O Eurostat
divulgou, a 27 de maio, os dados do ano de 2025 relativos às horas trabalhadas
nos vários estados-membros, concluindo que a média da União Europeia (UE) foi
de 35,9 horas trabalhadas, por semana, no conjunto da economia e dos seus
vários setores.
Este
valor variou por toda a UE, desde 31,9 horas de trabalho efetivas, nos Países
Baixos, até 39,6 horas, na Grécia. Entre os trabalhadores a tempo inteiro, na
UE, os homens trabalhavam, em média, 39,4 horas, por semana, em comparação com
37,6 horas para as mulheres, com diferenças superiores a três horas na Irlanda,
nos Países Baixos e na Grécia. A Bélgica apresentou a maior diferença na
jornada de trabalho semanal habitual entre empregados (35,2 horas) e
trabalhadores por conta própria (43,2 horas).
A
análise considera trabalhadores a tempo inteiro e parcial, entre os 20 e os 64
anos, tendo por base o número de horas efetivamente trabalhadas no emprego
principal, ao longo de 2025.
Os
dados revelam a tendência gradual de redução da duração média do trabalho, na
Europa, ao longo da última década, pois, em 2015, os trabalhadores europeus
cumpriam, em média, mais uma hora semanal do que atualmente.
De
acordo com a entidade responsável pelas estatísticas da UE, Portugal fica entre
o grupo dos países que superam, claramente, a média comunitária, neste
indicador, acumulando o valor médio de horas trabalhadas, por semana, de 37,4,
para o conjunto da economia. Ou seja, os trabalhadores portugueses trabalharam,
em 2025, mais 1h30, em média, do que a média da UE.
Estas
estatísticas centram-se na população empregada entre os 20 e os 64 anos e
revelam clara quebra do número de horas trabalhadas, desde 2015, no espaço da UE,
dado que a média, em 2015, atingia as 36,9 horas, por semana (valor inferior às
37,4 horas, por semana, que se registaram em Portugal, dez anos depois).
Se
Portugal tem problemas de produtividade, eles virão mais do excesso de horas de
trabalho pouco produtivas (ou a produzir bens e serviços de valor inferior aos
criados noutras paragens) do que da falta de disponibilidade para passar horas
a trabalhar.
A Grécia atinge
o não invejável recorde de maior número de horas trabalhadas, entre os 27, e é
um dos 10 países que tem um registo de horas trabalhadas superior ao de
Portugal: os trabalhadores gregos trabalham, em média, mais 2h12, por
semana. A Bulgária e a Polónia surgem, logo a seguir, ambas com 38,7 horas, por
semana.
No
extremo oposto, surgem os Países Baixos, cuja semana, em média, exigiu
31,9 horas de trabalho de cada trabalhador – menos 5h30 do que para os
trabalhadores portugueses –, quase um dia inteiro de trabalho de diferença. A
Dinamarca e a Alemanha vêm, logo a seguir, com 33,9 horas, por semana.
Ana
Rita Rebelo, na revista online RHmagazine, a 28 de maio, diz que a “Europa
trabalha menos horas do que há 10 anos”. E, citando o Eurostat, regista que o primeiro
lugar pertence à Grécia, cujos trabalhadores fizeram, em média, 39,6 horas de
trabalho, por semana. Seguem-se a Bulgária e a Polónia, ambas com 38,7 horas, e
a Lituânia, com 38,4 horas. “Em 2025, as horas de trabalho efetivamente
trabalhadas, por semana, na UE, por trabalhadores a tempo inteiro e parcial
(com idades dos 20 aos 64 anos) nos seus empregos principais, foram, em média,
35,9, abaixo das 36,9 horas de 2015”, refere o gabinete de estatísticas europeu,
que a analista cita.
No
extremo oposto da tabela, surgem os Países Baixos, que continuam a registar a
semana de trabalho mais curta da UE. Também a Dinamarca e a Alemanha apresentam
médias reduzidas, ambas com 33,9 horas semanais, seguidas da Áustria, com 34
horas.
Os
trabalhadores portugueses continuam entre os que cumprem semanas
de trabalho mais longas na UE. Contudo, embora Portugal permaneça
acima da média europeia, continua relativamente distante dos países que lideram
a tabela das maiores cargas horárias semanais. Nestes termos, com 37,4 horas
semanais, o país coloca-se num patamar intermédio-alto dentro da UE, visto que
mantém uma carga horária superior à média comunitária, mas, significativamente,
abaixo dos valores registados nos países do topo da tabela.
O
Eurostat destaca, para o total agregado da UE, como se distribuem as horas
trabalhadas pelos vários setores da economia. Assim, as ocupações com a semana
de trabalho mais longa, na UE, foram dos trabalhadores qualificados na
agricultura, na silvicultura e nas pescas (42,0 horas de trabalho reais ou
efetivas), dos gestores (40,6) e das forças armadas (39,4).
Ao invés, as semanas de trabalho mais curtas foram dos trabalhadores do ensino
fundamental (31,8), dos trabalhadores de apoio administrativo (34,0) e dos
trabalhadores de serviços e de vendas (34,5).
As
semanas de trabalho mais longas continuam associadas às áreas da agricultura, das
florestas e das pescas, setores tradicionalmente marcados por maior
sazonalidade, por maior intensidade operacional e por menor previsibilidade
horária. Já com cargas horárias mais reduzidas surgem, por exemplo, além dos
apontados, os trabalhadores da limpeza, refletindo a diversidade de modelos
laborais existentes dentro do mercado europeu.
***
Em
2015, informação de teor semelhante – ainda que compilada pela Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE ou OECD), e não pelo Eurostat –
que, então, remetia para dados de 2014, dava conta do número total de horas
trabalhadas, por ano, e das posições relativas dos países, que não mudaram
significativamente, e colocava a Alemanha e a Grécia nos extremos.
Nas quase
300 páginas do “OECD Employment Outlook 2025, um dos indicadores mais curiosos,
ainda que não sendo verdadeiramente surpreendente, era o número médio de horas
trabalhadas, por trabalhador, em cada país da OCDE. De entre os países da Zona
Euro, a Alemanha destacava-se como o país com menor número médio de horas
trabalhadas. Portugal ficava na metade mais “trabalhadora” da tabela, sendo
superado pelos três países bálticos (a Estónia, a Letónia e a Lituânia), pela
Grécia e pela Eslováquia. A Grécia era, assim, dos países que estava, há mais
de uma década, no Euro, aquele onde o número médio de horas trabalhadas era
mais elevado.
Por
outro lado, a OCDE verificava que os empregos estavam a melhorar lentamente,
mas que milhões de pessoas “estavam em risco de ficarem aprisionados no fundo
do ascensor económico”.
Em
2014, na Europa, estava-se em tímida saída da crise económico-financeira,
desencadeada nos Estados Unidos da América (EUA), a qual, tendo contaminado
toda a Europa, teve consequências catastróficas, sobretudo, os países do Sul.
A
capacidade de geração de valor acrescentado pelos setores dominantes da
economia, em cada país (o tipo de especialização produtiva), e os
diferentes impactos nas respetivas economias que os choques externos e internos
à Zona Euro provocam e provocaram, em especial, desde a criação do Euro,
deverão ser os melhores fatores para explicar a diferença na situação económica
dos países do que o número de horas que cada trabalhador labora. A isto
acrescem diferentes recursos naturais, diferentes percursos históricos,
culturais e políticos. Mas, por este indicador, é evidente que nem os cidadãos gregos
são mais pobres, por serem, alegadamente, preguiçosos, nem os cidadãos alemães
são mais ricos, por trabalharem, supostamente, mais do que os outros. O
mesmo se aplica aos trabalhadores portugueses que, pelas horas trabalhadas,
estão longe de corresponder ao preconceito popular, no Norte da Europa, da
suposta dolce vita, no Sul, de férias, de feriados e de curtas
jornadas, sobretudo, na despudorada versão de Jeroen Dijsselbloem.
Com
efeito, a 21 de março de 2017, em entrevista ao jornal alemão Frankfurter
Allgemeine, o ministro das Finanças dos Países Baixos, líder do Eurogrupo, disse
que os países do Sul da Europa gastaram o seu dinheiro em “álcool e mulheres” e,
depois, pediram ajuda.
***
Os
dados do Eurostat baseiam-se no Inquérito Europeu às Forças de Trabalho (EU-LFS),
que destaca os principais aspetos da jornada de trabalho para diferentes grupos
de trabalhadores (homens e mulheres, trabalhadores a tempo parcial e a tempo
integral, empregados e trabalhadores por conta própria) e em diversas
atividades económicas e ocupações. Mais especificamente, concentra-se no número
médio de horas semanais de trabalho efetivas e habituais que os trabalhadores
empregados dedicaram ao seu emprego principal, em 2025.
As
profissões com a semana de trabalho mais longa, na UE, foram as de
trabalhadores qualificados da agricultura, da silvicultura e da pesca (42,0
horas de trabalho efetivas), de gestores (40,6 horas) e de membros das forças
armadas (39,4 horas). Por outro lado, as semanas de trabalho mais curtas ocorreram
em profissões elementares (31,8 horas), em trabalhadores de apoio
administrativo (34,0 horas) e em trabalhadores dos serviços e vendas (34,5
horas).
As
horas semanais efetivas de trabalho referem-se ao número total de horas que uma
pessoa dedicou a atividades laborais, na sua função principal. Isso engloba
todas as horas trabalhadas, incluindo horas extra conexas com a função
principal, independentemente da remuneração, sendo excluídos dessa mensuração períodos
de ausência do trabalho, como baixa médica, férias e tempo de deslocação (que
integram o cômputo das horas habituais). Os resultados são afetados pelas
diferentes proporções de trabalhadores em tempo parcial, entre os países, além
das diferenças nos marcos legais e na duração usual da semana de trabalho, em
cada país.
Na
UE, em 2025, os trabalhadores empregados relataram a seguinte média de horas de
trabalho semanais, no seu emprego principal; 9,9% não trabalharam nele; 7,2%
trabalharam entre 0,5 e 19,5 horas; 6,6% trabalharam entre 20 e 24,5 horas; 3,4%
trabalharam entre 25 e 29,5 horas; 9,2% trabalharam entre 30 e 34,5 horas;16,4%
trabalharam entre 35 e 39,5 horas; 37,6% trabalharam entre 40 e 44,5 horas; 4,0%
trabalharam entre 45 e 49,5 horas; e 5,8% trabalhavam 50 horas ou mais. A faixa
de 40,0 a 44,5 horas de trabalho efetivas, por semana, representou a maior
parcela de pessoas empregadas na maioria dos países, com as maiores proporções
registadas na Bulgária (82,8%), na Letónia (77,1%) e na Roménia (75,5%).
Exceções foram observadas na Bélgica, na Dinamarca, na Finlândia, na França e na
Irlanda, onde a maior parte dos empregados trabalhava, em média, entre 35,0 e
39,5 horas, por semana.
Em
geral, há consistência entre as horas de trabalho reais e as habituais, embora o
número de horas de trabalho reais tenda a ser inferior ao das habituais, o que é
explicável pelo facto de as horas de trabalho habituais não serem afetadas por
ausências, enquanto as horas de trabalho reais são afetadas por férias, por
baixas médicas ou por outros tipos de ausências.
A
comparação da distribuição das horas de trabalho reais e habituais no emprego
principal, por tipo de vínculo no emprego, mostra que os trabalhadores autónomos
estão mais fortemente representados nas categorias de maior jornada de trabalho
(ou seja, 40,0-44,5 horas e 45,0 horas ou mais) do que os empregados. Entre os
empregados, a maior parte trabalhava entre 40,0 e 44,5 horas, por semana
(38,4%), enquanto só 6,4% trabalhavam 45,0 horas ou mais. Em contraponto, entre
os trabalhadores autónomos, observou-se distribuição igual (32,2%), tanto para
a categoria de 40,0 a 44,5 horas como para a categoria de 45,0 horas ou mais.
A
média de horas de trabalho semanais para trabalhadores a tempo inteiro, na UE, diferia
entre homens e mulheres em 2025: os homens trabalhavam em média 39,4 horas por
semana, enquanto as mulheres trabalhavam 37,6 horas.
Para
as mulheres, a semana de trabalho mais longa foi registada na Eslovénia (39,2
horas), seguida da Lituânia (39,1 horas) e da Letónia e da Polónia (ambas com
38,9 horas). As semanas de trabalho médias mais curtas para mulheres foram
observadas nos Países Baixos (35,0 horas), na Finlândia (35,6 horas), na Irlanda
(35,9 horas) e na Bélgica (36,4 horas). Para os homens, só quatro países da UE
registaram uma semana de trabalho média de 40 horas ou mais, em 2025: a Grécia
(41,8 horas), a Polónia (40,6 horas), a Eslovénia (40,2 horas) e Chipre (40,0
horas). Os homens com emprego a tempo inteiro trabalharam menos horas, por
semana, na Finlândia e nos Países Baixos (ambos com 38,4 horas), seguidos pela
Hungria e pela Suécia (ambos com 38,5 horas).
As
maiores diferenças entre homens e mulheres (três horas ou mais, por semana)
foram observadas na Irlanda, onde os homens trabalhavam 39,9 horas, por semana,
em comparação com 35,9 horas para as mulheres, na Holanda (38,4 horas para os
homens e 35,0 horas para as mulheres) e na Grécia (41,8 horas para os homens e
38,8 horas para as mulheres). Em contraponto, as menores diferenças entre
homens e mulheres, de menos de 0,5 horas, por semana, foram registadas na Letónia
e na Bulgária.
A
nível da UE, em 2025, os trabalhadores independentes com empregados (os empregadores)
registaram a semana de trabalho habitual média mais longa na sua atividade
principal, com 46,4 horas, seguidos pelos trabalhadores por conta própria, com
39,7 horas. Já os empregados trabalhavam, em média, 36,6 horas habituais por
semana.
As
semanas de trabalho médias mais longas para os empregadores foram registadas na
França (50,0 horas), na Bélgica (49,8 horas) e na Grécia (49,2 horas). A
Bélgica também apresentou a maior diferença na jornada de trabalho semanal
habitual entre empregados (35,2 horas) e trabalhadores por conta própria (43,2
horas). Em muitos países da UE, os trabalhadores por conta própria trabalharam
mais horas semanais do que os empregados, em 2025. Porém, o padrão oposto ocorreu
em Chipre, na Letónia, na Estónia, na Lituânia e na Roménia, onde os empregados
trabalharam mais horas do que os trabalhadores por conta própria.
***
Está
visto que não é por se trabalhar mais horas, por semana, ou por haver mais feriados
ou dias de férias que a encomia se robustece. Se as empresas encaram fortes
custos de produção, por exemplo, devido ao elevado preço de energia elétrica,
dos combustíveis ou da maquinaria, também não fazem crescer a economia, sobrecarregando,
indevidamente, os trabalhadores, agravando-lhes as condições de trabalho, não
lhes atribuindo remuneração condigna ou não lhes acenando com uma carreira valorizada
e atraente.
O
trabalho, dever do trabalhador, terá de constituir ocupação em que ele se sinta
dignificado, reconhecido, valorizado e respeitado nos seus direitos e valores,
de pessoa, de cidadão e de membro de uma família. Negando direitos aos
trabalhadores, sobrecarregando-os, pagando-lhes mal, não os apoiando na saúde e
não lhes dando espaço para a família e para a intervenção na vida pública, como
querem os empresários e o Estado ter sucesso? Nesta matéria, o Estado deve
assumir efetivo papel telemático, regulador e, se necessário, interventivo.
Por
outro lado, falta, na administração pública e na malha empresarial, capacidade
de organização, de planeamento, de gestão (justa, paciente, participativa e comunicacional)
e de avaliação. Por exemplo, funciona, em avaliações e em promoções, o amiguismo,
em detrimento do mérito; inicia-se uma obra particular ou pública, sem alocar,
a tempo e horas, os elementos necessários; queixamo-nos da falta de
trabalhadores, mas deixamos partir gente qualificada para o estrangeiro e, em
vez de regularizarmos a imigração, espantamo-la. Assim, não!
2026.05.29
– Louro de Carvalho
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