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sábado, 5 de maio de 2018

Consagração por meio dos Conselhos evangélicos


O Papa Francisco recebeu, na manhã do dia 4 deste mês, na Sala Paulo VI, no Vaticano, cerca de 700 participantes no encontro internacional promovido pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e que está a decorrer em Roma, na Pontifícia Universidade Antonianum, de 3 a 6 em torno do tema “Consagração por meio dos Conselhos evangélicos”.
Segundo o Vatican News, o Pontífice falou espontaneamente aos consagrados e consagradas, indicando critérios autênticos para discernir o que está acontecendo e “não se perder neste mundo, no nevoeiro da mundanidade, nas provocações e no espírito de guerra”. Para tanto, é de realçar que a vida de Consagração se deve fundamentar na oração, pobreza e paciência.
“A oração é voltar sempre ao primeiro chamamento”, lembrou Francisco, acrescentando que “toda a oração é voltar a isso, ao sorriso dos primeiros passos”. E sublinhou que “a oração na vida consagrada é o ar que nos faz respirar o chamamento, renovar o chamamento”. Sem este ar não poderá haver bons consagrados. Serão talvez “pessoas boas, bons cristãos, bons católicos que trabalham em muitas obras da Igreja, mas a consagração deve ser renovada continuamente ali, na oração, no encontro com o Senhor”.
Depois, referiu que a pobreza voluntária “é a mãe, o muro de contenção da vida consagrada” que “defende do espírito mundano”.
Nas palavras do Papa, o espírito de pobreza não é negociável, porque impede o risco de passar da “consagração religiosa” à “mundanidade religiosa” em três degraus: o da valorização do dinheiro, a vaidade e o orgulho.
O dinheiro resulta da falta de pobreza e o apego a ele contraria a disponibilidade para a partilha e para a solidariedade. A vaidade, que parte do extremo de ser um pavão, vai até aos pequenos detalhes. A soberba, o orgulho, acaba por ser a geratriz de todos os vícios. Mas o Santo Padre considera o primeiro degrau da degradação humana “o apego às riquezas, o apego ao dinheiro”, que leva à acumulação, à avareza, à ganância e ao desprezo pelos bens espirituais.
No atinente à paciência, Francisco enalteceu “aquela que Jesus teve para chegar ao fim de sua vida”. E fez a aplicação aos religiosos e religiosas sustentando que “sem paciência, se compreendem as guerras internas de uma congregação”, os “carreirismos nos capítulos gerais” e “algumas decisões tomadas diante de problemas da vida comunitária como a perda das vocações”, sem haver força anímica para prosseguir na busca. E discorreu:
Falta paciência e não vêm as vocações? Vendemos e apegamos-nos ao dinheiro por qualquer coisa que possa acontecer no futuro. Esse é um sinal, um sinal de que se está perto da morte: quando uma congregação começa a apegar-se ao dinheiro. Não tem paciência e cai na falta de pobreza.”.
Em suma, para o Papa, a “oração, pobreza e paciência” são “opções radicais” que os consagrados devem seguir na vida pessoal e comunitária.
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Mas o Papa ilustrou a sua alocução com tiradas de episódica profundidade, por exemplo, quando falou do Espírito Santo que rotulou de uma “calamidade, porque nunca se cansa de ser criativo”. E, designando-o como “autor da diversidade e ao mesmo tempo Criador de unidade, sustentou que “Ele faz a unidade do Corpo de Cristo, a unidade da consagração”, o que representa um enorme “desafio”. Mais é o Espírito Santo que dita os três critérios autênticos em função do discernimento e em prol da solidez da vida consagrada. São seus verdadeiros pilares a oração, a pobreza e a paciência – já referidas.
A oração na vida consagrada é o ar que faz respirar e renovar a vocação no ambiente de encontro com o Senhor. E o Papa evocou o exemplo de Madre Teresa de Calcutá que, não obstante o trabalho de todos os dias, permanecia duas horas diárias em oração, diante do Santíssimo Sacramento. E reiterou que “o tempo para a oração deve ser encontrado”, pois “não é possível viver a vida consagrada e discernir o que está acontecendo sem conversar com o Senhor” rosto a rosto.
Para falar da pobreza evangélica, mencionou Santo Inácio de Loyola que dizia que a pobreza “é a mãe, o muro de contenção da vida consagrada” e “defende do espírito mundano”. Assim, o espírito de pobreza não é negociável, pois corre-se o risco de passar da “consagração religiosa” à “mundanidade religiosa”.
No concernente à paciência, como se disse, Francisco apontou para “aquela que Jesus teve para chegar ao fim de sua vida”, a condição em que, depois da última ceia, vai ao Horto das Oliveiras para encontrar fôlego e forças para fazer a vontade do Pai e não a sua.
Entretanto, disse o Pontífice que é preciso evitar a “ars bene moriendi” das instituições. E, para clarificar esta advertência, aduziu o exemplo de duas províncias masculinas de duas congregações diferentes que, num país “secularizado”, encerraram a admissão ao noviciado, condenando o futuro da congregação naquele período. Foi a “arte de morrer bem”. A vocação, por falta de capacidade de espera e paciência, teve um sucedâneo: a venda de bens e o apego ao dinheiro, afastando a insegurança futura, dando utilidade humana àquilo que já não presta, mas perdendo a mística do impossível aos olhos dos homens e possível aos olhos de Deus.
Por fim, o Pontífice exortou a que ficassem atentos “à oração, pobreza e paciência” e convidou os consagrados a seguirem essas “opções radicais” na vida pessoal e comunitária e a apostar nelas, explicitando mesmo o desejo que que eles e elas continuem a estudar e a ser fecundos na vida religiosa. E advertiu:
Nunca se sabe por onde anda a minha fecundidade, mas se você reza, é pobre e paciente, tenha certeza de que será fecundo. Como? O Senhor lhe mostrará. É a receita para a fecundidade. Você será pai, será mãe. É o que eu desejo para a vida religiosa: ser fecunda.”.
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O que são consagrados e consagradas? Antes de mais, é preciso deixar claro que todos aqueles e aquelas que receberam o Batismo têm a consagração ao Pai, em Cristo, pelo Espírito Santo. Somos efetivamente consagrado na verdade como discípulos de Cristo, membros do Povo de Deus – a Igreja. É pelo Batismo que participamos no tríplice múnus de Cristo: se aprendemos como discípulos, também, como apóstolos, temos o dever e o direito de ensinar segundo a nossa condição e circunstâncias (múnus profético); se somos santificados pela oração à luz da Palavra de Deus, pelos sacramentos e pelos sacramentais, também santificamos rezando, levando os outros a participar nos sacramentos e vivendo a vida da comunhão dos santos (múnus sacerdotal); e, se beneficiamos da caridade de Cristo, fiéis à Sua Paixão e testemunhas da Ressurreição termos de apostar na sinodalidade da Igreja que nos faz caminhar com os demais e partilhar alegrias, preocupações, trabalho, bens e capital (múnus odegético, pastoral ou régio). É óbvio que esta consagração batismal, que imprime caráter sacramental, não obsta a que individualmente ou comunitariamente se faça o ato de consagração devocional, dedicação ou entrega especial a Cristo ou à Virgem Maria – invocando proteção ou fazendo um propósito concreto duma faceta da vida ou da ação.    
Porém, outros são chamados a um outro ser e ao desempenho de missão específica. Os diáconos são consagrados no sacramento da Ordem para o serviço específico da Palavra, o serviço de ajuda ao altar e o zelo pela prática da caridade da Igreja na justiça. Os presbíteros ou padres são escolhidos para a promoção e desenvolvimento do sacerdócio comum dos batizados e como ministros da Eucaristia da Reconciliação, da Penitência e da Santa Unção. São eles, consagrados pelo sacramento da Ordem num grau maior que os diáconos, verdadeiros participantes no sacerdócio de Cristo e os principais testas e ministros da misericórdia e do perdão de Deus. E os Bispos, recrutados entre os presbíteros e consagrados pelo sacramento da Ordem são os ministros da Ordem e ministros ordinários da Confirmação ou Crisma, promotores da unidade e os “profissionais” da caridade. Investidos na plenitude da participação do sacerdócio de Cristo, são os primeiros e proeminentes ministros da Palavra e promotores da pregação evangélica, aqueles em cujo nome se celebra a Eucaristia e os ministros do sacramento da Ordem e, igualmente, os grandes promotores da sinodalidade da Igreja – tanto assim é que Santo Inácio de Antioquia dizia que “onde está o Bispo, aí está a Igreja” (Ubi Episcopus, ibi Ecclesia ou Που ’Επίσκοπος, εκει ’Εκκλησία). Assim, o sacramento da Ordem (imprime caráter) é verdadeira consagração na verdade e ministério, suportada pela consagração batismal e reforçada pela consagração crismal, a da abundância do Espírito Santo com a plenitude dos seus dons.
Todavia, quando se fala em consagrados e consagradas, a referência comum é aos religiosos (padres ou não) e às religiosas que se entregam totalmente a Deus na profissão dos conselhos ou valores evangélicos: pobreza voluntária, obediência inteira e castidade perpétua. São religiosos e religiosas aqueles e aquelas que se consagram pelos votos para viverem unidos a Cristo de coração indiviso, podendo, conforme o carisma do respetivo instituto religioso (ordem ou congregação), dedicar-se à vida contemplativa ou à vida ativa ou uma mescla das duas modalidades e vivendo na comunidade do mosteiro ou numa comunidade mais pequena adequada ao teor de vida a que se entregam, com a nota comum de um certo distanciamento do mundo e de seus negócios.
Há ainda aqueles homens e mulheres que, vinculados pelos votos simples partilhando assim do essencial da vida religiosa, vivem, apesar de tudo, no meio do mundo, preferencialmente exercendo uma profissão, e entregues ao seu contexto laboral e negocial dando testemunho do Evangelho e tentando imbuir o mundo do espírito e do fervor evangélicos. Podem viver isolados, em família ou em pequenas comunidades, mas sem qualquer distintivo exterior. São os ditos institutos seculares. É a consagração no mundo e pelo mundo!
É destes (religiosos/as ou membros de institutos seculares) que se fala, stricto sensu, em consagrados e consagradas e foi a eles que o Papa dirigiu o discurso na Sala Paulo VI, a 4 de maio.
E para estes e estas que se imploram vocações. Não pertencem stricto sensu e per se à hierarquia da Igreja, mas dotam-na duma profundidade e dum cariz extremamente colado ao seguimento de Jesus, obediente, pobre e casto – entregue pela vida do mundo!  
2018.05.05 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 21 de março de 2018

Jesus: a Entrada Triunfal na Cidade e a Paixão e Morte na cruz


No Domingo de Ramos na Paixão do Senhor (VI domingo da Quaresma), inicia-se a Semana Santa ou Semana Maior (como lhe chama a Igreja do oriente). E tem estas designações não pela índole em si santa de cada um dos dias nem por ser cronologicamente mais longa que as demais, mas porque nela celebramos os acontecimentos santos e maiores da nossa fé, a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Nela celebramos a identidade e o essencial da vida cristã. Sendo assim, somos convidados a fazer memória do Mistério Pascal concentrando-nos no essencial.
O título que se atribui à celebração deste VI Domingo da Quaresma de Domingo de Ramos na Paixão do Senhor indica os dois acontecimentos que celebramos neste dia: a entrada triunfal de Jesus de Nazaré; e a Paixão e Morte de Jesus na cruz. A celebração começa com uma procissão, mais ou menos solene, que faz memória da entrada de Jesus em Jerusalém. Com a procissão, que já no século IV se fazia em Jerusalém, comemora-se a entrada de Jesus em Jerusalém, como Messias e Servo, para aí realizar a entrega pascal para a salvação da humanidade. É a entrada triunfal, mas modesta e humilde do Rei e Messias que os profetas anunciaram, que não vem para dominar, mas para servir e dar a vida em resgate pela humanidade.
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A procissão com a bênção dos ramos e leitura de perícopa evangélica
No caso de se proceder à bênção dos ramos antes da procissão, proclama-se uma passagem do Evangelho, no Ano B, como este, de Marcos (Mc 11,1-10) ou de João (Jo 12,12-16).
A narração da entrada de Jesus em Jerusalém reflete um acontecimento real, mas a forma como vem apresentada liga-a a textos do Antigo Testamento e, em especial, à profecia de Zacarias, para quem a aparição de Deus se daria sobre o Monte das Oliveiras. Mas a imagem do Messias que apresenta é fora do comum:
Exulta, filha de Sião, rejubila, filha de Jerusalém! Eis que vem o teu rei. Ele é justo vitorioso, humilde, cavalga um jumento, filho de jumenta. Fará desaparecer os carros de Efraim e os cavalos de Jerusalém, o arco de guerra será quebrado, anunciará a paz às gentes. (Zc 9,9-10).
Não é, pois, de admirar que esta entrada messiânica não perturbasse as autoridades, tendo em conta o modo humilde como se apresenta. Até o animal em que vem montado não lhe pertence: é emprestado. Porém, apesar da atitude pacífica e humilde, Jesus não renuncia à dignidade messiânica. O evangelista anota-o com as exclamações da multidão: “Bendito o reino que vem, o reino do nosso pai David!”. E é este tom de aclamação que faz espevitar na cabeça dos inimigos a ideia-força de ir incutindo nas multidões o intento de as levar a pedir a crucifixão. Esta entrada é triunfo, que é prelúdio de martírio. A comunidade cristã, cantando ao Messias e agitando palmas, professa a fé na Cruz e Morte de Cristo como sendo definitivamente a vitória.
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A Missa com a proclamação da Paixão do Senhor
Outra grande característica deste domingo é a proclamação solene do Evangelho da Paixão segundo São Marcos (Mc 14,1-15,47), fazendo memória da Paixão e Morte de Jesus na cruz. Alguns consideram os evangelhos a narração da Paixão de Cristo com uma larga introdução. Na verdade, a narração dos últimos dias da vida terrena de Cristo e a ressurreição constituíam o primitivo evangelho da Igreja sobre o qual se modelaram depois os 4 evangelhos canónicos.
O Relato da Paixão de Jesus apresenta-se-nos com a sua fraqueza e a sua força.
A fraqueza reside em o relato ter pouco de próprio, pois são vários os elementos que foi buscar às narrativas do Antigo Testamento. Prova disto é a insistência do evangelista Marcos em mostrar que os eventos da Paixão se relacionam com o cumprimento das Escrituras (cf Mc 14,49;15,28), quer pelas citações de passagens do Antigo Testamento quer pelas reminiscências veterotestamentárias. Na verdade, podemos encontrar no relato da Paixão ecos do salmo 22 [21] e da misteriosa personagem que a 1.ª leitura (Is 50,4-7) nos apresenta. De facto, a figura do Servo do Senhor que, apesar do sofrimento e da dor, confia em Deus e cumpre a missão de anunciar a Palavra de Deus, será uma das chaves de leitura da comunidade primitiva para interpretar a vida e missão de Jesus. Recorrendo às passagens veterotestamentárias, os evangelistas demonstram que a Paixão e Morte de Jesus fazem parte do projeto de Deus.
Não obstante, o relato da Paixão apresenta-se com toda a sua força. Com efeito, o mistério pascal é um mistério que nos implica, atravessa e explica. Na Paixão, o homem vê como num espelho o que é capaz de fazer, descobre o seu pecado e os efeitos do seu pecado, vê o doentio gosto da morte que invade o coração. Mas o relato da paixão e morte de Cristo não revela só a verdade do homem. Na cruz de Cristo encontramos a revelação máxima do amor de Deus, amor capaz de acolher o nosso pecado subvertendo-o e levando-nos a sair do círculo de violência em que nos encontramos e a convertermo-nos. Se a cruz revela as nossas violências, também ela é o remédio para a nossa mortal enfermidade, pois “Assim como Moisés ergueu a serpente no deserto, assim também é necessário que o Filho do Homem seja erguido ao alto, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15). A Cruz é a história do Amor trinitário pelo mundo, é a história das entregas de Deus: entrega que o Filho faz de si mesmo ao Pai; entrega que o Pai faz do Filho à morte por causa de nós e da nossa salvação; e entrega do Espírito por Jesus ao Pai. É este amor que se entrega, se dá – e que é capaz de perdoar, de quebrar o círculo de violência e capaz de reabilitar – que é o remédio que se nos oferece.
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A “Confissão” do Servo Sofrente
O texto de Isaías, assumido como 1.ª leitura (Is 50,4-7), faz parte do 3.º poema do “Servo de Javé”. Após começos esperançosos (v. 42) e após as primeiras dificuldades (v. 49), chegou a hora da perseguição. O Servo confessa a fidelidade ativa à Palavra do Senhor, que escuta para poder confortar os companheiros desalentados. Pela docilidade à ordem divina, o Servo passou a sofrer humilhações e maus tratos das autoridades pagãs ou pactuantes com o dominador pagão. Porém, mantém-se firme na sua tarefa e confia que o Senhor fará justiça. Figura misteriosa, a deste Servo, pois falta-nos a sua referência histórica. A leitura cristã não hesita: ele é a figura antecipada de Jesus, o Servo do Senhor anunciado. De facto, a figura do Servo sofrente é a referência mais direta ao perfil que Jesus mostra na sua Paixão.
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“Hino” a Cristo, Servo de Deus, o verdadeiro Messias
Os crentes da era apostólica cantavam assim a fé no Mistério Pascal do Salvador, na Liturgia batismal ou/e eucarística. Com este hino, que é assumido como 2.ª leitura (Fl 2,6-11), Paulo alerta os cristãos contra o vedetismo, vanglória e rivalidade que punham em perigo a união da Comunidade. Temos o contraste entre a “forma de Deus”, que se refere à divindade de Cristo, e a “forma de servo” que se refere à sua humanidade concreta. A 1.ª parte do Hino descreve o abaixamento de Cristo até ao último grau da condição de “escravo” (a cruz era o suplício dos escravos!) O sujeito gramatical dos verbos é Cristo: Ele é que escolheu deliberadamente o destino do Servo! A 2.ª parte descreve a sua exaltação progressiva, até à proclamação do seu senhorio universal. Aqui, é Deus o sujeito gramatical dos verbos das orações subordinantes: Ele é que exalta o Seu Cristo que se humilhou. Cristo, longe de reivindicar a glória a que tinha direito como Deus, renunciou deliberadamente a ela. Aniquilou-se (literalmente, “esvaziou-se”): não renunciou à Sua Natureza divina (o que não podia fazer), mas não quis usar dos privilégios que essa Natureza valeria à sua Humanidade. Escolheu privar-se deles, para os receber do Pai, como fruto da Sua obediência pascal. Assim, a humildade de Jesus é o melhor apelo aos fiéis para viverem integralmente o Mistério pascal do seu Senhor, até porque toda a língua proclama o nome excelso de Jesus.
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O ato de fé: “Este Homem era Filho de Deus!”
No seu relato da Paixão, Marcos tem a preocupação de afirmar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, que por amor vem ao nosso encontro, assume os nossos limites e fragilidades, conhece a mordedura da tentação, vê-se esmagado, atraiçoado, abandonado, incompreendido.
Este relato da Paixão por Marcos evidencia alguns aspetos importantes: Jesus continua manso e humilde, consciente da sua missão, aceitando a vontade do Pai a quem se dirige carinhosamente “Abba!”. É a resposta expressa à declaração que o Pai fez após a sua humilhação no Batismo por João: “Tu és o meu Filho muito amado!” (Mc 1,11). Além disso, a sua humanidade aparece expressa no medo da morte e na angústia ante o que está para suceder, incluindo o facto do abandono por todos. Jesus sente-se um homem sozinho. Similares mansidão e humildade expressam-se no silêncio ante as autoridades em relação à messianidade. Entretanto, é ele mesmo quem oferece o motivo da acusação. Quando o sumo-sacerdote Lhe pergunta se Ele era “o Messias, o Filho de Deus bendito” (Mc 14,61b), Jesus respondeu claramente: “Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-poderoso e vir sobre as nuvens do céu” (Mc 14,62). A expressão “Eu sou” traduz o nome de Deus YHWH (“eu sou aquele que sou” – Ex 3,14). É a afirmação clara da divindade de Jesus. A referência ao “sentar-se à direita do Todo-poderoso” e ao “vir sobre as nuvens” esclarece essa dignidade divina, pois Ele aparecerá um dia no lugar de Deus, como juiz soberano da humanidade inteira. Por isso, o sumo-sacerdote indignou-se, rasgou as vestes e proclamou Jesus como blasfemo. E o relato culmina com a declaração do centurião que soa a profissão de fé: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!”.
Finalmente, após o início do Evangelho de Jesus Cristo Filho de Deus, surge na boca dum homem a real afirmação acerca da pessoa de Jesus, que só pode ser entendida em toda a sua profundidade à luz da Cruz.
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Aspetos de detalhe
Geralmente, ao lermos ou escutarmos a história da Paixão e Morte, nós olhamos para Jesus e o sofrimento que lhe infligiram. Mas vale a pena olhar também para os discípulos e ver como reagiram perante a cruz e como a cruz teve repercussões nas suas vidas, porque a cruz passou a ser a medida de comparação.
Vejamos alguns aspetos de detalhe: a conspiração contra Jesus; a discípula fiel; a atitude os discípulos ante a cruz; Judas decide a traição, a preparação da ceia pascal; o anúncio da traição; a eucaristia, celebração da ceia pascal; a predição da fuga de todos, o anúncio da negação de Pedro; a atitude dos discípulos no Jardim das Oliveiras; a atitude dos discípulos face à prisão de Jesus; o processo (diversas ideias sobre o Messias); a negação de Pedro; a condenação de Jesus pelo poder romano; diante da cruz de Jesus para e no Calvário; Simão de Cirene leva a cruz; a crucifixão; a morte de Jesus; a sepultura de Jesus.
Os detentores do poder religioso não permitem que um carpinteiro galileu provoque desordens. A morte de Jesus fora decidida por eles. Era, pois, um homem condenado. Cumpre-se o que Ele anunciara aos discípulos: ‘O Filho do Homem vai ser entregue e morto’. A história da Paixão indicará que o discípulo que aceita seguir Jesus – o Messias Servo – e fazer da vida serviço aos irmãos deve carregar a cruz e ir atrás de Jesus. A narrativa da Paixão, ao acentuar a derrota e fracasso dos discípulos, não visa desencorajar-nos, mas realçar que o acolhimento e o amor de Jesus superam o fracasso dos discípulos. (vd 14,1-2).
Quando uma mulher unge Jesus com um perfume bastante caro, os discípulos criticam-na pelo desperdício. Porém, Jesus defende-a: “Porque a importunais? Ela fez uma boa ação para comigo. Ungiu de antemão o meu corpo para a sepultura”. Efetivamente, quem morria na cruz não tinha direito a sepultura nem a embalsamento. E a mulher, ungindo o corpo de Jesus antes da condenação e crucifixão, mostra aceitar Jesus como Messias Servo que morrerá na cruz – gesto que Jesus entende e aprova. Ao invés de Pedro, que tinha rejeitado a ideia do Messias crucificado, esta anónima mulher é a discípula fiel, modelo para os discípulos que não tinham entendido, modelo para todos, no mundo inteiro. (vd 14,3-9).
Jesus sabe que vai ser traído por um amigo. Não obstante, vive em clima de fraternidade a Ceia Pascal com todos os discípulos. Preocupou-se antecipadamente com o arranjo da sala grande no andar superior, pois no tempo de festa era difícil encontrar reservar um lugar. (vd 14,10-16).
Um de vós, que come comigo há de entregar-me”. Este segmento discursivo de Marcos acentua o contraste. Para os judeus, a comunhão da mesa era a expressão máxima da intimidade e da confiança. Ora, é neste ambiente que Jesus nos envia uma mensagem: a traição virá pela mão de alguém muito amigo, mas o amor de Jesus é infinitamente maior que a traição. (vd 14,17-21).
Durante a ceia, Jesus faz um gesto de partilha: distribui o pão e o vinho, sinal do dom de si mesmo, e convida os amigos a tomarem o seu corpo e sangue. O evangelista situa este gesto de doação entre o anúncio da traição e o anúncio da fuga e negação. Assim, acentuando o contraste entre o gesto de Jesus e o dos discípulos, mostra às comunidades de então e a nós a imensa gratuitidade do amor de Jesus que supera a traição e a fuga dos amigos. (vd 14,22-25).
Depois, indo com os amigos para o monte das Oliveiras, anuncia que todos o hão de abandonar, fugirão e se dispersarão. Porém, avisa: “Depois da minha ressurreição, eu vos precederei na Galileia!”. Rompem com Jesus, mas Jesus não rompe com eles. Esperá-los-á no mesmo lugar onde os chamou três anos antes. A certeza da presença de Jesus na vida do discípulo é mais forte que o abandono e a fuga. (vd 14,26-28).
Simão, chamado Cefas (pedra), é tudo menos pedra. Fora já pedra de escândalo e Satanás para Jesus, e agora pretende ser o discípulo mais fiel. Mas Jesus avisa: “Pedro, tu serás o primeiro a negar-me, até antes de o galo cantar!” (vd 14,29-31).
Jesus entra em agonia e pede a Pedro, Tiago e João que rezem com e por ele. Triste, começa a ter medo e procura o apoio daqueles três amigos, que presenciaram a transfiguração, mas que agora adormecem, incapazes de vigiar uma hora com ele, o que sucedeu por três vezes. De novo, o contraste entre a atitude de Jesus e a dos discípulos. É na hora da agonia de Jesus que a coragem dos discípulos se desintegra. (vd 14,32-42).
De noite, chegam os soldados, guiados por Judas. O beijo, sinal de amizade e de amor, torna-se sinal de traição. Judas, sem coragem, mascara a traição. Durante a prisão, Jesus permanece senhor da situação. Procura ler o significado do acontecimento: “É para se cumprirem as Escrituras!”. Todos os discípulos  o abandonaram e fugiram. Jesus está sozinho! (vd 14,43-52).
Jesus é levado ao Sinédrio, o tribunal dos sumos-sacerdotes, anciãos e escribas. Acusado por falsas testemunhas, cala-se. Sem defesa, é entregue nas mãos dos inimigos. Cumpre, assim, tudo o que foi anunciado pelo profeta Isaías a respeito do Messias Servo, que foi feito prisioneiro, julgado e condenado como ovelha sem abrir a boca. Porém, assume o facto de ser o Messias, “Eu sou!”, mas assume-o sob o título de Filho do Homem. No final, é esbofeteado por quem o ridiculariza, chamando-lhe Messias Profeta. (vd 14,53-65).
Reconhecido pela criada como um dos que estavam no Horto, Pedro nega Jesus, chegando a usar de juramento e maldição. Nem desta vez é capaz de assumir Jesus como Messias Servo que dá a vida pelos outros. Porém, ao cantar do galo pela segunda vez, recorda-se da palavra de Jesus e chora. É o arrependimento! (vd 14,66-72).
O processo continua. Jesus é entregue ao poder romano e acusado de ser o Messias Rei. Outros propõem a alternativa de Barrabás, preso com os insurrectos, que numa revolta cometeram um assassínio. Para eles, Jesus um Messias guerreiro antirromano. Depois de o terem condenado, cospem sobre Jesus, que não abre a boca. É o Messias Servo anunciado por Isaías. (vd 15,1-20).
Enquanto Jesus é levado para a crucifixão, Simão de Cirene, pai de família, é obrigado a carregar a cruz. Simboliza o discípulo que caminha na via de Jesus. Carrega a cruz atrás dele até ao Calvário. “Quem quiser atrás de mim, pegue na sua cruz e siga-me” (vd 15,21-22).
Jesus é crucificado como um marginal, entre dois ladrões. De novo, o evangelho de Marcos evoca a figura do Messias Servo, de quem Isaías diz: “Foi contado entre os malfeitores!”. É-lhe imputado o crime: “Rei dos Judeus”. E as autoridades religiosas, ridicularizando-o e insultando-o, diziam: “Desça agora da cruz, para nós vermos e acreditarmos”. Como Pedro aceitariam Jesus como Messias se não estivesse na Cruz. (vd 15,23-32).
Abandonado por todos, Jesus dá um forte grito e expira. O centurião, um pagão, que fazia a guarda, faz uma solene profissão de fé: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!”.
Um pagão descobre e aceita o que os discípulos não descobriram, isto é, reconhecer a presença do Filho de Deus no ser humano torturado, excluído e crucificado. Como a mulher anónima no início da narração, assim, agora aparece outro “discípulo” modelo: o centurião. (vd 15,33-39).
Um grupo de mulheres está a olhar de longe: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e Salomé. Não fogem (as mulheres não fogem). Continuam fiéis. São testemunhas da morte de Jesus. E é este pequeno grupo que acederá ao novo anúncio na manhã da ressurreição, o dia da nova Páscoa. Acompanham José de Arimateia que pediu autorização para sepultar Jesus. No final, continuam perto do sepulcro fechado. São também testemunhas da sepultura de Jesus. (vd 15,40-47).
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Alguns pontos de autointerpelação
O relato da Paixão contém uma mensagem de salvação. Nunca a esgotaremos em profundidade. No entanto, são de relevar alguns itens de reflexão sobre cenas destas passagens evangélicas.
Na Ceia Pascal celebra-se o facto admirável da entrega total de Jesus e o mistério da contínua presença de Cristo no meio do povo pela eucaristia e pelo sacerdócio. A par disto, anuncia-se a deslavada traição por parte de um dos discípulos. Assim, é de nos questionarmos sobre os valores que orientam a nossa vida: o dom de si, como Jesus, ou a ganância que levou Judas a trair Jesus?
Jesus no Getsémani releva a necessidade de rezar sempre para não desfalecermos nas provas da vida. No entanto, a oração é, muitas vezes, um momento de agonia ou luta onde temos de conformar a nossa vontade com a de Deus. Assim, é de nos questionarmos sobre como é a nossa oração: Exigência de que se cumpra a nossa vontade ou uma conformação à vontade de Deus?
Na Prisão de Jesus contrastam a atitude de Jesus e a dos discípulos. Face a esta situação os discípulos usam de violência. Porém, Jesus reafirma a opção pelo perdão e pela não-violência. Assim, é de nos questionarmos sobre como reagimos ante as ameaças: Com perdão ou com violência que gera mais violência?
O processo judeu está dominado pela revelação da identidade messiânica e divina de Jesus. Assim, é de nos questionarmos: Apresentamo-nos como filhos de Deus, como cristãos em atitudes e palavras, mesmo correndo o risco de descriminação?
O processo romano patenteia a incoerência da multidão que, dias antes, aclamava “Hossana ao Filho de David!  Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!” e que agora grita pela morte de Jesus e a indiferença de Pilatos. Assim, é de nos questionarmos se somos sempre fiéis a Jesus ou se mudamos de opinião segundo o que mais nos interessa, se muitas vezes não somos indiferentes como Pilatos e assim somos cúmplices na morte de tantos nossos irmãos na decorrência do lodaçal da indiferença em que nos sepultamos.
A morte de Jesus pela crucifixão é o cume deste relato. Ante a morte de Jesus, o centurião confessa: “Este era verdadeiramente o filho de Deus”. É, pois justo que nos questionemos se reconhecemos como Deus Jesus crucificado que nos convida para a via da cruz ou se preferimos reconhecer como deuses da nossa vida o egoísmo, o triunfo e a glória a qualquer custo.
Os cristãos, por força do seguimento de Cristo, devem viver e orientar-se pelos valores que marcaram a existência de Jesus. No entanto, muitas vezes nós assemelhamo-nos à comunidade de Filipos, a quem era dirigida a carta da 2.ª leitura (Fl 2,6-11). Na verdade, como os filipenses podemos ser uma comunidade entusiasmada, generosa e comprometida, mas também uma comunidade que não aprecia os valores do desprendimento, humildade e simplicidade. A esta comunidade e a nós Paulo apresenta um antigo hino litúrgico que mostra o aniquilamento de Cristo: ele, que era de condição, divina fez-se homem; e, fazendo-se homem, humilhou-se ainda mais até à morte na cruz. Todos nós, ao contemplarmos Cristo crucificado, estamos chamados a seguir o exemplo de humildade, simplicidade e entrega da vida de Cristo. E podemos ter a certeza que este caminho não levará ao aniquilamento mas à Ressurreição: “Por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes”.
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Em suma, a melhor síntese da mensagem do Domingo de Ramos na Paixão do Senhor será a fornecida por São Paulo da Cruz, o promotor da memória da Paixão de Jesus Cristo: “A Paixão de Cristo é a maior e mais maravilhosa obra do amor Divino” e “A paixão de Cristo é o remédio mais eficaz contra os males de todos os tempos”.
2018.03.21 – Louro de Carvalho

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Há três anos, Dom António Francisco foi eleito Bispo do Porto

É verdade que o dia 21 de fevereiro de 2014 surpreendeu a Igreja diocesana do Porto e mesmo o país com a nomeação de Dom António Francisco dos Santos para bispo da diocese do Porto, vindo a ser transferido da diocese de Aveiro para a do Porto com o ato de posse, a 5 de abril, e entrada solene no dia seguinte.
É ainda prematuro fazer um juízo sobre o seu pastoreio em todas as suas dimensões. No entanto, é de afirmar já um complexo de valores que a sua postura vem comportando. Assim, a pastoral da proximidade, da cooperação e da valorização das pessoas e estruturas pastorais têm sido critérios visíveis e marcantes no devir diocesano. Por outro lado, torna-se evidente a sua presença tanto nos grandes momentos da vida da diocese e da Igreja universal como nos momentos que marcam lugares mais recônditos e dizem respeito a pessoas ou grupos que vivem nas periferias existenciais cuja ação as privilegia. Ademais, é notável o apreço que mostra pela memória e ação dos seus antecessores e dos bispos que saíram do porto ou passaram pelo Porto para o serviço da Igreja noutras paragens, bem como o modo como refere e agradece a ação e a espiritualidade dos sacerdotes, diáconos, religiosos e religiosas (e consagrados e consagradas no meio do mundo) e leigos empenhados no apostolado e no serviço aos mais pobres. Com efeito, se Deus pode esperar e espera por nós, “os pobres não podem esperar”.
Em termos estruturantes, a diocese vem acompanhando ativamente as grandes opções da Igreja Universal sob a batuta do Papa Francisco e os acontecimentos da Igreja que vive atuante em Portugal – ensejo de que dá testemunho o plano de pastoral para o quinquénio em curso (2015/2020) em torno dum tema aglutinador “A alegria do Evangelho é a nossa missão”, desdobrado em cinco planos específicos, um por cada ano pastoral, com tema próprio, mas sob a matriz do plano quinquenal. É uma caminhada conjunta que envolve as paróquias, as vigararias, os movimentos, os diversos serviços e setores – e os documentos que introduzem as ações mais significativas vêm assinados pelo bispo diocesano e seus auxiliares.
Pode dizer-se que Dom António Francisco se mudou duma diocese mais pequena para um diocese mais extensa, populosa e quiçá mais complexa. Alguns até poderão dizer que o senhor Bispo tem, no Porto, mais problemas a enfrentar. Porém, também na diocese do Porto tem mais pessoas a rezar por si todos os dias. E a oração é força dos fracos e, por vezes, como que constitui a fraqueza de Deus, sobretudo se tiver a si aliado o esforço dos homens e cooperação das instituições.
E, com Dom António Francisco, a Igreja do Porto faz ouvir a sua voz perante o mundo e perante Deus pela dignidade da pessoa humana, qualquer que seja a sua condição económica e social, mas preferencialmente evidenciando a vez e a voz dos pobres, dos mais “encostados” pela geografia e pela sociedade. A Igreja do Porto ouve e faz ouvir a sua voz junto dos agentes da ciência e da cultura, do estudo e do trabalho, da escola e da família, das crianças e dos adultos, dos jovens e idosos, dos sãos e dos doentes, dos civis e dos militares, dos empresários e dos empregados, dos inativos e dos desempregados.
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Penso que a sua postura exprime com tranquilidade a ideia com que obedeceu ao Pastor Universal da Igreja, segundo a Palavra de Deus ao Profeta Jeremias: “Irás aonde Eu te enviar” (Jr 1,7), como proclamou na sua primeira saudação à diocese portuense.
Trouxe efetivamente consigo, como garantiu, “o modo próximo de ser e de viver, a alegria convicta da fé e o desejo fraterno de a todos olhar com os olhos de Deus, para a todos servir como Deus quer e ama”.
Também desta vez reafirmou perante o Papa Francisco o lema episcopal “IN MANUS TUAS”, que escolheu, quando o Papa São João Paulo II o “chamou a ser bispo auxiliar de Braga e titular de Meinedo”. E confessou que este lema e os sentimentos que ele exprime o unem “a Cristo e à Sua Cruz” e o colocam “sob o olhar terno da Mãe de Jesus, Senhora da Assunção, nossa Mãe e Padroeira”. É de notar que em qualquer lugar ou episódio em que se encontre faz a enálage de pessoa assumindo como “nosso” ou “nossa” a cidade (ex: a nossa cidade de Santa Maria da Feira), a freguesia, o concelho, o hospital, a escola, etc. Esta postura vem de dentro e foi premeditada – penso eu.
Na predita saudação prometeu ser” irmão e presença junto dos doentes, dos pobres e dos que sofrem” e com eles procurar “fazer caminho de bondade e de esperança na busca comum de um mundo melhor”; disse querer “apóstolo das Bem-Aventuranças nestes tempos difíceis que vivemos”; e mostrou-se cônscio da missão que lhe era “confiada”, vindo, porém, “com alegria e generosidade” ao nosso encontro para amar a Deus e nos servir. E o caminho das bem-aventuranças foi visualizado em todo o Ano Jubilar da Misericórdia.
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Na homilia da celebração eucarística que marcou o início do seu múnus pastoral na diocese do Porto, o Prelado quis olhar o tempo e a história com o olhar de Deus. E, fixando-se em São José, referiu que, nele, se unem “o recolhimento interior e a prontidão obediente diante do inesperado desafio da missão”; e, nele, o sonho de Deus tomou “a dianteira diante dos seus horizontes particulares”. Sepultadas no silêncio de José “todas as suas dores e interrogações”, acompanharam-no “as responsabilidades da missão, as alegrias de seguir a voz de Deus e as esperanças de quem crê no Senhor” e n’Ele colocou “a sua confiança”. Assim, o Bispo resolvera “colocar-se nas mãos de Deus”, fazendo desta decisão o seu lema episcopal – “In manus tuas”.
Mas Dom António quis pautar-se pelo ministério da bondade e pelo magistério da proximidade.
Inspirado nos discípulos, que aparecem nos Evangelhos como “homens fortes, corajosos, trabalhadores”, mas com um íntimo de ternura – que, não sendo virtude dos fracos, mas denotadora da “fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude e de compaixão” – sustenta que “não devemos ter medo da bondade”, pois:
“Só pela bondade aprenderemos a fazer do poder um serviço, da autoridade uma proximidade e do ministério uma paixão pela missão de anunciar a alegria do evangelho. O evangelho é tudo o que temos e somos.”.
Nestes termos, pediu a todos que o ajudassem “a ser pastor ao jeito do coração de Deus e a seguir em todos os passos o exemplo de Cristo, o belo e bom Pastor”.
De igual modo, apresentou-se como mensageiro da esperança, na esteira do profeta Ezequiel, que garante “que Deus oferece uma vida nova ao povo que se sentia sem futuro e sem esperança” e o coloca “numa dinâmica que recria o seu coração e faz renascer a vida”; à luz da ressurreição de Lázaro por intervenção de Jesus, como garantia da vida futura para todos; e na perspetiva paulina, que assegura que “é este Espírito de Deus que ressuscitou Jesus de entre os mortos que nos dá a vida, a ressurreição e a esperança”.
Neste contexto evangélico de esperança, o Pastor pediu a compreensão de todos para fazer “das Bem-aventuranças do Reino o padrão do meu viver e o paradigma do meu ministério” (sic). Mas outrossim a todos convocou para serem com ele “mensageiros e protagonistas das Bem-aventuranças numa linguagem serena, positiva e confiante, como expressão da voz de toda a Igreja do Porto”. E, neste sentido, pediu que ninguém se “imagine filho menor de Deus ou se considere filho esquecido da Igreja”.
Depois, colocando-se no horizonte da missão, assegurou que não trazia consigo “planos prévios ou antecipados programas de ação”. Estes surgiriam “à medida do sonho de Deus e da sua vontade divina para esta Igreja do Porto”. Contudo, prometeu prestar atenção “ao que o Espírito de Deus nos inspirar” e saber “ajoelhar diante de Deus em oração, para servir de pé, com passos serenos, mas decididos, a Igreja e o mundo”. E na ação pastoral prometeu dar
“Lugar determinante aos órgãos eclesiais de participação e de corresponsabilidade que existem para fomentar a comunhão geral de quantos, nas paróquias, institutos religiosos e seculares, associações e movimentos, integram o corpo vivo que é a Igreja de Cristo, com toda a riqueza carismática e ministerial que o Espírito cria”.
E serenamente destacou o desejo de “aprender, dia a dia, a história da Igreja do Porto, sentir os seus dinamismos, ler e reler o evangelho em chave de missão com o olhar colocado no horizonte do futuro, onde Deus nos precede”, bem como a vontade de conhecer as caraterísticas desta grande comunidade humana. Mas apelou:
“Sejamos ousados, criativos e decididos sempre mas sobretudo quando e onde estiverem em causa os frágeis, os pobres e os que sofrem. Esses devem ser os primeiros porque os pobres não podem esperar! Temos na história da Igreja do Porto “modelos de caridade” que nos podem guiar neste caminho.”.
Encerrou a sua homilia com um capítulo notável “Da memória à profecia – a Alegria do Evangelho”. Confidenciou aqui ter relido a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, do Sumo Pontífice “com o olhar voltado para o Porto e com o coração aberto à nova missão” que o Papa lhe confiava, sendo “este texto histórico da Igreja” a “inspirar também o nosso caminho na Igreja do Porto. E lembrou:
“É dever e urgência da Igreja trilhar caminhos de evangelização, com novos métodos e acrescido vigor. Desejo que todos sintam que Cristo pode preencher as nossas vidas com um novo esplendor e uma alegria profunda, mesmo no meio das provações (EG,167).”.
A seguir, com palavras do Santo Padre, exortou:
“Sintamo-nos convocados para a missão. Aprofundemos a dimensão espiritual do nosso viver. Sejamos evangelizadores com espírito, que rezam e trabalham (EG, 262), motivados pelo amor que recebemos de Jesus (EG,264).”.
E concluiu:
“Assim edificaremos comunidades vivas de fé, de amor e de dinamismo missionário, mobilizaremos e formaremos adequadamente os agentes da pastoral e renovaremos as estruturas pastorais desta amada Igreja do Porto”.
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Perguntar-se-á se os objetivos já foram atingidos ou se os valores já foram alicerçados e têm suporte para se implantarem e consolidarem. É cedo para responder e creio que este caminho é a batalha de todos os dias. Depois, o caminho faz-se caminhando e caminhando em conjunto, sendo que, por vezes, há mais pedras que caminho, mais piso tortuoso que transitável, mais veredas destruídas que endireitadas.
E é para isto que temos o Bispo diocesano e toda a Igreja portuense. E o Bispo reza e faz rezar; ensina, aprende e faz aprender; dirige ouvindo; sofre e alegra-se e alegra; acolhe e celebra; escuta e pede conselho, mas tem de decidir muitas vezes a sós. Que o Espírito esteja sempre com ele.

2017.02.21 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

No 54.º aniversário do início do Vaticano II e o pós-Concílio

Em texto anterior, perguntava-me se o Concílio melhorara o mundo e a Igreja.
Se olharmos o mundo, ele apresenta, visto a olho nu, mais contrassinais que realidades a espelhar o dom de Deus – na violência, na opressão, no esmagamento do próximo e na negação de Deus e da dignidade humana. Mikhail Gorbachev, ex-líder soviético, terá mesmo avisado que o mundo está num “ponto perigoso” no respeitante ao crescimento da tensão entre russos e americanos.
Porém, se o olharmos um pouco mais com o olhar de Deus, vemos emergir os seus sinais num mundo que procura Deus e a espiritualidade, escuta a voz da Igreja, tenta entender-se a vários níveis na procura da convivência e da paz. A própria série de declarações em torno da aclamação do Secretário-Geral da ONU eleito mostra a vivacidade das preocupações pela paz, convivência, respeito pelos direitos humanos e preservação e promoção da dignidade humana.
E a Igreja? Há, de facto, muitas deserções, muita indiferença, muita instalação, manipulação e cobardia – a ponto de o Papa Francisco ter sentido a necessidade de chamar à razão os fiéis a integrarem a Igreja como num dinamismo de caminhada, estado de saída às periferias existenciais, ter decretado o Ano da Vida Consagrada e ter convocado o Ano Jubilar da Misericórdia para o aprofundamento do ser da Igreja e para a assunção da vida cristã em consonância com o Evangelho. E as pessoas, os grupos correspondem: Francisco faz escola.
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O padre Duarte da Cunha, em A Voz da verdade, de 14 de outubro de 2014, dizia que “para quem nasceu depois do encerramento do Concílio e atualmente tem como missão organizar encontros de bispos europeus”, é impressionante imaginar uma reunião de mais de 2000 bispos e ver como um número tão grande e diversificado, em períodos de 2 meses, durante 4 anos, se encontraram para juntos escreverem uma série de 16 documentos que são, ao mesmo tempo, capazes de confirmar e reforçar a fé católica e tornar mais atual a sua expressão. Com efeito, em 4 anos, foram preparados, discutidos, corrigidos e aprovados aqueles documentos (4 constituições, 9 decretos e 3 declarações), ainda atuais, não só para padres e teólogos, mas para quantos desejam perceber melhor o modo como a Igreja está presente no mundo. Pouca gente os terá lido à séria. Muitas vezes são tratados como se fossem apenas mais textos, sem que se dê conta do “valor especial destes textos escritos por todos os bispos em comunhão com o Papa”. Mas os textos estão disponíveis como manancial de doutrina e como manual de ação pastoral e apostólica.
Bento XVI – diz o articulista – quis recordar o Concílio, 50 anos após a sua abertura, para levar as pessoas a lerem esses tesouros da fé católica. Por isso, convocou o Ano da Fé. É certo que os textos conciliares não são simples e foram muitas vezes mal usados. Nos anos 60 e até aos anos 80, houve muitos que entenderam que eles pouco interessavam porque deviam ser considerados apenas uma etapa dum processo de modernização da Igreja e que o importante era o “espírito” do Concílio. Daí surgiu a tendência de considerar o Concílio como o ponto de rutura entre o antes e o depois, sendo que “antes era tudo errado e depois era tudo bom”. Esta linha de interpretação, marcada pela contaminação da mentalidade mundana do tempo, queria negar tudo o que fosse passado e julgava inventar tudo de novo, o que levou a que o Concílio fosse abusivamente usado para todo o tipo de experimentalismos doutrinais, litúrgicos, pastorais, etc. Esse tempo passou e “a infecundidade de tal atitude, por toda a Europa, mostra que estava errada”.
E três grandes Papas – Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI – todos protagonistas do próprio Concílio, permitem uma leitura dos documentos que mostra o verdadeiro valor do Concílio. Não se pode perceber o significado do Concílio e o sentido dos seus documentos sem a ajuda do magistério dos Papas. O que se consegue à luz de dois princípios.
Um dos princípios vem-nos de Karol Wojtyla a assegurar “que todos os Concílios têm como missão enriquecer a fé dos crentes”. É um enriquecimento conceptual – “perceber aquilo em que acreditamos, distinguindo o erro da verdade revelada” – e um enriquecimento da experiência de fé – “viver de modo mais profundo e autêntico a fé”. Ora, o Vaticano II, com acrescida razão por pretender desde o início ser um Concílio pastoral, deve ser lido neste sentido. Por isso, todas as interpretações que recorrem ao “espírito” contra a “letra” e que, em vez de enriquecerem a fé, levam a uma perda da fé, não respeitam a vontade dos Padres Conciliares nem reconhecem “a presença do Espírito Santo na aula conciliar”.
O segundo princípio é dado por Bento XVI na linha da “hermenêutica da continuidade”, isto é, da interpretação do que o Concílio diz no quadro da Tradição dinâmica da fé e não em rutura com ela. Assim, se alguém entende que o Concílio contradiz o que a Igreja dizia antes, não o percebeu. Ora, “a continuidade é compatível com o desenvolvimento”, pelo que podemos dizer que há coisas que hoje se percebem melhor ou que se percebem como resposta aos desafios que antes não eram conhecidos. Porém, a continuidade não é compatível com a rutura, pelo que os que pretendem que de São Paulo ao Vaticano II só houve decadência, não são verdadeiramente católicos, não veem a fecundidade da fé manifesta em todas as épocas históricas em tantos santos e tantas obras e tão empolgante cultura e pecam por orgulho ao pensarem ser melhores que os antepassados. Seria bom que as gerações atuais e as subsequentes conhecessem o Concílio para enriquecerem a fé e para se sentirem membros duma realidade histórica – a Igreja – que nos liga sem interrupções aos Apóstolos e ao próprio Jesus – a referência da Igreja.
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Se Paulo VI, em Novembro de 1964, anunciou o desejo de terminar as sessões do Concílio Vaticano II com a alegria de invocar a Virgem Maria com o título de Mater Ecclesiae (Mãe da Igreja), Francisco, no quadro do Ano da Misericórdia, quis assinalar este ano jubilar com o Jubileu Mariano cujo encerramento ocorreu no passado dia 9 de outubro, a dois dias do 54.º centenário do início do Vaticano II.
Recorde-se que a insistência de Francisco na dimensão da misericórdia de Deus e da Igreja é tão conciliar como a dimensão pastoral do Concílio ou com a da Igreja em saída, que o Vaticano II propôs. O próprio João XXIII, no discurso de inauguração da magna assembleia, propunha que a Igreja enveredasse pela via da misericórdia em vez da severidade.
Francisco, na missa do Jubileu Mariano, abordou a temática sugerida pelas leituras da Liturgia da Palavra do XXVIII Domingo do Tempo Comum, que nos convida a “reconhecer, com maravilha e gratidão, os dons de Deus”, pois, “ao longo da estrada que O leva à morte e à ressurreição, Jesus encontra 10 leprosos, que vêm ao seu encontro, param à distância e gritam o seu infortúnio ao Homem em quem a fé deles intuiu um possível salvador: ‘Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós!’” (Lc 17,13). E o Papa sublinha que Jesus, ao mandá-los apresentar-se aos sacerdotes, a quem, pela Lei, incumbia declarar a eventual cura, nunca até então sucedida, não Se limita a uma promessa, mas pôs à prova a fé daqueles homens. Ainda não estavam curados, mas recuperaram a saúde depois de se porem a caminho em obediência à palavra de Jesus. Cheios de alegria, apresentaram-se aos sacerdotes e seguiram o seu caminho, mas esquecendo o doador, “o Pai que os curou por meio de Jesus, seu Filho feito homem”.
A única exceção foi um samaritano, marginalizado do povo eleito, mas que não se contentou com a cura através da sua própria fé, mas faz que a cura atinja a plenitude voltando atrás para agradecer o dom, “reconhecendo em Jesus o verdadeiro Sacerdote que, tendo-o erguido e salvado, pode fazê-lo caminhar acolhendo-o entre os discípulos. É, de facto, fácil ir ter com o Senhor – anota Francisco – a pedir-Lhe, mas voltar para agradecer é mais complicado.
Assim, nesta Jornada Jubilar, o Papa propõe “o modelo a contemplar: Maria, a nossa Mãe”. Tendo recebido o anúncio do Anjo, deixou brotar do coração o cântico de louvor e gratidão a Deus: ‘A minha alma glorifica o Senhor....’. Por isso, o Pontífice pretende que “peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a entender que tudo é dom de Deus e a saber agradecer”. Depois, garante-nos que “a nossa alegria será completa”, pois “só quem sabe agradecer experimenta a plenitude da alegria”.
Porém, para saber agradecer, exige-se a humildade. E o Papa menciona o caso de Naaman, comandante do exército do rei da Síria (cf 2 Re 5,14-17), leproso, que aceita a sugestão duma pobre escrava, para se curar, e se confia aos cuidados do profeta Eliseu, que para ele é um inimigo. Naaman está disposto a humilhar-se. E Eliseu nada pretende dele; manda-o apenas mergulhar na água do Jordão. É uma exigência que deixa Naaman perplexo e contrariado face a ordens para “fazer coisas tão banais”. Voltava a casa, quando por sugestão dum servo, aceita mergulhar no Jordão, operação de que resulta a cura imediata. Diz-nos Francisco, a propósito da humildade, que
“O coração de Maria, mais do que qualquer outro, é um coração humilde e capaz de acolher os dons de Deus. E, para Se fazer homem, Deus escolheu-A precisamente a Ela, uma jovem simples de Nazaré, que não vivia nos palácios do poder e da riqueza, que não realizou feitos extraordinários.”.
Depois, interpela-nos se estamos dispostos a receber os dons de Deus ou se preferimos fechar-nos nas seguranças materiais, intelectuais ou dos nossos projetos ou na nossa suficiência.
Considerando que Naaman e o samaritano são dois estrangeiros, o Papa exclama:
“Quantos estrangeiros, incluindo pessoas doutras religiões, nos dão exemplo de valores que nós, às vezes, esquecemos ou negligenciamos! É verdade: quem vive a nosso lado, talvez desprezado e marginalizado porque estrangeiro, pode-nos ensinar como trilhar o caminho que o Senhor quer.”.
Ora, a Mãe de Deus, com José, seu esposo e o Menino, experimentou a separação da sua terra. Foi estrangeira no Egito, longe de parentes e amigos. Contudo, pela fé venceu as dificuldades. Por isso, Ela é o modelo humano da gratidão, da fé, da humildade e da resiliência. É, pois, imperioso que guardemos intimamente a fé simples da Mãe de Deus e Lhe peçamos a graça de saber voltar a Jesus a agradecer-Lhe “pelos inúmeros benefícios da sua misericórdia”.
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À recitação do Angelus, o Papa saudou os peregrinos que participaram no Jubileu Mariano, agradecendo a sua presença e repetiu com eles as palavras de são João Paulo II a 8 de outubro de 2000, no Ato de consagração jubilar a Maria: “Queremos, hoje, consagrar-Te o futuro que nos espera. A humanidade pode fazer deste mundo um jardim, ou reduzi-lo a um amontoado de ruínas”. E implorou da Virgem a ajuda para “escolher a vida, acolhendo e praticando o Evangelho de Cristo Salvador”.
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Na véspera, na alocução que proferiu na vigília de oração, referiu que os peregrinos repassaram “os momentos fundamentais da vida de Jesus, com Maria”. E, no quadro dos mistérios gloriosos do rosário, “estivemos nos dias do cumprimento da missão de Cristo no mundo”. Assim,
“A Ressurreição como sinal do extremo amor do Pai, que de novo traz tudo à vida, e como antecipação da nossa condição futura. A Ascensão como partilha da glória do Pai, onde a nossa própria humanidade encontra um lugar privilegiado. O Pentecostes, expressão da missão da Igreja na história até ao fim dos tempos, sob a guia do Espírito Santo. Além disso, nos dois últimos mistérios, contemplámos a Virgem Maria na glória do Céu – Ela que, desde os primeiros séculos, foi invocada como Mãe da Misericórdia.”
Depois, falou do Rosário como “síntese da história da misericórdia de Deus que se transforma em história de salvação para aqueles que se deixam plasmar pela graça”. E referiu:
“Os mistérios propostos são gestos concretos em que se desenvolve a ação de Deus em nosso favor. (…). Revemos o seu rosto misericordioso que vai ao encontro de todos nas várias necessidades da vida. Maria acompanha-nos neste caminho, apontando para o Filho que irradia a própria misericórdia do Pai. Ela é verdadeiramente a Odigitria, a Mãe que indica o percurso que somos chamados a fazer para sermos verdadeiros discípulos de Jesus.”
Com efeito, sempre que contemplamos “um mistério da vida de Cristo, somos convidados a individuar o modo como Deus entra na nossa vida, para depois O acolhermos e seguirmos” e, acolhendo e assimilando alguns acontecimentos salientes da vida de Jesus, “participamos na sua obra de evangelização, para que o Reino de Deus cresça e se propague no mundo”. Seremos discípulos, missionários, apóstolos e “portadores de Cristo, nos lugares onde Ele nos pede que estejamos presentes”. Não podendo encerrar o dom da sua presença dentro de nós, “somos chamados a comunicar a todos o seu amor, a sua ternura, a sua bondade, a sua misericórdia”. É a alegria da partilha que não se detém perante coisa alguma, mas leva um anúncio de libertação e salvação.
Maria ensina-nos a compreender o que é ser discípulo de Cristo. Predestinada para ser a Mãe, aprendeu a fazer-Se discípula. O primeiro passo foi escutar Deus: “obedeceu ao anúncio do Anjo e abriu o coração para acolher o mistério da maternidade divina”; seguiu Jesus, escutando “cada palavra que saía da boca d’Ele (cf Mc 3,31-35); conservou tudo no seu coração (cf Lc 2, 19), “tornando-Se memória viva dos sinais que o Filho de Deus realizou para despertar a fé”. Porém, conquanto a escuta seja o primeiro passo, precisa de ser traduzida em ação. Na verdade, o discípulo põe a sua vida ao serviço do Evangelho e compromete-se no serviço aos irmãos. E o Papa fez desfilar o filme da vida ativa de Maria no tocante às consequências do discipulado:
Foi ter com Isabel para a ajudar; em Belém, deu à luz o Filho de Deus; em Caná, teve a peito a situação de dois recém-casados; no Gólgota, permaneceu ao pé da cruz de Jesus e, por vontade d’Ele, tornou-Se Mãe da Igreja; depois da Ressurreição, animou os Apóstolos reunidos no Cenáculo à espera do Espírito Santo, que os transformaria em corajosos arautos do Evangelho.
Em toda a sua vida, Maria realizou tudo quanto se pede à Igreja que cumpra em perene memória de Cristo – disse o Papa. Por isso, A invocamos com a oração mais antiga que os cristãos fizeram para se dirigirem a Ela, sobretudo nos momentos de dificuldade e martírio: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus; não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita”.
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Talvez estejamos a retomar a rota genuína do Vaticano II sob a égide da Mater Ecclesiae.

2016.10.13 – Louro de Carvalho