sábado, 30 de maio de 2026

Portugueses trabalham mais 1h30, por semana, do que média da UE

 

O Eurostat divulgou, a 27 de maio, os dados do ano de 2025 relativos às horas trabalhadas nos vários estados-membros, concluindo que a média da União Europeia (UE) foi de 35,9 horas trabalhadas, por semana, no conjunto da economia e dos seus vários setores.

Este valor variou por toda a UE, desde 31,9 horas de trabalho efetivas, nos Países Baixos, até 39,6 horas, na Grécia. Entre os trabalhadores a tempo inteiro, na UE, os homens trabalhavam, em média, 39,4 horas, por semana, em comparação com 37,6 horas para as mulheres, com diferenças superiores a três horas na Irlanda, nos Países Baixos e na Grécia. A Bélgica apresentou a maior diferença na jornada de trabalho semanal habitual entre empregados (35,2 horas) e trabalhadores por conta própria (43,2 horas).

A análise considera trabalhadores a tempo inteiro e parcial, entre os 20 e os 64 anos, tendo por base o número de horas efetivamente trabalhadas no emprego principal, ao longo de 2025.

Os dados revelam a tendência gradual de redução da duração média do trabalho, na Europa, ao longo da última década, pois, em 2015, os trabalhadores europeus cumpriam, em média, mais uma hora semanal do que atualmente.

De acordo com a entidade responsável pelas estatísticas da UE, Portugal fica entre o grupo dos países que superam, claramente, a média comunitária, neste indicador, acumulando o valor médio de horas trabalhadas, por semana, de 37,4, para o conjunto da economia. Ou seja, os trabalhadores portugueses trabalharam, em 2025, mais 1h30, em média, do que a média da UE.

Estas estatísticas centram-se na população empregada entre os 20 e os 64 anos e revelam clara quebra do número de horas trabalhadas, desde 2015, no espaço da UE, dado que a média, em 2015, atingia as 36,9 horas, por semana (valor inferior às 37,4 horas, por semana, que se registaram em Portugal, dez anos depois).

Se Portugal tem problemas de produtividade, eles virão mais do excesso de horas de trabalho pouco produtivas (ou a produzir bens e serviços de valor inferior aos criados noutras paragens) do que da falta de disponibilidade para passar horas a trabalhar.

A Grécia atinge o não invejável recorde de maior número de horas trabalhadas, entre os 27, e é um dos 10 países que tem um registo de horas trabalhadas superior ao de Portugal: os trabalhadores gregos trabalham, em média, mais 2h12, por semana. A Bulgária e a Polónia surgem, logo a seguir, ambas com 38,7 horas, por semana.

No extremo oposto, surgem os Países Baixos, cuja semana, em média, exigiu 31,9 horas de trabalho de cada trabalhador – menos 5h30 do que para os trabalhadores portugueses –, quase um dia inteiro de trabalho de diferença. A Dinamarca e a Alemanha vêm, logo a seguir, com 33,9 horas, por semana.

Ana Rita Rebelo, na revista online RHmagazine, a 28 de maio, diz que a “Europa trabalha menos horas do que há 10 anos”. E, citando o Eurostat, regista que o primeiro lugar pertence à Grécia, cujos trabalhadores fizeram, em média, 39,6 horas de trabalho, por semana. Seguem-se a Bulgária e a Polónia, ambas com 38,7 horas, e a Lituânia, com 38,4 horas. “Em 2025, as horas de trabalho efetivamente trabalhadas, por semana, na UE, por trabalhadores a tempo inteiro e parcial (com idades dos 20 aos 64 anos) nos seus empregos principais, foram, em média, 35,9, abaixo das 36,9 horas de 2015”, refere o gabinete de estatísticas europeu, que a analista cita.

No extremo oposto da tabela, surgem os Países Baixos, que continuam a registar a semana de trabalho mais curta da UE. Também a Dinamarca e a Alemanha apresentam médias reduzidas, ambas com 33,9 horas semanais, seguidas da Áustria, com 34 horas.

Os trabalhadores portugueses continuam entre os que cumprem semanas de trabalho mais longas na UE. Contudo, embora Portugal permaneça acima da média europeia, continua relativamente distante dos países que lideram a tabela das maiores cargas horárias semanais. Nestes termos, com 37,4 horas semanais, o país coloca-se num patamar intermédio-alto dentro da UE, visto que mantém uma carga horária superior à média comunitária, mas, significativamente, abaixo dos valores registados nos países do topo da tabela.

O Eurostat destaca, para o total agregado da UE, como se distribuem as horas trabalhadas pelos vários setores da economia. Assim, as ocupações com a semana de trabalho mais longa, na UE, foram dos trabalhadores qualificados na agricultura, na silvicultura e nas pescas (42,0 horas de trabalho reais ou efetivas), dos gestores (40,6) e das forças armadas (39,4). Ao invés, as semanas de trabalho mais curtas foram dos trabalhadores do ensino fundamental (31,8), dos trabalhadores de apoio administrativo (34,0) e dos trabalhadores de serviços e de vendas (34,5).

As semanas de trabalho mais longas continuam associadas às áreas da agricultura, das florestas e das pescas, setores tradicionalmente marcados por maior sazonalidade, por maior intensidade operacional e por menor previsibilidade horária. Já com cargas horárias mais reduzidas surgem, por exemplo, além dos apontados, os trabalhadores da limpeza, refletindo a diversidade de modelos laborais existentes dentro do mercado europeu.

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Em 2015, informação de teor semelhante – ainda que compilada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE ou OECD), e não pelo Eurostat – que, então, remetia para dados de 2014, dava conta do número total de horas trabalhadas, por ano, e das posições relativas dos países, que não mudaram significativamente, e colocava a Alemanha e a Grécia nos extremos.

Nas quase 300 páginas do “OECD Employment Outlook 2025, um dos indicadores mais curiosos, ainda que não sendo verdadeiramente surpreendente, era o número médio de horas trabalhadas, por trabalhador, em cada país da OCDE. De entre os países da Zona Euro, a Alemanha destacava-se como o país com menor número médio de horas trabalhadas. Portugal ficava na metade mais “trabalhadora” da tabela, sendo superado pelos três países bálticos (a Estónia, a Letónia e a Lituânia), pela Grécia e pela Eslováquia. A Grécia era, assim, dos países que estava, há mais de uma década, no Euro, aquele onde o número médio de horas trabalhadas era mais elevado.

Por outro lado, a OCDE verificava que os empregos estavam a melhorar lentamente, mas que milhões de pessoas “estavam em risco de ficarem aprisionados no fundo do ascensor económico”.

Em 2014, na Europa, estava-se em tímida saída da crise económico-financeira, desencadeada nos Estados Unidos da América (EUA), a qual, tendo contaminado toda a Europa, teve consequências catastróficas, sobretudo, os países do Sul.

A capacidade de geração de valor acrescentado pelos setores dominantes da economia, em cada país (o tipo de especialização produtiva), e os diferentes impactos nas respetivas economias que os choques externos e internos à Zona Euro provocam e provocaram, em especial, desde a criação do Euro, deverão ser os melhores fatores para explicar a diferença na situação económica dos países do que o número de horas que cada trabalhador labora. A isto acrescem diferentes recursos naturais, diferentes percursos históricos, culturais e políticos. Mas, por este indicador, é evidente que nem os cidadãos gregos são mais pobres, por serem, alegadamente, preguiçosos, nem os cidadãos alemães são mais ricos, por trabalharem, supostamente, mais do que os outros.  O mesmo se aplica aos trabalhadores portugueses que, pelas horas trabalhadas, estão longe de corresponder ao preconceito popular, no Norte da Europa, da suposta dolce vita, no Sul, de férias, de feriados e de curtas jornadas, sobretudo, na despudorada versão de Jeroen Dijsselbloem.

Com efeito, a 21 de março de 2017, em entrevista ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine, o ministro das Finanças dos Países Baixos, líder do Eurogrupo, disse que os países do Sul da Europa gastaram o seu dinheiro em “álcool e mulheres” e, depois, pediram ajuda.

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Os dados do Eurostat baseiam-se no Inquérito Europeu às Forças de Trabalho (EU-LFS), que destaca os principais aspetos da jornada de trabalho para diferentes grupos de trabalhadores (homens e mulheres, trabalhadores a tempo parcial e a tempo integral, empregados e trabalhadores por conta própria) e em diversas atividades económicas e ocupações. Mais especificamente, concentra-se no número médio de horas semanais de trabalho efetivas e habituais que os trabalhadores empregados dedicaram ao seu emprego principal, em 2025.

As profissões com a semana de trabalho mais longa, na UE, foram as de trabalhadores qualificados da agricultura, da silvicultura e da pesca (42,0 horas de trabalho efetivas), de gestores (40,6 horas) e de membros das forças armadas (39,4 horas). Por outro lado, as semanas de trabalho mais curtas ocorreram em profissões elementares (31,8 horas), em trabalhadores de apoio administrativo (34,0 horas) e em trabalhadores dos serviços e vendas (34,5 horas).

As horas semanais efetivas de trabalho referem-se ao número total de horas que uma pessoa dedicou a atividades laborais, na sua função principal. Isso engloba todas as horas trabalhadas, incluindo horas extra conexas com a função principal, independentemente da remuneração, sendo excluídos dessa mensuração períodos de ausência do trabalho, como baixa médica, férias e tempo de deslocação (que integram o cômputo das horas habituais). Os resultados são afetados pelas diferentes proporções de trabalhadores em tempo parcial, entre os países, além das diferenças nos marcos legais e na duração usual da semana de trabalho, em cada país.

Na UE, em 2025, os trabalhadores empregados relataram a seguinte média de horas de trabalho semanais, no seu emprego principal; 9,9% não trabalharam nele; 7,2% trabalharam entre 0,5 e 19,5 horas; 6,6% trabalharam entre 20 e 24,5 horas; 3,4% trabalharam entre 25 e 29,5 horas; 9,2% trabalharam entre 30 e 34,5 horas;16,4% trabalharam entre 35 e 39,5 horas; 37,6% trabalharam entre 40 e 44,5 horas; 4,0% trabalharam entre 45 e 49,5 horas; e 5,8% trabalhavam 50 horas ou mais. A faixa de 40,0 a 44,5 horas de trabalho efetivas, por semana, representou a maior parcela de pessoas empregadas na maioria dos países, com as maiores proporções registadas na Bulgária (82,8%), na Letónia (77,1%) e na Roménia (75,5%). Exceções foram observadas na Bélgica, na Dinamarca, na Finlândia, na França e na Irlanda, onde a maior parte dos empregados trabalhava, em média, entre 35,0 e 39,5 horas, por semana.

Em geral, há consistência entre as horas de trabalho reais e as habituais, embora o número de horas de trabalho reais tenda a ser inferior ao das habituais, o que é explicável pelo facto de as horas de trabalho habituais não serem afetadas por ausências, enquanto as horas de trabalho reais são afetadas por férias, por baixas médicas ou por outros tipos de ausências.

A comparação da distribuição das horas de trabalho reais e habituais no emprego principal, por tipo de vínculo no emprego, mostra que os trabalhadores autónomos estão mais fortemente representados nas categorias de maior jornada de trabalho (ou seja, 40,0-44,5 horas e 45,0 horas ou mais) do que os empregados. Entre os empregados, a maior parte trabalhava entre 40,0 e 44,5 horas, por semana (38,4%), enquanto só 6,4% trabalhavam 45,0 horas ou mais. Em contraponto, entre os trabalhadores autónomos, observou-se distribuição igual (32,2%), tanto para a categoria de 40,0 a 44,5 horas como para a categoria de 45,0 horas ou mais.

A média de horas de trabalho semanais para trabalhadores a tempo inteiro, na UE, diferia entre homens e mulheres em 2025: os homens trabalhavam em média 39,4 horas por semana, enquanto as mulheres trabalhavam 37,6 horas.

Para as mulheres, a semana de trabalho mais longa foi registada na Eslovénia (39,2 horas), seguida da Lituânia (39,1 horas) e da Letónia e da Polónia (ambas com 38,9 horas). As semanas de trabalho médias mais curtas para mulheres foram observadas nos Países Baixos (35,0 horas), na Finlândia (35,6 horas), na Irlanda (35,9 horas) e na Bélgica (36,4 horas). Para os homens, só quatro países da UE registaram uma semana de trabalho média de 40 horas ou mais, em 2025: a Grécia (41,8 horas), a Polónia (40,6 horas), a Eslovénia (40,2 horas) e Chipre (40,0 horas). Os homens com emprego a tempo inteiro trabalharam menos horas, por semana, na Finlândia e nos Países Baixos (ambos com 38,4 horas), seguidos pela Hungria e pela Suécia (ambos com 38,5 horas).

As maiores diferenças entre homens e mulheres (três horas ou mais, por semana) foram observadas na Irlanda, onde os homens trabalhavam 39,9 horas, por semana, em comparação com 35,9 horas para as mulheres, na Holanda (38,4 horas para os homens e 35,0 horas para as mulheres) e na Grécia (41,8 horas para os homens e 38,8 horas para as mulheres). Em contraponto, as menores diferenças entre homens e mulheres, de menos de 0,5 horas, por semana, foram registadas na Letónia e na Bulgária.

A nível da UE, em 2025, os trabalhadores independentes com empregados (os empregadores) registaram a semana de trabalho habitual média mais longa na sua atividade principal, com 46,4 horas, seguidos pelos trabalhadores por conta própria, com 39,7 horas. Já os empregados trabalhavam, em média, 36,6 horas habituais por semana.

As semanas de trabalho médias mais longas para os empregadores foram registadas na França (50,0 horas), na Bélgica (49,8 horas) e na Grécia (49,2 horas). A Bélgica também apresentou a maior diferença na jornada de trabalho semanal habitual entre empregados (35,2 horas) e trabalhadores por conta própria (43,2 horas). Em muitos países da UE, os trabalhadores por conta própria trabalharam mais horas semanais do que os empregados, em 2025. Porém, o padrão oposto ocorreu em Chipre, na Letónia, na Estónia, na Lituânia e na Roménia, onde os empregados trabalharam mais horas do que os trabalhadores por conta própria.

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Está visto que não é por se trabalhar mais horas, por semana, ou por haver mais feriados ou dias de férias que a encomia se robustece. Se as empresas encaram fortes custos de produção, por exemplo, devido ao elevado preço de energia elétrica, dos combustíveis ou da maquinaria, também não fazem crescer a economia, sobrecarregando, indevidamente, os trabalhadores, agravando-lhes as condições de trabalho, não lhes atribuindo remuneração condigna ou não lhes acenando com uma carreira valorizada e atraente.

O trabalho, dever do trabalhador, terá de constituir ocupação em que ele se sinta dignificado, reconhecido, valorizado e respeitado nos seus direitos e valores, de pessoa, de cidadão e de membro de uma família. Negando direitos aos trabalhadores, sobrecarregando-os, pagando-lhes mal, não os apoiando na saúde e não lhes dando espaço para a família e para a intervenção na vida pública, como querem os empresários e o Estado ter sucesso? Nesta matéria, o Estado deve assumir efetivo papel telemático, regulador e, se necessário, interventivo.

Por outro lado, falta, na administração pública e na malha empresarial, capacidade de organização, de planeamento, de gestão (justa, paciente, participativa e comunicacional) e de avaliação. Por exemplo, funciona, em avaliações e em promoções, o amiguismo, em detrimento do mérito; inicia-se uma obra particular ou pública, sem alocar, a tempo e horas, os elementos necessários; queixamo-nos da falta de trabalhadores, mas deixamos partir gente qualificada para o estrangeiro e, em vez de regularizarmos a imigração, espantamo-la. Assim, não!

2026.05.29 – Louro de Carvalho


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