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sábado, 12 de outubro de 2019

Canonização do Cardeal Newman, doutor da razão, da fé e da relação


No contexto do Sínodo dos Bispos para a região pan-amazónica, Francisco vai canonizar, a 13 de outubro, o Cardeal John Henry Cardeal Newman, as religiosas Giusepinna Vannini, Mariam Thresia Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e a leiga Marguerite Bays.
O percurso eclesial do Cardeal a canonizar suscita uma oportuna reflexão.
John Henry Cardeal Newman, (nascido em Londres, a 21 de fevereiro de 1801, e falecido em Edgbaston, a 11 de agosto de 1890), foi um sacerdote anglicano inglês convertido ao catolicismo, posteriormente feito cardeal pelo Papa Leão XIII em 1879: Cardeal-diácono de São Jorge em Velabro, passando a Cardeal-protodiácono em 8 de fevereiro de 1890. Proclamado venerável, em 1991, por São João Paulo II, depois de uma intensa investigação sobre a sua vida e as suas obras feita pela Congregação para as Causas dos Santos, foi beatificado pelo Papa Bento XVI no dia 19 de setembro de 2010, em Birmingham, no âmbito da visita de estado papal ao Reino Unido. Nessa ocasião, o escultor Tim Tolkien (bisneto de J.R.R. Tolkien) apresentou uma estátua de Newman que o Papa benzeu.
John Henry Newman, nascido de família anglicana (sua mãe tinha ascendência francesa huguenote) e falecido em 1890, tendo estudado no Trinity Cllege de Oxford (1816) e no Oriel College (1822), foi sacerdote oratoriano, teólogo e cardeal. Destacou-se como homem de incessante e apaixonada busca pela verdade, não deixando que renome, títulos ou a honra pessoal se interpusessem entre ele e o objetivo maior que almejava. Assim, é eloquente o seu epitáfio “Ex umbris et imaginibus in veritatem”. Por isso, teve longa e frutuosa vida caraterizada pelas conversões. Passou pela primeira conversão aos 15 anos, quando começou a destinar-se ao serviço eclesial. Depois, foi ordenado na Igreja Anglicana, em 1824, onde se desenvolveu como um dos seus mais brilhantes pensadores e teólogos, ensinando e pregando na prestigiosa Universidade de Oxford. Durante o período anglicano envolveu-se em diversas controvérsias contra o liberalismo teológico, tendo sido um dos protagonistas do Movimento de Oxford, sobretudo na oposição ao racionalismo e ao fideísmo, diatribe típica do século XIX. Na sua carreira académico-teológica, pontuada por uma riquíssima vivência espiritual, dedicou-se ao estudo da Igreja primitiva, o que lhe fez compreender que a plenitude da Revelação se encontra na Igreja Católica Romana, a verdadeira Igreja fundada por Cristo. Ao deparar-se com esta verdade, tomou a decisão de se converter ao catolicismo em 1845, o que lhe acarretou muitos dissabores, sobretudo pela sua posição de destaque na Igreja Nacional Inglesa. Dois anos depois, foi ordenado sacerdote católico em Roma e fundou, já na Inglaterra, a Congregação do Oratório de São Felipe Néri, santo italiano do período da Reforma com quem se identificou. E, já quase octogenário, foi criado cardeal pelo Papa Leão XIII, sendo que o lema que então adotou diz muito da sua postura religiosa e espiritual: Cor ad cor loquitur.
Em termos filosófico-teológicos, não foi um tomista tout court, foi mais um seguidor de Santo Agostinho, quer pela identificação psicológica típica do convertido, quer pela influência que a Patrística exerceu sobre ele desde o seu período anglicano. A proximidade com Agostinho fica patente na análise da interioridade que promove nos seus trabalhos, em especial na sua obra-prima, a Apologia Pro Vita Sua – o que não impediu que o Cardeal saudasse vivamente o Papa Leão XIII aquando da publicação da encíclica Aeterni Patris, sobre a restauração da Filosofia Cristã nas Escolas Católicas no Espírito do Doutor Angélico, São Tomás de Aquino:
Dirijo estas linhas a Vossa Santidade para expressar o agradecimento que todos sentimos pela oportuna encíclica que publicou (...).”.
É o teólogo cronologicamente mais próximo citado pelo Catecismo da Igreja Católica (1992), onde é aparece quatro vezes, e um dos pouquíssimos ali presentes que não constava do rol de Beatos e Santos (com Tertuliano, por exemplo) – observação que deixa de fazer sentido a partir do dia 13. Também é citado na Encíclica Veritatis splendor e em locuções de São João Paulo II (como um dos campeões mais universais e ilustres da espiritualidade inglesa) e do então Cardeal Ratzinger, quando prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (“Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento”).
As suas obras distribuem-se por muitos tomos, entre obras de Apologia, Dogmática, Romances, Poesia, Sermões, Traduções etc. E ainda se conservam no Oratório de Birmingham milhares de cartas aos mais diversos destinatários (parentes, amigos, políticos, Papas etc.). Com efeito, considerava o apostolado epistolar de grande validade e eficácia. Também como fundador da Universidade de Dublin, torna-se um grande nome na Pedagogia e, em especial, no âmbito educação católica.
A Apologia Pro Vita Sua e a Carta ao Duque de Norfolk constituem a sua obra mais famosa, escrita para se defender dos ataques feitos por um anglicano contra a sua conversão e contra a Igreja Católica. Na Apologia, tece uma série de comentários sobre a sua vida espiritual, estudos teológicos e motivos para se ter convertido; e, na Carta, trata a questão da infalibilidade papal, defendendo-a contra as considerações erróneas do Primeiro-Ministro Gladstone e traça luminosamente os contornos da consciência individual, seus direitos e deveres.
A propósito de Newman, o Cardeal Dom José Tolentino Mendonça publica, na Revista do Expresso de hoje, na rubrica “Que coisa são as nuvens”, um texto sob o título “John Henry Cardeal Newman”, em que afirma que Newman é um dos precursores do Concílio Vaticano II. E destaca três vertentes: a valorização do laicado, transcrevendo-se praticamente o seu pensamento na Lumen Gentium, n.º 12, ao referir-se o papel dos fiéis leigos em matéria de fé; o primado da consciência (e Tolentino Mendonça menciona a Carta ao Duque de Norfolk), enquanto a capacidade que o homem tem de reconhecer a verdade e o dever de se encaminhar para ela –doutrina assumida na Gaudium et Spes, n.º 16 (“a consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”); e o ecumenismo. Para este item Tolentino de Mendonça menciona e transcreve alguns versos de um poema de Newman que se tomou um dos hinos espirituais mais repetidos nas igrejas cristãs:
Sê tu a conduzir-me, luz gentil/ Sê tu a guiar-me na escuridão que me cerca;/ A noite avança e a minha casa é distante/ Sê tu a conduzir-me, luz gentil”.
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A produção bibliográfica do Cardeal Newman, distribuída pelo período anglicano e pelo período católico, é vastíssima. Registam-se os títulos para se aquilatar da sua grande quantidade e de cuja qualidade falam os estudiosos, incluindo Sumos Pontífices.
Assim, do período anglicano: Arians of The Fourth Century (1833-1871); Tracts for the Times (1833-1841); British Critic (1836-1842); On the Prophetical Office of the Church (1837 | 1877) (Via Media, vol. 1) com prefácio à 3.ª edição; Lectures on Justification (1838 | 1874); Parochial and Plain Sermons, vol. 1 (1834 | 1869), vol. 2 (1835 | 1869), vol. 3 (1836 | 1869), vol. 4 (1839 | 1869), vol. 5 (1840 | 1869), vol. 6 (1842 | 1869), vol. (1842 | 1869) e vol. 8 (1843 | 1869); Select Treatises of St. Athanasius (1842, 1844); Lives of the English Saints (1843-4); Via Media, vol. 2 (várias | 1883); Essays on Miracles (1826, 1843 | 1870); Oxford University Sermons (1843 | 1871); Sermons on Subjects of the Day (1843 | 1869); Development of Christian Doctrine (1845 | 1878) e Retractation of Anti-Catholic Statements (1845 | 1883).
E, do período católico: Faith and Prejudice and Other Sermons (várias); Discourses to Mixed Congregations (1849); Difficulties of Anglicans (1850); Present Position of Catholics in England (1851); Idea of a University (1852 and 1858 | 1873); Cathedra Sempiterna (1852); Callista (1855 | 1888); The Rambler (1859-1860) com On Consulting the Faithful (1859); Apologia (1865); Apologia (1864 and 1865); Letter to Dr. Pusey (1865) (Anglican Difficulties, vol. 2); The Dream of Gerontius (1865); Grammar of Assent (1870); Sermons Preached on Various Occasions (várias | 1874); Letter to the Duke of Norfolk (1875) (Anglican Difficulties, vol. 2); Five Letters (1875); Sermon Notes (1849-1878); Meditations and Devotions; Select Treatises of St. Athanasius (1881 | 1887) vol. 1 – Translations vol. 2 – Appendix of Illustrations; On the Inspiration of Scripture (1884) e Development of Religious Error (1885). Miscelâneas: Addresses to Cardinal Newman and His Replies with Biglietto Speech (1879); Discussions and Arguments (várias | 1872); Essays Critical and Historical (várias | 1871) vol. 1, vol. 2; Historical Sketches (várias | 1872) vol. 1, vol. 2 (with Church of the Fathers) vol. 3; Historical Tracts of St. Athanasius (1843); Prefaces Froude’s Remains (1838), Hymni Ecclesiae (1838), Library of Fathers (various), Catena Aurea (1841), Church and Empires (1873), Notes of Visit to the Russian Church (1882), Sayings of Cardinal NewmanTracts Theological and Ecclesiastical (várias | 1871) e Verses on Various Occasions (várias | 1867).
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A sabedoria e a ortodoxia doutrinária de Newman foram louvadas por Leão XIII, por São Pio X e pelo Servo de Deus Pio XII. No séc. XX, já depois da morte do cardeal inglês, Pio XII chegou mesmo a afirmar que Newman é a “Glória da Inglaterra e de toda a Igreja”.
Por ocasião da comemoração do centenário da sua morte, o então Cardeal Joseph Ratzinger (hoje, o Papa emérito Bento XVI), prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé, referiu-se a Newman, em 28 de abril de 1990, dizendo que dele aprendemos a compreender o primado do Papa e que a liberdade de consciência “não se identifica de modo algum com o direito de “dispensar-se da consciência, de ignorar o Legislador e o Juiz, e de ser independente de deveres invisíveis”. Assim, no seu significado autêntico, a consciência é o verdadeiro fundamento da autoridade do Papa. De facto, a sua força vem da Revelação, que completa a consciência natural iluminada de maneira apenas incompleta, e “a sua razão de ser é o facto de ser o campeão da lei moral e da consciência”.
No âmbito do desenvolvimento do dogma, Ratzinger considerava que a doutrina de Newman sobre a consciência fora o seu contributo decisivo para a renovação da teologia, pois, com isto, deu-nos a chave para inserir na teologia um pensamento histórico, ou seja, ensinou-nos a pensar historicamente a teologia e a reconhecer a identidade da fé em todas as mutações.
Depois, salienta que a conceção de Newman sobre a ideia do desenvolvimento marcou o seu caminho rumo ao catolicismo. Mas adverte:
Contudo não se trata apenas de um desenvolvimento coerente de ideias. No conceito de desenvolvimento está em jogo a própria vida pessoal de Newman. Parece-me que isto se torna evidente na sua conhecida afirmação, contida no famoso Ensaio sobre o Desenvolvimento da Doutrina Cristã: ‘aqui, na terra, viver é mudar, e a perfeição é o resultado de muitas transformações’. Newman foi ao longo de toda a sua vida uma pessoa que se converteu, que se transformou e, desta forma, permaneceu sempre ele mesmo, e tornou-se sempre mais ele mesmo.”.
Na verdade, continua Ratzinger, Newman expôs na ideia do desenvolvimento a própria experiência pessoal de uma conversão jamais concluída e, assim, ofereceu-nos a interpretação não só do caminho da doutrina cristã, mas também da vida cristã. E arrisca: O sinal caraterístico do grande doutor da Igreja parece-me que seja aquele que ele não ensina só com o seu pensamento e com os seus discursos, mas também com a sua vida, porque nele pensamento e vida compenetram-se e determinam-se reciprocamente. Se isto é verdade, então Newman pertence deveras aos grandes doutores da Igreja, porque ele toca ao mesmo tempo o nosso coração e ilumina o nosso pensamento.”.
E Tolentino Mendonça, na rubrica citada, diz-nos mais sobre a perspetiva cristã, académica, antropológica e de fé de Newman. Newman mostra que o contributo dos crentes se joga também na construção cultural e fá-lo, por exemplo, ajudando a pensar que o que é uma universidade: não como um lugar fragmentado de saberes e especialidades, mas como laboratório de consciência crítica que ensina a pensar com rigor e com humildade, tendo como finalidade prática formar pessoas capazes de elevarem o tom da sociedade. Mas é no campo da hermenêutica da experiência religiosa e na defesa da legitimidade racional do ato de fé que o mestre de Oxford mais se empenhou. E foi concluindo que “o ato ou processo de fé é certamente um exercício da razão”. Recusa a redução do homem a uma máquina de raciocínios, mas “complementa o raciocínio raciocinante com o exercício da relação continuamente operado pelo homem”, podendo deduzir-se do raciocínio e da obra de Newman que “um grande livro de teologia é sempre um texto de cultura capaz de ressoar para lá do seu tempo”.

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A partir do dia 13 de outubro, além de se estudar Newman, também se invocara como santo. Esperemos que, em consonância com o que sustentava Ratzinger, ele venha a ser declarado doutor da Igreja.
Confesso que fiquei intrigado quando, no ano letivo de 1969-70, o vice-reitor do Seminário de Lamego, o Cónego Simão Morais Botelho, me ofereceu o livro “Cardeal Newman – ecumenismo e fidelidade”, de Christopher Hollis para eu ler e estudar. Mas fi-lo e verifiquei o modo como o teólogo britânico articulava tão bem as duas vertentes do crente: a fidelidade e a capacidade de pensar. E, noutro campo, o rigor do pensamento e a capacidade de relação, a certeza da fé católica e a obrigação da abertura ao diálogo ecuménico. Isto em tempos da valorização excessiva dos ritos, da crença anatematizante, da obediência cega ou do hipercriticismo como forma de estar e agir.
Veio o Concílio Vaticano II com Paulo VI e tudo se tornou mais claro, veio o Papa Francisco e tudo se torna mais atraente e empático.
Cf Hollis, Christopher, Cardeal Newman – ecumenismo e fidelidade, Livraria Civilização Editora, Porto: 1969; Mendonça, José Tolentino, Que coisa são as nuvens, in Revista, Expresso, 12-10-2019; Pêcego, Daniel, Cardeal Newman, in AQUINATE, n.° 5, (2007), 380-383; e https://pt.wikipedia.org/wiki/John_Henry_Newman.
2019.10.12 – Louro de Carvalho

domingo, 1 de setembro de 2019

“Convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos e serás feliz”


É a recomendação de Jesus ao fariseu que o convidara para um banquete e em que compareceu. Aí, como se pode ler na passagem do Evangelho tomada para a proclamação e meditação na Liturgia da Palavra do 22.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 14,1.7-14), o Senhor dá a lição da humildade aos comensais: que não procurem os primeiros lugares nos banquetes, mas que tentem ocupar os últimos. É uma questão de bom senso. Se alguém ousa ocupar os lugares cimeiros, pode o anfitrião vir a rogar-lhe que desça, pois aquele lugar era para outrem; mas, se ocupa um dos últimos lugares, pode o anfitrião vir a convidá-lo a subir um pouco. E ficou a máxima de sabedoria: “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.
E ao anfitrião Jesus dá a lição da gratuitidade e da dádiva generosa e sem retorno:
Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles, por sua vez, te convidem e assim serás retribuído. Mas, quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.”.
A humildade, como bom senso, alia-se ao dom da verdade, da gratuitidade, da generosidade – virtudes que edificam o homem (homo, hominis, em latim), ou seja, o ser que vive no ambiente terreno, o húmus (em latim, húmus, húmus ou humi significa “terra fértil”). De humus derivou-se a palavra humanus, a, um (humano, que vive na terra, que dela foi tirado) e a palavra humilis,e (humilde; em grego, tapeinós, ligado à terra) e a palavra humilitas, humilitatis (humildade; em grego, tapeinótês).  
A humildade é dote de quem se julga terreno, embora com ânsia de céu: aceita a condição de viver na terra para entrar no céu: “Vós aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste” (Heb 12,22). É bom que seja cada um a reconhecer a sua condição, não o rebaixe alguém a nível inferior ao da terra. Quem o faz humilha, rebaixa, espezinha, ofende.
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Este banquete em dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus é mais uma etapa do caminho de Jerusalém. Era a refeição solene de sábado que se tomava por volta do meio-dia, ao voltar da sinagoga. Para ela se convidavam os hóspedes, continuando-se a discussão sobre as leituras escutadas no ofício sinagogal.
Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus próximos de Jesus a ponto de o convidarem para casa e a sentar-se à mesa com eles (cf Lc 7,36; 11,37), ao passo que Marcos e Mateus apresentam os fariseus como os grandes adversários de Jesus. Os fariseus formavam um dos principais grupos religioso-políticos da sociedade palestina da época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos. A sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah, escrita e oral. Era um grupo sério, empenhado na santificação do Povo. Porém, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas e passavam por cima do amor e da misericórdia. Ao considerarem-se como “puros” (por viverem de acordo com a Lei), desprezavam o “am aretz” (o “povo do país”) que, pela ignorância e dureza de vida, não cumpria integralmente os preceitos da Lei. Conscientes das suas capacidades, integridade e superioridade, não eram modelos de humildade, o que explica a procura dos lugares de honra.
O “banquete” é, no mundo semita, o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham o mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, proximidade, familiaridade, irmandade. Jesus aparece, muitas vezes, envolvido em banquetes, não porque fosse “comilão e bêbedo” (cf Mt 11,19), mas porque, ao ser sinal de comunhão, de encontro, de familiaridade, o banquete anuncia a realidade do Reino de Deus.
O texto desenvolve-se em duas partes. A 1.ª (vv. 7-11) enaltece a humildade; a 2.ª (vv. 12-14), a gratuitidade e do amor desinteressado. Ambas estão unidas pelo tema do Reino.
As palavras que Jesus dirigiu aos convidados que disputavam os primeiros lugares não são novidade, pois já o AT aconselhava a não ocupar os primeiros lugares (cf Pr 25,6-7); mas o que era uma exortação moral converte-se numa apresentação do Reino e da lógica do Reino: o Reino é espaço de irmandade, fraternidade, comunhão, partilha e serviço, que exclui qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, de domínio sobre os outros. Para entrar nele, é necessária a pequenez, a simplicidade, a humildade, com a renúncia à pretensão de ser o melhor, o mais justo, o mais importante. O próprio Jesus, na “ceia de despedida” com os discípulos na véspera da sua morte, lavou os pés aos discípulos e constituiu-os em comunidade de amor e de serviço, avisando que, na comunidade do Reino, os primeiros serão os servos de todos (cf Jo 13,1-17). É reconhecer a verdade da vida e do homem para chegar à verdade do Reino.
Por outro lado, Jesus põe em causa – em nome da lógica do Reino – a prática de convidar para os banquetes apenas os amigos, os irmãos, os parentes, os vizinhos ricos. Os fariseus escolhiam cuidadosamente os convidados para a mesa. Nas refeições, não convinha haver alguém de nível menos elevado, pois a “comunidade de mesa” vinculava os convivas e não convinha estabelecer laços com gente desclassificada e pecadora (por exemplo, nenhum fariseu se sentava à mesa com alguém pertencente ao “am aretz”, ao “povo da terra”, desclassificado e pecador). E os fariseus tinham a tendência (própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas) de convidar os que podiam retribuir da mesma forma. Era o intercâmbio de favores e não a gratuitidade e dádiva desinteressada.
Jesus, denunciando esta prática em nome do Reino, vai mais além e apresenta uma proposta subversiva: é preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” – que eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus, pelo que estavam proibidos de entrar no Templo (cf 2Sm 5,8) para não profanar o lugar sagrado (cf Lv 21,18-23). Ora, são esses que devem ser os convidados para o “banquete”.
Jesus já não fala simplesmente dessa refeição em casa dum fariseu, na companhia de gente distinta; mas fala do que esse “banquete” anuncia e prefigura: o banquete do Reino. Jesus traça os contornos do Reino: é apresentado como um “banquete”, onde os convidados estão unidos por laços de familiaridade, irmandade, comunhão: para ele são convidados todos sem exceção (incluindo os que a cultura social e religiosa exclui e marginaliza); as relações entre os que aderem ao banquete não são marcadas pelos jogos de interesses, mas pela gratuitidade e pelo amor desinteressado; e os participantes do “banquete” devem despir-se de qualquer atitude de superioridade, orgulho, ambição, para se colocarem numa atitude de humildade, de simplicidade, de serviço – uma atitude de autenticidade, mostrando a verdade da vida.
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Já o livro de Ben-Sirah nos dá a lição da humildade contra a soberba (Sir 3,19-21.30-31): “Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso”.
No início do séc. II a.C., quando os selêucidas dominavam a Palestina e o helenismo tinha começado a ação de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel, muitos judeus (incluindo membros de famílias de origem sacerdotal), deixando-se seduzir pelo brilho da cultura helénica, abandonavam os valores dos pais e aderiam aos valores da cultura invasora. Então surge Jesus Ben-Sirah, um judeu tradicional, orgulhoso da sua fé e dos valores israelitas, e, consciente de que o helenismo ameaçava as raízes do Povo, escreve para defender o património religioso e cultural do judaísmo. Tenta convencer os compatriotas de que Israel possui, na Torah revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” e muito superior à “sabedoria” grega. Aos israelitas atraídos pela cultura grega lembra a herança comum, vincando a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à cultura grega.
O texto tomado como 1.ª leitura pertence à primeira parte do livro (cf Sir 1,1-23,38), em que se apresenta a “sabedoria”, criada por Deus e oferecida a todos os homens. Aí predominam os “ditos” e “provérbios” que ensinam a arte de bem viver e de ser feliz.
O texto apresenta-se como uma “instrução” que um pai dá ao seu filho e cujo tema fundamental é a humildade. Para Ben-Sirah, a humildade é uma das qualidades fundamentais que o homem deve cultivar, porque lhe garantirá estima perante os homens e “graça diante do Senhor”. Não se trata de uma forma de estar e de se apresentar reservada aos mais pobres e menos preparados, mas de algo que deve ser cultivado por todos os homens, a começar pelos considerados mais importantes. De facto, enquanto “a desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes”, “o coração do sábio compreende as máximas do sábio, e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria”. O hagiógrafo, que não entra em grandes pormenores, limita-se a afirmar a importância da humildade e a propô-la. O “sábio” autor destas “máximas” não tem dúvida de que é na humildade e na simplicidade que reside o segredo do êxito e da felicidade. E o Salmo 68 diz-nos que o Pai dos órfãos e defensor das viúvas estabeleceu a sua grei numa terra que a sua bondade preparou ao oprimido.
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Não gostamos de ouvir falar de humildade, porque temos dentro de nós uma falsa imagem desta virtude. Para um vivente do século XXI, falar dela parece fora de moda, quando se louvam os interventivos, os ciosos dos seus direitos (não tanto dos deveres) os que gostam de se apresentar com dignidade. E imaginamos uma pessoa humilde como acanhada, triste, apoucada, à margem da vida, inconsciente dos seus direitos, que não defende nem reivindica, e sem iniciativa em favor dos outros. Para alguns, a pessoa humilde é quase um débil mental. Ora, a imagem da humildade que muitas pessoas têm não é a de que nos fala o Evangelho. A humildade é a verdade: acerca de Deus, dos irmãos e de nós mesmos e a aceitação desta verdade (somos limitados e os nossos dotes vêm de Deus e da comunidade). O demónio sabe que é criatura, mas não aceitou essa verdade e quis ocupar o lugar de Deus. É o pai da mentira, a soberba personificada.
Paulo considera-se “como um ser abortivo” diante de Deus, mas defende-se contra as mentiras com que o difamam e faz valer os seus direitos de cidadão romano. Maria proclama-se a humilde “serva do Senhor”, mas tem perfeita consciência de que o Senhor fez n’Ela grandes coisas (tem forte autoestima, mas sabe que o que tem lhe vem de Deus), pelo que é proclamada “ditosa”.
A humildade é uma virtude difícil, árdua, que nunca está conseguida enquanto não terminar a prova desta vida terrena. Em geral, temos uma imagem exagerada de nós mesmos. Alguém escreveu que o melhor negócio do mundo seria comprar as pessoas pelo que valem na realidade e vendê-las pelo que julgam valer. Obviamente não nos referimos ao valor que Deus nos atribui, pois valemos todo o Sangue de Cristo.
Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória.”. Os textos sagrados desvalorizam a importância que nos pode dar aos olhos dos outros o cargo que ocupamos, a fortuna de que dispomos ou a inteligência e conhecimentos que nos foram dados. O importante é que realmente participamos da mesma vida divina que nos torna filhos de Deus e herdeiros do Céu; iluminados pela mesma luz da fé, vamos a caminho da mesma felicidade eterna no Paraíso; e o que podemos fazer é pedir perdão de administrarmos tão mal os talentos recebidos.
No desempenho da nossa missão neste mundo parecemo-nos com os que representam uma peça teatral. Uns aparecem vestidos de reis, outros de soldados, donas de casa, empregados ou com outras funções. Mas, quando acaba a representação teatral e se despem das vestes, aparecem todos vestidos de cidadão vulgar aos olhos das pessoas. No livro “O triunfo dos porcos”, estes, depois de terem “democratizado” a quinta, começam a afixar cartazes que pretendem instaurar a nova ordem. Num deles escreveram: “Todos os animais são iguais”. E um anónimo escreveu por baixo: “Mas alguns são mais iguais do que os outros”. É a tal incoerência da vida!
Não há super-homens na terra. O dinheiro e os cargos não aumentam o nosso valor diante de Deus: somos administradores e um dia prestaremos contas da nossa administração. No entanto, temos falsos complexos de superioridade. Somos tentados a julgarmo-nos superiores aos outros em algum aspeto – no dinheiro, no vestir, no saber, no carro, na casa –; e pensamos que poderíamos fazer melhor do que eles fazem. A contradizer esta igualdade fundamental, somos exigentes para os outros e condescendentes para connosco. Exigimos trato e atenções especiais e melindramo-nos com a maior facilidade. Aos nossos ouvidos soa a palavra da Escritura:
Que tens tu que não hajas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias como se não o houveras recebido?” (1Cor 4,7).
Ora, devemos tratar-nos como iguais que somos, respeitando-nos e ajudando-nos mutuamente nesta aventura da terra ao Céu.
O mestre da humildade é Jesus. Quando entrou em casa de um dos principais dos fariseus, para tomar uma refeição para a qual tinha sido convidado, todos O observavam.
Encontramos aqui diversas espécies de olhares, como podem ser os nossos. O olhar de Jesus é cheio de bondade e de amor e exprime um desejo divino de ajudar todos os presentes. Assim era quando olhava os doentes e aflitos que Lhe apareciam nos caminhos da Terra Santa. Aproveita o momento para dar a todos uma lição prática de humildade muito apropriada ao momento que estão a viver. O olhar de alguns presentes era de orgulho e importância, com um falso complexo de superioridade, como se não houvesse no mundo honras e homenagens capazes de os deixar contentes. Alguns eram simples curiosos: tinham ouvido contar muitas maravilhas acerca de Jesus e estavam na esperança de poderem testemunhar alguma delas. E outros olhavam Jesus com uma atitude inquisitorial, à procura de O surpreenderem em alguma coisa que servisse de pretexto para o condenar. Mas Ele, que é de condição divina, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens (cf Fl 2,6.7).
Jesus convida-nos a imitá-Lo, não na realização de milagres, mas na humildade:
Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis alívio para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o Meu fardo é leve.” (Mt 11, 29-30).
As pessoas humildes encontram sempre motivos para se edificarem com os outros e alimentam um desejo grande de as ajudar, têm um olhar cheio de complacência que as faz aprender sempre com o que veem, movidas pelo desejo sincero de ajudar os outros. Aceitam com simplicidade cargos e tarefas em prol do próximo sem se envaidecerem ou ensoberbecerem. Dão de graça o que recebem de graça. Sabem ser discretas como o sal e o açúcar que se diluem.
2019.09.01 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Manifesto Pela Verdade dos Factos ou A verdade e nada mais que a verdade


Com o “Manifesto Pela Verdade dos Factos”, de 6 de maio, professores e autores de blogues dedicados à Educação desmontam a narrativa construída em torno da recuperação do tempo congelado aos professores no contexto da crise sistémica e consideram o chumbo do respetivo esboço de lei como a negação da valorização da classe docente. E tomaram esta posição como forma de luta logo após o conhecimento do vergonhoso recuo perspetivado pelo CDS e pelo PSD, que veio a concretizar-se a 10 de maio, juntando-se ao PS na votação.
Os subscritores – que invocam a sua condição de “professores, membros da comunidade educativa e autores de diversos espaços de discussão sobre educação”, com “opiniões livres e diversificadas” – não retiram uma vírgula ao texto, explicam os seus motivos e analisam os acontecimentos das últimas semanas, depois de o Primeiro-Ministro ter ameaçado com a demissão do Governo, entretanto afastada com a reprovação da lei.
E, não podendo ficar indiferentes face à orquestração de “tão vil e manipuladora campanha de intoxicação da opinião pública, atacando os professores com base em falsidades”, por parte de membros do Governo e de inúmeros comentadores, sem a possibilidade do devido contraditório, encarregaram-se do trabalho de desmontar as várias falsidades, que vêm contrariando os factos e que têm sido cobertas pela generalidade da comunicação social, o que tem levado a que a opinião pública, em vez de informada, tenha ficado sujeita a manobras de propaganda.
Assim, o manifesto repõe a verdade dos factos, esclarecendo:
- Não é verdade que o Governo não tenha recuado, porquanto, o Ministério da Educação, a 18 de novembro de 2017, por acordo com os sindicatos de professores, comprometeu-se a recuperar todo o tempo de serviço, o que depressa olvidou. Por isso, essa intenção não é conspiração da oposição nem resulta duma ilusão criada pelos sindicatos de professores.
- Não é verdade que o PS, o partido do Governo, não tenha voltado atrás, já que, a 15 de dezembro de 2017, também propôs e foi aprovada no Parlamento a recomendação da total recuperação do tempo de serviço, conforme se pode verificar no Diário da República (Resolução da Assembleia da República n.º 1/2018, de 2 de janeiro).
- São falsos os valores apresentados pelo Governo sobre o custo da recuperação do tempo de serviço docente. Foi prometida há perto de um ano uma comissão para calcular os custos reais e ainda hoje não se conhece o resultado desse trabalho. Os números reais, líquidos, estimados pelos subscritores, rondam os 50 milhões de euros anuais, caso se optasse pela solução da Região Autónoma da Madeira, de recuperar os 9 anos, 4 meses e 2 dias, no prazo de 7 anos. O Governo já apresentou, por diversas vezes, contas inflacionadas, com totais baseados em médias erróneas, como a própria UTAO esclareceu há dias. Um grupo de professores verificou-as e constatou, segmentando os dados, a sua falsidade (https://guinote.files.wordpress.com/2019/05/contas-942-num-ano-2019-e-em-7-anos.xlsx). Ora, mentira reiteradamente proferida nunca se transforma em verdade.
- É falso que que o Governo não tenha verba no orçamento de 2019 para recuperar parte do tempo de serviço congelado, porquanto a recuperação dos 2 anos, 9 meses e 18 dias em 2019 foi proposta do Ministério da Educação e está consignada no Decreto-Lei n.º 36/2019, de 15 de março, diploma que o Presidente promulgou, mas que antes tinha vetado. Por outro lado, um recente Decreto-Lei do governo, que ainda aguarda promulgação, apresentou a possibilidade a todos os professores de recuperar parte desse tempo já em 2019. Ademais, o texto aprovado pela comissão de educação e ciência (a 2 de maio) não altera um cêntimo ao Orçamento de Estado de 2019. O orçamento de 2020 ficará a cargo do próximo Governo, o que sair das próximas eleições legislativas.
- É falso que a reivindicação dos professores seja a exigência da devolução do muito dinheiro perdido pelos professores naqueles anos, meses e dias de tempo de serviço congelado, como alguns fazem crer. Aqueles 9 anos, 4 meses e 2 dias (ou os 2 anos, 9 meses e 18 dias de que fala o Governo) são para considerar na carreira docente para efeitos de progressão no futuro. Não se está a oferecer ou a pedir dinheiro perdido no passado. O que se discute agora é se o tempo de trabalho efetivamente prestado desaparece ou não da carreira dos professores.
- Não se coloca o problema da equidade como o refere o Primeiro-Ministro e seus acólitos. O Primeiro-Ministro, na declaração de eventual e coativa demissão, falou em falta de equidade e disse que aquela votação parlamentar “injusta e insustentável” punha em causa a credibilidade internacional. Ora, mesmo as contas inflacionadas do Governo apontam só para um acréscimo no défice de 0,2 a 0,3 pontos percentuais. E, quanto à credibilidade internacional, não foram os salários dos professores e restantes funcionários públicos que levaram à intervenção por parte da Troika. Essa deve-se a outros fatores bem pesados. E, por exemplo, aos bancos (e grupos a que se expõem), que agora se descobre que foram a grande causa do descalabro financeiro, por via de empréstimos e investimentos ruinosos, nunca se regateia capital para novas injeções financeiras, nem se alega falta de credibilidade internacional ao não se apurarem responsabilidades.
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O Manifesto Pela Verdade dos Factosrefere que “o passado mostra que não se ganham eleições a vilipendiar um dos grupos profissionais mais estimados pelos portugueses, nem repetindo falsidades para amesquinhar um grupo profissional que tem mostrado dignidade na luta, na adversidade e na solidariedade com o todo nacional”. E os subscritores asseguram:
Mas isso não anula a verdade simples: os portugueses em geral, mesmo os que não conseguem passar a barragem da comunicação social para se expressar, respeitam e compreendem os professores e não vão ser enganados por políticos que acham que, com barulheira e falsidades, se faz mais uma habilidade para evitar desgraças eleitorais. Há coisas mais importantes que contar os votos da próxima eleição. Uma delas é o respeito pela verdade e pela dignidade de uma classe profissional que todos os dias dá o seu melhor pela formação dos futuros cidadãos.”.
Não tenho certezas sobre o não ganho de eleições devido ao vilipêndio dum grupo profissional e à repetição de falsidades, como não creio que o ataque aos professores não tenha influenciado a opinião pública contra os professores – tanto assim que mais de 50% dos inquiridos numa recente sondagem dava razão ao Governo no diferendo com os professores. Porém, governantes, deputados e comentadores devem pautar-se, não pelo voto, mas pela ética e pela lei.
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José Eduardo Lemos, presidente do Conselho das Escolas (CE), que não assinou o manifesto, conhece o conteúdo e aplaude a atitude, considerando “excelente” a iniciativa de professores-bloggers que, de forma certeira, “desmontaram uma série de falsidades ou, mais benignamente, de imposturas intelectuais, justificadas por interesses político-partidários e profusamente difundidas pelos órgãos de comunicação social e pelas redes sociais”. E, a seu ver, como referiu ao “educare.pt”, os blogues prestaram “um serviço cívico que se impunha em favor da transparência e da verdade”, um “serviço que competia a outros, desde logo ao Governo e à comunicação social, mas que, nesta matéria, generalizadamente, intoxicaram a opinião pública com falsidades (mais até do que com meias-verdades), perseguindo fins políticos e não olhando a meios para os atingir”. E, parabenizando os autores do manifesto, sublinhou: 
Este manifesto tem o condão de colocar a nu a farsa montada em torno da recuperação do tempo de serviços dos professores, trazendo à memória coletiva factos que ocorreram entre 2017 e a atualidade e que, indesmentivelmente, mostram quem é que tem andando às arrecuas, quem descaradamente tem mentido aos professores e à população, quem tem sentido de Estado e quem não o tem”.
O que está verdadeiramente em causa, em sua opinião, não é só a recuperação do tempo de serviço congelado, é também “a velha arte de mentir no espaço público e o mau exemplo”. E o presidente do CE lança uma pergunta e dá uma resposta:
Como se podem sentir os professores que ouviram responsáveis políticos declarar que recuperariam todo o tempo de serviço, que viram a Assembleia da República aprovar a Resolução 1/2018 e que leram os orçamentos de Estado de 2018 e de 2019? Diabolizados e enganados, obviamente!”.
O líder do CE olha o caso como um episódio de “fake news”, com o efeito perverso de ter colocado os professores como vilões da história para, como refere, “envenenar a opinião pública”. E observa com ironia:
Tal vem apenas confirmar a necessidade de formação em ‘Literacia para os Media’, que está a ser promovida pelo Ministério da Educação, e também oferecer uma interessante temática para debate nas aulas de Cidadania e Desenvolvimento”.
Por seu turno, Paulo Guinote, autor do blogue “O Meu Quintal” e subscritor do manifesto, considerando a ameaça de demissão “um enorme cinismo político”, entende que se devem clarificar, de uma vez por todas, os conceitos de “equidade” e de “justiça”, usados frequentemente nos últimos dias, só que, a seu ver, esvaziados dos seus conteúdos. Em primeiro lugar, como sustenta, é preciso esclarecer, e de forma transparente, os cálculos sobre a contabilização do tempo de serviço docente que o Ministério das Finanças “tem apresentado de forma truncada e manipulada há vários meses”. E aponta em declarações ao “educare.pt”:
O Governo contabilizou todo o tempo de serviço prestado às carreiras gerais e nega-o às carreiras especiais, atropelando estatutos de carreira que estão em vigor e, no caso da carreira docente, um estatuto legislado pelo partido no Governo, com a presença no Conselho de Ministros do atual Primeiro-Ministro (…) O que está em causa é a negação de um ‘direito’, legalmente previsto, tornando permanente algo que foi apresentado como solução transitória.”.
Diga-se, em abono da verdade, que o ECD (estatuto da carreira docente) foi gerado num tempo de governação em que o PSD detinha no Parlamento a maioria absoluta (consulado de Cavaco Silva) e teve uma alteração significativa em tempo de governação socialista (consulado de Oliveira Guterres). A grande e subversiva alteração no tempo de Sócrates, Costa e Milu Rodrigues devia ser para esquecer ou anatematizar. Salva-se a alteração ao ECD feita por Sócrates e Isabel Alçada. 
Ora, o autor de “O Meu Quintal” – que explica o “muito significativo” desaparecimento do Presidente da República neste assunto, “algo inédito no seu mandato”, pela complexidade do problema e os riscos da tomada de uma posição clara” – entende que não tem sentido usar a contabilização do tempo de serviço docente como motivo para uma potencial demissão. Com efeito, segundo julga, “a reação é despropositada e desproporcional só se explicando por causas externas à situação específica vivida nos últimos dias” e, em seu entendimento, “tudo resulta da combinação entre uma aversão visceral que algum PS, fortemente representado neste Governo com vários ex-ministros de José Sócrates e colegas de Maria de Lurdes Rodrigues, tem em relação aos docentes e um calculismo político relacionado com o interesse em antecipar eleições para colher dividendos de uma conjuntura de crise política que se pretende apresentar como causada pela oposição e pelos parceiros parlamentares da chamada geringonça”. E, sobre contas feitas e valores apresentados, em que a soma das partes não foi igual para todos, considera:
Tem sido apresentado um valor de ‘despesa’ que contabiliza progressões a professores no topo da carreira, oculta-se a receita fiscal direta que acarretaria a subida salarial dos professores e indireta pelo aumento do consumo, assim como o facto das ‘prestações sociais’ contabilizadas na despesa do Ministério da Educação serem receitas contabilizadas no Orçamento de Estado em outras rubricas”.
Além disso, realça:
Não se explicitou com clareza, até à intervenção da UTAO [Unidade Técnica de Apoio Orçamental], qual o impacto real no défice que, mesmo contando todas as carreiras especiais, se fica por 0,2%, enquanto Mário Centeno acenava com valores muito superiores nas suas comparações”. 
Aliás, é preciso frisar, do meu ponto de vista, que muito do tempo perdido nunca será recuperado, visto que os que atingiram o último escalão já nada têm a recuperar, tantos professores, entretanto, se aposentaram (por terem alcançado a idade legal ou por terem entrado na aposentação antecipada com as forte penalizações) e muitos aderiram ao programa de rescisão por mútuo acordo (eufemismo). Mas o professor Paulo Guinote tece mais um considerando: os professores, que diariamente estão nas escolas, foram ignorados neste debate. E discorre:
Tudo isso foi agravado, em especial nas televisões, com um monopólio quase total da ‘análise’ entregue a opinion-makers e alegados ‘especialistas’ (financeiros ou constitucionalistas) alinhados com a ‘narrativa’ produzida pelo Governo. (…) Os professores sentiram-se ignorados em todo este contexto e foi necessário reanimar redes de mobilização, em especial no espaço virtual, para produzir alguma resistência independente à investida mediática governamental. Foi assim que surgiram os cálculos alternativos aos custos da recuperação do tempo de serviço docente, feitos pelo professor Maurício Brito e o ‘Manifesto pela Verdade dos Factos’, já depois do grupo que promoveu há um ano a apresentação de uma Iniciativa Legislativa que permitisse abrir um processo legislativo sobre esta matéria.”.
Também o professor Alexandre Henriques, do blogue ComRegras, um dos autores do manifesto, refere que esse documento pretende “a verdade e nada mais que a verdade”. Efetivamente, quem está por dentro dos assuntos não engole tudo o que é dito e percebe mentiras e manipulações. Nestes termos, aduz:
O manifesto foi um alerta para o desconhecimento e manipulação que está a ocorrer um pouco por todos os órgãos de comunicação social, principalmente nas televisões. Quem informa tem a obrigação de estar mais preparado, pois este Ministério da Educação e respetivo Governo já provaram que não são sérios para com os professores e restante população. A prova é que a própria UTAO veio afirmar que os números de Mário Centeno são falsos, algo que os professores têm dito e repetido há já bastante tempo.”.
O tempo de serviço é um direito consagrado na legislação, é um pilar social. E, como o professor sublinha, “não se pode simplesmente apagá-lo, ainda por cima com uma arrogância imprópria de um Governo que se intitula democrático”. Alexandre Henriques defende que é necessário lembrar que a carreira docente precisa de ser valorizada. E deixa o alerta:
Estamos na iminência da tempestade perfeita, onde uma saída massiva de professores e residual renovação irá levar a um esvaziamento da sala de professores e consequentes salas de aula. Daqui a 10 anos, não haverá professores suficientes para os alunos que temos. Isto é factual e está a ser ignorado.”.
E, tendo em conta que “a recuperação do tempo de serviço, não é só uma questão de justiça, é uma questão central para valorizar os atuais profissionais e passar a mensagem de que ser professor ainda é algo que vale a pena investir”, interrogava-se, um dia antes da votação no plenário parlamentar, e respondia:
E se a lei que aprova a recuperação dos nove anos, quatro meses e dois dias for chumbada? Será a negação dessa valorização docente e consequente confirmação de que os partidos, ao longo de quase dois anos, não passaram da retórica oca e demagógica, afirmando algo que agora estão a negar.”. 
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Enfim, poderá o manifesto não influenciar o devir político, mas as verdades não ficaram por dizer. Quem tem olhos leia e quem tem ouvidos oiça! Lembro, a propósito, o caso dum maluco com um burro à rédea que, ao passar um avião no ar, içou ao alto a cabeça do seu burro e disse:
Admira, burro, a ciência humana!

(cf https://www.comregras.com/manifesto-pela-verdade-dos-factos/; Resolução da Assembleia da República n.º 1/2018, https://dre.pt/web/guest/home/-/dre/114426057/details/maximized; Sara R. Oliveira, A verdade e nada mais que a verdade”, educare.pt”, 13-05-2019, https://www.educare.pt/noticias/noticia/ver/?id=150826&langid=1).

2019.05.15 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Cardeal Yeom exorta à construção da paz na península coreana

Depois de anos e anos de tensão entre as duas Coreias – a Coreia do Norte e a Coreia do Sul – as nuvens parecem estar a dissipar-se e tem havido sinais de aproximação entre os dois países separados pela guerra, que formalmente ainda não terminou, embora não se tenham registado, há anos, ações bélicas recíprocas. Por outro lado, o regime norte-coreano, até há pouco, ensimesmado no casulo de partido único e totalitário, propunha-se afrontar o mundo inteiro, passando desde a primavera última, a posicionar-se diplomaticamente perante os outros Estados do mundo, a ponto de ter já solicitado uma visita papal.  
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Nesta quadra natalícia, o Cardeal Andrew Yeom Soo-jung, Arcebispo de Seul, na Coreia do Sul, e administrador apostólico de Pyongyang, na Coreia do Norte, endereçou à sua comunidade uma mensagem Natal e de fim de ano, referindo que “a palavra paz foi o tema mais importante em nossas vidas este ano”. E, perguntando “quem são os primeiros a responder ao desejo humano de paz, segundo o plano de Deus, radicado no amor e na justiça”, assegurava que somos nós, cristãos, os chamados “a ser os primeiros construtores de paz neste mundo”.
E, registando que o Papa Francisco sempre ressaltou que “devemos ter a misericórdia em nossas mentes, por um perdão infinito e uma partilha incondicionada”, devendo começar pela oração, o purpurado, sublinhou que “a paz verdadeira é um dom de Deus que podemos receber somente quando o pedimos através da oração”, pelo que exortou a que “continuemos a rezar pela paz na península coreana”.
Na verdade, a paz convoca permanentemente a misericórdia e o perdão para que se evitem as vinganças e as retaliações e se caminhe no diálogo e na cooperação.
Mas também não haverá paz se as pessoas e a sociedade continuarem reféns da mentira, da hipocrisia, do medo e da inércia. Temos, pois, que dar lugar à verdade, à justiça, ao amor e à solidariedade.
Por isso, o Cardeal recorda os recentes progressos pacíficos registados na península coreana neste ano de 2018 e agradece ao Papa Francisco que, “em todo o momento crítico, rezou pela paz na península”. E, referindo-se à “Pacem in terris”, Carta Encíclica do Papa João XXIII de 1963, Yeom ressalta que “uma ordem mundial pacífica pode ser construída” baseando-se nos quatro pilares “da verdade, da justiça, do amor e da solidariedade”. E observou:
 “Todavia, o caminho para a paz é longo e difícil. Nós, fiéis, devemos manter a paciência e continuar a rezar ao mesmo tempo que damos o melhor de nós na vida quotidiana. Tornando-nos aqueles sobre os quais repousa o favor de Cristo, podemos alcançar a paz que Ele prometeu.”.
Sublinhando que o mistério da Encarnação e do amor de Deus pela humanidade, que se reflete na paixão de Cristo, Filho de Deus, que se fez homem para trazer a todos a salvação e a consolação, o Cardeal sul-coreano exprime os seus votos natalinos e abençoa “os irmãos e as irmãs da Coreia do Norte”, augurando:
Espero que este Natal possa ser uma nova esperança e luz para os irmãos e as irmãs da Coreia do Norte, que possa trazer grande consolação para as dificuldades que vivem”.
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Já em 9 de outubro, o purpurado afirmava ao Vatican News que, se o Papa Francisco for à Coreia do Norte, o acompanhará. E, então garantia, afirmando encontrar-se disposto e desejoso de estar ao lado do Santo Padre, em tal eventual e histórica viagem:  
Acolheremos com grande favor uma possível visita do Papa a Pyongyang. […] Se o Papa for visitar a Coreia do Norte, acompanhá-lo-ei.”.
Segundo a agência missionária Fides, o Cardeal Arcebispo de Seul e administrador apostólico de Pyongyang expressou a intenção de acompanhar o Papa à Coreia do Norte à margem do encontro com o líder do Partido Democrático atualmente no Governo da Coreia do Sul, Lee Hae-chan, acolhendo o líder político no complexo da Catedral de Myeongdong, em Seul.
Com efeito, o Papa Francisco acolheu um possível convite a visitar a Coreia do Norte, feito em outubro passado quando o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, transmitiu ao Pontífice o convite verbal do líder norte-coreano Kim Jong-un. O Papa disse que, se a Coreia do Norte formalizar um convite oficial, responderá em conformidade.
Nenhum Papa até hoje visitou a Coreia do Norte. Mas, segundo o Governo sul-coreano e a Igreja local, uma eventual visita do Papa poderá ajudar a acelerar o processo de recondução da paz duradoura e da reconciliação à península coreana, dividida em dois estados tecnicamente ainda beligerantes após a guerra da Coreia (1950-53), último resíduo da Guerra Fria.
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Segundo avançava, a 9 de outubro, agência de notícias sul-coreana Yonhap, o líder da Coreia do Norte gostaria de receber Francisco no país, pelo que pediu que o convite fosse reforçado durante a visita do homólogo sul-coreano ao Vaticano, agendada para os próximos dias 17 e 18 de outubro e efetivamente realizada.
As relações diplomáticas entre os líderes Kim Jong-un e Moon Jae-in têm dado passos significativos para restabelecer a paz entre os dois países. E não só. O líder da Coreia do Norte Kim Jong-un, como se disse, convidou recentemente o Papa Francisco para visitar o país.
De acordo com a mencionada agência sul-coreana e outros meios de comunicação que, entretanto, avançavam a mesma informação, Kim Jong-un “está ansioso por receber o Papa se ele visitar Pyongyang”. Isso mesmo foi avançado pelas fontes da presidência sul-coreana durante uma conferência de imprensa marcada para anunciar o plano da viagem oficial do líder sul-coreano à Europa.
Tal viagem europeia incluiu uma passagem pelo Vaticano em que, de acordo com as mesmas fontes, o Chefe de Estado sul-coreano solicitou a bênção e o apoio do líder da Igreja Católica para os processos de paz e estabilidade na península coreana. A agenda incluiu mais pontos, como a discussão de futuras formas de cooperação com o Vaticano. E foi nessa altura que, reitera fonte oficial, o presidente Moon entregou pessoalmente e reforçou o convite de Kim para visitar a Coreia do Norte.
Os líderes coreanos têm estado envolvidos desde o início do ano num processo de reaproximação entre Seul e Pyongyang com o objetivo de restabelecer as relações bloqueadas nos últimos anos entre os dois países. Este convite ao Papa é mais um sinal de abertura da Coreia do Norte e do desanuviamento diplomático do seu líder com o exterior.
A última visita do Papa Francisco à Coreia do Sul foi em agosto de 2014. O líder da Igreja Católica divulgou anteriormente mensagens de apoio ao diálogo entre as duas Coreias e à cimeira histórica realizada a 12 de junho, em Singapura, entre o líder norte-coreano e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Recorde-se que, em paralelo, o próprio Vaticano tem estado mais atento à região asiática, tendo recentemente reconhecido sete bispos nomeados por Pequim. Este reconhecimento deriva de um acordo negociado pelo próprio Papa, que coloca um ponto final a mais de 70 anos de antagonismo gerado pelas divergências na nomeação de bispos.
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O Papa informou, depois de ter recebido das mãos do presidente sul-coreano, Moon Jae-in, um convite de Kim Jong-un, que pensa visitar a Coreia do Norte. A visita será inédita. Entretanto, o Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano e segunda maior autoridade da Santa Sé, disse que Francisco expressou a sua disposição, mas há que esperar que o convite seja formalizado. Com efeito, ao ser questionado se existem condições que Pyongyang precisa de atender, Parolin, que falava nos bastidores da apresentação de um livro, respondeu:
Isso virá mais tarde: assim que começarmos a pensar seriamente na possibilidade de fazer tal viagem teremos que pensar nas condições em que a viagem pode acontecer. [O papa] está disposto a fazer a viagem, mas uma viagem deste tipo precisará de grandes preparativos.”.
Caso ocorra, a visita será a primeira de um Papa à Coreia do Norte, que não permite que padres se instalem de maneira permanente em seu território. Há pouca informação sobre quantos cidadãos norte-coreanos são católicos e como praticam a sua fé.
Segundo as autoridades da Coreia do Sul, no encontro com Moon no Vaticano, o Papa também encorajou Seul e Pyongyang a prosseguiram nos esforços da distensão na Península.
Na capital Pyongyang, há uma igreja católica, a catedral de Jangchung, que, apesar disso, não está em comunhão formal com a Santa Sé. A igreja, um dos quatro centros de veneração cristã na capital norte-coreana, foi destruída durante a Guerra da Coreia (1950-1953) por tropas americanas, mas reabriu em 1988, num esforço do Governo para demonstrar liberdade religiosa.
Entretanto, Kim compartilhou com o católico Moon o seu desejo de conhecer o Papa e, antes da sua viagem, o líder sul-coreano anunciou que transmitiria essa mensagem ao Pontífice.
De acordo com o gabinete de Moon, Francisco expressou grande apoio aos esforços para levar a paz à Península Coreana. Segundo o gabinete, o Pontífice encorajou Moon e disse-lhe:
      “Não pare, vá em frente. Não tenha medo.”.
Questionado se Kim deveria enviar um convite formal, o gabinete disse que o Papa respondeu que a mensagem já era “suficiente”, mas que “seria bom que Kim enviasse um convite formal”.
O Papa deve estar na Ásia no próximo ano, quando visitar o Japão.
Um comunicado do Vaticano não mencionou o convite de Kim, falando somente na “promoção do diálogo e da reconciliação entre coreanos” e “do compromisso comum em fomentar todas as iniciativas úteis para superar as tensões que ainda existem na península coreana, de forma a abrir caminho para uma nova temporada de paz e desenvolvimento”.
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Oxalá que a visita papal se realize e com êxito e que sirva de apoio aos poucos católicos norte-coreanos. Não deverá pensar-se que o líder Kim Jong-un pretenda, através dela, visualizar a quantidade de crentes e daí partir para qualquer processo inquisitorial, o que seria iníquo. Deverá, antes, pensar-se que o líder vê na visita papal uma forma de mostrar que está aberto ao mundo do diálogo e da cooperação, pois o isolacionismo já não é receita capaz. Queiramos ou não, temos de dialogar, negociar, ganhar, perder e empatar – pelo bem da paz e da concórdia.   
2018.12.27 – Louro de Carvalho