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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Papa em Moçambique, recebido com satisfação, compreende e exorta


No quadro da sua viagem apostólica de 4 a 10 de setembro a Moçambique, Madagáscar e Maurícias, Francisco chegou à tarde do dia 4 a Maputo, em cujo aeroporto decorreu a cerimónia de boas-vindas, permanecendo na cidade até ao final da manhã do dia 6.
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Após a visita de cortesia ao Presidente da República no Palácio da Ponta Vermelha, o Pontífice encontrou-se com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático.
No seu discurso, sentiu-se feliz por iniciar a viagem apostólica “por este país, tão abençoado pela sua beleza natural como pela sua grande riqueza cultural que traz à provada alegria de viver do vosso povo a esperança num futuro melhor” e que “abre as suas portas para alimentar um renovado futuro de paz e reconciliação”.
Dirigiu “palavras de proximidade e solidariedade” aos que sentiram as pesadas consequências dos ciclones Idai e Kenneth, partilhando “a angústia e sofrimento” de quem foi atingido e “o compromisso da comunidade católica para fazer frente a tão dura situação” e pedindo “a solicitude de todos os atores civis e sociais que, pondo a pessoa no centro, sejam capazes de promover a necessária reconstrução”.
Saudou o esforço de paz e reconciliação desenvolvido sob a égide da comunidade internacional como “o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e desafios” que Moçambique tem como nação, destacando o acordo de cessação definitiva das hostilidades militares entre irmãos moçambicanos assinado recentemente na Serra da Gorongosa – um marco plantado na senda da paz que parte do Acordo Geral de 1992 em Roma. São esforços que sustentam a esperança e dão confiança para que o modo de escrever a história não seja “a luta fratricida”, mas “a capacidade de se reconhecerem como irmãos, filhos duma mesma terra, administradores dum destino comum”. É a coragem da paz, “uma coragem de alta qualidade: não a da força bruta e da violência, mas aquela que se concretiza na busca incansável do bem comum”.
Assegurando que os moçambicanos conheceram “o sofrimento, o luto e a aflição”, mas sem deixarem que “o critério regulador das relações humanas fosse a vingança ou a repressão” ou que “o ódio e a violência tivessem a última palavra”, citou São João Paulo II para observar:
Com a guerra ‘muitos homens, mulheres e crianças sofrem por não terem casa onde habitar, alimentação suficiente, escolas onde se instruir, hospitais para tratar a saúde, igrejas onde se reunir para rezar e campos onde empregar as forças de trabalho. Muitos milhares de pessoas são forçadas a deslocar-se à procura de segurança e de meios para sobreviver; outras refugiam-se nos países vizinhos.’ (...) Não à violência e sim à paz!” (Discurso de Chegada, 16 de setembro de 1988, n. 3).
Reconhecendo que o povo, ao longo dos anos, sentira que a busca da paz – missão que envolve a todos – “exige um trabalho árduo, constante e sem tréguas”, pois a paz é “como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência”, disse que é preciso continuar a afirmar, com determinação mas sem fanatismo, com coragem mas sem exaltação, com tenacidade mas de maneira inteligente: não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.
Mais que a ausência de guerra, a paz é “o empenho incansável”, especialmente dos que ocupam um cargo de maior responsabilidade, em “reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os principais protagonistas do destino da própria nação”, pois, “sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão”. Ora, se a sociedade “abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”.
Depois, Francisco salientou alguns dos aspetos de desenvolvimento que a paz possibilitou, como a educação e a saúde, e encorajou a prossecução do trabalho de “consolidar as estruturas e instituições necessárias” para que “ninguém se sinta abandonado”, especialmente os jovens, que formam grande parte da população e que “são o presente que interpela, busca e precisa de encontrar canais dignos que lhes permitam desenvolver todos os seus talentos; e são um potencial para semear e desenvolver a tão desejada amizade social”.
E frisou que, no quadro da cultura de paz, “o caminho há de ser aquele que favoreça a cultura do encontro e dela fique todo impregnado: reconhecer o outro, estreitar laços, lançar pontes”; e, por outro lado, torna-se “imprescindível manter viva a memória como caminho que abre futuro; como caminhada, que leve a procurar metas comuns, valores compartilhados, ideias que favoreçam superar interesses setoriais, corporativos ou partidários para que as riquezas da nação sejam colocadas ao serviço de todos, especialmente dos mais pobres”. E exortou:
Tendes uma corajosa e histórica missão a cumprir: não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra... Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.”.
E, após ter afirmado as condições-base da subsistência condigna – terra, teto e trabalho –, o Santo Padre inscreveu na rota da paz o olhar pela Casa Comum e disse que, nesta ótica, “Moçambique é uma nação abençoada”, sendo os moçambicanos “especialmente convidados a cuidar desta bênção”. A seguir, explanou:
A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, não é cultivada sequer por pessoas que habitam estas terras, nem é motivada pelo bem comum do vosso povo. Uma cultura de paz implica um desenvolvimento produtivo, sustentável e inclusivo, onde cada moçambicano possa sentir que este país é seu, e no qual possa estabelecer relações de fraternidade e equidade com o seu vizinho e com tudo o que o rodeia.”.
Por fim, disse que todos são “os construtores da obra mais bela a ser realizada: um futuro de paz e reconciliação como garantias do direito ao futuro dos vossos filhos” e expressou o desejo de, em comunhão com os irmãos bispos e “a Igreja Católica que peregrina nesta terra”, contribuir para que “a paz, a reconciliação e a esperança reinem definitivamente” no povo moçambicano.
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Numa festa inter-religiosa e culturalmente rica da juventude, Francisco pronunciou o segundo discurso do dia em Maputo, neste dia 5. Os jovens foram a expressão da paz e da reconciliação do país, através de cantos, apresentações artísticas e tradições religiosas, sempre encorajados pelo Pontífice que incentivou a não se resignarem diante das provações e terem cautela com a ansiedade que pode criar barreiras para realizar os sonhos.
O Papa encontrou os jovens no Pavilhão do Clube de Desportos do Maxaquene, conhecido como Maxaca – uma sociedade com tradição no futebol, tanto que já ganhou cinco títulos nacionais. Hoje o espaço acolheu mais de 4 mil jovens cristãos, muçulmanos e hinduístas para um grande encontro inter-religioso.
Em cerca de uma hora com a juventude de Moçambique, o Papa conseguiu conhecer um pouco da realidade local das diferentes confissões religiosas que se apresentaram, através da arte do canto e de coreografias especiais, demonstrando diferentes temas e motivos de preocupação dos jovens do país. E foi interpretado um hino comum às denominações religiosas antes do discurso do Pontífice, em que destacou no quadro da consciência da importância dos jovens:
O que há de mais importante para um pastor do que encontrar-se com os seus jovens? Vós sois importantes! Precisais de saber disso, precisais de acreditar nisso: vós sois importantes! Mas com humildade porque não sois apenas o futuro de Moçambique ou da Igreja e da humanidade; vós sois o presente de Moçambique! Com tudo o que sois e fazeis, já estais a contribuir para ele com o melhor que hoje podeis dar.”.
O Papa começou por enaltecer a expressão tão autêntica da alegria que carateriza o povo de Moçambique, vincando:
É uma alegria que reconcilia e se torna o melhor antídoto capaz de desmentir todos aqueles que querem dividir, fragmentar ou contrapor. Como faz falta, em algumas regiões do mundo, a vossa alegria de viver!.
Também foi elogiada pelo Pontífice a presença das diferentes confissões religiosas no local, demonstrando a união familiar através do “desafio da paz”, da esperança e da reconciliação. Com essa experiência, disse ele, é possível perceber que “todos somos necessários: com as nossas diferenças, mas necessários”. E apontou:
Vós, jovens, caminhais com dois pés como os adultos, mas, ao contrário dos adultos que os mantêm paralelos, vós colocais um atrás do outro, pronto a arrancar, a partir. Vós tendes tanta força, sois capazes de olhar com tanta esperança! Sois uma promessa de vida, que traz em si um certo grau de tenacidade (cf Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 139), que não deveis perder nem deixar que vos roubem.”.
Procurando responder a duas perguntas dos jovens sobre como realizar os sonhos da juventude e como contribuir para solucionar os problemas que afligem o país, a indicação do Pontífice veio do caminho de riqueza cultural apresentado pelos jovens, através da arte, expressão “de parte dos sonhos e realidades”, sempre regada de esperança e de ilusões. E Francisco voltou a insistir com os jovens para não deixarem que “roubem a sua alegria”, para não deixarem de cantar e se expressarem conforme as tradições de casa.
Depois alertou para a cautela com “duas atitudes que matam os sonhos e a esperança: a resignação e a ansiedade”.
São grandes inimigas da vida, porque normalmente nos impelem por um caminho fácil, mas de derrota; e a porta que pedem para passar é muito cara… (…) Paga-se com a própria felicidade e até com a própria vida. Resignação e ansiedade: duas atitudes que roubam a esperança. Quantas promessas de felicidade vazias que acabam por mutilar vidas! Certamente conheceis amigos, conhecidos – ou pode mesmo ter acontecido convosco – que, em momentos difíceis, dolorosos, quando parece que tudo cai em cima de vós, ficais prostrados na resignação. (…) Quando tudo parece estar parado e estagnante, quando os problemas pessoais nos preocupam, as dificuldades sociais não encontram as devidas respostas, não é bom dar-se por vencido’. ”.
Inspirado no desporto, deu o exemplo do futebolista Eusébio da Silva, o “pantera negra”, que começou a carreira no clube de Maputo, acentuando que o atleta não se resignou ante as graves dificuldades económicas da família e a morte prematura do pai, sendo que o futebol o ajudou a perseverar. E, fazendo a analogia com o jogo em equipa, falou da importância do empenho pelo país com a tática da união e independentemente do que diferencia as pessoas, frisando:
Como é importante não esquecer que ‘a inimizade social destrói. E uma família se destrói pela inimizade. Um país se destrói pela inimizade. O mundo se destrói pela inimizade. E a inimizade maior é a guerra porque são incapazes de se sentar e falar, de se sentar e falar. Sede capazes de criar a amizade social!”.
E o Papa lembrou o provérbio africano conhecido e citado mundialmente para “sonhar juntos”, que diz: “Se quiseres chegar depressa, caminha sozinho; se quiseres chegar longe, vai acompanhado”. Mas é preciso afastar a ansiedade que é inimiga dos sonhos da juventude por um país melhor, pois – diz o Pontífice – “eles são conquistados com esperança, paciência e determinação, renunciando às pressas”.
A seguir, veio o exemplo de Maria Mutola, que aprendeu a perseverar, apesar de ter perdido a medalha de ouro nos três primeiros Jogos Olímpicos que disputou. O título dourado veio na quarta tentativa, quando a atleta dos 800 m venceu nas Olimpíadas de Sidney. “A ansiedade não a deixou absorta em si mesma, ao conseguir nove títulos mundiais”, disse Francisco.
No âmbito da importância dos idosos e da Casa Comum, o Papa exortou a não esquecerem o apoio dos idosos, que podem ajudar a realizar sonhos sem que “o primeiro vento da dificuldade” venha a impedir. Com efeito, escutar as pessoas mais experientes, valorizando as tradições e fazendo a própria síntese, como aconteceu com a música (o ritmo tradicional de Moçambique: da marrabenta nasceu o pandza, com toque moderno). Por outro lado, o Papa argentino lembrou o comprometimento com o cuidado da Casa Comum num país com tamanha beleza natural, mas que também já sofreu com o embate de dois ciclones, pois o desafio de proteger o meio ambiente é uma forma de permanecer unidos para ser “artesãos da mudança tão necessária”.
Por fim, o Papa Francisco encorajou os jovens a encontrarem novos caminhos de paz, liberdade, entusiasmo e criatividade, e “com o gosto da solidariedade”, para responderem às provações e problemas vividos no país, dado que é grande “o poder da mão estendida e da amizade” para que a solidariedade cresça e se torne na melhor arma para transformar a história. E Francisco concluiu apelando aos jovens que não esqueçam quanto Jesus os ama:
[É o amor do Senhor que se entende mais de levantamentos que de quedas, mais de reconciliação que de proibições, mais de dar nova oportunidade que de condenar, mais de futuro que de passado (Ibid., 116). Eu sei que vós acreditais nesse amor que torna possível a reconciliação.]”.
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No encontro em Maputo, na catedral da Imaculada Conceição, com bispos, sacerdotes, religiosos, seminaristas, consagrados, catequistas e animadores, o Papa exortou:
Reavivemos o nosso chamamento vocacional e que o nosso sim comprometido proclame as grandezas do Senhor e alegre o espírito do nosso povo em Deus nosso Salvador. E encha de esperança, paz e reconciliação o vosso país, nosso querido Moçambique.”.
Sugeriu que voltar a Nazaré pode ser o caminho para enfrentar a crise de identidade, para nos renovarmos como pastores-discípulos-missionários. E disse:
Não podemos correr atrás daquilo que redunda em benefícios pessoais; os nossos cansaços devem estar mais relacionados com ‘a nossa capacidade de compaixão: são compromissos nos quais o nosso coração estremece e se comove’.
“Para nós, sacerdotes – acrescentou o Santo Padre –, as histórias do nosso povo não são um noticiário: conhecemos a nossa gente, podemos adivinhar o que se passa no seu coração”. “E, assim, a nossa vida sacerdotal se vai doando no serviço, na proximidade ao povo fiel de Deus…, etc., o que sempre, sempre cansa.”.
Falando aos jovens que se interrogam ou que se sentem chamados à vida consagrada, disse:
Tu que ainda te interrogas ou tu que já estás a caminho duma consagração definitiva dar-te-ás conta de que ‘a ansiedade e a velocidade de tantos estímulos que nos bombardeiam fazem com que não haja lugar para aquele silêncio interior onde se percebe o olhar de Jesus e se ouve o seu chamamento’.”.
Depois, aconselhou:
Procura, antes, aqueles espaços de calma e silêncio que te permitam refletir, rezar, ver melhor o mundo ao teu redor e então sim, juntamente com Jesus, poderás reconhecer qual é a tua vocação nesta terra.”.
E concluiu vincando que a Igreja em Moçambique é convidada a ser a Igreja da Visitação: “não pode ser parte do problema das competências, menosprezos e divisões de uns contra os outros, mas porta de solução, espaço onde sejam possíveis o respeito, o intercâmbio e o diálogo”.
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Seguiu-se a visita privada à “Casa Mateus 25” e espera-se pelo que, após a visita ao hospital de Zimpeto, vai dizer na Missa do dia 6, no Estádio de Zimpeto.
O Papa não para de ouvir, compreender e levantar a sua voz – ora ternurenta ora interpelante – de profeta, apóstolo e missionário.
2019.09.05 – Louro de Carvalho

domingo, 30 de junho de 2019

Mas Jesus voltou-Se e repreendeu-os...



É a atitude epistemo-pedagógica do Mestre face à pretensão violenta e musculada dos irmãos Tiago e João de castigar os samaritanos por recusarem dar hospedagem a Jesus e à sua comitiva na passagem para Jerusalém como se relata na primeira parte do texto evangélico tomado para a Liturgia da Palavra do 13.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 9,51-62).   
Na verdade, prestes a ser levado deste mundo, Jesus decidiu dirigir-Se a Jerusalém e mandou à sua frente mensageiros, que entraram numa povoação de samaritanos (povo descendente de estrangeiros que ocupavam Israel após a deportação dos israelitas) para Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, por ir para Jerusalém.
Vendo isto, Tiago e João, os filhos do trovão (designativo que Jesus lhes deu, pelos visto com razão), disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu que os destrua?” – uma alusão ao que fizera Elias aos adversários (cf 2 Rs 1,10-12). Porém, Jesus voltou-Se e repreendeu-os.
E seguiram para outra povoação, provavelmente também de samaritanos, pois, segundo o livro dos Atos (vd At 8,5-25), a Samaria estava recetiva ao cristianismo.
O incidente ilustra praticamente a obrigação de rejeitar a força da violência, a não imposição da nossa vontade, em vez de proposta e aconselhamento, mas respeitando a inteligência e a vontade dos outros e aceitando-os como são; e a obrigação de encontrar vias alternativas na vida para os nossos desígnios. De facto, por mais santos que sejam os nossos objetivos, nunca é lícita a imposição, pela força, dos meios para os atingir ou da inculcação das boas ideias – uma lição contra as contendas e guerras por motivos religiosos.   
Até agora, Lucas situou Jesus na Galileia, mas, a partir daqui, mostra Jesus decididamente a caminhar para Jerusalém com os discípulos, não mais falando, segundo Lucas, da Galileia e da Samaria. Desta caminhada, mais teológica do que geográfica, Lucas não intenta um diário da viagem ou a lista dos lugares por onde Jesus vai passar, mas pretende apresentar um itinerário espiritual em que o Mestre faz com os discípulos a pedagogia do conhecimento e dos valores do “Reino”, presenteando-os com a plenitude da revelação. Todo este percurso, aqui iniciado, converge para a cruz, que trará a revelação suprema que Jesus quer apresentar aos discípulos e onde irromperá a salvação definitiva. Por isso, Jesus exorta os discípulos ao seguimento deste caminho, para se identificarem plenamente com Jesus. E Lucas propõe à sua comunidade o itinerário que os verdadeiros crentes devem calcorrear.
O texto em referência tem uma 1.ª parte (vv. 51-56), que foi sinteticamente transcrita, em que o cenário de fundo nos dá conta da hostilidade entre judeus e samaritanos. Era ancestral a dificuldade de convivência entre os dois grupos; procurando evitar a passagem pela Samaria para evitar maus encontros, os peregrinos que iam a Jerusalém para as grandes festas de Israel utilizavam preferencialmente o caminho do mar (junto da orla costeira) ou o do vale do Jordão.
Como ficou dito, a primeira lição de Jesus ao longo desta “caminhada” ilustra a atitude que os discípulos devem assumir face ao ódio do mundo e à sua rejeição da proposta de salvação. Face à hostilidade manifestada pelos samaritanos, os filhos de Zebedeu advogavam uma resposta agressiva, que retribuísse na mesma moeda, Mas Jesus adverte-os de que o seu caminho não passa nem passará pela imposição da força, violência ou prepotência. No seu horizonte próximo continua a cruz e a entrega da vida por amor, pois é no dom da vida e não na prepotência e na morte que se realizará a sua missão. Ora, por melhores que sejam os seus objetivos e propósitos, os discípulos nunca podem esquecer isto, se estão verdadeiramente interessados em trilhar a rota de Jesus, muito embora, como atesta a História e a experiência de cada um, as tentações de imposição do ponto de vista particularista sejam mais que muitas e muitas vezes se caia nelas.
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Na 2.ª parte da passagem evangélica em causa (vv. 57-62), Lucas apresenta algumas das condições para percorrer, com Jesus, o caminho de Jerusalém para a cruz onde acontecerá o pleno da salvação. E fá-lo através de três candidatos a discípulos.
Ao primeiro, que se autopropõe e se afoita a seguir o Mestre para onde quer que Ele vá, é sugerido que deve despojar-se das preocupações materiais, já que, para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material:
As raposas têm as suas tocas e as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”.
Ao segundo, que é instado por Jesus, é referido que o discípulo deve despegar-se dos deveres que, apesar da sua importância (a piedade filial no atinente ao sepultamento dos pais é um dever fundamental no judaísmo, como atestam Gn 49,28 – 50,26; Ex 13,19; Tb 4,3; 6,15), impeça resposta imediata e radical ao dinamismo do Reino:Deixa que os mortos sepultem os seus mortos; tu, vai anunciar o reino de Deus” – disse Jesus.
Ao terceiro, sugere-se que o discípulo deve despegar-se de tudo (até da família, se for necessário), para fazer do Reino a prioridade fundamental; e nada – nem a família – deve adiar ou demorar o compromisso com o Reino: Quem tiver lançado as mãos ao arado e olhar para trás não serve para o reino de Deus” – disse o Mestre. Jesus exige mais do que Elias fez a Eliseu. Arar para o Reino significa renúncia, abnegação, sacrifício; e não se pode olhar para trás sob pena de a lavoura ficar seriamente prejudicada,
Obviamente, não são de ler ao pé da letra tais condições, pois o Mestre quer sobretudo provocar a reflexão, pôr os discípulos a pensar, o que devia fazer qualquer escola. Ou seja, não podemos entender estas exigências como normativas para todas as circunstâncias: Ele mandou cuidar dos pais (cf Mt 15,3-9); e os discípulos (nomeadamente Pedro) fizeram-se acompanhar das esposas nas viagens missionárias (cf 1Cor 9,5). O que estes ensinamentos significam é que o discípulo é convidado a eliminar da sua vida tudo o que possa ser obstáculo no seu testemunho quotidiano do Reino e a despojar-se de si próprio, do orgulho, da vaidade e da tentação do carreirismo.
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Eliseu foi chamado por Deus, pela mão de Elias, para ser profeta em Israel, missão difícil e sujeita a perseguições como sucedera com Elias. Eliseu, que era rico, deixou tudo para ficar ao serviço de Deus. Entretanto, pediu a Elias que o deixasse ir abraçar a família, a que o profeta anuiu, mas avisando que não demorasse, porque Elias já tinha feito o que devia ter feito. Mais: Elias aceitou a incumbência da parte de Deus para chamar e ungir Eliseu, com o risco de a profecia de Eliseu eventualmente vir a denunciar falhas do antecessor, o que não lhe importou: As missões confiadas por Deus urgem!   
O gesto de Elias, ao cobrir Eliseu com a sua capa, indica o apelo do Senhor a uma missão que exige disponibilidade total: assim, Eliseu queima o arado, imola os bois para se encontrar completamente livre na entrega à sua missão. (vd 1Rs 19,16b.19-21).
Também os Apóstolos tinham sido corajosos para seguir o chamamento de Jesus. Deixaram as redes, o seu ganha-pão, deixaram a família, para andarem com Jesus. Com efeito, para seguir a Jesus, é preciso estar disposto a tudo. E o Senhor continua a fomentar no coração de muitos homens e mulheres esta generosidade ao serviço de Deus e dos outros. Por isso, deve a Igreja dar graças por tantos exemplos do nosso tempo, rezar para que não faltem as vocações e rogar pela extinção dos erros e pecados de tantos e tantas, que deslustram o ser e a missão da Igreja.
O amor aos pais não pode ser empecilho para a vocação específica a que Deus chama os filhos. Tantos não deixam que a filha vá para religiosa, pensando que não têm quem os trate quando forem velhos, mas deixam que ela case e vá viver para o Brasil ou para a Austrália. Por vezes, são as filhas religiosas que acabam por estar mais perto dos pais nas suas necessidades.
Ora, a generosidade para com Deus acaba por ser recompensada muitas vezes já neste mundo. De facto, Ele não é parco em generosidade, dando cem por um agora e, depois, a vida eterna.
Os sacerdotes, os religiosos e as religiosas, para se manterem na sua vocação, têm de decidir-se a entregar-se a sério à missão que o Senhor lhes confiou, na guarda do coração, na assiduidade da oração, no recurso à confissão e direção espiritual, na generosidade no apostolado.
Os pais deviam sentir alegria por Deus chamar os seus filhos para sacerdotes e/ou religiosos ou as filhas para religiosas. O pai de Teresa do Menino Jesus, São Luís Martin, é exemplo dessa alegria em dar os filhos a Deus. As cinco filhas vieram a ser carmelitas e uma da Visitação. Quando Teresa, com 14 anos, resolve ir para o Carmelo, vai ter com o pai a pedir a sua autorização e fica muito contente ao ver a resposta generosa do pai. Ao invés, muitos pais põem óbices à vocação dos filhos e acabam por ser ocasião, para eles, de afastamento de Deus e de seguimento, tantas vezes, de uma vida sem rumo, sem sentido e de desprimor.
Em maré de santos populares, a Igreja recorda os que souberam viver esta entrega a Deus. Assim, António de Lisboa ou de Pádua seguiu o apelo de Jesus e deixou as comodidades e as riquezas para imitar a Jesus na Sua pobreza e levar a Sua mensagem salvadora a muitos homens. João Batista, que se entregou desde jovem à oração e penitência e depois anunciou a chegada de Jesus e a excelência da missão messiânica, deu a vida pela verdade. O mundo inteiro louva-O nestes dias dizendo que valeu a pena a sua generosidade e sacrifício. E Pedro deixou as barcas e a família para ser Apóstolo de Jesus, arriscou a vida diversas vezes e morreu em Roma pregado numa cruz. Ao louvá-Lo nestes dias, a Igreja diz-nos que a sua vida valeu a pena.
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Os que são especialmente chamados e pretendem ser discípulos mais próximos de Jesus têm de sentir a liberdade de caminharem sem empecilhos e de O seguirem.
As passagens da Carta aos Gálatas (Gl 5,1.13-18) tomadas para 2.ª leitura da dominga aludem à liberdade – palavra que nos agrada e que estamos habituados a ouvir, a proclamar, a gritar e a cantar. Mas será esta liberdade tão apregoada prega Paulo? O Apóstolo prega a “verdadeira liberdade”, a dada por Jesus Cristo. Avisa os Gálatas de que foi para a liberdade que Cristo os libertou (veja-se o hebraísmo libertar para a liberdade, destinado a dar ao verbo “libertar” um sentido mais intenso) não convindo voltar a cair no jugo da escravidão (escravidão que Paulo identifica com a Lei e com a circuncisão).
A liberdade para o cristão não consiste na faculdade de escolher entre duas coisas distintas (isso é muito pouco) e opostas, muito menos será a independência ético-moral em virtude da qual cada um pode fazer o que lhe apetece, sem barreiras de qualquer espécie (isso pode dar em libertinagem). Segundo o Apóstolo, a verdadeira liberdade consiste em viver no amor; e o que nos escraviza, limita e impede de alcançar a vida em plenitude (“salvação”) é o desamor, a frieza, o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência. Ora, é preciso superar esse fechamento em nós próprios e fazer da nossa vida um dom de amor. Só é autenticamente livre quem se libertou de si próprio e vive para se dar aos outros. E esta liberdade nasce da vida que Cristo nos dá, ou seja, pela adesão a Cristo, gera-se em cada pessoa um dinamismo interior que a identifica com Cristo e lhe dá uma capacidade infinita de amar, de superar o egoísmo, o orgulho e os limites – a capacidade infinita de viver em liberdade. É o Espírito que alimenta, dia a dia, essa vida de liberdade (ou de amor) que se gerou em nós a partir da nossa adesão a Cristo.
Ao invés, viver na escravidão é continuar a viver uma vida centrada em si próprio (Paulo enumera, em Gl 5,19-21, as obras de quem é escravo), levando a que, chegada a ocasião nos mordemos e devoramos uns aos outros; mas viver na liberdade (“segundo o Espírito”) é sair de si e fazer da sua vida um dom, uma partilha (Paulo enumera, em Gl 5,22-23, as obras daquele que é livre e vive no Espírito), é viver amando o próximo como Cristo nos amou e ensinou a amar, ajudando, quais cireneus atrás de Jesus, a suportar as cargas dos outros.
Cristo libertou-nos pelo sofrimento, pela cruz e sobretudo pela aceitação plena da vontade de Deus Pai, que O levou a dar a vida por nós. A cruz é libertação. O homem santifica-se pelo sofrimento do quotidiano, que pode ser, para os jovens, uma falta de sucesso nos estudos, a dificuldade em arranjar o primeiro emprego, e, para os adultos, a morte dum familiar, uma crise financeira, a doença, o desemprego. Quantas revoltas, quantos desânimos nos assaltam por vezes! Porém, Deus está connosco. É Pai! Espera de nós a aceitação da Sua Paternidade, do Seu Amor. Não é destruindo-nos que nos libertamos, mas aceitando com alegria, com confiança e em toda a plenitude a exigência da Boa Nova de Cristo que é Caminho, Verdade e Vida.
2019.06.30 – Louro de Carvalho

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Nenhum profeta é bem recebido na sua terra



É uma verificação feita por Jesus na sinagoga de Nazaré, segundo o texto de Lucas (Lc 4,21-30) proclamado na Liturgia do 4.º domingo do Tempo Comum no Ano C.
Depois da leitura feita no domingo anterior em que Jesus Se assumiu como o concretizador da profecia de Isaías sobre a missão do profeta, com a frase sentenciosa “Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir”, ficamos surpreendidos pelo caminho do profeta.
Com efeito, as reações díspares dos ouvintes da profecia atualizada por Jesus (Is 61,1-2) revelam que o trilho profético do Messias, o profeta por excelência, é feito de solidão, risco e sofrimento, mas também de esperança, paz e segurança, pois a sua palavra será sempre Palavra de Deus.
O trecho evangélico desta dominga expõe a reação dos habitantes de Nazaré à ação e às palavras de Jesus: primeiro de júbilo e aclamação, admirados com as “palavras repletas de graça que saíam da sua boca”; depois, de revolta causada pela desilusão, porque, em vez do milagre, do espetáculo, o Messias, que não reconheceram, tocou-lhes na ferida do preconceito.
Como nós tantas vezes, também os conterrâneos de Jesus ficaram ofuscados pelo preconceito: É o filho de José. Vamos ver se é capaz de fazer na sua terra o que dizem ter feito em Cafarnaum. Estavam à espera do Deus-espetáculo e milagreiro, já que o leitor da profecia (Jesus) omitira o Deus da vingança. Ora, Jesus denuncia os propósitos e expectativas dos conterrâneos, exatamente iguais aos de alguns dos seus antepassados, ao dizer-lhes que nenhum profeta é aceite na sua terra, precisamente pelo preconceito, pelo apego a ideias feitas sobre a condição social, económica e cultural do protagonista. Julgavam pelas aparências e desafiavam à prática do milagre espetacular para que pudessem acreditar. Queriam ver para crer.    
O episódio sinagogal constitui uma rota programática, pois a Lucas não interessa descrever de forma coerente e lógica o sucedido em Nazaré aquando desta visita de Jesus, mas traçar os itens do programa messiânico, que é o texto de Is 61,1-2 devidamente atualizado por Jesus: a oferta de libertação aos pobres, marginalizados e oprimidos. Porém, essa oferta não é entendida e aceite pelo povo judeu (os “da sua terra”, os Seus), que espera o Messias milagreiro e espetacular. Os “seus”, que se mostram furiosos pela denúncia que Ele lhes fez das expectativas desviantes, rejeitam a proposta de Jesus e o Seu mistério e mister e tentam eliminá-Lo (prenúncio da morte na cruz). Porém, Jesus contrapõe-lhes a liberdade e vence os inimigos (indício da ressurreição) e o evangelizador segue o seu rumo evangelizante (“passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”), até chegar aos disponíveis para o acolhimento do mistério, da profecia, da salvação/libertação. Por isso, Jesus entende que a atitude dos ouvintes de Nazaré é desafiante como se Lhe dissessem “Medico, cura-te a ti mesmo” ou, como diríamos nós, “Mete-te na tua vida, já que não nos trazes novidade alguma”; e percebendo os seus intentos, alude a Elias e Eliseu, que pregaram aos pagãos porque Israel não estava disponível para escutar a Palavra de Deus, a profecia genuína, antes queriam que os profetas fizessem e dissessem o que eles queriam ver e ouvir.
Esta é a rota da Igreja: a comunidade crente toma consciência de que, no seguimento do caminho de Jesus, a sua missão é levar a Boa Nova aos pobres e marginalizados – como Elias fez com uma viúva de Sarepta ou como Eliseu fez com um leproso sírio. Se percorrer essa rota, a Igreja viverá na fidelidade a Cristo e pregará a todos, sejam pagãos, sejam judeus.
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Esta passagem evangélica remete-nos para Jeremias (“o homem que choraminga”) escolhido, consagrado e constituído profeta por Jahwéh, e que arrostará com todo o tipo de dificuldades, mas não desistirá de concretizar a sua missão e de tornar a Palavra de Deus uma realidade viva no meio dos homens, como se pode no texto assumido para a 1.ª leitura (Jr 1,4-5.17-19).
Jeremias inicia a sua atividade profética, com pouco mais de 20 anos (por volta de 627/626 aC), no reino de Judá, indo até depois da queda de Jerusalém nas mãos dos Babilónios (586 aC).
Naquela época muito conturbada, a nível político e religioso, em que Judá acabara de sair dos reinados de Manassés (698-643 aC) e de Amon (643-640 aC), reis ímpios que multiplicaram no país os altares a deuses estrangeiros e levaram o Povo a afastar-se de Jahwéh, surge Josias como rei de Judá (640-609 aC), um rei bom, que procurava eliminar o culto aos deuses estrangeiros e concentrar a vida litúrgica de Judá no Templo de Jerusalém. Mas, na sua reforma, Josias enfrentava resistências, pois quis, através de decreto e de repente, corrigir o coração do Povo e eliminar hábitos religiosos cultivados ao longo de algumas dezenas de anos. É, pois, neste ambiente que Deus chama Jeremias e o envia em missão.
Na primeira parte do trecho referenciado acima, Jeremias faz o relato do seu chamamento por Deus, que serve de sustentáculo à reflexão catequética sobre o mistério da “vocação”.
A vocação, na ótica de Jeremias, é um encontro com Deus e com a sua Palavra, Palavra que marca decisivamente a vida do profeta, passando a ser, para ele, a única valia. Por outro lado, a vocação é um desígnio divino, dado que foi Deus quem escolheu, consagrou e constituiu Jeremias como profeta. Três verbos essenciais para caraterizar a vocação: escolher, ou seja, tomar a iniciativa de estabelecer desde então com o profeta uma relação estreita e íntima, de forma que este, vivendo na órbita de Deus, aprenda a discernir os planos de Deus para os homens e para o mundo; consagrar, ou seja, pôr de parte o profeta o serviço divino; e “constituir”, ou seja, confiar ao profeta uma missão universal. Entretanto, atente-se em que tudo resulta da ação e da escolha de Deus: é iniciativa de Deus e não escolha do homem.
Na segunda parte, temos o envio do profeta, ou seja, ir a “dizer o que o Senhor ordenar”, sem medo nem servilismo, mas com a força do Alto para enfrentar os grandes e com a doçura de Deus para compreender o sofrimento dos oprimidos. Cá está: é o “caminho profético”, de risco, de sofrimento, de solidão, de conflito com os opositores à oferta de Deus – mas no repto divino à confiança: “não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar” (v 19).
Ora, Jeremias realizou o projeto de Deus: oportuna e importunamente, denunciou, criticou, demoliu e destruiu, edificou e plantou, sempre sob o signo da esperança e o juízo benévolo de Deus. A nível humano, o êxito foi reduzido, pois viraram-lhe as costas, marginalizaram-no, perseguiram-no e maltrataram-no a família, os amigos, o povo de Jerusalém, as autoridades, os sacerdotes. Todavia, o profeta não desistiu: Deus apoderou-Se-lhe de tal forma da vida e a paixão da Palavra agarrou-o de tal sorte que viveu até ao fim a missão com toda a intensidade.
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Atentando na dinâmica da vocação profética, vê-se que Deus quer estabelecer com o homem ume relação de intimidade, fidelidade e amor, uma relação modelar da relação que as pessoas devem ter entre si na comunidade, uma relação cooperante e comungante, desinteressada e gratuita – nunca uma relação interesseira, egoísta ou hegemónica.
A este propósito, vale a pena considerar o texto paulino da 1.ª Carta aos coríntios (1Cor 12,31-13,13), como um aviso ao “profeta”, que tem a força de virar a apóstolo e missionário, no sentido de se deixar guiar pelo amor e nunca pelo próprio interesse, pois só assim a missão fará sentido. É, como refere o último versículo do capítulo 12, “um caminho que ultrapassa todos os outros”.
Chamam a este texto o “hino ao amor” e até “o Cântico dos Cânticos da nova aliança”.
Conexo com os capítulos precedentes e com os capítulos seguintes, com os quais tem afinidades claras a nível literário e a nível temático, mesmo com o anterior texto referente à unidade e aos diversos carismas, pode este hino retirar-se do seu contexto sem que perca o sentido profundo. Com efeito, Paulo quer dizer, clara e apoditicamente, que só há um carisma absoluto: o amor.
Convém, entretanto, dizer que o amor de que Paulo fala neste hino é o amor (em grego, “ágape”) como é entendido pelo cristianismo: não o amor egoísta, que procura o próprio bem, não o amor-paixão, não só o amor-amizade, mas o amor paciente, fraterno, sincero, desinteressado, gratuito, sincero, fraterno, oblativo, que se preocupa e sofre com o outro, que procura o bem do outro sem esperar nada em troca, o amor-ágape – como decorre da análise do hino. E é neste relacionamento, inspirado pela fé e nutrido na esperança, que se edifica a Igreja – a comunidade dos que vivem o “ágape” – nascida do “ágape” de Deus em Cristo entregue por nós.
Num primeiro momento (13,1-3), Paulo sustenta que, sem amor, até as melhores coisas (fé, ciência, profecia, distribuição de esmolas pelos pobres, transporte de montanhas, entrega do corpo às chamas…) não têm sentido, porque só o amor dá sentido a toda a vida e experiência cristãs.
O segundo momento (13,4-7) apresenta literariamente o amor personalizado – uma pessoa, sugerindo que ele é a fonte e a origem de todos os bens e qualidades. A propósito, Paulo enumera 15 qualidades do verdadeiro amor – 7 formuladas positivamente e 8 oito de forma negativa – mas todas referidas a coisas simples e quotidianas, de modo que não se pense que este “amor” é algo que só diz respeito a sábios, a especialistas.
E, no terceiro momento, temos uma comparação entre o amor e o resto dos carismas. Os outros carismas são temporais e podem caducar, desde que não sejam necessários. Ao invés, o amor-ágape” nunca desaparecerá, não mudará. Porque é perfeito e sublime, permanecerá sempre. É neste oceano que navegamos como filhos de Deus no dinamismo terno da fraternidade universal. Fica, assim, confirmada a superioridade do amor frente a qualquer outro carisma, por mais apreciado que seja pelos coríntios ou por qualquer comunidade cristã.
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É, ainda, de considerar que os “profetas” são uma realidade com que Deus continua a contar para intervir no mundo e recriar a história. Os profetas de hoje somos nós, pois, fomos, no Batismo, ungidos como profetas, à imagem de Cristo, de quem somos caixa-de-ressonância e altifalantes. Por isso, temos de viver de olhos postos em Deus e de olhos postos no mundo.
Com efeito, vivendo em comunhão com Deus, intuindo o desígnio que Ele tem para o mundo e confrontando com esse desígnio a realidade humana, bem perceberemos a distância que vai da realidade ao sonho de Deus. E aí interviremos, em nome de Deus, para denunciar, avisar e corrigir. Mas a denúncia profética acarreta, muitas vezes, a perseguição, o sofrimento, a marginalização e, em tantos casos, a própria morte. E Cristo é o mártir, por excelência, da profecia.
Na proposta deste caminho de despojamento profético, Jesus não deixa ninguém indiferente. Os compatriotas admiram-se e espantam-se com o seu ensino, ficam furiosos e tentam expulsá-Lo da cidade. Mas é entre eles que Jesus inicia a sua pregação. Sabem quem Ele é, conhecem-Lhe a profissão, a família, mas ignoram o mistério. Não imaginam que Ele vem de Deus, é o Filho de Deus, mas também não estão dispostos a fazer a caminhada da descoberta com o conterrâneo. Querem um ser especial e não um homem da condição deles. Esperam o espetáculo de Deus e não a sua relação de intimidade encarnada! Esperam um Deus justiceiro e não um Deus que é amor e misericórdia, fidelidade e paz!
Como os profetas Elias e Eliseu, Jesus manifesta que Deus ama todos os homens, pelo que a salvação que veio trazer é oferecida a toda a humanidade, não só a Israel como este pensava.
O amor cristão, desinteressado que induz, por gratuitidade, a procura do bem do outro é a essência da experiência cristã. Desse amor partilhado nasce a comunidade de irmãos, a Igreja, o que vem a constituir forte censura à comunidade cristã que seja palco de lutas de interesses, de ciúmes, de rivalidades egoístas, de protagonismos e aproveitamentos porquê assim não está a dar testemunho evangélico.
O célebre hino de Paulo ao amor sugere a essencialidade da caridade e da justiça solidárias entre os irmãos, sendo a assembleia o lugar da aprendizagem e da primeira prática da atenção ao outro, do acolhimento do outro, do respeito pelo outro. Na Celebração Eucarística, Cristo manifesta a sua presença na Palavra, sob as espécies do pão e do vinho, na pessoa do sacerdote e na assembleia reunida em seu nome – o que postula que a assembleia não pode comportar-se como se os seus membros fossem “desconhecidos”, pois assim não manifesta genuinamente a presença do Senhor da Vida.
Tudo ficará mais apurado e afinado se tivermos a consciência clara de que fomos fadados para genuinamente cantar como o profeta “A minha boca proclamará a vossa salvação” (cf Sl 71,15ab) e se cada um de nós tiver o sentido da missão profética universal ou católico-apostólica para viver da realidade de que “O Senhor enviou-me a anunciar a boa nova aos pobres, a proclamar aos cativos a redenção” (Lc 4,18).
2019.02.03 – Louro de Carvalho

domingo, 13 de janeiro de 2019

Pelo nosso Batismo, tornamo-nos todos discípulos missionários


Com a Festa do Batismo do Senhor, abre-se em grande, a porta do Tempo Comum, em pleno Ano Missionário (e rumo a outubro de 2019, o mês missionário extraordinário). Jesus não Se manifesta de modo aparatoso e extraordinário. Antes Se manifestou extremamente humilde no Presépio; passou despercebido na família de Nazaré 30 anos; continua igual a Si mesmo, escondido entre o povo, entre a fila dos pecadores; desce às águas do Jordão e deixa-Se batizar por João; e inicia a Sua vida pública. E nós recordamos que, por via do Batismo, nos tornámos todos discípulos missionários no alinhamento com o mote para o Ano Pastoral em curso na diocese do Porto. 
A liturgia desta dominga de festa, que funciona como o domingo I do Tempo Comum, tem como pano de fundo o projeto salvador de Deus. No Batismo de Jesus nas margens do Jordão, o Pai revela-nos com gosto o Seu Filho muito amado, que enviou ao mundo a salvar e libertar os homens e que ungiu como Messias, com o Espírito Santo. E, cumprindo a vontade do Pai, Jesus fez-Se um de nós, partilhou a nossa fragilidade e humanidade, libertou-nos do egoísmo e do pecado e empenhou-Se em promover-nos para chegarmos à vida plena. Se, no presépio, surgiu como criança deitada em palhinhas, no Jordão apresenta-Se ao Batista como um simples penitente. E, quando o Batista se inibe, porque devia ser o Mestre a batizar o precursor, “Jesus respondeu-lhe: ‘Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça’.” (Mt 3,15). 
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Na 1.ª leitura (Is 42,1-4.6-7), num trecho pertencente ao Livro da Consolação ou Deuteroisaías (cf Is 40-55) anuncia-se um Servo, eleito por Deus e enviado a instaurar o mundo de justiça e de paz sem fim. Animado pelo Espírito de Deus, concretizará a missão com humildade e simplicidade, sem recurso ao poder, imposição ou prepotência, pois esses não são os critérios de Deus.
As duas partes em que se divide esta passagem de Isaías afirmam – como dois movimentos concêntricos e centrípetos, que partem do mesmo sítio e terminam de modo similar – a eleição do “Servo” e a sua missão.
Na primeira parte (vv 1-4) desenvolvendo-se mais o aspecto da vocação ou chamamento, afirma-se que o Servo é um eleito (behir) de Deus, alguém que Deus escolheu (bahar), entre muitos, para uma missão especial e universal. A ordenação ou configuração do Servo para a missão faz-se através do dom do Espírito (ruah), que lhe dá o alento de Jahwéh e a capacidade para levar a cabo a missão: é o mesmo Espírito que Deus derrama sobre os chefes carismáticos do Povo. Com esse Espírito, o “Servo” levará, sem desânimo, mas com ousadia e coragem, “a justiça (mishpat) a todas as nações”, que será a base duma ordem social consonante com o projeto de Deus e cuja instauração não se dará com o recurso à força, violência, espetáculo, mas através da bondade, mansidão, misericórdia e simplicidade – definidas pela lógica de Deus (cf Mt 5,3-11).
Já na segunda parte (vv 6-7), embora comece por afirmar-se que o Servo foi chamado por Deus, sobressai mais a missão: a instauração da justiça, ou seja, o estabelecimento de uma reta ordem social. Assim, Deus convida o Servo a ser “a luz das nações”, abrindo os olhos aos cegos, tirando do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas – uma missão de libertação e de salvação (cf Is 61,1-3; Lc 4,17-19).
Fica, enfim, claro que o Servo é um instrumento pelo qual Deus age no mundo para levar a salvação aos homens. Escolhido entre muitos para a missão de trazer a justiça e propor a todas as nações uma nova ordem social de que desaparecerão as trevas alienantes e impeditivas de caminhar e de oferecer a todos a liberdade e a paz. Por outro lado, fica evidente que Deus está na origem da missão do Servo e no acompanhamento da sua concretização, a garantir-lhe o pleno êxito.
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O Evangelho (Lc 3,15-16.21-22) mostra a concretização, em Jesus, da promessa profética de Isaías veiculada pela 1.ª leitura. Porém, Jesus mais que o Servo é o Filho de Deus enviado pelo Pai. Sobre Ele repousa o Espírito para que realize a missão de libertação dos homens. Obediente ao Pai tornou-se uma pessoa humana, identificou-Se com as nossas fragilidades, caminhou ao nosso lado, com vista a levar-nos à reconciliação com Deus, que nos dará a vida em plenitude.
O Batismo de João, um batismo de penitência, não é o Batismo que Jesus instituiu, o da nova economia da Aliança, o que abre o caminho da salvação e da comunhão com Deus:
Eu batizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu (…). Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo.” (Lc 3,16).
Todavia, é importante por revelar a teofania da filiação divina de Jesus e da missão messiânica:
Todo o povo tinha sido batizado; tendo Jesus sido batizado também, e estando em oração, o Céu rasgou-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado’.” (Lc 3,21-22).
Fica evidente que o contexto da sagração de Jesus para a missão é a assimilação ao povo, aos irmãos e a oração. Depois, ao invés do fechamento céu para os judeus, que tolhia a comunicação de Deus com os homens (não enviava profetas, estavam sujeitos ao jugo romano: parecia que Deus os tinha abandonado), agora o Céu rasga-se: o Espírito Santo desce em forma corpórea e o Pai fala. E diz de e a Jesus: Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado’. Que mais queremos para a teofania divina em Jesus e para a sua missão? A sua unção messiânica não é comum: não é unção com o óleo humano, mas unção radical e totalmente divina.
Em efervescência messiânica, a figura e a atividade de João Batista na Palestina criam a suspeita do seu messianismo. Mas João rejeita categoricamente tal suspeita. Ele não é o Messias; a sua missão, mesmo como ministrador do batismo de penitência e de purificação, é a de preparar o Povo para o tempo novo que vai começar com a chegada do Messias, que João define como “aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno desatar as correias das sandálias”. “Desatar as correias das sandálias” era tarefa de escravo, pelo que a tradição rabínica proibia o discípulo de desatar as correias das sandálias do mestre. Assim, João confessa-se o “escravo” cuja missão é estar ao serviço do Messias que está a chegar e que “batizará com o Espírito e com o fogo”. O batismo no Espírito Santo e a fortaleza são prerrogativas que enformam o Messias que Israel esperava. Por isso, o testemunho de João não oferece dúvidas: chegou o tempo do Messias. Na ótica lucana, esta predição joânica concretizar-se-á no dia de Pentecostes: Do fogo do Messias derramado sobre os discípulos reunidos no cenáculo nascerá um Povo novo e livre, a comunidade da nova Aliança.
O cenário do batismo identificará claramente o Messias anunciado por João com o próprio Jesus (vv 21-22). O Espírito Santo, que desce sobre Jesus “como uma pomba”, remete para a figura do Servo descrito por Isaías, já referido. E a voz celeste apresenta Jesus como o Filho muito amado de Deus (v 22), cuja missão será, como a do Servo: “abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas” (Is 42,7). E, para concretizar essa missão, Ele batizará no Espírito e inserirá os homens numa dinâmica de vida nova – a vida no Espírito.
No “baptismo” de Jesus, o testemunho de Deus acerca de Jesus é acompanhado por três factos estranhos que, no entanto, devem ser entendidos em referência a factos e símbolos do Antigo Testamento: abertura do céu, que significa a sua união com a terra – imagem inspirada em Is 63,19 (Quem dera que rasgasses os céus e descesses, derretendo os montes com a tua presença), onde o profeta pede a Deus que abra os céus e desça ao encontro do seu Povo, refazendo a relação que o pecado interrompeu (Assim, Lucas anuncia que a atividade de Jesus vai reconciliar o céu e a terra, vai refazer a comunhão entre Deus e os homens); símbolo da pomba, que, podendo ser uma alusão à pomba que Noé libertou e que retornou à arca, com maior probabilidade evocará a pomba que, em certas tradições judaicas, é símbolo do Espírito de Deus que, no início, pairava sobre as águas e agora significará a nova criação que se realizará a partir da atividade que Jesus vai iniciar e que fará aparecer um Homem Novo animado pelo Espírito de Deus; e a voz do céu – forma muito usada pelos rabis para expressar a opinião de Deus acerca duma pessoa ou dum acontecimento –, que declara que Jesus é o Filho de Deus.
Jesus não precisava dum batismo cujo significado estava ligado à penitência, ao perdão dos pecados e à mudança de vida. Contudo, ao receber este batismo de penitência e de perdão dos pecados, Jesus solidarizou-Se com o homem limitado e pecador, assumiu a sua condição, colocou-Se ao lado dos homens para os ajudar a sair desta situação e para percorrer com eles o caminho da libertação rumo à vida plena.
O Batismo de Jesus revela, portanto, que Jesus é o Filho de Deus, que o Pai O envia ao mundo a cumprir um projeto de libertação em prol dos homens. E, como Filho, Jesus obedece ao Pai e concretiza o Seu desígnio salvador: vindo ao encontro dos homens, solidariza-Se com eles, assume as suas fragilidades, caminha com eles, refaz a comunhão entre Deus e os homens que o pecado interrompeu e conduz os homens ao encontro da vida em plenitude. Daqui resultará, pois, uma nova criação, uma nova humanidade.
Por fim, é de reconhecer que Jesus, a partir do Seu Batismo na água, deu um novo sentido ao Batismo: veio o Espírito, que O levará ao deserto, à criação do colégio apostólico, à cruz e nos dará o Pentecostes. E, tal como Jesus, após o batismo, ficou mandatado para a missão, também nós, pelo batismo que recebemos em nome de Cristo, ficamos matriculados como discípulos na escola do mestre com vista à missão que nos entregou aquando da Sua ascensão aos Céus:
E disse-lhes: ‘Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto’. Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu.” (Lc 24,46-51).
 Somos, pois, discípulos missionários a partir do Batismo, com a nossa incorporação em Cristo.
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A 2.ª leitura (At 10, 34-38) leva-nos a uma leitura pascal e missionária do Batismo de Jesus. à luz da qual também nós somos seres pascais, porque revestidos da luz de Cristo, e missionários porque testemunhas suas e seus mandatados para ir por todo o mundo proclamar o Evangelho a toda a criatura (cf Mc 16,15).
Pedro diz que, depois do batismo de João, Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, que “passou pelo mundo fazendo o bem” e libertando todos os que eram oprimidos. Entretanto, mataram-No, suspendendo-O de um madeiro. Mas Deus ressuscitou-O, ao terceiro dia, e permitiu-Lhe manifestar-Se às testemunhas anteriormente designadas por Deus, “a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos”. E mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído, por Deus, juiz dos vivos e dos mortos (cf At 10,37-42). Tem, assim, tudo origem no Batismo do Jordão na perspetiva petrina. Com efeito, enquanto os evangelhos sinóticos, após o Batismo O remetem para o deserto, conduzido pelo Espírito para ser tentado e depois se afirmar como o Ungido de Deus e pregar a proximidade do Reino, o 4.º Evangelho apresenta-O, a seguir ao batismo, como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e a recrutar e selecionar os discípulos para o colégio apostólico e para a missão. Pedro assim reafirma que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou ao mundo para concretizar um projeto de salvação e que é este o testemunho que os discípulos devem dar, para que a salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da terra.
O livro dos Atos contém, em modo narrativo e, por vezes, oratório, uma abundante catequese, na etapa inicial da Igreja, sobre a forma como os discípulos, após a partida de Jesus deste mundo, assumiram e continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram a todos os homens.
O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf At 1-12), apresenta-se a difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; e, na segunda (cf At 13-28) apresenta-se a expansão do Evangelho fora da Palestina (até Roma), sobretudo por ação de Paulo.
O trecho assumido nesta liturgia inere-se na primeira parte, numa perícopa que descreve a atividade missionária de Pedro na planície do Sharon, planície junto da orla mediterrânica palestina. O texto expõe o testemunho de Pedro em Cesareia. Assim, convocado pelo Espírito (cf At 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a família (cf At 10,23b-48).
A relevância do episódio reside no facto de Cornélio ser o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze, o que significa que se destina a todos os homens, sem exceção, a vida nova que nasce de Jesus.
No seu discurso, Pedro reconhece que a oferta da salvação é universal, ou seja, destina-se a todas e a cada uma das pessoas, sem distinção de qualquer tipo (vv 34-36). Israel foi, na verdade, o primeiro recetor da Palavra de Deus, mas Cristo veio trazer a boa nova a todos os homens. E agora, por intermédio das testemunhas de Jesus, essa proposta de salvação chega “a qualquer nação que o teme e põe em prática a justiça”. Ou seja, todo o homem e mulher, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, que aceita a proposta e adere a Jesus, beneficiam da salvação, porque “Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, é-lhe agradável (cf 34-35).
E definidos os contornos universais da proposta salvadora de Deus, Pedro apresenta um resumo da fé primitiva (vv 37-38), que põe em ato a missão fundamental dos discípulos: anunciar Jesus e testemunhar essa salvação que deve chegar a todos os homens. O trecho de hoje contém apenas a parte inicial do “kérigma” primitivo e resume a atividade de Jesus que “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele” (v 38). No entanto, o anúncio de Pedro continua com a catequese sobre a morte (v 39), sobre a ressurreição (v 40) de Jesus e sobre a dimensão salvífica da Sua vida (v 43).
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Partindo do Batismo no Jordão, em que o Pai e o Espírito revelam a filiação divina de Jesus e o ungem como Messias, fazendo a caminhada no colégio discipular e apostólico até à cruz, onde Jesus sofreu na carne o Batismo do sangue e do fogo, e ao túmulo vazio, em que se perspetiva a vitória, e apoiando-nos no episódio da Última Ceia, encontramos o segredo do mistério de Jesus Cristo, a relevância do nosso ser de cristãos e filhos de Deus e o imperativo da nossa missão.
2019.01.13 – Louro de Carvalho