domingo, 24 de março de 2019

O “risus paschalis” e a teoagapia


Nota prévia
A crónica de Dom José Tolentino de Mendonça no Expresso deste sábado, dia 23, com o título “O humor do cardeal”, na rubrica semanal “Que coisa são as nuvens?”, refere a prática do ‘risus paschalis’, um pouco a justificar o humor do Cardeal Arcebispo de Boston Seán O’Malley, oriundo da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, expresso no retiro que orientou aos bispos portugueses em Fátima e no seu livro “Procura-se amigos e lavadores de pés”.
A predita crónica chamou-me a atenção para algo que desconhecia ou de que me não lembrava. E verifiquei não haver muito sobre o tema em português. Não obstante, encontrei uma bela pérola histórico-teológica no artigo “a teoagapia do risus paschalis: a risada e o perdão na liturgia”, de Helio Aparecido Campos Teixeira, publicado pela Tear On line (em linha: http://periodicos.est.edu.br/index.php/tear/article/view/2627/0), bem como uma boa referência no texto “O riso pascal” no blogue de Marcelo Pinto (http://doutorrisadinha.blogspot.com/2009/04/o-riso-pascal.html).
O riso pascal exprime a alegria pelo perdão que nos advém da redenção obtida pela morte de Cristo, validada pela ressurreição, base da nossa fé e garantia da nossa ressurreição. Tudo isto é fruto do amor divino fruído por cada pessoa e festivamente tornado público na comunidade eclesial. É a teoagapia (Théos – Deus + agapê – amor) que se manifesta no perdão.
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Uma visão sincrética da questão
Marcelo Pinto, anotando que a Igreja Católica trata do riso com excessivo rigor descobriu com surpresa a festa tradicional “Risus Paschalis”, que perdurou na Igreja por mais de mil anos. Afirma que o costume, surgido na Baviera no século XV, remonta a 852 em Reims, na França, se estendeu pelo Norte da Europa, Itália e Espanha, e perdurou até 1911 na Alemanha. O sacerdote, a celebrar a alegria da Ressurreição sobre a Morte, contava anedotas na celebração, que se utilizava da moral dessas historietas para realizar com humor as pregações, assumindo a cultura dos fiéis em seu jeito popularesco, plebeu e até obsceno. E, para expressar a vida nova inaugurada pela Ressurreição, apelava-se à fonte física donde nasce a vida humana: a sexualidade com o prazer com ela conexo. Com efeito, a cada passo damos publicamente graças a Deus pelo dom da vida, mas esquecemos publicamente o contributo dos nossos progenitores que ousaram cooperar com Deus para que a via surgisse e se alimentasse – o que não deixa de causar prazer e originar alegria e festa. A este propósito, recordo que em muitos adereços de nossos templos se visualiza a nudez de anjos, o vigor de espécies vegetais – mormente da vide e das uvas, como do trigo em espiga ou em pão –, a pujança de alguns animais (como o cordeiro, a pomba ou a águia). E é de registar que na cachorrada norte da capela-mor da igreja matriz de Sernancelhe, segundo a narrativa de Monsenhor Cândido de Azevedo, um dos cachorros apresenta uma mulher em trabalho de parto, outro a criança nascida e outro ao homens alegres a levantar ao alto um pipo de vinho – um verdadeiro hino à vida.  
E Marcelo Pinto menciona o teólogo Leonardo Boff para dizer que a festa do “Risus Paschalis significa a presença do prazer sexual no espaço do sagrado, na celebração da Páscoa, a maior festa cristã desde sempre E, para ilustrar essa tradição positiva da sexualidade, evoca a teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli, que estudou o facto no livro “O Riso Pascal e o Fundamento Teológico do Prazer Sexual” (Il risus paschalis e il fondamento teologico del piacere sessuale) publicado em Brescia, Itália, em 1990, pela Editrice Queriniana. Ora, no livro, Jacobelli afirma que, para provocar a explosão de alegria da Páscoa em contraposição à tristeza da Quaresma, o sacerdote na missa da manhã de Páscoa suscitava o riso no povo. E fazia-o recorrendo a diversos meios, em que sobressaía o imaginário sexual. Contava piadas picantes, usava expressões eróticas e encenava gestos obscenos, dramatizando relações sexuais. E o povo ria. Entretanto, porque muitos, ao fazerem as piadas, envolviam excessiva e desnecessariamente o tema da sexualidade, acabava por ficar ofuscada a Palavra de Deus. Por isso, a tradição foi interrompida, na sequência do Concílio de Trento (que optou pela solenidade grandiosa do culto e pela rejeição das práticas aparentemente ofensivas do que se entendia por moral), por proibição do Papa Clemente X, no século XVII, e do arquiduque Maximillian III e dos bispos da Baviera, no século XVIII. Assim, porque alguns padres não observavam os limites do humor, a Igreja perdeu o “Risus Paschalis”. Seria muito divertido presenciarmos missas nas quais os padres se mostrassem divertidos e contadores de piadas, que não necessitariam de ser picantes, mas que trouxessem a descontração para este momento de paz e saúde espiritual. Assim, os cristãos, sob a capa da gravidade, passaram a dar tristes santos (o espírito triste seca os ossos). Tiveram que vir Paulo VI e Francisco, com as exortações apostólicas “Gaudete in Domino” e “Evangelii Gaudium”, respetivamente.
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Alguns dados antropológicos e eclesiais
Por sua vez, H. Teixeira, refletindo sobre este rito medieval, regista que, “por sua especificidade e extravagância, descortina a perceção da tendência à gravidade e ao siso nas celebrações litúrgicas das igrejas”. Agora, a alegria é expressa por leves sorrisos, efeito visual de civilidade ou cordialidade. Até há pouco tempo, era escandaloso o aplauso nas igrejas, fosse para o sermão, fosse para Deus. No entanto, uma paróquia reagiu muito bem, em 1979, quando na procissão pascal pedi uma salva de palmas para o Senhor Ressuscitado presente na Hóstia sagrada para nossa alegria e salvação e hoje os aplausos são frequentes.
Como rito litúrgico, o “Risus Pachalis” – diz Teixeira – é muito antigo, embora não se saiba exatamente quando surgiu essa forma cómica de dramaturgia, no tocante às forças da inumanidade e degeneração das relações entre os grupos sociais. E o teólogo reflete sobre a sua relevância numa liturgia assente na alegria que o perdão suscita na consciência de quem participa na comunidade de fé, sendo que o riso é próprio do ser humano servindo para lidar com as incoerências da existência. O próprio salmista dá asas a essa expressão do ser humano:
Então a nossa boca encheu-se de riso e a nossa língua de cânticos; então dizia-se entre os gentios: Grandes coisas fez o Senhor a estes. (Sl 126,2).
Sendo o sorriso e o riso canais de comunicação e constituindo uma estética do visual-auricular (um visual e outro mais audível), surgem como são fenómenos sociais (Raramente um pessoa sorri ou ri para si própria). Rir (e sorrir) é fenómeno coletivo. O riso é audível, ao passo que o sorriso é fenómeno visual em que “a face é esteticamente envolvida na reprodução de sinais que emitem um código, podendo ser de aprovação, reprovação ou mesmo de ameaça”, havendo o sorriso de indiferença e como expressão de prazer. Embora, Aristóteles e Tomás de Aquino tenham visto a risada como própria do ser humano e importante para a vida, muitos pensadores (vg: São João Crisóstomo e Santo Agostinho) compreenderam-na como própria de indivíduos à margem da civilidade, pelo que foi tolhida como expressão de incivilidade desde a Antiguidade. Enquanto as regras monásticas “condenavam o riso fácil e jocoso”, autores irónicos fizeram dele armas contra a contradição dos que, considerando-se graves prestavam culto ao normativo. Assim, Petrónio, Nietzsche e Heine fizeram do humor a sua epistemologia. Na Idade Moderna, a risada foi incluída no processo de adequação higiénica de civilização que a ciência trouxe para o Ocidente, rir alto tornou-se rude e falta de decoro. E, apesar de, ao longo da Idade Média, a risada ter sido combatida, isso não impediu os grupos sociais de debochar e chistar das situações. Diz Teixeira que a carnavalização da existência implica o riso ambivalente face a muitas situações da vida: suspende a seriedade de situação imposta como verdade; é um modo de ver o mundo; organiza a resistência a realidade desejada estanque, normativa e grave. Banida dos círculos oficiais que prezavam a gravidade, a risada foi relegada para a praça pública (para o Carnaval) e a risadinha para reagir a surpresas. E a festa popular celebra a vida de muitas formas. Os ciclos vitais estão presentes, mesmo quando comemorados face proibições e permanecem na liturgia popular e na encenação de mistérios. E o Renascimento tem nas manifestações populares abundante material para dialogar com a sacralidade da comunicação por meio da encenação dramática.
A risada, a risadinha e o riso, possuindo uma função fisiológica, geram efeitos massageadores no corpo, relaxamento e equilíbrio diante de tensões. Combinam a respiração e a alegria. Já no século XIX Spencer sustentava que a risada era um dispositivo autónomo do corpo tal como o espirro e a tosse. E Bergson diz que se trata de fenómeno especialmente humano.
Não há comicidade fora do que é próprio do homem. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia, porém jamais risível. Riremos de um animal, mas porque teremos surpreendido nele uma atitude de homem ou certa expressão humana. Riremos dum chapéu, mas no caso o cómico não será um pedaço de feltro ou palha, senão a forma que alguém lhe deu. (…) Já se definiu o homem como ‘um animal que ri’. Poderia também ter sido definido como um animal que faz rir, pois se outro animal o conseguisse, ou algum objeto inanimado, seria por semelhança com o homem, pela caraterística impressa pelo homem ou pelo uso que o homem dele faz.” (Bergson, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cómico. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. p. 7.)
A risada (a gargalhada em especial) põe todo o nosso organismo em movimento. É um dispositivo de defesa do corpo, um completo exercício massageador dos músculos da face e de outras partes do corpo e, dada a sua índole contagiosa, é expressão coletiva.
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O rito do “Risus Paschalis” foi uma prática cultual herdada da antiguidade que sobreviveu na liturgia das Igrejas ocidentais e resistiu, em alguns contextos, até ao início do século XX. Nesse rito, o liturgo escarnecia do diabo e forças opostas à ação de Deus na história referenciando amplamente o facto de a Ressurreição ter “enganado” tais forças. Essa liturgia pascal era elaborada a partir da risada em estilo responsorial em que o oficiante usava “alguma jocosidade de ordem sexual”, respondendo os participantes na celebração com risadas e gargalhadas, o que, segundo Bremmer, produzia um efeito libertador após a temporada de profunda gravidade que a Quaresma carregava ante o sepultamento do Salvador. O “Risus Paschalis” (ou Dominica gaudii) era uma festividade carnavalesca medieval com elementos de burla e, por vezes, de blasfémia. Para Bakhtin, o “Risus Paschalis” continha, como outras festas (vg: “Festa dos Tolos” e“Festa do Asno”), formas de inversão da lógica quotidiana. Resnick diz que a documentação antiga e medieval mostra tensão entre o conceito filosófico de riso e o cristão de penitência. Os monges, não negando o riso como valor humano, abjuraram do seu abuso frívolo e agitador e julgaram não ter sentido na vida penitente, pois o penitente aguarda a vida definitiva para gozar tranquila e alegremente dos bens celestes. E Virginia Woolf disse que “a comédia representava as fraquezas da natureza humana e a tragédia retratava os homens como maiores do que eles são”. Porém, vai mais longe:  
O riso puro, tal como o ouvimos nos lábios das crianças e de mulheres bobas, anda em descrédito. (…) É um riso que não passa mensagem, que não transmite informação; é um som inarticulado como o latido de um cão ou o balir de um carneiro, e exprimir-se assim é indigno de uma espécie que se dotou de linguagem.” (Woolf, Virginia. O Valor do Riso e Outros Ensaios. São Paulo: Cosac & Naify, 2014. p. 35.)
Para a escritora, o ser humano tem no riso a perceção das próprias falhas, sendo o dom da risada um jeito de se dar conta de tal ambiguidade. Lutero chamou ao “Risus Paschalis” tagarelice tola e ridícula. Johannes Oecolampadius não poupou críticas ao rito dizendo que eram praticadas obscenidades, os pregadores tratavam na igreja das coisas praticadas na intimidade. Wolfgang Capito queixou-se contra os pregadores da alegria pascal pela algazarra que se fazia na igreja com leigos que se vestiam de monges e fingiam dar à luz um bezerro, além de realizarem pilhérias com o clero. Para lá da proibição eclesiástica, a “religião nos limites da razão” contribuiu para o seu cerceamento e exclusão da liturgia. Porém, o “Risus Paschalis” estava na liturgia desde o tempo da Igreja dos primeiros séculos. Gregório de Nisa desenha um retrato vívido das multidões jubilosas que, pelas vestes e participação devota, faziam honra ao festival. Cessava o trabalho, eram suspensas as negociações, fechavam os tribunais, dava-se esmola aos pobres, libertavam-se os escravos. Era tempo favorável para o Batismo. O Domingo de Páscoa era a Dominica gaudii (Domingo da Alegria). Em reação à austeridade da Quaresma, as pessoas entregavam-se ao gozo da dança popular, desporto, entretenimento e fanfarronice. Em alguns lugares, o clero, para aumentar a alegria, recitava desde o púlpito histórias engraçadas e lendas com vista a excitar o “Risus Paschalis” ou “sorriso da Páscoa”. É de recordar que o IV domingo da Quaresma (ainda hoje dito Domingo da Alegria) já lampejava antecipadamente esta folia.
Contudo, o “Risus Paschalis” não era o único rito de humor da Igreja ocidental. Havia outras práticas que envolviam a risada abundante. A risada litúrgica integrava o calendário das Igrejas como escape para as tensões experimentadas ao longo do ano e do período sisudo quaresmal.
E a risada foi abolida da liturgia dando lugar à introspecção e ao elemento estético grave. E, se há momentos de carisma em denominações pentecostais, todavia, fora duma suposta ação do Espírito, a risada é proibida e fala mais alto a sisudez e a gravidade ditadas pelas regras do claustro. O humor como parte da celebração restringe-se a poucos momentos de quebra de protocolo por parte do liturgo ou pregador, que faz alguma graçola por conta do seu carisma.
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Ora, o riso significa a alegria cósmica universal e reveste-se de sentido filosófico exprimindo um ponto de vista peculiar sobre a experiência, a vitória sobre o medo e tornando grotesco o que aterroriza e distancia. Triunfa, assim, sobre o pânico sobrenatural e a morte, e propicia a queda simbólica da hierarquia sufocante. Assim, para lá dos recorrentes convites e manifestações de alegria presentes na Bíblia, é de salientar que, no AT (Antigo Testamento), o riso surge em momentos de remissão. Assim é o riso de Abraão e Sara, que riram com a promessa dum filho na velhice de Sara (cf Gn 17,17); o sorriso do Senhor é sinal de bênção (cf Nm 6,25); o coração alegre é remédio contra as doenças (cf Pr 17,22); as festas devem ser regradas por risadas efusivas (cf 1Rs 1,40); e a alegria transforma-se em exultação pela salvação (cf Hab 3,18), pois a risada do Senhor “é a vossa força” (Ne 8,10). E, no NT (Novo Testamento), a orientação é “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos” (Fl 4,4); e o sinal da bênção é para quem testemunha que “os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo” (At 13,52).
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A expressão da teoagapia no “Risus Paschalis
No “Risus Paschalis” esplende a teoagapia refletida na alegria que a perceção do perdão dos pecados confere aos que participam da vida cristã, participação que se dá liturgicamente após o período da Quaresma, tempo de reflexão sobre a vida e ação de Jesus e sua paixão pelas ovelhas dispersas. Essa teoagapia, expressa na liturgia, é reflexo da consequente práxis de Jesus, uma dramatização da vitória sobre as forças subjetivas de uma vivência calcada numa moralidade apologética do status quo. Todavia, a teoagapia não é só a realização de ações dum samaritano que socorre as vítimas na estrada, mas, segundo Teixeira, “a própria experiência de ser-no-mundo como cura, como ser finito em-relação-com-outros na tomada de conscientização da sua ocupação e projeto, assimilado desde um modo de ser-com na assunção da sua projeção como ser-mais”. Assim, pelo poder divino (teoisquiria) amalgamado como amor (teoagapia), que se manifesta sobretudo na compaixão e perdão, “Deus faz-nos entrarmos em nós mesmos”; e, dando-nos a conhecer a nós, “faz com que nos conheçamos a nós mesmos” e, na qualificada conscientização dos processos vitais, percebemos a necessidade da comunhão e do espírito fraterno. É na superação dum amor erótico que busca a segurança na disposição de objetificação do outro, como modo de permanecer intacto diante da insegurança existencial, é que o ser humano entende Deus como Ágape; só quem “abandonar toda a segurança encontrará a verdadeira segurança”.
A teoagapia do “Risus Paschalis” é a superação duma liturgia estribada na lógica da sisudez e da gravidade, dá largas à alegria efusiva do perdão, que esteticamente redunda na gargalhada contra a constante tentativa de não aceitar “o erro como condição da vida humana”. A índole paradoxal da vida humana exprime-se na própria tentativa de retirar do culto o que traz as coisas da intimidade para a dramaticidade cúltica e quer esconder, pela teatralidade litúrgica, a realidade quotidiana cuja veracidade se encontra especificamente na dialética erro/verdade, pecado/graça, malícia/bondade, vindicta/misericórdia. A liturgia confere ao culto cristão a dramaturgia duma corte em que o liturgo, às vezes, parece oficiar num tribunal.
O culto cristão na modernidade, sob a lógica da ordem e discrição, eliminou os elementos de distúrbio vistos segundo a ótica da racionalidade iluminista. O culto cristão como dramaturgia da práxis de Jesus passou a valorizar a introspecção, a sisudez do mosteiro, em detrimento da alegria no Senhor.
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Concluindo
Após este excursus, é pertinente questionar porque é que a celebração da Páscoa não gera a alegria efusiva e estonteante no quadro litúrgico ou por que motivo a boa nova da ressurreição não cria a liturgia do contentamento e do extravasamento da graça percebida ou quais as razões que levam os fiéis à introspeção cúltica na liturgia pascal.
O “Risus Paschalis” foi gradualmente retirado da liturgia da maior parte das Igrejas cristãs, sobrevivendo muito diminutamente em alguns contextos. O seu escopo era comemorar – sob gargalhada – a vitória de Jesus sobre as forças do mal numa dramaturgia do riso, em que o oficiante conduzia o rito por meio de falas chistosas e cómicas recebendo responsorialmente as risadas como louvor a Deus. Talvez o sentimento de culpa inoculado pelas liturgias de poder, na modernidade, se tenha sobreposto demasiadamente à alegria inerente ao perdão, experimentado na ressurreição de Jesus, embora o Aleluia continue a rebentar um pouco por toda a parte.
Não obstante, quem vive experiência de celebração comunitária da Reconciliação com confissão pessoal dos pecados integrada na Missa, sabe aquilatar da diferença entre o volume sonoro da oração e cântico antes da confissão e o, por vezes quase explosivo, manifestado na liturgia eucarística, mormente depois da comunhão.
E não se diga que não são desopilantes, belas e edificantes as dramatizações que de vez em quando invadem as liturgias! O mesmo se diga das manifestações litúrgicas infantis e juvenis (por vezes, mesmo explosivas) e de algumas liturgias com idosos (bem simpáticas) ou da diversidade de instrumentos musicais que acompanham diversas realizações corais litúrgicas.   
Se calhar, devia dar-se mais gás ao momento festivo que ao momento penitencial (necessário). Enfim, somos mais cara de Semana Santa que de Páscoa. E cruz sem ressurreição não tem sentido, como ressurreição sem cruz não é possível. Do nascimento à cruz e da cruz à Páscoa!    
2019.03.23 – Louro de Carvalho

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