quarta-feira, 24 de junho de 2015

No bicentenário da Batalha de Waterloo ou de de Belle Aliance

Passou, a 18 de junho passado, a efeméride enunciada em epígrafe. O nome da batalha – já que não será líquido falar de vitória, quando caíram milhares e milhares de cada um dos lados – que ficou para a memória histórica é Waterloo. No entanto, é curioso notar anedoticamente que, mesmo no termo da batalha, os dois protagonistas vitoriosos tinham ideias diferentes sobre o nome a atribuir-lhe: Blücher queria chamar-lhe de Belle Aliance – nome da fazenda que fora o quartel-general de Napoleão durante a batalha; Wellesley, porém, teve outra ideia, influenciada por uma de suas manias, que era batizar combates com o nome do lugar onde ele dormira na noite anterior, neste caso, uma vila a cerca de dois quilómetros dali, conhecida por Waterloo.
Antecedentes
Napoleão Bonaparte (1769-1821) tornou-se o general mais jovem do mundo, graças ao mérito de que deu provas como oficial de artilharia no conflito que opunha a França revolucionária e a Inglaterra. Aos 30 anos, depois de ganhar expedições a Itália e ao Egito, tomou o poder em França por meio de golpe de Estado e decretou o fim da revolução. Pouco mais de 10 anos depois, autocoroava-se imperador e dominou de Lisboa a Moscovo. Porém, as derrotas que os seus generais acabariam por sofrer em Portugal e Espanha foram a premonição da queda.
Forçado a retirar de Moscovo mercê do incêndio ateado pelos próprios habitantes, Napoleão viu-se obrigado a fazer o caminho de regresso até às fronteiras da Rússia, mais propriamente junto ao rio Beresina, flagelado pelos cossacos e camponeses e pelo “general Inverno”.
Enfrentando as principais potências continentais, apoiadas pela Inglaterra, perdeu a batalha de Leipzig, em 1813, e, no ano seguinte, aguentou a campanha de França, travando uma série de combates defensivos, que apenas induziram o retardamento da derrota. E, apesar do valor do seu exército, não logrou evitar a humilhação de ver os cossacos acampados em Paris. Pressionado pelos seus marechais, abdicou em Fontainebleau, em abril de 1814, e partiu para o exílio para a pequena ilha de Elba, no Mediterrâneo.
Entretanto, informado do descontentamento dos franceses com o rei Luís XVIII, resolveu desembarcar com apenas 50 homens da Guarda Imperial (alguns referem 700) e atravessou a França. Porém, os militares que o rei enviava para deter o exilado, passavam para o lado de Napoleão engrossando as hostes, o que levou a que o soberano que ocupava o trono tenha fugido de Paris, poucas horas antes da entrada triunfal de Bonaparte, cujo império, ora reeditado, durou uns magros 100 dias.
Os últimos dias de março de 1815 foram azedos para os diplomatas reunidos em Viena. Ali, representantes do Império Russo, Reino da Prússia, Império Austríaco, Suécia Reino Unido e várias nações e reinos menores tentavam, havia meses, redesenhar o mapa político da Europa, reinstaurando as monarquias e os territórios que existiam antes do furacão napoleónico. Porém, a ilusão de que o general corso estava liquidado acabou quando souberam que ele não só havia retornado do exílio de Elba, como no dia 20 de março fora recebido em apoteose em Paris. Os aliados mal podiam acreditar. Napoleão Bonaparte, dez meses antes, em 11 de abril de 1814, fora derrotado por uma coligação militar de mais de 500 mil soldados de várias nações europeias, que se sublevaram contra o domínio francês após a desastrosa campanha da Rússia, em 1812. Vitoriosos e fartos do império napoleónico, os aliados tinham colocado Luís XVIII no trono francês e enviado Bonaparte para o exílio.
Ora, depois do regresso de Napoleão ao poder em 1815, muitos dos Estados que se tinham oposto ao Imperador formaram a VII Coligação, dando início à mobilização dos seus exércitos.
A batalha
A Batalha de Waterloo constituiu um confronto militar com ápice ocorrido a 18 de junho de 1815 perto de Waterloo, na Bélgica atual (então parte integrante do Reino Unido dos Países Baixos). Um exército do I Império Francês, sob o comando do Imperador Napoleão (73000 homens), sofreu pesada humilhação da parte dos exércitos da VII Coligação, que incluía uma força britânica, comandada pelo Duque de Wellington, e uma força prussiana, sob o comando do marechal de campo Gebhard Lebberecht von Blücher (118000 homens). Este confronto marcou o fim dos Cem Dias de império recauchutado e foi a última batalha de Napoleão, que determinou o fim seu governo como Imperador.
Concentraram-se perto da fronteira nordeste de França duas forças militares de enorme dimensão sob o comando conjunto de Wellington e de Blücher. Napoleão decidiu-se pelo ataque, esperançado em as destruir antes que iniciassem uma invasão coordenada à França, juntamente com outros membros da VII Coligação. O confronto decisivo da campanha de 3 dias – 16 a 19 de junho de 1815 – teve lugar a cerca de 1,6 Km de Waterloo, atualmente em território belga, e constituiu para Wellington a batalha mais renhida a que assistiu na sua vida.
A fim de que o terreno secasse, Napoleão atrasou o início da operação até ao meio-dia. O exército de Wellington, posicionado ao longo da estrada de Bruxelas, na escarpa do Mont Saint-Jean, resistiu aos múltiplos ataques franceses até que, no fim do dia, os prussianos chegaram em força e penetraram no flanco direito napoleónico. Entretanto, as tropas de Wellington contra-atacaram provocando o caos no campo de batalha das tropas francesas. Depois, as forças da coligação entraram em França repondo Luís XVIII no trono francês. Napoleão abdicou, rendeu-se aos britânicos e, a 22 de junho, foi exilado na ilha de Santa Helena, onde morreu em 1821.
No local da batalha pode ver-se hoje um enorme monumento designado por Butte du Lion (Monte do Leão) formado por terra trazida do terreno da batalha.
***
Napoleão, a 15 de junho, invadiu a Bélgica. O escopo era bater separadamente os exércitos inimigos antes que eles se reunissem. As tropas que defrontou eram formadas por prussianos, ingleses, belgas, neerlandeses e alemães, instalados na Bélgica. Napoleão tentara batê-los para forçar um armistício com os outros reinos, que estavam com seus exércitos mais distantes da França. Porém, isso afigurava-se difícil, já que o exército anglo-batavo-alemão contava com 93 mil homens, sob o comando de Wellington, e o prussiano tinha 117 mil homens, comandados por Blücher, velha raposa de guerra. Mesmo em desvantagem numérica, Bonaparte tinha de atacar. Dentro de um mês, o exército austríaco de 210 mil homens, outro russo de 150 mil e um outro grupo austro-italiano de 75 mil invadiriam a França a norte e a sul.
Quando iniciou a invasão, ainda não se haviam juntado ao exército prussiano as tropas inglesas, prussianas e russas. Napoleão começou por bater os prussianos estacionados à sua direita em Ligny e mandou o marechal Michel Ney com 24 mil homens, para Quatre-Bras a barrar eventual tentativa de os ingleses ajudarem os aliados. A 16 de junho de 1815, Napoleão encarou o velho Blücher. Na convicção de que os franceses correriam atrás do osso, o prussiano entrincheirou seus homens em fazendas perto de Ligny e aguardou. Ao fim da tarde, a Guarda Imperial napoleónica rebentou o centro prussiano, decidindo a batalha. Blücher procedeu ao contra-ataque com a cavalaria e os prussianos conseguiram recuar em ordem na escuridão.
No termo do embate, os prussianos sofreram 22 mil baixas, contra as 11 mil francesas. Não obstante, Blücher evitou a derrota, mas Napoleão conseguiu o objetivo: afastar os prussianos para bater os ingleses. E, para evitar que os prussianos se juntassem aos ingleses, Napoleão entregou 30 mil homens ao general Emmanuel de Grouchy para que perseguisse os prussianos.
A 17 de junho, o duque de Wellington aproveitou a chuva forte que caiu sobre a região para levar o exército a posição mais segura, o monte Saint-Jean, aonde os franceses chegaram ao fim do dia. Mesmo sob tempestade, Bonaparte foi pessoalmente verificar as condições do campo durante a noite e reconheceu ter a chance com que sonhara. Como os prussianos, acossados por Grouchy, estavam em retirada, só lhe restava ter bom desempenho contra os ingleses no dia seguinte e mostrar à Europa que a França estava viva.
Pela manhã, com tempo melhorado, Wellington dispunha de 67 mil homens (23 mil ingleses e 44 mil aliados, vindos da Bélgica, dos Países Baixos e de pequenos estados alemães), apoiados por 160 canhões. Os franceses contavam com 74 mil homens e 250 canhões. Wellington posicionou as suas tropas ao longo da elevação de Saint Jean. A ala direita concentrava-se em torno da fazenda de Hougomount. No centro, logo abaixo da colina, outra fazenda, La Haye Sainte, estava ocupada por King’s German Legion (Hanover). À esquerda, posicionavam-se tropas aliadas em torno de uma terceira fazenda, a Papelotte. Wellesley assumiu postura defensiva, em parte, porque o seu exército não era dos melhores e, em parte, porque para ele quanto mais tempo demorasse a batalha, maiores seriam as chances de o reforço prussiano chegar. A violenta tempestade noturna fez com que Napoleão, contra o que desejava, adiasse o ataque previsto para a noite de 17 de junho para o meio-dia do dia 18, a fim de aguardar que o solo secasse, já que a chuva transformara o campo de batalha num lamaçal. Por isso, iniciou o ataque contra Arthur Wellesley pelas 11 horas da manhã, quando o solo ficou mais seco, visando fazer com que o inglês desperdiçasse tropas ali, e depois atacar no centro. O ataque a Hougomount, com fogo de canhões, durou meia hora. O lugar era protegido por duas companhias inglesas, que não somavam mais de 3,5 mil homens, mas, tendo recebido o reforço de mais de 10 mil franceses, não cederam. O que fora pensado para ser um blefe tragou em todo o dia muitos dos recursos franceses. E, não caindo na armadilha, mantinha as melhores tropas no centro, perto da fazenda de La Haye Sainte.
Napoleão decidiu então que era a hora de atacar o centro da linha inglesa. Pelas 12,30 horas, o marechal Ney, seu braço direito, posicionou 74 canhões contra a estratégica fazenda. Bonaparte faria agora o que sempre comandava com eficiência: fazer explodir o centro adversário. Porém, pressentindo o perigo, Wellesley ordenou às tropas posicionadas no alto de Saint Jean que se jogassem ao chão para diminuir os danos, o que nem todos conseguiram. E as tropas belgo-neerlandesas do general Bilandt, que permaneceram na encosta desprotegida do monte, foram massacradas. Mal os canhões se calaram, foi a vez de os tambores da infantaria francesa iniciarem o seu rufar. Marchando em colunas, os 17 mil homens do corpo comandado pelo general D’ Erlon atacaram pelas 13 horas. O objetivo era conquistar a fazenda de La Haye Sainte, ponto vital do centro inglês. Outro contingente aproximava-se e pressionava a ala esquerda dos britânicos. Napoleão, declarando agora as suas verdadeiras intenções, partia para o ataque frontal. Acossadas pela infantaria francesa, as tropas inglesas perderam Papellote e deixaram vulnerável a ala esquerda. E as tropas alemãs da Legião do Rei, responsáveis pela guarda de La Haye Sainte, no centro, ameaçavam sucumbir. Então, Wellesley, na ala esquerda, ordenou que o príncipe alemão Bernhardt de Saxe-Weimar retomasse Papelotte, o que foi obtido com sucesso. Para conter o ataque da infantaria napoleónica no centro, acionou a 5.ª Brigada, veterana da guerra na Espanha. Fuziladas a curta distância, as tropas de Napoleão retrocederam, não sem antes deixarem o general Picton morto no campo com uma bala na cabeça. Ao ver o recuo dos franceses, Wellesley viu a chance de liquidar a batalha. Acionou a cavalaria num contra-ataque ao centro. As brigadas Household, Union e Vivian criaram a desordem entre os franceses, embora por pouco tempo. Junto à linha de canhões inimiga, a cavalaria inglesa foi surpreendida por contragolpe mortal. A cavalaria pesada francesa, com seus Courassiers (couraceiros), apoiados pelos Lanciers (cavalaria leve), atacou os ingleses. O general Ponsonby, chefe da brigada Union, morreu junto da sua unidade aniquilada. Napoleão continha agora os ingleses.
Pelas 15 horas, a direita de Wellesley prosseguia a luta sem resultado visível em Hougomount. Ao centro e à esquerda, os ingleses e os aliados batavos e alemães haviam mantido a custo La Haye Sainte e Papelotte. Nessa hora, entretanto, Bonaparte recebeu uma alarmante notícia: uns 40 mil homens aproximavam-se do lado direito do exército francês, nas imediações de Papelotte. A princípio, pensou tratar-se da chegada do general Emmanuel de Grouchy, que encarregara de afastar os prussianos. Logo se lhe desfizeram as esperanças – Grouchy falhara. Aquele corpo de exército era a vanguarda do exército prussiano, que chegava para socorrer o aliado inglês. Napoleão teve de improvisar. A ala direita, comandada por Lobau, realinhou-se de modo defensivo para segurar a chegada dos prussianos e dar ao imperador algumas horas para agir. Entretanto, Bonaparte ordenou ao marechal Ney que, de uma vez por todas, tomasse La Haye Sainte e rompesse o centro inglês, assegurando a vitória. Pelas 16 horas, Ney, com dois batalhões de infantaria, ordenou um ataque coordenado e capturou efetivamente La Haye Sainte. A artilharia francesa começou então a atacar os aliados a partir do centro. Mas agora Ney comete um erro fatal de avaliação. No meio da fumaça dos canhões e da loucura da batalha, supôs que o exército inglês estava a recuar. Assim, ordenou que a cavalaria partisse no encalço do inimigo. Napoleão achou o movimento precipitado, mas, já que era Ney quem encabeçava o ataque, enviou mais cavaleiros para sustentar a carga.
A carga dos Courassiers terminou de forma trágica. A infantaria inglesa não estava nada a recuar, como supusera Ney. Agruparam-se em quadrados e passaram a fuzilar os cavaleiros franceses, que não lograram romper as formações defensivas. Nas duas horas seguintes, Ney procederia, ao menos, a 12 cargas de cavalaria contra o centro inglês com mais de 5 mil cavaleiros. E, pelas 17 horas, La Haye Sainte caiu em mãos francesas, mas os ingleses ainda mantinham o seu centro coeso no alto do Mont Saint-Jean.
A cavalaria francesa lançou o assalto final e foi novamente batida. Os ingleses não estavam em melhor estado, com as suas linhas à beira da rutura. Ney, desta vez corretamente, identificou a oportunidade de vencer e pediu a Napoleão mais tropas – pedido a que Bonaparte não pode aceder. Neste momento, o Imperador viu a vitória a escapar. Mais um esforço e Wellesley teria conhecido a derrota. Nesse momento, os prussianos estavam a esmigalhar a direita do exército francês e Bonaparte teve de priorizar esse setor para ganhar mais fôlego. Talvez esperasse ver surgir, a qualquer momento, as tropas de Grouchy. Com 30 mil homens a mais, poderia ter vencido a batalha. A luta com os prussianos ia de mal a pior. Dez batalhões da Guarda Imperial, após um combate feroz contra o dobro de inimigos, haviam perdido 80% dos seus homens e começavam a recuar. Nesta circunstância, Napoleão decidiu utilizar a sua última e preciosa reserva – a sua famosa Guarda Imperial, a elite dos seus veteranos. Enviou dois batalhões contra os prussianos e, mais uma vez, eles fizeram valer a sua reputação. Quando a Guarda Imperial entrava em campo, os inimigos tremiam. Até então, ela nunca havia conhecido derrota em batalha. Os dois batalhões varreram sozinhos 14 batalhões prussianos, estabilizaram a ala direita e deram ao imperador a chance de lutar novamente contra Wellesley no centro.
Pelas 19 horas, Napoleão jogou a última cartada. Enviou contra o centro inglês os últimos 4 batalhões da Velha Guarda na tentativa de quebrar a enfraquecida artilharia de Wellington. Wellesley, neste entrementes, embora quase tenha dado o toque de retirada, foi beneficiado pela intensa pressão dos prussianos, que diminuíram o seu front e lhes livraram algumas unidades.
Nesta ocasião, Blücher (marechal de campo prussiano) apareceu com a maior parte das tropas prussianas, atingindo Napoleão no flanco, e Wellesley ordenou o avanço geral.
Em desespero, o general inglês reuniu tudo o que tinha e esperou o ataque final entrincheirado no alto de Saint Jean. Enquanto subia o monte, a Guarda Imperial foi assaltada pelas unidades inglesas, alemãs e holandesas. Foram repelidas uma a uma enquanto os veteranos de Napoleão continuavam a avançar. A 5.ª Brigada inglesa, do general Hallket, tentou pará-los, mas os seus homens fugiram assustados diante do avanço francês. Apesar de sofrer horríveis baixas e lutar na proporção de l para 3, ninguém conseguia parar a Velha Guarda. Wellesley foi salvo, não por suas tropas, mas por um general belga, que durante anos lutou ao lado de Napoleão, quando a Bélgica era um domínio francês. O general David Hendrik Chassé, à testa de 6 batalhões neerlandeses e belgas, lançou-se numa carga feroz de baioneta contra os franceses. O ataque foi demais, até mesmo para a Guarda Imperial. Sem apoio e em desvantagem numérica, pela primeira vez os veteranos de Napoleão recuaram. Logo, os gritos de La Garde recule! (a Guarda recua) ecoaram pelo campo. O centro inglês havia resistido a despeito de todos os esforços. Pelo lado direito, os 40 mil prussianos acabaram por esmagar os 20 mil franceses que lhes haviam obstruído o avanço durante horas. E, num último ato de coragem, 3 batalhões da Velha Guarda permaneceram em luta para dar ao imperador a chance de fugir. Lutariam até ao fim. Cercados por prussianos, receberam ordem de rendição. O general Pierre Cambronne teria então afirmado: A Guarda morre, mas não se rende. Noutro ponto, o marechal Ney, apelidado por Napoleão como o bravo dos bravos, ao ver tudo perdido, reuniu um grupo de soldados fiéis e empreendeu uma última carga de cavalaria, gritando: Assim morre um marechal da França!
Napoleão, agarrado por auxiliares, foi retirado à força do campo de batalha. Seria, depois, posto sob custódia inglesa e enviado à ilha de Santa Helena, colónia inglesa no Atlântico Sul, onde morreria em 1821.
A batalha custara a ingleses, belgas, neerlandeses e alemães 15 mil baixas. Os prussianos deixaram no campo 7 mil homens. Os franceses amargaram 25 mil mortos e feridos, além de 8 mil prisioneiros. Às 21 horas, Arthur Wellesley encontrou-se finalmente com Von Blücher para o aperto de mãos. A ameaça napoleónica fora definitivamente vencida.
***
A Bélgica fez jus às comemorações do bicentenário da batalha que marcou o fim das aspirações imperialistas de Bonaparte, preparando um diversificado e simbólico programa turístico com a reconstituição de momentos significativos do evento de Waterloo de que constou um desfile de vitória do duque de Wellington, acompanhado de 750 soldados aliados, de regresso pelo centro da cidade ao seu quartel-general após o triunfo sobre Napoleão.
Porém, mais do que afirmar uma vitória – já que tombaram milhares e milhares de cada um dos lados da barricada – impõe-se a reflexão sobre a transitoriedade do poder, mesmo que seja imperial e o apelo à precaução contra os desentendimentos que, mercê do progresso técnico, geram conflitos de consequências incalculáveis, a não ser a da hecatombe de proporções pandémicas. Prosit!
Referências
Duroselle, Jean-Baptiste (1990). História da Europa. Lisboa: Círculo de Leitores.
Grimberg, Carl; Svanström, Ragnar (1940). História Universal, vol. 15. Mem Martins: Publicações Europa-América.
Matoso, António G. (1966). Compêndio de História Universal – 5.º ano. Lisboa: Edições Sá da Costa.
Torres, Ferreira (s/d). História Universal, vol III. Porto: Ed ASA.
Williams, Hugh (2011). Os 50 grandes acontecimentos da História. Lisboa: Matéria Prima – Edições.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Santificado seja o Vosso Nome

Como notas prévias, há que esclarecer que os textos bíblicos tratam Deus e os seus anjos e santos utilizado as formas pronominais da 2.ª pessoa gramatical do singular e bem como as com ela relacionadas. Assim temos tu, te, ti, contigo e teu (s), tua (s). Porém, a liturgia em Português trata estas entidades utilizando a 2.ª pessoa gramatical do plural.
Por outro lado, o texto de Mateus, é primariamente dirigido a cristãos provindos do judaísmo para lhes explicar que em Jesus de Nazaré se cumpriram plenamente todas as promessas veterotestamentárias referentes ao Messias esperado. Por conseguinte, a cada passo afirma que tudo aquilo sucedeu para que se cumprissem as Escrituras ou expressão similar (vd Mt 1,22; 2,15.23; 5,17; 8,17; 12,17; 13,35). Além disso, também o texto de Mateus, na linha tradicional do judaísmo evita, por respeito, a expressão literal do nome de Deus substituindo-o por palavras equivalentes. Por exemplo, em vez da expressão Reino de Deus, Mateus diz Reino dos Céus (vd, por exemplo: Mt 5,3.10; 10,7; 13,11.24.31.33.44.47.52; 18,1.3.4; 19,13-14). E há trechos no  Evangelho de Mateus (vd Mt 5,6-7; 5,9; 7,1-2; 7,7-8) em que se indica a ação de Deus sem O nomear expressamente (elipse do sujeito lógico).
O que quer dizer santificado seja o Vosso nome?
A este propósito o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (CCIC), no seu n.º 588, ensina:
Santificar o Nome de Deus é, antes de mais, um louvor que reconhece Deus como Santo. De facto, Deus revelou o seu santo Nome a Moisés e quis que o seu povo lhe fosse consagrado como uma nação santa na qual Ele habita.

Tal ensinamento corresponde ao que o CIC já formulava no seu n.º 1858:
Ao pedirmos: “santificado seja o vosso nome”, entramos no desígnio de Deus, que é a santificação do seu nome – revelado a Moisés e depois em Jesus – por nós e em nós, bem como em todas as nações e em cada homem.

Por seu turno La Biblia Latino-america (1995, San Pablo) explica (em nota a 6,9):
Santificado sea tu nombre, es decir: Que tu nombre sea reconocido y proclamado santo! Que tu esplendor u generosidad se vean en aquellos que han passado a ser tus hijos.

Tendo iniciado a oração como o título/vocativo Pai nosso que estais nos céus, começam as invocações/petições como o Kadish judaico, santificando o nome de Deus e seguindo expressa a vontade de que a vontade de Deus e o Reino aconteçam. Com efeito, depois de termos feito a composição do lugar, colocando-nos na presença de Deus nosso Pai para O adorarmos, louvarmos amarmos e bendizermos, o Espírito filial faz brotar dos corações dos crentes sete petições, que são, ao mesmo tempo, sete bênçãos (cf CIC/Catecismo da Igreja Católica, 2803). As três primeiras, mais teologais, atraem-nos para a glória do Pai; as quatro últimas constituem como que os caminhos para Ele, expõem a nossa miséria à sua graça: Abismo atrai abismo (Sl 42/41,8). O primeiro conjunto de petições leva-nos até Ele e para Ele: o teu  nome, o teu Reino, a tua vontade! É próprio do amor pensar, antes de mais, n’ Aquele que amamos. Em cada um dos três pedidos, nós não “nos” nomeamos, mas o que nos move é o “desejo ardente”, “a ânsia” do Filho bem-amado pela glória de seu e nosso Pai: “Santificado seja [...], Venha [...], Seja feita...”. São três súplicas que já foram atendidas no sacrifício de Cristo salvador, mas estão hoje orientadas, na esperança, para o cumprimento final, enquanto Deus ainda não é tudo em todos (cf CIC, 2804).
No judaísmo, o nome de Deus é de importância extrema e a honra do seu nome é o núcleo central da piedade filial. Os nomes não são encarados como simples denominações ou rótulos, mas como reflexos verdadeiros da natureza e identidade daqueles a quem eles se referem. Assim, a oração que santificasse o nome de Deus era tida como equivalente a santificar o próprio Deus. “Santificado seja” é forma verbal na voz passiva do presente do conjuntivo com força de imperativo (no caso vertente, a formular um pedido, um desejo), não indicando quem é que está a santificar ou quem é que deve santificar. Já o grego hagiasthêto é o imperativo da voz média na 3.ª pessoa do singular (voz de que o latim não dispõe, pelo que utiliza a passiva). A voz média retira do verbo o sentido de mero sofrimento da ação, implicando algum empenhamento de alguém (provavelmente de muitos) na ação em causa – penso que, no caso vertente, serão os discípulos, os orantes. Uma interpretação é de que este segmento constituirá um apelo a todos os crentes – e um autoapelo – para se empenharem na honra do santo nome de Deus. E quem vir esta oração primariamente na perspetiva escatológica concebe-a como uma expressão de desejo pelo fim dos tempos, quando o nome de Deus será universalmente honrado (cf CIC,2804).
No Novo Testamento – após a caminhada nem sempre unívoca do povo de Israel – o nome de Deus significa o próprio Deus que Se revela aos homens. Por isso, Mateus (vd Mt 6,9) quer significar, com a expressão santificado seja o teu nome, que a sua sublimidade e perfeição infinitas sejam reconhecidas (cf Is 29,13; 48,11; Ez 36,23; 39,7; Lc 1,49). Na súplica joânica, Pai glorifica o teu nome (Jo 12,28), Jesus roga ao Pai que manifeste o seu poder e a sua majestade. E na asserção, Revelei o teu nome aos homens que me deste (Jo 17,6.26) quer dizer que Eu, o teu Filho humanado, Te fiz conhecer àqueles que Tu levaste à fé (cf Jo 1,18; 6,37.44; 8,19; 12,45; 14,7; Mt 11,27). Por conseguinte, blasfemar o nome de Deus (cf Rm2,24; Ap 16,9) ou o nome do Senhor (1Tm 6,1) ou o belo nome que foi invocado sobre nós (Tg 2,7) significa ofender, por palavras, a Deus ou ao Senhor Jesus Cristo (cf Dicionário Enciclopédico da Bíblia – Petropólis,1985, pgs 1047-1048).
O termo santificar deve, pois, ser entendido, antes de mais, não no seu sentido causativo (só Deus santifica, torna santo), mas sobretudo num sentido estimativo: reconhecer como santo, tratar de um modo santo. É assim que, na adoração, esta invocação é, por vezes, entendida como louvor e ação de graças (cf CIC, 2807). Mas esta sublime petição é-nos ensinada por Jesus na forma optativa: um pedido, um desejo e expectativa na qual Deus e o homem estão empenhados.
Desde a primeira petição ao nosso Pai, imergimos no mistério íntimo da sua divindade e no drama da salvação da nossa humanidade. Pedir-Lhe que o seu nome seja santificado é envolvermo-nos “no desígnio benevolente que Ele de antemão formou a nosso respeito” (Ef 1,9), para que “sejamos santos e imaculados diante d’Ele, no amor” (Ef 1,4).
Bíblia de Jerusalém (BJ) põe em evidência o paralelismo e a correlação temática deste versículo entre Mateus, Lucas e João e recordando Ezequiel: santificado seja o teu nome (Mt 6,9); santificado seja o teu nome (Lc 11,2); e agora Tu, ó Pai, manifesta a minha glória junto de ti, aquela glória que Eu tinha junto de ti, antes de o mundo existir (Jo 17,6); Eu dei-lhes a conhecer quem Tu és e continuarei a dar-te a conhecer, a fim de que o amor que me tiveste esteja neles e Eu esteja neles também (Jo 17,26); quero santificar o meu santo nome, que vós aviltastes, profanastes entre as nações, para que eles saibam que Eu sou o Senhor – oráculo do Senhor Deus – quando a seus olhos for santificado por vós (Ez 36,23).
Em consonância com o oráculo de Ezequiel, a Bíblia do Peregrino (BP) traduz o segmento desta reflexão como “seja respeitada a santidade, a santidade do teu nome”, e observa que: neste contexto, santificar não é dar santidade, mas reconhecê-la; já no livro dos Números, Deus censura os hebreus por eles não O terem santificado (cf Nm 27,14 – Vós transgredistes as minhas ordens no deserto de Cin, quando a assembleia se revoltou, em vez de fazerdes reconhecer a minha santidade pelas águas diante deles); também os Salmos e Isaías enaltecem a santificação do nome de Deus (Sl 99/98,3.5-6.9; Is 6,3- o triságio; 29,23- bendirão o meu nome); em Ezequiel, é profetizada a santificação do nome de Deus entre todas as nações, superando a profanação lamentavelmente ocorrida (vd Ez 36,20-23; e BP, acima referenciada); o oposto à santificação do nome de Deus é a sua profanação (fazer mau uso do nome de Deus, invocar o nome de Deus em vão – vd Ex 20,7; Dt 5,11).
Tradução Ecuménica da Bíblia (TOB) traduz o segmento em referência como “dá a conhecer a todos quem tu és”, observando que: a tradução literal seria, “que o teu nome seja santificado”; o Nome de Deus é (aliás, como já vimos) o termo bíblico tradicional para designar respeitosamente o seu “ser”, principalmente nos textos cultuais, sendo que “santificar” a Deus ou ao seu “Nome” é expressão recorrentemente utilizada na Bíblia e no judaísmo; como Deus é “Santo” por excelência, a expressão reconhece e proclama tal facto e presta glória a Deus (cf Jo 12,28).
A Bíblia e o judaísmo conhecem dois modos de santificar a Deus e o seu nome: os legistas e rabinos exortavam os fiéis a santificar a Deus pela obediência aos seus mandamentos (cf Lv 22,31-33; Nm 27,14; Dt 32,51; Is 8,13; 29,13); os profetas anunciavam que Deus vai santificar-se, manifestando-se aos olhos de todas as nações como justo Juiz e Salvador (cf Is 5,16; Ez 20,41; 28,22; 36,23; 38,16; 38,23; 39,27).
Assim como a vinda do Reino de Deus, também a santificação do nome de Deus somente pode ser assegurada pela ação do próprio Deus.
Como é santificado o Nome de Deus em nós e no mundo?
Santificar o Nome de Deus, que nos chama à santificação (1Ts 4,7), é desejar que a consagração batismal vivifique toda a nossa vida. É pedir, além disso, com a nossa vida e a nossa oração, que o Nome de Deus seja conhecido e bendito por todos os homens (cf CCIC,589).
Neste modo de santificação entra necessária e ativamente Deus e é desejável que entre o homem, a exemplo de Cristo.
Quanto a Deus, não há margem para dúvidas. Nos momentos decisivos da sua economia de Salvação, Deus revela o seu nome; mas revela-o através da realização da sua obra – obra que só se realiza, para nós e em nós, se o seu nome for santificado por nós e em nós (vd CIC, 2808). Por outro lado, a santidade de Deus é o foco inacessível do seu mistério eterno. Ao que dela se manifestou na criação e na história, a Escritura chama Glória à irradiação da sua majestade. Ao fazer o homem “à sua imagem e semelhança” (Gn 1,26), Deus “coroa-o de glória” (Sl 8,2.6), mas, ao pecar, o homem é “privado da glória de Deus” (vd CIC, 2809; Rm 1,23). Desde então, Deus vai manifestar a sua santidade revelando e dando o seu nome, para restaurar o homem “à imagem do seu Criador” (Cl 3,10).
Na promessa abraâmica e no juramento que a acompanha, Deus compromete-Se a Si mesmo sem revelar o seu nome. Foi, depois, a Moisés que o Senhor começou a revelá-Lo e manifestou-O à vista de todo o povo salvando-o do Egito: revestiu-Se de glória (Ex 15,1). A partir da Aliança sinaítica, este povo é seu e deve ser uma nação santa – ou consagrada: em hebreu, santo e consagrado dizem-se da mesma forma (vd CIC, 2810) – porque nela habita o nome de Deus.
Contudo, apesar da Lei santa que o Deus santo lhe deu e tornou a dar e embora o Senhor, por respeito pelo seu nome, usasse de paciência, o povo desviou-se do Santo de Israel e profanou o seu nome entre as nações (cf CIC 2811). Ao invés, os justos da Antiga Aliança, os pobres retornados do exílio e os profetas arderam de paixão pelo Nome, o que hoje é pedido a todos.
É, porém, em Jesus que o nome do Deus santo nos é revelado e dado, na carne, como salvador (cf CIC 2812): revelado pelo que Ele é, pela sua Palavra e pelo seu sacrifício. É o coração da sua oração sacerdotal: Pai santo, [...] por eles Eu me consagro para que também eles sejam consagrados na verdade (Jo 17,19). Porque Ele próprio santifica o seu nome, é que Jesus nos manifesta o nome do Pai. No termo da sua Páscoa é que o Pai Lhe dá então o nome que está acima de todo o nome: Jesus é Senhor para glória de Deus Pai (Fl 2,10).
Quanto a nós, cumpre-nos uma atitude permanente de ativa resposta à iniciativa do Pai, tornada mais próxima de nós e mais acessível por obra do Filho e animada pelo Espírito.
Assim, nós, que, na e pela água do Batismo, fomos purificados, santificados, justificados pelo nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito do nosso Deus (1Cor 6,11), sabemos que em toda a nossa vida, o Pai nos chama à santidade (1Ts 4,7) e, dado que é por Ele que estamos em Cristo, que Se tornou para nós [...] santidade (1Cor 1,30), interessa à sua glória e à nossa vida que o seu nome seja santificado em nós e por nós. Tal é a urgência da nossa primeira petição (cf CIC 2813).
Em todo o caso, uma questão se pode levantar: Por quem poderia Deus ser santificado se é Ele próprio quem santifica? Ora, porque Ele mesmo disse “sede santos, porque Eu sou santo” (Lv 14,44), nós que fomos santificados no Batismo, pedimos e rogamos para perseverar no que já começámos a ser. E pedimo-lo todos os dias. Precisamos de uma santificação quotidiana para que, incorrendo em faltas todos os dias, todos os dias sejamos delas purificados por uma santificação assídua [...] Portanto, oramos para que esta santificação permaneça em nós.
Depende inseparavelmente da nossa vida e da nossa oração que o seu nome seja santificado entre as nações:
Pedimos a Deus que o seu nome seja santificado, porque é pela santidade que Ele salva e santifica toda a criação. [...] Este é o nome que dá a salvação ao mundo perdido. Mas nós pedimos que este nome de Deus seja santificado em nós pela nossa atuação. Porque se nós agirmos bem, o nome de Deus é bendito; mas é blasfemado se agirmos mal. Escuta o que diz o Apóstolo: O nome de Deus é blasfemado entre as nações, por causa de vós (Rm 2,24).
Nós, portanto, pedimos para merecermos ter tanta santidade nos nossos costumes quanto é santo o nome de Deus (cf CIC 2814).
Quando dizemos, Santificado seja o vosso nome, pedimos que ele seja santificado em nós que estamos n’Ele, mas também nos outros, por quem a graça de Deus ainda está à espera, para nos conformarmos com o preceito que nos obriga a orar por todos, mesmo pelos nossos inimigos (cf Mt 5,44). É por isso que nós não dizemos expressamente: santificado seja o vosso nome “em nós”, porque pedimos que o seja em todos os homens. Esta petição, que as inclui todas, é atendida pela oração de Cristo, como as restantes seis petições que se seguem (cf CIC 2815). A oração que fazemos ao Pai é nossa, se for rezada em nome de Jesus e com o seu espírito. Na sua oração sacerdotal, Jesus pede: Pai santo, guarda em teu nome aqueles que Me deste (Jo 17,11).

Enfim, santificar o Nome de Deus postula que O glorifiquemos não só dentro dos muros das igrejas nas orações comuns ou apenas em nossa casa (silenciando-O e afastando-nos de tudo o que tem a ver com o mundo), mas: pronunciando-O, cantando-Lhe os nossos cânticos e dando-O a conhecer; contando com Ele, quando estão em causa assuntos do mundo; manifestando que o Nome de Deus é mais importante, para nós, do que todos os nomes dos poderosos por quem sentimos muito respeito e admiração; dando-O a conhecer entre as nações, pois quando o Nome de Deus é santificado, também o nosso é santificado com Ele; e chamando os outros pelo seu nome, tanto os que estão perto como os que estão longe, não precisando de humilhar o nome do outro receando que o nosso seja esquecido, mas tendo confiadamente em conta a palavra do Senhor, dirigida a cada um: “Não tenhas medo... chamei-te pelo teu nome: tu és meu (Is 43,1).

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Militares na reserva a fazer vigilância nas escolas

O conselho de Ministros do passado dia 11 de junho aprovou a alteração do diploma que estabelece as normas sobre o recrutamento para as equipas de zona de vigilância nas escolas, alargando a base de recrutamento de chefes e elementos das equipas de zona de vigilância das escolas a militares das forças armadas na reserva. Tal alteração tem incidência sobretudo nos artigos 6.º e 7.º do Decreto-Lei n.º 117/2009, de 18 de maio.
Nestes termos e de acordo com a explicação fornecida pelo Ministério da Educação e Ciência (MEC), os militares das Forças Armadas na reserva vão fazer vigilância dentro das escolas, designadamente nos recreios, com missões como impedir agressões entre elementos da comunidade escolar, bem como nas zonas de acesso aos estabelecimentos escolares e junto às imediações das suas vedações.
O objetivo é a facilitação na contratação de elementos para o desempenho das funções de chefes equipas de zona e de vigilantes para integrarem as equipas de vigilância e permitir a renovação das comissões de serviço, por forma a assegurar a continuidade da atividade de vigilância nas escolas.
Os militares na reserva vão fazer – como já o faziam os vigilantes até agora recrutados, exclusivamente, de entre os aposentados e reservistas fora da efetividade de serviço, ou equiparados, das forças de segurança ou dos órgãos de polícia criminal – a segurança escolar no interior das escolas e terão funções complementares ao trabalho que é atualmente desenvolvido pela PSP. Assim, não se substituem aos elementos do Programa Escola Segura, vindo, antes, complementar o trabalho de outrem.
Os vigilantes serão colocados, segundo o MEC, nos estabelecimentos escolares que, “devido à sua localização, população, dimensão e problemáticas associadas, necessitem dos mesmos para garantir a tranquilidade da comunidade escolar”.
As principais missões serão, a título exemplificativo: zelar pelo cumprimento dos regulamentos das escolas, “requerendo o auxílio de forças de segurança, sempre que for justificado”; sensibilizar os alunos para a conservação e gestão dos equipamentos das escolas; “impedir a prática de qualquer tipo de agressão, verbal ou física, entre os membros da comunidade escolar”; e “fiscalizar e informar do estado de conservação das infraestruturas e equipamentos da escola, sempre que verifique que o mesmo se encontra deteriorado, danificado ou a funcionar defeituosamente”.
O MEC sublinha que as escolas poderão contar com os militares para “defender os direitos das crianças e jovens da escola onde prestam serviço, protegendo-as de qualquer forma de abuso” e para detetar ilegalidades e infrações às regras da escola.
Fonte do Ministério da Defesa Nacional explicou tratar-se de uma alteração ao diploma que estabelece as normas de recrutamento e alarga as bases desse recrutamento a elementos das Forças Armadas que se encontrem na reserva, portanto, fora da efetividade de serviço.
Segundo as palavras do MEC, as comissões de serviço podem ser renovadas “até ao limite de duas vezes”.
Até agora estas funções estavam reservadas, como se referiu, exclusivamente a “aposentados e reservistas fora da efetividade de serviço, ou equiparados, das forças de segurança ou dos órgãos de polícia criminal”, segundo o n.º 1 do art.º 7.º do mencionado diploma legal, que enquadra o funcionamento das equipas de vigilância nas escolas.
As comissões de serviço, com a duração de três anos, renováveis até agora por uma única vez, passam a ser renováveis por duas vezes.
De acordo com o estabelecido legalmente, “aos chefes de equipa de zona e aos vigilantes é mantida a respetiva pensão ou remuneração na reserva, sendo-lhes abonada uma terça parte da remuneração que compete às respetivas funções”.
***
Porém, a solução não é consensual. A Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP) criticou, logo no dia 16, a presença de militares na reserva na vigilância das escolas, considerando que o Governo devia reforçar o Programa Escola Segura, com investimento em meios materiais e humanos. Por isso, na sua perspetiva sindical, o recurso aos militares para garantia da segurança pública é um caminho grave que tem de ser combatido sob pena de se cair num retrocesso de décadas nesta matéria.
Em seu comunicado, a ASPP refere, contra a gravidade da banalização do recurso aos militares para garantia da segurança pública, que, “se o Governo pretende mais e melhor patrulhamento junto das escolas, deve investir em meios materiais e humanos, coisa que não fez, abandonando projetos como o do policiamento de proximidade”.
Assim, a ASPP defende que o projeto Escola Segura, desenvolvido pela PSP e GNR, deve ser reforçado com recurso a profissionais preparados e “não com homens e mulheres atirados para uma função para a qual não têm competência nem motivação”. Por outro lado, esta associação sindical considera que a vigilância das escolas é uma competência das forças de segurança, sublinhando que a separação entre defesa e segurança interna tem de “ser efetiva e clara”, mas o Governo, “de tempos a tempos, tem tendência a confundir os dois conceitos”. E acrescenta:
“As limitações às funções das Forças Armadas, instituição que merece o maior respeito e admiração, estão bem explícitas na Constituição da República e no próprio estatuto dos militares das Forças Armadas, que restringe a sua ação no campo da segurança interna”.
Com efeito, em relação às forças armadas, a quem incumbe a defesa militar da República (vd CRP, art.º 275.º/1.), o n.º 6 do art.º 275.º da CRP estabelece, naquilo que parece mais próximo da segurança interna:
“As Forças Armadas podem ser incumbidas, nos termos da lei, de colaborar em missões de proteção civil, em tarefas relacionadas com a satisfação de necessidades básicas e a melhoria da qualidade de vida das populações, e em ações de cooperação técnico-militar no âmbito da política nacional de cooperação”.
Por seu turno, o PCP – no que é acompanhado pela ANS (Associação Nacional de Sargentos),que não foi tida nem achada na matéria, sem qualquer explicação – alertou já esta semana para a eventual inconstitucionalidade da decisão governamental, não tanto no aspeto material, mas do ponto de vista formal, já que se trata de uma decisão governamental sem anúncio prévio e sem explicações justificativas.
Parece que, embora as forças armadas possam ter a incumbência de colaboração em missões de proteção civil atinentes às necessidades básicas e melhoria da qualidade de vida, a decisão deve revestir a forma de lei e fundamentar-se na manifesta e insolúvel insuficiência das forças de segurança por um curto lapso de tempo, não podendo nunca exercer funções de polícia nem a situação ser passível de renovações automáticas. Depois, os militares reservistas não perdem as condições de tratamento em razão do seu posto, sendo que, nestas condições, não podem estar sujeitos a comando da parte de inferiores hierárquicos. Por outro lado, no apoio à escola e no desempenho das missões específicas, eles não dispõem de meios dissuasores nem de enquadramento orgânico ou mesmo de fardamento. Ademais, cria-se o ambiente propício à rarefação de meios humanos com aptidão para a vigilância e a segurança escolares e paraescolares.
Todavia, o Presidente da ANDAEP (Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas) não discorda da ideia, desde que “obedeça a regras estritas”, exigindo que não façam parte do rácio de funcionários e que tenham formação prévia para trabalhar com crianças.
É óbvio, do meu ponto de vista, que o diploma legal garante que os militares reservistas não integrarão o rácio de funcionários nas escolas nem se substituirão aos elementos do Programa Escola Segura. No entanto, a prática mostra que, muitas vezes, os extra são obstáculo duradouro à reposição dos quadros. Quanto à necessidade da formação, penso que sim, mas torna-se complicado fornecer formação pedagógica a pessoas já fortemente desgastadas pelo exercício de profissão de risco e de entrega total.
E a propósito, porque é que a ANDAEP não fez as mesmas exigências de não integração do rácio e de formação no caso dos chefes de equipa de zona e dos vigilantes até ao presente recrutados, exclusivamente, de entre aposentados e reservistas fora da efetividade de serviço, ou equiparados, das forças de segurança ou órgãos de polícia criminal, nos termos do DL n.º 117/2009, de 18 de maio?
O Presidente da ANDE (Associação Nacional de Dirigentes de Escola) mostrou-se complacente na convicção de que a alteração do diploma em causa apenas estende o recrutamento a militares reservistas. Parece minimizar a questão do rácio e a da formação.
Quanto ao presidente da ANS, lamento discordar da sua posição. Não aceita que o Governo possa determinar o recrutamento de militares para o efeito, mas concorda que eles possam requerer esse tipo de ocupação por necessidade de aumentar o seu rendimento.

Quanto a este aspeto, embora o problema do rendimento tenha de ser equacionado, mas não por esta via (se os efetivos são necessários, tem de se aumentar o número de funcionários e os elementos do Programa Escola Segura e não atamancar o problema), a bondade ou maldade do diploma legal não depende do facto de a iniciativa caber ao Governo ou ao potencial requerente reservista. A confusão entre segurança e defesa manter-se-ia, não?!