segunda-feira, 3 de julho de 2017

A Congregação para a Doutrina da Fé mudou de Prefeito!

O Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, do passado dia 1 de julho, divulgava a seguinte nota, sob o título “Conclusão do mandato quinquenal do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e nomeação do sucessor”:
O santo Padre Francisco agradeceu os seus serviços ao Eminentíssimo Senhor Cardeal Gerhard Ludwig Müller na conclusão do seu mandato quinquenal de Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e de Presidente da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”, da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional, e designou pra lhe suceder nos mesmos cargos Sua Excelência Reverendíssima Monsenhor Luis Francisco Ladaria Ferrer, S.J., Arcebispo titular de Tibica, até agora Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé”.
Nada mais natural – dirão – o Papa nomeia quem entender para a chefia dos diversos dicastérios romanos. Alguns dirão que o Cardeal alemão poderia cumprir mais um quinquénio, dado que ainda só fez 69 anos, vindo a perfazer os 70 a 30 de novembro; portanto, encontra-se a mais de cinco anos da idade-limite para prestar serviço eclesiástico no topo dum dicastério. Todavia, o Papa não renovou o mandato do conservador Gerhard Müller enquanto Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), cargo que ocupava desde 2 de julho de 2012, juntamente com os demais cargos acima referidos. O Prefeito da mais poderosa Congregação Romana (e não o braço direito do líder da Igreja Católica, como dizem os jornais, pois esse é o Cardeal Secretário de Estado Pietro Parolin) é, partir de agora, o jesuíta espanhol Dom Luis Ladaria, que tem agora 73 anos e era Secretário da Congregação de que Müller era Prefeito.
Jornais italianos, como La Stampa e Il Messaggero, informaram que o Papa se encontrou na véspera com Müller, de 69 anos, para lhe comunicar que “o seu mandato terminará no domingo, justamente quando ele faz cinco anos no posto. Não são oficialmente conhecidas as razões da demissão, mas o purpurado, considerado linha-dura, era tido como contrário às reformas na Igreja Católica e é um crítico da exortação apostólica Amoris Laetitia, de Francisco, publicada em 2016, que sugere que pessoas casadas e divorciadas em segundo casamento poderiam, sob circunstâncias especiais, participar da comunhão.
O Prefeito Müller tinha sido escolhido por Bento XVI para ocupar um cargo que ele próprio desempenhara antes do Cardeal Levada. Tal como Joseph Ratzinger, Gerhard Müller é alemão, teólogo e académico, e são conhecidas as diferenças de opinião entre Francisco e ele.
Antes da vinda do Papa a Fátima, o cardeal disse ao Observador:
“As circunstâncias da vida e formação da razão e as experiências [de Francisco] são muito diferentes das de alguém oriundo da Alemanha, com uma vida académica, virada para o nível académico que existe na teologia alemã há vários séculos. O Papa Francisco tem uma espiritualidade que lhe vem dos Jesuítas, enquanto a do Papa Bento XVI lhe chega mais de Santo Agostinho, São Boaventura e da tradição da teologia existencial. Seguramente que a realidade do Papa Francisco, vindo de um contexto latino-americano, é muito diferente da história e da cultura europeias. No entanto, somos a mesma Igreja e a Fé não divide as pessoas. É a base da unidade.”.
As duas últimas frases da declaração do até agora Prefeito são totalmente verdadeiras, mas menorizar a teologia e a mundivisão do Pontífice argentino por não ter a escola alemã – o que não corresponde exatamente à verdade – ou atrelá-lo inexoravelmente aos jesuítas como se a teologia destes fosse de menor categoria e contrária à alemã, em comparação com a de Ratzinger, próxima de Santo Agostinho sabe a injusto, inexato e até arrogante. Aliás, tornou-se ridícula a afirmação do Prefeito de que tinha a competência de colmatar a necessidade de enquadrar teologicamente o pontificado de Francisco, como se este fosse obrigado a andar a toque de caixa da CDF e não fosse esta a prestar o serviço ao Papa como organismo de apuramento da doutrina e de morigeração dos costumes contrários aos inspirados no Evangelho.
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O Vaticano refere, na nota acima transcrita que o Papa está muito agradecido ao cardeal alemão pelo seu trabalho nos últimos cinco anos, mas que o mandato terminava este fim de semana. Não deixa de ter, apesar de tudo, alguma razão. Com efeito, nestes 5 anos, a CDF, além de vários livros e estudos, produziu dois documentos de bom senso e de excelência: a Carta Iuvenescit Ecclesia, sobre a relação entre os dons hierárquicos e carismáticos para a vida e a missão da Igreja, de 15 de maio de 2016; a Instrução Ad resurgendum cum Christo, a propósito da sepultura dos defuntos e da conservação das cinzas da cremação, de 15 de agosto de 2016.
A CDF é responsável pela difusão da doutrina e pela defesa dos pontos da tradição que possam estar em perigo devido a doutrinas não aceitáveis pela Igreja. E é responsável por investigar os casos de abuso sexual de sacerdotes. Em fins de fevereiro, Müller negou ter sistematicamente ocultado casos de abusos na Igreja, dizendo ao jornal La Repubblica:
“A Igreja não esconde nada. Em alguns casos, pode ter havido desconhecimento, mas não sistemático”.
No entanto, Müller tem pautado a maior parte das intervenções públicas pelo distanciamento em relação ao Papa, manifestado nos silêncios, quando era seu dever falar, nas afirmações contrárias às do Pontífice e no apoio (ora tácito, ora explícito) ao discurso e postura dos opositores – figurando para a opinião pública como opositor às reformas e crítico das posições do Pontífice.
Um dos pontos mais fraturantes entre o Cardeal e Francisco é a questão dos católicos divorciados que querem casar novamente – questão emergente nos dois sínodos sobre a família (outubro de 2014 e outubro de 2015). Para Müller, “o sacramento do matrimónio é indissolúvel por vontade de Deus”, o que ninguém pode mudar. Por isso, “uma possibilidade é voltar para o esposo legítimo ou então desistir das relações que não são válidas”, vivendo more fratris et sororis, ficando para o purpurado a questão “apenas em perceber se as condições para aquele matrimónio estavam reunidas, de acordo com os preceitos da Igreja”. Com efeito, “o casamento civil não é exatamente igual ao sacramento do matrimónio”, o que seguramente “há muitas pessoas que não conseguem entender”.
Ora, é preciso dizê-lo claramente: Francisco não mudou nem pretendeu mudar a doutrina; entende apenas que, no quadro da misericórdia evangélica, há de equacionar-se a forma eficaz de demonstrar pastoralmente que os divorciados recasados pelo civil (tendo refeito a vida com outra pessoa) não estão, por esse facto, fora da Igreja. E, se há outros bens a preservar ou o mister de não incorrer em mais situações injustas, é de equacionar, a juízo dos pastores, a possibilidade de aceder aos sacramentos da Reconciliação da Eucaristia, mediante um esclarecido itinerário penitencial, salvaguardando que a doutrina da Igreja sobre o matrimónio não muda, mas intentando a aproximação pastoral o mais eficaz e correta possível.
A Müller sucede o espanhol Luis Francisco Ladaria Ferrer, de 73 anos, que ocupava até agora o cargo de secretário na CDF. Natural de Maiorca, Ladaria tem sido um dos membros mais ativos da CDF e da Comissão Teológica Internacional. E, além dos cargos exercidos na Cúria, Ladaria é professor de Escatologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Com esta mudança de titulares na CDF, a perspetiva doutrinal e teológica não muda radicalmente, mas apenas muda a postura pastoral, tornando-se mais alinhada com o desígnio de Francisco e talvez se acelere o andamento dos processos judiciais que são da jurisdição da CDF.
O novo Prefeito da CDF (um teólogo europeu) entrou na Companhia de Jesus em 1966, já depois de se ter formado em Direito, em Madrid. Só depois é que se voltou para a vida sacerdotal. O Papa São João Paulo II nomeou-o para a Comissão Teológica Internacional em 1992, e Bento XVI viria a escolhê-lo para Secretário na CDF, em 2008. Por outro lado, Ladaria integra uma outra comissão muito importante da Santa Sé: a Comissão para o Diálogo com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a sociedade de vida apostólica que o bispo francês Marcel Lefebvre criou em 1970 para manter a doutrina, os preceitos e a disciplina da Igreja anteriores ao Concílio Vaticano II. Trata-se duma das organizações mais polémicas da Igreja, pugnando pela celebração da Missa Tridentina (prática anterior ao Concílio Vaticano II, celebrada em latim, de costas para o povoe preferencialmente ad Orientem –rejeitando por motivos doutrinais o missal de Paulo VI) – com a qual a Santa Sé tem procurado aproximar o diálogo, sobretudo através desta comissão.
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O Papa, como se disse, não renovou o mandato do responsável pelo gabinete que processa e avalia todos os casos de sacerdotes acusados de violação ou de abuso sexual de menores. A notícia da não renovação do mandato, que era esperada por muitos, surgiu dias depois de Francisco ter autorizado o Prefeito da Secretaria da Economia do Vaticano, que pediu e obteve licença de funções, para se deslocar à Austrália a defender-se em tribunal num caso de alegado abuso sexual. E o que terá a ver um caso com o outro?
Durante a vigência de 5 anos de Müller, o gabinete acumulou dois mil casos e sofreu fortes críticas por parte da irlandesa Marie Collins. De facto, a 1 de março, Collins, uma das vítimas de abuso sexual cometido por sacerdotes, renunciou ao cargo que ocupava na Pontifícia Comissão para a Tutela de Menores, criada em 2014 para investigar tais crimes. Segundo Collins (que disse à revista jesuíta America que a atitude “vergonhosa” da Congregação a levou a retirar-se da Comissão), havia uma resistência “inaceitável” às propostas da comissão por alguns organismos da Santa Sé. Em maio, Francisco assegurou que nunca assinou um indulto a padres envolvidos em escândalos de abusos sexuais e reconheceu que os processos estão muito atrasados, com “dois mil casos amontoados”. E deu expressamente “alguma razão” à irlandesa, afirmando que “há muitos casos atrasados, porque se amontoavam ali”, e referiu que “há dois mil processos amontoados”, o que era inexplicável, apesar da complexidade processual.
A CDF assumiu a responsabilidade de processar os casos de abuso sexual de crianças em 2001, depois de o cardeal Joseph Ratzinger, que se tornou o Papa Bento XVI, determinar que as dioceses não estavam a penalizar os religiosos envolvidos como requeriam as leis eclesiais.
Ora, o cardeal George Pell anunciou que pediu a licença para se defender, já aceite pelo Papa, das funções que desempenha no Vaticano, na sequência das acusações da polícia australiana de abusos sexuais. Na verdade, a polícia do Estado australiano de Victoria acusou o cardeal de 76 anos de crimes de abusos sexuais de menores tendo ele sido intimado a comparecer perante o tribunal de 1.ª instância de Melbourne no dia 18 de julho. Pell disse aos jornalistas que vai comparecer e negou as acusações que classificou de “assassinato de caráter”.
Entretanto, Greg Burke, porta-voz do Vaticano, disse que Francisco autorizou a licença pedida pelo cardeal australiano, mas que ele mantém o cargo de máximo responsável pelas Finanças da Igreja católica. Na verdade, enquanto arcebispo de Melbourne e, depois, de Sidney, Pell enfrentou alegações que o acusavam de encobrir abusos cometidos por clérigos. Mais recentemente, tornou-se alvo de investigações da polícia de Victoria que o interrogou no Vaticano, em 2016.
Porque será que Müller nunca disse uma palavra a propósito do caso Pell? A defendê-lo, não por certo, que a defesa tem de ser ativa e explícita, quando a acusação é pública; encobri-lo, quando o Papa tem sido claro e drástico na punição destes crimes, seria falta de entendimento, dissonância e incurso em abominação. Obviamente, o meu desejo é que Pell esteja inocente e Müller aceite humildemente a destituição do cargo e tente a aproximação ao Pontífice esquecendo mais a questão da escola teológica alemã.  

2017.07.03 – Louro de Carvalho

domingo, 2 de julho de 2017

75 anos depois, Vila da Ponte afirma-se como comunidade sacerdotal

Celebrou-se hoje, dia 2 de julho, na Sé Catedral de Lamego, a ordenação sacerdotal (presbiteral) de três jovens diáconos: Ângelo Santos, Diogo Rodrigues e Luís Rafael.
Felizmente, não é rara a celebração do Sacramento da Ordem na diocese de Lamego – de diáconos, presbíteros e, mesmo, bispos. E este é sempre um acontecimento notável e momento de oferta da graça divina. E, porque desde 26 de julho de 1942 a paróquia de Vila da Ponte, apesar de várias tentativas, não foi coberta eficazmente pelo dom da oferta de um sacerdote à Igreja, este é um dia extremamente festivo para esta comunidade de fé viva e intensa. E, mais do que se interrogar porque só agora isto acontece, apesar do zelo dos pastores (cuja preocupação pela organização paroquial poderá de certo modo ter-se sobreposto ao incremento pastoral da fé, só Deus o sabe!) e dos catequistas e da piedade de tanta gente da paróquia, o dia é de ação de graças pelo dom de Deus. Agora, com efeito, o Padre Luís Rafael é testemunho vivo duma comunidade sacerdotal, povo de Deus, nação santa, plantada à beira do Távora.
Dos quatro sacerdotes que foram ordenados naquele ano de 1942, na igreja paroquial de Vila Ponte – um deles era o excecional Cónego José Cardoso de Almeida, dali natural – e daqueles dois que lá receberam a ordem de diácono, um, e subdiácono, o outro, já nenhum se conta fisicamente entre nós. Mas agora, o dia, sem deixar de ser de memória por todos os que partiram, é sobretudo de festa por quem agora surge como servidor de Deus e dos homens! 
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Comecemos por falar do Luís Rafael. Diz-nos ele próprio que é “aquele menino que cresceu junto às águas do Távora, em Vila da Ponte”; a “criança irrequieta que nem sempre se portava bem na catequese”, mas que “gostava muito de vestir a alva e ajudar o Senhor Padre na Missa”; o “adolescente aventureiro que encontrou no Seminário de Resende uma nova casa”; o “Jovem Sem Fronteiras que sempre procurou ‘estar perto dos que estão longe, sem estar longe dos que estão perto’”; e o “estudante de teologia, seminarista, filho, amigo, diácono, discípulo-missionário, embalado pelo Amor de Deus”. Muito Bom!
Refere que  o estágio pastoral na Paróquia de Santa Maria Maior de Almacave tem sido “uma oportunidade para aprender”, já que “todas as semanas surgem novos desafios”, tendo tentado “encontrar em cada um deles algo que, em breve”, o possa “ajudar a ser um ‘melhor’ sacerdote”. E “o contacto diário com o povo de Deus tem sido a maior riqueza deste tempo”: “conhecer as pessoas, as famílias, as histórias, partilhar a mesa, as alegrias e as tristezas…”.
Sobre a formação recebida no Seminário e na Faculdade de Teologia, assegura que “o tempo de formação é essencial”, pois “ninguém nasce ensinado”. Diz que sente na vida “a importância de cada passo dado, cada ano de seminário, cada disciplina estudada”. Porém, nem sempre lhe “foi fácil compreender o porquê de algumas normas formativas do seminário ou vislumbrar automaticamente a ‘utilidade prática’ de determinadas temáticas estudadas na Faculdade”. Entretanto, o passar do tempo, foi-lhe dando a “resposta para a maior parte dessas inquietações, mas certamente existem alguns aspetos que devem ser alvo de uma reflexão profunda à luz do contexto atual”. E aos seminaristas e aos que estão a pensar entrar no Seminário declara:
Ao longo dos vários anos em que estive no seminário sempre gostei de me sentir acompanhado, principalmente pelos sacerdotes. Amigos, nunca estive sozinho… e nenhum de vós percorrerá este caminho sozinho! Contem comigo… Abraço.”. (cf Voz de Lamego, ano 87/33, n.º 4418, 27 de junho 2017).
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O que são os sacerdotes/presbíteros?
O Concílio Vaticano II esclarece-nos: “Os Presbíteros, embora não possuam o fastígio do pontificado e dependam dos Bispos no exercício do seu poder, estão-lhes, contudo, associados na dignidade sacerdotal e, por força do sacramento da Ordem, são consagrados, à imagem de Cristo sumo e eterno Sacerdote (cf Heb 5, 1-10; 7, 24; 9, 11-28), para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento (Conc. Vat. II, Const. Lumen Gentium, n. 21). São, pois, consagrados para a pregação, celebração do culto divino e apascentamento dos fiéis.
Pela sagrada Ordenação alguns fiéis são instituídos em nome de Cristo e recebem o dom do Espírito Santo para apascentarem a Igreja pela palavra e pela graça de Deus (Conc. Vat. II, Const. LG, n. 28). São, assim, destacados do comum dos fiéis, para receberem pela Ordem o dom de apascentar a Igreja pela Palavra e pela Graça.
E em outro lugar, pode ler-se: “Os Presbíteros, em virtude da sagrada Ordenação e da missão que recebem das mãos dos Bispos, são promovidos ao serviço de Cristo, Mestre, Sacerdote e Rei, de cujo ministério participam, e mediante o qual a Igreja é continuamente edificada, neste mundo, como Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo”. (Conc. Vat. II, Decr. Presbyterorum Ordinis, n. 1). São destinados ao serviço de Cristo e edificação da Igreja.
Aos presbíteros, pela sagrada Ordenação é conferido um sacramento por força do qual eles são assinalados, “pela unção do Espírito Santo, com um caráter particular e, de tal modo ficam configurados a Cristo sacerdote, que podem agir na pessoa de Cristo Chefe” (Vat. II, PO, n. 2). Por isso, os presbíteros têm parte no sacerdócio e missão do Bispo. Zelosos cooperadores da Ordem episcopal, chamados a servir o povo de Deus, constituem com o seu Bispo um único presbitério com diversas funções. (cf Vat. II, LG, n. 28). É um sacramento que imprime o caráter particular de configuração com Cristo sacerdote.
Também o Pontifical Romano (de Paulo VI, revisto por João Paulo II), retomando a doutrina conciliar nos elucida sobre os presbíteros:
Participantes, segundo o grau do seu ministério, do múnus de Cristo, único Mediador (1Tm 2, 5), anunciam a todos a palavra de Deus e principalmente na celebração eucarística exercem a sua função sagrada. São, para com os fiéis penitentes ou enfermos, ministros da reconciliação e do conforto e apresentam a Deus Pai as necessidades e súplicas dos fiéis (cf Heb 5,1-4). Desempenhando, segundo a sua condição, o múnus de Cristo Chefe e Pastor, reúnem a família de Deus como fraternidade animada num só todo e, por Cristo, no Espírito Santo, conduzem-na a Deus Pai. No meio do rebanho adoram o Pai em espírito e verdade (cf João 4,24). Trabalham, enfim, pregando e ensinando (cf 1Tim 5,17), acreditando o que leram e meditaram na lei do Senhor, ensinando o que creem e vivendo o que ensinam.” (vd PR, Preliminares da Ordenação dos Presbíteros, n. 102). São, pois, ministros da Palavra e da Eucaristia, da Reconciliação e do Conforto; são fatores da unidade e convocantes da comunidade; e são crentes e orantes exemplares que ensinam o que creem e vivem o que ensinam.
Pela imposição das mãos do Bispo e a Oração de Ordenação é conferido aos candidatos o dom do Espírito Santo para o múnus de presbíteros – os presbíteros também impõem as mãos aos candidatos juntamente com o Bispo, para significarem a receção no presbitério. As palavras seguintes, enquanto nucleares desta Oração, pertencem à natureza da Ordenação, de tal modo que são exigidas para a sua validade:
Nós Vos pedimos, Pai todo-poderoso, constituí estes vossos servos na dignidade de presbíteros; renovai em seus corações o Espírito de santidade; obtenham, ó Deus, o segundo grau da Ordem sacerdotal que de Vós procede, e a sua vida seja exemplo para todos”. (cf id, n.112).
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Nas palavras sugeridas pelo Pontifical para a homilia da Missa da ordenação dos presbíteros, refere-se que, pelo Batismo, “todo o povo santo de Deus se torna, em Cristo, um sacerdócio real”. Porém, Cristo “escolheu alguns discípulos para desempenharem na Igreja, em seu nome, o ministério sacerdotal em favor dos homens”. E, “enviado pelo Pai, Ele mesmo enviou os Apóstolos por todo o mundo” para continuar, por meio deles e dos Bispos, seus sucessores, “a sua missão de Mestre, Sacerdote e Pastor”. E os presbíteros, constituídos cooperadores dos Bispos e associados a eles na missão sacerdotal, “são chamados ao serviço do povo de Deus”.
Assim, os presbíteros servem a “Cristo, Mestre, Sacerdote e Pastor” e, pelo seu ministério, a Igreja, Corpo de Cristo, “cresce e edifica-se como templo santo e povo de Deus”. E, sendo configurados com Cristo e associados aos Bispos, são “consagrados como verdadeiros sacerdotes da Nova Aliança para anunciarem o Evangelho, apascentarem o povo de Deus e celebrarem o culto divino, principalmente no sacrifício do Senhor”.
Pelo sacramento da Ordem, os presbíteros, exercem, no que lhes compete, o “múnus de ensinar em nome de Cristo, nosso Mestre”; distribuem “a todos a palavra de Deus” que receberam com alegria; e, “meditando na lei do Senhor”, procuram crer o que leem, ensinar o que creem e viver o que ensinam.
Há de ser o seu “ensino alimento para o povo de Deus” e o seu “viver motivo de alegria para os fiéis”, para edificarem, “pela palavra e pelo exemplo, a casa que é a Igreja de Deus”.
Exercem também o múnus de santificar. Com efeito, pelo seu ministério, “se realiza plenamente o sacrifício espiritual dos fiéis, unido ao sacrifício de Cristo, que, juntamente com eles, é oferecido” pelas suas mãos sobre o altar, de modo sacramental, na celebração dos santos mistérios. Hão de, pois, tomar consciência do que fazem e imitar o que realizam. Celebrando “o mistério da morte e da ressurreição do Senhor”, esforçam-se por fazer morrer em si “todo o mal e por caminhar na vida nova”. E, fazendo “entrar os homens no povo de Deus pelo Batismo”, perdoando “os pecados em nome de Cristo e da Igreja no sacramento da Penitência”, aliviando “os enfermos com o óleo santo”, celebrando “os ritos sagrados” ou oferecendo, “nas horas do dia, o louvor com ações de graças e súplicas, não só pelo povo de Deus, mas também por todo o mundo”, lembram-se de que foram “assumidos de entre os homens e postos ao serviço dos homens” nas coisas Deus. Realizam, pois, “com verdadeira caridade e alegria constante, o ministério de Cristo Sacerdote”, não procurando os seus interesses, mas os de Jesus Cristo.
Enfim, unidos e atentos ao Bispo, congregam os fiéis numa só família para os poderem conduzir a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo; e trazem sempre diante de si o exemplo do Bom Pastor que veio, não para ser servido mas para servir e buscar e salvar o que estava perdido.
Assim, desprovidos de si mesmos, enchem-se de Deus e dedicam-se de corpo e alma ao serviço dos homens através da Igreja.
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É de considerar com muita atenção a oração consecratória, que, a seguir à imposição das mãos pelo Bispo, como matéria sacramental (e de outros sacerdotes como receção no presbitério), serve de forma da Ordenação Sacerdotal.
Invoca-se o “Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente”, para que esteja connosco.
Por Ele, “autor da dignidade humana” e “distribuidor de todas as graças”, “crescem e se tornam firmes todas as coisas”. É Ele que, “para formar o povo sacerdotal”, lhe dá e estabelece “em diversas Ordens, os ministros de Cristo”, seu Filho, “pelo poder do Espírito Santo”.
Depois, faz-se uma resenha orante da história da Salvação no Antigo Testamento:
Para mostrar que “já na antiga Aliança se desenvolveram funções sagradas que eram sinais do sacramento novo”, a Oração refere que Moisés e Aarão foram postos por Deus “à frente do povo para o conduzirem e santificarem” e a eles foram associados por Deus, como colaboradores daqueles, outros homens; que, no deserto, o Senhor comunicou “o espírito de Moisés a setenta homens prudentes, com o auxílio dos quais ele governou mais facilmente” o povo de Deus. também, “as graças abundantes concedidas a Aarão”, o Senhor as transmitiu a seus filhos, para não faltarem sacerdotes que oferecessem “os sacrifícios do templo, sombra dos bens futuros”.
Nos últimos tempos, o Pai Santo, enviou ao mundo o seu Filho Jesus, Apóstolo e Pontífice da nossa fé”, o qual “Se ofereceu” ao Pai, pelo Espírito Santo, como vítima imaculada, e tornou participantes da sua missão, os seus Apóstolos, santificados na verdade”. A eles o Senhor juntou “outros companheiros, para anunciarem e realizarem, por todo o mundo, a obra de salvação”.
Depois de rezado este historial de salvação, vem o núcleo da Oração Consecratória:
Agora, Senhor, concedei também, à nossa fragilidade, estes cooperadores, pois deles carecemos no desempenho do sacerdócio apostólico. Nós Vos pedimos, Pai todo-poderoso, constituí estes vossos servos na dignidade de presbíteros; renovai em seus corações o Espírito de santidade; obtenham, ó Deus, o segundo grau da Ordem sacerdotal que de Vós procede, e a sua vida seja exemplo para todos.
A seguir, vêm em termos de petição as caraterísticas de que se devem revestir os presbíteros na sua vida e ministério:
Sejam cooperadores zelosos da Ordem (episcopal), a fim de que, pela sua pregação, as palavras do Evangelho frutifiquem, pela graça do Espírito Santo, nos corações dos homens, e cheguem até aos confins do mundo.
Sejam (juntamente com os bispos), fiéis dispensadores dos divinos mistérios, para que o povo que a Deus pertence renasça pelo banho da regeneração e se alimente do altar, os pecadores se reconciliem e os enfermos encontrem alívio.
Unam-se (aos bispos) para invocar a misericórdia do Senhor pelo povo a eles confiado e em favor do mundo inteiro. Assim todas as nações, congregadas em Cristo, se hão de converter num só povo que pertença a Deus e consumar-se no seu Reino.
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É uma missão hercúlea, não é? O Pontifical Romano não o esquece e recorda (vd n. 103):
“É dever de todos os fiéis da diocese orar pela perseverança dos candidatos ao presbiterado, o que devem fazer principalmente na oração universal da Missa e nas preces das Vésperas”.
Depois, é imperativo continuar a rezar pela multiplicação e santificação dos sacerdotes e para que o Coração Sacerdotal de Jesus atue através deles. E, finalmente, cada cristão deve assumir as suas responsabilidades e tarefas na Igreja e no mundo, em sentido e estilo de cooperação e fraternidade. PrositParabéns à JSF de Vila da Ponte!
2017.07.02 – Louro de Carvalho

Considerações sobre o furto no arsenal de guerra de Tancos

O já confirmado maior assalto de sempre a instalações militares portuguesas “rendeu” material de guerra (granadas, lança-granadas, granadas-foguete anticarro, munições e até engenhos explosivos “prontos a detonar”) que, segundo a investigação poderá ir parar ao mercado negro internacional. Por outro lado, sabe-se que só foi reparada parte da cerca em redor dos paióis e que a decisão da reparação da parte restante levou três meses para ser aprovada pelo Ministro da Defesa Nacional, tendo já sido lançado o respetivo concurso e inscrita a conveniente verba no orçamento.
Segundo informação de fontes policiais, em Tancos, foram roubados 44 lança-granadas e 4 engenhos explosivos “prontos a detonar” e, ainda, foram roubadas 120 granadas ofensivas, 1.500 munições de calibre 9 milímetros e 20 granadas de gás lacrimogéneo.
Em comunicado, na tarde do dia 30, o Exército confirmou o furto e enumerou uma série de material de guerra em falta nos paióis, incluindo “granadas-foguete anticarro” e “material diverso de sapadores como bobines de arame, disparadores e iniciadores”.
O comunicado ainda esclarece que “os trabalhos de contagem de materiais foram elaborados pelo Exército na presença da Polícia Judiciária Militar, sendo, portanto, do conhecimento das autoridades competentes e da tutela”. Contudo, não serão divulgadas as quantidades exatas do material furtado “para não investigar as investigações em curso”. O caso já está a ser investigado pela Polícia Judiciária Militar.
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No furto de material de guerra guardado em Tancos, os assaltantes terão furado a rede que cerca o terreno dos PNT (Paióis Nacionais de Tancos). A segurança faz-se apenas por rondas aleatórias com tropas apeadas ou autotransportadas. No local, não há videovigilância e as torres de vigia foram abandonadas, algo que o comunicado do Exército vem confirmar, referindo:
No que respeita a medidas de segurança eletrónica, esclarece-se que o sistema de vídeo vigilância, cuja cobertura é apenas parcial para uma área do PNT onde estariam os materiais mais relevantes, encontra-se inoperacional”.
Além disso, o comunicado adianta que a Lei de Programação Militar “previa a disponibilização de verbas em 2018” para a “implementação de vigilância e controlo de acessos eletrónico”.
Quanto às redes que circundam Tancos, uma interior e outra exterior, “considerando as necessidades de renovação causadas pelos anos da rede exterior, o Exército tinha já iniciado os procedimentos legais para a adjudicação da obra, de forma faseada e com verbas da Lei de Programação Militar”. Sucede que, até agora, apenas uma parte da rede exterior, a oeste, tinha sido renovada. A reparação da restante vedação esteve 3 meses a aguardar despacho do Ministro, como confirma o Exército e se pode ler:
A adjudicação do restante perímetro foi solicitada pelo Exército a 8 de março de 2017 e, tendo recebido aprovação de SExa o Ministro da Defesa Nacional (por seu despacho de 5 de junho, publicado no DR de 30JUN), foi publicado em Diário da República em 19 de junho de 2017 (DR 116).
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O general Rovisco Duarte, chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), reconheceu que quem furtou o material de guerra do quartel de Tancos tinha “conhecimento do conteúdo dos paióis e admitiu a possibilidade de fuga de informação. Por isso, além da investigação conduzida pela Polícia Judiciária Militar e pela Polícia Judiciária, decorrerá um inquérito no Exército para apuramento de eventuais responsabilidades. De facto, o furto ocorreu na zona cuja vedação ainda não tinha sido reforçada com material mais resistente, no âmbito das medidas de melhoria da segurança das instalações, sendo visível um buraco de grandes dimensões. 
Segundo o chefe do Estado-Maior do Exército, “estes roubos podem acontecer em qualquer país e em qualquer Exército, desde que haja vontades e capacidades”. Rovisco Duarte sublinhou que o material de guerra furtado foi selecionado por quem tinha conhecimento do conteúdo dos paióis.
O Exército revelou, no dia 30 de junho, que entre o material de guerra roubado, no dia 27 de junho, dos Paióis Nacionais de Tancos estão “granadas-foguete anticarro”, granadas de gás lacrimogéneo e explosivos, mas não divulgou quantidades.
Face ao incidente, a segurança foi reforçada nos paióis com “o aumento de efetivos” e com “patrulhas mais robustas”, mas o General CEME ainda “não se permite ajuizar” sobre a falta de funcionamento do sistema de videovigilância do quartel, parado há dois anos. No entanto, frisou que os planos de segurança e vigilância foram cumpridos.
O Ministro da Defesa Nacional assumiu a responsabilidade política pelo furto de Tancos, depois de os partidos terem criticado o sucedido, com o CDS-PP a exigir a audição parlamentar de Azeredo Lopes e o PSD a pedir também a audição de Rovisco Duarte.
Já antes o Ministro Azeredo Lopes reconhecera, no dia 29, em Bruxelas, que o furto de granadas de mão ofensivas e munições das instalações militares dos Paióis Nacionais de Tancos “é grave”, embora se tenha recusado a aceitar que seja o maior furto de material de guerra de sempre, e garantiu que não ficará “nada por levantar” nas averiguações. Disse o Ministro:
Evidentemente é um facto grave, não vale a pena estar a desvalorizar esse facto. É sempre grave quando instalações militares são objeto de ação criminosa tendente ao furto justamente de material militar, para mais quando “não foi roubada uma pistola, não foram roubadas duas, foram roubadas granadas”.
O Ministro, que falava aos jornalistas à margem da reunião ministerial da NATO, em Bruxelas, disse que, “evidentemente”, Portugal vai informar os seus parceiros do ocorrido. E garantiu que, paralelamente às investigações já em curso – “a questão ficou imediatamente sob alçada da Polícia Judiciária militar e da Polícia Judiciária e, a partir de agora, das diferentes instâncias de investigação criminal” –, a questão da segurança do material militar será assunto de debate com as chefias militares. E, a este respeito, especificou:
“Vamos evidentemente informar através da Intel os nossos congéneres, porque estamos a falar de um espaço sem fronteiras e, por isso, é nossa obrigação dar conta do desaparecimento desse tipo de material (…); e, do ponto de vista da Defesa nacional, tenho a intenção de solicitar às chefias militares que falemos sobre o assunto, que possamos desenhar um plano para verificar quais são e se existem plenamente as boas práticas quanto a este assunto do material militar e eventualmente até envolver, se for esse o caso, a Inspeção-Geral de Defesa Nacional”.
Azeredo Lopes admitiu não ter, ao tempo, “uma noção exata do material que realmente foi furtado”, sendo já “certo que foram furtadas granadas e algumas munições”, mas acrescentou que não pode “dizer em boa verdade se há mais que tenha sido furtado”. Apontando que, neste furto, se tratou, “pelos vistos”, de algo “bastante profissional”, admitiu preocupação com a finalidade do mesmo, ainda por apurar, pois “quando se furtam granadas não pode por definição ser para boa coisa, e isso evidentemente justifica preocupação, mas não justifica receio”.
O importante agora, realçou, é “procurar estancar o mais depressa possível as consequências” do furto do material militar, na certeza de que “o Exército vai desencadear medidas de investigação necessárias”, de natureza diversa das que já estão a cabo da Polícia Judiciária.
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Em consequência do furto de Tancos, o CEME anunciou ontem, dia 1 de julho, que demitiu cinco comandantes de unidades do ramo para não interferirem com os processos de averiguações. A este propósito, disse à RTP:
“Não quero que haja entraves às averiguações e decidi exonerar os cinco comandantes das unidades que de alguma forma estão relacionadas com estes processos”.
Os militares exonerados são o comandante da Unidade de Apoio da Brigada de Reação Rápida, o comandante do Regimento de Infantaria 15, o comandante do Regimento de Paraquedistas, o comandante do Regimento de Engenharia 1 e o comandante da Unidade de Apoio de Material do Exército.
Rovisco Duarte disse que decidiu exonerar estes comandantes “por uma questão de clareza e para não interferirem com o processo de averiguações até se esclarecer”.
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Face a tudo isto, apraz-me tecer as seguintes considerações:
Obviamente que não interessa discutir se este foi ou não o maior furto de material militar de sempre. Importa é saber que se trata de material de guerra (diversificado e em grande quantidade) que não se sabe em que mãos se encontra e num contexto de ameaça generalizada de terrorismo e crime organizado.
É claro que o Ministro tem responsabilidades políticas, mas não concordo que a leitura das consequências das mesmas tenha de passar pela demissão do Ministro. Demitido, responde sobre o quê e perante quem? E pode fazer o quê? Vai para a cadeia, se não cometeu crime? Paga, se não tem dinheiro? É, antes, bom que se explique, corrija as falhas de pessoal, de material e de logística, promovendo a agilização de procedimentos. Acabe-se com a entrega da segurança ao acaso, a privados ou exclusivamente a meios eletrónicos. Depósitos de material de guerra devem ser guardados predominantemente por militares em presença e militares em ronda aleatória para verificar as condições de guarda. As câmaras de vigilância podem ser um instrumento auxiliar para verificação da identidade de autores de tentativas de assalto. Mas as câmaras até foram desligadas por falta de dinheiro para sua manutenção. Ademais, elas só retêm imagens de quem assalta, não detêm os assaltantes; e estes podem desativá-las previamente.
Quanto aos militares, o CEME foi infeliz ao dizer publicamente que houve fuga de informação. Se o disse, tinha de demonstrar e ter encontrado os responsáveis. Poderia e até deveria admitir essa possibilidade e prometer a competente investigação dos factos e apuramento de responsabilidades. Demitir os cinco comandantes só para não perturbarem a investigação é excessivo; bastava a suspensão preventiva e nomeação de comandantes interinos. Ou o CEME já sabe o que se passa e não o quer dizer? Por outro lado, um conjunto de paióis ser defendido por rede de arame é comparável à casa forte dum estabelecimento que eu conheci. As suas paredes eram de madeira e a porta é que era blindada – antifogo e antirroubo!
As responsabilidades políticas e logísticas pelas instalações militares repartem-se por vários governos e várias chefias militares: desde a abolição do serviço militar obrigatório (e não recrutamento suficiente de voluntários) até ao ataque descarado ou obnubilado às Forças Armadas atribuindo-lhes, a par de funções externas, funções internas residuais, passando pela diminuição dos orçamentos, pela entrega da segurança de aquartelamentos e postos-chave do país a empresas, nalguns casos, e a separação quase absoluta entre defesa e segurança – muito haveria a dizer! Por exemplo: Quem acabou com os postos fixos de sentinela e rondas de verificação, há 15 anos?

2017.07.02 – Louro de Carvalho

sábado, 1 de julho de 2017

Presidente da República condecorou os Servitas de Fátima

O Presidente da República agraciou, no Palácio de Belém, a Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima como Membro Honorário da Ordem do Mérito. Recebeu as insígnias, no passado dia 26 de junho, no Palácio de Belém, o Presidente da Direção, Pedro Santa Marta, que assumiu que a condecoração representa “uma responsabilidade e será um estímulo para nos mantermos sempre humildes e fiéis à nossa missão”.
Dado o caráter excecional e lacónico da notícia como vem referenciada no site da Presidência da República e na agência Ecclesia, parece-me oportuna uma referência mais desenvolvida a esta entidade.
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Os Servitas
É no contexto da multiplicidade de grupos que prestam serviço em Fátima que se integram, sendo o primeiro corpo de Voluntários, constituído logo em 13 de junho de 1924, ainda antes do reconhecimento das Aparições pela Carta Pastoral do Senhor Dom José Alves Correia da Silva, então sob a designação de “Associação dos Servos de Nossa Senhora do Rosário de Fátima”, pois interessava acompanhar de perto as necessidades espirituais e logísticas dos peregrinos.
A Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, que se colocou sob a proteção de Nossa Senhora e que trabalha desde a sua fundação ao serviço dos peregrinos no Santuário de Fátima, é uma associação pública de fiéis, constituída por leigos, religiosos, diáconos e sacerdotes, católica, ereta canonicamente pelo Bispo de Leiria-Fátima, sob a proteção de Nossa Senhora, no Santuário de Fátima, onde tem a sua sede. Enquanto associação de Igreja, submete-se à autoridade do prelado da diocese de Leiria-Fátima e, no exercício da sua atividade no Santuário, integra-se na sua orgânica, na dependência direta do Reitor. Hoje a associação tem cerca de 450 membros. A média de idades dos servitas ronda os 45 anos. Parece um tempo longo, mas há uma explicação que José António Santos, de 67 anos, que foi Presidente da Associação, aduz:
“Existe uma equipa que faz a triagem dos candidatos. Há os que pensam ter vocação, mas, depois de começarem a trabalhar, percebem que não a têm.”.
A Associação tem, atualmente, os seguintes setores de atividade: Oração, Secretaria, Serviços de Saúde, Recinto, Confissões, Informações, Retiro de Doentes, Fins de semana e Formação.
Considerando que se trata de uma vocação simples ou uma vocação à simplicidade, pode dizer-se que os Servitas têm crescido servindo, obedecendo e rezando. No atinente ao serviço, autossurpreendem-se a aceitar e amar o sacrifício, não por especial heroísmo, mas porque as circunstâncias o ditam e o amor aos peregrinos é mais forte que todas as dificuldades; no capítulo da obediência, há de dizer-se que obedecem, não por serem reverentes ou incapazes de raciocinar, mas porque é conatural à sua vocação de serviço a alegria de aceitar o que a cada momento lhes é destinado e a humildade de se reconhecerem pequena parte de um todo; e no concernente à oração, asseguram-nos que rezam, não por serem particularmente místicos, mas pela avidez de aproveitar a “atmosfera de sobrenatural” fatimita e por uma consciência implícita e segura de que todo o seu serviço radica na identificação e conformação com a Mensagem de Nossa Senhora que nos visitou na Cova da Iria.
Os Servitas vivem assim, em respeito da mensagem fatimita e em sentido de Evangelho e de Igreja, na fidelidade e obediência ao Magistério da Igreja e, de modo peculiar, aos ensinamentos do Santo Padre; vivem a Mensagem de Fátima fazendo da sua vida instrumento de divulgação; rezam o Terço todos os dias e fazem a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados de cada mês, tal como foi pedido por Nossa Senhora de Fátima; e servem os Peregrinos em Fátima.
Para ser membro da Associação dos Servitas o candidato – leigo, religioso, diácono e sacerdote de qualquer Diocese – têm de reunir as seguintes condições: ter atingido 18 anos e não ter atingido ainda os 50 anos de idade, podendo a Direção tomar outra deliberação, em casos especiais; ser membro e apóstolo da Igreja Católica e querer cumprir generosamente os deveres dos Servitas; ter disponibilidade para servir os Peregrinos no Santuário de Fátima; e aceitar as disposições constantes dos Estatutos e Regulamentos da Associação.
O candidato servita deve cumprir as seguintes etapas antes de ser admitido como servita: receber a formação adequada para o pleno desempenho da sua missão; conhecer e aceitar plenamente os Estatutos e Regulamentos da Associação dos Servitas; ter recebido a decisão da Direção, em que esta o(a) considera apto(a); e solicitar, por escrito, à Direção, a sua admissão à Promessa. Com efeito, O Servita só o será formalmente depois de fazer a Promessa, que é feita perante o Bispo de Leiria-Fátima, com a presença dos Servitas, no Santuário de Fátima.
A Promessa “é um compromisso público, consciente e livre, com Cristo e a Igreja, fruto da sua resposta ao chamamento de Nossa Senhora, tal como foi confiada aos Pastorinhos”.
Os servitas fazem o bem em silêncio e docemente, prestando assistência material e espiritual aos peregrinos do Santuário de Fátima. São homens e mulheres que perguntam a cada momento o que a Senhora quer deles. Dizem o seu “sim”, como o fez Maria, porque também Ela se disponibilizou como a “serva do Senhor” pela fé e pela aceitação do mistério – pelo que as gerações A aclamam Bem-aventurada.
Servir é, pois, um verbo que se constitui como um programa de vida. É assim que os Servitas de Fátima encaram a sua ação específica. Eles, que também são peregrinos, têm como missão acolher os peregrinos de Fátima. E Maria é a mestra dos servos, discípula com os discípulos e peregrina com os peregrinos, que os ajuda a responder aos apelos que lhes são dirigidos. A mensagem de Fátima é a bússola que norteia estes peregrinos peculiares no serviço de cada dia.
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Como se reconhecem os Servitas?
Exteriormente, facilmente se identificam os servitas no Santuário. Os homens envergam as correias (que, no passado, serviam para facilitar o transporte das macas) e as mulheres a farda branca, o véu e a Cruz de Cristo. É gente proveniente de todo o país (há também alguns espanhóis) e até do resto do mundo, nomeadamente muitos portugueses da diáspora que utilizam alguns dias das suas férias em Portugal para estarem ao serviço do Santuário. São diferentes dos guardas, que têm um uniforme diferente e que prestam um serviço profissional permanente no Santuário.
Especificamente, os Servitas lavam os pés aos peregrinos, dão água aos que têm sede, ajudam os que levam a cabo o cumprimento de promessas de joelhos, dirigem a organização da bênção dos doentes e das procissões. Estão presentes em Fátima nas peregrinações aniversárias de maio a outubro, em todos os fins de semana de maio a novembro e nos retiros de doentes organizados pelo Santuário. É um serviço que se prolonga há 93 anos.
Em 12 de junho de 2014 assinalaram a celebração oficial do 90.º aniversário. No final da Missa celebrada do dia 13 de manhã no recinto do Santuário, o Bispo de Leiria-Fátima, Dom António Marto, que concelebrou, deixou, em nome do Santuário de Fátima e dos peregrinos deste lugar, uma palavra de “parabéns e de gratidão” à Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, que celebrava os 90 anos de existência ao serviço dos peregrinos deste santuário, de modo especial no acolhimento aos doentes, e da divulgação e vivência da mensagem de Fátima.
Cada Servita tem de estar disponível em três peregrinações por ano e num fim de semana ou num retiro de doentes. É uma entrega que exige um compromisso de grande responsabilidade. Por ano, cerca de dez pessoas fazem a “Promessa dos novos” para serem admitidas como servitas. São homens e mulheres de todas as profissões, casados ou solteiros, leigos ou religiosos, que estão dispostos a oferecer-se a Deus, servindo os peregrinos. Sentem-se diariamente interpelados pela Mensagem de Fátima – oração, penitência e conversão – mas reconhecem a dificuldade em realizar cabalmente os pedidos de Nossa Senhora. De facto, Ela lança-nos muitos desafios e deixa-nos a pensar em muitas coisas, de tal modo que hoje é, para os cristãos, muito difícil o caminho para a perfeição e, por consequência, a santidade perfeita só existe no céu. Por isso, o fundamental é a atitude de disponibilidade total e a interrogação permanente de cada um a si próprio – em cada pensamento, ato e emoção – sobre qual é a vontade de Deus e o desejo de Maria a respeito de cada um.
A Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima tem 93 anos e colabora ativamente com o Santuário no acolhimento aos peregrinos de modo especial no acolhimento aos doentes e na divulgação e vivência da mensagem de Fátima – uma estrutura e um serviço eclesiais.
O 2.º Congresso dos Servitas
A Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima concluiu em Fátima, nos dias 16 e 17 de março de 2007, no ano em que decorria o 90.º aniversário das Aparições, o seu 2.º Congresso. No último dia deste momentoso encontro, na presença do Bispo da Diocese de Leiria-Fátima, Dom António Marto, e também do Emérito da mesma diocese, Dom Serafim Ferreira e Silva, foram lidas as conclusões deste encontro no Santuário de Fátima, o qual, para além das sessões de trabalho, integrou momentos de oração e a visita à exposição patente no Centro Pastoral Paulo VI até ao final de abril, intitulada “Fátima no Coração da História”. 
O documento final, entre outros aspetos refere:
A Assembleia Geral Ordinária, de dezembro de 2001, da Associação aprovou por unanimidade a realização do segundo Congresso da sua história para repensar a sua missão à luz da realidade atual de Fátima e das perspetivas da sua evolução. A opção por esta reflexão sob a forma de Congresso teve como pressuposto a vontade de que ele decorresse de forma participada por todos os Servitas. E considerou-se que a sua urgência não deveria pôr em causa a necessária ponderação dos inúmeros temas e fatores a analisar e avaliar, das fontes a consultar e das participações a solicitar.
E, para que se focar no essencial, adotou um tema, um método e um modelo. O Tema “Renovar o Coração, para Acolher o Futuro” fixava a atenção no essencial da mudança que nasça do coração e nele se enraíze, que o torne capaz de abraçar a realidade da Missão, sempre diferente e sempre nova. O Método propunha, em duas grandes etapas, quatro passos indispensáveis: no primeiro, “Redescobrir o nosso Carisma”, os Servitas olharam para si próprios, refazendo o percurso, desde as origens até à atualidade; no segundo, “Conhecer a realidade”, percorreram a realidade de Fátima (o que é, como é e quem a serve). Era a primeira etapa, que pretendia ser de observação e aprofundamento. Uma segunda etapa, mais voltada para a concretização, incluiu o terceiro passo, “Renovar o Coração”, em que se tentou encontrar os passos de mudança a dar para se abraçar com determinação o que o futuro pedia; e o quarto passo, “Acolher o futuro”, levava à procura da descoberta dos novos caminhos para o serviço dos peregrinos. O Modelo – porque o caminho se previa duro e difícil – postulava a égide de quem ajudasse a colocar o coração em posição disponível e sustentasse a vontade. E assim se decidiu que tudo seria feito “Com os olhos em Maria”, aquela que foi sempre dócil ao Espírito, fiel à vontade de Deus e atenta aos sinais do tempo e aos anseios dos homens. Nestes termos, se encadeou o trabalho de “Com os Olhos em Maria, Renovar o Coração, para Acolher o Futuro”. A certeza de que as mudanças verificadas na realidade de Fátima impunham uma transformação na maneira de ser, estar e realizar a Missão dos Servitas não evitou alguma perplexidade perante a interpretação dos fenómenos e das mutações com que se deparavam. O tempo que decorreu desde dezembro de 2001 até ao Congresso foi tempo de mudança para Fátima: a Diocese de Leiria-Fátima recebeu um novo Bispo; no Santuário, foi renovada a equipa de Capelães, passou a haver novos Servidores, a estrutura física do Recinto foi alterada e a construção da nova Igreja da Santíssima Trindade (ora Basílica) estava em fase conclusiva. Enquanto isto acontecia, os Servitas receberam um novo Assistente Espiritual e foram, também eles, mudando. Partiram uns e chegaram outros, ajustaram-se métodos e alteraram-se serviços, aperfeiçoaram-se critérios e exigiu-se maior rigor na resposta ao compromisso. E continuaram a suceder-se os tempos de serviço a que dão resposta, em Peregrinações Aniversárias, Retiros de Doentes e Fins de semana. E o esforço de reflexão e discussão desenvolveu-se a par do Serviço, o que quer dizer que não o fizeram em “tempo sabático”, mas assegurando todos os compromissos que lhes estavam confiados. Não parando, foram servindo enquanto refletiam. Se a fórmula “Congresso” não atingiu totalmente o objetivo de participação coletiva, teve a virtude de manter sempre atualizado o objeto da reflexão. E o primeiro crédito conseguido foi o de estarem hoje muito mais conscientes daquilo que o Santuário é e do que não é. Ainda que presentes neste lugar desde há mais de 80 anos e agora em ritmo quase diário durante metade do ano, não foram poucas as novidades encontradas, as relações aprofundadas e as ideias germinadas. Como seria de esperar, as conclusões não apontaram para uma “revolução”, mas deixaram claro que muito teria que mudar para que a ação corresponda de modo adequado e atempado às reais necessidades de Fátima, no concreto do Santuário e dos Peregrinos.
O documento final adotou a estrutura seguinte: caraterização da realidade de Fátima, dos Peregrinos, do Santuário, bem como dos Servidores que hoje ali acolhem os peregrinos, caraterizando de modo especial a Associação dos Servitas; as conclusões propriamente ditas, que apontam o Serviço Voluntário como a resposta mais adequada para o serviço dos peregrinos no Santuário, onde se incluem os Servitas, e desenvolvem algumas das suas caraterísticas essenciais; e o caminho a prosseguir na contínua renovação do coração, para todos e de cada um dos Servitas, a fim de sustentar o esforço de mudança que o futuro nos guarda.
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O itinerário do Congresso é um exemplo inspirador para outros congressos em Igreja. E esta condecoração constitui um forte reconhecimento público dum serviço discreto e eficaz ao povo.

2017.07.01 – Louro de Carvalho