Em
Sexta-feira Santa, dia em que, reunindo-nos em torno da cruz de Cristo, fazemos
memória da Morte de Jesus na cruz, cumprem-se as palavras do profeta Zacarias
que João nos recorda na sua narração da Paixão e Morte de Jesus: “Hão de olhar
para Aquele que trespassaram.” A Liturgia da Palavra leva-nos, de facto, ao
centro da celebração: a adoração da cruz de Cristo.
O
primeiro contacto com a cruz de Cristo pode causar certo mal-estar. Numa
sociedade em que se oculta e se evita o sofrimento, a contemplação do condenado
provado pelo sofrimento incomoda e quase instintivamente leva à fuga e à
indiferença. Contudo, temos de olhar a cruz de Cristo com olhos de ver e de nos
demorar diante dela, sem nos atermos às primeiras impressões. Temos de
descobrir o verdadeiro sentido da cruz de Cristo. Na verdade, todas as leituras
do dia nos revelam uma dimensão importante da cruz de Cristo.
A
primeira leitura (Is 52,13-53, 12), é o quarto cântico do Servo do
Senhor, que as primeiras comunidades cristãs viram como imagem profética de
Jesus crucificado. Jesus crucificado é o Servo justo e silencioso que não acusa
nem invoca maldição e vingança para os que O maltratam, mas oferece a vida e intercede
por eles. O sofrimento silencioso do Servo é mais eloquente do que muitos
discursos. O silêncio não é resposta normal ao sofrimento indevido. Tanto a
experiência comum como o Antigo Testamento nos mostram que os justos inocentes,
quando são atingidos pelo sofrimento levantam a voz. Porém, o Servo do Senhor
segue rota diferente: sofrendo injustamente, não grita por vingança. Não entra
no círculo vicioso da vingança que gera violência atrás de violência, mas trava
e vence este círculo de violência pelo perdão. A postura nova e inesperada que
assumiu ante os maus tratos leva-nos a pensar. Passamos do profeta que
profetiza para o profeta profetizado. Morto e sepultado, não fala. Fala dele
Deus, falamos dele nós. Fala do Servo o grupo “nós” que, olhando o Servo,
descobre o seu pecado. Como diz este texto e como dirá, mais tarde, Pedro: “Pelas
suas chagas fomos curados.”
A
segunda leitura (Heb 4,15-16; 5,7-9) apresenta-nos Jesus como o
sumo-sacerdote, não num plano humano, porque não pertence a tribo sacerdotal de
Levi, nem recebeu ordenação das mãos de homem. É o verdadeiro sacerdote, porque,
sendo filho de Deus e verdadeiro Homem, tem todos os requisitos que o tornam o
mediador entre Deus e os homens. Pela sua obediência até à morte e morte de
cruz, ofereceu a Deus o sacrifício perfeito e obteve-nos a salvação. Deste
sumo-sacerdote que se imola no altar da cruz podemos nos aproximar cheios de
confiança, porque é Nele e na sua compaixão que encontramos a misericórdia e a
sua graça.
O
evangelho (Jo 18,1 – 19,42) relata a paixão de Jesus segundo João.
Jesus, neste evangelho, tinha predito que “assim como Moisés ergueu a serpente
no deserto, é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, a fim
de que todo o que Nele crê tenha a vida eterna”. Na verdade, é na cruz de
Cristo que se revela plenamente Jesus. Ora, este relato acentua a majestade de
Jesus. Jesus sabia tudo o que ia acontecer e, por isso, antecede-Se aos
acontecimentos, mostrando a sua liberdade. Além disso, João não refere – ou
refere muito ao de leve – os elementos que podiam acentuar a humilhação e o
sofrimento de Jesus na Paixão. A Paixão é como que a marcha triunfal de Jesus
até à cruz e a entronização real de Jesus. O diálogo entre Jesus e Pilatos é
sobre a realeza de Jesus. Jesus revela-Se como o rei. São, pois, de extrema
importância a apresentação de Jesus como rei por Pilatos aos Judeus e a
inscrição que Pilatos mandou colocar na cruz de Cristo. O facto de em Jo
19, 19-22 aparecer, três vezes, a expressão “rei dos judeus” é artefacto de
João para se aperceber que Jesus é rei na cruz. A inscrição que Pilatos mandou
colocar na cruz é o último ato da revelação da realeza de Jesus. O diálogo entre
Jesus e Pilatos prepara-nos para a interpretação da cruz e da morte de Jesus
como manifestação da sua realeza.
João
também apresenta a morte de Jesus como o verdadeiro e definitivo sacrifício do
cordeiro pascal. Além das referências à Páscoa presentes em todo o relato, há
detalhes que convém ter presentes. Em primeiro lugar, a unção de Jesus – a
consagração de Jesus – acontece “seis dias antes da Pascoa”, isto é, no momento
em que as prescrições rituais do Êxodo pedem que se separe o cordeiro destinado
ao sacrifício pascal. É de recordar que Jesus morre no dia da preparação, na
hora em que os cordeiros pascais eram sacrificados para a festa. Por isso, se
recorda o cumprimento da profecia de que “não lhe quebraram nenhum osso”,
referência clara a Jesus como verdadeiro cordeiro de Deus. O tema de Jesus como
o cordeiro de Deus já tinha sido pré-anunciado no início do quarto evangelho
com a proclamação “Eis o Cordeiro de Deus!”
O
Deus revelado na cruz de Cristo seduz-nos com a sua beleza e convida-nos a uma
maneira muito concreta de seguimento. Defronte do Deus revelado na cruz de
Cristo, o homem não pode ficar indiferente: é chamado, na sua liberdade, a
tomar uma decisão.
A
cruz explica quem é e como é Deus, em cada uma das pessoas da Trindade. Podemos,
então dizer que na cruz de Cristo descobrimos a verdadeira beleza: o todo que
se revela no fragmento. A verdadeira beleza é o Homem sem beleza nem atrativo
de Isaías. É a Beleza cravada no monte do calvário, mortal e salvífica. É
mortal, porque recorda aos habitantes do tempo a caducidade da sua permanência.
É salvífica, porque nos convida a transgredir o tempo rumo à eternidade. Ao
contemplarmos a Beleza cravada no monte do calvário, ocorre um choque em nós. A
revelação do amor apaixonado de Deus na Paixão de Cristo não nos deixa
indiferentes.
O
Deus revelado ‘sub contrario’, na cruz da beleza, convida o homem ao seguimento,
a um modo concreto de estar, de se situar e de agir no Mundo. A Igreja, nascida
do lado aberto de Cristo do qual manam sangue e água, prefiguração dos
sacramentos do batismo e da eucaristia, é chamada a ser discípula da cruz de
Cristo. A cruz de Cristo deve ser o princípio hermenêutico e crítico do ser e
da autoconstrução da Igreja. A Igreja que segue o Senhor Crucificado tem de ser
uma Igreja pobre, que não busque o poder. Os principais beneficiários da ação
da Igreja devem ser os pobres. A Igreja que ama o Crucificado tem de amar os
crucificados com quem Ele Se identifica. Além disso, a Igreja que segue o Crucificado
deve ser uma Igreja fecunda no sofrimento dos seus membros e que se alegra,
quando é perseguida pela sua autenticidade. A Igreja, peregrina na Terra, é
chamada a seguir Cristo pelos passos do sofrimento, da paixão e da cruz. Como
Jesus arriscou a vida em defesa dos valores do Reino, assim a Igreja está
chamada a ter uma dimensão profética. Por isso, cada membro da Igreja, corpo
místico do Senhor Crucificado, deve seguir a via da cruz, da entrega da vida
por amor e fidelidade. Todos e cada um dos discípulos de Jesus devem confrontar
a sua imagem com a de Jesus crucificado-ressuscitado. Cristo crucificado tem de
ser o critério hermenêutico e fundacional do ser, do pensar e do atuar dos discípulos.
***
Os
fiéis devem pensar com quais dos personagens do relato da Paixão mais se
identificam e não vê-la como facto passado de há dois mil anos, mas atual, com
cada cristão a refletir como a Paixão de Cristo se relaciona com a própria vida
e com o testemunho da fé na Igreja e na sociedade. Se a Paixão de Jesus
acontecesse hoje, nas nossas ruas, nos nossos tribunais, na nossa sociedade,
como é que reagiríamos? É claro que é mais fácil anunciar Cristo, agora, do que
na época dos primeiros cristãos, com a certeza do testemunho dos apóstolos, da
fé dos mártires e tantos santos e santas e de pessoas simples e ilustres que
creram firmemente na fé da Igreja.
Há
três personagens a destacar: Simão Cireneu, José de Arimateia e Nicodemos – que
têm muito a ensinar num Mundo em que as pessoas estão preocupadas com a própria
vida, indiferentes à dor do próximo, espalham mentiras sobre os demais e no
qual há quem seja capaz de criticar a Igreja por falar sobre amizade social.
O
Cireneu não se envergonhou de carregar a cruz de Cristo, sabendo que este foi
condenado, injuriado, torturado e acusado como falso profeta. Foi uma pessoa
solidária com o sofrimento do próximo, sensível a Jesus que já não aguentava o
peso da Cruz. Hoje, a insensibilidade é um dos problemas mais sérios e que faz
com que percamos em qualidade humana. Entretanto, Jesus carregou sobre Si o
peso que deveria estar sobre nossas costas. Pelas suas feridas, fomos curados.
Jesus é o bom samaritano da Humanidade.
Também
José de Arimateia e Nicodemos tiveram a coragem de testemunhar a sua adesão a
Cristo, para que pudesse ser sepultado condignamente. Tanto José de Arimateia como
Nicodemos, embora ocupassem altos cargos, fossem altamente reconhecidos,
tiveram a coragem de se expor para dar digna sepultura a Jesus. Declararam-se
discípulos de Jesus. Hoje, quantas vezes acontece que, na hora H, as pessoas
não se querem expor ou envolver, não se fazem defensoras da verdade, do que é
justo, do que é digno e do que merece ser honrado!
***
Diferente
dos Sinóticos, João apresenta elementos peculiares. Um Jesus dramático na hora
final não é uma vítima, mas alguém que decide, consciente e livremente oferecer
a sua vida.
“Antes
da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de
passar deste Mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no Mundo,
amou-os até o fim”. “Durante a ceia, quando já o diabo pusera no coração de
Judas Iscariotes, filho de Simão, a ideia de O entregar, sabendo que
o Pai tudo pusera em suas mãos e que viera de Deus e a Deus voltara, levanta-Se
da mesa, depõe o manto e, tomando uma toalha, cinge-Se com ela.” O verbo oida (sabendo)
indica a plena consciência do que se faz. É o lava-pés, símbolo do serviço e da
purificação!
Outro
dado importante é o destaque dado ao jardim. A Paixão tem o início e o término
no jardim. “Jesus foi com os discípulos para o outro lado da torrente do
Cedron. Havia ali um jardim, onde Jesus entrou com os seus discípulos.” “Havia
um jardim, no lugar onde Ele fora crucificado e, no jardim, um
sepulcro novo, no qual ninguém fora ainda colocado.” É uma alusão ao jardim do
Éden. Nele, o velho Adão rejeita o desígnio de Deus para si e depara-se com a
morte. Jesus, o novo Adão, acolhe o desígnio de Deus e assume-o até as últimas consequências,
oferecendo a sua vida para que pudéssemos ter vida plena.
O
relato joanino é o único a usar a expressão “hora de Jesus”, que indica a sua
glorificação, o seu retorno ao Pai. Assim, para João, a morte de Jesus na cruz
não tem caráter negativo, não é fracasso, derrota, mas, nela manifesta-se a
glória, a vitória. É necessário que o Filho do homem seja elevado sobre a cruz.
É o julgamento deste Mundo, em que o seu príncipe é derrubado.
No
episódio da prisão, Jesus vai ao encontro de Judas e não é pego de surpresa
como narra Marcos. O Jesus joânico não se encontra inclinado, não dobra os
joelhos, não se prostra com o rosto em terra em oração, não cai por terra. Permanece
de pé, pois é Deus.
Os
representantes do poder político, civil e religioso são abatidos, quando Jesus diz
o seu nome ‘Eu sou’, mostrando que ninguém Lhe pode arrebatar a vida, a não ser
que Ele o permita.
Na
narrativa joanina, não há um procedimento formal ante Caifás, mas um
interrogatório diante de Anás, para saber se Jesus admite algo de
revolucionário em seu movimento ou ensinamentos. Neste interrogatório, Jesus apresenta-se
absolutamente autoconfiante a Anás, de modo que os seus captores são
responsabilizados por O injuriarem. O interrogatório deixa Anás perplexo, e não
Jesus. João não menciona o processo judaico, pois o mesmo já se encontra em
todo o seu evangelho, desde o início, quando os judeus enviam sacerdotes e
levitas para saberem quem era Jesus, até a decisão das autoridades judaicas de
matá-lo.
Quanto
à negação de Pedro, João apresenta o drama completo do apóstolo. É um dos que
cortaram a orelha do soldado. Sobressaem as simultâneas negações de Pedro e da
autodefesa de Jesus. E é o único a referir a presença de outro discípulo, que a
tradição identifica como João, filho de Zebedeu.
Na
presença no tribunal romano, é de destacar o foco de João à postura de Jesus. Apresenta
um Jesus eloquente que responde às falsas acusações e aos questionamentos dos opositores,
que assume o título de “Rei dos judeus” e testemunha a verdade. Não há um julgamento
de Jesus por Pilatos. Não é Jesus que teme Pilatos; é Pilatos quem tem medo de
Jesus, o Filho de Deus. Pilatos não tem autoridade independente sobre Jesus.
Na
narrativa da crucifixão, da morte e do sepultamento, João não menciona Simão de
Cirene. Isso não significa que Simão não tenha ajudado Jesus, mas combate
alguns pensamentos heréticos que ventilavam no cristianismo primitivo, como o
docetismo, segundo o qual Jesus não sofreu na cruz, mas um outro o substituiu.
Quanto
à divisão das vestes de Jesus, João faz alusão explícita, mostrando que essa
repartição faz parte do cumprimento das profecias acerca do Messias. “Isso, a
fim de se cumprir a Escritura que diz: ‘Repartiram entre si minhas roupas e
sortearam minha túnica’.” E explicita que
a túnica de Jesus não foi rasgada, mas dividida. A túnica sem costura fez pensar
na Igreja una, que não deve ser dividida. Mas este pensamento é de época
posterior, com são Cipriano, quando a unidade da Igreja está ameaçada. Embora tenha
uma bela explicação teológica, não é certo que João tenha pensado nisso. O
apóstolo terá aludido à veste de José, túnica tecida com mangas, que os irmãos
embebem no sangue para que Jacob o julgue morto ou pensará na túnica do Sumo
Sacerdote, que era de uma só peça e que Filão compara ao Mundo com os seus
quatro elementos. A túnica sem costura usada por Jesus, segundo alguns
teólogos, significa que João não queria apresentar Jesus só como rei, mas também
como sacerdote. E, no relato da crucificação, destaca-se a presença das
mulheres, inclusive a mãe de Jesus que estava ao pé da cruz com o apóstolo João.
As
últimas palavras de Jesus na cruz também diferem das tradições de Mateus e de
Marcos. Em João, Jesus diz: “Tenho sede” e, “está consumado”. A cena é de
calmaria. Com isso, o evangelista apresenta Jesus como Aquele que controlava o seu
próprio destino.
Mateus
e Marcos colocam na boca de Jesus o início do salmo 22,2. João, ao mencionar o
grito de sede de Jesus, pensa no salmo 69,22 que diz: “Como alimento deram-me
fel e, na minha sede, serviram-me vinagre”. Até o grito mais humano de: “Tenho
sede!” pode ser colocado no contexto do soberano controlo de Jesus sobre seu
próprio destino.
A
entrega do espírito de Jesus é rica de significado teológico. “Quando Jesus
tomou o vinagre, disse “Está consumado!” “E, inclinando a cabeça, entregou o
espírito.” Para João, a entrega do Espírito Santo deu-Se com a morte na cruz e
na ressurreição, ao soprar sobre os apóstolos o Espírito Santo. João estará a sugerir,
por simbólica antecipação, que Jesus entregou o seu Espírito a seus seguidores
ao pé da cruz, em particular, aos dois expressamente citados (a mãe e o
discípulo amado), idealizados pela comunidade joanina como os seus antecedentes.
João
não menciona os sinais externos da Natureza, mas destaca o sinal no corpo de
Jesus: “Mas um dos soldados traspassou-Lhe o lado com a lança e, logo, saiu
sangue e água.” O sangue lembra a dimensão carnal (humanidade) e a água a
dimensão espiritual (divindade). Em João, a água é comparada ao Espírito: “Aquele
que crê em mim”, conforme a palavra da Escritura: De seu seio jorrarão rios de
água viva. Ele falava do Espírito que deviam receber os que haviam crido nele,
pois não havia ainda Espírito porque Jesus ainda não fora glorificado” (Jo
7,38-39). Sendo, para João, a cruz o lugar da glorificação de Jesus, essa
profecia cumpre-se, “pois a mistura de sangue e água é o sinal de que Jesus
passou desse Mundo para o Pai e foi glorificado. O sangue e a água jorrados do
corpo do Crucificado foram interpretados pelos Padres da Igreja como o
surgimento dos dois sacramentos da Iniciação Cristã: Batismo e Eucaristia, e
desses dois sacramentos, o nascimento da Igreja, a nova Eva, que sai do lado do
novo Adão.
No
sepultamento de Jesus, João menciona o aparecimento de Nicodemos. “Nicodemos,
que procurava, anteriormente, Jesus à noite, também veio, trazendo cerca de cem
libras de uma mistura de mirra e aloés.” Não tinha aderido, totalmente, à
proposta de Jesus, mas, agora, tem a coragem de mostrar o seu interesse pela
pessoa de Jesus. As palavras de Jesus começam a tornar-se verdadeiras: “Quando Eu
for elevado da terra, atrairei todos os homens a mim.”
Os
Sinóticos referem os perfumes usados para ungir o corpo de Jesus, mas João, ao
destacar a enorme quantidade de perfume, cerca de 32 quilos, evidencia a
realeza de Jesus. Somente no sepultamento dos reis se usava tamanha quantidade
de perfumes. Na Paixão segundo João, Jesus é apresentado como verdadeiro rei. A
unção de Nicodemos lembra-nos o que diz o salmista a respeito das núpcias do
rei-Messias com a Humanidade: “O teu trono é de Deus, para sempre e
eternamente! O centro do teu reino é cetro de retidão! Amas a justiça e odeias
a impiedade. Eis porque o teu Deus, te ungiu com óleo da alegria, como nenhum
dos teus companheiros; mirra e aloés perfumaram tuas vestes.”
A
Paixão de Cristo joanina é diferente dos Sinóticos, em vários aspetos. O Jesus de
Mateus e Marcos sente-Se abandonado. Lucas pinta o Jesus que Se preocupa com os
que choram e perdoa aos opositores. Para João, o crucificado não é o
fracassado, mas o rei soberano vitorioso, sobre quem o mal não tem poder. Porém,
todos os retratos de Jesus pintados pelos evangelistas são significativos. Importa
que alguns sejam capazes de ver a cabeça pendente de tristeza, enquanto outros
observem os braços abertos para perdoar, e outros percebam na tabuleta pregada na
cruz a proclamação do rei soberano. A cruz, em João, não é símbolo de maldição,
mas trono onde Jesus reina. Ao olhar para a cruz o homem de todos os tempos
reconhece e escreve na tabuleta do seu coração que Jesus é o rei da sua vida.
***
É
de combater a tentação de separar supostos elementos diferentes do mistério
pascal. Este coroa, como um todo, a vida de Jesus que passou pelo Mundo a fazer
o bem. A entrada triunfal em Jerusalém visa a celebração da Páscoa: na quinta-feira,
Jesus institui a Eucaristia (entrega sacrificial e refeição comunitária), ordena
a sua celebração, institui o sacerdócio e o mandamento do amor fraterno, como
selo discipular; na sexta-feira, isto é exposto, publicamente, no Calvário (o
centurião, João, a mãe, Maria Madalena e outras mulheres estão presentes); no
sábado, tudo germina na terra silente; e, no domingo, tudo eclode em espanto,
força e aleluia!
2026.04.03
– Louro de Carvalho