terça-feira, 7 de julho de 2015

O tom da viagem papal à América do Sul

Francisco iniciou a sua viagem de nove dias (5 a 13 de julho) a três dos países mais pequenos da América do Sul – Equador, Bolívia e Paraguai. Nesta sua visita pastoral, o Papa assume um duplo e significativo papel: testemunha e profeta do desígnio divino; e eco humano junto de Deus e dos homens dos dramas dos que sofrem o desamparo, o isolamento, a doença, a pobreza, a discriminação social, política e económica. Provavelmente, esta segunda dimensão do homem de Igreja será a mais badalada pelos diversos órgãos de Comunicação Social. Porém, a adesão do grosso dos detentores dos poderes ao testemunho dramático do sofrimento dos excluídos será talvez pouco significativa, dado que muito facilmente se subestima a importância e significado da primeira dimensão, que é a base e o suporte sustentável da segunda.
Os jornais asseguram que o Papa, nesta viagem, fará eco das “preocupações políticas e sociais” daqueles países, “com particular atenção para os mais pobres e para o estado do Planeta”. Por outro lado, salientam que a viagem ocorre “três semanas após a apresentação da encíclica Laudato Si’, que constitui um apelo urgente pela defesa do ambiente”, estabelecendo o paralelo entre esta “primeira visita à América do Sul em dois anos” e a sua primeira viagem na Europa, quando escolheu a Albânia e a Bósnia” (vd, por exemplo, JN, de hoje). E estes países debatem-se com a pesada dívida externa (sobretudo o Equador) e os dilemas entre a defesa da floresta amazónica e a exploração do petróleo, os direitos dos indígenas e a satisfação da ambição negocial, a subsistência dos Estados e as liberdades, a democracia e a segurança.
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Convém esclarecer que esta não é a primeira viagem do atual bispo de Roma ao continente sul-americano, já que Francisco esteve no Brasil em julho de 2013 no âmbito das Jornadas Mundiais da Juventude (JMJ) – a XXVIII JMJ. Porém, alguns não atribuem a esta o estatuto de “primeira” viagem deste Papa, porque a viagem ao Brasil foi prevista e pensada por e para Bento XVI. Não concordo, uma vez que Francisco poderia não ter querido realizar essa viagem, podia estar impossibilitado por motivos de saúde ou poderia ter querido ou ser induzido a delegar o acompanhamento da JMJ na pessoa de um legado a latere. Ora, pensada ou não por si e para si, o certo é que Francisco foi quem realizou a viagem ao Brasil e foi ele quem acompanhou a JMJ; e ela foi programada já tendo em conta a idiossincrasia bergogliana. É que os factos são o que são e não podem ser negados nem contornados, ou seja, não é lícito interpretá-los à luz do que teriam sido se tivessem acontecido de outro modo.
Tanto assim é que, apesar de ela ter sido preparada pelo seu predecessor e se ter dito que foi escrita a quatro mãos, a encíclica Lumen Fidei é mesmo deste Papa, porque ele a assumiu. Poderia ter determinado a publicação do documento na fase em que o encontrou, caso o Papa emérito desse a sua anuência, ou remetê-lo para a propriedade autoral do mesmo.
Parece que se pretende, algumas vezes, exagerar na singularização de alguns presumíveis inéditos e no esquecimento de alguns factos. Recordo que João Paulo II esteve em Portugal por quatro vezes – 12 a 15 de maio de 1982; 2 de março de 1083; 10 a 13 de maio de 1991; e 12 e 13 de maio de 2000. Todavia, habitualmente apontam-se apenas três presenças do pontífice polaco em Portugal e esquece-se a visita de 1983. É certo que esta resulta de uma escala no quadro da Viagem Apostólica à América Central (Costa Rica, Nicarágua, Panamá, El Salvador, Guatemala, Honduras, Belize e Haiti) – com escala em Portugal (2-10 de março de 1983). Contudo, a aeronave que transportava o Papa e comitiva aterrou em solo português; o Pontífice foi recebido pelas entidades do Estado ao mais alto nível, deslocou-se à sala VIP do aeroporto de Lisboa e proferiu um notável discurso. Ademais, a escala em Lisboa foi programada – não era uma escala meramente técnica; tinha um objetivo de reforço da relação entre o Papa e Portugal – e o Papa não se limitou ao telegrama protocolar endereçado ao Chefe do Estado ao atravessar o território aéreo nacional.
Quanto às viagens do Papa Francisco na Europa, a visita à Albânia foi efetivamente a primeira. E o Papa justificou-se com o volume e a intensidade do sofrimento daquele povo – razões que o levaram à visita à Bósnia no âmbito do que foi a sua 3.ª viagem em térreas europeias fora de Itália. Não obstante, não se pode olvidar o interesse eclesial, europeu e mundial da sua segunda viagem na Europa a Estrasburgo com os notáveis discursos no Conselho da Europa e no Parlamento Europeu, que em tempos comentei.
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Mas, centrando-nos no tema principal desta reflexão e acentuada que foi a dupla dimensão da personalidade e da missão papal, ocorre-nos dizer que o tom da sua viagem há de perceber-se pelas palavras que proferir e pelos gestos que assumir – uns espontâneos, outros programados.
No entanto, pode desde já, como que antecipar-se o tom geral da sua prestação pastoral neste evento novenal pela mensagem de vésperas da viagem, pela mensagem à chegada e pela ambição dos números do próprio programa.
Na mensagem vídeo do Santo Padre emitida às vésperas da Viagem apostólica, ele estabelece o lamiré: “manifestar a minha proximidade, simpatia e boa vontade”; compartilhar as vossas preocupações e transmitir-vos o meu carinho e a minha proximidade”; e “alegrar-me convosco”.
E, depois:
“Quero ser testemunha da alegria do Evangelho e levar-vos a ternura e a carícia de Deus, nosso Pai, especialmente aos seus filhos mais necessitados, aos idosos, aos doentes, aos presos, aos pobres e a quantos são vítimas da cultura do descartável”.
Do “amor do Pai tão misericordioso” resulta que descobrimos sem limites “a face do seu Filho Jesus em cada um dos nossos irmãos”. Será assim suficiente “tornar-se próximo”. “É suficiente agir como o bom samaritano, vai e faz também tu o mesmo, aproxima-te, não te desvies”. E da “fé que todos nós compartilhamos” nasce e jorra a “ fonte de fraternidade e solidariedade”; pelo que a fé “constrói povos, forma uma família de famílias, promove a concórdia e encoraja o desejo e o compromisso em prol da paz”.
Ficam aqui bem evidenciadas as vertentes da relação de Deus e com Deus com referência explícita e mobilizadora à pessoa de Cristo e, como consequência incontornável, o compromisso com todas as dimensões, espaços e implicações da paz.
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Na cerimónia de boas-vindas à chegada ao Aeroporto Internacional  “Mariscal Sucre” de Quito, perante as autoridades do Equador, o Papa, mostrando sentir-se bem em terra tão hospitaleira e dando largas à sua alegria e gratidão por ter sido bem acolhido, augurou ao católico Presidente da República “votos de todo o bem para o exercício da sua missão”: que “possa conseguir o que deseja para o bem do seu povo.
Depois, recordando que visitara este país “em diferentes ocasiões por motivos pastorais”, garante que também desta vez vem como “testemunha da misericórdia de Deus e da fé em Jesus Cristo”. E, verificando que esta fé, “durante séculos, modelou a identidade deste povo e deu muitos frutos bons”, comprova-o com a apresentação de alguns exemplos humanos de santidade que “viveram a fé com intensidade e entusiasmo e, praticando a misericórdia, contribuíram para melhorar, em diferentes áreas, a sociedade equatoriana do seu tempo”. Assegura que hoje também se encontram
“no Evangelho as chaves que nos permitam enfrentar os desafios atuais, avaliando as diferenças, fomentando o diálogo e a participação sem exclusões, para que as realizações alcançadas no progresso e desenvolvimento se consolidem e possam garantir um futuro melhor para todos, prestando especial atenção aos nossos irmãos mais frágeis e às minorias mais vulneráveis, uma dívida que tem ainda toda a América Latina”.
Ora, se incumbe aos responsáveis do poder político a definição e o lançamento das políticas públicas adequadas para alcançar este desiderato, compete à Igreja oferecer o seu empenho e colaboração ao serviço deste povo “que com tanta dignidade se levantou”.
E, ao dar-se conta de que, no Equador, se encontra o ponto mais próximo do espaço exterior – o Chimborazo, assim chamado por ser o lugar mais próximo do sol, da lua e das estrelas – o Papa parte para a grande metáfora de Cristo e da Igreja:
“Nós, cristãos, vemos Jesus Cristo como se fosse o sol e a Igreja como a lua; a lua não tem luz própria e, se se esconder do sol, fica às escuras. O sol é Jesus Cristo e, se a Igreja se afastar ou esconder de Jesus Cristo, fica às escuras e não dá testemunho.”.
Então, o programa papal para estes dias será fazer com que se torne mais evidente para todos a proximidade “do Sol que nasce do Alto”, sendo nós reflexo da sua luz, do seu amor.
Assim, os cristãos têm de se voltar para Cristo, encontrando nele a centralidade da vida e missão da Igreja e de cada um dos seus membros. Cristo é a expressão mais perfeita e genuína – a única e fontal – do rosto misericordioso de Deus, competindo aos cristãos, em referência a Ele e em comunhão com Ele, o ónus e a alegria do testemunho do Evangelho por palavras, atitudes e obras consequentes com esse testemunho.
Os cristãos enquanto discípulos de Cristo Luz dos Povos são eles próprios e a Igreja que eles constituem verdadeira luz do mundo. Todavia, eles não são a origem dessa luz. Eles funcionam como a Lua, que não tem luz própria, mas a recebe do Sol. A referência primeira é Cristo e não o cristão ou a Igreja que ele integra (radica nesta realidade a exigência papa da não autorreferencialização da Igreja). A Igreja é discípula, serva, trabalhadora, missionária, mãe, portadora de Cristo e da Sua luz em prol do mundo. É verdadeiramente cristófora e lucífera. E, nela e com ela, os cristãos são discípulos, servos, trabalhadores, missionários, filhos e participantes da função maternal da Igreja, cristóforos e lucíferos.
Por isso, o Papa apela a que não percam a capacidade de dar graças a Deus pelo que Ele fez e faz por todos, a capacidade de proteger o humilde e o simples, de cuidar das crianças e dos idosos (que são a memória do seu povo), de confiar na juventude, e de maravilhar-se com a nobreza da sua população e a beleza singular do seu país, que é o paraíso, nas palavras do Presidente da República.
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A visita papal terá de servir de farol da fé e da esperança para o povo do Equador, que se sente superonerado com impostos e peado pelo autoritarismo governamental, na defesa dos sem-terra e dos habitantes dos bairros de lata; na Bolívia, espera-se a defesa dos indígenas; e, no Paraguai, considerado o segundo país mais corrupto da América do Sul, Francisco ouvirá vários grupos de ativistas e dirigir-lhes-á uma palavra de orientação.
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O próprio programa da viagem apostólica aponta marcos do ideário cristão papal e do compromisso com os diversos mundos. Vejam-se como significativos, além das solenes celebrações eucarísticas e dos encontros com os bispos, sacerdotes, seminaristas e religiosos: a visita ao santuário da Divina Misericórdia; o encontro com o mundo escolar e universitário; dois encontros com a sociedade civil; a visita à Casa de Repouso das Missionárias da Caridade; a visita ao Centro de Reabilitação Santa Cruz – Palmas; a visita ao Hospital Pediátrico “Niños de Acosta Ñu”; a visita à população de Bañado Norte; e o encontro com os jovens.
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O programa tem tudo em termos de eficiência humana com vista à eficácia pastoral. Porém, se Deus não ajudar, os homens encontrarão maneiras de opor a sua resistência – escondida ou aberta – aos esforços dos filhos da luz. Por isso, enquanto o sucessor de Pedro desempenha a árdua tarefa de confirmar os irmãos na fé (às vezes, no sofrimento e na oposição hipócrita ou ostensiva de alguns), postula-se a oração ardente da Igreja, como nos primórdios (cf At 12,5). Deus adiuvet!

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A Basílica do Bom Jesus do Monte

O Jornal de Notícias de hoje, dia 5 de julho, noticiava a elevação do templo do santuário do Bom Jesus do Monte ou Bom Jesus de Braga à categoria de basílica menor. Mais referia que o arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga, iria anunciar oficialmente a decisão do Papa Francisco de conceder ao Bom Jesus o título honorífico de basílica menor, em celebração em que se esperavam milhares de fiéis.
Estes factos são indesmentíveis do lado informativo. Porém, outras afirmações jornalísticas são de duvidosa veracidade e talvez abusiva apreciação, como por exemplo, que “o santuário passa a basílica para conquistar UNESCO”, que “tudo o que o Vaticano podia fazer para que o Bom Jesus seja eleito património cultural da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) fez” ou que “a decisão do Papa vem mostrar que a candidatura está viva”.
Não se discute a capacidade do Santuário para ser eleito como património da humanidade, dado o seu peso histórico, a sua beleza paisagística, o acervo artístico (conjunto arquitetónico, escultural, pictórico, insígnias, objetos, etc.), ordenamento do território, afluência de turistas e peregrinos, suporte escrito e outros aspetos como serviços de apoio, incluindo o funicular movido a água. Discute-se, sim, a pretensa conexão entre a decisão papal, através da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, e a candidatura do santuário a património mundial como “Obra-Prima da Criação Humana”, já que os critérios de um e de outro benefício são diferentes. Depois, não é o complexo do Bom Jesus que é reconhecido como basílica, mas a igreja/templo. Provavelmente para património mundial interessa todo o complexo. Veja-se o caso do Santuário de Fátima: é só um santuário, mas tem duas basílicas – a de Nossa Senhora do Rosário e a da Santíssima Trindade (esta de reconhecimento recente). E o complexo do Santuário de Lourdes, França, tem as seguintes estruturas basilicais: a cripta, a basílica de Nossa Senhora do Rosário, a basílica superior ou da Imaculada Conceição (fazem um tríplice templo) e a basílica subterrânea de São Pio X, de mais recente construção (1958).  
Bem avisada se revela Teresa Anderson, coordenadora da candidatura do Santuário a património mundial, quando, apesar de confiante no sucesso da iniciativa da candidatura, diz que “a elevação à categoria de basílica não traz consequências ‘visíveis’ para o santuário, a não ser a projeção internacional do templo e da zona envolvente”.
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No historial da igreja a Católica, registam-se dois tipos de basílicas: as basílicas maiores; e as basílicas menores.
Basílica maior (em latim, basilica maior) é a categoria atribuída às antigas basílicas patriarcais, atualmente denominadas basílicas papais, que estão, desde o século XVII, diretamente sob autoridade do Papa. Têm privilégios especiais e abrigam um altar e um trono papal. Em Ano Santo, abrem as suas “Portas Santas” (cada uma tem a sua Porta Sancta). Em Roma, são quatro apenas: a Basílica de São Pedro (no Vaticano), a Basílica de Santa Maria Maior, a Basílica de São João de Latrão ou Basílica do Santíssimo Salvador (a catedral do Papa enquanto bispo da diocese de Roma) e a Basílica de São Paulo Extra Muros.
Além destas, há em Roma mais algumas igrejas de peregrinação que se deviam visitar quando se estivesse em Roma. Como contêm relíquias importantes (de mártires insignes) para a devoção dos fiéis, o Papa Bonifácio VII (1294-1303) determinou a indulgência plenária para quem as visitasse, tal como às quatro basílicas papais, desde que observados os requisitos usuais para a obtenção da indulgência – confissão sacramental e comunhão eucarística, abjuramento de qualquer apego ao pecado e oração pelas intenções do Santo Padre. São elas: a Basílica de São Sebastião das Catacumbas ou de São Sebastião Fora de Muros; a Basílica de São Lourenço Fora de Muros; e a Basílica de Santa Cruz de Jerusalém.
Basílica menor (em latim, basílica minor) é título honorífico concedido pelo Papa a igreja/templo em diversos países do mundo considerada importante por diversos motivos tais como: a veneração que lhe devotam os cristãos; a transcendência histórica; e a beleza artística de sua arquitetura e decoração.
Estas basílicas são templos onde são lembrados, de modo eminente, os mistérios de Nosso Senhor ou igrejas dedicadas aos títulos da Virgem Maria ou erguidas para a devoção de algum santo ou em memória de algum acontecimento significativo.
Só em Roma há 59 basílicas menores. E, em Portugal, há bastantes. As mais recentes são efetivamente a Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, a Basílica do Santo Cristo, em Outeiro, na diocese de Bragança-Miranda, a Basílica de São Bento da Porta Aberta, em Terras do Bouro, e a Basílica do Bom Jesus, em Braga.
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Uma basílica é uma estrutura arquitetónica de origem romana que antigamente tinha uma função económica e jurídica. A basílica tipicamente romana descende das ágoras colunadas gregas, sendo que estes espaços romanos, ao contrário dos da Grécia, eram cobertos. Na sua génese, as basílicas romanas eram edifícios multifuncionais, que poderiam albergar áreas públicas (políticas, comerciais e sociais). Eram espaços de reunião destinados a assembleias cívicas, funcionando também como tribunais ou espaços de comércio (lota/leilões), tornando-se um edifício central e indispensável em qualquer cidade importante.
A basílica era um edifício grande e oblongo, geralmente composto por uma nave central, duas colaterais e uma ou mais ábsides – espécie de coroas semicirculares planas e habitualmente um pouco mais elevadas, donde se pudesse divisar a respetiva nave (as naves laterais poderiam ser terminadas em ábside mais pequena que a da nave central).
As naves laterais eram mais baixas, por forma a não obstruir as janelas altas (clarestório) na parte superior da nave central. Numa posição bem visível, ao fundo, estava a tribuna que mais tarde seria adaptada transformando-se no altar  e no ambão (mais tarde, púlpito saído da ábside) do culto cristão.
O nome basílica provém do termo latino “basilica”, que, por sua vez, deriva do grego “βασιλική” (transcrito por “basiliké), palavra que significa “régia” ou “real” e que é uma elipse da expressão completa βασιλική οικία (transcrito por “basiliké oikía), que significa “casa real”. E βασιλεύς (transcrito por “basileus”) significa “rei”, “imperador”, “soberano”. Ora, rapidamente a basílica passa a ser a casa do Rei dos Reis, Jesus Cristo, Senhor.
Este tipo de edifício, como se disse, servia originalmente, em Roma, para as transações comerciais a grande escala, que se faziam sob a égide do rei, dos cônsules ou do imperador e, ao mesmo tempo, era como uma espécie de julgado. A sua origem forânea remonta à época da República de Roma – dos cônsules (entre os anos 509 e 27 a.C.).
Com o passar do tempo, foram sendo acrescentadas diversas mudanças estruturais que se tornaram canónicas. A planta foi adotada para os edifícios religiosos cristãos da época paleocristã (até ao século V), concebidos como mundo interior que representa a civitas Dei. As razões de ser desta adoção eram: o facto de aliarem o interior espaçoso adaptado à realização de assembleias, exigido pelo culto cristão, com a grandiosidade que convinha à nova religião (note-se a similitude com o significado das expressões assembleia de Deus ou ecclesia Dei); o facto de, tratando-se de edifícios de natureza social e mão de templos, não serem conotados com o paganismo; e a dificuldade, a princípio, em construir edifícios de raiz para o culto (pelo que se aceitava a cedência de espaços adequados da parte de cristãos mais abastados e generosos).
Na ábside, onde antes se situava o tribunal (lugar de poder) passaram a situar-se os assentos concêntricos do clero, com destaque para a cadeira do Presidente da celebração (habitualmente a cátedra episcopal), e o altar. Esta ábside era quase sempre orientada no sentido oeste-leste, já que o sacerdote, que celebrava voltado para o povo, ao consagrar o pão e o vinho no corpo e sangue de Cristo, se mantinha voltado para o oriente – Cristo era e é considerado o Sol Nascente que nos visitou lá do Alto.
Todavia, no final do século V, introduziu-se em França uma importante alteração de que resultou uma inversão pura e simples desta regra. O bispo da cidade de Tours colocou o túmulo do seu antecessor na ábside (onde estava a cátedra). Este exemplo foi copiado em todo o lado e tornou-se regra predominante, sendo que o Presbyterium passou a ser o Martyrium; o trono do bispo e os bancos dos presbíteros passaram a ocupar o transeptum. Com esta modificação, o sacerdote, quando celebrava junto do altar, estava de costas para o povo, de face para ocidente. Para que, durante o cânone da missa, ficasse voltado para oriente, de acordo com a antiga liturgia, inverteu-se a orientação que se dava às igrejas. A fachada principal foi transferida para o lado ocidental; e a ábside (com o altar-mor) ficou do lado oriental. Esta regra tornou-se invariável na orientação das igrejas principais (igreja matriz) em cada comunidade.
A entrada na basílica, que antes era feita lateralmente, passou a fazer-se a eixo com o altar: uma reminiscência dos templos egípcios.
A “planta basilical” é formada por uma nave central maior que as laterais, tanto na largura como na altura. A basílica é então composta por 3 ou 5 naves, na central podem abrir-se galerias de janelas. E o interior dividia-se assim longitudinalmente numa nave central (mais alta que as demais) flanqueada por duas ou quatro naves. Nas naves laterais podiam estar inseridos uma espécie de balcões ao nível do nosso primeiro andar, os matroneus, que eram sítios donde as damas assistiam aos divinos ofícios.
Ao corpo principal da igreja foi acrescentado um transversal: o transepto que dividia a igreja em dois espaços – para os fiéis e para o clero – e acrescentava o simbolismo da planta cruciforme (em cruz latina).
À fachada simples foram acrescentadas duas torres e, por vezes, um nartex (um pórtico com uma espécie de vestíbulo a preceder a basílica).
O teto costumava ser plano e de madeira, até que, em posterior evolução, passou a ser construído de pedra.
Ao longo do tempo, os dois lados curtos modificaram-se e foi acrescentada a exedra (sala de receção/acolhimento) semicircular a um dos lados. Na época de Trajano, esta modificação foi feita dos dois lados, como no caso da Basílica Ulpia (96 d.C.).
Este tipo de estrutura foi aproveitado pelo imperador Constantino como modelo para os primeiros centros de culto cristãos que ele mesmo fundou (São Pedro, do Vaticano, e São João de Latrão, em Roma), e assim permaneceu até aos nossos dias. Isto deve-se especialmente ao caráter de assembleia da liturgia cristã e ao facto de o tipo de espaço basilical permitir acolher grande quantidade de pessoas, estabelecendo hermeneuticamente a hierarquia que lhe corresponde, com os fiéis distribuídos na nave (ou nas naves) e quem preside à celebração e seus coadjuvantes diretos, no presbitério ou capela-mor.
Em muitos casos, depois que os cristãos puderam exercer o culto fora das catacumbas, os próprios edifícios romanos foram utilizados tal como foram encontrados como recinto religioso oficial para a celebração da liturgia. Porém, depois que o Império Romano se tornou oficialmente cristão, o termo “basílica” foi utilizado também para se referir a determinadas igrejas geralmente grandes ou importantes às quais haviam outorgado ritos especiais e privilégios em matéria de culto. Este é o sentido usado hoje do ponto de vista tanto arquitetónico como religioso.

O Papa, nos tempos atuais, é a única pessoa com potestade para conceder o título de “basílica” a um templo. E fá-lo habitualmente através da Congregação para o Culto divino e Disciplina dos Sacramentos.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Cerimónia de prestação de honras de Panteão Nacional a Eusébio

Decorreu hoje, dia 3 de julho, a cerimónia de prestação de honras de Panteão Nacional a Eusébio da Silva Ferreira. É a 12.ª personalidade a receber honras de Panteão, a primeira do mundo desportivo e o primeiro português nascido em África.
A sequência cerimonial teve início às 15,15 horas, no Cemitério do Lumiar, com a saída da urna com os restos mortais do excelso jogador do Benfica e da Seleção Nacional, desaparecido em janeiro do ano de 2014.
Às 15 horas e 45 minutos, o Padre Delmar Gomes Barreiros celebrou uma missa de participação restrita, na igreja do Seminário da Luz, com a presença da família, após o que o cortejo seguiu para o Estádio da Luz, onde teve lugar a primeira curta paragem. Aqui estiveram Luís Filipe Vieira, José Eduardo Moniz, Luís Nazaré (respetivamente, o presidente, o vice-presidente e o presidente da Mesa da Assembleia-Geral), além de Rui Costa e Vilarinho, entre outros, a que se juntaram entre 300 e 400 pessoas para verem o cortejo.
O cortejo percorreu depois a Avenida Eusébio da Silva Ferreira, passando pela 2.ª Circular, Campo Grande e Marquês de Pombal. Uma segunda paragem ocorreu no Alto do Parque Eduardo VII, junto à Bandeira Nacional, onde a urna foi deslocada do carro fúnebre para o armão militar de tração animal.
O cortejo prosseguiu a sua marcha para a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Assembleia da República (AR). Na sede da FPF, várias figuras do futebol nacional prestaram homenagem ao Pantera Negra, entre as quais o presidente da FPF Fernando Gomes, o selecionador Fernando Santos, João Vieira Pinto, Humberto Coelho, entre outras; junto à AR, muitas pessoas aplaudiram a passagem da urna e alguns deputados estiveram nas escadarias, tal como a presidente da Assembleia da República.
No Panteão Nacional, a cerimónia teve início às 19 horas, com a entrada do cortejo pelo Campo de Santa Clara, e decorreu com a presença das entidades oficiais e dos convidados. Entretanto, no Campo de Santa Clara estiveram mais de 200 pessoas a assistir aos diversos atos públicos, a partir de um ecrã gigante que transmitia a emissão da RTP.
Depois da interpretação do Hino Nacional por Dulce Pontes, em modo de fado, António Simões fez o elogio fúnebre a Eusébio da Silva Ferreira.
Durante a cerimónia usaram ainda da palavra protocolar o Presidente da República, Aníbal António Cavaco Silva, que presidiu à cerimónia na sua qualidade de máximo representante da República, e a Presidente da Assembleia da República, Maria da Assunção Esteves, a representante do órgão responsável pela decisão da prestação das honras panteónicas e pela organização da cerimónia.
Foi projetado um vídeo com imagens do futebolista e Rui Veloso interpretou duas canções, “África”, tema que, conforme refere o artista, teve oportunidade de cantar com Eusébio há cerca de 20 anos, na Ajuda, durante um jantar de amigos, e “Nunca me esqueci de ti”, que espelha a saudade do artista e do povo português pelo insigne “onomatóforo” de Portugal pelo mundo.
Às 20 horas, depois de assinado o Termo de Sepultura pelo Presidente da República, pela Presidente da Assembleia da República e pelo Primeiro-Ministro, a Banda da Guarda Nacional Republicana executou o Hino Nacional. Foi por força deste documento que o King foi colocado na sala 2 do Panteão.
A seguir, a urna foi transportada e escoltada por militares da GNR, até à sala em que a arca tumular se encontra e onde ficará depositada no Panteão, junto do general Humberto Delgado, do escritor Aquilino Ribeiro e da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen.
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Das palavras proferidas no decurso da prestação das honras de panteão, destacam-se alguns segmentos, como a seguir se discrimina.
Dulce Pontes, convidada pela família para homenagear Eusébio, declarou, momentos antes de ensaiar a sua participação na cerimónia, que se trata de “um momento muito especial” e também complicado de gerir, sobretudo porque se cruzou algumas vezes com o Pantera Negra, uma delas para promover o Europeu de 2004 e outra num concerto de Andrea Bocelli. A artista cantou A Portuguesa (o Hino Nacional) depois de o caixão ter chegado ao monumento, quase quatro horas depois da saída do cemitério, num cortejo que visitou, como se disse, locais emblemáticos da capital e do futebolista.
Quanto ao encontro com Bocelli, Dulce Pontes revela que “Ele adorava Andrea Bocelli. Foi lindo vê-los os dois”. Quanto a Eusébio e à homenagem, disse:
“Há um sentimento de uma densidade muito grande... o Eusébio irradiava humildade, com aquele fundo de dignidade muito forte, não precisava de abrir a boca. Depois, nós sabemos como foi o tempo dele, jogava mesmo por amor à camisola, não havia aquelas quantias chorudas. Ao mesmo tempo, é um bocado estranho. É uma honra que é prestada e que é merecida, é uma homenagem, mas é denso. E, sendo o Hino Nacional, ainda mais denso se torna. Não sei como vai ser, mas vai ser com toda a alma.”. 
O presidente da Federação Moçambicana de Futebol (FMF) defendeu, em declarações à Lusa, que Eusébio deveria ter uma estátua ou o nome de uma rua em Maputo. No dia em que o corpo de Eusébio foi trasladado para o Panteão Nacional, em Lisboa, Feisal Sidat considerou “justo e oportuno” atribuir-lhe “um lugar digno” e lamentou que o Governo moçambicano não tenha ainda prestado a devida homenagem à antiga estrela do futebol mundial que nasceu na então cidade de Lourenço Marques.
Eusébio era uma “figura muito querida no país”, à semelhança do antigo capitão do Benfica Mário Coluna, que morreu no ano passado em Maputo, e ambos “vão ficar para sempre no coração dos moçambicanos”. O responsável pela FMF destacou também a figura do 'pantera negra' no bairro da Mafalala, na capital moçambicana, onde cresceu e começou a jogar futebol e “onde mesmo os mais jovens recordam a sua memória”.
Por seu turno, o presidente da FPF, Fernando Gomes, considerou que esta é “uma justa homenagem”, Humberto Coelho recordou a forma como Eusébio “representou Portugal no desporto e no futebol como ninguém”, Fernando Santos lembrou o primeiro jogo do futebolista pelo Benfica e João Pinto falou da importância do antigo jogador para a seleção nacional.
O Padre Delmar Gomes Barreiros declarou:
“A Pátria está em festa. Ao recebermos os restos mortais de Eusébio, recebemos um herói. (…). Estamos num momento que é de honra para nós: como cristãos, como profissionais do desporto, como cidadãos. Ao Benfica só desejaria uma coisa: passado de glória, futuro de vitória”.
Antes dos atos públicos frente à igreja de santa Engrácia, Telmo Correia, deputado do CDS-PP e autor da proposta para a trasladação, disse à SIC que o “Eusébio é um herói popular”, salientando o momento histórico, pois o antigo futebolista “é o primeiro português nascido em África a ter essa honra”.
Também Bagão Félix, falando aos jornalistas sobre o King, assegurou: “Eusébio libertou-se da lei da morte, através da memória”.
Ao melhor amigo de Eusébio no futebol, António Simões, coube o discurso inaugural, em que fez um breve elogio fúnebre ao herói:
“Ele dizia que eu era o irmão branco dele. Acrescento então que eras o irmão de todas as cores, do compromisso, ternura e lealdade (...) Não morreu. Só se ausentou fisicamente. Com o seu afastamento, nós é que morremos em parte. No meu caso, uma grande parte.”.
Do seu lado, Assunção Esteves pronunciou palavras protocolares adequadas ao momento e à figura nacional homenageada, de que se destacam as seguintes:  
“Eusébio era o fazedor dos afetos da alegria. A alegria que Espinosa diz que nos aproxima mais da liberdade, que é “força maior de ser e estar no mundo”. Ele gerava uma coesão positiva que a todos nos ligava. Também por isso a homenagem do Parlamento o chama para a celebração de todos os consensos. Porque ele sintetiza o reconhecimento unânime do valor, a pura concordância acima de todas as preferências particulares, metáfora, afinal, do próprio jogo da democracia.”.
E, Cavaco Silva, encerrando a sequência de discursos protocolares, sentenciou:
Como desportista, como ser humano, Eusébio da Silva Ferreira esteve sempre acima, muito acima, das querelas e das controvérsias que marcam o nosso quotidiano. A admiração que temos pela sua personalidade invulgar é partilhada por todos os Portugueses, sendo transversal a divisões ideológicas ou simpatias clubísticas. Eusébio é, na verdade, património de todos. Na família e nos seus próximos, naqueles que tiveram o privilégio de o conhecer de perto, deixou um indelével e bem português sentimento de saudade. Para todos os outros, incluindo as novas gerações, o ‘Pantera Negra’ é uma referência como desportista, que se destacou, como poucos no mundo, pela sua arte nos relvados mas também pelo seu calor humano e pela simpatia que de imediato despertava nos seus semelhantes. Eusébio é, verdadeiramente, uma figura nacional. (…).
Encarava com surpreendente humildade a grandeza do seu génio. Admirado por milhões, tratava todos e cada um com uma extraordinária simplicidade, a simplicidade natural dos que são verdadeiramente grandes, que nada precisam de mostrar e exibir, porque têm a consciência serena do seu valor e da sua grandeza. (…).
Hoje evocamos a sua personalidade da forma mais elevada e solene com que a República homenageia os seus maiores. Ao conceder a Eusébio da Silva Ferreira honras de Panteão Nacional, o Estado português exprime a sua gratidão por um campeão do desporto, uma lenda do futebol que é admirada em todo o mundo.
Eusébio da Silva Ferreira é um traço de união entre os Portugueses, mas também no mundo lusófono. (…). É o imenso afeto que nos deu que hoje queremos devolver-lhe, em sinal de gratidão pelo que significou como desportista e pelo que foi como ser humano.
O seu exemplo irá perdurar na nossa memória. E agora, a partir de hoje, Eusébio não estará apenas nos nossos corações. Repousará, lado a lado, com os grandes nomes da nossa vida pública e da nossa cultura. Eusébio da Silva Ferreira, como poucas personalidades do século XX, foi amado genuinamente pelo povo português, por um país inteiro. A República portuguesa, ao prestar-lhe esta homenagem, vai ao encontro desse sentimento do nosso povo, praticando um ato verdadeiramente democrático, através do qual se faz justiça a um português excecional e raro, cuja memória devemos honrar.
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Penso que a cerimónia lega metaforicamente para a História uma boa foto do herói, dos decisores, da entidade organizadora, do povo e também, neste caso, o Presidente da República, que, assumido hic et nunc como lídimo representante do povo, logrou a pronúncia de um autêntico elogio fúnebre numa perspetiva holística genuína. Di-lo quem também o critica!

Honra, pois, a Eusébio da Silva Ferreira, o herói que emergiu do seio do povo, se fez grande sem deixar de ser povo!

Prémio Norte-Sul de 2014

O Prémio Norte-Sul é uma criação do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa que tem o propósito de promover, em cada ano, a real proteção dos direitos humanos, da pluralidade democrática e do fomento da solidariedade e cooperação entre o norte e o sul através do reconhecimento do trabalho desenvolvido por duas individualidades – uma do norte, outra do sul – de preferência, um homem e uma mulher. O prémio tem sido atribuído todos os anos desde 1995, cinco anos depois da criação deste centro (em 1990), a duas personalidades distintas que que tenham mostrado um empenho de excelência na eficaz prossecução dos objetivos que materializam aquele propósito fundamental.
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O Prémio Norte-Sul de 2014 foi entregue, no passado dia 1 de julho, em cerimónia realizada como habitualmente (esta foi a XX cerimónia de entrega de prémios) na Sala do Senado da Assembleia da República, em Lisboa, e contou com a presença do Presidente da República Portuguesa, que presidiu, da Presidente da Assembleia da República Portuguesa, do Secretário-geral do Conselho da Europa e do Presidente da Assembleia do Conselho da Europa.
Desta vez, foi eleito o trabalho de Maura Lynch, freira missionária, médica-cirurgiã e obstetra, e do economista André Azoulay, conselheiro de Sua Majestade o Rei de Marrocos, duas personalidades que se distinguiram pelas suas abnegadas ações em prol do respeito e dignidade da pessoa humana e pela promoção do diálogo intercultural entre os povos.
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Maura Lynch é uma médica-cirurgiã e obstetra irlandesa, de 76 anos, que tem dedicado toda a sua vida a promover e a proteger os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos, através da ação direta com as pessoas fragilizadas, da formação de quadros e da criação de estruturas e equipamentos. Ao serviço das Missionárias Médicas de Maria, Maura Lynch passou 20 anos em Angola e mais de duas décadas no Uganda, onde ajudou a fundar uma clínica especializada na realização de cirurgias vitais para tratar a fístula obstétrica, no hospital de Kitovu, no sudoeste do país. Apesar da sua extensa carreira, continua a lutar pelo direito das mulheres do Uganda ao acesso a todos os cuidados primários de saúde, pela sua dignidade e, em muitos dos casos, pela própria sobrevivência.
Tendo decidido, aos 17 nos, o ingresso num convento para profissão religiosa dos valores evangélicos – pobreza voluntária, obediência inteira e castidade perpetua – percebeu, entretanto, que precisava de se munir de outras ferramentas para o cumprimento cabal da sua missão religiosa e missionária. Por isso, resolveu fazer o curso de medicina na especialidade de obstetrícia.
Como a sua primeira missão a levou até Angola, em 1967, teve de fazer um curso em Portugal no então Instituto de Higiene e Medicina Tropical (hoje, ISCSP-Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, pertencente à Universidade de Lisboa), condição sine qua non para a obtenção de visto. Sendo a única médica num hospital rural de duzentas camas no Chiulo, exercia as funções de obstetra, pediatra e cirurgiã e tratava a tuberculose. Tirara o curso de cirurgia em razão de ter encontrado muitos sinistrados da guerra e das minas.
Após 20 anos de permanência em Angola, foi chamada para o Uganda, onde iniciou o tratamento e a prevenção da fístula obstétrica (buraco cavado entre a vagina e a bexiga ou o canal retal em razão dos partos feitos por intervenção do feiticeiro, no alinhamento com a tradição ancestral), que impedia o controlo das fezes e das urinas. Fizera, para isso, a formação na Nigéria, um dos países mais afetados. Ajudou, depois, a formar um departamento para a realização de cirurgias à fístula obstétrica no Hospital de Kitovu, no sudoeste do Uganda, promovendo a preparação de médicos para o efeito e concitando o patrocínio da ONU para a formação de dois médicos para um programa de tratamento da fístula obstétrica no Uíge, no nordeste de Angola.
Calcula-se que cerca de 200 mil mulheres do Uganda sofram de fístula obstétrica e que no mundo haja cerca de 2 milhões destas mulheres sujeitas ao incómodo doloroso e mesmo à morte. Porém, as mulheres que beneficiam do tratamento voltam a uma vida normal e alegram-se por poderem voltar a dançar e a cantar com natural satisfação, deixando feliz a irmã Maura e/ou os envolvidos no tratamento.
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André Azoulay, de 74 anos, é conselheiro sénior do Rei de Marrocos, desde 1991. E, paralelamente à sua carreira em Economia, tem-se dedicado à promoção do diálogo entre culturas, religiões, populações, mulheres e homens da bacia do Mediterrâneo. Foi presidente da Fundação Euro-Mediterrânica Anna Lindh para o Diálogo entre Culturas, entre 2008 e 2014. Além disso, é, desde 2005, membro do “Grupo de Alto Nível” da “Aliança das Civilizações” das Nações Unidas. Preside ainda ao Comité Executivo da Fundação Três Culturas e Três Religiões, sediada em Sevilha, Espanha, e é um dos fundadores do Grupo Aladin, que atua para a promoção da compreensão mútua e das relações interculturais entre a comunidade Islâmica e o resto do mundo.
Judeu, berbere e árabe, como faz questão de salientar, trava combate em três frentes fundamentais: o diálogo entre religiões e entre culturas, com vista a uma relação positiva e sadia; o Estado da Palestina, na observação do princípio e do direito à autodeterminação e independência dos povos e seu direito de possuir um território; e a crise civilizacional das sociedades, que não diz respeito somente ao Mediterrâneo, mas – “mais do que económica” – é uma “crise social, filosófica, ideológica e política”.
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O Conselho da Europa estende o seu convite a todas as instituições governamentais centrais e locais – ligadas ao Centro Norte-Sul do Conselho da Europa – aos seus membros, aos representantes dos órgãos de comunicação social e das organizações governamentais regionais e internacionais para que apresentem proposituras de potenciais candidatos ao prémio.
Os potenciais destinatários do prémio são: cidadãos considerados individualmente; grupos de cidadãos; ou organizações – cujas atividades sejam consideradas dignas de distinção nos seguintes âmbitos: proteção dos direitos humanos; defesa da democracia pluralista; promoção da consciência pública sobre temas como a solidariedade global e a interdependência, bem como o reforço da parceria Norte-Sul.
Os candidatos são nomeados pelos seus feitos nos domínios cultural, institucional e político. Cada candidatura deve ter um ficheiro de, no máximo cinco páginas, contendo a seguinte informação: breve biografia do candidato (incluindo a identidade do candidato e as razões da nomeação); Curriculum Vitae detalhado (com os dados pessoais do nomeado e uma descrição das atividades e feitos importantes); e documentos que sustentem a candidatura, como, por exemplo, cartas, artigos de jornais, publicações.

O júri é constituído pelo Presidente do Conselho Executivo do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa, que preside, pelos Membros do Gabinete do Centro Norte-Sul e pelo Secretário-geral do Conselho da Europa.

O prémio é atribuído, como já foi referido, a dois candidatos, um do hemisfério norte e outro do sul (preferencialmente uma mulher e um homem), que se tenham destacado ao longo do ano numa ou mais categorias do prémio.
Antes da lista de candidatos chegar ao júri, é enviada aos anteriores vencedores do prémio para que estes possam fazer uma análise e uma pré-filtragem dos vários candidatos. Desta fase pré-eliminatória sai um máximo de dez candidatos (cinco do norte e outros tantos do sul), que serão avaliados pelo júri.
O prémio, que é honorário, consiste num troféu, fruto da criatividade de dois artistas, um do hemisfério norte, João Murillo, e outro do hemisfério sul, Lívio de Morais. É uma escultura constituída por três partes diferentes (dois moldes e a base) que depois são agrupadas, representando a união entre o Sul e o Norte. Cada um dos escultores é responsável pelo design de um molde e os moldes são esculpidos em dois tipos de pedra tradicional portuguesa (Estremoz e Negrais), a base é feita em madeira africana (Tola).
Como curiosidade, diga-se que três portugueses, Mário Soares (2001), António de Almeida Santos (2003) e Jorge Sampaio (2009), têm o seu nome inscrito na lista dos galardoados com o Prémio Norte-Sul.
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Além da entrega dos prémios, em que foi enaltecido o trabalho de promoção do exercício dos direitos humanos quer individualmente considerados – e com destaque para os direitos das mulheres pobres – quer considerados em relação na sociedade ou entre os povos, a cerimónia salientou os 25 anos da fundação do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa. E, se é verdade, como veiculou alguma Comunicação Social, que a sua continuidade estava posta em questão, o Presidente da República não deixou de apelar para a atualidade e importância da sua existência e ação:
Os tempos conturbados que vivemos – marcados pelo aumento do radicalismo, da intolerância e da violência, e ilustrados pela ocorrência, ainda este ano, de trágicos acontecimentos em Paris, Copenhaga, Tunes e Sousse – reforçam a necessidade de continuar a promover o diálogo intercultural, a democracia e os direitos humanos, bem como a sensibilização para a realidade da interdependência global. O papel do Centro na promoção dos valores e missão do Conselho da Europa mantém plena atualidade.
Neste contexto, ganha particular relevância a necessidade de conferir uma voz e um papel mais ativo à sociedade civil e aos seus setores mais frágeis, designadamente através do desenvolvimento de políticas destinadas a promover uma melhor educação para a cidadania democrática e a participação dos jovens na vida política.
E terminou com um apelo oportuno:
Gostaria de fazer um apelo aos representantes diplomáticos hoje aqui presentes. Este apelo vai no sentido de persuadirem as respetivas autoridades a ampliar esta dinâmica e este impacto político, através de um mais forte apoio dos seus países a este importante instrumento do Conselho da Europa que é o Centro Norte-Sul, deixando naturalmente a cada um o melhor modo de contribuir para este fim.

Oxalá que a voz presidencial desta vez ganhe vez, força e recetividade nesta Europa já tão velha, cansada, descaraterizada e como que às apalpadelas num mundo conturbado, mas onde ainda é possível fazer germinar a esperança!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Grande ensinamento de aritmética e algo mais

O título escolhido foi o enunciado em epígrafe, mas bem poderia ter sido outro, para espelhar a inanidade de um discurso político que, sob a capa da magna sabedoria ou da santa ingenuidade (pelos vistos, novas formas de fazer política), raia as malhas do insulto aos bem intencionados e sacrificados pela causa pública e acaba pro ser desprestigiante para este jardim à beira-mar plantado.
Recentemente, depois de ter afirmado, a propósito do braço de ferro que opõe a Grécia ao resto do Eurogrupo, que a Europa não pode abrir exceções ou que não pode tolerar chantagens vindas de dentro ou de fora e de ter alinhado com o Governo na asserção de que temos os cofres cheios com reservas para vários, vários meses, agora na iminência do desfecho catastrófico para Grécia, o Presidente da República resolveu ensinar aritmética ao povo português: efetivamente, se a Grécia sair do Eurogrupo, ainda ficam dezoito países. Na verdade, de dezanove, saindo um, ainda ficam dezoito – uma complexa subtração por se tratar de cidadãos e de instituições e não apenas de números.
Já agora, a modos de parêntesis, gostava de que o Senhor Presidente me esclarecesse, já que se afirma tão culto em matemática – e quem sabe matemática costuma saber gramática – se a palavra que refere por extenso o número 18 devia ser grafada, antes da nova ortografia, como “dezoito”, como era vulgar, ou como “dezóito” para abrir o ditongo “oi”, como me quis ensinar um professor de Português que eu tive, de saudosa memória, porque a palavra terá evoluído (e isto é viável) das expressões latinas do latim vulgar decem ac octo ou decem ad octo (no latim clássico, dizia-se “duodeviginti” – dois abaixo de vinte), que evoluíram para “dezaoito” por via da palatalização do “c” para “z” e da vocalização do segundo “c” para “i”, da crase de “a” com “o” a fazer “ao”, e da sinérese de “o” com “i”. E ainda pretenderia saber de o “s” de “semente” e o “c” de “cebola” têm o mesmo som, como é usual no território nacional, ou som diferenciado, como acontece nalguns pontos do território, como por exemplo na zona de Castro Daire.
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Mas a propósito da eventual e quase certa saída da zona Euro por parte da Grécia, segundo alguns, o Primeiro-Ministro respondeu às alegadas acusações do Ministro das Finanças de França na asserção de que as posições mais duras terão sido as dos pequenos países que nos últimos anos passaram por programas de ajustamento, assegurando sabiamente que as decisões tomadas no Eurogrupo são tomadas por unanimidade, pelo que não podem atribuir-se a este ou àquele país a responsabilidade por esta ou aquela decisão europeia. Porém, aquilo que Passos Coelho se esqueceu de referir – e ele sabe-o – é que as decisões tomadas em órgãos colegiais, por maioria ou por unanimidade, resultam de discussão entre os diversos elementos, por vezes, vigorosa. Pelo que o resultado unânime das decisões não anula as posições de percurso tomadas por um ou mais dos seus elementos. Não vale a pena tentar iludir a opinião pública. Só um diário de sessões é que poderia esclarecer a curiosidade jornalística ou a declaração credível dos elementos supostamente apontados. Por isso, façam os governantes as afirmações que quiserem, mas não usem argumentos falaciosos para as sustentarem.
Coisa parecida fez o Ministro da Presidência e dos Assuntos Parlamentares ao responder à questão levantada por um jornalista se a decisão da recondução de Carlos Costa como Governador do Banco de Portugal tinha tido vozes contra no Conselho de Ministros. Segundo ele, as decisões do Conselho de Ministros comprometem o Governo no seu todo e cada um dos seus membros em particular. É óbvio que ninguém nega esta asserção, mas a questão era a das posições de percurso e não a da decisão final, que vincula o Governo independentemente de ser unânime ou maioritária, como as decisões de qualquer órgão colegial, a menos que haja declaração de voto de vencido. Ora, se a cada passo as posições se contradizem no exterior, é mais do que expectável que as contraposições surjam naturalmente no interior do executivo governamental.
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Nós já nos devíamos ter habituado a estes desvios culturais da política. Recordo-me de que Vítor Gaspar, ao comentar o “desvio colossal” das contas de que falava o Primeiro-Ministro, com que havia de ser justificado o corte extraordinário, por via de sobretaxa, do subsídio de Natal no ano de 2012, explicava que Passos Coelho apontara efetivamente “o desvio” e dissera mais umas palavras a que acabou por juntar o adjetivo “colossal”. O mesmo perito em economia e folha excel, mais tarde, avisou os portugueses de que o ano de 2015 é o ano imediatamente consecutivo ao de 2014, como alimentou no Parlamento o diálogo entre o gato chamado Gaspar de um dos deputados da bancada comunista.
Depois, vários dos nossos políticos, ao quererem criticar determinadas afirmações que mexem com as suas áreas científicas, dizem a cada passo que qualquer manual ensina o que se deve saber sobre essa matéria, que um aluno do primeiro ano que dissesse coisas dessas teria na certa o respetivo chumbo ou que é preciso ler os livros ou que, se lessem as declarações que o próprio fez, não fariam tais críticas, que só revelam ignorância ou distração.
Ora, seria desejável que as questões políticas fossem tratadas com outra elevação e aprumo e os portugueses bem o merecem da parte daqueles que elegeram para os representarem e conduzirem a política do país.
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 Finalmente, enquanto os governantes se cansam a clamar e a explicar que a saída da Grécia não contamina Portugal, outras vozes, como a revista Sábado, desta semana, explicitam (pgs 69-71) algumas das consequências da eventualidade da saída da Grécia do Euro. Aqui ficam alguns respingos de síntese:
- Juncker, a propósito do referendo grego, diz que um “não” significa que a Grécia diz não à Europa, ficando assim em jogo a continuidade do país no Euro. Como efeito para Portugal, Aguiar-Conraria aponta a maior vulnerabilidade em que fica a dívida portuguesa a ataques especulativos.
- A austeridade cavou o empobrecimento geral e setorial da Grécia, gerando aumento progressivo e colossal da dívida. Os resultados em Portugal, segundo João Ferreira do Amaral, não são substancialmente melhores. Além dos dados habitualmente referidos, não se pode esquecer a sangria emigratória e, digo eu, o êxodo de imigrantes.
- 80% da dívida grega está em países da União Europeia. Portugal possui, do seu lado, cerca de 4,5 milhões de euros, uma importância aparentemente diminuta na exposição dos bancos portugueses à dívida grega, mas que não livra Portugal de ter de pagar mais para se financiar a médio prazo.
- O governo grego quer permanecer no Euro sem arcar com mais austeridade, ao passo que Portugal tem feito o discurso dos credores, mostrando empenho na redução da dívida. O nosso país, no dizer de Ferreira do Amaral, endividou-se para ajudar a Grécia enquanto passou por um programa de ajustamento. É contraditório e inseguro e nem os cofres cheios à custa de dinheiro pedido emprestado a juro baixo constituem para-choques sustentável.
- A troika exige à Grécia uma longa listagem de reformas. Ora, se um acordo da Grécia com os credores seria bom para Portugal, este impasse leva ao adiamento do investimento e ao crómico abrandamento do nosso crescimento económico.
- Finalmente, se a saída da Grécia da zona Euro não implica a sua saída da UE e não acarretaria a imediata saída de Portugal do grupo dos 19 países menos um, no entanto, as grandes modificações por que passará a zona Euro farão que Portugal se torne “o país que tem menos condições para estar na moeda única” – opina Ferreira do Amaral.
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Em suma, a questão grega e as posições europeias, tal como a governança de Portugal, são de natureza eminentemente política e como tal devem ser encaradas. E devem ser encaradas com elevação política, assente na lídima cultura democrática, de modo a potenciar sadias consequências financeiras e sobretudo económicas – que tenham em vista, acima de tudo o bem-estar das pessoas e a consistência das instituições. Para tanto, há que reformular o projeto europeu e dotá-lo de lideranças que tenham o apurado sentido de visão e a coerência da missão que recai sobre a Europa em relação a si própria, na relação com cada um dos Estados-Membros e com o resto do mundo.