, a França, a Alemanha, a Eslováquia, a Polónia, a Espanha, a Finlândia
e outros países aduziram que o plano prejudicaria a independência dos
reguladores nacionais e daria demasiado poder a Bruxelas em decisões que, na
sua opinião, devem ser tomadas a nível nacional. E a Finlândia assinalou que o
seu parlamento concluiu, formalmente, que a proposta viola tal princípio. “Os estados-membros
têm de manter flexibilidade suficiente para refletir as suas circunstâncias
nacionais, necessidades de investimento e sistemas elétricos. Preocupa-nos
também a ausência de uma avaliação de impacto abrangente”, afirmou Mika Nykänen,
representante do Estado finlandês.
Dan
Jørgensen, comissário europeu da Energia, manteve a posição, nas declarações
finais, frisando que a proposta do executivo da UE “faz muito sentido” e
relevando que os serviços jurídicos da Comissão e os do Conselho consideram a
proposta juridicamente sólida. “A cláusula jurídica poderá ter um impacto
imediato e estrutural na redução das nossas faturas de eletricidade. Não
devemos privar consumidores e indústria dos benefícios desta proposta”, disse aos
ministros da Energia.
A
Presidência irlandesa, que media as negociações da UE, pretende alcançar um
compromisso sobre as tarifas de rede, em dezembro.
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Já
em meados de agosto, a Alemanha contestava o plano da Comissão para tributar a
eletricidade a taxa inferior à do gás natural, defendendo que Bruxelas procura
usar a legislação do mercado da eletricidade para impor regras que deveriam ser
tratadas pelo direito fiscal da UE e sustentando que o executivo comunitário
procura introduzir disposições fiscais significativas através de um instrumento
jurídico que pode ser aprovado por maioria qualificada, em vez da unanimidade exigida
para medidas fiscais europeias, com Bruxelas a acelerar a eletrificação da indústria,
dos transportes e do setor da energia em plena subida dos preços da
eletricidade.
A
questão é, particularmente sensível, quando a UE acelera a eletrificação, tendo
fixado a meta de 46%, até 2040, para reduzir a dependência de combustíveis
fósseis importados. Com efeito, a UE pagou mais de 22 mil milhões de euros, nos
48 dias que se seguiram ao início da guerra no Médio Oriente, sem comprar nova
energia. E a incerteza, quanto ao futuro do estreito de Ormuz, uma via marítima
crucial, dá a Bruxelas ímpeto adicional para apostar na eletrificação e para reduzir
a dependência do bloco de combustíveis fósseis importados. Porém, a
eletricidade continua a ser, significativamente, mais cara do que o gás fóssil
em toda a UE, frequentemente cobrada a um preço três a cinco vezes superior ao
do gás, o que torna mais difícil para as famílias e para as empresas adotarem
tecnologias limpas.
Neste
contexto, Bruxelas quer tornar a eletricidade uma alternativa mais atrativa aos
combustíveis fósseis, com a Alemanha a alertar que o objetivo não deve servir
para reabrir o acordo alcançado pelos países da UE nas negociações da DTE. Efetivamente,
o compromisso anterior deu, deliberadamente, margem aos governos para decidirem
como deve ser tributada a eletricidade, retirando-a da hierarquia ambiental dos
vetores energéticos proposta pela Comissão. Segundo a Alemanha, a proposta reintroduziria
tal hierarquia pela porta traseira. Por outro lado, a objeção alemã sinaliza
potencial choque entre a vontade da Comissão de tornar a eletrificação atrativa
financeiramente e a determinação dos estados-membros em manterem o controlo da
tributação, revelando importância política que vai além das faturas da
eletricidade.
No
entanto, a Alemanha afirma que o objetivo de transformação e da eletrificação é
comum. A objeção prende-se apenas com a intenção da Comissão de utilizar a
regulação do mercado da eletricidade como instrumento para o concretizar.
Portanto, na sua ótica, a solução passa por retirar do regulamento sobre o
desenho do mercado da eletricidade a proposta de tributar o gás mais do que a
eletricidade e por negociar a tributação da eletricidade, no âmbito da DTE, o
instrumento adequado da UE.
Tom
Lewis, coordenador de políticas energéticas na ONG Climate Action Network
Europe, considera que a Alemanha deveria apoiar a proposta de reforma da
tributação da energia, para ajudar a reduzir a diferença de preços entre
eletricidade e gás. “Atualmente, um agregado familiar alemão paga, em média,
mais de três vezes, por unidade de eletricidade, do que paga pelo gás, o que
torna a tão necessária eletrificação, por exemplo com a instalação de bombas de
calor, menos atrativa do que as caldeiras a gás poluentes”, declarou à Euronews.
Na
UE, a Finlândia e a Suécia são as principais exceções, tributando o gás acima
da eletricidade.
Saverio
Papa, responsável pela energia na Associação Europeia de Bombas de Calor,
sublinha que tanto a tributação da energia como os encargos de rede são fatores
decisivos para os elevados rácios entre os preços da eletricidade e do gás, na
Europa. Segundo dados da Comissão, os encargos de rede e os impostos combinados
superam, frequentemente, o preço da eletricidade consumida. Os encargos de rede
representaram 27% das faturas de eletricidade das famílias e 21% das faturas
das empresas, enquanto impostos e taxas nacionais acrescentaram mais 24% para
os agregados familiares e 16% para as empresas. Por isso, os colegisladores da
UE, o PE e o Conselho, devem iniciar as negociações sobre este dossiê sensível,
após a pausa de verão, sob a Presidência irlandesa da UE.
***
Governos
da UE querem, desde fins de setembro, suavizar a proposta que daria a Bruxelas
mais controlo sobre a rede elétrica do bloco, preferindo manter nas suas mãos a
forma como as redes de eletricidade são financiadas e geridas. De facto, a
eletricidade passou para o centro da estratégia económica europeia, pretendendo
a UE que famílias e empresas substituam os combustíveis fósseis por
eletricidade, ao mesmo tempo que espera que a indústria, os centros de dados,
as bombas de calor e os veículos elétricos impulsionem a procura. Mas o custo
de expandir e de operar as redes de energia aparece, cada vez mais, na fatura
de eletricidade.
Ora,
como as tarifas de rede e os impostos, em conjunto, superam, muitas vezes, o preço
da eletricidade consumida – os encargos de rede representaram 27% das faturas
de eletricidade das famílias e 21% das das empresas, enquanto os impostos e
taxas nacionais acrescentaram mais 24% às faturas domésticas e 16% às das
empresas – a Comissão Europeia tomou nas mãos, em julho, as propostas de novas
regras destinadas a reduzir os custos da energia numa crise crescente
desencadeada pelo encerramento do estreito de Ormuz e de um plano de
eletrificação que estabelece, para a UE, a meta de 46%, até 2040.
A
presidência irlandesa – a presidência rotativa do Conselho da UE – quer manter
a ambição geral da Comissão de tornar a eletricidade mais barata e fácil de
adotar, mas dando mais margem aos governos nacionais e reguladores para
decidirem como as regras funcionam na prática. E, assumindo a responsabilidade
de mediar as negociações entre a Comissão, o Conselho e o PE, propõe ampla
revisão das tarifas de rede, exigindo estruturas tarifárias que incentivem os
consumidores a reduzir a procura, nas horas de ponta, a deslocar consumos para
outros períodos e a ter em conta a localização das novas ligações. Porém, as recentes
conversações preparatórias realizadas, a 23 de setembro, entre os embaixadores
da UE, mostram que os governos resistem a transformar tais instrumentos em
exigências uniformes. “As regras relativas à aplicação de uma metodologia de
tarifa de referência para a eletricidade devem permitir que as autoridades
reguladoras se afastem dessa metodologia de referência, em casos devidamente
justificados”, lê‑se em documento do Conselho, datado de 16 de setembro.
Alguns
países querem que os reguladores utilizem instrumentos, como eletricidade mais
barata fora das horas de ponta ou incentivos para localizar novos projetos onde
a rede tenha capacidade disponível, apenas quando isso for adequado ao sistema
elétrico de cada país, em vez de impor estas regras em toda a UE; outros levantaram
reservas ainda maiores, quanto à eficácia e às possíveis consequências sociais
destes instrumentos e medidas; e Francesco Sassi, professor auxiliar na
Universidade de Oslo, sustenta que o controlo centralizado pela Comissão pode
“contribuir para reduzir o isolamento da Península Ibérica ou impulsionar mais
investimentos em interligações de energia com baixas emissões de carbono, na
Europa de Leste e no Sudeste europeu”, assim como releva que “estes países
mostram um incómodo crescente em ceder poder a Bruxelas, numa segunda crise
energética sob a presidência de Ursula von der Leyen e perante choques de
mercado sucessivos que a Comissão parece incapaz de controlar”.
Para
a Comissão, regras comuns são uma forma de tornar o fragmentado mercado
elétrico mais transparente e eficiente, mas os países da UE resistem a qualquer
medida que os obrigue a redesenhar sistemas tarifários nacionais que refletem
redes, estruturas industriais e perfis de consumo diferentes. E o ponto de
conflito maior é a disposição que permitiria à Comissão estabelecer estrutura e
metodologia comuns de referência para as tarifas de eletricidade.
A
presidência irlandesa sublinha que tal serviria para “harmonizar a metodologia”
e não as tarifas em si e que os reguladores nacionais poderiam afastar‑se da
abordagem de referência, quando houvesse justificação. Contudo, vários grandes estados‑membros
continuam insatisfeitos, pois preferem que os poderes da Comissão sejam bastante
reduzidos ou eliminados, aduzindo que preferência emergente é por orientações,
e não por abordagem vinculativa. Em última análise, a decisão dependerá de como
são distribuídos os custos da transição energética.
A
dimensão política torna‑se ainda mais evidente quando se trata de novas
ligações à rede. A UE enfrenta filas cada vez maiores para acesso à rede, à
medida que fábricas, projetos de energias renováveis, centros de dados e outros
investimentos intensivos em eletricidade competem por uma capacidade limitada.
As regras propostas permitiriam que os países da UE estabelecessem prioridades,
quando não houver espaço suficiente na rede. E o compromisso mais recente
reforçaria o papel dos estados‑membros na definição da orientação política
geral, deixando aos reguladores a liberdade de aplicar as regras.
Um
amplo grupo de países apoia, em termos gerais, dar aos governos papel mais
forte e defendem que decidir quais os projetos que recebem uma capacidade de
rede escassa não é só um exercício técnico, mas implica escolhas políticas
sobre competitividade industrial, segurança energética e prioridades sociais. A
Comissão afirma que definir critérios técnicos e tarifas de rede é uma tarefa
regulatória. E vários países da UE receiam que a rápida expansão dos centros de
dados, cuja capacidade Bruxelas quer triplicar, até 2035, para reduzir a
dependência dos gigantes tecnológicos e para desenvolver capacidades próprias
de inteligência artificial (IA), na Europa, sobrecarregue as redes elétricas e
faça subir os preços da energia para os consumidores.
***
Os
países da UE estão num dilema: querem a transição para a eletricidade, nomeadamente,
a resultante de fontes renováveis, em nome da ação climática, mas sabem que a transição
está muito difícil. Com efeito, prevê-se que estruturas, como centros de dados,
gastem muita eletricidade e água (um bem cada vez mais escasso); os conflitos armados,
por um lado, exigem o consumo de muitos combustíveis de origem fóssil e, por
outro lado, dificultam a sua distribuição equitativa (incendeiam poços de
petróleo e afundam ou incendeiam navios petroleiros), fazendo aumentar os preços
e criando novas dependências, tão perversas como as anteriores; os países não dispõem
de rede sólida de distribuição de energia elétrica, nem de capacidade de
armazenagem; e muitas estruturas habitacionais e industriais, bem como muitas infraestruturas
públicas, ainda dependem dos produtos de origem fóssil.
O
nosso país tem diminuta rede ferroviária e a maior parte dependente do diesel
ou é de linha única, e muito da frota automóvel funciona a combustível de
origem fóssil. A transição é penosa para cidadãos que precisam de viatura para
o trabalho (transportes regulares não cobrem o território e, nas zonas
abrangidas, são insuficientes). E lugares onde se toma comboio, avião e
expresso ou não dispõem de estacionamento suficiente ou o existente é pago (poupa-se
na farinha e gasta-se no farelo). Porém, a transição energética impõe-se e a UE
não se entende.
2026.10.30
– Louro de Carvalho