sábado, 26 de setembro de 2026

Ministro italiano preocupado com as saias das mulheres

 

 

A 26 de setembro, a Euronews publicou um artigo intitulado “Itália: frase das ‘saias compridas’ deixa Tajani alvo de memes e da imprensa”, em que o jornalista Fortunato Pinto, refere que o italiano Antonio Tajani, vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, vem sendo alvo de críticas, após dizer, num discurso proferido num evento político, em Formello, perto de Roma, na Itália, preferir mulheres “sérias” de saias compridas, pelo que senadoras da oposição protestaram de saia e memes se espalham além-fronteiras.

Apesar do pedido de desculpa, apresentado, a 21 de setembro, pelas palavras proferidas na semana anterior, e da tentativa de Giorgia Meloni, primeira-ministra, para pôr fim à polémica, as declarações do governante, sobre a escolha da companheira de vida, com base em critérios, como o comprimento da saia que deve usar, geram reações contra o ministro, fora das fronteiras de Itália, transformando-o em protagonista de memes que circulam nas redes sociais.

Numa entrevista no festival “Itaca”, em Formello (pelos vistos, não num discurso, como aponta Fortunato Pinto), Tajani disse que recomendaria a um homem (em concreto, ao seu filho) casar com mulheres sérias, que usam “saias mais compridas”. “Talvez menos vistosa, mas mais fiável, mais séria, alguém que será uma boa mãe de família, que manterá a fidelidade ao amor que sela com o casamento”, especificou o chefe da diplomacia italiana, frisando que escolhe “sempre a bonita, séria, credível, que sustenta a família, que está presente, de quem sabes que dá sempre respostas e que, quando a chamas, está lá”.

Depois de uma chuva de críticas, Tajani pediu desculpa. “Lamento muito que tenham sido mal interpretadas algumas das minhas afirmações, retiradas de um discurso muito mais amplo. Peço desculpa, se algumas pessoas se sentiram ofendidas pelo que disse, mas eu não pensei nunca em ofender as mulheres, nunca o fiz na minha vida, nem na esfera privada, nem na pública”, afirmou Tajani, à margem da visita que realizou a Nova Iorque para a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), mas não foi suficiente.

As declarações do governante foram duramente contestadas pelas forças da oposição, pelos sindicatos e pela Conferência Episcopal Italiana (CEI), embora o Vaticano não tenha tomado qualquer posição oficial.

Onze senadoras do Partido Democrático (PD), do partido Itália Viva, da Alleanza Verdi e Sinistra (AVS), do MoVimento 5 Stelle (M5S) e do grupo das Autonomias reuniram-se, a 22 de setembro, no Palazzo Madama, sede do Senado, vestidas com minissaia. “Este é um gesto de liberdade para dizer que somos livres de nos vestirmos como quisermos. Acreditamos que a liberdade das mulheres se mede por qualquer gesto de liberdade, incluindo o comprimento da saia ou por qualquer outro gesto que as mulheres queiram fazer, sem serem julgadas pelos homens”, afirmou a líder parlamentar da Itália Viva, Raffaella Paita, autora da iniciativa.

Para Simona Malpezzi, do PD, que divulgou a fotografia do grupo, “estas palavras são a demonstração de um patriarcado intrínseco e inconsciente, tanto que o ministro Tajani acabou por se justificar e por pedir desculpa, mas a sua justificação é ainda pior. Eles não se apercebem do que dizem porque o têm interiorizado. É preciso mostrar que estas frases não são aceitáveis.”

E outras figuras da política italiana também se manifestaram contra as asserções do governante. Por exemplo, a ex-prefeita de Turim e deputada, Chiara Appendino, fez uma publicação, nas suas redes sociais, usando uma minissaia, na qual questionou se ela, que é mãe, não seria uma mulher confiável pela roupa que está a usar. “A nossa confiabilidade não se mede em centímetros de tecido. Vamos sair da Idade Média”, concluiu.

A iniciativa surgiu também em resposta às palavras do líder de Futuro Nazionale, Roberto Vannacci, que, comentando as declarações de Tajani, discorreu: “Entre uma mulher de saia comprida e uma mulher de saia curta, eu prefiro sempre uma mulher sem saia. […] Não me preocupo com críticas tolas. Amo as mulheres, dádiva do universo.” Tais palavras foram repetidas pelo general, nas redes sociais, com a publicação das imagens das estátuas da Vénus de Milo e da Vénus de Candia, ambas semidespidas.

Muitas outras representantes da oposição publicaram fotografias de saia, mas também alguns homens, entre eles, o vereador de Florença do PD, Andrea Ciulli, que publicou uma imagem sua criada com inteligência artificial (IA), em que aparece de saia, acompanhada da legenda: “O comprimento de uma saia não mede o valor de uma mulher, mede a sua liberdade.”

“Tajani, neste momento, é um meme, já não é um ministro”, afirmou o antigo primeiro-ministro e líder de Itália Viva, Matteo Renzi, subindo o tom. Sobre o ministro foram difundidos memes que o retratam com roupa feminina, partilhados também por meios de comunicação internacionais, entre os quais a CNN e a BBC.

Também a Confederazione Generale Italiana del Lavoro (CGIL) – o maior e mais antigo sindicato da Itália, com mais de cinco milhões de inscritos, incluindo trabalhadores ativos, jovens e reformados – reagiu com dureza. “Contrapor a mulher ‘aparente’ à mulher ‘séria’, ‘fiável’ e ‘boa mãe de família’, chegando a invocar até o comprimento da saia, repõe um modelo antigo de sociedade, em que continuam a ser os homens a determinar como devem ser as mulheres para serem consideradas respeitáveis”, afirmou o sindicato, vincando: “As instituições têm uma responsabilidade: remover os estereótipos e os obstáculos à plena participação das mulheres, não reproduzir uns e enfraquecer as garantias contra os outros. A começar por tornar efetivo o pleno direito ao trabalho, ultrapassando as disparidades salariais e profissionais existentes. A qualidade da democracia mede-se também pelo poder que as mulheres podem realmente exercer.”

Como dissemos, também a CEI, pela voz do seu secretário, monsenhor Giuseppe Batur, ao responder a uma pergunta sobre as palavras de Tajani e de Vannacci, afirmou: “Cada palavra, cada olhar sobre a mulher deve estar carregado de respeito e de admiração; para nós, cristãos, o primeiro lugar em que o Verbo Se fez carne foi o ventre de uma mulher e, para quem tem fé, isso marca, para sempre, o olhar sobre as mulheres. […] Com o olhar, entramos em relação com os outros, homens, mulheres, crianças e idosos, e é preciso respeito; para com as mulheres, o máximo, na medida em que podem ser alvo de olhares superficiais.”

A secretária-geral do PD, Elly Schlein, pediu, nos últimos dias, um comentário da primeira-ministra e líder partido Fratelli d’Italia (FdI), que acabou por minimizar as palavras de Tajani, pedindo que não se “exagere”, porque se tratou de uma “frase infeliz”. “Já respondi, não exageraria e não me parece que devamos fazer disto o tema de discussão da semana da moda”, disse Meloni, ao participar num evento, durante a Fashion Week de Milão.

Tajani foi, depois, defendido por outros membros do governo, entre eles o ministro da Defesa, Guido Crosetto, que escreveu na plataforma X: “Tajani não disse às mulheres como se devem vestir, contou, como pai, que tipo de companheira aconselharia ao filho, com base na sua educação e nos seus valores. Quem se sentir ofendida, num caso ou noutro, é naturalmente livre de o dizer. Mas o facto de uma opinião incomodar alguém não significa, necessariamente, que limite a sua liberdade. Já decidir silenciar outra pessoa significa não respeitar a sua liberdade”.

“Falam da liberdade das mulheres, mas porque não travar a batalha por aquelas que estão prisioneiras dos maridos e não podem participar na vida do país? Por motivos religiosos, aceitam que existam escravas, na Itália, até da poligamia. A seriedade exigiria que viessem connosco combater a burca”, afirmou Stefania Pucciarelli, do partido Lega (formalmente conhecido como Lega per Salvini Premier e historicamente como Lega Nord).

***

Andrea Giuli comentou as palavras de Tajani nos termos seguintes:

“As declarações de Antonio Tajani sobre as mulheres – especificamente, sobre ‘saias mais compridas’ e a ideia de que uma jovem menos chamativa é, de alguma forma, mais confiável – não são apenas uma brincadeira. Refletem uma visão da mulher que pertence a um passado que não queremos trazer de volta para o presente. Uma mulher não é mais séria, simplesmente, pela maneira como se veste. Não é mais confiável, por ser menos chamativa. Não tem mais valor, por se adequar a um padrão definido por outra pessoa.

“As mulheres devem ser livres para escolherem quem são, como se vestem, como amam, que trabalho realizam e que tipo de vida constroem.

“Como vereador e homem que exerce cargo público, acredito que não podemos dar um único passo atrás, nessa questão. A política deve servir para desconstruir estereótipos, não para reforçá-los. O comprimento da saia não mede o valor de uma mulher. A sua liberdade, sim.”

***

Antonio Tajani, que nasceu, em Roma, a 4 de agosto de 1953 é político, jornalista e ex-oficial da Força Aérea Italiana. Atualmente, assume as funções no governo como vice-primeiro-ministro da Itália e ministro das Relações Exteriores, desde 22 de outubro de 2022. Foi presidente do Parlamento Europeu (PE), de 2017 a 2019, comissário europeu, de 2008 a 2014, e também um dos vice-presidentes da Comissão Europeia. Foi eurodeputado, de 1994 a 2008 e de 2014 a 2022, até ser eleito para a Câmara dos Deputados da Itália. Foi jornalista, durante dez anos, enviado especial no Líbano, na União Soviética e na Somália, no início dos anos 1980. E, entre 1987 e 1993, foi diretor do diário “Il Giornale”, em Roma.

Tem, pois, vasta experiência, sobretudo, em política europeia, pelo que nada lhe justifica certa informalidade (ou leviandade) discursiva que possa ofender alguém, em cerimónia pública ou numa entrevista. Aliás, as suas palavras são ambíguas, segundo o que relatou Vannacci, no programa “Start”, da Sky Tg24, em resposta às declarações de Antonio Tajani.  

O que Tajani disse terá sido: “Se eu tivesse de dar um conselho ao meu filho quando ele me perguntasse com qual rapariga deveria casar, eu sempre escolheria a bonita, séria e confiável. Tu preferes essa ou a séria, que talvez use saias um pouco mais compridas do que a outra?” 

Em minha opinião, o texto, mais do que afirmar, insinua, o que é mais grave. É a insinuação, enquanto asserção envergonhada, que provoca, geralmente e com razão, as piores reações.

Após a controvérsia em torno da declaração, o governante lamentou que algumas das suas declarações tenham sido mal interpretadas, extraídas de uma discussão muito mais complexa. É a desculpa conveniente!  

Admito que tenha sido sincero quando recordou: “Nomeei, e queria nomear, duas mulheres como embaixadora no Irão e embaixadora no Afeganistão, precisamente, para enviar um sinal muito claro de que os direitos das mulheres não podem ser desrespeitados, em todo o Mundo. Este é apenas um exemplo das minhas ações em defesa dos direitos das mulheres. […] Poderia fazer muito mais. Não quero gerar controvérsia nem alimentá-la.”

Depois, reiterou: “Quero apenas dizer que certas declarações não devem ser exploradas, pois nunca houve qualquer intenção, da minha parte, de ofender as mulheres. Repito, a minha atividade política, o meu trabalho como ministro e a minha vida pessoal demonstram isso.” 

***

As declarações de Tajani em Formello, não são entendidas, isoladamente, nas redes sociais e na comunicação social. Com efeito, em passagem pelo Brasil, também contestou a italianidade de descendentes ítalo-brasileiros e repetiu críticas à cidadania iure sanguinis. E, por conseguinte, seja verdade ou não, o que ressalta é que a segunda figura do governo italiano disse, em Formello, que aconselharia o filho a preferir mulher “menos vistosa”, porém mais “confiável”, “séria” e capaz de ser “boa mãe de família”, em vez de mulher mais atraente que, segundo o exemplo que apresentou, poderia ter tido vários namorados ou ser mais propensa à infidelidade.

Antes da viagem para o Brasil, no atinente à italianidade, o próprio Tajani escreveu que cerca de 32 milhões de brasileiros têm origem italiana e descreveu tal contingente como “um património extraordinário” de vínculos familiares, culturais e afetivos. Em São Paulo, voltou a exaltar o papel dos italianos no exterior e dos descendentes como ponte com a Itália.

Porém, ao ser questionado, no Museu da Imigração, sobre a reforma de 2025, que restringiu a transmissão da cidadania italiana por descendência, descartou qualquer flexibilização e afirmou que a nova legislação serve para “defender a italianidade”. Por outro lado, em Miami, o governante italiano considerou que não seria “um bom sinal” obter o passaporte italiano, apenas para viajar ou para fazer compras naquela cidade norte-americana, questionou por que pessoas que se consideravam italianas não haviam buscado, antes, o reconhecimento e perguntou por que a “italianidade foi abandonada por gerações”.

***

Em relação à retratação sobre as declarações em Formello, é de observar que o histórico de declarações de Tajani, seguidas de controvérsia não começou em 2026.

Em março de 2019, quando presidia ao PE, afirmou, numa entrevista, que Benito Mussolini havia realizado também “coisas positivas”, citando obras de infraestrutura do período fascista. A declaração provocou forte reação no próprio PE. E, no dia seguinte, Tajani pediu desculpas e afirmou que não pretendia justificar ou minimizar “um regime antidemocrático e totalitário”, reiterando que se considerava antifascista.

Não significa que uma frase isolada defina toda a atuação de um vice-primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores. Mas há um elemento comum documentado: as declarações de Tajani têm provocado, em diferentes momentos, repercussões que o obrigaram a voltar a público para explicar, para contextualizar ou para pedir desculpas. E, para um chefe da diplomacia, talvez seja esse o pormenor mais irónico, já que a diplomacia costuma ser a arte de escolher as palavras, antes que elas precisem de ser recolhidas.

***

As palavras de Tajani não ficaram circunscritas à entrevista em Formello. Num vídeo, o político italiano disse que, se fosse aconselhar o seu filho entre ficar com uma mulher mais charmosa, que usasse roupas mais “chamativas”, ou com uma mulher mais séria, ele deveria escolher a segunda, pois a primeira não seria dedicada à família e teria tendência maior para trair. “A mais chamativa [referindo-se à mulher hipotética] pode ser boa, por um dia. […] Mas, se me perguntarem se eu prefiro ficar com ela ou com a mulher mais séria, que usa uma saia longa, eu aconselharia sempre escolher a mais confiável”, afirmou Tajani.

Foi a entrevista e o vídeo que desencadearam toda a reação.

***

Um cidadão (ã) deve respeitar a liberdade do(a) outro(a). E, em princípio, as pessoas devem usar indumentária adequada às circunstâncias locais, temporais, sociais, religiosas (se forem religiosas ou se participarem em ato religiosos. E o vestuário, exceto em farda militar ou de corporações específicas, não deve estar sujeito a métricas milimétricas, como acontecia, por exemplo, durante o Estado Novo português, a par de outros condicionamentos, como o casamento de militares, de enfermeiras ou de professoras, bem como a medida milimétrica para o traje nas praias.

Porém, Tajani não era capaz de habitar no Éden de Adão e de Eva!

2026.09-26 – Louro de Carvalho


sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Reforma energética da UE prevê cortes seletivos e reduções de consumo

 

A Comissão Europeia está a preparar significativa reforma no sistema de segurança energética, para centralizar e para coordenar as regras das tarifas da rede elétrica, a nível comunitário, bem como para estipular ajustes obrigatórios no consumo de eletricidade e de gás, em tempos de crise, podendo ocorrer, em situações específicas, cortes seletivos de eletricidade e reduções obrigatórias de consumo, em algumas regiões.

A proposta do executivo da União Europeia (UE) visa unificar as regras de segurança energética dos estados-membros. O El Economista vinca a intenção de fortalecer a resposta conjunta a problemas, como crises de abastecimento, sabotagens e ciberataques. E o regulamento unificará normas anteriores da segurança de abastecimento de gás e da preparação para riscos elétricos, abordando a falta de coordenação entre sistemas interligados. De facto, o gás é crucial na flexibilidade na produção de eletricidade, que é vital para infraestruturas de gás.

Uma ferramenta essencial será o “EU Alert”, um alerta regional ou europeu que Bruxelas poderá ativar, face a riscos substanciais, no setor elétrico, mesmo sem necessidade imediata de medidas extraordinárias. E, após consulta ao Grupo de Coordenação da Eletricidade, a Comissão poderá implementar reduções obrigatórias de consumo (que não serão uniformes para todos os países), definindo a proporção, as áreas afetadas e a duração.

Bruxelas usa períodos equivalentes dos cinco anos anteriores como base, ajustando-se a aumentos significativos na eletrificação ou a padrões de consumo atípicos, devendo os estados-membros reportar dados mensais ao Eurostat e justificar as suas medidas.

***

Entretanto, os governos dos estados-membros pretendem travar ou suavizar a proposta que daria a Bruxelas mais controlo sobre a rede elétrica do bloco, preferindo manter, nas suas mãos, a forma como as redes de eletricidade são financiadas e geridas.

Estão, pois, em curso, em Bruxelas, numa altura em que a eletricidade passa para o centro da estratégia económica europeia, decisões políticas sobre quem pagará a modernização da rede elétrica do bloco, uma etapa crucial para cumprir a meta de neutralidade climática da UE, em 2050. Efetivamente, a UE quer que famílias e empresas substituam os combustíveis fósseis por eletricidade, esperando que a indústria, os centros de dados, as bombas de calor e os veículos elétricos impulsionem a procura. Todavia, o custo de expandir e de operar as redes de energia reflete-se, cada vez mais, nas faturas de eletricidade.

Em conjunto, as tarifas e os impostos superam, muitas vezes, o preço da eletricidade consumida. Segundo dados da UE, os encargos de rede representam 27% das faturas de eletricidade das famílias e 21% das empresas, enquanto os impostos e taxas nacionais adicionam mais 24% às faturas domésticas e 16% às das empresas. Assim, as faturas de eletricidade em alta na Europa levaram a Comissão a propor, em julho, novas regras para reduzir os custos da energia numa crise crescente desencadeada pelo encerramento do estreito de Ormuz, e a gizar um plano de eletrificação que estabelece, para a UE, a meta de 46%, até 2040.

A presidência irlandesa – a presidência rotativa do Conselho da UE – mantém a ambição da Comissão de tornar a eletricidade mais barata e fácil de adotar e dá margem aos governos nacionais e aos reguladores para decidirem as regras de funcionamento, na prática.

Responsável por mediar as negociações entre a Comissão, o Conselho e o Parlamento Europeu (PE), a presidência irlandesa propõe ampla revisão das tarifas de rede, exigindo estruturas tarifárias que induzam os consumidores a reduzir a procura, nas horas de ponta, a deslocar consumos para outros períodos e a considerar a localização das novas ligações. Porém, as conversações preparatórias, de 23 de setembro, entre os embaixadores da UE, indicam que os governos resistem a transformar tais instrumentos em exigências uniformes para todos.

“As regras relativas à aplicação de uma metodologia de tarifa de referência para a eletricidade devem permitir que as autoridades reguladoras se afastem dessa metodologia de referência, em casos devidamente justificados”, reza um documento do Conselho.

A Polónia, a Itália, a Chéquia, o Luxemburgo, a Lituânia e a Letónia querem que os reguladores utilizem instrumentos, como eletricidade mais barata, fora das horas de ponta, ou incentivos para localizar novos projetos onde a rede tenha capacidade disponível, apenas quando for adequado ao sistema elétrico de cada país, em vez de impor tais regras a toda a UE. Por sua vez, a Espanha, os Países Baixos, a Suécia e Chipre levantaram reservas maiores, quanto à eficácia e às possíveis consequências sociais destes instrumentos e medidas.

Francesco Sassi, professor auxiliar na Universidade de Oslo, em declarações à Euronews, disse que o controlo centralizado por parte da Comissão poderia “contribuir para reduzir o isolamento da Península Ibérica ou [para] impulsionar mais investimentos em interligações de energia com baixas emissões de carbono, na Europa de Leste e no Sudeste europeu”. “Estes países mostram incómodo crescente em ceder poder a Bruxelas, numa segunda crise energética, sob a presidência de Ursula von der Leyen, e perante choques de mercado sucessivos que a Comissão Europeia parece incapaz de controlar”, vincou o professor.

Para a Comissão, regras comuns são uma forma de tornar mais transparente e eficiente o fragmentado mercado elétrico europeu. Contudo, os países da UE resistem a qualquer medida que os obrigue a redesenhar sistemas tarifários nacionais que refletem redes, estruturas industriais e perfis de consumo muito diferentes. O ponto de conflito mais claro é a disposição que permitiria à Comissão estabelecer uma estrutura comum e uma metodologia de referência para as tarifas de eletricidade, ao que a presidência irlandesa responde, frisando que tal serviria para “harmonizar a metodologia”, não as tarifas em si, e que os reguladores nacionais podiam afastar‑se da abordagem de referência, quando houvesse justificação. Porém, vários estados‑membros continuam insatisfeitos. Por exemplo, a França, a Alemanha, a Itália, a Polónia, a Finlândia, a Espanha e os Países Baixos querem que os poderes da Comissão sejam reduzidos ou eliminados, pois a preferência que está a emergir é por orientações, não por abordagem vinculativa.

A decisão dependerá de como são distribuídos os custos da transição energética da UE. “O grande tema que ninguém quer discutir, diretamente, preferindo debater a tecnoeconomia aplicada aos sistemas de rede, ao controlo da rede, às interligações e às tarifas, é que a natureza destas questões é intrinsecamente política e geopolítica”, observou Sassi.

A dimensão política torna‑se mais evidente, quando se trata de novas ligações à rede. A UE enfrenta filas cada vez maiores para acesso à rede, à medida que fábricas, projetos de energias renováveis, centros de dados e outros investimentos intensivos em eletricidade competem por uma capacidade limitada. As regras propostas permitirão que os países da UE estabeleçam prioridades, quando não houver espaço suficiente na rede. E o compromisso mais recente reforça o papel dos estados‑membros na definição da orientação política geral, deixando aos reguladores a liberdade de aplicar as regras.

Um grupo de países – que inclui a Alemanha, a França, a Espanha, Portugal, a Polónia, a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia, a Bélgica, a Lituânia e a Letónia – apoia, em termos gerais, dar aos governos um papel mais forte. Estes países defendem que decidir que projetos que recebem capacidade de rede escassa não é apenas exercício técnico, mas implica escolhas políticas na competitividade industrial, na segurança energética e nas prioridades sociais. E a Comissão pensa que definir critérios técnicos e tarifas de rede é uma tarefa regulatória.

A Dinamarca anunciou uma lei de emergência sobre a rede que atribui aos centros de dados a prioridade mais baixa para ligações à rede, depois de Copenhaga ter sido obrigada a travar novas ligações, no início do ano, devido à vaga de pedidos de centros de dados. E vários países da UE receiam que a rápida expansão dos centros de dados, cuja capacidade Bruxelas quer triplicar, até 2035, como parte do esforço para reduzir a dependência dos gigantes tecnológicos e para desenvolver capacidades próprias de inteligência artificial (IA), na Europa, sobrecarregue as redes elétricas e faça subir os preços da energia para os consumidores.

***

Para o diretor executivo da Agência Internacional da Energia (AIE), Fatih Birol, investir na eletrificação dos transportes e da indústria pesada é a estratégia energética adequada, se a UE quer preservar a sua soberania económica e reanimar setores industriais em dificuldades. “Podemos produzir eletricidade, a partir de renováveis, energia nuclear e talvez gás natural, e devemos eletrificar as nossas economias, tanto quanto possível, defende Birol, apelando a uma transição dos combustíveis fósseis para uma economia baseada na eletricidade.

Tais declarações surgiram, em fins de maio, quando a UE passou a enfrentar uma crise energética cada vez mais grave, agravada pelo conflito dos Estados Unidos da América (EUA) com o Irão e pelo encerramento do estreito de Ormuz, rota marítima crucial por onde transita cerca de 20% das exportações mundiais de petróleo e de gás. Tal perturbação fez disparar as faturas de energia das famílias e aumentou a pressão na indústria pesada, que já enfrentava altos preços da eletricidade e competitividade em queda. E os industriais avisam que a escalada dos custos de produção obrigará ao encerramento generalizado de unidades.

Em linha com as recomendações da AIE, os líderes da UE têm apoiado, cada vez mais, o investimento em veículos elétricos (VE), em bombas de calor e na substituição, na indústria pesada, dos altos-fornos alimentados a combustíveis fósseis por fornos de arco elétrico. O objetivo é reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, que ainda representam quase 60% das importações de energia do bloco. Não obstante, a aguardada estratégia de eletrificação da Comissão Europeia, que deverá incluir metas para os estados-membros e para a indústria, já foi adiada, por duas vezes, e deveria ser publicada a 22 de julho.

Os críticos afirmam que a transição energética da UE avança mais depressa do que a infraestrutura e os consumidores conseguem acompanhar. Entre as preocupações, contam-se uma rede insuficiente de postos de carregamento para veículos elétricos, o armazenamento, os custos elevados da eletricidade e a congestão das redes elétricas.

Além dos desafios técnicos, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, advertiu que os elevados custos da energia estão a agravar a pressão nas famílias e nas empresas, apelando a Bruxelas para flexibilizar as regras orçamentais de modo a ajudar a baixar os preços.

A França, cujo sistema energético assente na energia nuclear ajudou a protegê-la dos picos de preços, apresentou um roteiro de 22 pontos, para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados de quase 60% do consumo de energia para 30%, até 2035. E o presidente francês, Emmanuel Macron, apelou ao esforço nacional para acelerar a eletrificação e para reforçar o poder de compra, a competitividade e a soberania energética da França.

O construtor automóvel Stellantis tenciona investir mais de mil milhões de euros na fábrica de Mulhouse, para produzir veículos elétricos de nova geração, a partir de 2029. E o governo francês vai instalar mais 240 mil pontos de carregamento e lançar um programa de aluguer de bombas de calor, com subsídio para famílias de baixos rendimentos, que substituam sistemas de aquecimento a gasóleo e gás (os preços da eletricidade na Alemanha são quase o dobro dos praticados na França). “A França pode orgulhar-se de ser uma grande potência elétrica, no atual contexto geopolítico. […] É também por isso que as subidas dos preços da eletricidade têm sido mais limitadas em França do que noutros países”, afirmou o presidente francês.

Apesar dos obstáculos, recente relatório global de investimentos da AIE conclui que a despesa ligada à eletricidade já representa quase 60% do investimento energético mundial, tendência que se aproxima das ambições industriais e regulamentares europeias, e a “era da eletricidade” está a tornar-se um projeto europeu, mesmo com a China a continuar a ser o principal investidor mundial em eletrificação. “Os investimentos em renováveis, [em] energia nuclear, eletrificação e [em] eficiência, na última década, melhoraram, em concreto, a segurança energética, nas principais regiões importadoras de combustíveis, e reduziram as emissões”, sublinha o relatório, que destaca a UE, a par da China, do Japão e da Coreia do Sul.

De acordo com a AIE, na Europa, as vendas de veículos elétricos aumentaram 30% e as de bombas de calor subiram 17%, no primeiro trimestre de 2026, apesar dos cortes nas subvenções, em alguns países. Na Alemanha, as bombas de calor tornaram-se uma das tecnologias de aquecimento mais vendidas, segundo a agência de energia nacional (DENA). Quase metade dos novos sistemas de aquecimento vendidos, em 2025, eram bombas de calor. E 2025 foi o primeiro ano em que as suas vendas ultrapassaram as das caldeiras a gás.

Por fim, o relatório assinala o aumento do investimento europeu em redes elétricas e de armazenamento, focando um problema que Bruxelas vem subestimando: aumentar a produção de eletricidade, sem modernizar as redes de transporte cria novas vulnerabilidades.

***

As alterações climáticas e a dependência energética crescente evidenciaram a determinação da UE em se tornar o primeiro continente do Mundo com impacto neutro no clima e em garantir a segurança, a competitividade, a produção local e a sustentabilidade da energia consumida. Por isso, o Pacto Ecológico Europeu (PEE) visa garantir que as políticas da UE nos domínios do clima, da energia, dos transportes e das medidas sejam adequadas para permitir uma redução das emissões líquidas de gases com efeito de estufa (GEE) de, pelo menos, 55 %, até 2030, em comparação com os níveis de 1990, com o objetivo de alcançar a neutralidade climática, até 2050, como obrigação vinculativa, conforme a Lei Europeia do Clima. Os objetivos energéticos são decisivos: produzir energia mais limpa graças, à investigação e à inovação tecnológica, e investir em edifícios renovados e energeticamente eficientes.

Tais objetivos baseiam-se na estratégia para a União da Energia, que, a par do Regulamento (UE) 2018/1999 relativo à governação da União da Energia, define as dimensões da política energética da UE: diversificar as fontes de energia da UE – combustíveis fósseis, energia nuclear e renováveis ​​(solar, eólica, biomassa, geotérmica, hidroelétrica e maremotriz) –, para garantir a segurança energética; realizar o mercado interno de energia totalmente integrado e eficiente, sem entraves técnicos ou regulamentares; melhorar a eficiência energética e a interconexão das redes energéticas e reduzir as emissões; transitar para a economia hipocarbónica, em consonância com os compromissos do Acordo de Paris; promover a investigação nas tecnologias hipocarbónicas e na energia limpa; e dar prioridade à investigação e à inovação, para transferir a transição energética e a cooperação para a competitividade.

O artigo 194.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE) introduz a base jurídica específica no domínio da energia, com base em competências partilhadas entre a UE e os estados-membros, conduzindo-os a uma política energética comum.

***

A UE tem de atualizar a sua legislação, em conformidade com as necessidades, mas tem de ser mais ágil e de dar mais voz aos estados-membros e aos cidadãos.

2026.09.25 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Aquecimento global condiciona a vindima e a vinificação

 

Já Pedro Garcias, jornalista, enólogo e vitivinicultor, na sua rubrica “Elogio do vinho”, publicada, habitualmente, no caderno semanal de sábado “Fugas” do jornal Público, alertara para a necessidade de antecipar a vindima, pelo menos, de algumas vinhas ou de algumas castas, na região do Douro, mercê da intensidade do calor.

Agora, a 24 de setembro, num pequeno texto sob o título “Vindimas noturnas são resposta de herdade alentejana aos fenómenos de calor extremo”, publicado pela Euronews, Diana Rosa Rodrigues, com a AFP (Agence France-Presse), sustenta que “as ondas de calor, cada vez mais frequentes, estão a mudar a forma como os viticultores trabalham”. Assim, no Alentejo, numa das regiões mais quentes de Portugal, a Herdade das Servas implementou o regime de vindima noturna, a fim de melhorar as condições de trabalho.

Na noite cerrada, as uvas são iluminadas pela luz dos capacetes e dos tratores que se atravessam no terreno. Uma componente das dezenas de pessoas que trabalham na apanha de uva confirmou à AFP que a mudança não atrapalhou o processo e que, graças à luz que traz consigo, até “vê melhor as uvas do que à luz do dia”, pois, no seu modo de ver, “o corpo habitua-se a fazer do dia noite e da noite dia.

Naquela herdade, a apanha das uvas, durante a noite, começou em 2024, como teste, tendo sido implementada como prática oficial, desde 2025, em resposta ao calor intenso e aos eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes.  “Esta colheita noturna surgiu da necessidade de proporcionar melhores condições de trabalho às equipas, para trabalharem, porque o Alentejo tem um clima muito duro, no verão, explicou à AFP Renato Neves, viticultor e enólogo, para quem a vindima noturna não é opção, mas realidade inevitável para os viticultores da região.

Renato Neves considera que, “no futuro, vai ser inevitável”. Cada vez mais empresas adotarão esta prática, até porque será muito difícil as pessoas continuarem a vindimar a partir das 11h00 ou do meio-dia, sob temperaturas de 40º C (40 graus Celsius), 41º C ou 42º C.

O Alentejo é uma das regiões mais quentes e secas de Portugal continental, atingindo, facilmente, temperaturas máximas entre os 35º C e os 38º C, no verão, e picos superiores em vagas de calor, episódios cada vez mais comuns atribuídos às alterações climáticas.

***

Também na Herdade da Fonte Santa, em Vimieiro, no concelho de Arraiolos, no distrito de Évora, os trabalhadores começaram, em 2025, a sua atividade vindimeira, à meia-noite, nos 20 hectares de vinhas, inteiramente cultivadas de forma biológica. Trabalhavam durante sete horas, em condições mais frescas e agradáveis, à luz lua e das estrelas, para evitarem o calor do dia. Além disso, o ar fresco noturno traz o aroma da fruta madura, enquanto os trabalhadores selecionam cada cacho, rindo em contraponto ao silêncio do amassar das folhas.

O murmúrio suave das conversas e o brilho suave dos faróis na vinha, a complementar a luz estelar e lunar, realçam a adaptabilidade e a resiliência dos cuidadores das videiras. Por volta das 3h00 da manhã, fazem a pequena pausa, para descansarem e para saborearem uma refeição leve, mas refrescante, a “bucha”.

O encarregado da herdade diz preferir colher à noite, por ser menos quente, embora haja algumas noites mais quentes, logo no início de agosto.

A colheita noturna é uma prática cuidadosa e tradicional na viticultura, já enraizada no desejo de preservar a frescura inata e os aromas cativantes das uvas. Ao contrário do método mais comum de colheita durante o dia, a apanha noturna envolve a recolha das uvas, à luz da lua, uma decisão que transforma não só o fruto, mas também os próprios vinhos resultantes. Na sua essência, a colheita noturna é uma escolha deliberada dos produtores de vinho, para protegerem as qualidades delicadas das suas vindimas e para facilitarem o trabalho.

Porém, objetivo principal é proteger as uvas dos efeitos adversos do calor diurno, da luz solar e da oxidação, que podem envelhecer, prematuramente, a fruta e diminuir a sua complexidade aromática. Ao colher à noite, os viticultores podem preservar os sabores vibrantes e o bouquet fresco que são as marcas distintivas de um vinho excecional.

“Como vindimamos à noite, as uvas permanecem sempre frescas, não há necessidade de refrigeração, dentro da adega ou nos tanques, nem durante o processo de pré-vindima para arrefecer as uvas. E o risco de oxidação também é menor”, explicou Barbara Monteiro, coproprietária e gerente da Herdade da Fonte Santa, para quem as uvas são, por natureza, incrivelmente sensíveis às flutuações de temperatura.

Durante o dia, especialmente, em climas mais quentes, como no Alentejo, onde a quinta está localizada, o sol pode aquecer as vinhas a temperaturas bem acima dos 40°C. Ora, este calor intenso acelera os processos metabólicos nas bagas de uva, aumentando a velocidade a que perdem acidez e compostos aromáticos voláteis. Além disso, o calor pode promover o início precoce da fermentação, visto que as leveduras selvagens e as bactérias se tornam mais ativas, arriscando sabores indesejados e deterioração.

À noite, as temperaturas descem, normalmente, por vezes, até 20° C ou mais. Este ambiente fresco retarda o metabolismo das uvas, permitindo-lhes reter a sua acidez natural, fator essencial para a frescura e para o equilíbrio do produto final. E a preservação dos compostos aromáticos é, igualmente, crucial, pois são as moléculas delicadas responsáveis pelas notas florais, frutadas e herbáceas que distinguem os grandes vinhos dos comuns.

Além dos benefícios imediatos na qualidade das uvas, a colheita noturna aborda desafios mais amplos enfrentados pelos produtores de vinho atualmente, particularmente, os causados pelas alterações climáticas, que surgiram, nas últimas décadas, como um enorme desafio para a agricultura, em todo o Mundo, não sendo exceção a arte de produzir vinho.

O aumento das temperaturas, os padrões climáticos imprevisíveis e as mudanças nas estações alteraram a própria natureza da viticultura. Face a estas mudanças, os produtores de vinho estão cada vez mais a recorrer a práticas inovadoras, para preservarem a qualidade e a sustentabilidade das uvas. E uma dessas práticas, a colheita noturna, tornou-se uma ferramenta poderosa na adaptação às realidades de um Mundo em aquecimento.

Segundo Bárbara Monteiro, as alterações climáticas influenciaram muito a colheita e o processo. Assim, em todos os anos, os viticultores adaptam processos, como a poda. Ou seja, fazem-na mais tarde, para tentarem atrasar o início da colheita, mas estão a colher mais cedo, a cada ano, pois “as alterações climáticas, claramente, têm um impacto significativo”.

Temperaturas mais quentes podem acelerar o amadurecimento, fazendo com que as uvas atinjam a maturidade açucarada, antes da maturidade fenólica e aromática, resultando em vinhos com maior teor alcoólico, mas com menor complexidade. Além disso, o calor extremo, a seca e os eventos climáticos imprevisíveis ameaçam tanto o rendimento como a qualidade.

À medida que a indústria vinícola lida com as suas responsabilidades ambientais, a colheita noturna surgiu como prática sustentável, porque há menores emissões de carbono, menor necessidade de intervenção química e conservação da água.

Além disso, o stresse na videira, causado por temperaturas muito altas para a maturação correta e pode queimar os cachos; a chuva fora de tempo faz apodrecer as uvas; e o granizo rasga ou perfura as bagas e destrói a folhagem, abrindo caminho a doenças   

***

As alterações climáticas também são culpadas pela pior vindima dos últimos 65 anos. Em fins de abril de 2024, um relatório concluía que a produção global de vinho atingiu um mínimo histórico, em 2023, podendo as alterações climáticas ser as culpadas.

A Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV), organização intergovernamental com 50 estados-membros, representando 75% da área de vinha do Mundo, diz que a bebida atingiu o nível mais baixo, desde 1962. E os especialistas culpam as “condições ambientais extremas”, como secas e incêndios, que induzem a tendência de queda da produção.

Embora as alterações climáticas não sejam inteiramente culpadas, no dizer a OIV, estas condições são o maior desafio que a indústria enfrenta. As videiras são, frequentemente, cultivadas em áreas fortemente afetadas e incrivelmente vulneráveis às mudanças no clima. E estas condições conduziram a um declínio acentuado, com impacto nas principais regiões produtoras de vinho nos dois hemisférios: Norte e Sul.

Na União Europeia (UE), a produção de vinho diminuiu 10%, em 2023, o segundo menor volume de vinho registado desde o início do século. Alguns países viram a primavera chuvosa causar odor, inundações, danos e perdas nas vinhas. Outros, especialmente, os do Sul da Europa, sofreram a seca severa. E os especialistas alertam que secas regulares podem tornar-se o novo normal em todo o Mediterrâneo, em meados do século, se não agirmos, imediatamente, nas alterações climáticas.

Além disso, aqueda na produção vem a par da queda do consumo de vinho no seu nível mais baixo, desde 1996, devido aos aumentos de preços decorrentes da inflação e à quebra acentuada no consumo de vinho, na China, devido ao abrandamento económico.

***

Ao mesmo tempo, as alterações climáticas estão a redesenhar o mapa global do vinho.

Bordéus poderá, em breve, ter concorrência para o título de região vinícola mais famosa do Mundo. Com efeito, à medida que as alterações climáticas afetam a pluviosidade e as temperaturas sobem, os especialistas preveem que regiões tão a norte, como Yorkshire, no Reino Unido, pode, tornar-se os principais produtores de vinho, até ao final do século.

De acordo com um relatório do Monitor do Mercado de Vinhos Finos e Restaurantes, Hull poderá ser conhecida pelo seu cabernet sauvignon, já em 2100, à medida que as alterações climáticas afetam Bordéus e transformam o Norte de Inglaterra em ponto de acesso à produção.

Na última década, surgiram colheitas de renome em locais tidos como improváveis. Os vinhos espumantes ingleses estão a ganhar reconhecimento mundial, enquanto os brancos suecos têm feito incursões surpreendentes na cena internacional. E zonas do Norte, como a Dinamarca, prosperarão com estações de crescimento mais longas e condições mais amenas.

Esta mudança também está a acontecer muito para lá da Europa. “Penso que vamos começar a ver mais vinho a sair de locais como a China, à medida que os produtores de vinho utilizam a amplitude das regiões onde o podem produzir, de Ningxia a Yunnan”, afirma Ottara Pyne, uma sommelier birmanesa-americana e a gestora do portfólio da Wine Garage, empresa de importação e distribuição sediada em Banguecoque, na Tailândia, que trabalha com adegas familiares e artesanais, em todo o Mundo.

Também nos Estados Unidos da América (EUA), há mais vinho sério a ser produzido em locais, como a Virgínia, Maryland e até no extremo de Long Island.

Enquanto surgem novas áreas, as capitais do vinho de longa data enfrentam desafios existenciais.

O relatório alerta para o facto de Bordéus poder em breve deixar de produzir, de forma fiável, os seus vinhos de assinatura, uma vez que a seca, o calor e os períodos de maturação mais curtos tornam o cultivo mais volátil. A famosa região francesa de Chablis registou perdas de até 60% em 2023, com geadas tardias, granizo e míldio a dizimarem as colheitas.

Agora, alguns produtores estão a vindimar mais cedo, a replantar com variedades mais resistentes ou a explorar novas técnicas. Outros apelam à reforma das regras de denominação, o que lhes daria mais flexibilidade, quanto às uvas que podem cultivar sob rótulos protegidos. E, mesmo em zonas tradicionalmente resistentes do Sul da Europa, os viticultores questionam a viabilidade, a longo prazo, das suas vinhas familiares.

Tal como a famosa mostarda Dijon, da Borgonha, e o queijo Gouda, dos Países Baixos enfrentam a extinção, devido às alterações climáticas, os vinhos emblemáticos poderão, em breve, estar em risco. Todavia, Pyne afirma que os efeitos das alterações climáticas não são tão simples como a deslocação das regiões vinícolas para norte ou para sul, ou o desaparecimento total de grandes vinhos de regiões famosas. “A Borgonha e o Vale de Napa estarão sempre presentes. Tentarão produzir grandes vinhos, aconteça o que acontecer”, diz, mas admitindo que podem não ser os habituais cabernet ou pinot noir.

***

Já em 2020, as vindimas começaram a 5 de agosto, na França, algo nunca visto para um viticultor do vale de Agly, nos Pirenéus Orientais, o local de França onde a colheita das uvas é mais precoce. “Para as uvas pequenas Muscat, é muito cedo. Com certeza, é por causa do aquecimento global. Já nos outros anos, começámos por volta do dia 15 de agosto. Fizemos um ou dois dias antes do dia 15 e, depois, recomeçávamos a vindima”, relatava o viticultor Jean-Marie Dereu.

O Ministério da Transição Ecológica de França confirmava que, em média, as vindimas estavam a acontecer 18 dias antes, comparativamente com há 40 anos. Alguns produtores estavam a pensar em mudar as variedades das videiras, para que se adaptarem às alterações climáticas.

Em 2025, os viticultores franceses foram obrigados a antecipar a vindima, porque as temperaturas elevadas fizeram com que as uvas amadurecessem mais cedo do que na época tradicional da vindima, entre setembro e outubro. Na verdade, os vindimadores do Château Carbonnieu descobriram que as temperaturas próximas dos 40º C causaram tensão nos cachos de uvas para vinho branco. Sob condições de calor e de falta de água, os bagos amadureceram antes do previsto. Como resultado, os brancos do Château Carbonnieu têm assinatura muito mais mediterrânica do que atlântica. O impacto do calor faz com que as uvas tenham um teor de açúcar mais elevado (menor acidez e menor frescura), o que, pelo processo de fermentação, se traduz em vinhos com maior teor alcoólico. E as uvas utilizadas na produção de vinho branco, em particular, enfrentam um problema, porque as regras rigorosas da França, para os vinhos com denominação de origem protegida (DOC), estipulam o teor de açúcar permitido.

O enólogo Andrea Perrin é responsável pelo cumprimento destas novas exigências. O principal problema reside neste excesso de açúcar, que está a conduzir a colheita desta área de 45 hectares a níveis de álcool de cerca de 14%. E, além de entrarem em conflito com os regulamentos da DOC, os vinhos brancos com teor alcoólico tão elevado não são, geralmente, populares, entre os consumidores.

Porém, como não é área muito extensa, o enólogo contou com a colheita mais tardia nos “terroirs” preferidos para os vinhos brancos, sobretudo, os solos argilosos que preservam a água e a acidez. Tais uvas compensariam os elevados níveis de açúcar da primeira colheita, atingindo níveis de álcool de cerca de 12% ou talvez 13% no cuveé (mistura de diferentes uvas) final.

***

Enfim, também o vinho, que alegra o coração do homem e à mulher não desagrada, sofre com as alterações climáticas.

2026.09.24 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Guterres despede-se da ONU, palco apetecível e odioso para Trump

 

António Guterres, o primeiro português na pele de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos da América (EUA), o país económica e militarmente mais poderoso do Mundo, têm discursos opostos.

No seu último discurso à Assembleia Geral, em Nova Iorque, Guterres apelou a que, antes que seja tarde, os governantes mudem de rumo, face à ameaça climática (que Trump qualificou de “farsa”), a um caminho divergente para a inteligência artificial (IA) e às fissuras do Mundo, sobretudo, entre Estados que se estão a alargar.

Em tom belicista que confirma as inquietações do secretário-geral em fim de mandato, Trump declarou, ante a Assembleia Geral da ONU, ter uma decisão a tomar, em relação ao Irão: fechar um acordo com o regime de Teerão ou “aniquilar a República Islâmica”. Considerando-o “o rufia do Médio Oriente”, reiterou a possibilidade de levar o país “ao inferno, sem qualquer hipótese de sobrevivência”.

No púlpito daquele areópago mundial, em que os dirigentes mundiais proferem discursos de apelo à paz global, o inquilino da Casa Branca foi o segundo a usar da palavra. Contrariou qualquer mensagem pacifista. Celebrou a sua operação militar na Venezuela do início do ano, pela qual, segundo o orador, os EUA alargaram o acesso e o controlo sobre as vastas reservas de petróleo daquele país sul-americano.

Quase no fim de um mandato de guerras na Ucrânia, em Gaza, no Irão e noutros países, bem como por catástrofes naturais de grande escala, António Guterres defendeu que os acontecimentos deste ano, em particular, mostram que até as nações mais poderosas têm limites e que a construção de um futuro melhor “começa com o reconhecimento, especialmente, por parte das superpotências, de que o seu poder não é assim tão super”.

Trump discorda. Em declarações escritas, quando ainda não conhecia o discurso do secretário-geral, afirmou que os alertas sobre os perigos da IA para a Humanidade, surgidos de inúmeros programadores e especialistas de topo daquela área, provêm do “mesmo grupo de pessoas” que, alegadamente, estarão a promover a “farsa da Rússia”, numa alusão às suas ligações com Moscovo. E, frisando que a IA deveria chamar-se “superinteligência” (SI), numa demonstração do seu poder, garantiu que Washington rejeitará “qualquer tentativa de construir um esquema globalista para controlar” a IA.

Guterres, porém, falando de “outro caminho”, sustenta que “um Mundo interligado reconhece que nenhuma potência pode resolver os desafios atuais, sozinha”, e que a criação da ONU, após a II Guerra Mundial, foi ato de esperança e de desafio contra a História de guerras da Humanidade, de “países que sabem que os nossos futuros estão interligados”.

António Guterres, nos mandatos do líder norte-americano, teve de gerir a relação com pinças, devido à dependência da ONU dos fundos americanos. Não obstante, contra a posição trumpiana, defende que, apesar das suas fragilidades, a ONU é o único lugar onde quase todos os países têm assento. E, num Mundo mais fragmentado, isto pode tornar-se ainda mais importante. Ao invés, Trump vê a organização a perder relevância, retirou-se de agências suas e cortou o financiamento aos programas humanitários que esta gere.

Na verdade, os tempos não favorecem altos representantes como Guterres, pelo que a ONU terá de fazer menos com menos e contar cada cent ou penny.

Trump assumiu a responsabilidade pela crise orçamental da ONU, afirmando ter cortado o orçamento em cerca de 15%. Por isso, a organização teve de despedir quatro mil funcionários. Na mesma linha, apelou à demissão imediata de todos os membros do Tribunal Penal Internacional (TPI), considerando-o “instituição desonesta”. Aliás, o seu governo impôs sanções à sua presidente, a japonesa Tomoko Akane, ao procurador-chefe e a nove dos seus juízes, neste ano. Todavia, é um poderoso símbolo da ordem internacional baseada em regras, ordem que investigadores e politólogos acusam a administração Trump de minar.

Guterres, ao assumir que nunca renunciaria aos ideais da ONU, foi aclamado com longa salva de palmas. E Trump recebeu o mesmo tipo de aplauso, ao referir a preocupação da primeira-dama, Melania Trump, com as crianças ucranianas, e ao frisar que o Irão não pode ser capaz de desenvolver uma arma nuclear.

Guterres, que não é o presidente do Mundo, mostrou a sua limitação no cargo e a sua preocupação com o poder sobre a guerra e a paz, o poder que concentra a riqueza e impulsiona a desigualdade, o poder que alimenta o caos climático e a guerra contra a Natureza, e o poder desencadeado pela IA. Sobre guerra e paz, renovou o apelo a que os líderes mundiais adiram, na prática, à Carta da ONU, a defender o direito internacional, o multilateralismo e o respeito pelos direitos humanos. Os analistas acusam Trump de atacar os princípios do direito internacional, nomeadamente, em Cuba, pressionando-a a liberalizar a sua economia e a abri-la às empresas dos EUA, a comprar petróleo a Washington e a expulsar agentes dos serviços de informação russos e chineses. E as autoridades cubanas retiraram-se, após a declaração trumpiana de que Cuba é “um Estado absolutamente falhado” cujo governo “cairá”.

A investigadora Minh-Thu Pham, do Programa de Ordem e Instituições Globais do Carnegie Endowment for International Peace, lembra que “tendemos a pensar que o período que vivemos é pior do que o passado”, mas a Guerra Fria durou na maior parte da existência da ONU, e “talvez o período com menos atritos entre as grandes potências tenha sido a década de 1990, com outros momentos isolados”. Ora, “a razão da existência da ONU reside, precisamente, na frequência destas tensões”, vincou.

Secretários-gerais do passado enfrentaram intensa pressão. U Thant envolveu-se na Crise dos Mísseis de Cuba; e Kofi Annan sofreu a enorme pressão de Washington, com membros do Congresso a pedirem a sua demissão, mas continuou a usar a autoridade do cargo e a envolver-se em situações difíceis.

Hoje, o interesse dos EUA na ONU não é claro como dantes. As posições dos EUA são menos consistentes. Outros países estão mais dispostos a contactar, diretamente, o secretário-geral, para influenciarem as suas ações, e o mapa do poder económico e militar é diferente.

O facto de Trump fazer reuniões bilaterais à margem deste evento multilateral não indica que esteja empenhado em manter o multilateralismo. No entanto, em Nova Iorque concentram-se dezenas de líderes mundiais. O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, condenou Israel, a que atribui “mentalidade genocida”. Enquanto discursava, os delegados israelitas abandonaram o plenário. E, mais tarde, o xeque Tamim bin Hamad Al Thani, emir do Catar, classificou a situação em Gaza como “genocídio em todos os sentidos da palavra”.

Trump olha para a Assembleia-Geral da ONU como mais um local de reunião. Na semana do seu discurso, seguiram-se conversas bilaterais com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, com os primeiros-ministros britânico, Andy Burnham, a japonesa, Sanae Takaichi, o iraquiano, Ali al-Zaidi, a dinamarquesa, Mette Frederiksen, e o gronelandês, Jens-Frederik Nielsen. E teve o primeiro encontro com Delcy Rodríguez, presidente da Venezuela.

Com o líder ucraniano conversou num momento em que ambos procuram propostas de alívio das hostilidades, em especial, um cessar-fogo energético entre Kiev e Moscovo, com Trump a dizer acreditar que a subida dos preços dos combustíveis se deve aos ataques ucranianos a refinarias e a terminais petrolíferos na Rússia. A Burnham, em reunião à margem da Assembleia Geral, disse acreditar que será alcançado um acordo com o Irão, tendo havido conversações, a 22 de setembro, entre o seu governo e o iraniano. E os dois líderes abordaram as migrações, o conflito com o Irão, a guerra na Ucrânia e outros temas.

Trump assinou um acordo de segurança sobre o futuro da Gronelândia, após meses de ameaças de comprar a ilha ou de a tomar militarmente. O acordo prolonga e modifica o tratado de 1951, mas mantém a soberania na Dinamarca. Os EUA planeiam construir duas bases militares na Gronelândia, o que poderiam ter feito, a qualquer momento, nos termos de um tratado de há mais de sete décadas.

O encontro que mais importa a Trump é com Xi Jinping, a 24 de setembro, em Washington, à margem da ONU. O líder chinês recebeu-o, há meses, em Pequim, com pompa e circunstância.

***

Donald Trump, no seu discurso à Assembleia Geral da ONU, primeiro, ameaçou “aniquilar” o Irão, mas afirmou, depois, que responsáveis dos EUA e iranianos se tinham encontrado, horas mais tarde, à margem da sessão, no que é o primeiro contacto direto confirmado entre as duas partes, desde o início da guerra, em fevereiro. Depois de enaltecer a sua própria firmeza, em comparação com outros líderes, defendendo a decisão de iniciar uma guerra com o Irão, sugeriu que poderá ter pela frente “uma grande decisão” na guerra em curso com o Irão, ao apelar a Teerão que reabra, totalmente, o estreito de Ormuz e regresse à mesa das negociações para encontrar uma solução. “Ou devo aniquilar a República Islâmica, fazê-lo rapidamente, sem lhe dar oportunidade de voltar a matar e a destruir pessoas e países?”, questionou, voltando a descartar a ideia de que o Irão tenha demonstrado qualquer resiliência.

“O regime terrorista está a comportar-se mal, não porque seja forte e confiante, mas porque é fraco e está desesperado”, afirmou o presidente dos EUA, acusando Teerão de estar a ganhar tempo para fechar um acordo que permita reabrir, totalmente, Ormuz e para negociar um desfecho para a guerra, apenas depois das eleições intercalares norte-americanas, e garantindo que essa estratégia não vai alterar a sua abordagem ao conflito.

Apesar do tom inflamado do discurso e da defesa firme da guerra, o inquilino da Casa Branca revelou aos jornalistas a realização do encontro entre as duas partes, mas deu poucos detalhes. “Foi uma reunião muito boa”, afirmou.

Está, ainda, prevista uma reunião com líderes e altos responsáveis de países do Conselho de Cooperação do Golfo, como o Bahrain, o Kuwait, Omã, o Catar, os Emirados Árabes Unidos (EAU) e a Arábia Saudita, para discutirem a guerra com o Irão e a crescente preocupação com os ataques dos Houthis, apoiados por Teerão, contra a Arábia Saudita.

Donald Trump, que planeia ainda participar num evento sobre o Escudo das Américas, uma iniciativa lançada, neste ano, com países latino-americanos, centrada no combate aos cartéis violentos, garantiu que a nova guerra contra o Irão era necessária, para enfrentar a ameaça nuclear colocada por Teerão, e defendeu que o Mundo está melhor sob a sua liderança. “Enquanto presidente da nação mais extraordinária da História, não tenho interesse em deixar perigos a crescer por mais um dia”, observou.

A guerra tornou-se mais complexa, embora os ataques dos EUA e de Israel hajam liquidado grande parte da cúpula iraniana e destruído a força aérea e a marinha do país, enquanto o bloqueio norte-americano ao petróleo iraniano deixou Teerão em colapso económico. Está nervoso com a guerra o mercado energético, e os preços do petróleo voltaram a subir, depois de a Arábia Saudita ter encerrado um oleoduto crucial que era uma válvula de escape para o crude bloqueado no Golfo – decisão tomada após o ataque o oleoduto por militantes apoiados pelo Irão, no Iraque, em cena de troca de tiros com os rebeldes Houthis do Iémen.

Ao mesmo tempo, os avanços territoriais dos Houthis e o controlo do estreito de Bab el-Mandeb tornaram arriscada a passagem de petroleiros por essa rota marítima no mar Vermelho. No entanto, Donald Trump insistiu que a subida dos preços do petróleo é transitória e que desaparecerá quando a guerra terminar. “Os preços do petróleo vão cair em queda livre, ainda mais do que estavam no início do conflito”, garantiu.

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou, no dia 22, que o presidente Donaldo Trump está disponível para se reunir com o presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, enquanto este se encontra em Nova Iorque para a Assembleia Geral. “Este é um presidente que, na maioria dos casos, está disposto a reunir-se com qualquer pessoa, porque considera que o diálogo é importante, se quisermos resolver problemas […] Não significa que se vá acabar por concordar com essas pessoas, mas é importante”, disse Rubio à NBC.

***

Relatos contraditórios surgiram de Teerão, no dia 22, sobre se o Irão terá oferecido, em privado, reabrir o estreito de Ormuz, no prazo de sete dias, depois de responsáveis iranianos não identificados terem dito à Reuters e à agência japonesa Kyodo que a proposta foi transmitida a Washington através de mediadores – versão que meios de comunicação iranianos próximos do Estado desmentiram. Segundo a Kyodo, a proposta visa pôr termo, de forma permanente, à guerra entre os dois países, pelo que o Irão receberia, com agrado, a retoma da diplomacia com os EUA, se Washington der passos em direção à paz. Contudo, a agência semioficial Fars negou as informações, pouco depois, classificando-as de pouco fiáveis e imprecisas.

Não é a primeira vez que Teerão transmite sinais contraditórios sobre um eventual acordo. Em junho de 2025, o presidente norte-americano anunciou um cessar-fogo entre o Irão e Israel, na sua plataforma Truth Social, antes de o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, ter negado, publicamente, a existência de qualquer acordo. E, em junho deste ano, Trump afirmou que as condições para pôr fim à guerra tinham sido “aprovadas por escrito”, antes de os média estatais iranianos publicarem o que descreveu como condições fabricadas, em comunicados concorrentes que dificultam o progresso diplomático.

Entretanto, Marco Rubio, no mesmo dia, afirmou aos media dos EUA, que Washington está disponível para um encontro com o Irão na Assembleia Geral da ONU.

Por seu turno, ao partir para Nova Iorque, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, prometeu “defender, firmemente”, as posições do país. “Saímos com a cabeça erguida e isso é uma fonte de dignidade e orgulho para todos nós. Por isso, defenderemos, com firmeza, as nossas posições nas instâncias internacionais”, declarou.

“Vamos aproveitar esta oportunidade, da melhor forma possível, para expor a situação do Irão à comunidade internacional. Diremos, com firmeza, aos nossos adversários que, apesar de todas as desigualdades e injustiças, o povo iraniano se manteve firme”, afirmou.

***

Como nota de curiosidade, é de referir que o presidente francês, Emmanuel Macron, no dia 21, à noite, atravessou Manhattan a pé, a fim de se encontrar com o presidente dos EUA, na Trump Tower, antes da Assembleia Geral da ONU, para discutirem vários dossiês, incluindo a situação na Ucrânia. Acompanhado pelo ministro francês dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, por elementos da segurança e por assessores, atravessou as ruas, passando por vários agentes da polícia e cumprimentando um deles com um aperto de mão.

***

O Mundo, incerto e inseguro, devido à inépcia ou à maldade dos líderes, precisa de rumo.

2026.09.23 – Louro de Carvalho


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Trump TV cobrirá atos marcantes da administração 24 horas, por dia

 

A Trump TV: The Essentials Station, a televisão online lançada, a 21 de setembro, no YouTube, pela Casa Branca, promete acompanhar todos os momentos marcantes da administração norte-americana 24 horas, por dia, procurando preencher o vazio criado pela ausência dos jornalistas dos órgãos de comunicação social, devido à proibição do seu acesso às cerimónias da Casa Branca, pelo presidente dos Estados Unidos da América (EUA).

A medida foi tomada, menos de 24 horas, após as cadeias de televisão norte-americanas CBS, NBC, ABC e Fox terem decidido que o seu “pool” de jornalistas não cobriria as atividades do presidente, num invulgar gesto de solidariedade para com a CNN, com a MS NOW (antiga MSNBC) e com o Politico, cujo acesso à Casa Branca foi barrado por Donald Trump, a 18 de setembro, advertindo que outros órgãos de comunicação social seguiriam o mesmo caminho. “Os órgãos de comunicação social não devem poder escrever ou relatar, continuamente, ficção e mentiras, quando cobrem o presidente dos Estados Unidos, a administração Trump ou os Estados Unidos da América”, escreveu o presidente, vincando: “Outros órgãos de comunicação social de notícias falsas seguir-se-ão.”

O “pool” de imprensa é crucial para difundir os atos do dia a dia presidencial e muitas agências noticiosas e emissoras dependem dessas imagens e áudios. A sua ausência causou inédita situação embaraçosa, com a declaração do chefe de Estado, na inauguração do novo heliporto da Casa Branca, a ficar inaudível, devido ao ruído do motor do helicóptero Marine One.

Assim, como avança a Fox News, a nova televisão oficial da Casa Branca promete, durante 24 horas, por dia, transmitir todos os “momentos mais marcantes”, os vídeos mais populares e as principais declarações do Presidente, com conteúdos atualizados em tempo real.

A administração Trump justificou a decisão de afastar os referidos meios de comunicação com a publicação de “ficção e mentiras”. Na sua rede social Truth Social, Donald Trump considerou que esses meios de comunicação constituem “ameaça à segurança nacional”, que “deve ser combatida”, pelo que avisou que outros meios de comunicação seguiriam igual caminho.

A CNN, o Politico e a MS NOW, sustentando que esta decisão presidencial constitui uma “violação” da Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América, avançaram com uma ação judicial conjunta contra a Administração Trump. “Esta proibição não podia constituir um ataque mais direto à Primeira Emenda, nem uma violação mais flagrante dos nossos princípios constitucionais mais fundamentais”, afirmaram as organizações na petição apresentada em tribunal, na sequência da vedação do seu acesso à Casa Branca.

Por seu turno, a ABC, a CBS, a NBC e a Fox, em solidariedade, suspenderam a cobertura conjunta regular das atividades do presidente na Casa Branca, por tempo indeterminado.

A relação do inquilino da Casa Branca com os jornalistas e com a imprensa vem marcada por sucessivos episódios de tensão e de ofensas. Desta vez, a guerra de Donald Trump contra os órgãos de comunicação social, que acusa de produzirem “notícias falsas” e relatos constantes de “ficção e mentiras”, acabou por o silenciar, pois, momentos antes de abandonar a residência oficial rumo à Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), Trump inaugurou o novo heliporto da Casa Branca, mas o som captado pela transmissão institucional do evento foi inaudível, ao longo de cerca de cinco minutos, de acordo com o Washington Examiner.

Sem a cobertura televisiva das principais estações – a CNN foi banida da Casa Branca e a CBS, a NBC, a ABC e a FOX decidiram deixar de cobrir as atividades de Donald Trump, num gesto de invulgar solidariedade – as declarações do chefe de Estado não chegaram ao público, através dos canais tradicionais. As agências noticiosas e emissoras, que dependem das imagens e do áudio recolhidos pelo “pool” de imprensa, para obterem material de boa qualidade, optaram por não transmitir o evento, face à ausência de acesso direto, explicou o New York Post.

O contratempo técnico não passou despercebido. Na estação televisiva Newsmax, um dos apresentadores observou, em direto, que a cruzada de Trump contra os meios de comunicação social, parece ter-lhe saído “pela culatra”, naquele momento.

Mas o que terá dito o presidente foi publicado, pelo próprio, na plataforma Truth Social. “Estamos a sair, agora, do relvado da Casa Branca, na viagem inaugural a partir do recém-construído e belíssimo heliporto! Quero agradecer a Jim Taiclet, CEO da Lockheed Martin, que fez esta valiosa contribuição para o nosso país. O nosso governo, há 25 anos, que pensava em fazer isto, mas nunca conseguiu concretizá-lo. Eu faço as coisas acontecerem”, escreveu.

***

A proibição gerou invulgar solidariedade e a solidariedade deu boicote comunicacional. Numa decisão inédita, um consórcio televisivo dos EUA anunciou, a 21 de setembro, a suspensão da cobertura partilhada da Casa Branca, em solidariedade com a CNN, porque, no dia 19, os jornalistas da CNN, da MS NOW e do Politico foram impedidos de entrar no recinto da Casa Branca e tiveram os seus passes confiscados.

Por outro lado, a CNN foi, expressamente, retirada das suas funções no “pool”, que são partilhadas pelas cinco principais redes televisivas. Previa-se que cobrisse a viagem do presidente a Nova Iorque para a AGNU. Porém, em e-mail enviado aos seus membros, o consórcio televisivo informou que não haveria cobertura alternativa e que outras redes suspenderiam a sua própria cobertura, por tempo indeterminado. “A partir de hoje, o grupo de jornalistas de televisão não irá cobrir eventos designados como cobertura conjunta do presidente”, afirmava o e-mail enviado pelo atual presidente do grupo, Bryan Boughton, chefe da delegação da Fox em Washington, frisando que a decisão “surge na sequência da posição da Casa Branca, que impediu a CNN de cumprir as suas obrigações atribuídas no âmbito do grupo”.

Depois, em comunicado, a ABC, a CBS, a CNN, a Fox e a NBC afirmaram: “O público tem um interesse vital em receber informação rigorosa e independente sobre o seu governo. Nenhuma administração deve restringir um órgão de comunicação social por discordar das suas notícias.”

Outros meios de comunicação também foram solidários, entre eles a Associated Press (AP), a Agence France-Presse (AFP), o Washington Post e o The New York Times, decidiram não publicar fotografias de atos presidenciais, no dia 21.

Na sequência do conflito, a inauguração, por Trump, do novo heliporto da Casa Branca, de que se orgulha, e a sua viagem à AGNU decorreram sem cobertura de televisão, em direto. Por conseguinte, a cerimónia de inauguração do enorme heliporto de granito no relvado Sul foi apenas transmitida em streaming, no sítio da Casa Branca e os comentários de Trump foram totalmente inaudíveis, devido à ausência de microfones e ao ruido do helicóptero.

Na noite do dia 21, a Casa Branca lançou o canal de streaming, Trump TV: The Essentials Station, que exibirá “vídeos de destaque, intervenções principais e momentos imperdíveis, em emissão 24 horas, por dia, atualizados em tempo real”. Todavia, quando entrou online, o canal apenas transmitia imagens de arquivo de um discurso de Trump, a 3 de julho, em Mount Rushmore, pois, não conseguiu melhores e mais atualizados conteúdos de pé para a mão.

O vice-presidente James David Vance acusou os meios de comunicação de difundirem “uma propaganda, efetivamente, de extrema-esquerda”. “Eles podem continuar a fazer cobertura. Continuam a ter acesso à liberdade de expressão. Simplesmente, já não vão ter um gabinete na Casa Branca”, declarou aos jornalistas, que ficam sem liberdade de meios para fazerem o seu trabalho, em condições aceitáveis.

***

No dia 20, a Associação de Correspondentes da Casa Branca, liderada pela jornalista da Fox News Jacqui Heinrich, instou a administração Trump a repor, de imediato, o acesso dos órgãos de comunicação social que tinha barrado, devido a notícias que ele considera “fake news”, alegando que a decisão cria um precedente perigoso para a liberdade de expressão. “O povo norte-americano, através de uma imprensa livre e independente, tem de poder escrutinar os eleitos, independentemente de os responsáveis governamentais verem isso com bons olhos ou não”, declarou, em tom assertivo.

A CNN, a MS NOW e o Politico, os órgãos visados, já tinham sido, anteriormente, alvo do presidente republicano, sobretudo a CNN, que Trump critica com frequência, ridicularizando, regularmente, os seus repórteres e pondo em causa a autenticidade das suas notícias.

As medidas em causa representam, agora, uma clara escalada dos esforços, de longa data, de Donald Trump, nos tribunais e através de decisões administrativas, para limitar a cobertura noticiosa de jornalistas que considera incómodos, e constituem o mais recente teste às proteções da Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

Trump afirmou, no dia 18, que iria proibir aqueles três órgãos de comunicação social, devido a uma cobertura que não lhe agrada.

No dia 21, as repórteres da Casa Branca dos dois canais de cabo, Betsy Klein, da CNN, e Akayla Gardner, da MS NOW, entraram em direto, para relatarem que tinham sido impedidas de entrar, com os seus passes de imprensa desativados, quando chegaram ao trabalho na Casa Branca. Pouco depois, o Politico informou que a sua repórter na Casa Branca, Cheyenne Haslett, também foi impedida de entrar e viu o seu passe confiscado.

Os três órgãos de comunicação social deixaram, logo, entender que ponderavam recorrer à justiça. “Iremos defender, de forma vigorosa, os nossos direitos garantidos pela Primeira Emenda”, afirmou o diretor do Politico, Jonathan Greenberger, em comunicado à redação. Numa declaração, a CNN afirmou que aquela cadeia televisiva “não se desviará do seu dever de escrutinar o governo e outras entidades públicas”. E a MS NOW declarou que “pretende tomar todas as medidas necessárias para defender os nossos direitos consagrados na Primeira Emenda e o papel essencial do jornalismo independente na nossa democracia”.

No segundo mandato, Donald Trump e a sua administração têm sancionado, de forma recorrente, determinados meios de comunicação, tanto em tribunal como através de medidas regulatórias. E também tem atacado repórteres individualmente, presencialmente ou nas redes sociais, por vezes, em termos marcadamente pessoais, insultando-os em briefings ou no recente discurso no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, onde chamou à jornalista da CNN Kailtan Collins “muito burra e infeliz”.

Já no ano passado, o líder norte-americano decidiu impedir jornalistas da AP de entrarem na Sala Oval, no Air Force One e noutros eventos, em retaliação pela opção da agência de notícias de não acompanhar a sua iniciativa de alterar o nome do Golfo do México. A AP afirmou que, quando pertinente, assinalaria que Donald Trump ordenou que essa massa de água, situada parcialmente em águas mexicanas e de outros países, fosse rebatizada como “Golfo da América”. E apresentou uma ação judicial contra essa proibição, processo que ainda decorre.

Por seu turno, desde que regressou ao cargo, Donald Trump avançou com outras ações judiciais contra vários meios de comunicação, entre os quais o New York Times, o Wall Street Journal e a BBC. E a sua administração está, igualmente, envolvida num conflito prolongado com a ABC, sobre a renovação das suas licenças de emissão.

A AP declarou, no dia 19, que apoia os órgãos de comunicação social visados recentemente. Num comunicado, a agência noticiosa afirmou: “Nenhum órgão de comunicação social, nem qualquer pessoa, deve ser alvo de retaliação por parte do governo, pelas palavras que utiliza.”

***

Donald Trump não esclareceu quais as notícias ou reportagens que estiveram na origem da sua decisão de vetar o acesso de jornalistas ao recinto da Casa Branca. E, contactados pela Reuters, a CNN, a MS NOW e o Politico não responderam.

Sobre o Politico, o inquilino da Casa Branca afirmou que o jornal é beneficiário de uma “subscrição ilegal e ridícula de oito milhões de dólares”, que classificou como “um recorde histórico”, atribuída, diretamente, pelo governo dos EUA, sob a liderança do “desonesto Joe Biden”, para o manter “vivo”. “Para mim, isso é corrupção”, acrescentou.

Apesar do anúncio de 18 de setembro, não houve, logo, indicações concretas de que a administração norte-americana tivesse assumido medidas oficiais imediatas para aplicar a restrição. Os jornalistas da CNN continuaram a trabalhar, a partir das instalações presidenciais durante a tarde, como revelou a estação televisiva. “A CNN apoia, plenamente, a nossa equipa na Casa Branca e a sua cobertura jornalística imparcial e rigorosa. Temos o direito, ao abrigo da Constituição dos EUA, de realizar essa cobertura sem obstáculos nem interferências por parte do Governo. […] Caso a proibição com que o Presidente Trump ameaçou venha a ser implementada, constituiria um ataque ilegal a esse direito fundamental, protegido pela Constituição”, afirmou a estação televisiva norte-americana em comunicado.

Também o Politico reagiu ao anúncio do presidencial, assegurando que “continuará a fazer uma cobertura imparcial desta Casa Branca e das futuras”. “Defenderemos, vigorosamente, os nossos direitos, ao abrigo da Primeira Emenda contra qualquer tentativa de os restringir”, afirmou, também em comunicado, garantindo que “as alegações de que o Politico recebeu subsídios do governo são falsas e foram completamente desmentidas”.

Já a MS NOW não comentou a publicação de Donald Trump.

Tudo, porém, mudou com a execução da medida, a 21 de setembro, ou seja, proibição da entrada dos jornalistas no recinto da Casa Branca e desativação dos seus passes de imprensa.

***

A Primeira Emenda da Constituição dos EUA estabelece: “O Congresso não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringindo a liberdade de discurso, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações de queixas.”

Assim, o Congresso fica impedido de: estabelecer uma religião oficial ou preferir uma religião (separação entre Igrejas e Estado); proibir o livre exercício da religião; limitar a liberdade de expressão; limitar a liberdade de imprensa; limitar o direito de livre associação pacífica; e limitar o direito de fazer petições ao governo, com o intuito de reparar agravos.

O texto vincula apenas o Congresso, mas ao longo do tempo, os tribunais asseguraram a extensão destas premissas a qualquer ramo do poder judicial e executivo. E o Supremo Tribunal Federal assegurou que a Décima Quarta Emenda a Constituição incorporasse a Primeira Emenda contra qualquer ação dos estados, em particular. Parte inferior do formulário

***

Os totalitarismos começam com mecanismos trumpianos: corte de verbas a instituições internacionais, em prol dos nacionais; restrição da produção do conhecimento nas universidades, em favor do pensamento único; pressão sobre o poder judicial ou desprezo por ele; isolamento internacional; ataque à liberdade de imprensa; e criação de media governamentais. Porém, Trump é pouco discreto. Terão os EUA resiliência que obste a estas arremetidas?

2026.09.22 – Louro de Carvalho