Após
25 anos de negociações, a União Europeia (UE) assinou, a 17 de janeiro, em
Assunção, no Paraguai, o acordo comercial UE-Mercosul, criando uma zona de
comércio livre com 700 milhões de pessoas, mas a ratificação está pendente,
estando o Parlamento Europeu (PE) preparado para um aceso debate, nos próximos
dias.
A
presidente da Comissão Europeia saudou a escolha do “comércio justo, em
detrimento das tarifas”, aquando da cerimónia do importante acordo comercial
com os países do Mercosul da América do Sul. “Escolhemos o comércio justo, em
vez das tarifas, escolhemos uma parceria produtiva a longo prazo em vez do
isolamento”, afirmou Ursula Von der Leyen, na cerimónia em Assunção, no
Paraguai.
António
Costa, presidente do Conselho Europeu, disse que o acordo envia “uma mensagem
de defesa do comércio livre, baseado em regras, do multilateralismo e do
direito internacional como base para as relações entre países e regiões”.
Este
acordo contrasta com “a utilização do comércio como arma geopolítica”. Negociado
ao longo de 25 anos, criará uma zona de comércio livre com cerca de 700 milhões
de pessoas, eliminando, gradualmente, cerca de 90% dos direitos aduaneiros nos
setores da indústria, dos serviços e da agricultura, estimando a Comissão
Europeia que as empresas da UE pouparão mais de quatro mil milhões de euros,
por ano, em direitos aduaneiros. Os quatro países do Mercosul comprometeram-se
a abrir os seus mercados de contratos públicos às empresas europeias nas mesmas
condições que os concorrentes nacionais. Além disso, prevê-se o reconhecimento
de 344 indicações geográficas (IG), que protegem os produtos europeus da
imitação, e garante-se o abastecimento de minerais essenciais, reduzindo a
dependência da UE, em relação à China.
Por
outro lado, o acordo cristalizou as divisões no seio do bloco europeu. Com efeito,
os estados-membros apoiantes – liderados pela Alemanha e pela Espanha – aduzem
que a UE precisa de novos laços comerciais, visto que os EUA fecham o seu
mercado e a China prossegue uma cada vez mais agressiva política comercial. Ao
invés, os opositores, liderados pela França, dizem que o acordo ameaça os
agricultores europeus, expondo-os à concorrência desleal das importações
latino-americanas.
No
entanto, Paris não conseguiu a minoria de bloqueio, para impedir a
assinatura do acordo, perdendo, à última hora, o apoio decisivo de Roma, que o
apoiou, depois de ter garantido financiamento para os seus agricultores, a
partir de 2028, e a isenção do imposto fronteiriço da UE sobre as emissões de
carbono dos fertilizantes. Porém, apesar da sua oposição, a França garantiu a
cláusula de salvaguarda que permite a reintrodução de direitos aduaneiros, se
as importações do Mercosul aumentarem mais de 5%, em setores sensíveis.
O
acordo limita, igualmente, o acesso isento de direitos aduaneiros aos
principais produtos agrícolas. As importações anuais de carne bovina serão
limitadas a 99 mil toneladas, com um direito reduzido de 7,5%, o equivalente a
1,5% da produção da UE. As importações de aves de capoeira serão limitadas a
180 mil toneladas, por ano, o equivalente a 1,3% da produção da UE. E, de
acordo com as estimativas da Comissão Europeia, as exportações da UE para os
países do Mercosul deverão aumentar 39% (48,7 mil milhões de euros) até 2040,
enquanto as importações da América Latina aumentarão 16,9% (8,9 mil milhões de
euros).
Todavia,
como o presidente francês, Emmanuel Macron, escreveu, no X, “a
assinatura do acordo não marca o fim da História”. Com efeito, assinado o
acordo, cabe ao PE proceder à sua ratificação, que requer o consentimento dos
eurodeputados, os quais continuam divididos, em grande parte, por linhas
nacionais, ainda que os apoiantes esperem que o apoio dos governos da UE
influencie os eurodeputados indecisos. Neste sentido, os opositores testarão
esse apoio quando os deputados votarem, em breve, uma resolução proposta por 30
eurodeputados que apela à contestação do acordo perante o tribunal superior da
UE.
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Ursula
von der Leyen, encontrou-se com o presidente do Brasil, Lula da Silva, no Rio
de Janeiro, em reunião à margem da assinatura do tratado de comércio livre
entre a UE e países da América do Sul, o primeiro grande acordo comercial do
Mercosul, que reúne as duas maiores economias da região, Brasil e Argentina,
além do Paraguai e do Uruguai. A Bolívia, o mais novo membro do Mercosul, não
participou nas negociações, mas pode aderir ao acordo.
Os
dois blocos assinaram, formalmente, o pacto comercial (cuja negociação levou um
quarto de século), numa cerimónia, em Assunção, no Paraguai, à qual Lula
da Silva não compareceu. Embora a imprensa local tenha noticiado que Javier
Milei, presidente da Argentina, e Yamandú Orsi, presidente do Uruguai, estariam
presentes na cerimónia organizada por Santiago Peña, presidente do Paraguai,
Lula decidiu não viajar para Assunção, mas fazer-se representar pelo ministro
das Relações Exteriores, Mauro Vieira, decisão que surpreendeu, tendo em conta
os enérgicos esforços de Lula, em prol do acordo, especialmente, desde que
voltou à presidência do Brasil, em 2023, para um terceiro mandato não
consecutivo. Especialistas supõem que a medida pode indicar a deceção de Lula
pelo facto de o acordo não ter sido assinado, em dezembro, quando o Brasil
ocupava a presidência rotativa do Mercosul.
Efetivamente,
no Rio de Janeiro, ao lado da presidente da Comissão Europeia, o presidente
brasileiro voltou a frisar a demora nas negociações. “Foram mais de 25 anos de
sofrimento e de tentativas para chegar a um acordo”, declarou à imprensa, no
Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, mas elogiando a natureza histórica do
pacto: “Amanhã, em Assunção, faremos História, ao criar uma das maiores áreas
de livre-comércio do Mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB [produto
interno bruto] superior a 22 triliões [de dólares].”
A
presidente da Comissão Europeia não esquece os esforços de Lula da Silva para
concretizar o acordo, vincando “a liderança política, o compromisso pessoal e a
paixão”. E, numa conferência de imprensa, à tarde, em Copacabana, no dia 16, o
presidente do Conselho Europeu, António Costa, acentuou que a última
presidência brasileira do Mercosul foi crucial para o avanço das negociações,
abrindo caminho para a sua assinatura no Paraguai. Com efeito, a importância de
criar uma das maiores zonas de comércio livre do Mundo, enquanto Donald Trump
retira os EUA da economia internacional, não passa despercebida aos
signatários.
“Este
é o poder da parceria e da abertura. Este é o poder da amizade e da compreensão
entre povos e regiões, através dos oceanos. E é assim que criamos prosperidade
real – prosperidade que é partilhada. Porque concordamos que o comércio
internacional não é um jogo de soma zero”, afirmou Ursula von der Leyen.
Para
os analistas, a vitória da UE e do Mercosul ocorre às custas dos EUA e da China,
já que Donald Trump afirma, agressivamente, a autoridade norte-americana na
região rica em recursos e Pequim usa o seu comércio e empréstimos massivos para
influenciar. E o acordo concede às nações sul-americanas, conhecidas pelas terras
férteis e pelos agricultores qualificados, maior acesso a uma taxa tributária
preferencial no vasto mercado europeu de produtos agrícolas.
A
Apex, agência de investimentos do governo brasileiro, estima que as exportações
agrícolas para a UE, como café instantâneo, aves e sumo de laranja, renderão sete
mil milhões de dólares nos próximos anos. Porém, Lula da Silva advertiu que o
Mercosul não se limitará ao eterno papel de exportador de commodities (matérias-primas
básicas, de origem agrícola, mineral ou energética, produzidas em larga escala
e com qualidade uniforme), mas também produzirá e venderá “produtos industriais
com maior valor agregado”.
Embora
o acordo seja assimétrico e economicamente favorável à UE, é benéfico, politicamente,
para ambas as partes, na ótica de Roberto Goulart Menezes, professor de
relações internacionais da Universidade de Brasília. Para a UE, sob pressão,
por causa das ameaças de Trump de assumir o controlo da Gronelândia, o acordo
mostra que o grupo de países aposta na diversificação de parceiros e no
multilateralismo, em resposta simbólica à lógica MAGA (Make America Great Again)
dos EUA. E, para o Mercosul, ilustra que este bloco “é relevante, apesar das
acusações de ser insignificante e de estar à beira da extinção”.
Em
declarações aos jornalistas, António Costa abordou as críticas de que o acordo
favorece a UE: “É
um acordo comercial, mas também um de investimento. [...] Porque a nossa
política não é, ao contrário da abordagem chinesa, simplesmente, chegar e
extrair os minerais, para que o valor acrescentado seja gerado noutro lugar. [...]
Já não existe aquela lógica pós-colonial de extrair recursos naturais por aí”,
afirmou, a caminho da capital do Paraguai.
O
acordo permitirá eliminar tarifas sobre 91% das exportações da UE para o
Mercosul e sobre 92% das vendas sul-americanas para a Europa.
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Segundo
a análise de Fátima Castro e Ana Ataíde, no ECO, sob o título “Quem ganha
e quem perde em Portugal com o acordo UE-Mercosul”, o acordo traz alterações
nas tarifas aplicadas. Em Portugal, setores do vinho, do azeite e do queijo
esperam ganhos, enquanto os produtores de carne e arroz temem um rombo.
O
comércio total entre Portugal e o Mercosul significa, atualmente, cerca de 8,5
mil milhões de euros, mas entre os quatro países (a Argentina, o Brasil, o Uruguai
e o Paraguai), o Brasil – desde logo pela longa relação bilateral – é
o principal destino de bens portugueses. De janeiro a novembro de
2025, Portugal exportou para o mercado brasileiro 981 milhões de euros,
embora represente uma quebra, face aos 1058 exportados no período homólogo. “As oportunidades
são muito evidentes para os produtores de vinho, azeite, frutas ou queijos, por
exemplo, uma vez que se trata de uma expansão enorme do mercado de
exportação, num contexto de redução de tarifas alfandegárias”, adiantou ao ECO
o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal
(CAP), Luís Mira.
Atualmente,
as exportações de vinho da UE para o Mercosul enfrentam tarifas de 27%, os
vinhos espumantes entre 20% a 35%, o chocolate de 20% e o uísque e outras
bebidas espirituosas entre 20 a 35%. Os países do centro da Europa concentram o
maior número de empresas exportadoras para os quatro países, mas o objetivo da
Comissão Europeia é ampliar esse número e, sobretudo, a quantidade e valor
vendido aos quatro países sul-americanos.
Em
Portugal, o maior número atual de exportadoras situa-se a Norte, seguido da
região de Lisboa e Vale do Tejo. Mas há espaço para crescer, até porque o
acordo protege 36 IG portuguesas, onde queijos, vinhos, enchidos e doces são os
principais ‘protegidos’, permitindo preços premium. “O acordo é
muito positivo, pois abre portas e facilita a entrada num mercado onde
Portugal já tem uma presença forte, nomeadamente o Brasil”, diz Frederico
Falcão, presidente da ViniPortugal, destacando que “regiões como o Alentejo,
Vinhos Verdes, Douro poderão ser mais beneficiadas por já terem maior volume de
exportações para o Brasil”.
Na
verdade, a redução tarifária permitirá que os consumidores acedam aos mesmos
vinhos, a preços mais baixos, e possibilitará o acesso a vinhos de melhor
qualidade, a preços mais acessíveis. Contudo, apesar do ganho potencial,
Portugal terá a concorrência de países, como a França, a Itália e, em menor
grau, a Espanha, com grande produção vinícola.
Os
quatro países sul-americanos representam também um mercado potencial para as
exportações de azeite. Portugal é o 6.º maior produtor mundial e o 4.º na
Europa, apenas atrás da Espanha, da Itália e da Grécia, de acordo com dados do
Tribunal de Contas Europeu.
Mariana
Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, afirma que, “apesar de o acordo
favorecer as empresas do setor”, o “impacto imediato será
relativamente reduzido”, já que, desde 2025, foram abolidas – ainda que
temporariamente, mas sem prazo definido – as taxas aduaneiras aplicadas ao
azeite virgem extra (principal produto exportado) para o mercado brasileiro, e
que as importações de azeite pelos restantes países (a Argentina, o Paraguai e o
Uruguai) são completamente residuais. E as regiões do Sul da Espanha, como a
Andaluzia e a Estremadura, podem representar competição acrescida com Alentejo.
Para
a metalomecânica e para a metalurgia, o setor mais exportador da economia
nacional, o “acordo é uma ótima notícia para as empresas portuguesas do metal”, na
ótica de Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da Associação dos
Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), pois releva
que o tratado “pode ser muito relevante num mundo cada vez mais polarizado
entre os EUA e a China”.
O
presidente da Associação Empresarial de Portugal, Luís Miguel Ribeiro,
corrobora a ideia do vice-presidente da AIMMAP e afirma que a aproximação entre
os dois blocos económicos “potenciará a integração de cadeias de valor”, um
passo importante para a UE reduzir a sua dependência, face a outros parceiros
comerciais, em especial aos EUA e à China.
Por
outro lado, quanto a riscos, Rafael Campos Pereira aponta a “pressão da
concorrência externa, política europeia protecionista para o setor de produção
de aço”, assim como barreiras antidumping e possíveis
restrições técnicas/políticas”. Portugal enfrentará a forte da
concorrência da Alemanha. Todavia, o acordo trará mais vantagens do que
desvantagens para as economias envolvidas e, em particular, para a
portuguesa, pela sua proximidade aos mercados – geográfica, cultural e
linguística – e pela necessidade de promover um crescimento económico
sustentável e duradouro, designadamente, “pela via do aumento da
intensidade exportadora e reforço da diversificação dos mercados de destino das
exportações”.
Contudo,
para produtos onde tanto o Mercosul como a UE têm vantagem comparativa, como
alimentos, madeira, animais vivos e produtos animais, há maior pressão para os
países europeus.
Apesar
de considerar que o acordo tem relevante impacto para Portugal, em setores como
o vinho, o azeite ou as frutas, quanto às importações, a CAP alerta para alguns produtos
“potencialmente sensíveis”, como as carnes de bovino, de suíno, de aves, o
arroz e o mel.
Para
Graça Mariano, diretora executiva da Associação Portuguesa dos Industriais de
Carnes (APIC), isto é uma “inundação de mercado que vai permitir a entrada
massiva de produtos a preços baixos” e constitui um desafio crítico à
sustentabilidade do setor português”, criando um cenário de “concorrência
desleal”. E, sendo Portugal um país deficitário em carne, “a entrada
facilitada de carne mais barata não virá complementar a oferta, mas substituir
a produção nacional, que perderá competitividade”.
Porém, o acordo dinamizará as exportações agroalimentares, e a UE
garantiu cláusulas de salvaguarda para proteger os produtores e para garantir
melhores condições de concorrência. Além de económico, é um instrumento “estratégico”,
no dizer de Ursula von der Leyen, e significa fazer pontes e união, enquanto outros
fazem muros e divisões, como diz António Costa
2026.01.18
– Louro de Carvalho