sábado, 7 de dezembro de 2019

Santo Ambrósio de Milão o rito ambrosiano e a catedral da Madonnina


Celebra-se, a 7 de dezembro, a memória litúrgica de Santo Ambrósio, Bispo de Milão, doutor da Igreja e padroeiro dos apicultores, que, nascido em Tréveris (na atual Alemanha), cerca do ano 340, descansou no Senhor na noite santa da Páscoa de 4 de abril de 397. É, no entanto, venerado neste dia, em que, ainda catecúmeno, foi eleito para dirigir esta sede episcopal, quando era prefeito da cidade. Verdadeiro pastor e mestre dos fiéis, exercitou de modo singular a caridade para com todos, defendeu valorosamente a liberdade da Igreja e a reta doutrina da fé contra os arianos e instruiu na piedade o povo com os seus comentários e hinos sagrados.
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Alguns dados biográficos
Tinha escolhido a carreira de magistrado, no seguimento dos passos do pai, prefeito romano da Gália, e, aos 30 anos, era já como cônsul de Milão, cidade que era então capital do império.
A 7 de dezembro de 374, em que arianos e católicos disputavam o direito de nomear o novo Bispo, cabia-lhe garantir a ordem pública na cidade e impedir que se desencadeassem tumultos. E aconteceu o imprevisível: quando ele falou à multidão com tanto bom senso e autoridade, ergueu-se (diz-se que da parte duma criança) um grito reiterado e insistente: “Ambrósio é o bispo”! E, a pensar que era apenas um catecúmeno à espera do Batismo, acabou por ceder ao clamor quando compreendeu que era aquela a vontade de Deus, que o queria ao seu serviço.
Começou por distribuir os seus bens aos pobres e dedicou-se a um estudo sistemático da Sagrada Escritura. Aprendeu a pregar, tornando-se um dos mais célebres oradores do seu tempo, capaz de encantar até um intelectual refinado como Agostinho, que se converteu graças a ele.
Mantém relações estreitas com o imperador, mas com a capacidade de lhe resistir quando necessário, recordando a todos que “o imperador está dentro da Igreja, não sobre a Igreja”. Assim, quando soube que Teotónio o Grande tinha ordenado uma violenta e injusta repressão em Tessalónica, não temeu em exigir ao soberano uma expiação pública.
Dizem que, no termo da sua vida, confidenciou: “Não tenho medo de morrer porque temos um Senhor bom”. De facto, como escreve – e bem –,“aquilo que o amor faz, o medo jamais poderá realizá-lo”, pois, “nada é mais útil do que fazer-se amar» (cf De officiis II, 29).
À sua Igreja deixou um rico tesouro de ensinamentos, sobretudo no campo da vida moral e social, bem como um impulso que se conserva ainda, inclusive no campo litúrgico e musical.
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O rito ambrosiano ou rito milanês
É uma figura incontornável e tão relevante que se lhe atribui um rito próprio no âmbito da Igreja Latina, o rito ambrosiano ou rito milanês, ou seja, um dos ritos ocidentais da Igreja Católica e que é atualmente seguido pelos católicos romanos da Arquidiocese de Milão (Archidioecesis Mediolanensis), região eclesiástica da Lombardia (excetuando as comunas de Monza, Treviglio e Trezzo sull’Adda e as paróquias de Civitate e Varenna), pelas paróquias de Cannobio e Cannero Riviera, do cantão de Tessino e, na Diocese de Lodi (Dioecesis Laudensis), pelas paróquias de Colturano, Riozzo e Balbiano: cerca de 5 milhões de fiéis.
As principais diferenças entre o rito ambrosiano e o rito romano são:
Na missa, o celebrante principal não abençoa só o diácono,  mas todos os leitores (primeira e segunda leitura e salmo responsorial, inclusive); entre o Evangelho e a Homilia, recita-se ou canta-se uma antífona; as preces da comunidade pospõem-se diretamente à Homilia e precedem a Profissão de Fé; o Rito da Paz dá-se ao início da Liturgia Eucarística, precedendo a Apresentação dos Dons ou Ofertório; há diferenças entre o Cânone Romano (Oração Eucarística I) e a Oração Eucarística I ambrosiana, mas as Orações Eucarísticas II, III e IV são as mesmas e acrescentam-se duas Orações Eucarísticas próprias do rito ambrosiano, utilizadas sobretudo na Quinta-feira Santa e na Páscoa; o sacerdote procede à fração da espécie de pão e acrescenta-a ao cálice antes do Pai Nosso, enquanto se recita uma antífona; não se diz nem se canta Agnus Dei; antes da Bênção Final, a Assembleia clama três vezes Kyrie eleison (Senhor, tende piedade de nós), sem o Christe eleison (Cristo, tende piedade de nós); o Ciclo de Leituras é próprio do Rito; grande parte das Orações do Sacerdote é peculiar; e há grande variedade de antífonas.
No âmbito do Ano Litúrgico, o Advento ambrosiano tem 6 semanas, não 4; a Quaresma ambrosiana começa 4 dias depois da romana, logo não tem a Quarta-feira de Cinzas e o Carnaval continua até ao sábado, o Sabato Grasso (sábado gordo), correspondendo à terça-feira gorda; nas sextas-feiras da Quaresma não se celebra a Missa e, com raras exceções, não é distribuída a Comunhão Eucarística; a cor litúrgica do Tempo Comum não é o verde mas o vermelho; e há, ainda, outras diferenças de cores litúrgicas no decorrer do ano.
Outras diferenças recaem sobre o Ofício Divino ou Liturgia das Horas, que difere em estrutura e conteúdo; na Liturgia da Semana Santa, que é um pouco diferente; nas Exéquias, que são próprias; não se usa a infusão de água no Batismo, mas a imersão da cabeça; o turíbulo não é fechado e é girado pelo turiferário em sentido dos ponteiros do relógio antes de se incensar alguém ou algo; o diácono usa a estola sobre e não sob a dalmática. A batina ambrosiana tem apenas 5 botões (a simbolizar as chagas de Cristo), não 33 (símbolo da idade do Senhor); a faixa é peitoral e não na direção dos rins; a pala é inteira, não quadrada como a romana; e não se usa o canto gregoriano, mas o canto ambrosiano.
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A Catedral de Milão dedicada à Madonnina
Além do rito especial, em Milão ressalta a Catedral (em italiano, Duomo di Milano), uma das maiores catedrais católicas do mundo (a terceira maior, depois da Basílica de São Pedro e da Catedral de Sevilha).
Sita na praça central da cidade, é a sede da Arquidiocese e uma das mais célebres e complexas edificações góticas da Europa. O estilo predominante é o gótico flamejante, pouco comum na Itália. Tem 157 metros de comprimento, 109 de largura e 11.700 m2 no interior. É um espaço para mais de 40.000 pessoas. O interior tem 5 naves com altura que chega aos 45 metros, divididas por 40 pilares. O transepto abrange três naves. A sua atual fachada principal é de meados do século XVIII.
A sua construção começou em 1386 (de trás para frente, ou seja da abside para a fachada) por iniciativa do Arcebispo Antonio da Saluzzo, num estilo gótico tardio de influência francesa e centro-europeia, distinto do estilo corrente na Itália de então, e com apoio do senhor da cidade, o duque Gian Galeazzo Visconti, que, desejando renovar a área e celebrar a sua política de expansão territorial, impulsou a obra através de facilidades fiscais e promoveu o uso do mármore de Candoglia como material de construção. A obra avançou rápido e, em 1418, foi consagrado pelo Papa Martinho V o altar-mor. Já em meados do século XV a parte leste (abside) estava completa. A partir desta data, porém, as obras prosseguiram lentamente até fins do século XV.
Entre 1500 e 1510, foi completada a cúpula octogonal do arco cruzeiro  e foi decorado o interior com várias séries de estátuas. Porém, a fachada poente do edifício permaneceu ainda inacabada. Em 1577 a catedral foi consagrada novamente pelo Arcebispo Carlos Borromeo. Apenas no século XVII foi construída a fachada, em estilo maneirista. Em meados do século XVIII, foi completada a parte externa da cúpula, onde foi colocada a estátua da Madoninna.
Em 1805, por iniciativa de Napoleão, que havia invadido a Itália, as obras foram recomeçadas. Nessa época a fachada principal e grande parte dos detalhes exteriores, como os pináculos, foi completada numa mistura de estilos, entre o neogótico e o neobarroco. Só em 1813 foi dada por finalizada a catedral (mais de 400 anos após o início das obras). Porém no XX século julgou-se necessário trocar as 5 portas da fachada, o que só foi acabado em 1965. A catedral é hoje um importante ponto turístico de Milão; e do alto do seu terraço é possível vislumbrar toda a cidade.
A catedral, que sempre teve réplicas de metal comercializadas a turistas, tornou-se famosa após de 13 de dezembro de 2009 (um domingo), quando Silvio Berlusconi foi atingido com uma réplica. As vendas bateram o recorde  e depressa se esgotaram nas lojas, sendo a maioria dos clientes opositores ao Governo. A reprodução da forma gótica e pontiaguda, com 135 pontas de mármore, explica a gravidade dos ferimentos ocasionados ao então chefe do Governo.
O lugar era ocupado pela Basílica de Santo Ambrósio desde o século V e, em 836, foi agregada a Basílica de Santa Tecla ou de Santa Maria Maior, que foi demolida por partes e cuja fachada permaneceu até ser substituída pela atual. Em 1075, ambos os edifícios foram destruídos por um grande incêndio e em 1386 começou a construção do Duomo no mesmo lugar.
A construção decorreu durante 5 séculos, em que diferentes arquitetos, escultores e artistas deram a sua contribuição profissional na famosa “Fabbrica del Duomo” (Fábrica da Catedral). O resultado do trabalho foi uma arquitetura única (mescla estilo gótico internacional e tradição lombarda).
O exterior está revestido de mármore branco rosado proveniente das cavernas de Candoglia, em Val D’Ossola, e a parte superior culmina com uma infinidade de pináculos e torres com estátuas que contemplam a cidade. No ponto mais alto está a estátua de cobre dourado esculpida por Giuseppe Perego em 1774, conhecida como Madonnina e transformada em símbolo de Milão.
É templo de grandes dimensões composto por grandes placas de mármore escurecido. O interior apresenta um espaço estilizado e amplo graças às longas colunas de mármore com estátuas talhadas que chegam até ao teto. Entre colunas há grandes quadros pendurados a representar cenas religiosas. Ao longo do templo podem ver-se os esqueletos de diferentes santos que estão vestidos com suas melhores roupas de gala. Entre os elementos mais apelativos sobressai a estátua do apóstolo São Bartolomeu, padroeiro dos padeiros, na qual aparece com a pele arrancada, fazendo referência ao martírio que sofreu. E uma abóbada do teto situada atrás do altar está um dos tesouros da catedral, um prego da Cruz de Cristo. No sábado mais próximo do 14 de setembro, o prego é tirado do lugar onde costuma ser guardado para os fiéis o admirarem.
O terraço da parte superior da catedral ocupa praticamente toda a superfície do telhado e oferece a possibilidade de passear pelas alturas enquanto se contemplam as vistas da cidade. Também é interessante a visão dos pináculos e das esculturas do telhado tão de perto. É possível subir ao terraço tanto a pé, por umas escadas confortáveis, como usando o elevador.
Na cripta está a Capela de São Carlos Borromeo, na qual se conservam seus restos. Também se pode visitar o Tesouro, embora não tenha muitos objetos. E, sob o Duomo, podem visitar-se as escavações arqueológicas que mostram os restos da Catedral de Santa Tecla e as ruínas dum batistério cristão do século IV, de San Giovanni alle Fonti. No centro do batistério estão os restos duma grande pia batismal octogonal na qual dizem que Santo Ambrósio batizou Santo Agostinho em 387. Com uma profundidade de cerca 4 metros, a área foi descoberta durante as escavações para a construção do metropolitano nos anos 60.
O Duomo é um dos lugares mais importantes da cidade e merece a visita. Porém, é necessário levar em conta que, mesmo no verão, é necessário ter os joelhos cobertos e algo sobre os ombros para poder visitar a catedral, que está muito vigiada.
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Como curiosidades conexas com a Catedral, ressaltam:
- A Fabbrica del Duomo di Milano (tão antiga como a Catedral) é a instituição fundada por Gian Galeazzo Visconti, em 1387, para cuidar das arrecadações de fundos, da construção da catedral e dos seus interesses em geral. E é a proprietária do fornecedor mármores de Candoglia por doação de Gian Galeazzo Visconti, da família que era sua anterior proprietária. A Fabbrica faz a exploração para a manutenção da catedral (diz-se que ainda tem mármore para construir outra catedral).
- Na entrada da Catedral, no chão, pode ver-se uma linha de cobre a cortar a catedral da direita à esquerda, decorada com os signos do Zodíaco. É a meridiana do Duomo, um calendário solar posto na catedral no fim do século XVIII. Do lado direito (nave direita), no teto, pode ver-se um minúsculo furo por onde a luz do sol ao meio-dia entra a marcar no chão o período do ano.
- Uma lenda que faz parte da história do Duomo é a de que guarda um dos 3 pregos da cruz de Jesus (os pregos sagrados nas igrejas pelo mundo são mais de 20), doado à cidade pela imperatriz Helena, mãe do imperador Constantino (quando ele imperador de Roma e a capital era Milão – século IV). O prego fica na abside, onde uma luz vermelha o identifica. Todos os anos, no 2.º sábado de setembro, o Cardeal Arcebispo de Milão sobe dentro de uma estrutura que parece uma nuvem, pega no prego e desce, deixando-o exposto à admiração dos fiéis durante 2 dias.
- Com 135 agulhas, cada uma com uma estátua, o Duomo é um museu de esculturas a céu aberto, contando a catedral no total (interior e exterior) com cerca de 3.400 estátuas. A primeira e única estátua durante muito tempo foi a estátua Carelli, que leva o nome dum grande doador do Duomo, o comerciante de escravos Marco Carelli. A estátua fica na parte de trás, ao lado direito e é a única que segura uma espécie de bandeira. Seria o duque Gian Galeazzo Visconti nas vestes de São Jorge. O resto da decoração, embora presente no projeto original, foi colocado a partir do século XIX, após a conclusão de boa parte da construção. Das 3.400 estátuas do Duomo, a de mais sucesso entre adultos e crianças, é uma estátua na parte de dentro, colocada no fundo da nave direita (indo em direção ao altar). Aquele homem tão “musculoso” é São Bartolomeu, representado numa estátua renascentista do século XV do escultor Marco Agrate, no seu doloroso martírio, que lhe arrancaram a pele. O que parece o manto que lhe cai pelo corpo é, pois, a sua pele. Para se entender melhor a estátua, observa-se de lado e por trás.  
- Devotos de Nossa Senhora, os Visconti dedicaram-Lhe a nova catedral. A enorme estátua de bronze folheada a ouro (que brilha sobre a cidade e é colocada na agulha maior) é a milanesa Madonnina. É importante como símbolo da cidade como a catedral. Os milaneses dedicaram-lhe uma conhecida música em dialeto. E uma regra estipulava que nenhum prédio em Milão fosse mais alto que a Madonnina. Nos anos 60, com a construção da sede da Pirelli frente à Estação Central, a regra caiu e, com os arranha-céus de Porta Nuova, não mais tem o record de ponto mais alto da cidade, mas continua a velar pelos milaneses e ‘brilet de luntan’ (brilha de longe).
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Honra ao santo Bispo, mantenha-se o rito e preserve-se a Catedral. E atenção à Madonnina!
2019.12.07 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

São Nicolau Taumaturgo, que deu origem à figura do Pai Natal


Celebra, 6 de dezembro, a Igreja Católica São Nicolau de Mira, padroeiro das crianças, que se diz ter dado origem à figura do Pai Natal, a figura mítica do velhinho da Lapónia que se faz transportar num trenó puxado por uma junta de renas e carregado de prendas para crianças e adultos, figurando nesta quadra pré-natalina nos festejos sociais que têm a ver com o Natal e que entra pelas casas adentro na noite de Natal, não se contentando já com laçar as prendas pela chaminé de modo que a lareira se encha.
Não sei se fazer coincidir o mítico Pai Natal com a figura histórica do Bispo de Mira é uma postura ajustada. Lá que a ternura do Pai Natal, a quem se motivam as crianças a pedir prendas até por carta ou e-mail, se coaduna com o ardil do santo bispo é verdade, mas os fins de justiça e atenção aos pobres da parte de Nicolau estão longe dos fins comerciais e fautores do consumo do venerando velho de barbas brancas, carapuça e fato vermelhos orlados de um tecido que se assemelha a lã branca (assim construído para propaganda da cola-cola) a satisfazer os caprichos inocentes dos pequeninos consumidores e as necessidades factícias dos grandes. É a obediência ao social e economicamente correto!
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O nome Nicolau vem do grego Nikólaos, composto pelos elementos níke, que quer dizer “vitória” e laós que significa “povo”. Nestes termos significa “aquele que vence com o povo” ou “aquele que conduz o povo à vitória”. Ora aquele que vence junto com o povo corporiza uma pessoa dotada de grande simpatia e capacidade de comunicação, que consegue fazer-se entender até mesmo com um olhar ou uma mudança no tom da voz.
O som da pronúncia do nome Nicolau é similar aos nomes: Nick, Nicolai, Nicoli, Nicolae, Neculai, Nicolay, Nikolai, Nigel, Nikhil, Nicole, Nicoly, Nycole, Nicolly, Nigella, Najla, Najila, Nikole, NIklaus, Nico, Nikolas, Nicholas, Nicollas, Klaus.
Nicolau também ficou conhecido como o nome de muitos papas (v.g: Nicolau I ou Nicolau Magno), imperadores (v.g: Nicolau II, da Rússia), patriarcas (v.g: Nicolau I e II de Constantinopla) e pesquisadores de grande importância para a humanidade, como Nicolau Maquiavel e Nicolau Copérnico, bem como localidades e ilhas, incluindo a cidade na parte oriental da ilha de Creta: Hágios Nikolaos
 Do santo cuja memória litúrgica se faz a 6 de dezembro de cada ano os livros litúrgicos dizem muito pouco. O missal romano diz laconicamente:
São Nicolau, Bispo de Mira, na Lícia, na hodierna Turquia, ilustre pela sua santidade e pela sua intercessão ante o trono da divina graça”.
E a Liturgia das Horas refere:
Bispo de Mira, na Lícia (hoje Turquia), morreu nos meados do século IV e foi venerado em toda a Igreja, sobretudo a partir do século X”.
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O ACI digital dedicou-lhe, em 2018, um artigo em que se destaca um dito de São Nicolau, comummente tido como padroeiro das crianças, mas também das moças solteiras, dos marinheiros, dos viajantes e da Rússia, Grécia e Turquia: “Seria um pecado não repartir muito, sendo que Deus nos dá tanto”. E refere que um azeite milagroso brota dos seus restos mortais, que serviu para a cura dos doentes.
Por se tratar dum santo dos primeiros séculos, pouco se sabe com exatidão a respeito dele, salvo que nasceu na Licia (atual a Turquia), numa família muito rica em que sobressaía um tio Bispo que o ordenou sacerdote. Os pais de Nicolau morreram a ajudar os doentes vitimados por uma epidemia e deixaram considerável fortuna ao filho. Porém, o jovem decidiu reparti-la entre os pobres e tornar-se monge. Mais tarde, peregrinou ao Egito e à Palestina, onde palmilhou a Terra Santa. Retornado à cidade de Mira (também na Turquia), onde os bispos e sacerdotes discutiam no templo sobre quem devia ser eleito novo Bispo da cidade. Ao final, decidiram que seria o próximo sacerdote que ingressasse no recinto. Nesse momento, São Nicolau entrou e foi eleito prelado por aclamação de todos.
Com uma perseguição promovida pelo imperador Diocleciano contra os cristãos, ele foi preso, sendo libertado apenas quando o imperador Constantino subiu ao trono. Dizia São Metódio:
Graças aos ensinamentos de Nicolau, a metrópole de Mira foi a única que não se contaminou com a heresia ariana, a qual rechaçou firmemente, como se fosse um veneno mortal”.
Registe-se que o arianismo negava a divindade de Jesus Cristo. Dessa forma, São Nicolau combateu incansavelmente o paganismo e a heresia.
Defensor da justiça, salvou três jovens de ser executados, vítimas de um suborno do governador Eustácio, que logo se arrependeu ao ser repreendido por Nicolau. Três oficiais foram testemunhas destes factos e, posteriormente, quando estavam em perigo de morte, rezaram a São Nicolau. O santo apareceu em sonhos a Constantino e ordenou-lhe que os libertasse porque eram inocentes. Assim, depois de os soldados dizerem ao imperador que tinham invocado São Nicolau, ele libertou-os, com uma carta ao Bispo, em que lhe pedia que rezassem pela paz no mundo.
O santo é patrono dos marinheiros porque, no meio duma tempestade, alguns marinheiros começaram a clamar: “Oh Deus, pelas orações de nosso bom Bispo Nicolau, salva-nos”. Nesse momento, conta-se, apareceu São Nicolau sobre o navio, abençoou o mar e este acalmou-se. Em seguida, o Bispo desapareceu. Segundo o costume do Oriente, os marinheiros do mar Egeu e do mar Jónico têm uma “estrela de São Nicolau” e desejam boa viagem dizendo: “Que São Nicolau leve o teu leme”.
Conta-se que três meninos foram assassinados e lançados num barril de sal. Mas, pela oração de São Nicolau, os infantes voltaram à vida, o que fez dele padroeiro das crianças e levou a que na iconografia o santo seja representado com três pequenos ao seu lado.
Outra lenda narra que na Diocese de Mira havia um vizinho em extrema pobreza (muito menos tinha condições de pagar o dote de casamento delas) que decidiu expor as suas três filhas virgens à prostituição para que toda a família pudesse sobreviver. Nicolau, procurando evitar que tal sucedesse, na escuridão da noite, atirou pela chaminé da casa daquele homem uma bolsa com moedas de ouro. Com o dinheiro, a filha mais velha casou-se. Quis o santo fazer o mesmo em benefício das outras duas, mas na segunda ocasião, depois de atirar a bolsa sobre a parede do pátio da casa, acabou descoberto pelo pai das jovens, que lhe agradeceu pela sua caridade. Por isso, ficou padroeiro das raparigas solteiras em idade de casar.
São Nicolau faleceu a 6 de dezembro, mas não sabe com exatidão se foi no ano 345 ou 352. Mais tarde, a sua devoção aumentou e foram-lhe atribuídos inúmeros milagres. No século VI, o imperador Justiniano construiu uma igreja em Constantinopla (hoje Istambul) em sua honra e o santo tornou-se popular em todo o mundo. Em 1087 os seus ossos foram resgatados de Mira, que já estava sob domínio dos muçulmanos, e levados para Bari, na costa da Itália. Por isso, é chamado São Nicolau de Mira ou São Nicolau de Bari. As suas relíquias repousam na Igreja de “San Nicola de Bari”, na Itália.
São Nicolau é patrono da Rússia, Grécia e Turquia. Além disso, é honrado em cidades da Itália, Holanda, Suíça, Alemanha, Áustria e Bélgica.
Dos seus restos mortais, como se disse, brota um azeite conhecido como o “Manna di S. Nicola”. Em Mira, dizia-se que “o venerável corpo do Bispo, embalsamado no azeite da virtude, suava uma suave mirra que o preservava da corrupção e curava os doentes, para glória daquele que tinha glorificado Jesus Cristo, nosso verdadeiro Deus”.
A sua figura bondosa e caridosa passou a ser associada em muitos lugares à figura do Pai Natal nos países latinos, que traz presentes para as crianças na Noite de Natal. Na Alemanha, é Nikolaus, e nos países anglo-saxões, Santa Claus.
Neste período, este simbolismo deve remeter para São Nicolau e, assim, recordar a todos do amor e caridade para com as crianças e os mais pobres, além da alegria de servir a Deus.
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Em suma, mais do que alimentar caprichos, necessidades factícias, comércio em barda e asfixiante, consumismo escravizante e quase indigno, importa voltar ao sentido profundo de justiça comutativa, distributiva e social, gerando equidade e a igualdade possível, e à atenção eficaz aos mais débeis pela idade, pela saúde ou pela falta de recursos. Talvez assim nos aproximemos mais um pouco da mística do Natal e da lição do presépio onde todos cabem e aprendem se tiverem boa vontade.
2019.12.06 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Da origem, história e tradição da árvore de Natal



A árvore e as ornamentações
Há muitos séculos, em muitas culturas pagãs, era hábito decorar plantas verdes por serem consideradas símbolo de fertilidade e vitalidade. Na verdade, nos tempos mais antigos, plantas e árvores que permaneciam verdinhas todo o ano tinham esse significado especial para as pessoas durante os rigorosos invernos. Assim como hoje decoramos as nossas casas durante a época festiva com pinheiros, os povos antigos penduravam ramos verdes em suas portas e janelas.  
Muitos povos antigos acreditavam que o Sol era um deus e que o inverno vinha todos os anos porque o deus Sol se tornara doente e fraco. Assim, os ramos verdes recordavam-lhes todas as plantas que cresciam quando o deus Sol se tornava novamente forte e a primavera voltava. Era uma forma de amuleto para que os dias mais amenos e agradáveis voltassem trazendo a vida. Por isso, utilizavam ramos e folhas nas casas durante a estação fria, dando os primeiros indícios da tradição da árvore de Natal. Por seu turno, os antigos romanos usavam ramos e galhos para decorar os templos no festival da Saturnália, feito em honra à Saturno, o deus da agricultura, a fim de atrair fartura nas plantações. E os cristãos passaram a usar as árvores coníferas como um sinal de vida eterna com Deus.
Os povos germânicos colocavam no solstício de inverno (que no hemisfério norte ocorre entre 21 e 22 de dezembro) ramos de pinheiros em lugares públicos e nas casas para evitar que os maus espíritos entrassem e para nutrirem a esperança da primavera.
A tradição de enfeitar a árvore de Natal não se sabe bem quando começou, mas terá mais de 500 anos. Crê-se que  a tradição foi lançada em 1419 pelos padeiros da cidade alemã de Freiburg. Eles começaram a decorar uma árvore todos os anos com lebkuchen (um tipo de pastel ou doce típico natalino), maçãs, frutas, nozes e frutas. E só no dia de Ano Novo as crianças podiam sacudir a árvore e comerem o que caia dela. 
Outra possível origem da árvore de Natal terá vindo do conceito das Árvores do Paraíso, que eram utilizadas em encenações medievais feitas na frente de Igrejas na véspera de Natal. No calendário do santoral da igreja primitiva, 24 de dezembro era o dia de Adão e Eva. Dessa forma, a Árvore do Paraíso representava o Jardim do Éden. E essas encenações eram como um tipo de publicitação a contar as histórias da Bíblia para as pessoas que não sabiam ler.
O primeiro uso documentado duma árvore nas celebrações de Natal e Ano Novo vem da praça da cidade de Riga, capital da Letónia, no ano de 1510. Nessa praça, existe uma placa dizendo que aquela foi a primeira árvore de Ano Novo, sendo que a frase está traduzida em 8 idiomas.
Outro registo é de uma pintura da Alemanha em 1521, que mostra uma árvore a ser levada pelas ruas com um homem montado num cavalo atrás dela. O homem está vestido como um bispo, possivelmente representando São Nicolau (santo que é relacionado com a inspiração para o Pai Natal).
Há também um registo de uma pequena árvore em Breman, na Alemanha, em 1570, descrita como uma árvore decorada com “maçãs, nozes, tâmaras, pretzels e flores de papel”, exibida numa casa-aliança (ponto de encontro de uma sociedade de homens de negócio na cidade).
A árvore de Natal caseira, como muitos de nós temos, terá sido lançada como tradição no final do século XVI, na Alsácia (hoje, uma região belíssima da França, era alemã). Fazia parte da festividade natalícia colocar uma árvore na sala de estar e decorá que fica na Alsácia -la com doces, nozes e maçãs. E há registo de uma árvore de Natal na Catedral de Estrasburgo (), no ano de 1539. Segundo algumas fontes, a primeira pessoa a levar uma árvore de Natal para dentro de uma casa, na forma como a conhecemos hoje, terá sido o monge alemão do século XVI Martinho Lutero. A história conta que, uma noite antes do Natal, andava ele pela floresta e olhou para cima para ver as estrelas brilhando por entre os galhos das árvores. Achou aquilo tão bonito que foi para casa e disse aos filhos que a cena lembrava Jesus, que deixou as estrelas do céu para vir à Terra no Natal. Então, para reproduzir e bela cena que tinha presenciado, levou uma árvore para casa e a enfeitou com velas.
Outra história diz que São Bonifácio de Crediton (um vilarejo em Devon, Reino Unido) deixou a Inglaterra e viajou para a Alemanha para pregar às tribos germânicas pagãs e convertê-las ao cristianismo. Tendo-se deparado com um grupo de pagãos prestes a sacrificar um menino ao adorar uma árvore de carvalho, Bonifácio, para interromper o sacrifício, cortou o carvalho e, para seu espanto, um pinheiro abeto novo surgiu a partir das raízes. Bonifácio tomou isso como sinal da fé cristã, associando a forma da árvore com a Santíssima Trindade, e seus seguidores decoraram a árvore com velas para que ele pudesse pregar aos pagãos durante a noite.
A Igreja Católica era contra as árvores de Natal entendendo que o presépio era um símbolo suficientemente significativo do Natal. Além disso, as grandes áreas florestais pertenciam a Igreja e o povo invadia-as nesta época em busca de árvores de Natal.
Apenas em meados do século XX foram autorizadas árvores de Natal nas igrejas católicas. E o Papa João Paulo II, em 1982, iniciou a tradição no Vaticano, colocando a primeira árvore de Natal na Praça de São Pedro, em Roma.
Os primeiros registos de árvores decoradas com velas surgiram em 1730. No começo, eram enfeitadas com rosas de papel, maçãs (a recordar Adão que comeu do fruto proibido, hoje são substituídas por bolas coloridas), nozes e bolachas. Depois, surgiram decorações com luzes, bolas de vidro, estrelas, guirlandas, laços, anjos ou outras figuras. Em Berlim, a primeira árvore de Natal foi erguida em 1785.
No século XVII, o uso destas decorações espalhou-se inicialmente entre os altos funcionários e cidadãos ricos nas cidades, por se tratar de material muito caro, mesmo na Europa Central. As primeiras bolas de vidro soprado apareceram para venda em torno de 1830. Eram artigo de luxo, pelo que somente os mais abastados tinham acesso e podiam enfeitar suas árvores com elas.
Não obstante, o costume de assim decorar árvores de Natal espalhou-se da Alemanha para o mundo inteiro no século XIX, tendo começado quando emigrantes do século XVIII levaram o costume para os Estados Unidos. A primeira árvore de Natal na “Casa Branca” foi erguida em 1891, mas a primeira árvore de Natal nas Américas foi Friederike Riedesel von Lauterbach, esposa do general comandante das tropas Brunswick e foi erigida em Sorel, Canadá, em 1781.
Porém, a popularização da árvore de Natal deu-se mais intensamente em 1846, quando os membros da realeza, a Rainha Victoria e seu príncipe alemão, Albert, foram ilustrados no jornal de Londres com os filhos em torno de uma árvore de Natal.
Ao invés da anterior família real, Victoria era muito popular com os súbditos, e o que foi feito na corte tornou-se moda, não só na Grã-Bretanha, mas em todos os países de língua inglesa, e espalhou-se pelo mundo. E a tradição foi alastrando e, com ela, as inovações, como o surgimento das árvores artificiais, feitas de plástico. E aqui fica a polémica, já que os mais tradicionalistas fazem questão de ter uma árvore natural decorada em casa e esbravejam que as de plástico não são biodegradáveis. Por outro lado, o cultivo duma árvore natural leva anos, argumentando os adoradores das árvores artificiais que elas são cortadas só para servirem de enfeite por poucos dias.
Na Europa Central, a árvore mais usada é o pinheiro conhecido como Nordmanntanne, originária do Cáucaso. A popularidade do Nordmanntanne tem um motivo simples: os seus galhos não picam. São também utilizadas em alguns lugares outras árvores como abeto, pinho, buxo, azevinho e zimbro. Por outro lado, existe a ilusão de que o pinheiro de Natal é um produto natural da floresta. A realidade é preocupante, já que árvore é uma raridade na floresta. Pinheiros e abetos crescem em plantações nos dias de hoje. Na Alemanha e na Áustria, existem terras agrícolas separadas para o plantio de árvores de Natal. No entanto, uma boa parte ainda é importada, e a Dinamarca é a líder de mercado. Na Alemanha, as árvores de Natal são cultivadas em cerca de 15 000 hectares e cerca de 70% das necessidades de consumo interno são cobertas. As sementes da Nordmanntanne vêm do Cáucaso e “crescem” na Alemanha a partir de viveiros especializados. Com uns três anos as mudas são transferidas para o campo. Até que as árvores façam a sua apresentação com luzes brilhantes nas salas de estar alemãs, passam por até dez anos de tratamento intensivo. São comercializadas por ano, somente na Alemanha cerca de 25 milhões de árvores de Natal. 
Um crescente número de muçulmanos na Alemanha aproveita as férias de Natal para passar o tempo com a família, e também tem iniciado o hábito de colocar uma árvore de Natal na sala e com muita decoração. Na Ásia, o costume da árvore de Natal já está bem enraizado, sobretudo na decoração utilizada pelos europeus que passam o Natal naqueles lugares.
Anote-se que o verde e o vermelho são cores-símbolo do Advento e do Natal cristão. O verde simboliza a esperança de vida no inverno escuro e a lealdade. E o vermelho lembra o sangue de Cristo que Ele derramou para que o mundo seja salvo. Sem dúvida, estas duas cores dominam decoração de Natal e parece impossível dissociá-las do espírito natalício.
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A primeira Árvore de Natal em Portugal e a sua reconstituição
E foi precisamente um alemão que montou o primeiro pinheiro de Natal em Portugal. E não foi um alemão qualquer: a tradição chegou ao nosso país pelas mãos do católico Fernando Augusto Francisco António de Saxe-Coburg-Gotha, 3.º marido de D. Maria II.
Vindo da Baviera, Fernando trouxe consigo várias tradições germânicas – entre elas, a decoração de uma árvore na época do Natal. O abeto, que era colocado numa sala privada da família real no Palácio das Necessidades, era decorado com velas, laços e bolas de vidro transparente. Também era comum colocar guloseimas na árvore já decorada, como frutas cristalizadas e chocolates. E o marido de D. Maria II chegava a vestir-se de verde e a imitar São Nicolau, o santo que deu origem ao Pai Natal, para entreter os seus sete filhos. O rei consorte entrava na sala com um saco às costas e distribuía presentes pelos príncipes e outras crianças do palácio. Existem até ilustrações feitas pelo mesmo que retratam estes momentos.
Quase 200 anos depois, o Palácio da Pena recria a que foi a nossa primeira árvore de Natal.
A primeira impressão será desoladora para quem espera encontrar um pinheiro de dimensão sobre-humana. Afinal, o aparato ficava-se pelas ricas paredes, tecidos, vitrais, móveis e tapeçarias que compõem o salão nobre do Palácio Nacional da Pena, em Sintra. Ano após ano, D. Fernando II, o rei consorte, mandou vir um espécime da serra para o Palácio das Necessidades, em Lisboa, residência da família real portuguesa durante o século XIX. O pinheiro era decorado a rigor, mas não como hoje fazemos numa árvore de Natal tradicional.
Da Áustria, o marido de D. Maria II trouxe o hábito romântico deste ritual doméstico. A pequena árvore, iluminada por velas e rodeada de brinquedos, disseminou-se por toda a Europa. Ao mesmo tempo que chegava a Portugal, a árvore entrava no quotidiano da corte vitoriana. Explica Mariana Schedel, Conservadora do Palácio Nacional da Pena;
D. Fernando nasceu e cresceu em Viena. Portanto, são tradições centro-europeias trazidas para a corte portuguesa, da mesma forma que o príncipe Alberto as levou para a corte da rainha Vitória, quando casou. Os dois cresceram juntos, eram primos direitos.”.
O projeto de recriar em pormenor a primeira árvore de Natal em Portugal teve início há mais de dois anos, pelas mãos da equipa de conservação deste monumento gerido pela “Parques de Sintra”. Envolveu uma pesquisa exaustiva e a recuperação de correspondência trocada entre os almoxarifes dos dois palácios, bem como faturas de fornecedores. Uma delas, de 17 de dezembro de 1859, dá conta do transporte dum pinheiro da Serra de Sintra para Lisboa. O próprio D. Fernando, hábil desenhador, deixou duas gravuras que serviram de base para a execução da árvore.
A dificuldade foi encontrar quem reproduzisse as peças. No total, foram contactadas 6 empresas portuguesas. Coube ao Studio Astolfi a recuperação das cores, formas e materiais usados nas decorações do século XIX. Exceção feita aos frutos da época (maçãs, peras e romãs), na altura verdadeiros. As bolas de Natal terão surgido várias décadas depois, inspiradas pela forma destes ingredientes naturais. Na impossibilidade de trazer fruta real para dentro do palácio, a equipa do ateliê recorreu aos mercados, em busca de exemplares pequenos e toscos, para tornar estas réplicas o mais reais possível. Acrescem os animais do campo, como vacas, cavalos e figuras como o arlequim ou o limpa-chaminés, este último considerado um amuleto de sorte. Na parte superior da árvore, um cacho de uvas em vidro, fruto que, na época de D. Fernando, já seria replicado artificialmente. E Mariana Schedel acrescenta:
A árvore de Natal da Pena é muito simples por ser exatamente a que vemos nas gravuras de D. Fernando II. Utilizámos essa árvore pequena – que tem entre 1,20 e 1,50 metros – sobre uma mesa, com um toalha em linho acetinado, muito difícil de encontrar, que é também uma reconstituição de uma toalha de época, com todas estas pequenas peças que têm significados de abundância e felicidade.”.
À época, as velas iluminavam a árvore, solução impensável hoje, embora todo o aparato natalício fosse montado apenas no dia 25 de dezembro. Na reconstituição feita, as velas estão apagadas. No chão e na mesa, multiplicam-se os brinquedos, identificáveis nas gravuras do rei. Soldados, animais, uma pequena quinta e um tambor. Mais uma vez, os organizados livros de contas de D. Fernando II discriminam as encomendas, a maioria dirigida a fornecedores austríacos e alemães. O embrulhar dos presentes era uma tradição por vir. Os brinquedos eram dispostos junto à árvore e destinavam-se aos príncipes (o casal teve 11 filhos, 4 dos quais não sobreviveram ao dia do nascimento). Tudo leva a crer que, já naquela época, o Natal era das crianças.
As dimensões deste pinheiro ficam aquém do esperado para a residência real. Porém, Schedel diz que as primeiras árvores da rainha Vitória partilhavam as mesmas medidas (a monarca casa com o príncipe Alberto em 1840, 4 anos após o matrimónio de D. Fernando II e D. Maria II). A pequena escala está conexa com o ideal de intimidade familiar e vivência doméstica em voga no século XIX.
Numa das gravuras expostas junto ao Pinheiro da Pena, o rei, que ficou viúvo em 1853, quando tinha 37 anos e ao fim de 17 anos de casamento, surge vestido de São Nicolau, carregado de presentes, fruta e caça e rodeado pelos 7 filhos: Pedro, Luís, João, Maria Ana, Antónia, Fernando e Augusto. E a conservadora do palácio clarifica:  
A autorrepresentação de D. Fernando em gravuras é comum. Se se vestiu ou não, não sabemos. Mas é todo este ambiente de vida familiar e a importância da infância que são as novidades do século XIX. É quando as crianças deixam de ser miniadultos e começam a vestir-se como tal, têm brinquedos. E o Natal, que é uma festa religiosa no extensíssimo calendário da família real, começa a ter uma importância na relação com este mundo mágico.”.
Enquanto instaura uma tradição perdurante, a árvore de Natal é símbolo de nova domesticidade. A monarquia constitucional deixara para trás a solenidade e a imponência do regime absolutista. Dentro das paredes do palácio, as cenas aproximavam-se do quotidiano da família comum e, com o passar dos anos, o pinheiro assumiu o papel de elo de identificação.
O Pinheiro da Pena faz parte de um projeto maior de requalificação a deixar os ambientes do Palácio Nacional da Pena mais fiéis ao seu aspeto na altura em que foi habitado por duas gerações da realeza (depois de D. Maria II e D. Fernando II, também D. Carlos I e D. Amélia habitaram o palácio). E, além da árvore de Natal, a Sala de Fumo voltou a ter, pela primeira vez desde 1940, o mobiliário original, após um processo de restauro que reconstituiu os têxteis originais. O mesmo aconteceu com os aposentos de D. Carlos, com intervenções em peças de arte, móveis e nas próprias divisões. Na Sala de Jantar, foi recriada a mesa do penúltimo rei de Portugal, com flores da época e uma reprodução da ementa da ceia servida a 20 de julho de 1900.
Com a famosa árvore de Natal, a primeira em solo português, a tradição cumpre-se também no dia em que será desmontada, a 6 de janeiro, Dia de Reis. É possível vê-la de perto durante uma visita regular ao Palácio Nacional da Pena, em Sintra, todos os dias, entre as 10 e as 18 horas.
2019.12.05 – Louro de Carvalho

Magalhães, Magallanes, Magellan


Decorreu, a 4 de dezembro de 2019, no Auditório Adriano Moreira da Sociedade de Geografia de Lisboa, um seminário subordinado ao título “Magalhães, Magallanes, Magellan: Magellan in Philippine History through Philippine Historians”, organizado pela Embaixada das Filipinas como um dos números significativos do V centenário da expedição de Fernão de Magalhães.
Depois das Palavras de Abertura – proferidas pelo Prof. Luís Aires-Barros, Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa, por Celia Anna M. Feria, Embaixadora das Filipinas, por Álvaro Mendonça e Moura, Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros e pelo Embaixador Fernando Ramos Machado, Presidente da Comissão Asiática – cinco historiadores das Filipinas falaram sobre o navegador português que, ao serviço de Espanha, levou o cristianismo ao país, mas lá foi morto pelo guerreiro Lapu-Lapu.
O seminário teve início às 15 horas e estendeu-se até às 17,30 horas, após o que a Embaixada das Filipinas ofereceu um cocktail na Sala de Convívio da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Os temas abordados foram: “Magalhães e as Comemorações do V Centenário nas Filipinas”, pelo Dr. Rene Escalante, Presidente da Comissão Histórica Nacional das Filipinas; “As Filipinas ao tempo da Chegada de Magalhães”, pelo Dr. Francis M. Navarro, Professor Assistente no Departamento de História, da Universidade Ateneu de Manila; Magalhães em Melaka e Cebu, contactos, invasão e interações, pelo Dr. Felice Noelle Rodriguez, Professor Visitante da Universidade Ateneu de Zamboanga; Magalhães e a batalha de Mactán, pleo Dr. Danilo Gerona, Professor IV e Diretor do Centro de Estudos Magalhães, da Universidade Estatal Camarines Sur; e Recordando Magalhães nos últimos cinco séculos, pelo Dr. Ambeth R. Ocampo, Professor Associado e Coordenador da Formação do departamento de História, na Escola de Ciências Sociais, da Universidade Ateneu de Manila, e ex-Presidente da Comissão Histórica Nacional das Filipinas.
Por fim, houve um momento de perguntas e respostas/diálogo com a assistência, a que se seguiu a “Entrega de Diplomas” de participação.
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Previamente, os cinco historiadores filipinos anteciparam ao DN os aspetos principais do conteúdo do seminário e falaram sobre o impacto de Fernão de Magalhães nas Filipinas de hoje, tendo ficado destacada a asserção de que Portugal produziu o homem que colocou grande parte do mundo no mapa”.
Já o título do seminário não é anódino. O ato de posicionar a forma em português, espanhol e inglês do sobrenome deste explorador do século XVI faz ressaltar não só questões de idioma e tradução, mas a nível mais profundo, a questão do ponto de vista da história.
Há, nas Filipinas, inúmeras referências históricas ao expedidor português: são três as cidades com o nome de Magalhães nas províncias de Sorsogon Cavite e Agusan del Norte; há um condomínio fechado de luxo, uma estação ferroviária e um intercâmbio rodoviário em Makati, na Grande Manila. E abundam os nomes de ruas, monumentos, memoriais e referências históricas em todo o território das Filipinas que os filipinos veem diariamente, mas a que não prestam atenção.
Pressupondo que a história é um ato consciente de memória, este seminário organizado em Lisboa pela Embaixada das Filipinas tentou responder às questões: Como é que Fernão de Magalhães é lembrado hoje nas Filipinas? E como deve ser lembrado? Isto implica certamente analisar o impacto dum “evento que ocorreu há cinco séculos nas Filipinas, ontem como hoje”, mas sobretudo realçar “os vínculos históricos entre Filipinas, Portugal e Espanha, que podem fornecer informações úteis para nos ajudar a navegar, como os antigos exploradores, o futuro desconhecido e incerto”.
A expedição de Magalhães foi um importantíssimo episódio da história das Filipinas, mas atinge um grau transnacional e ainda de proporção transcendental, pois o evento em si e a magnitude da ação de Magalhães definiram o curso da história de uma nação ou nações e da humanidade inteira. Embora grande parte das histórias de Magalhães tenha atribuído à expedição uma importância marginal na expansão espanhola no século XVI, a armada das Molucas foi a primeira frota expedicionária a levar o mais longe possível – Plus Ultra – o mandato do sonho de Carlos de um império em expansão. A expedição foi, assim, encarregada de levar para lá dos limites dos enclaves coloniais familiares do império espanhol os sonhos ambiciosos de colocar sob o seu domínio o mundo misterioso do ultramar e lançar as bases para o controlo global das especiarias e pedras preciosas, a expansão das fronteiras imperiais além das Américas, o extermínio dos mouros e a conversão dos pagãos ao cristianismo.
Apesar das críticas aos efeitos atrozes do colonialismo espanhol e à exaltação do papel pioneiro de Magalhães, negando-lhe o título de descobridor ou mesmo condenando-o como o prenúncio dos males do colonialismo, é por demais evidente que “ele deixou uma profunda transformação positiva na vida dos filipinos”, quer pelas “dolorosas lições aprendidas ao longo da história”, quer por via “dos conceitos e das crenças que foram assimilados como parte da cultura filipina”. É, pois, claro que Magalhães realizou algo cujos benefícios excederam o interesse e objetivos pessoais ou imperiais do rei da Espanha, seu patrono.
A chegada de Magalhães às Filipinas é indubitavelmente um dos marcos iniciais do encontro asiático-ibérico que mudou e moldou a cultura indígena, o meio ambiente, as tecnologias, as ideologias e o comércio. Não se trata de simples incursão estrangeira da Ibéria no mundo nativo, mas de todo um processo de adaptação e de aculturação tornando próprias as coisas estrangeiras por meio de conflitos, comércio, casamento e criatividade. É uma história ambivalente: de conflito e colonialismo; e de união e trocas culturais.
Assim, por exemplo, o cristianismo pode ter sido um legado espanhol, mas foi introduzido através do idioma local, explicando o conceito de Jesus como um Datu em alguns sermões missionários. E a expressão da fé foi localizada para se adaptar aos entendimentos nativos, produzindo no processo também formas únicas de práticas filipinas cristãs. São metodologias e posturas que os teólogos chamam de mistério da encarnação à semelhança do mistério de Cristo e do mistério da Igreja. A nível comercial, as coisas forma mais problemáticas. Os vínculos filipinos com Malaca e outras partes do sudeste da Ásia eram mantidos em monopólio pelos galeões espanhóis, sem ser constante e uniforme. E o comércio interilhas continuou em algumas partes, pois a colonização era desigual, produzindo bolsas de resistência e mantendo durante séculos as profundas redes históricas. Depois, o meio ambiente modifica-se com a introdução de flora e fauna das Américas, trazidas para as Filipinas. Em contrapartida, havia imagens de santos e anjos e outros itens religiosos feitos nas Filipinas, e escravos filipinos, levados para o México através dos galeões de Manila.
O local afetou o estrangeiro tal como o estrangeiro mudou o local. Assim, a história filipina desde Magalhães é feita das redes e ligações globais compostas e multidirecionais que mudaram o estrangeiro e o local.
Magalhães sobressai entre as outras personagens históricas da época por liderar a Europa para fora do período medieval. Navegou por oceanos cheios de esperança de novas descobertas, contra a superstição e a ignorância. Montou a grande armada das Molucas e partiu a 20 de setembro de 1519 e, depois de quase dois anos no mar, a sua expedição épica avistou terra a 17 de março de 1521 na atual ilha de Samar. O feito mudou o curso da história para sempre, mormente no país que mais tarde seria chamado Las Islas Filipinas.
Embora sua vida tenha sido interrompida após a chegada às Filipinas, milhares de milhões de filipinos iriam, mais tarde, lembrá-lo como o homem que descobriu as Filipinas. É nome e rosto que aparecem em todos os livros didáticos e são honrados pelos diversos marcos históricos. Portugal produziu efetivamente um homem que colocou grande parte do mundo no mapa.
A celebração do quinto centenário da chegada de Magalhães às Filipinas em 2021 faz recordar um homem que desafiou o medo e a ignorância do seu tempo e sem o qual o mundo, segundo William Manchester, nunca seria iluminado pela luz.
Antonio Pigafetta escreveu que a pessoa que introduziu o cristianismo nas Filipinas não era um membro da hierarquia católica, mas o chefe da expedição, que por acaso era português. Para muitos filipinos católicos, que compõem 80% da nossa população, Magalhães não será lembrado só como navegador, explorador e colonizador. O seu legado duradouro no país é o seu papel como pregador que convenceu os habitantes de Cebu a abandonar a sua religião ancestral e a aceitar o cristianismo. A imagem do menino Jesus, chamado de Sto Ñino de Cebu, e a cruz que os descobridores plantaram, que se chama 'cruz de Magalhães', permanecem importantes tesouros nacionais que atraem devotos locais e estrangeiros. Por isso, é de deduzir que a semente do cristianismo que Magalhães plantou caiu em solo fértil. As Filipinas continuam a ser o único país católico na região. Nos últimos cinco séculos, a tradição católica permaneceu parte da vida quotidiana e da visão do mundo filipinas. Construíram-se as igrejas no coração das cidades, a maioria dos feriados é de natureza religiosa, iniciam-se e terminam-se as atividades comunitárias com uma oração, muitas das escolas são administradas por ordens religiosas e considera-se o Papa o mais popular e influente líder mundial. Os conhecedores da história das Filipinas sabem que, há três décadas, a Igreja Católica liderou a campanha para derrubar um poderoso ditador. Se Magalhães não propagasse o cristianismo e simplesmente deixasse o nosso país depois de obter as provisões necessárias, certamente o cenário político e cultural das Filipinas seria diferente.
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Em suma, são cinco as frases chave do seminário: A semente do cristianismo que Magalhães plantou caiu em solo fértil. A expedição de Magalhães originou uma profunda transformação positiva na vida dos filipinos. A história das Filipinas, após 1521, é uma história de conflito e colonialismo, mas também de união e trocas culturais. Magalhães é um homem que desafiou o medo e a ignorância do seu tempo. Portugal produziu um homem que colocou grande parte do mundo no mapa.
2019.12.04 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A COP25 em Madrid: “é tempo de mudar”


Decorre em Madrid, de 2 a 13 de dezembro, a 25.ª Cimeira da ONU ou 25.ª Conferência das Partes (COP25) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, com a participação de milhares de especialistas e decisores políticos, de que se destacam 50 líderes mundiais, incluindo o Primeiro-Ministro português, António Costa.
Durante a COP25 estão presentes delegações de 196 países, bem como os mais altos representantes da UE (União Europeia) e várias instituições internacionais, o que pressupõe “a totalidade dos países do mundo”. Pedro Sánchez, chefe do governo espanhol, acompanhado pelo secretário-geral das Nações Unidas, o português António Guterres, presidiram, no dia 2, à sessão de abertura da cimeira, que tem como lema “É tempo de atuar”.
A realização desta cimeira estava prevista para o Chile, mas no final de outubro o Governo chileno cancelou o evento alegando não ter condições devido a um movimento de contestação interna e de agitação civil. E o Governo espanhol avançou com a proposta de organizar a grande conferência anual sobre Alterações Climáticas e conseguiu ter tudo pronto para a sua inauguração, em Madrid, apesar de a presidência da reunião continuar a pertencer ao Chile.
As contribuições dos países para o Fundo Verde Climático de assistência aos países em desenvolvimento e a criação dum mecanismo de compensação às nações que sofram danos por causa de fenómenos climáticos extremos são alguns dos compromissos a que praticamente todos os países do mundo aderiram, mas que demoram a ser cumpridos 4 anos após a assinatura do Acordo de Paris. É uma cimeira decisiva a que acontece a praticamente um mês da entrada em vigor do Acordo de Paris, marcada para 2020, ano em que os países signatários devem apresentar medidas concretas para limitar o aumento da temperatura global e estabelecer novas metas para conter as suas emissões carbónicas.
Uma das questões centrais e que exigirá grandes negociações é a criação de um mercado global de licenças de emissões carbónicas, que não existe e que atualmente é uma manta regional fragmentada de venda e troca de licenças para poluir. Do lado da ciência, o sentido de emergência é claro: os mais recentes relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) apontam um cenário já irreversível de subida da temperatura global, subida dos níveis dos oceanos e uma cascata de efeitos combinados que significam catástrofes ambientais nas próximas décadas. Por isso, António Guterres, secretário-geral da ONU pede aos decisores que atuem em consonância com a ciência
Para cumprir o objetivo definido em Paris, em 2015, de limitar o aumento da temperatura global face aos níveis pré-industriais até 2100, será necessária uma redução anual de 7,6% das emissões de dióxido de carbono, segundo os últimos dados das Nações Unidas.
A par da COP25, organizações não governamentais e da sociedade civil promovem uma agenda paralela de atividades, nas quais pontua a presença da ativista sueca Greta Thunberg, o rosto de um movimento mundial protagonizado por muitos estudantes – em greves às aulas pelo clima – de contestação e exigência de respostas aos líderes mundiais. Convém referir, entre parêntesis, que as faltas às aulas por esta razão já são excessivas e que não devem os fãs de Thunberg, a consciência crítica dos poderes, idolatrá-la precisamente por aquilo que não deve ser, o abandono precoce da escolaridade. Recorde-se que a predita ativista sueca, de 16 anos, tem dado brado no mundo, pelos gestos e pelos discursos. E partiu, a 13 de novembro passado, do porto norte-americano Salt Ponds, no Estado de Virgínia, num catamarã, tendo chegado a Lisboa (embora com atraso considerável) e sido recebida no Parlamento português, a caminho de Madrid, no dia 3 deste mês.
João Pedro Matos Fernandes, Ministro do Ambiente e da Ação Climática, acompanhou o Primeiro-Ministro no início da COP25, mas só voltará a falar perante o plenário na segunda fase das declarações nacionais, que começa no dia 10.
No próximo dia 6, a discursar na COP25, estará Greta Thunberg, um “bom exemplo de um ativismo jovem, informado e capaz de mobilizar outros jovens”.
Ana Patrícia Fonseca, mais adiante referenciada, diz, a este respeito:
A sua passagem por Lisboa é circunstancial, mas é simbólica, mobilizadora e inspiradora para os tantos jovens que em Portugal se reveem nos apelos que faz. É uma feliz coincidência; os jovens receberam-na de forma tão calorosa, precisamente porque ela é um exemplo de uma jovem ativista, informada capaz de mobilizar e informar outros jovens.”.
E, sublinhando a importância de se formar uma sociedade civil, sustenta:
Toda a mobilização da sociedade civil traz pressão. É de preferir uma sociedade civil informada e mobilizada e que pressione a uma sociedade civil inoperante. Acredito muito no poder da sociedade civil capaz de informar e passar mensagens positivas e que apelam a uma ação forte e urgente.”.
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O Papa desafiou os participantes na COP25 a tomar medidas concretas para a implementação do Acordo de Paris, considerando que ainda se está “longe” desses objetivos. A mensagem papal, lida na capital espanhola pelo Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, vinca:
Infelizmente, após quatro anos, temos de admitir que esta consciência ainda é fraca, incapaz de responder de forma adequada ao forte sentido de urgência para uma ação rápida, exigida pelos dados científicos ao nosso dispor”.
E o Sumo Pontífice questiona se “temos de perguntar-nos seriamente se há vontade política para oferecer – com honestidade, responsabilidade e coragem – mais recursos humanos, financeiros e tecnológicos para mitigar os efeitos negativos da mudança climática”. Destacando a relevância do Acordo de Paris, assumido na COP21, com uma “consciência crescente” na comunidade internacional da necessidade de trabalhar em conjunto na defesa da natureza, exigindo que se passe das palavras a “ações concretas”, refere:
Atualmente, há um acordo cada vez maior sobre a necessidade de promover processos de transição e de transformação do nosso modelo de desenvolvimento, encorajando a solidariedade”.
E, alertando para a ligação entre alterações climáticas e pobreza, Francisco realça que vários estudos mostram que é “possível limitar o aquecimento global”, o que exige uma “forte vontade política” e uma redefinição do investimento público, dando prioridade às áreas que permitem manter um “planeta saudável para hoje e amanhã”.
A mensagem fala numa “mudança de civilização”, em favor do bem comum, face aos desafios das “emergências climáticas”, e observa:  
Tudo isto exige que reflitamos com consciência sobre o significado dos nossos modelos de consumo e de produção, bem como sobre o processo de educação e consciencialização, para os tornar consistentes com a dignidade humana”.
E, elogiando o compromisso das novas gerações, pede que os responsáveis políticos não passem aos jovens o “fardo” de resolver os problemas causados pela sua ação. A seguir, previne:
Há uma janela de oportunidade, mas não podemos deixar que se feche. Precisamos de aproveitar esta ocasião, através de ações responsáveis nos campos económico, tecnológico, social e educacional.”.
Na verdade, o Papa Francisco é uma das vozes que a nível mundial mais tem alertado a comunidade internacional para este problema e a sua encíclica ‘Laudato Si’ é um grande exemplo da sua voz nesta matéria.
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Também deveria merecer a nossa atenção, nesta matéria, Ana Patrícia Fonseca, representante da Plataforma Portuguesa das ONGD e responsável pelo departamento de educação para o desenvolvimento e Advocacia Social da ONGD Fundação Fé e Cooperação (FEC), que participa na COP25, conferência que tem a pretensão de pressionar países emissores a encontrar “balizas políticas e mecanismos” sustentáveis. Ana Patrícia, referindo que se vivem, em Madrid, dias de “grande expectativa” e de “apelo da urgência na ação”, explanou:
Ouve-se, nas conversas de corredor, que esta é uma COP preparatória do próximo ano, da COP 26, onde, aí sim, se vão pedir a todos os países que atualizem as suas contribuições determinadas a nível nacional. Mas a verdade é que esta COP é mais do que preparatória, porque é aqui que se vão definir as balizas políticas, regras, mecanismos e instrumentos.”.
A predita participante dá conta de que os 196 países chegam à COP “com todas as evidências científicas, com as soluções técnicas para resolver o problema e com caminhos dados pelos povos indígenas que nos mostram como viver com as alterações climáticas”. Por isso, afirma que “é agora o tempo de agir”. Com efeito, todos sabemos já “o que temos de fazer: a sociedade civil, os governos, as empresas todas sabem qual o seu papel, resta agora agir”, sublinha a ativista que, juntamente com Maria Marques, da FEC, representam a Plataforma Portuguesa das ONGD, na delegação portuguesa a participar na COP25. 
A grande a expectativa desta cimeira em torno dos países do G20 tem a ver com o facto de se esperar “um contributo mais ambicioso, sobretudo dos países que não estão a cumprir os compromissos que assumiram na redução do défice das emissões de carbono”. Na verdade, com a entrada em vigor do Acordo de Paris, marcada para 2020, que vai reger as medidas de redução de emissão de gases estufa para controlar o aquecimento global abaixo de 2.ºC, “espera-se que sejam sinalizadas as regras concretas da sua implementação”.
Ana Patrícia destaca também a necessidade de serem “reforçados e simplificados os mecanismos de financiamento do combate às alterações climáticas, nomeadamente, as regras relativas aos mercados de carbono”.
Por fim, emerge a expectativa de uma “revisão e operacionalização do mecanismo de Varsóvia que prevê o cálculo das perdas e danos para compensar as pessoas afetadas pelos desastres climáticos”.
A participante portuguesa explica que o “maior apelo” é o que está evidenciado no desafio do Papa Francisco deixado na mensagem que enviou aos participantes na COP25, questionando a vontade política para cumprir os acordos. Com efeito, a assinatura do Acordo de Paris implica a tomada de consciência da mudança climática e a identificação das melhores maneiras de implementar o Acordo mostraram uma crescente conscientização por parte dos vários atores da comunidade internacional sobre a importância e a necessidade de “trabalhar juntos na construção da Casa comum”. Porém, passados 4 anos – diz o Papa – “devemos admitir que essa consciência ainda é bastante fraca e incapaz de responder adequadamente a esse forte sentido de urgência com ações rápidas solicitadas pelos dados científicos à nossa disposição”, como os descritos nos recentes Relatórios Especiais do IPCC. Trata-se de estudos que mostram que “os atuais compromissos assumidos pelos Estados para mitigarem as mudanças climáticas e se adaptarem a elas estão longe dos realmente necessários para alcançar as metas estabelecidas no Acordo de Paris”. Demonstram bem “a que distância estão as palavras de ações concretas”!
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Falai menos, políticos, e trabalhai mais.