domingo, 28 de maio de 2017

Nove mulheres estão a mudar a face de África

África, o grande continente onde terá começado a existir a vida humana, pelo menos na forma e no perfil do homo erectus, é ainda um território por desvendar e, sobretudo, por desenvolver na totalidade da sua geografia, das suas necessidades e das suas potencialidades. A par de zonas de franco progresso, ainda muitas zonas são pasto do tribalismo, do curandeirismo e de fenómenos ancestrais que desdizem da civilização em que se destaca a mutilação genital feminina. E ainda são campeãs neste continente a fome e a pobreza.
Também já fiz recentemente referência à posição do Secretário-Geral da UCCLA sobre a necessidade de se retomar a valorização do setor primário como fonte de riqueza a explorar em Angola, bem como o investimento em produções diversificadas – perspetiva a encarar, do meu ponto de vista, em outros países, porém, lançando mão da tecnologia e da mecanização para que o trabalho agrícola e agropecuário não seja tão estafante e ineficaz como quando resultava apenas do suor humano.
Vem agora a edição de 25 de maio da revista on lineDelas”, que visualizei um pouco por acaso, com uma pertinente referência a Jay Naidoo. Com efeito, este antigo Ministro das Comunicações do executivo de Nelson Mandela disse, no início deste ano de 2017, que a capacitação das mulheres, aliada a uma aposta na agricultura, permitirá acabar com a fome e a pobreza em África. Dizia este político então à agência Lusa:
“Sabemos que as mulheres, quando têm dinheiro, investem na educação e na saúde dos filhos. Sabemos que investir nas mulheres e na agricultura cria milhões de empregos para o nosso povo em África e resolve a pobreza, além de melhorar a qualidade de vida das pessoas”.
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Evidentemente que o ataque à fome e à pobreza passa pelo combate em muitas outras frentes para lá da agricultura e que estão na base do desenvolvimento integral humano sustentável, nomeadamente a luta pelos direitos humanos e, em especial, pelos direitos das mulheres – que não podem continuar a ser ostracizadas, exploradas, escravizadas, comercializadas ou entregues a trabalhos aviltantes.
A mencionada edição da revista “Delas” apresenta um painel de nove mulheres que “refletem as palavras de Jay Naidoo, ainda que o seu trabalho se distribua por outras áreas, que não a agricultura”. Na verdade, aquelas mulheres mostram – na ciência, na tecnologia, nas empresas, nas comunidades rurais, na ONU, na África e também fora do continente africano (mesmo em Portugal) – que o futuro do seu vasto território e a luta pelos direitos humanos e das mulheres passam significativamente pelo trabalho que têm vindo a desenvolver. Assim:
Abimbola Alale, diretora da Nigerian Communication Satellite Limited, é a mulher que pretende dar visibilidade à Nigéria no mapa da exploração espacial. É, pelo menos, deste modo que a BBC define a diretora da empresa de satélites daquele país, a Nigerian Communication Satellite Limited, sendo esta a única mulher a assumir semelhante cargo numa empresa deste tipo em África, na Europa e no Médio Oriente. E não se pode dizer que descure a vida familiar. Visto que tem 10 filhos, dos quais nove foram adotados por ela.
Amina Mohammed, Secretária-Geral adjunta da ONU, braço direito de António Guterres, era Ministra do Ambiente da Nigéria e, nas Nações Unidas, tinha desempenhado a função de assessora especial de Ban Ki-moon (anterior Secretário-Geral da ONU) para o Desenvolvimento Sustentável. Nesta posição, teve um papel fundamental para a promoção da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável. Antes de entrar na ONU, integrou sucessivamente três governações na Nigéria. Nesse período, trabalhou no reforço do setor público e do desenvolvimento sustentável, coordenando intervenções para a redução da pobreza.
Delphine Traoré Maïdou, CEO da Allianz Global em África. Segundo a mencionada revista, a responsável pela Allianz Global Corporate & Specialty, em África, foi distinguida, em 2017, como CEO do Ano, nos prémios Africa Economy Builders Awards. Natural do Burkina Faso, exerce o cargo de diretora-geral do gigante das seguradoras, desde 2012, em Joanesburgo, na África do Sul. E disse à BBC que deseja ver mais pessoas como ela – mulher e negra – nos lugares de topo das empresas.
Fadumo Dayib, ativista e especialista em saúde pública, foi a primeira mulher a concorrer à presidência da Somália, em 2016. Porém, por considerar “o processo corrupto, violento e desrespeitoso do estado de direito”, retirou a candidatura. Nascida no Quénia e filha de pais Somalis, deportados de volta para a Somália, Fadumo teve que fugir de novo, desta vez para a Finlândia. Até aos 14 anos de idade, não tinha podido aceder à educação escolar. Porém, atualmente, possui vários graus académicos em saúde pública internacional, incluindo um da Universidade de Harvard, e encontra-se a fazer o doutoramento em áreas que abrangem questões relacionadas com as mulheres, a paz e a segurança. É uma das oradoras da 5.ª edição das Conferências do Estoril, que se realizam de 29 a 31 de maio, no Estoril.
Diga-se, à margem, que as Conferências do Estoril se tornaram num local de encontro de grandes pensadores, de personalidades de renome, um espaço de ecumenismo, onde as mais diversas geografias e ideologias discutem as prementes temáticas da Globalização. Neste Local Global a discussão não é exclusiva do social ou do económico: a discussão é Global e Glocal, Globalizadora e Glocalizadora (vd. http://www.conferenciasdoestoril.org/pt).
Fatumata Djau Baldé, Presidente do Comité Nacional para o Abandono de Práticas Tradicionais Nefastas à Saúde da Mulher e da Criança, é, na Guiné-Bissau, uma das mais ativas defensoras da luta contra a mutilação genital feminina (MGF). Trata-se de uma prática execrável que afeta cerca de 45% das mulheres guineenses e se estende às comunidades emigrantes, que, muitas vezes, aproveitam as férias escolares das meninas para as levar às aldeias da Guiné onde a MGF ainda não foi erradicada. Por isso, em 2016, a ex-Ministra dos Negócios Estrangeiros da Guiné Bissau coordenou uma campanha com os aeroportos portugueses e o de Bissau, de sensibilização e ajuda às autoridades aeroportuárias na identificação destes casos.
Naadiya Moosajee, engenheira civil sul-africana, faz gala da ostentação da palavra ‘hope’ (esperança, em português). A palavra foi selecionada para assinalar o Dia de Luta Contra a Sida, mas a engenheira tem outra esperança: aumentar o número de mulheres nas áreas da engenharia. Para isso cofundou a WomEng, organização sem fins lucrativos com o objetivo de ajudar a formar a nova geração de engenheiras, em África, através de programas educativos e práticos. A WomEng já está presente na África do Sul e no Quénia, mas Naadiya Moosajee quer que ela chegue a todo o continente africano e a outros pontos do globo.
Pili Hus sein, empresária/mineira, é a primeira mulher mineira da Tanzânia, mas essa realidade só foi conhecida muito recentemente. Trabalhou nas minas fazendo-se passar por homem (faz lembrar Joana d’ Arc na milícia francesa) e chegou a fazer 10 a 12 horas por dia e nunca ficando atrás dos seus companheiros, como faz questão de dizer, por exemplo quando afirma à BBC que “era muito forte e conseguia produzir o que era esperado de um homem”. O disfarce foi descoberto porque a acusaram de ter violado outra mulher e, consequentemente, para provar a sua inocência, revelou a sua identidade. Não obstante, não desistiu das minas. Com o dinheiro das pedras preciosas que encontrou criou a sua própria empresa de mineração, com 70 funcionários. O sucesso financeiro permitiu-lhe ainda garantir a educação de filhos, netos e sobrinhos.
Roselyn Silva, estilista, nasceu em São Tomé e Príncipe, mas vive em Portugal desde os quatro anos. Em 2013, lançou a sua própria marca e a sua primeira coleção, uma mistura de cores e padrões africanos, com um corte moderno, a que deu o nome de Rose Collection. Um ano depois, para obviar ao aumento de encomendas, participou no programa de televisão da SIC para empreendedores, “Shark Tank”. Conseguiu o apoio de dois investidores e atualmente é apontada por muitos como o rosto da moda africana em Portugal, mas não é só entre nós que as suas peças fazem sucesso: já foram apresentadas em Inglaterra, Macau e São Tomé e Príncipe.
Theresa Kachindamoto, chefe regional do distrito de Dedza, no Malawi, apresenta uma história verdadeiramente inspiradora. Conseguiu mudar a vida de várias raparigas e crianças ao impedir o casamento de menores na comunidade que supervisiona. Farta de ver meninas de 12 anos com filhos ao colo, como disse ao canal ‘Al Jazeera’, conseguiu que 50 subchefes da sua região assinassem um acordo para proibir o casamento infantil e, nos últimos três anos, anulou mais de 850 matrimónios forçados. Mas não ficou por aqui: fez com que as raparigas fossem à escola e tem lutado para abolir rituais de iniciação sexual de crianças.
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Apresentei as susoditas personalidades por ordem alfabética, o que não significa uma qualquer valorização hierárquica das personalidades nem dos seus projetos. Todos são importantes, sendo que partem das circunstâncias vividas pelas suas protagonistas e pretendem abranger o maior número possível de pessoas e espaços geográficos.
Não há dúvidas de que os temas abraçados são pertinentes e possíveis de realização positiva e transformadora.
Em todo caso, colocaria à cabeça o reforço do setor público e do desenvolvimento sustentável, urgido a coordenação de intervenções para a redução da pobreza. Torna-se claro que a pobreza é multifacetada e muitas vezes radica na mentalidade que gera e sustenta a miséria perfurando a dignidade humana. Por isso, torna-se urgente o combate mobilizador e solidário à MGF, prepotentemente promovido para controlo, ou melhor, limitação do prazer feminino e assim provocar a futura sujeição à tutela marital; impedir o casamento forçado e precoce, sobretudo de crianças; evitar a promoção da iniciação sexual de crianças; e criar as condições políticas, sociais, psicológicas e pedagógicas para que não sucedam as gravidezes adolescentes e pré-adolescentes. Obviamente que todas as práticas tradicionais nefastas à saúde da mulher e da criança têm de ser abandonadas.
Dotar as mulheres de formação superior em saúde pública e em saúde pública internacional, além de colocar a mulher em pé de igualdade na ciência, saúde, profissão e política, traz um toque feminino benfazejo ao topo desta área da atividade humana.
As mulheres têm de ser mobilizadas para a intervenção política e para os debates em torno das questões relacionadas com a mulher, mas também com as conexas com a paz e a segurança.
Mas não pode descurar-se ou secundarizar-se o cumprimento do dever de fazer aceder todas as crianças à educação escolar básica – um direito fundamental que lhes assiste – e obviamente catapultar as mulheres aos níveis académicos mais elevados. É evidente que assim as mulheres cedo chegarão o topo do mundo empresarial, se especializarão nas várias áreas da engenharia, da arquitetura ou da atividade mineira e contribuirão para a mecanização das atividades agrárias e extrativas, como terão êxito no estilismo e na moda, na aeronavegação ou na exploração espacial. Criarão centenas ou milhares de postos de trabalho e contribuirão para a paz familiar e para educação de filhos, netos e sobrinhos. E, sobretudo, haverá mais igualdade e equilíbrio na relação, investigação, produção e fruição.

2017.05.28 – Louro de Carvalho 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

A propósito do direito de autor

Como se pode ler no site da SPA (Sociedade Portuguesa de Autores), o direito de autor “é um direito do homem e um direito fundamental, consagrado na Constituição da República Portuguesa, que protege as obras ou criações intelectuais”. Mais se esclarece que “é um ramo do Direito Civil que se rege, essencialmente, pelas disposições do Código do Direito de autor e dos Direitos Conexos (CDADC) [aprovado] pelo Decreto-Lei n.º 63/85, de 14 de março, com as alterações introduzidas pelas Leis n.os 45/85, de 17 de setembro, 114/91, de 3 de setembro, pelos Decretos-Leis n.os 332/97 e 334/97, ambos de 27 de novembro, e pelas n.os Leis 50/2004, de 24 de agosto, 24/2006, de 30 de junho e 16/2008, de 1 de abril”. Além disso, é referido que “a proteção conferida pelo direito de autor é reconhecida em todos os países da União Europeia, nos países subscritores da Convenção de Berna para a Proteção de Obras Literárias e Artísticas e nos países do Tratado OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual)”.
Na verdade, o art.º 42.º da CRP (Constituição da República Portuguesa), dedicado à liberdade de criação cultural, estabelece:
1. É livre a criação intelectual, artística e científica.
2. Esta liberdade compreende o direito à invenção, produção e divulgação da obra científica, literária ou artística, incluindo a proteção legal dos direitos de autor.”.
Por seu turno, o art.º 1.º do CDADC estabelece:
“1. Consideram-se obras as criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizadas, que, como tais, são protegidas nos termos deste Código, incluindo-se nessa proteção os direitos dos respetivos autores. 
2. As ideias, os processos, os sistemas, os métodos operacionais, os conceitos, os princípios ou as descobertas não são, por si só e enquanto tais, protegidos nos termos deste Código. 
3. Para os efeitos do disposto neste Código, a obra é independente da sua divulgação, publicação, utilização ou exploração.”.
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Como é de inferir, o direito de autor diz respeito à “criação intelectual, artística e científica”; e abrange a “invenção produção e divulgação”, mas não incluindo, per se, “as ideias, os processos, os sistemas, os métodos operacionais, os conceitos, os princípios ou as descobertas”. Porém, a proteção da obra e dos direitos de autoria é independente da sua “divulgação, publicação, utilização ou exploração”. E, se dúvidas houvesse, viria o art.º 2.º do CDADC determinar a abrangência do objeto do código. Num primeiro ponto, estabelece:
“As criações intelectuais do domínio literário, científico e artístico, quaisquer que sejam o género, a forma de expressão, o mérito, o modo de comunicação e o objetivo, compreendem nomeadamente:
a) Livros, folhetos, revistas, jornais e outros escritos; 
b) Conferências, lições, alocuções e sermões; 
c) Obras dramáticas e dramático-musicais e a sua encenação; 
d) Obras coreográficas e pantomimas, cuja expressão se fixa por escrito ou por qualquer outra forma; 
e) Composições musicais, com ou sem palavras; 
f) Obras cinematográficas, televisivas, fonográficas, videográficas e radiofónicas; 
g) Obras de desenho, tapeçaria, pintura, escultura, cerâmica, azulejo, gravura, litografia e arquitetura; 
h) Obras fotográficas ou produzidas por quaisquer processos análogos aos da fotografia; 
i) Obras de artes aplicadas, desenhos ou modelos industriais e obras de design que constituam criação artística, independentemente da proteção relativa à propriedade industrial; 
j) Ilustrações e cartas geográficas; 
l) Projetos, esboços e obras plásticas respeitantes à arquitetura, ao urbanismo, à geografia ou às outras ciências; 
m) Lemas ou divisas, ainda que de caráter publicitário, se se revestirem de originalidade; 
n) Paródias e outras composições literárias ou musicais, ainda que inspiradas num tema ou motivo de outra obra.”.
E, num segundo ponto, clarifica a natureza das sucessivas edições da obra:
As sucessivas edições de uma obra, ainda que corrigidas, aumentadas, refundidas ou com mudança de título ou de formato, não são obras distintas da obra original, nem o são as reproduções de obra de arte, embora com diversas dimensões”.
Nestes termos, ninguém pode chamar “sua” uma obra ou parte dela que seja feita por outrem, a não ser na parte ou no aspeto que seja mesmo da sua autoria, independentemente da sua subnatureza e feição ou da fase em que se encontre. E é por isso que as fichas técnicas de obras literárias, científicas e artísticas são rigorosas no detalhe, atribuindo o quê e a quem. Todavia, é lícito referir que algo cuja autoria não é conhecida possa atribuir-se a autor anónimo ou autor desconhecido, indicando, se possível, o seu horizonte temporal ou geográfico e cessando o anonimato ou desconhecimento de autor logo que o seu nome surja de forma comprovada.
Obviamente que o transgressor sujeita-se às sanções previstas no respetivo Código. E nada tenho a opor a este ordenamento jurídico.
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Não obstante, parece inconveniente alguém arrogar-se a autoria de lei ou decreto-lei e instrumentos similares, só porque estes normativos habitualmente partem de material de trabalho fornecido por pessoas singulares ou pessoas coletivas e, no caso das leis, elas têm de resultar de proposta do Governo, de projeto de um grupo de deputados ou de uma petição de cidadãos. Porém, a autoria formal é do Governo, no caso de decreto-lei ou de decreto-regulamentar, decreto simples, carecendo de promulgação da parte do Presidente (e, na maior parte dos casos de referenda primoministerial) e a autoria formal da lei é da Assembleia da República e carece de promulgação e de referenda. Também é do Governo através do respetivo subscritor a portaria, o despacho normativo ou o despacho simples, muito embora o texto inicial seja posto à disposição dos parceiros para debate antes do texto definitivo e da respetiva publicação.
Assim também não é curial vir a ribalta um indivíduo clamar que fez o discurso do Presidente, dum governante, do Bispo, do Papa ou de quem quer que seja. Que o diga, se o entender, o próprio titular de cargo público que encomendou o discurso.
Por motivos semelhantes se deve repartir o mérito duma pronúncia pública de Papa, governante ou Chefe de Estado ao respetivo estado-maior que tantas vezes trabalha incansavelmente para que a entidade a cujo serviço se encontra desempenhe cabalmente o seu múnus. E tanto João XIII como o Papa Francisco facilmente desmontam a autoria material de certos documentos.
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Todavia, aquilo que mais me choca – na linha do princípio “summum ius, summa iniuria” – é a advertência aposta em certas publicações de índole religiosa e católica cujo conteúdo devia ser divulgado Urbi et Orbi: “é proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo deste documento por qualquer meio”. Obviamente que não ponho em causa o direito autoral e a proteção da obra. Todavia, mais do que a reserva e a proteção da obra, o autor cristão deveria privilegiar a “salus animarum” (salvação das almas) enquanto “lex suprema Ecclesiae” (lei suprema da Igreja). Já os romanos, na sua reconhecida sabedoria prática, aceitavam e sustentavam o princípio “Salus Reipublicae lex suprema esto” (seja lei suprema a salvação da Pátria).
Quanto a mim, prefiro a liberalidade daqueles que declaram: “é permitida a reprodução desta obra ou de alguma das suas partes, desde que seja referida a proveniência e a autoria”. Não deixa de manifestar o zelo pelo direito de autor no caso da omissão da sua referência e da apropriação indevida, mas respeita o escopo da utilidade da mensagem doutrinal.
De resto, é de criticar o preço excessivo do material teológico, doutrinal e catequético. É óbvio que o mercado é desnaturado na sua soberania e nas suas leis, mas a Igreja talvez tenha obrigação de constituir um fundo para a publicação de determinadas obras e colocá-las a preço mais acessível, bem como tirar partido da sua habilidade para concitar o conveniente mecenatismo. É claro que nem tudo pode ser distribuído grátis, mas o “insulto” às bolsas pobres ou a condenação à falta de formação do que têm menos recursos não pode constituir-se como uma inevitabilidade.
No entanto, há aspetos positivos a salientar. No passado dia 15, num encontro com amigos, dizia eu que a Igreja em Portugal deveria publicar uma brochura com todas as intervenções do Papa Francisco a propósito da sua peregrinação a Fátima, bem como a saudação do Bispo de Leiria-Fátima. Mais tarde, entrei no site da Conferência Episcopal e vi o semanário on lineEcclesia” a publicar com algum atraso, mas com data de 13 de maio, as intervenções de Francisco (com exceção da saudação aos doentes) e a saudação do Bispo Dom António Marto. Porém, vinha a anotação: “Edição disponível em papel com o dobro das páginas – pedidos para ‘secretariado@ecclesia.pt’ tel. 218 855 472 (morada e comprovativo de transferência: 2€ + portes)”. Depois, vim a saber que esta edição extraordinária do semanário “Ecclesia” em papel contém todas as intervenções de Francisco – videomensagem emitida dias antes da partida para Fátima, oração de saudação a Maria na Capelinha das Aparições, saudação aos peregrinos antes da recitação do terço e da procissão das velas, homilia da missa do dia 13, saudação aos doentes, síntese das declarações do Papa aos jornalistas no voo de regresso a Roma e a sua intervenção antes da recitação do “Regina Coeli” no dia 14, na Praça de São Pedro – bem como as diversas saudações ao Papa da parte dos Bispos.
Acresce dizer que o site da Santa Sé publica regularmente em diversas línguas, entre as quais o português, embora com predominância para a língua italiana, as principais intervenções do Sumo Pontífice e os documentos pontifícios e alguns dos diferentes dicastérios. E também algumas dioceses, como a do Porto e a de Lamego, procedem de forma semelhante em relação aos respetivos prelados e demais instâncias diocesanas. Também a agência “Ecclesia” diariamente e no seu semanário emite notícias, artigos de opinião, artigos de memória, entrevistas e depoimentos (estes, sobretudo dos bispos das diversas dioceses).
Nem tudo vai mal, mas há que aumentar e aperfeiçoar, de forma a revitalizar a ação da Igreja em Portugal em sintonia com o Concílio Vaticano II e as indicações do Papa Francisco.

2017.05.26 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O que significa ser conterrâneo

Fez ontem, dia 24 de maio, 28 anos que ouvi o Professor Doutor Evaristo Fernandes, da Universidade de Aveiro – creio que é de momento um professor jubilado – a falar numa sessão formativa a professores e alunos da então Escola Secundária de Moimenta da Beira (hoje Escola Secundária Dr. Joaquim Dias Rebelo, sede do Agrupamento de Escolas de Moimenta da Beira).
No âmbito da sua intervenção, o orador contou um episódio que, penso eu, pretendia rebater a autossuficiência e a prosápia de muitos, incluindo pessoas que têm a obrigação de abertura ao desconhecido e à ajuda interativa. Ninguém pode tudo, ninguém sabe tudo!
Um professor avisara os alunos de que não deviam utilizar na próxima prova escrita (teste, como se diz hoje) qualquer dicionário e, se algum dos alunos tivesse uma dúvida, que lha expusesse, porque “eu respondo, que eu sei tudo”.
No momento da prova, um aluno pediu a palavra e perguntou: “Ó Professor, o que significa a palavra ‘conterrâneo’?”.
Ao que o professor, meio embasbacado, replicou: “Bem, conterrâneo significa, bom conterrâneo quer dizer… (e ganhou segurança) conterrâneo é aquele que sabe tanto como eu”.
E, coloco-me agora, não apenas na condição de quem lê as notícias de um determinado dia no dia seguinte, que é quando recebe o jornal matutino do dia (Que raio! Todos trazem só as notícias da véspera…), mas também na pele do pregador – que tratava os seus ouvintes por conterrâneos, porque efetivamente o eram – e, não contente com essa condição comum da conterraneidade, contou-lhes aquela historieta. E explicava:
De facto, vós sabeis tanto como eu, porque temos uns e outros a sabedoria haurida na mesma terra que nos fez brotar das mesmas raízes; crescemos a par dos mesmos troncos de árvore ou dos mesmos caules de ervas, arbustos e subarbustos; lidamos com o mesmo tipo de animais, grandes ou minúsculos; bebemos das mesmas águas ou do mesmo vinho; calcorreamos os mesmos caminhos; atravessamos pelas mesmas pontes, os mesmos ribeiros e rios; pastoreamos igualmente os rebanhos e elementos de manada; escondemo-nos nos mesmos vales e atrás dos mesmos montes; fazemos trabalhos semelhantes; e temos a mesma tradição de fé, educação, festejos e usos.
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 Nada em demasia. Mas é de questionar se a mesma aprendizagem, a aquisição dos mesmos conhecimentos e de capacidades similares nos tornam apenas condiscípulos (estudaram juntos, mas facilmente perderam o contacto), não fazendo de nós propriamente conterrâneos. Tudo depende do que entendamos por “saber”, “conhecer”, “terra” e “ser da mesma terra”. 
Muitas vezes confundem-se os termos “saber” e “conhecer”. No entanto, o significado profundo de cada um distingue-se bem. A doutrina cristã estabelece a diferença, nos dons do Espírito Santo, entre ciência como conhecimento e sapiência ou sabedoria. “Ciência” vem do latim “scientia”, do verbo “scire”, que significa; ciência, conhecimento, arte, habilidade, erudição, instrução e, por extensão, saber, sabedoria. Por seu turno, “scire” significa: conhecer, ter conhecimento, ser informado, ver, reconhecer, compreender, perceber, versar uma arte ou uma ciência, decidir, decretar, etc. Porém, “sabedoria” vem do verbo latino “sapere” a cuja família lexical pertence a palavra “sapientia”. E “sapere” significa: ter gosto, ter sabor, ter bom paladar, (fig.: ter senso, ter discernimento) e, por extensão, saber, conhecer, compreender. Da sua família lexical é “sapor”, que significa: gosto, sabor, paladar (fig.: sensatez, razão, gracejo delicado, dito gracioso), o que tem sabor, o que sabe bem, tempero, perfume, aroma. Então, “sapiência” ou “sabedoria” será a capacidade, a aptidão e/ou a atitude de apreciar o que se conhece, a degustação das boas coisas, a fruição, a aptidão pessoal, o bom gosto, o bom paladar, o gosto do conhecimento, a prudência, a moderação, a indulgência, a vontade de entrar gostosamente nos escaninhos duma arte ou duma profissão. O sábio é um abismo de credibilidade, que tem o dom da atração interior. A ciência está para a sabedoria com a cultura para a erudição. O cientista é um especialista ou o detentor de um saber enciclopédico, ao passo que o sábio tem um saber “enciclopedêutico”, interior, ruminado, reflexivo…
“Conhecimento” dizia-se em latim “cognitio”, que significava: o ato de conhecer, a ideia, a conceção, a instrução, a inquirição, o processo, a devassa judiciária, o reconhecimento, a penetração no âmago da realidade e, no sentido bíblico veterotestamentário, a relação conjugal. O nome “cognitio” tem uma relação lexical com o verbo “cognoscere”, que significa: conhecer pelos sentidos ou por experiência, ver, ser informado, saber, reconhecer, aceitar, aceitar alguém como filho, julgar, investigar, passar revista (às tropas), ter relações íntimas, copular.  
“Terra” é um dos quatro elementos primordiais por oposição a “mare” (mar, água), “aer” (ar) e “ignis” (fogo), a terra firme, continente, o globo terrestre, a região, o país, a parte habitável do globo, a terra divinizada como mãe comum. O nome “terra” no latim está relacionado com o verbo “torrere”, que significa secar, enxugar, secar ao sol ou ao lume, assar, tostar. Que seria da terra sem a luz e o calor do sol ou sem a humidade que lhe transmite o mar, o rio ou a nuvem?
Então “ser da mesma terra” significará ser o conteúdo do mesmo habitat, penetrar no mesmo mundo, apoiar-se nas mesmas raízes, abrigar-se às mesmas sombras, cheirar as mesmas fores, saborear os mesmos frutos, lidar com os mesmos animais, apreciar o mesmo conhecimento, partilhar usos, costumes, angústias, alegrias e festas – enfim relacionar-se, sentir as mesmas cumplicidades, ter a mesma sabedoria da vida, sentir-se formado do mesmo pó através da ação amorosa de progenitores semelhantes ou sentir-se acolhido por um mundo de semelhanças e participante nesse numa relação de cumplicidade para lá e acima da relação biológica. O conterrâneo é compatriota e luta pelos mesmos interesses e direitos que os seus vizinhos, próximos ou semelhantes. Nunca se sente desenraizado ou deslocado.
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Chegou a pensar-se que o conterrâneo é aquele que nasceu na mesma terra e ali viveu durante algum tempo. E é verdade. Mas a conterraneidade, sobretudo mos temos que correm, ultrapassa as fronteiras da terra onde nascemos (até porque hoje muitos nascem numa maternidade que pouco lhes ficará a dizer no futuro) e/ou onde vivemos com os pais ou com quem faz para nós as suas vezes. No entanto, cada vez mais a conterraneidade se realiza no lugar onde moramos ou mesmo onde trabalhamos – o que nos dá várias fontes e formas de conterraneidade.
Assim, no meu caso concreto, não posso deixar de me afeiçoar à terra onde nasci e onde viveram os meus pais e outros familiares. E, mesmo que já haja muitas pessoas que já não conheço, ainda se lá reconhecem as velhas raízes e algumas vergônteas vitais. Porém, não posso deixar de acolher a conterraneidade das terras onde estudei (Resende e Lamego), onde trabalhei (Lamego, Vila Nova de Foz Coa, Vila Nova de Paiva, Viseu, Moimenta da Beira e Sernancelhe), onde servi ativamente a Igreja Católica (Sarzeda, Freixinho, Vila da Ponte, Granjal, Regimento de Infantaria n.º 14, Ponte do Abade e Cunha). De tudo isto faço memória nas alegrias e nalguns problemas e recordo as pessoas. Obviamente, agora vivo a síndrome da conterraneidade na dupla Santa Maria da Feira – São João de Ver, por razões profissionais e familiares, nesta diocese do Porto onde o conterrâneo-mor é o Bispo do Porto, que, há três anos, se fixou a frente da Igreja do Porto por disposição eclesial.
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Evidentemente que as recordações mais gratas vêm de Vila da Ponte onde vivi cerca de 21 anos e de que, juntamente com Sernancelhe, Granjal, Ponte do Abade, Freixinho e Cunha, retenho muitas cumplicidades.
E, por isso, volto à historieta que o jubilado Professor da Universidade de Aveiro contou a 24 de maio de 1989. É que nesse dia a conterraneidade em Vila da Ponte foi altamente vergastada com o falecimento da Maria dos Remédios Soares. Talvez tenha sido ela a pessoa, além da relação de consanguinidade por quem chorei mais. Naquela terra, só se lhe igualou para mim a saudade pelo Cónego José Cardoso e pelo Cónego Mário Augusto, pela Leonor, pelo Herménio e pelo Octávio Catarino.
Provavelmente as celebrações a que presidia com maior dificuldade eram as exéquias. Todavia, procurava manter a serenidade, promover o canto litúrgico do Oficio Divino e deixar uma palavra homilética de fé, gratidão, esperança e solidariedade.
A primeira vez que falei com a Maria dos Remédios foi uma tarde de domingo em que ainda não pensava que havia de residir naquela freguesia. Tinha ido ao salão da Casa do Povo a uma reunião de jovens (fora com os do Carregal). Como havia de tomar o autocarro, vi uma senhora que varria a testada do seu café e perguntei-lhe onde parava o autocarro para Lamego, tendo-me ela dito que era em frente da Capela que estava à vista. Entretanto, inseguro, passados uns minutos, voltei para trás e perguntei se o autocarro parava ali mesmo ao domingo. Ela reiterou a informação pela positiva. No entanto, a alguém que passava atirou: “O homem é esquisito, não confia nas pessoas!”. Fiquei contente com a crítica.
A Maria dos Remédios e restante família sempre me acolheram como membro da família. Sofreu muito e faleceu com 46 anos de idade, a 24 de maio de 1989, deixando três filhas, um filho e o marido (que se debate com a enfermidade e cujas melhoras desejo). Todos nos tratamos por iguais, com fraternidade, sentido de família e desejo de bem.
O funeral foi na manhã do dia 26. A Maria confidenciava uma certa confusão quando pensava que seria enterrada. Disso ninguém a livrou. Todavia, a perspetiva de ter um funeral com o povo a rezar e a cantar por si foi concretizada apesar da consternação. O dia entre o óbito e o funeral foi o da solenidade do Corpus Christi. Nesse dia, após a missa, fez-se a procissão do Santíssimo Sacramento pelas ruas da freguesia; e a bênção foi lançada no lugar do Pelourinho, em frente da Capela de São Sebastião, em frente da Capela de Nosso Senhor dos Passos (aquela onde parou o autocarro, mas que deixou de parar) e obviamente na igreja paroquial.
É de justiça fazer-lhe esta memória no 28.º aniversário da sua passagem para o Céu. E é uma forma de celebrar a conterraneidade ou a sabedoria comum e também a minha gratidão pessoal.

2017.05.25 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Papa Francisco recebeu em audiência privada Donald Trump

Na manhã de hoje, dia 24 de maio, pelas 8,30 horas de Roma, o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, foi recebido em audiência pelo Papa Francisco e, sucessivamente, encontrou-se (acompanhado da sua delegação, que incluía o Secretário de Estado, Rex W. Tillerson, e o Conselheiro de Segurança Nacional, H. R. McMaster) com o número dois do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado, que se fazia acompanhar do Arcebispo Paul Richard Gallagher, Secretário para as Relações com os Estados (um tipo de ministro das Relações Exteriores). O encontro marca o primeiro contacto oficial entre Trump e o líder de quase 1,3 milhões de católicos, que provavelmente apaziguará as tensões, fiel à tradicional linha diplomática do Vaticano de receber e ouvir todas as partes.
Os colóquios no Vaticano ocorreram no contexto da primeira viagem oficial do Presidente norte-americano ao estrangeiro. Assim, Trump foi à Itália para participar numa cimeira do G7, os sete países mais industrializados do mundo, que se realizará nos dias 26 e 27 de maio em Taormina, na Sicília. Entretanto, após o encontro com o Papa e o Secretário de Estado do Vaticano, o Presidente dos Estados Unidos encontrou-se com o Presidente italiano, Sergio Matarella, no Quirinal, após o que teve um almoço de trabalho com o Primeiro-Ministro italiano, Paolo Gentiloni, antes de seguir para Bruxelas, onde participará numa reunião amanhã, dia 25 de maio, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e donde regressará à Itália para tomar parte, na  cidade de Taormina, na Sicília, na dita cimeira do G7, a ter lugar nos dias 26 e 27 deste mês. 
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Tanto a Rádio Vaticano como a Sala de Imprensa da Santa Sé salientam a cordialidade dos colóquios, que evidenciam a satisfação pelas boas relações bilaterais existentes entre a Santa Sé e os Estados Unidos da América e pelo compromisso comum de cooperação em prol da vida e da liberdade religiosa, de consciência e de culto.
Por consequência, formularam-se votos por uma serena colaboração entre o Estado e a Igreja Católica nos Estados Unidos, comprometida no serviço das populações nos âmbitos da saúde, da educação e da assistência aos imigrantes. Naturalmente, os colóquios proporcionaram o intercâmbio de opiniões sobre alguns temas relativos à atualidade internacional e à promoção da paz no mundo através da negociação política e do diálogo inter-religioso, com referência particular à situação no Médio Oriente e à tutela das comunidades cristãs.
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Previa-se que o encontro se revestisse de uma certa delicadeza, já que pairavam no ar alguns fumos de tensão entre os dois líderes dos quais se conhecem posições muito diferentes sobre temas como migração e mudanças climáticas. Com efeito, o Presidente dos Estados Unidos e o primeiro Pontífice de origem latino-americana defendem modelos económicos e sociais opostos e colidiram em temas como a construção de um muro entre os Estados Unidos e o México para frear a migração e a necessidade de tomar medidas globais para obviar às mudanças climáticas.
O Papa, em 17 de fevereiro de 2016, no encontro com os jornalistas no voo de regresso do México a Roma, foi confrontado com uma afirmação de Phil Pulella, da “Reuters” sobre do candidato Donald Trump e a consequente pergunta:
“Hoje falou de forma muito eloquente sobre os problemas dos imigrantes. Entretanto, do outro lado da fronteira, está em marcha uma campanha eleitoral bastante dura; numa entrevista recente um dos candidatos à Casa Branca, o republicano Donald Trump, afirmou que o Papa é um homem político, chegando a dizer que talvez seja um peão, um instrumento do governo mexicano para a política de imigração. Declarou que, se for eleito, quer construir 2.500 km de muro ao longo da fronteira; quer deportar 11 milhões de imigrantes ilegais, separando assim as famílias, etc. Então, queria perguntar-lhe, antes de mais nada, que pensa destas acusações contra si e se um católico norte-americano pode votar em tal pessoa.”.
E Francisco replicou:
“Bem, graças a Deus, que disse que sou político, porque Aristóteles define a pessoa humana como ‘animal politicum’. Pelo menos sou uma pessoa humana! Quanto a ser um peão, bem, talvez seja melhor nem comentar… deixo isso ao vosso juízo, ao juízo das pessoas. E, depois, uma pessoa que só pensa em fazer muros, onde quer que seja, e não em fazer pontes, não é cristã. Isto não está no Evangelho. Quanto àquilo que me perguntava sobre o conselho que daria de votar ou não votar, não me intrometo. Digo apenas: se diz estas coisas, este homem não é cristão. É preciso ver se ele disse estas coisas; por isso, lhe dou o benefício da dúvida.”.
Donald Trump, que acusara, como se viu, o Pontífice de ser um “homem político” e um instrumento do governo mexicano para a política migratória (o que foi contestado com ironia) reagiu dizendo que Francisco não tinha legitimidade para se pronunciar sobre a fé de alguém.  
Quando faltavam apenas cinco semanas para a cimeira na Sicília, a Casa Branca ainda não havia solicitado oficialmente a audiência papal, o que suscitou muitas especulações, pois os presidentes costumam solicitar ao Vaticano com vários meses de antecedência audiências com o Papa, que em geral as concede. Porém, a 19 de abril, o próprio Papa Francisco manifestou a disposição de receber Trump, embora tenha confessado que ainda não havia recebido nenhuma solicitação oficial.
E, a 13 de maio, no voo de regresso de Monte Real (Portugal) a Roma, pronunciou-se sobre Trump assegurando não fazer juízos sobre uma pessoa sem a escutar e que, no encontro previsto, cada um dirá o que pensa. E, em relação ao que esperava do encontro com um Chefe de Estado que pensa diferente de si, garantia não ter portas fechadas, mas, ao menos, com alguma abertura para cada um poder dizer o que pensa, para cada um entrar e falar sobre problemas comuns e andar para a frente, passo a passo. Ademais, reiterou que a paz é artesanal, se constrói no dia a dia, como a amizade, o conhecimento mútuo, a estima. Escuta-se e diz-se o que se pensa, mas sempre com respeito. E, sobre a hipótese de o Presidente vir a modificar as suas decisões, Francisco disse tratar-se de um cálculo político que se abstém de fazer e que também no plano religioso não é proselitista.
Historicamente, todos os presidentes do século XX dos Estados Unidos solicitaram encontros com o Pontífice durante suas viagens à Itália. Barack Obama reuniu-se por duas vezes com o Papa Francisco, uma no Vaticano em 2014 e outra durante a viagem do Pontífice aos Estados Unidos em 2015. E fora recebido no Vaticano por Bento XVI, em 2009.
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Pelos vistos, o encontro começou com um aperto de mão e um sorriso de ambos.
Atravessando uma cidade blindada desde a sua chegada, na noite do dia 23, Donald Trump deixou a Villa Taverna, residência do embaixador dos Estados Unidos onde estava alojada sua delegação, e chegou ao Pátio de São Dâmaso às 8,20 horas sob fortes medidas de segurança e uma comitiva presidencial de dezenas de automóveis. O Presidente entrou no Estado do Vaticano através da porta do Perugino, depois de seguir pela Via da Conciliação sob os olhos de centenas de passantes e fiéis que estavam a caminho da Praça São Pedro, para participar da audiência geral com o Santo Padre.
Trump vinha acompanhado da esposa, Melania, a filha mais velha, Ivanka, o genro, Jared Kushner, e uma delegação de cerca de 20 pessoas, 12 das quais estiveram com o Papa. 
A audiência particular, a portas fechadas, na biblioteca privada, começou às 8,33 horas e teve a duração de 27 minutos. Foi possível ouvir Trump referir que esta era uma ‘grande honra’.
Durante a audiência, a esposa e a filha do Presidente dos EUA visitaram a Capela Paulina e a Sala Regia, tendo aguardado depois em conversa com a delegação e representantes do Vaticano numa sala adjacente.
Em seguida, a comitiva foi chamada para o momento da troca de presentes e os habituais cumprimentos diante dos fotógrafos. Porém, antes da sessão fotográfica, o Papa Francisco cumprimentou com cordialidade Melania Trump, a quem perguntou “se já haviam comido uma pizza” e abençoou um terço que a esposa do Presidente tinha nas mãos. Também a filha, Ivanka, disse algumas palavras ao Papa, que a escutou em silêncio.
O Papa ofereceu a Donald Trump as edições em inglês da sua mensagem para o Dia Mundial da Paz 2017 – dedicada à não violência como estilo de vida –, assinada especialmente para o Presidente dos EUA; das exortações “A Alegria do Evangelho” (Evangelii Gaudium) e “A Alegria do Amor” (Amoris Laetitia), sobre a família; e da carta encíclica “Laudato sí”, documento sobre o cuidado da casa comum, que abrange a questão ecológica. E, como é tradição em audiências a Chefes de Estado, Francisco ofereceu também um medalhão do seu Pontificado com dois ramos de oliveira entrelaçados, símbolo da paz que se sobrepõe à guerra, explicando o seu significado.
Por seu turno, o líder norte-americano presenteou o Papa com uma coletânea dos 5 livros escritos por Martin Luther King e uma peça do monumento de granito que honra o ativista afro-americano em Washington e uma escultura de bronze. Um dos livros, “The Strength to Love” (A Força do Amor”, 1963), traz a assinatura do próprio Luther King.
Segundo uma nota da Casa Branca, a peça do monumento em granito é uma “homenagem à esperança, visão e inspiração do ativista para as gerações vindouras”. Com a peça e os livros, Trump também entregou uma cópia do discurso que o Papa ofereceu a uma sessão do Congresso dos EUA em setembro de 2015, na qual foi celebrado o legado de Luther King. E a escultura de bronze foi feita à mão por um artista estadunidense não identificado e representa “a esperança de um amanhã pacífico”, pois evoca dois valores universais: a unidade e a resistência.
Segundo a programação, o Presidente e toda a delegação visitaram a Capela Sistina e a Basílica de São Pedro. E, na sequência, a primeira-dama foi até o Hospital Pediátrico Bambino Gesù (Menino Jesus), propriedade da Santa Sé, perto do Vaticano. E a filha de Trump, Ivanka, seguiu com o marido para a Comunidade de Santo Egídio, no bairro de Trastevere, tendo abordado a questão do tráfico humano.
O Hospital Bambino Gesù, o 1.º hospital pediátrico da Itália, foi criado em 1869 pelos Duques Salviati. Em 1924, foi doado à Santa Sé, tornando-se, para todos os efeitos, um hospital pontifício, um hospital de excelência. Em 2104, foi enriquecido com novos laboratórios de pesquisa que se estendem por 5000 m2 e dotados de modernas tecnologias de investigação genética e celular. É o maior policlínico e centro de pesquisa pediátrica na Europa. Tem 4 polos de internamento e cura em Itália, sendo a sede principal no gianícolo, perto do Vaticano.
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É de esperar que, em razão da resistência interna e depois deste encontro marcado pela bonomia esclarecedora, o Presidente estadunidense ganhe a postura de mitigação das suas políticas em prol da concórdia e da paz. Prosit!

2017.05.24 – Louro de Carvalho

terça-feira, 23 de maio de 2017

A peregrinação do Papa Ratzinger a Fátima

Ainda estão os portugueses a digerir os efeitos de Francisco, o peregrino da luz “na paz e na esperança” e cá está o desmancha-prazeres do Louro de Carvalho a lembrar coisas velhas – dirão alguns. Porém, devo dizer que o que me apraz lembrar tem apenas 7 anos e alguns dias.
Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima, disse, em recente entrevista que sentiu bem o repto de Bento XVI, quando o ouviu dizer aos peregrinos na sua homilia de 13 de maio de 2010:
Mais sete anos e voltareis aqui para celebrar o centenário da primeira visita feita pela Senhora ‘vinda do Céu’, como Mestra que introduz os pequenos videntes no conhecimento íntimo do Amor Trinitário e os leva a saborear o próprio Deus como o mais belo da existência humana”.
Aqui terá o prelado fatimita colhido a inspiração para promover as celebrações centenárias no horizonte do septenário em vez da redução a uma celebração anual. Além disso, aqui ficou vincada a ideia da Senhora, não como a Santinha com quem se fazem negócios por baixo preço como disse o papa Francisco, mas a Mestra luminosa do conhecimento de Deus trino, que é amor “saboreável”, porque é a verdadeira Sabedoria ao dispor dos homens.
Também Ratzinger não reduz aquele recinto de oração a um mariódromo, mas cita as palavras da fé em Cristo, luminosa e ardente de Jacinta:
Gosto tanto de dizer a Jesus que O amo. Quando Lho digo muitas vezes, parece que tenho um lume no peito, mas não me queimo.”.
E a confidência do Francisco:
Do que gostei mais foi de ver a Nosso Senhor, naquela luz que Nossa Senhora nos meteu no peito. Gosto tanto de Deus!”.
E, se alguém se sentia com inveja destes pastorinhos que tinham esta fé e este amor porque viram, teve de ouvir do Papa as palavras de Cristo: “Não andareis vós enganados, ignorando as Escrituras e o poder de Deus?” (Mc 12,24); e as Escrituras convidam-nos a crer, ‘Felizes os que acreditam sem terem visto’ (Jo 20,29).”. Depois, o Papa alemão, sem subvalorizar a maternidade de Maria, salienta dela a fé em tudo quanto Lhe foi dito da parte do Senhor, citando Jesus:
“E o entusiasmo que a sua sabedoria [de jesus de Nazaré] e poder salvífico suscitavam nas pessoas de então era tal que uma mulher do meio da multidão – como ouvimos no Evangelho – exclama: ‘Feliz Aquela que Te trouxe no seu ventre e Te amamentou ao seu peito’. Contudo, Jesus observou: ‘Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática’ (Lc 11,27.28). Mas quem tem tempo para escutar a sua palavra e deixar-se fascinar pelo seu amor? Quem vela, na noite da dúvida e da incerteza, com o coração acordado em oração? Quem espera a aurora do dia novo, tendo acesa a chama da fé? A fé em Deus abre ao homem o horizonte de uma esperança certa que não desilude; indica um sólido fundamento sobre o qual apoiar, sem medo, a própria vida; pede o abandono, cheio de confiança, nas mãos do Amor que sustenta o mundo.”  
Depois, o afeto a Deus por Maria tem de incluir a contrapartida do amor ao próximo. E Bento, para concluir pelo amor e pela paz, aponta como exemplo os pastorinhos, que fizeram da sua vida uma doação a Deus e uma partilha com os outros por amor de Deus:
“Nossa Senhora ajudou-os a abrir o coração à universalidade do amor. De modo particular, a beata Jacinta mostrava-se incansável na partilha com os pobres e no sacrifício pela conversão dos pecadores. Só com este amor de fraternidade e partilha construiremos a civilização do Amor e da Paz.”.
E, da parte de Deus, que procura justos para salvar a cidade dos homens, adverte para a responsabilidade para com os irmãos, a que os pastorinhos corresponderam fielmente:
Aqui revive aquele desígnio de Deus que interpela a humanidade desde os seus primórdios: ‘Onde está Abel, teu irmão? […] A voz do sangue do teu irmão clama da terra até Mim’ (Gn 4,9). O homem pôde despoletar um ciclo de morte e terror, mas não consegue interrompê-lo… Na Sagrada Escritura, é frequente aparecer Deus à procura de justos para salvar a cidade humana e o mesmo faz aqui, em Fátima, quando Nossa Senhora pergunta: ‘Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele mesmo é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?’ (Memórias da Irmã Lúcia, I, 162).”.
É a oferta a vida a Deus por Maria em prol da humanidade pobre  ou pecadora.
E atente-se na missão que Bento XVI atribui à peregrina Mãe de Deus, a partir de Fátima, frente aos desvarios da humanidade, e o desafio que lança a todos quantos se associam aos videntes:  
“Com a família humana pronta a sacrificar os seus laços mais sagrados no altar de mesquinhos egoísmos de nação, raça, ideologia, grupo, indivíduo, veio do Céu a nossa bendita Mãe oferecendo-Se para transplantar no coração de quantos se Lhe entregam o Amor de Deus que arde no seu. Então eram só três, cujo exemplo de vida irradiou e se multiplicou em grupos sem conta por toda a superfície da terra, nomeadamente à passagem da Virgem Peregrina, que se votaram à causa da solidariedade fraterna. Possam os sete anos que nos separam do centenário das Aparições apressar o anunciado triunfo do Coração Imaculado de Maria para glória da Santíssima Trindade.”.
De facto, o Papa Ratzinger, no quadro do centenário da República, também veio a Fátima como peregrino da esperança. Disse-o na primeira saudação em Lisboa, a 11 de maio de 2010:
 “Venho como peregrino de Nossa Senhora de Fátima, investido pelo Alto na missão de confirmar os meus irmãos que avançam na sua peregrinação a caminho do Céu. […] A visita, que agora inicio sob o signo da esperança, pretende ser uma proposta de sabedoria e de missão.”.
É claro que ilustra o que entende ser este quadro de sabedoria:
“Veio do Céu a Virgem Maria para nos recordar verdades do Evangelho que são para a humanidade, fria de amor e desesperada de salvação, fonte de esperança. Naturalmente esta esperança tem como dimensão primária e radical, não a relação horizontal, mas a vertical e transcendente. A relação com Deus é constitutiva do ser humano: foi criado e ordenado para Deus, procura a verdade na sua estrutura cognitiva, tende ao bem na esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética. A consciência é cristã na medida em que se abre à plenitude da vida e da sabedoria, que temos em Jesus Cristo.”.
E situa o ser e o modo de agir da Igreja na liberdade e na pluralidade, cuja caminhada de irmãos pretende confirmar, e no quadro da sabedoria que preconiza:
De uma visão sábia sobre a vida e sobre o mundo deriva o ordenamento justo da sociedade. Situada na história, a Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza nem privatiza a essencial consideração do sentido humano da vida. Não se trata de um confronto ético entre um sistema laico e um sistema religioso, mas de uma questão de sentido à qual se entrega a própria liberdade. O que divide é o valor dado à problemática do sentido e a sua implicação na vida pública. A viragem republicana, operada há cem anos em Portugal, abriu, na distinção entre Igreja e Estado, um espaço novo de liberdade para a Igreja, que as duas Concordatas de 1940 e 2004  formalizariam, em contextos culturais e perspetivas eclesiais bem demarcados por rápida mudança. Os sofrimentos causados pelas mutações foram enfrentados geralmente com coragem. Viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio.”.
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E, porque alguns salientaram, com razão, a forma como o Papa Francisco reescreveu a Salve Rainha (trabalho que o Pontífice atribui ao Santuário), é de reter o núcleo teológico mariano de Ratzinger na oração que proferiu aos pés de Maria na Capelinha das Aparições em 12 de maio daquele ano que já parece tão longínquo. Rezava Bento XVI (interrompido pelo coro e povo, que entoavam: “Nós Te cantamos e aclamamos, Maria):
“Senhora Nossa e Mãe de todos os homens e mulheres, aqui estou como um filho que vem visitar sua Mãe e o faz na companhia de uma multidão de irmãos e irmãs”.
Depois deste protesto de devoção filial em união com a multidão, vem a relação do sucessor de Pedro, tão querido de Fátima, com o Coração imaculado de Maria a quem apresenta, na linha da Gaudium et Spes (GS), as alegrias e esperanças, os problemas e as dores da humanidade:
“Como sucessor de Pedro, a quem foi confiada a missão de presidir ao serviço da caridade na Igreja de Cristo e de confirmar a todos na fé e na esperança, quero apresentar ao vosso Coração Imaculado as alegrias e esperanças e também os problemas e as dores de cada um destes vossos filhos e filhas, que se encontram na Cova da Iria ou nos acompanham de longe”.
E, no cerne do ato de consagração a Maria, pois Ela a todos e a cada um conhece e ama, reconhece n’ Ela a benevolência maternal que brota do próprio coração de Deus Amor:
“Mãe amabilíssima, Vós conheceis cada um pelo seu nome, com o seu rosto e a sua história, e a todos quereis com   a benevolência maternal que brota do próprio coração de Deus Amor. A todos confio e consagro a Vós, Maria Santíssima, Mãe de Deus e nossa Mãe.”.
Recorda, como é natural em termos de sucessão próxima, a tríplice peregrinação fatimita do Papa Polaco, notável pela sua idade mariana, expressa no lema “Totus Tuus, Maria”:
“O Venerável Papa João Paulo II, que Vos visitou três vezes, aqui em Fátima, e agradeceu a ‘mão invisível’ que o libertou da morte no atentado de 13 de maio, na Praça de São Pedro, há quase 30 anos, quis oferecer ao Santuário de Fátima uma bala que o feriu gravemente e foi posta na vossa coroa de Rainha da Paz. É profundamente consolador saber que estais coroada, não só com a prata e o oiro das nossas alegrias e esperanças, mas também com a bala das nossas preocupações e sofrimentos.”.
Tendo reconhecido que a coroa da imagem de Maria retém a prata e o ouro das alegrias e esperanças, mas também a bala das preocupações e sofrimentos, tudo no espírito da GS, evoca agradecido as orações e os sacrifícios que os videntes faziam (e hoje tantos fazem) pelo Papa:
“Agradeço, Mãe querida, as orações e os sacrifícios que os Pastorinhos de Fátima faziam pelo Papa, levados pelos sentimentos que lhes infundistes nas aparições. Agradeço também todos aqueles que, em cada dia, rezam pelo Sucessor de Pedro e pelas suas intenções para que o Papa seja forte na fé, audaz na esperança e zeloso no amor”.
A oração definiu os anseios do Pontífice: forte na fé, audaz na esperança e zeloso no amor. Mas vem, a seguir, o sentido da oferta papal, não um sentido comercial por dádivas materiais, mas o da gratidão pontifical pelas maravilhas operadas por Deus no coração dos peregrinos:
“Mãe querida de todos nós, entrego aqui no vosso Santuário de Fátima, a Rosa de Oiro que trouxe de Roma, como homenagem de gratidão do Papa pelas maravilhas que o Omnipotente tem realizado por Vós no coração de tantos que peregrinam a esta vossa casa maternal”.
É momento para recordar que, na referida homilia, o agora Papa emérito, evoca  “a filha excelsa deste povo de Deus” – “a Virgem Mãe de Nazaré, a qual, revestida de graça e docemente surpreendida com a gestação de Deus que se estava operando no seu seio, faz igualmente sua esta alegria e esta esperança [messiânicas proclamadas em Isaías] no cântico do Magnificat: O meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador. Porém, não se vê como privilegiada entre um povo estéril, antes profetiza-lhe as doces alegrias duma prodigiosa maternidade de Deus, porque a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem (Lc 1,47.50).
E finaliza esta oração de entrega com a certeza da visão comungante dos pastorinhos – então dois beatos e uma serva de Deus:
“Estou certo que os Pastorinhos de Fátima, os Beatos Francisco e Jacinta e a Serva de Deus Lúcia de Jesus nos acompanham nesta hora de prece e de júbilo”.
Depois de ler Bento XVI, que então também ouvi, e de ouvir e ler o Papa Francisco, pergunto-me em que sentido é que se pode dizer que estes são menos marianos que São João Paulo II.
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Finalmente, recordo alguns segmentos da saudação aos peregrinos antes do terço e da procissão das velas a 12 de maio de 2010, corporizando o ser e a missão do discípulo de Cristo:
“Lembrais um mar de luz à volta desta singela capelinha, amorosamente erguida em honra da Mãe de Deus e nossa Mãe, cujo caminho da terra ao céu foi visto pelos pastorinhos como um rasto de luz. Contudo, nem Ela nem nós gozamos de luz própria: recebemo-la de Jesus.”.
Ela não é a fonte da luz: recebe-a de Jesus, tal como nós que somos luz do mundo. Depois, diz:
“No nosso tempo em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus. Não a um deus qualquer, mas àquele Deus que falou no Sinai; àquele Deus cujo rosto reconhecemos no amor levado até ao extremo (cf Jo 13,1) em Jesus Cristo crucificado e ressuscitado.[…] Adorai Cristo Senhor em vossos corações (cf 1 Pe 3,15)! Não tenhais medo de falar de Deus e de ostentar sem vergonha os sinais da fé, fazendo resplandecer aos olhos dos vossos contemporâneos a luz de Cristo, tal como a Igreja canta na noite da Vigília Pascal que gera a humanidade como família de Deus.”.
E ainda:
“Sinto que me acompanham a devoção e o afeto dos fiéis aqui reunidos e do mundo inteiro. Trago comigo as preocupações e as esperanças deste nosso tempo e as dores da humanidade ferida, os problemas do mundo e venho colocá-los aos pés de Nossa Senhora de Fátima: Virgem Mãe de Deus e nossa Mãe querida, intercedei por nós junto de vosso Filho para que todas as famílias dos povos, quer as que se distinguem pelo nome cristão quer as que ainda ignoram o seu Salvador, vivam em paz e concórdia até se reunirem finalmente  num só povo de Deus, para glória da santíssima e indivisível Trindade.”.
Será ainda possível dizer que Bento VXI não aproveitou o Santuário para a evangelização?

2017.05.23 – Louro de Carvalho