quarta-feira, 28 de junho de 2017

Juntos Por Todos – concerto em homenagem às vítimas dos incêndios

Vasco Sacramento (neto de Mário Sacramento, grande nome da história contemporânea de Aveiro, médico, resistente antifascista, várias vezes preso pelo regime de Salazar) deitou-se, a 17 de junho, o sábado dos incêndios, impressionado com o que vira nas televisões e acordou com mensagens de pânico no telemóvel. Era-lhe impossível ficar quieto, pelo que provocou o movimento que desemboca no esgotadíssimo concerto do dia 27, que todas as televisões e rádios transmitiram.
O próprio Vasco Sacramento, de 39 anos, promotor de concertos, responsável pela Sons em Trânsito, deu o primeiro sinal exterior de que algo poderia estar para acontecer, quando, às 20,47 horas do dia seguinte, escrevia na sua página de Facebook o que lhe ia na alma. Impressionado, começou por dizer que, na manhã daquele domingo, não conseguira “ficar parado com as notícias e as imagens que chegavam de Pedrógão Grande”. E continuou:
“Arregacei as mangas e desafiei a MEO Arena, algumas empresas parceiras e muitos dos principais artistas nacionais. Não tive uma única resposta negativa, para além daqueles que, infelizmente, não dispunham de agenda. Dia 27, teremos um concerto com mais de 20 artistas e transmitido em direto pela RTP, que também se associou imediatamente. Obviamente que ninguém vai ganhar um tostão com isto e todas as receitas obtidas reverterão para o apoio às vítimas e à reconstrução das áreas afetadas. Mais informações nas próximas horas. Agora é preciso encher o MEO Arena.”.
Foi o começo duma iniciativa empenhada e emocionante. Logo na manhã do dia 19, o Expresso falou com Vasco, para este contar o que estava a acontecer. Ciente da delicadeza sempre contida numa iniciativa deste tipo, Sacramento optou naquele dia, como nos dias seguintes, por não falar, pois não queria assumir qualquer protagonismo suscetível de ser mal interpretado. Interessava-lhe assegurar a realização do concerto e nada fazer para pôr qualquer espécie de grão de areia na engrenagem. Mas acabou por, momentos antes do concerto, se dispor a contar como tudo sucedeu. Se no sábado do início da tragédia foi dormir já muito impressionado, no domingo apercebeu-se da troca de mensagens entre pessoas que habitualmente com ele trabalham e aconteceu o seguinte:
“Começo a perceber que há amigos comuns desaparecidos, outros com as casas destruídas e sinto a necessidade de fazer algo”. 
Telefonou aos responsáveis do MEO Arena “para saber se tinha ajuda e se estariam comigo” e “disseram imediatamente que sim”. Porém, começando a colocar-se o problema da logística necessária a iniciativa desta dimensão, foi preciso conversar muito e em várias frentes. Hoje estarão a trabalhar na maior sala de concertos lisboeta mais de 900 pessoas, todos solidários: “ninguém vai receber um cêntimo; e estarão lá técnicos de todo o tipo, profissionais de incontáveis áreas”, porque “há na verdade um imenso trabalho acrescido, resultante do facto de o concerto ser transmitido por todas as televisões”. No dito comentário no Facebook, só falava na RTP, mas tinha a grande ambição de reunir todas as televisões. E agora disse:
“Nunca imaginei que assumisse estas proporções. Achava quase impossível ter todos os canais de televisão a transmitir, mas fomos ainda mais longe ao conseguir reunir também as rádios, todos unidos neste esforço solidário”.
Importante era a questão dos artistas. Sacramento representa alguns dos principais nomes nacionais, com Ana Moura à cabeça. Depressa percebe que os Amor Eletro estavam a colocar de pé algo de parecido e logo se estabelece contacto para unir esforços. Foi assim que na noite do dia 27 se tornou possível ver e ouvir artistas tão diversos como: Agir, Amor Eletro, Ana Moura, Áurea, Carlos do Carmo e Camané, Carminho, D.A.M.A., David Fonseca, Diogo Piçarra, Gisela João, Jorge Palma e Sérgio Godinho, Luís Represas e João Gil, Helder Moutinho, Luísa Sobral, Matias Damásio, Miguel Araújo, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Raquel Tavares, Rita Redshoes, Rui Veloso e Salvador Sobral (que não devia ter dito o que disse no fim). O cartaz ficou concluído em duas ou três horas – rapidez de que resultou a impossibilidade de integrar no alinhamento muitos outros artistas que se disponibilizaram. Foram centenas que ficaram de fora, porque era inviável estar a pensar num espetáculo com muito mais do que os 25 que subiram ao palco. Ainda assim o espetáculo durou mais de três horas.
Juntos Por Todos”, iniciativa coproduzida pela Sons em Trânsito, Nação Valente, Meo Arena, Blueticket, RTP, SIC e TVI, contou com a generosidade e solidariedade de numerosas empresas e parceiros e, ainda, com o contributo das editoras Sony Music Portugal, Universal Music Portugal, Valentim de Carvalho e Warner Music Portugal na sua divulgação artística e o Alto Comissariado da Fundação Calouste Gulbenkian. As verbas arrecadadas serão entregues à UMP (União das Misericórdias de Portugal), porque não se queria “beneficiar apenas um concelho ou uma situação específica” e porque são as misericórdias quem está “no terreno a fazer o levantamento das necessidades, além de estarem a gerir o fundo de meio milhão de euros atribuído pela Fundação Gulbenkian”. E, ao comentar tudo quanto se tem estado a passar nos últimos dias, Sacramento diz ser ainda cedo para se perceber até que ponto estes acontecimentos estão a transformá-lo. Não obstante, declarou ao Expresso:
“Estou ainda tão anestesiado com tudo e com a montagem desta operação que não dá para perceber de que forma é que isto nos afeta ou transforma”.
Já durante o concerto declarou saber que organizar espetáculos “é sempre algo de efémero”. Porém, “aqui sabemos que estamos a contribuir para algo mais sólido, mais permanente”, pois, os problemas são tão vastos que, se conseguirmos ajudar a que uma casa se erga, que um posto de trabalho se mantenha, já sentiremos que valeu a pena”. E, questionado se esperava um espetáculo com esta dimensão, respondeu que esperava um espetáculo grande, mas que lhe caiu no colo um espetáculo gigante.
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Na noite de 27, no Meo Arena, em Lisboa, assisti pela TV ao concerto especial de 25 artistas portugueses, já referidos, num espetáculo montando apenas numa semana, cuja receita reverte a favor das vítimas do incêndio de Pedrógão Grande e similares, que angariou 1 153 000 euros, dinheiro (além do dos bilhetes e bilhetes-participação) que ajudará a pessoas atingidas em diversas vertentes da subsistência. Na plateia, entre as 14 mil pessoas, que homenagearam com um aplauso de pé os bombeiros, estavam o Presidente da República (em cuja pessoa a UMP agradeceu a Portugal esta bela iniciativa de solidariedade) e o Presidente da Assembleia da República, que disse:
É importante que estejamos juntos o ano inteiro e não apenas nestas ocasiões”.
Outros testemunhos surgiram da parte de artistas, apresentadores e outros. Destacam-se, a seguir, palavras de artistas e do Presidente da União das Misericórdias de Portugal.
Carminho resumiu o espírito geral dos músicos que se apresentaram em palco, garantindo que estavam ali para lá do que representam e do percurso individual de cada um: “Estamos aqui para ajudar a vida das pessoas que sozinhas não conseguem fazer a reconstrução”. E David Fonseca, de Leiria, disse que o choque da tragédia de Pedrógão “não foi um choque regional”:
“Somos um país pequeno, mas temos uma ideia de comunidade muito forte. Quando acontece algo, isto que aconteceu, temos uma extraordinária capacidade de ajudar.”.
Por seu turno, Gisela João entrou em palco, pedindo: “vamos todos dançar pelos bombeiros portugueses”. E, quando começou a interpretação de “Sr. Extraterrestre”, disse:
“Acredito em todos os portugueses que estão aqui neste momento, acredito de coração”.
E recordou ainda a mensagem de uma bombeira, que integrava o batalhão do bombeiro que morreu durante o combate às chamas:
“Ela queria fazer uma última homenagem a esse bombeiro, tive que me certificar de que ela estava aqui”.
Helder Moutinho reforçou a necessidade de acabar com “alguns negócios que estão por trás disto tudo, de forma a que isto não aconteça”, referindo-se à “tragédia dos incêndios”. E Luís Represas, depois de interpretar, com João Gil, “Memórias de um Beijo”, dos Trovante, disse:
“Não é novidade que os portugueses estão presentes quando são chamados a isso”.
Afinal veio gente”, exclamou Sérgio Godinho ao começar o dueto que protagonizou com Jorge Palma, num medley que juntou “Portugal Portugal”, do segundo, e “O Primeiro Dia”, do primeiro. Jorge Palma recordou:
“Há um ano estava a fazer um concerto em Pedrógão, na semana passada fiquei horrorizado. A prevenção, precisamos de gastar o dinheiro que for preciso para que isto não volte acontecer.”.
E Sérgio Godinho afirmou que “é sempre preciso lembrar os bombeiros”.
Por seu turno, Luísa Sobral, uma das vozes em cartaz, confessou não estar previsto falar antes de cantar “Cupido” (acompanhada por Mário Delgado à guitarra), mas foi isso que fez:
“Normalmente, para um espetáculo deste tamanho são necessários alguns meses. Neste caso, foi tudo feito numa semana. Acabamos por ser nós a dar a cara. Eu dormi bem esta semana, mas as pessoas que organizaram isto mal dormiram.”
E falou sobre todos os músicos que não estiveram no Meo Arena, mas que gostariam de estar.
“Estamos aqui porque, quando é preciso. as pessoas juntam-se.” Miguel Araújo cantou “Anda Comigo Ver os Aviões” e assumiu que para lá das canções, “as palavras falham nestes momentos”. Antes, cantou Matias Damásio. E Paulo Gonzo cantou “Sei-te de cor”: “A música é sempre uma boa causa e ajuda a mudar as coisas. A música pode ajudar a cicatrizar a dor”.
“A tempestade há de passar” é o 1.º verso de “Toma Conta de Mim”, que Pedro Abrunhosa levou ao Meo Arena. “Que saibamos tomar conta uns dos outros nos momentos mais aflitivos da nossa vida”, disse a meio do tema e confessou: “A música acaba por ser um abraço invisível, mesmo com vontades e crenças diferentes”. Logo a seguir, cantou Raquel Tavares, que disse:
“Esta noite significa que as pessoas de Pedrógão não estão sozinhas. E prometemos que não nos vamos esquecer deles.”
Por sua vez, Rita Redshoes, que escolheu o tema “Mulher”, apontou o fundamental:
“Esta noite é muito bonita, mas não podemos esquecer porque estamos aqui. Há responsabilidades políticas e individuais que têm de ser apuradas. Só isso é que devolve o respeito à memória dos que não ficaram cá. Como cidadãos temos que exigir justiça por essas pessoas.”.
Depois de “Primeiro Beijo”, Rui Veloso deixou “um recado para os nossos políticos, que tanto falam, tanto põem as culpas nuns como põem nos outros” e disse:
“Já toda a gente ouviu essa conversa, mas nós temos que nos unir e resolver a questão de uma vez por todas. O país e os homens estão a ser destruídos.”
E Salvador Sobral foi o último a atuar sozinho, com despedida em grande. E, em vez de cantar primeiro “Amar Pelos Dois”, a canção com a qual ganhou o Eurofestival, apresentou antes uma versão de “A Case of You”, de Joni Mitchell. Depois, atirou-se ao sucesso entoado em coro pelos 14 mil que esgotaram o Meo Arena, a cantar já não a amar pelos dois, mas por todos.
E o Presidente da UMP interveio a meio do concerto em postura de gratidão e garantia de que a UMP está no terreno, conhece as populações e, após esta fase de emergência e luto, acabará o levantamento das reais necessidades e gastará bem todos os cêntimos que administra, suscitando a colaboração de todas as entidades. E, no fim, agradeceu emocionado a todo o país.
2017.06.27 – Louro de Carvalho

terça-feira, 27 de junho de 2017

A mensagem de Fátima é uma luz, um guia para o passo dos crentes

É a grande afirmação do Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício para a Cultura, na conferência “Fátima como promessa”, que pronunciou no encerramento do Congresso Internacional que sinalizou academicamente a celebração do Centenário das Aparições da Virgem Maria na Cova da Iria.
Na verdade, como se lhe fez oportunamente referência, decorreu, de 21 a 24 de junho, no Centro Pastoral de Paulo VI, o Congresso Internacional ‘Pensar Fátima’ – iniciativa do Santuário de Fátima e da Faculdade de Teologia, da UCP (Universidade Católica Portuguesa), numa perspetiva interdisciplinar, para abrir novas oportunidades de estudo do fenómeno fatimita. O Padre Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário, pronunciava-se sobre as expectativas do encontro assim:
“O congresso permitirá, assim o cremos, fazer o balanço dos estudos científicos feitos até à data. Aprofundará as várias dimensões do evento Fátima e abrirá perspetivas de estudo, aprofundamento e investigação”.
E explicou que este encontro internacional era, de algum modo, o “ponto culminante e síntese” da sequência de seis simpósios teológicos pastorais realizados nos últimos anos de preparação para o Centenário das Aparições. Neste contexto, o evento que estava, “desde o início”, no programa dos 100 anos das aparições na Cova da Iria pretendeu “sublinhar a convicção” de que a celebração do jubileu fatimita “é desafio e oportunidade para a promoção do estudo científico pluridisciplinar de Fátima”, permitindo, segundo as palavras do reitor deste santuário mariano, “alcançar uma perceção aprofundada deste rico e significativo fenómeno que é Fátima”.
Neste evento de teor académico foram estudadas várias das dimensões de Fátima, em perspetiva interdisciplinar: Teologia, Sociologia, Psicologia, Cultura, História, Arte.
O Bispo de Leiria-Fátima deu o título de ‘Fátima em caleidoscópio’ ao tema da sua intervenção, assegurando que este é um “lugar multifacetado e plural” desde a “sua génese”. Para Dom António Marto, um congresso em que se reúnem “leituras das múltiplas disciplinas” que, ao longo da “feliz história de 100 anos, se interessaram por Fátima”, não pode deixar de recordar “o quanto os diferentes prismas têm contribuído” para quanto Fátima é para Portugal e para o mundo. Com efeito, “a Igreja tem muito a acolher deste exercício interdisciplinar”, sobre um lugar que “é motor de transformação de pessoas e sociedades”.
Por sua vez, o teólogo João Manuel Duque, Presidente da Comissão Organizadora do Congresso (COC), assinalou que há 100 anos “algo de especial despoletou” na Cova da Iria e “ninguém imaginaria” na ocasião o que viria a acontecer em Fátima e “em muitos outros lugares”. E observou que, um século depois das aparições de Nossa Senhora aos Pastorinhos, “ainda hoje, escapa muito do que aconteceu e do que continua a acontecer”. Por isso, o trabalho de compreensão “não encontra descanso”. E especificou:
“É o que pretende em espírito de serviço e humildade este congresso, praticar o exercício exigente e cuidadoso da melhor compreensão dos fenómenos, ou seja, daquilo que acontece sempre na consciência do que acontece é sempre mais rico do que aquilo que pode exprimir o nosso discurso com mais ou menos clarividência”.
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O já mencionado Cardeal Ravasi, convidado pelos organizadores, afirmando que Fátima continua a ser “uma proclamação de fé”, um “anúncio de paz” e “uma escola de valores” para os cristãos e para os não crentes, sublinhou:
“Fátima continua a ser uma proclamação de fé num mundo secularizado; um anúncio de paz num planeta sempre atormentado pelas guerras; uma escola de pobreza e simplicidade em que a escolha do último é prioritária numa sociedade materialista e também uma escola de valores perante uma sociedade apática”.
Na sua conferência em que escalpelizou o essencial da Mensagem de Fátima a partir de referências bíblicas, o responsável pelo dicastério da Cultura da Santa Sé lembrou que a Mensagem assenta na valorização da história da salvação, assente num pedido de oração, conversão, reparação e esforço pela paz. E, frisando que “em Fátima há um sol que convida à oração” e que “seria uma ilusão pensar que Fátima esgotou a sua vocação profética”, frisou:
“Aqui revive-se o desenho de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: `onde está, Abel, o teu irmão?!´, abrindo sempre a porta da salvação, pois o Senhor é mais forte que o mal e Nossa Senhora é a garantia materna da bondade de Deus, da esperança”.
Acrescentando que “a Mensagem de Fátima convida-nos a uma fé incarnada que é histórica e torna-se guia, uma luz para o passo dos crentes”, Ravasi, que citou o poeta José Luís Peixoto, para valorizar o colo materno da Mãe que nos conduz a Deus (tema deste ano pastoral em Fátima e de todo o ciclo de 7 anos do Centenário das Aparições) e serve de modelo a todos os cristãos, fez um diagnóstico da sociedade para reforçar a pertinência e a centralidade da Mensagem, destacando:
“Apesar de estar ligada à sua própria situação histórica, a Mensagem dá-nos uma chave de leitura para o nosso próprio modelo de sociedade e de cultura que assenta num outro modelo antropológico”.
Adiantou, apontando os males da nossa sociedade:
“O secularismo, doença da nossa sociedade, a apatia, mais grave que o agnosticismo, a indiferença, a falta de valores e de referências, as guerras fragmentadas em todo o mundo, são males que nos atingem e para os quais Deus chama a atenção através de Nossa Senhora no diálogo com os pastorinhos, apresentando caminhos”.
Lembrando que Fátima é uma proclamação evangélica de salvação”, discorreu:
“A mensagem de Fátima é uma mensagem pública que ultrapassa as fronteiras de Portugal chegando a tratar as vicissitudes da sociedade planetária e, embora os profetas falem sempre em contextos precisos, neste caso, esta profecia vai além do presente, mantendo uma ligação com ele”.
Sobre o tema das Aparições, o purpurado – que foi Prefeito da Biblioteca Ambrosiana, professor de exegese bíblica na Faculdade de Teologia da Itália Setentrional e membro da Pontifícia Comissão Bíblica – frisou que “elas servem para ajudar a clarificar o significado da revelação, ajudando a viver e a reavivar a revelação do mistério de Deus”. E, citando o Bispo de Diocese de Leiria-Fátima, assegura que as Aparições “são um grito do Céu” para lembrar que  “o coração de Deus é compassivo perante o sofrimento do mundo”. E do Deus evidenciado em Fátima disse: “O Deus de Fátima é compassivo tal como o Deus do Papa Francisco é o Deus da Misericórdia e do Perdão”; mas é também um Deus “que fica impaciente perante o mal e acolhe o outro, sobretudo o mais fraco, o mais pequeno, fazendo tudo para o engrandecer”. E conclui que “o Deus de Fátima é profundamente bíblico”.
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O Santuário de Fátima distinguiu, no encerramento do Congresso, a Faculdade de Teologia da UCP, oferecendo a medalha comemorativa do Centenário das Aparições, em sinal de “reconhecimento e gratidão”, assinalando a contribuição desta universidade para o Centenário e por ocasião do seu cinquentenário. Disse o Reitor do Santuário:
“No ano em que a Universidade Católica Portuguesa celebra o seu cinquentenário e em que o Santuário de Fátima celebra o primeiro Centenário das Aparições, apraz-me sublinhar a longa e fecunda colaboração entre ambas as instituições, através da Faculdade de Teologia”.
Sobre o contributo específico da UCP, o responsável do Santuário afirmou que foi a esta Faculdade que o Santuário recorreu para alguns estudos/eventos, nomeadamente a edição da Documentação Critica de Fátima ou o acompanhamento dos seus colóquios e simpósios teológico-pastorais que têm vindo a ser promovidos desde 1992; e este reconhecimento não podia deixar de ser feito. Por outro lado, disse que o Santuário está consciente de que tem sido um campo fértil para a promoção de estudos científicos na área da Teologia, a partir da sua realidade específica. E referiu ainda a este respeito:
“A bidirecionalidade desta relação e o mútuo interesse de ambos levou-nos a assinar um protocolo de cooperação para os anos do septenário do Centenário e é nosso desejo que esta cooperação possa continuar”.
Por sua vez, João Lourenço, Diretor da Faculdade de Teologia da UCP, expressou a vontade de que o congresso, que agora encerrou, seja ponto de partida para novas parcerias que estimulem novos trabalhos de investigação, já que esta é “uma parceria que dá frutos nomeadamente para o bem do Povo de Deus”. Neste sentido, referiu:
“Fátima é um lugar de reflexão teológica que pode beneficiar muito a reflexão da Teologia em Portugal e a Mensagem é um espaço e um campo que pode continuar a crescer. Estes simpósios e estes congressos são a porta para isso.”.
Por seu turno, João Duque, Presidente da COC, referiu-se a estes quatro dias de trabalhos como um período de “grande riqueza pela quantidade e qualidade dos trabalhos apresentados” mas também “pelo ambiente de Fátima, que é único”. E explicitou:
“Tivemos aqui uma pluralidade  de abordagens que se manteve fiel à caridade cristã, ao respeito ético, mas também à qualidade académica, nunca resvalando para outros níveis menos aceitáveis”.
Sublinhando a liberdade com que se debateu Fátima de forma séria, seriedade de que “dão conta as várias ressonâncias”, disse que as várias narrativas que se apresentam em Fátima e a  partir de Fátima “convocam-nos a prestar atenção cuidada para percebermos o fenómeno que aqui se vai construindo” e que Fátima “tem sido um espaço em que a criatividade popular desafia todos – Igreja, políticos e investigadores”.
Para o Presidente da COC, o povo “é o sujeito principal de Fátima” e “a primeira mediação do que possa ser considerado sobre um fenómeno revelador”; e este debate de quatro dias desafia a um novo “pensamento teológico”. Salientando que “Deus é o sujeito através do povo e no povo”, João Duque entende que a simplicidade com que Deus fala à humanidade, “culta ou inculta”, confunde “as pretensões dos arrogantes” e a todos coloca na comum situação de “pertença a uma condição de procura, de vulnerabilidade, de peregrinos”. E, acentuando que o Congresso desafia a “pensar as várias categorias do pensamento teológico a partir do povo, nomeadamente a mariologia e a eclesiologia”, enunciou o desafio que fica para futuro:
“Fica o desafio do desenvolvimento de uma fenomenologia diversificada, a partir de raízes mais empíricas e passando pelas leituras históricas, e do desenvolvimento de uma mariologia e eclesiologia a partir deste fenómeno concreto”.
E concluiu:
“Fátima será durante muito tempo um lugar privilegiado para uma experiência religiosa plural e viva, numa época em permanente reconfiguração e em modalidades muito diversas das que determinaram os contextos de há um século, e também para a reflexão científica, incluindo a teológica, a partir dessa reconfiguração”.
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Inserido na celebração do Centenário, o Congresso que reuniu especialistas de várias áreas do saber científico – Teologia, Sociologia, Antropologia, História, Psicologia e Jornalismo – contou com um serão cultural intitulado “Conversar Fátima Cem Anos depois”, que permitiu debater a relevância das Aparições com o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto, a jornalista Helena Matos, o eurodeputado português Paulo Rangel e o historiador Henrique Leitão.
Em termos de ecos do Congresso, Eduardo Borges de Pinho, docente da Faculdade de Teologia da UCP, salientou, em declarações à Rádio Renascença a 26 de junho, que o Congresso Internacional ‘Pensar Fátima’ sugere maior abertura ao mundo não católico, pois “o caminho da unidade é um caminho na diversidade, não é a multiplicação da Igreja católica”. Diz ele:
“Temos que crescer como cristãos católicos portugueses na sensibilidade ecuménica e entender o que significa a divisão dos cristãos e todas as suas consequências”.
Sustentando que devemos também manifestar “uma certa capacidade de autocrítica no sentido de perceber que há determinadas manifestações nossas ou expressões que porventura podem não ser entendidas pelos outros”, o docente insistiu em “que o caminho da unidade é um caminho na diversidade, não é a multiplicação da Igreja católica em todas as suas formas”. Ainda assim, Fátima é, cada vez mais, um local procurado por outras confissões religiosas. E Borges de Pinho constata que “há muitas pessoas de outras confissões cristãs e pessoas, até sem uma fé explícita, que vêm a Fátima, não apenas por causa do chamado turismo religioso, mas porque Fátima é sempre um lugar que pode interpelar de uma outra maneira”. Como bem reconhece, a história de vida de cada pessoa “é muito própria” e, “nesse sentido, Fátima desempenha o papel que pertence a Deus e à consciência das pessoas”. E o exemplo que apresentou foi o de alguém ter visto “seis senhoras vestidas com o traje muçulmano à volta da capelinha das aparições, numa atitude de oração”, concluindo o docente que, “partindo do princípio de que eram muçulmanas”, acha que “isso só comprova a abertura de Fátima”.
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Sim. Que Fátima fale com a fé, respire esperança, instigue a caridade para com todos – mas que se deixe escrutinar pela ciência e que seja um contributo para mais e melhor ciência e, sobretudo para mais e melhor vida de todos e de cada um! Prosit.

2017.06.27 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os festejos de São João

No dia 24 de junho, participei numa conversa informal em que se falava dos adereços que emblematizam as festas de São João.
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Os dados bíblicos
Trata-se obviamente de João Batista, filho de Zacarias e Isabel, primos de Maria, Mãe de Jesus. João é o precursor do Messias. Dele foi profetizado pelo anjo do Senhor a Zacarias:
“Será para ti motivo de regozijo e de júbilo e muitos se alegrarão com o seu nascimento, pois será grande diante do Senhor e não beberá vinho nem bebida alcoólica; será cheio do Espírito Santo já desde o ventre da sua mãe e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus; irá à frente, diante do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de proporcionar ao Senhor um povo com boas disposições.” (Lc 1,14-17).
Dele disse Jesus:
“É aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. Em verdade vos digo: Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele.” (Mt 11,10-11).
Não é sem razão que João é o único do catálogo dos santos cuja solenidade, com direito a vigília, celebra não o dia da morte (Dies Natalis Deo), mas o dia do nascimento físico, pois, além de ter sido santificado pela presença de Cristo, estando ainda cada um em seu ventre materno, a sua missão reveste de relevante papel na economia da salvação. Mas atenção: todos podemos ultrapassar a relevância de João pela humildade do serviço ao Reino!
De si mesmo, que se vestia de pelos de camelo, trazia uma correia de couro à cintura e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre, disse o próprio João:
“Depois de mim vai chegar outro que é mais forte do que eu, diante do qual não sou digno de me inclinar para lhe desatar as correias das sandálias. Eu batizei-vos em água, mas Ele há de batizar-vos no Espírito Santo.” (Mc 1,7-8).
E ainda:
Eu sou a voz de quem grita no deserto:Retificai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías” (Jo 1,23).
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É estranho que um santo, que pagou com a vida a coragem da profecia e da frontalidade perante a extorsão, o roubo, a corrupção e a imoralidade da casa real e cuja vida foi pautada pela sobriedade austera expressa no vestir no comer e sem consumir qualquer tipo de bebida alcoólica, sirva de pretexto para folias, comezainas e bebidas à grande e à francesa (carnes, sardinhadas…), fogueiras e diversões (nem sempre as mais comedidas e sãs).
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A origem dos festejos
Para melhor entendermos o que se passa, convirá ver como surgiram os festejos. Ninguém sabe dizer em que dia exato nasceu João nem Jesus. No entanto, crê-se que, pela conjunção dos astros, o Natal do Senhor ter-se-á situado depois do solstício o inverno. Jesus é considerado o Sol Nascente cuja vinda ao mundo significa a visita de Deus a seu povo. Celebrava-se a festa do Sol, no seu solstício de inverno no paganismo, depois da festa da luz nos idos de dezembro. Ora, Cristo Sol está em 24/25 de dezembro mais pertinho da Terra.
Aquando do anúncio da encarnação de Jesus (Lc 1,26-38), o anjo Gabriel disse a Maria: 
“Também a tua parente Isabel concebeu um filho na sua velhice e já está no sexto mês, ela, a quem chamavam estéril, porque nada é impossível a Deus” (Lc 1,36-37).
Assim, se concluiu que, em termos normais, João teria nascido seis meses antes de Jesus. E João seria entendido como o Sol que está a “pino”, mas mais longe da Terra, a anunciar a proximidade da visita de Deus para muito em breve. Ou seja, as festividades cristãs são mais “teológicas” do que “históricas” no sentido comum do termo. E São João Batista tem um sem número de capelas e igrejas erigidas em sua honra, paróquias e mesmo dioceses, não esquecendo que a arquibasílica papal, a sede da diocese de Roma, é titulada pelo Santíssimo Salvador (Jesus Cristo), São João Batista e São João Evangelista; e o nome por que é mais conhecida é simplesmente de “São João de Latrão.
Famoso é São João do Porto, festa popular que se realiza de 23 para 24 de junho na segunda cidade do país. É uma festividade católica em que se celebra o nascimento de João Batista, que se centra na missa e procissão no dia 24 de junho. Porém, os festejos do S. João no Porto, como em muitos outros lugares, tendo origem na festa do Sol, no solstício de verão, eram inicialmente uma festa pagã em que se festejava em grande a fertilidade, associada à alegria das colheitas e da abundância. Mais tarde, à semelhança do que sucedeu com o Entrudo/Carnaval, a Igreja cristianizou esta festa pagã atribuindo-lhe a titularidade de São João (Batista) pelo motivo referido. São uns festejos repletos de tradições, de que se destacam os alhos-porros, usados para bater nas cabeças das pessoas que passam, os ramos de cidreira (e de limonete), usados pelas mulheres para pôr na cara dos homens que passam, e o lançamento de balões de ar quente. O alho-porro era um símbolo fálico da fertilidade masculina e a erva-cidreira dos pelos púbicos femininos. É, pois, natural que a fertilidade esteja associada a manifestações de alegre sensualidade de que ninguém leva a mal, a não ser que haja prévias e estranhas histórias de vida a gerar constrições, tal como no Carnaval, ou um preconceito imbatível.
A partir dos anos 70, generalizou-se a utilização dos martelos de plástico, que desempenham o mesmo papel do alho-porro, tendo também um aspecto fálico. E, nos anos 70, nas Fontainhas, ainda se vendia, na noite joanina, pão com a forma de um falo com dois testículos, atestando as conotações da festa com as antigas festas da fertilidade e erotismo. Ainda são de considerar os tradicionais saltos sobre as fogueiras espalhadas pela cidade, sobretudo nos bairros mais tradicionais; e os vasos de manjericos com versos populares são presença constante nesta grande festa, bem como o fogo de artifício, acompanhado por música num espetáculo multimédia à meia-noite, sobre o Rio Douro junto à ponte Dom Luís I, em barcos preparados para o efeito.
Além disso, há os vários arraiais populares até às tantas da madrugada por toda a cidade (especialmente nos bairros das Fontainhas, Miragaia, Massarelos, entre outros) com concertos em que entram cantores populares acompanhados por comida (em especial, as sardinhas, o cabrito assado e mais recentemente grelhados de carnes). Os mais resistentes percorrem toda a marginal desde a Ribeira até à Foz do Douro, terminando a noite na praia, aguardando o nascer do sol.
Não se conhece quando teve início a festa do S. João do Porto. Sabe-se, pelos registos do Séc. XIV, que já se fazia ao tempo. Mas é possível que a festa seja mais antiga, pois uma cantiga da época dizia: “até os moiros da moirama festejam o S. João. Era nesse dia que a Câmara se reunia em Assembleia Magna (semelhante à atual Assembleia Municipal) no Claustro do Mosteiro de S. Domingos (pelo seu grande espaço), para a eleição dos vereadores e tomada das decisões mais importantes para a cidade.
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O martelo
O martelo de S. João foi inventado, em 1963, por Manuel António Boaventura, industrial de Plásticos do Porto, que tirou a ideia num saleiro/pimenteiro que viu numa das viagens ao estrangeiro. O conjunto de sal e pimenta tinha o aspeto de fole ao qual adicionou um apito e um cabo vindo a incorporar tudo no mesmo conjunto e dando-lhe a forma de martelo. O objetivo inicial era criar mais um brinquedo a adicionar à gama de que dispunha.
Nesse ano, os estudantes abordaram o Sr. Boaventura com o intuito de lhes ser fornecido para a queima das fitas um “brinquedo ruidoso”, ao que o artista acedeu com a oferta do que de mais ruidoso tinha, os martelinhos. A queima foi um sucesso com os estudantes a dar “marteladas” o dia todo uns nos outros e os comerciantes do Porto quiseram martelinhos para a festa de S. João.
Naquele ano, o stock era diminuto, mas, no seguinte, os martelos foram vendidos em força para a festa e Boaventura também ofereceu martelinhos às crianças do Porto, ficando o martelo adotado incondicionalmente nas festas joaninas portuenses.
A venda fez-se normalmente durante 5 ou 6 anos até que o Vereador da cultura da Câmara do Porto, Dr. Paulo Pombo, e o Presidente da Câmara do Porto, Engenheiro Valadas, chegaram à conclusão de que o brinquedo ia contra a tradição e fizeram queixa ao Governador Civil, Engenheiro Vasconcelos Porto, queixa de que resultou a notificação, da parte do Governador Civil, ao Sr. Boaventura de que estava proibido de vender martelos para a festa de S. João e o aviso de que quem fosse apanhado com martelos na noite de S. João seria multado em 70$00 (na época ganhava-se cerca de 30$00), bem como a retirada dos martelos das lojas comerciais onde estavam à venda. Porém, o povo não acatou a decisão e continuou a usar o martelo nos festejos.
Boaventura, lesado e injustiçado por esta decisão do Governo Civil, levou a questão a tribunal, perdendo em 1.ª e 2.ª instância (era o tempo de Américo Tomás e Marcelo Caetano e, consequentemente, da PIDE/DGS). No entanto, em 1973 recorreu para o Supremo e ganhou a questão, continuando assim a fazer os martelinhos que se tornaram tradição popular não só no S. João do Porto, como no S. João de Braga, Vila do Conde, Carnaval de Torres Vedras, passagens de ano, campanhas de partidos políticos, etc. Os martelos sofreram alterações ao longo dos anos, mas a tradição ficou e a história perde-se com o tempo (cf http://martelodesjoao.blogspot.pt/).
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O alho-porro e demais plantas
O alho-porro é popular na noite sanjoanina e mais antigo que o martelo. De mão em mão, faz festas na cara e compete em popularidade com o martelo. No centro do Porto, no bairro das Fontainhas, ninguém o dispensa e até há quem diga que guardar um alho de ano para ano dá sorte. Se for oferecido, melhor ainda.
Germano Silva desvenda o mistério e explica que o alho-porro, segundo a tradição, protege do mau olhado; e a sabedoria popular acredita que é verdade.
A tradição do alho-porro é mesmo anterior à era cristã. Um ritual pagão que, tal como muitos outros, foi “reciclado” na celebração popular do São João para assinalar o solstício de verão.
Os martelinhos têm pouco préstimo para espantar o mau olhado, ao passo que o alho-porro é proteção garantida contra pragas e invejas. Passar a noite do São João no Porto implica, mesmo para os não supersticiosos, respeitar esta tradição milenar na noite de grande folia para os habitantes da cidade nortenha e muitos outros cidadãos do mundo.
A utilização do alho-porro e as fogueiras de São João cruzam fronteiras. A tradição repete-se um pouco por todo o mundo cristão, que nalgum momento da sua história se cruzou ou herdou o legado celta. Os celtas, essa gente que fundou o burgo que haveria de dar origem à povoação romana de Portus Cale [o berço do Condado Portucalense], eram politeístas e correram boa parte da Europa antes de Cristo ter nascido na Judeia. Por isso, não sabiam da festa de São João. Mas celebravam com pompa e circunstância o Solstício de verão, que o calendário quase faz coincidir com o dia do santo. Naquela grande festa de homenagem à Deusa-Mãe Natureza, os celtas faziam fogueiras e ofereciam ervas aromáticas à divindade (hoje queima-se incenso perante Deus e seus símbolos). Os festejos de S. João (como os de muitos outros santos) recuperaram este ritual.
As ervas aromáticas que são queimadas variam consoante a latitude do globo – o alho-porro pode ter como alternativa a alcachofra –, mas a origem do ritual tem um fim comum: espantar o mau olhado, garantir proteção para todo o ano e homenagear a fecundidade dos seres humanos e as culturas agrícolas. Tudo em honra da grande Deusa-Mãe – a Natureza que tudo nos dá e garante a sobrevivência das espécies.
Nas fogueiras queimavam-se ervas aromáticas em “louvor do fogo”, elemento tão necessário à vida quotidiana. E, com o passar do tempo, adotou-se o aroma dos manjericos, do rosmaninho e do alecrim. São João e Santo António partilham estas cheirosas plantas que abençoam os amores e a fecundidade. A carga fálica associada aos manjericos surge com a quadra que os acompanha, quadra que tem a mensagem que o oferente do manjerico quer transmitir.
No século XIX havia muitos terrenos abandonados à volta do Porto onde o alho-porro crescia a eito. Na noite de São João, as pessoas colhiam um alho-porro e batiam com ele na cabeça daqueles com quem se cruzavam. Era uma forma de saudação. E as rusgas (canções populares) reforçaram-lhe a conotação fálica. O alho-porro é o alho francês que se consome na alimentação, mas o que se usa para a noite do santo está espigado.
O alho-francês  (allium porrum ou allium ampeloprasum var. porrum) pertence à família (alliaceae) das as cebolas e alhos. Há as variantes allium ampeloprasum var. ampeloprasum, cultivado devido ao uso dos seus bolbos e o allium kurratcujas folhas são apreciadas no Egito e Médio Oriente. É conhecido pelos termos: alho-francês, alho-macho, alho-poró, alho-porró, alhoporrô, poró, porro, porró, porrô, porro-bravo e porro-hortense. Em algumas regiões, é conhecido como cebola-poró, devido à sua semelhança com este vegetal.
Em vez de formar um bulbo arredondado, como a cebola, o alho-poró produz um longo cilindro de folhas encaixadas umas nas outras, esbranquiçadas na zona subterrânea, sendo esta a parte a mais utilizada na culinária, podendo a parte verde ser utilizada, por exemplo, em sopas. Para o bulbo ficar de cor branca é necessário proceder à “amontoa”, cerca de 30 dias antes da colheita. Tal operação consiste em soterrar quase por completo a planta.
São geralmente semeados em canteiros, em estufas, dos quais se retiram as mudas, que se encontram no mercado e se transplantam para hortas, ficando plantas deveras resistentes. Existe um conjunto de variedades particularmente adaptadas ao frio e que se mantêm prontas para consumo no inverno. Resistem mais à geada que a cebola. As plantas adaptam-se facilmente a qualquer tipo de solo, embora prefiram solo pouco ácido ou sensivelmente neutro. E é de aconselhar também que o solo seja bem drenado.
Em geral, subdividem-se as variedades cultivares de alho-francês em alho-francês de inverno e de verão. Enquanto o alho-francês de verão é plantado com vista a uma colheita rápida, o de inverno é geralmente colhido até à primavera seguinte ao ano em que é plantado. As variedades de verão são geralmente de menor porte e têm um sabor menos intenso que as variedades de inverno.
De sabor mais suave que a cebola, o alho-francês é muito usado na culinária, sendo um ingrediente da famosa vichyssoise. Podem também ser utilizados crus em saladas.
Como um dos símbolos nacionais do País de Gales desde épocas antigas, é um alimento ali vastamente utilizado. Um dos pratos tradicionais é o Cawn cennin, uma sopa preparada para uma data comemorativa desde há vários séculos. Mas o alho-porro era já utilizado pelos antigos Egípcios, Gregos e Romanos, que depois levaram o vegetal a diversas partes da Europa.
No País de Gales, faz parte dos rituais do dia de São David, em que é tradição os galeses envergarem a planta. De acordo com a mitologia daquele país, São David ordenou aos soldados galeses que envergassem a planta nos elmos numa batalha contra os Saxões que teria ocorrido num campo de alhos-porros. É provável que esta lenda tenha sido concebida pelo poeta inglês Michael Drayton. Por exemplo, Shakespeare refere-se à tradição de envergar o alho-porro na peça Henrique V, onde Henrique diz a Fluellen que está envergando o alho-porro: “for I am Welsh, you know, good countryman(“porque sou galês, bem sabes, caro compatriota”).
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E, assim, fica o São João da sobriedade austera, precursor do Messias Salvador, ofuscado na penumbra da folia a servir de pretexto para a diversão, nem sempre inocente, dum povo cuja fé se esquece tantas vezes do essencial – a assembleia eucarística celebrativa do Cristo morto e ressuscitado como rampa de lançamento para a prática diária da justiça e da solidariedade em partilha de irmãos.

2017.06.26 – Louro de Carvalho

A presença da profecia de Jeremias nos domingos do Ano A

A razão de ser desta reflexão prende-se com a afirmação do presidente da celebração da Eucaristia dominical de hoje, dia 25 de junho, na Igreja dos Padres Passionistas, de que Jeremias era, em certa medida, parecido com Jesus Cristo. Dei-me, por isso, ao cuidado de ver quais os contributos que o texto da sua profecia dá à proclamação da Palavra e reflexão/oração na missa dos domingos do ano. Assim, no Ano A, é assumida como Leitura I apenas no 12.º domingo do Tempo Comum (que, este ano, ocorreu hoje) e no 22.º (que, este ano, ocorrerá a 3 de setembro): Jr 20,10-13; e Jr 20,7-9 – respetivamente. Porém, no Ano B, a profecia de Jeremias é assumida como Leitura I no 5.º domingo da Quaresma (Jr 31,31-34) e no 16.º domingo do Tempo comum (Jr 23,1-6) e no 30.º (Jr 31,7-9); e, no ano C, no 1.º domingo do Advento (Jr 33,14-16) e no 4.º domingo do Tempo Comum (Jr 1,4-5.17-19) e no 20.º (Jr 38,4-6.8-10).
Depois dum conspecto geral sobre o Livro de Jeremias, far-se-á um pequeno comentário aos dois textos que figuram nos dois preditos domingos do Ano A.
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“Jeremias” é o nome atribuído ao livro do profeta, filho de Hilquias, cuja vida melhor se conhece, visto que a sua obra nos fornece inúmeros dados, tanto de caráter pessoal como social e histórico, atinentes ao seu tempo.
O seu nascimento por volta de 650 a.C., em Anatot, aldeia da tribo de Benjamim, situada a uns 5 km a nordeste de Jerusalém, duma família de ascendência sacerdotal, marcou de forma decisiva a sua mensagem, especialmente no que se refere à vinculação às tradições provenientes das tribos do norte e a insistência com que sublinha a importância da aliança de Moisés. No que respeita à personalidade do profeta, temos diversos capítulos de índole autobiográfica: 1; 20,1-6; 26; 28-29; 34,8-22; 36-38; 45. Ainda mais significativos são os seus textos denominados “confissões”, em que ele testemunha, ao lado das suas angústias, o seu enamoramento por Deus: 11,18-12,6; 15,10-21; 17,14-18; 18,18-23; 20,7-18.
Jeremias (“o que chora muito”) não teve uma vida fácil. Deus ordenou-lhe que não casasse, o que o inibiu de constituir família, porque as crianças nascidas nesse período não teriam futuro (Jr 16,2-4). E, não participando em festas nem indo a funerais, como sinal que Deus havia abandonado seu povo, a sua vida foi muito solitária.
No atinente ao contexto temporal, o profeta viveu num período altamente conturbado da história de Israel: o fim do reino de Judá e a destruição de Jerusalém (587/86 a.C.) pelo império babilónico; e recebeu a vocação profética ainda na juventude (cf 1,6-7), no ano treze do reinado de Josias (cf 1,2), em 626. Num primeiro momento, manifesta a esperança na restauração da unidade do povo, tarefa em que se empenhara o rei Josias, através da reforma religiosa, com um ponto forte em 622 (cf 2 Rs 22,1-23,30) e centrada no movimento deuteronomista.
Por via das mudanças políticas que ocorreram no Médio Oriente, a partir de 625, ocasião em que a Babilónia começou a impor-se politicamente, tal esperança foi-se esfumando; e, com a morte de Josias às mãos do faraó Necao (em 609), o destino do reino ficou traçado, tendo o profeta de suportar as trágicas consequências que daí resultaram. Na Judeia, durante a vida de Jeremias, houve 3 reis (Josias, Joaquim e Sedecias) e o governador Godolias. Os reis que sucederam a Josias – Joaquim (609-597) e Sedecias (597-586), limitaram-se a adiar um pouco o destino traçado para Jerusalém após a morte de Josias. Jeremias viu-se assim confrontado entre o imperativo da sua missão profética e a perseguição sistemática por parte dos contemporâneos, que o acusavam de estar na origem do descalabro da pátria. São deste período os oráculos mais dramáticos do livro, que refletem a experiência do profeta e a tragédia iminente que pairava sobre o reino de Judá e, em especial, sobre Jerusalém.
Devido à sua mensagem de castigo e destruição, Jeremias foi considerado um traidor, que estava tentando desmoralizar o povo. Foi preso várias vezes mercê das suas pregações, foi maltratado e alguns tentaram matá-lo! (cf Jr 20,1-3; 26,8-9). Mas no meio desse sofrimento todo, Deus protegeu a vida de Jeremias. Por causa dos muitos sofrimentos por que passou, Jeremias ficou triste e deprimido. Em certa ocasião, ele até quis morrer (cf Jr 20,17-18). Mas Jeremias continuou a confiar em Deus, que lhe deu força para prosseguir.
O livro de Jeremias é fruto duma composição lenta no tempo e muito complexa. Segundo os dados do cap. 36, o profeta não escrevia; tinha para isso um “secretário” (Baruc), que lhe registou os oráculos e os leu no Templo. Porém, Joaquim mandou queimar a que terá sido, em linguagem hodierna, a primeira versão do livro do profeta. Não obstante, foram refeitos os seus oráculos e foram adicionados outros. Por se tratar da melhor fonte que possuímos acerca da situação política e social coeva, o livro tem sido objeto de inúmeros estudos, que possibilitam um melhor conhecimento duma época tão conturbada. Para além do relato da vocação do profeta (1,4-19), o texto divide-se nas seguintes secções temáticas:
(i) oráculos dirigidos ao povo de Deus (1,1–25,14); (ii) oráculos contra as nações estrangeiras (25,15-38); (iii) relatos biográficos de Jeremias (26,1–45,5); (iv) oráculos contra as nações estrangeiras (46,1–51,64); e (v) apêndice (52,1-34).
Em virtude da forma como está organizada a obra e da falta de ordem cronológica, nem sempre é fácil seguir a mensagem do profeta no seu desenvolvimento, sucedendo também, por vezes, que as versões atuais são apresentadas a partir do texto grego (tradução dos Setenta), que não corresponde integralmente ao original hebraico, pois, além de ser mais breve (cerca de um oitavo), os textos encontram-se numa ordem diferente.
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Do ângulo da sua teologia, a mensagem de Jeremias é marcadamente espiritual e teológica. Nela, sobressai a doutrina da nova aliança (31,31-34) e a sua constante e afincada confiança no Senhor, que ajuda o profeta a superar todas as adversidades com que se vê confrontado. Dotado de grande sensibilidade, Jeremias é um testemunho vivo de homem plenamente apaixonado pela causa de Deus e pela identidade espiritual e religiosa do povo. É neste sentido que devem ser lidos os seus oráculos sobre a infidelidade do povo e o castigo de Deus – paixão que ele viveu até ao fim e por causa da qual deu a vida, apedrejado pelos contemporâneos.
Além da veemência com que proclamava os oráculos, o profeta recorria frequentemente a gestos simbólicos com forte acento nacional, capazes de impressionar os ouvintes e os interpelar com vista à conversão. E, apesar das constantes proclamações de que a pátria seria destruída, Jeremias nunca foi profeta ao serviço da Babilónia. Soube colocar o projeto de Deus acima dos interesses políticos e exortar à fidelidade os seus contemporâneos, embora os seus apelos tenham sido em vão. Por isso, Jerusalém viria a ser destruída em 587 e o povo de Israel partiria para o exílio na Babilónia, a fim de expiar o seu pecado.
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Também se atribui tradicionalmente a Jeremias o livro das Lamentações ou Trenos. É um pequeno conjunto de cinco poemas, em estilo elegíaco, provavelmente escritos após a queda e destruição de Jeru­salém por Nabucodonosor (587-586 a.C.), sendo os primeiros 4 desenvolvidos por estrofes encimadas pelas letras do alfabeto hebraico e o quinto (também denominado “Oração” do profeta Jeremias) desenvolvido em estrofes sem qualquer título. Apesar de a tradição o atribuir a Jeremias, essa autoria tem pouca consistência, pois tal atribuição fundamenta-se em 2 Cr 35,25 – texto que diz respeito à morte do último grande rei de Judá, Josias, nada tendo a ver com o conteúdo deste livro. Ademais, em Lm 2,9 diz-se que “aos profetas são recusadas as visões”, o que seria estranho em Jeremias. A Bíblia Hebraica coloca ainda este livro entre os Escritos, depois do Cântico dos Cânticos, não entre os Profetas. Deverá, pois, o autor ser um discípulo de Jeremias que guarda algumas afinidades com o estilo do mestre.
O título da obra traduz o hebraico “qinôt”, que se encontra no “Talmud” (Hag 5b fala do Livro das Lamentações: “Sefer Qinôt”) e em outros escritos rabínicos (v.g., o grande “Midrash Rabbá”, em “Lamentações Rabbá” IV,20); e a versão grega chama-lhe “thrénoi”, que expressa o mesmo sentido.
Como se disse, os 4 primeiros poemas são alfabéticos, iniciando-se cada estrofe com a respetiva letra do alfabeto hebraico. Trata-se de um processo literário complexo, em que, além da arte e mestria, parece pretender realçar o simbolismo do texto e o ritmo do seu próprio canto.
O au­tor lamenta-se da situação miserável em que o povo e as instituições se encontram; e realça a humilhação extrema a que chegaram Israel e Jerusalém – em con­se­quên­cia do mau proceder do povo e da sua infidelidade à Aliança. A situação é efetivamente interpretada à luz da fé como um castigo e como um tempo de purificação, dado haver uma es­­perança última de que Deus voltará o seu olhar cle­mente para o povo (fim da 5.ª Lamentação/oração). É, assim, que judeus e cristãos fazem uso destes poemas na liturgia em momentos significativos da sua História: os judeus, nas festas de jejum, recordando a destruição de Jerusalém, no ano 70, pelos romanos; os cristãos, na liturgia da Semana Santa, recordando os sofrimentos da Paixão de Cristo.
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No 22.º domingo do Tempo Comum ler-se-á Jr 20,7-9:
“Seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir! Tu me dominaste e venceste. Sou objeto de contínua irrisão, e todos escarnecem de mim. Todas as vezes que falo é para proclamar: ‘Violência! Opressão!’. A palavra do Senhor tornou-se para mim motivo de insultos e escárnios, dia após dia. A mim mesmo dizia: ‘Não pensarei nele mais! Não falarei mais em seu nome!’. Mas, no meu coração, a sua palavra era um fogo devorador, encerrado nos meus ossos. Esforçava-me por contê-lo, mas não podia.”. 
E, no 12.º domingo do Tempo Comum, leu-se Jr 20,10-13:
“Ouvia invectivas da multidão: ‘Cerco de terror! Denunciai-o! Vamos denunciá-lo!’. Os que eram meus amigos espiam agora os meus passos: ‘Se o enganarmos, triunfaremos dele, e dele nos vingaremos’. Mas o Senhor está comigo como poderoso guerreiro. Por isso, os meus perseguidores serão esmagados e cobertos de confusão, porque não hão de prevalecer. A sua ignomínia nunca se apagará da memória. E Tu, Senhor do universo, examinas o justo, sondas os rins e os corações. Que eu possa contemplar a tua vingança contra eles, pois a ti confiei a minha causa! Cantai ao Senhor, glorificai o Senhor, porque salvou a vida do pobre da mão dos malvados.”.
Como se vê, os dois textos pertencem ao capítulo 20 que constitui a chamada quinta confissão de Jeremias e que evidencia um depoimento original sobre o drama do ministério profético, imposto por Deus e efetivamente levado a cabo com grande relutância por parte do chamado. Este foi seduzido pelo Senhor cuja força e poder de atração foram mais fortes que a inércia ou a resistência do profeta. Porém, o desempenho ministerial do profeta é cercado pelos insultos e escárnios dos ouvintes. E, apesar de se sentir vítima da sedução do Senhor e dos insultos dos contemporâneos, consegue resistir à tentação de abandonar o serviço da palavra por causa do fogo devorador que habita o seu íntimo: é a força irresistível da Palavra de Deus.
Acusado de sedutor das massas e anunciador de desgraças, Jeremias não passa de funcionar como o pregão do realismo. O Rei e o seu Conselho preferiram confiar nos poderes terrestres em detrimento da confiança no Senhor. Por isso e apesar de o profeta se sentir abalado pelo que anuncia, ele persiste na proclamação da certeza de que o povo não resistirá ao poderio da Babilónia. É também o realismo com que o Senhor quer persuadir os discípulos para, apesar de resistentes, O seguirem até à morte e morte de cruz por causa do Reino, ficando merecedores da Ressurreição e dignos de anunciarem a Boa Nova (cf Mt 16,21-27).
O segundo texto mostra-nos o profeta consciente da índole espinhosa da missão. Impelido por Deus, mas cercado pela perseguição dos circunstantes, a sua postura acaba por roçar a desesperação, em paralelo com o que se passa no cap. 3 do livro de Job. De facto, ter de anunciar que o povo irá para o exílio por causa das suas infidelidades suscita ódios, conspiração e perseguição. No entanto, o profeta recobra ânimo e redobra a sua confiança no Senhor, entregando-lhe a causa do mesmo Senhor e acabando por convidar os companheiros a entoar os louvores de Deus:
Cantai ao Senhor, glorificai o Senhor, porque salvou a vida do pobre da mão dos malvados.”.
O texto de Jeremias (Jeremias quer dizer: Deus exalta) constitui um antídoto contra o medo que a cultura de hoje, como no tempo do profeta, instaurou na sociedade. Hoje é a guerra em pedaços, terrorismo, atentados, crime organizado, violência domestica e social. Porém, nada ocorre sem que o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e Pai comum o saiba. É a sua providência em torno das coisas pequenas como os passarinhos. Ora, nós, que valemos mais que os passarinhos, não podemos temer os que matam o corpo, mas não podem matar a alma e a sua liberdade. Pelo que, acima de tudo, tem de estar o declarar-se por Cristo diante dos homens (cf Mt 10, 26-33).
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O livro de Jeremias lê-se com gosto, pois é ambientado numa época importante para o povo de Israel e tem imagens surpreendentes, apresentando-nos um Deus livre que busca justamente a transformação da realidade, permanecendo sempre fiel à aliança. E é entusiasmante a biografia de Jeremias: o profeta que sofre por mor da sua fidelidade. Porém, há dois elementos, aparentemente contraditórios, típicos do livro. Por um lado o livro apresenta – e poderíamos dizer que é a missão de Jeremias – a promessa, cheia de esperança, de uma aliança nova, escrita no coração; por outro, são típicas as lamentações do profeta, a ponto de em espanhol se usar o termo “jeremiada” para descrever uma situação onde existe lamentações contínuas.
O contexto religioso em que viveu o profeta é peculiar. O povo pensava que a presença de Deus garantiria a proteção contra todas as catástrofes. Com efeito, muitos acreditavam que, enquanto Samaria foi destruída, Deus livrava milagrosamente Jerusalém da guerra (2Rs 19,35; Is 36,37), pois ali estava o seu Templo. Por isso, no tempo de Jeremias, o povo tinha a convicção que a presença de YHWH o protegeria dos seus inimigos. Jeremias anuncia que tal confiança, sem nenhuma atitude pessoal, acarretará a destruição de Jerusalém.
Face à ameaça de Babilónia, os governantes da Judeia buscam alianças humanas. Jeremias, ao invés, pede a confiança em Deus e anuncia a destruição e o exílio – vistos como castigo pelos pecados do povo, dos governantes. Contudo, dá-se conta de que esse fim trágico para o povo não é a última palavra. Diante do exílio e da destruição do Templo ele anuncia um novo início, uma nova criação, uma nova aliança. De profeta da desgraça presente por causa dos homens passa a profeta da esperança futura por causa da bondade de Deus!

2017.06.25 – Louro de Carvalho