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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Um retrocesso culturo-civilizacional


É recorrente falar-se em crise de valores como explicação para determinados comportamentos desviantes na família na escola, no clube, na empresa, na política. E teoricamente até a nossa sociedade está protegida pelas leis – umas mais justas, outras menos – para prevenir e combater os diversos tipos de crimes que as pessoas são tentadas a praticar e que praticam mesmo.
Porém, às leis sobrepõe-se tantas vezes a jurisprudência que, em vez de se fazer uma interpretação prática da norma quando ela é ambígua ou confusa, acaba por se negar a própria norma ou tirar-lhe a eficácia em muitas situações. Assim, por exemplo, um insulto dirigido a um agente da autoridade é tido por desabafo ou exteriorização de mau estar, enquanto um tratamento com palavras do âmbito do calão dirigido ao detido por parte do agente da autoridade é considerado ofensa grave e atentado à dignidade humana. Quem se der à curiosidade de ler as anotações ao nosso CP (Código Penal) no site da PGDL (Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa) nos artigos atinentes a esta matéria e similares, fica a saber do que estou a falar, tal como quem se recorde dos julgamentos, não muito distantes no tempo, de processos de casos apresentados pela PSP aos tribunais.   
Nestes dias, os meios de comunicação social deram-nos conta de que um juiz de Famalicão condenado por violência doméstica pelo Tribunal da Relação de Guimarães (para os magistrados a Relação julga em primeira instância) é absolvido pelo Supremo Tribunal de Justiça (STJ).
Em setembro de 2018, o Tribunal da Relação condenou o predito juiz arguido a um ano e meio de prisão, com suspensão de pena, pelo crime de violência doméstica e ainda o condenou a pagar uma indemnização de 7500 euros à ex-companheira. Estavam em causa mensagens telemóvel e correio eletrónico que o arguido enviou à ex-companheira, inconformado com o facto de esta ter, em 2011, terminado o relacionamento de 4 anos. Segundo o JN, que teve acesso ao acórdão, o juiz terá dito à ex-companheira que se iria arrepender porque os juízes mandam em tudo (não transcrevo os termos exatos até por serem ofensivos para os juízes sérios). Quem ler o JN, de hoje, dia 5 de novembro, e tiver um mínimo de sensibilidade e decoro fica horrorizado com o teor das mensagens trocadas entre o ex-casal. E não sei qual dos membros do par terá sido mais ofensivo. Porém, só a mulher é que solicitou a ação da justiça.
A Relação considerou que o juiz arguido revelou “desprezo e desconsideração” pela ex-companheira, com provocações de cariz sexual, insultos e ameaças veladas. Deu ainda como provado que o juiz sabia que a ex-companheira estava “particularmente vulnerável” pela morte do pai e que as mensagens lhe provocaram “insegurança, intranquilidade e medo. E entendeu que os factos “merecem um juízo de censura acrescido pelo facto de o arguido ser juiz”.
O juiz arguido recorreu para o STJ, acabando por ser absolvido. O acórdão deste tribunal, datado do passado dia 30 de outubro, a que a Lusa teve acesso, sustenta:
A relação entre o arguido e a assistente era pautada por troca de e-mails, remetidos por um e por outro, similares aos e-mails do arguido objeto dos presentes autos. O tipo de linguagem era recíproco.”.
Mais o acórdão, considerando que o conceito de maus tratos, essencial ao crime de violência doméstica, tem na base lesões “graves, intoleráveis, brutais, pesadas”, sublinha que daquelas mensagens não resultam “lesões” que integrem a figura jurídica de maus tratos, que é essencial no crime de violência doméstica. E acrescenta que, mesmo após a separação, a ex-companheira continuou a manter contactos com o arguido, “socorrendo-se do mesmo e aproveitando os seus conhecimentos jurídicos, no âmbito de vários processos judiciais”. Por consequência, o juiz arguido foi também absolvido do pagamento de qualquer indemnização à ex-companheira, tendo o STJ concluído que dos autos “não resultam lesões ou danos provocados à assistente”.
O juiz arguido já foi também condenado a uma pena de multa por um crime de falsidade de testemunho, num processo que envolvia igualmente a ex-companheira, com intuito de a prejudicar num processo de herança, vingando-se assim do facto de ela se ter separado dele. Essa condenação foi confirmada pelo STJ em Janeiro do ano passado, num acórdão em que considerou que a conduta do arguido constituía “uma negação frontal da ética inerente à condição de juiz”. A pena foi de 400 dias de multa, à taxa diária de 20 euros, no total de oito mil euros. Nesse processo, o juiz foi ainda condenado a pagar uma indemnização de cinco mil euros à ex-companheira, por danos não patrimoniais.
Na sequência dessa condenação, o CSM (Conselho Superior de Magistratura) instaurou um processo disciplinar ao juiz arguido e decidiu aplicar-lhe a pena de “aposentação compulsiva”, pena de que recorreu e de que ainda não se conhece desfecho.
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Sempre ouvi dizer e senti que o insulto por palavras infames constitui maior agravo pessoal que a agressão física, tornando-se mais humilhante e mais traumatizante. Por outro lado, o STJ parece ter dois pesos e duas medidas: condena a mentira (falsas declarações), mas não condena a agressão verbal, contrariando o art.º 152.º do CP. E condena a mentira (falsas declarações) em nome da ética inerente à condição de juiz e não em nome da lei.
Este é mais um dos casos a juntar a tantos que testemunham a degradação da sociedade e do homem coevo. E é pena que aos tribunais, que deveriam ser a reserva da soberania, esteja a chegar a onda do retrocesso culturo-civilizacional. Por isso, é de pedir à escola, nomeadamente à escola superior, e aos formadores de opinião que ponham as mãos à tarefa de regeneração do homem e da sociedade pelo culto dos valores políticos, legais e éticos, sem os baralhar. Talvez a formação cristã ajude!
2019.11.05 – Louro de Carvalho   

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O vírus é “democrático”


Li a asserção no n.º 756 da revista “Sábado” (25 a 31 de outubro de 2018) a propósito dos “Mitos da vacina da gripe” na rubrica “o vírus” e como resposta à questão se precisa da vacina uma pessoa que nunca fica doente.
E o teor da reposta é de que pode ser infetada pelo vírus da gripe e desenvolver a doença qualquer pessoa, dada a índole democrática do infetante, sendo, por isso, a vacinação a melhor forma de proceder à prevenção – o que dá para inferir que, embora sendo a melhor forma, não quer dizer que seja a única. Pessoas há que, por exemplo, se resguardam, tomam bebidas quentes, fazem a limpeza de garganta e fossas nasais com a solução de sal em água morna, etc.
Talvez, porque outras pessoas encontrarão outros meios de prevenção, a Direção-Geral de Saúde (DGS) estabelece prioridades quanto ao público-alvo. Neste sentido, recomenda a vacina antigripe a pessoas com 65 anos de idade, ou mais, a doentes crónicos, às grávidas (para sua proteção e do bebé) e aos profissionais de saúde que contactam com doentes. Trata-se de uma democracia aleatória e potencialmente universal por parte do vírus, mas um tanto seletiva por parte do referido organismo que deve zelar pela saúde pública. O dinheiro não da para tudo (nem todos os utentes têm a vacina gratuita) e há quem deteste vacinas.
Em todo o caso, a DGS adverte que o contágio não ocorre só no contacto com pessoas infetadas, porque este democrático vírus sobrevive entre 24 a 48 horas em superfícies de acesso comum, como botões de elevador ou de telefone e maçanetas de portas.
Por outro lado, o tempo de sobrevivência aumenta com temperaturas mais baixas. Uma outra advertência incide sobre a possibilidade de uma pessoa contrair gripe mais de uma vez na mesma época, visto que há vários tipos de vírus em circulação, mas sendo pouco provável uma nova infeção pelo mesmo tipo de vírus que provocou a anterior porque se desenvolveu a imunidade no organismo.
Também nos presta o esclarecimento de que a vacina não começa logo a fazer efeito, pois os anticorpos começam a surgir cerca de 15 dias após a inoculação, atingindo o nível máximo às 4 semanas. Porém, tranquiliza-nos referindo que “a vacina não transmite a doença”, pois “só tem fragmentos inertes do vírus”.
Não obstante e por isso, algumas pessoas têm reações locais ou sistémicas, como uma dor no braço, “sinal de que se está a montar uma resposta imunológica”.    
Por fim, a DGS, também segundo a “Sábado”, é necessário, em consonância com a Organização Mundial de Saúde (OMS), tomar a vacina todos os anos, devido à constante mudança antigénica do vírus da gripe, o que leva a rever anualmente a composição da vacina para cobrir os vírus em circulação em cada época gripal.
Enfim, um vírus democrático, mas caprichoso, mutável, migrante e com possibilidades de sobrevivência! É caso para perguntar se circula porque vive ou se vive porque circula.
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Nem só o vírus da gripe é democrático, caprichoso, mutável ou camaleónico, migrante ou com possibilidades de sobreviver. Há muitos outros que saem do campo da medicina e se encontram sob a alçada do juízo ético e dos poderes disciplinares e jurisdicional.
Um desses vírus alastrantes é o que provoca a intriga, a murmuração, a maledicência e o insulto. Sobre a intriga, a murmuração e a maledicência tem-se pronunciado reiteradamente o Papa Francisco, apontando o flagelo em muitas formas de convivência e em todas as formas de carreirismo, incluindo o eclesiástico, movido pela sede de protagonismo custe o que custar, servindo de método a finta ou o espezinhamento de outrem.     
Por seu turno, Pacheco Pereira, no mencionado n.º da “Sábado” sob a habitual epígrafe “A lagartixa e o jacaré”, denuncia “a patética chuva de insultos e de ‘casos’ contra Costa como se isso fosse fazer oposição ao Governo”. É certo que poderia tê-lo dito em relação a outros governos e outras oposições, mas o momento oposicionista é agora naturalmente orientado para António Costa. Porém, como José Pacheco Pereira diz, “este Governo mereceria uma outra oposição, mas esta deveria defrontar as ‘regras europeias’ e as políticas do défice 0% e muitas outras opções derivadas, como seja o combate à pobreza pela assistência e subsidiarização, e não pelo conserto do elevador social que o governo PAF avariou e tentou destruir”. Mas, como no essencial a política do Governo é bastante parecida com a do anterior, a oposição não tem uma agenda consistente, limitando-se grosso modo a condenar o que dantes defendia.
É o vírus do insulto, dos casinhos, do disparate. Com é que é possível declarar o voto contra o OE 2019 só na base de este ser a orgia orçamental com objetivos eleitoralistas ou na base de ser a continuação dos anteriores, mais do mesmo? Como é que se pode dizer que quem decide o sentido de voto no Parlamento não é o grupo parlamentar, mas a direção partidária, quando os eleitores votam deputados e não votam dirigentes partidários? O que deve é haver articulação e não supremacia da liderança partidária…
Mas o vírus democrático e caprichoso invade a política, os negócios, as empresas, as finanças, o desporto, a justiça, as igrejas, etc. É a corrupção secundada por crimes satélites.
A comunicação social, nos últimos dias, tem feito eco do que se passa na Autoridade do Turismo, como o fez no caso da restituição do material alegadamente furtado em Tancos.
Não esquecemos o que se passa com os vencimentos e quejandos percebidos pelos nossos deputados, o que se passa em autarquias, serviços municipais e empresas municipais, Parque Escolar, PPP, Vistos Gold, Operação Fizz, Operação Marquês, Operação Face Oculta, Operação Apito Dourado, Operação Apito Final, Operação Monte Branco, Operação Lex e em muitos outros casos menos mediáticos. E não nos lembrávamos do que se passou na ADSE, o que se passa na Segurança Social ou nalgumas IPSS, nalgumas estruturas policiais, nas negociatas entre profissionais de saúde e farmacêuticas para defraudar o Estado, como não recordávamos o que se passou na Banca – BCP, BPN, BPP, BES/GES, Banif, Montepio Geral e sua dona – em empresas como a PT, a Rio Forte, EDP e mesmo em setores ligados a instituições eclesiásticas localizadas, por exemplo, em Lisboa e Vila Real.
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Como é óbvio, na base destes desmandos está, além do “lodaçal da indiferença” (expressão do Bispo de Lamego), a crise de valores, que se manifesta na prostituição das consciências (é comum os indiciados e acusados declararem que estão de consciência tranquila), no desrespeito pela palavra dada, pelo uso e abuso da mentira e da fraude, pela intolerância, pela competitividade fraudulenta, pela indicação de falsas habilitações literárias e/ou profissionais, pela falsa prestação de contas, pelas engenharias financeiras, pela fuga aos impostos e contribuições, pela falsa promoção da declaração de insolvência ou de falência de empresa, pela organização de peditórios-fantasma (com insulto à verdadeira indigência). A crise de valores reside também na adulteração dos costumes em nome de egoísmos, egotismos, hedonismos, falsas ideologias, facilitismos, e culto do politicamente correto ou do economicamente ortodoxo e do maximalismo financeiro. E a crise de valores reside ainda e sobretudo na supina propensão para a idolatria. Idolatramos figuras da política, do desporto, das Igrejas, a ponto de as considerarmos intocáveis; idolatramos o dinheiro, a ponto de o aferrolhar, de o desviar dos seus legítimos fins, de desprezar a sua função social, de o colocarmos no estrangeiro ou em paraísos fiscais; idolatramos a nossa corporação a ponto de encobrirmos os nossos correligionários ou os defendermos até à última porque eles não são capazes de prevaricar e, se pudermos, os ilibar das devidas penalizações; e idolatramos a nossa própria pessoa a ponto de espezinharmos o próximo para conseguirmos dinheiro, honrarias, prestígio e protagonismo ou a ponto de, porque não nos é lícito ter escravos, manipularmos e escravizarmos os pobres, os débeis, a mulher, a criança, os colaboradores…         
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Ora, contra estes desmandos tem de haver antídotos e remédios.
Parece-me que o antídoto principal está na formação do caráter, que as famílias, as escolas, as igrejas, os partidos devem promover. Ora, o mais das vezes o que se promove, a nível de planos de estudos, é o conhecimento, que já não seria pouco, se fosse a sério e tanto quanto possível objetivo. E o culto dos valores, o apuramento das atitudes e a solidez dos bons comportamentos não passam, tantas vezes, de meros chavões propagandísticos dourados pelas manifestações de “educação para a cidadania” ou “formação cívica” ou, como doravante se passará a dizer, “Cidadania e Desenvolvimento”, porque a formação do caráter requer trabalho, paciência e linguagens comuns por parte dos educadores, professores e formadores.
Um outro antídoto é a vigilância cuja tarefa se deve distribuir pela autovigilância e pela heterovigilância, originando a primeira a autocrítica (exame de consciência – já Séneca o recomendava) e a segunda o acompanhamento, a advertência, o aviso fraterno.
Quanto a remédios, a sociedade organizada dispõe dos seguintes: a censura social, a ação disciplinar e o poder jurisdicional (próprio das organizações associativas e societárias e dos tribunais secundados pelas polícias). Em todos eles, porém, devem dosear-se equilibradamente a justiça e a compreensão e clemência (que num patamar humano superior se chamam piedade ou misericórdia).
A censura social, devendo primar pelo respeito pela pessoa, não se compraz com o erro, muito menos o aplaude. Deve mesmo proscrevê-lo.
A ação disciplinar e o poder jurisdicional devem proceder sempre, atentos a todas as pistas disponíveis ou a disponibilizar, a uma investigação legalmente correta que apure os factos e as responsabilidades de cada um dos possíveis arguidos, garantir os justos meios de defesa (sendo tão censurável a denegação da defesa como o excesso de garantismo) e a clara e fundamentada decisão de arquivamento ou não e, se for o caso, a clara e fundamentada decisão de absolvição ou de condenação, tendo neste caso, ponderado as atenuantes e as agravantes. Devem sempre equilibrar-se a necessária autoridade com a compreensão das vicissitudes da pessoa humana. 
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Em suma, o vício democrático, caprichoso, migrante, camaleónico e de tendência tentacular à laia do polvo mete-se em todo o lado.
2018.10.25 – Louro de Carvalho  

quarta-feira, 30 de maio de 2018

“Desporto – Virtudes e riscos”


O enunciado em epígrafe constitui o tema da 4.ª Jornada Nacional da Pastoral da CulturaDesporto – Virtudes e riscos”, que se realizará a 2 de junho, em Fátima, na Casa “Domus Carmeli”, Rua do Imaculado Coração de Maria, 17, e durante a qual será concedido o prémio “Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes” ao ator Ruy de Carvalho.
Trata-se dum encontro, aberto a crentes e não crentes, que se centra no significado antropológico e nas atuais conexões socioculturais do desporto – poética e ética do corpo e do espírito, poderes e desvios da irradiação social (negócio, corrupção, alienação, etc.). E dele são destinatários privilegiados os agentes da Pastoral da Cultura, os professores, os educadores e os responsáveis pela juventude de paróquias, organismos e movimentos, dirigentes e treinadores de clubes desportivos a nível federativo e escolar.
Os conferencistas refletirão também sobre a possibilidade de atualização da perspetiva cristã do ideal humanista de “mens sana in corpore sano” (mente sã em corpo são).
O tema da jornada foi escolhido na sequência das múltiplas intervenções do Papa Francisco e seus antecessores sobre o Desporto, área que suscitou a criação dum departamento exclusivo por parte do Conselho Pontifício da Cultura.
Entre as numerosas iniciativas do Vaticano contam-se a 1.ª conferência global sobre fé e desporto, a organização de competições internacionais no campo do atletismo, futebol de salão e críquete, a participação de delegações da Santa Sé nos Jogos Olímpicos e a criação de equipas desportivas.
A 4.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura é um evento reveste-se de grande oportunidade depois dos acontecimentos que acorreriam recentemente em Alcochete e que puseram em sentido os detentores de cargos políticos, s dirigentes desportivos e a massa crítica do país.
Do seu programa constam, como é natural: a sessão de abertura, em que tomarão a palavra  
Dom João Lavrador, Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, e José Carlos Seabra Pereira, Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura; uma Conferência por Tomaz Morais, treinador de râguebi, e comentador desportivo, seguida de debate entre público e conferencista; um primeiro painel moderado pela jornalista Maria João Costa, com a participação do Padre Ismael Teixeira, atleta, “iron priest”, e Ribeiro Cristóvão, jornalista, comentador desportivo; um segundo debate entre público e conferencistas; uma intervenção artística, por Paulo Pires do Vale, curador, professor universitário; um segundo painel moderado pela jornalista Maria João Costa, com a participação de Beatriz Gomes, antiga campeã mundial de canoagem, professora universitária, e
Jorge Gabriel, apresentador de televisão, comentador desportivo; um terceiro debate entre público e conferencistas; uma Conferência por Gonçalo M. Tavares, escritor, professor universitário, seguida de debate entre público e conferencista; e ato de entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes a Ruy de Carvalho, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, em parceria com a Renascença.
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Entretanto, o site do SNPC (Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura) já traz a apresentação do jornalista António Ribeiro Cristóvão um dos convidados para esta 4.ª jornada e tenciona fazer o mesmo para os demais convidados ao longo destes dias.
Ribeiro Cristóvão – conhecido de programas como “Bola branca”, na Rádio Renascença, e “Domingo desportivo”, na RTP, e atualmente comentador na SIC e na emissora católica – nasceu há 78 anos, em Proença-a-Nova, frequentou seminários em Vila Viçosa e Évora e, aos 16 anos, embarcou para Angola, onde se iniciou na rádio, conheceu a mulher com que está casado, há 53 anos, e com quem teve três filhos.
Regressado em 1975, encontrou trabalho na Renascença. Marcou presença como jornalista em duas fases finais de campeonatos do Mundo de futebol e em quatro Europeus e foi deputado na Assembleia da República durante seis anos.
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Porém, o SNPC transcreveu um artigo de Paolo Crepaz, professor universitário e médico de equipas nacionais de Itália, publicado em Sportmeet (Movimento dos Focolares) sob o título  “Desporto e fé: O jogo que a Igreja não pode perder por falta de comparência”. Nele, analisa “o fenómeno do desporto”; discorre sobre “o desporto, religião do nosso tempo”; evidencia “o jogo, essência do desporto”; releva “o valor biológico do jogo”; reflete sobre “jogo, desporto e corporeidade”; e olha “o desporto à luz da doutrina cristã”. Disto se faz resenha e condensação a seguir.
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Sobre o fenómeno do desporto, considera a ancestralidade desta ocupação (desde os alvores da história da humanidade) e frisa ter assumido no nosso tempo “o caráter de um fenómeno de massa consolidado e invasivo”, vencendo todo o tipo de barreiras. De facto, o desporto é omnipresente e condiciona a perceção da realidade, constituindo-se em nova referência antropológica, persistente poder espiritual planetário e modelo inspirador e metodológico para todos os âmbitos. E tem um forte papel educativo, pois são “usadas para gerir problemas, situações e questões comummente encontradas na vida do dia a dia” muitas das “competências para a vida” e muitas das “capacidades humanas adquiridas através de ensinamento ou experiência direta”. 
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O subtítulo o desporto, religião do nosso tempo” remete para o olimpismo como a matriz e a referência mais pertinente do desporto moderno, aliás como do da Grécia antiga. Com efeito, à luz do art.º 2.º da Carta Olímpica, o olimpismo é a filosofia de vida que “exalta e combina num conjunto harmonioso as qualidades do corpo, a vontade e o espírito”, estabelecendo a simbiose do desporto com a cultura e a educação. Por conseguinte, “propõe-se criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo e respeito pelos princípios éticos fundamentais universais”. Para Pierre De Coubertin, não se trata só da ação educativa dos jovens através da atividade motora, mas também de compaginar a conotação política dum projeto utopista de educação para a paz dos povos e de toda a comunidade internacional.
Também o desporto surge como caricatura mercantil duma religião universal, pois os eventos emblemáticos assumem o estilo duma liturgia numa e para uma assembleia planetária. Atente-se na cerimónia de acendimento do fogo olímpico ou na publicidade da Liga dos Campeões em futebol. O escritor espanhol e grande adepto do Barcelona Manuel Vazquez Montalban afirmou:
Numa época em que é evidente a crise das ideologias, em que é claro o redimensionamento da militância política, e onde até as atitudes religiosas sofrem de falta de perspetiva, o futebol é a única e grande religião praticável. Há neste desporto uma dimensão financeira, mediática, publicitária, mas não menosprezarei o seu lado litúrgico.”.
Assim, para Crepaz, o tema desporto à luz da fé cederá a “desporto: nova expressão de fé laica”.
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Comentando o enunciado em subtítulo “o jogo, essência do desporto”, o articulista sustenta que as pessoas gostam muito do desporto porque este é uma evolução do jogo, que é “experiência natural, instintiva, extremamente envolvente e fascinante”. Para Johan Huizinga, “o jogo é mais antigo que a cultura” e nele “manifesta-se um elemento imaterial na sua própria essência”. Como necessidade inata, o jogo induz a evolução das capacidades motoras, “cria um ambiente desinibido e distendido, melhora a imagem corpórea, aumenta o sentido de segurança e a autoestima, produz socialização e adaptação, faz nascer e desenvolver o uso da regra através de experiências diretas, regula o comportamento em relação aos outros, permite uma comunicação pessoal, restabelece o equilíbrio afetivo, permite experimentar papéis diferentes, facilita a tarefa do educador, que descobre estilos e modelos de comportamento da criança”.
A propósito, a socióloga e teóloga alemã Dorothee Solle exprimiu assim a busca da felicidade:
Como explicarei a uma criança o que é a felicidade? Não lhe explicarei: dar-lhe-ei uma bola para a fazer jogar.”.
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Com “o valor biológico do jogo”, Paolo Crepaz aponta as várias teorias sobre a utilidade biológica do jogo: “válvula de escape” das energias em excesso; robustecimento para treino em ordem à vida adulta (em contradição com o facto de o jogo decrescer na aproximação à idade adulta e os estímulos serem insuficientes); e treinamento para as dificuldades. E sustenta que os comportamentos lúdicos oferecem vantagens do ponto de vista biológico, caso contrário teriam sido aniquilados pela seleção natural.
Afirmando que o tempo despendido no jogo é diretamente proporcional às dimensões cerebrais do animal e inversamente proporcional à especialização, assegura que não há, na natureza, um animal que se entregue tanto tempo ao jogo como o homem por ser “o animal mais imaturo ao nascimento do ponto de vista neurológico (neotonia). Porque “o ser humano é o desajeitado cósmico”, o jogo oferece-se-lhe como o meio mais poderoso para lhe “fazer amadurecer e adaptar o cérebro neoténico imaturo ao ambiente, selecionando as conexões, as sinapses, que garantem esquemas motores e comportamentos eficazes para adaptar-se ao ambiente”. Assim, uma desvantagem imediata para o indivíduo, que o torna dependente e frágil, torna-se uma vantagem a prazo. Mesmo a nível biológico, pode dizer-se que a atividade motora e desportiva configura uma experiência formativa ou “um percurso que se funda não sobre o introduzir, mas sobre o educar” (no latim, “educere” e “educar”) e o fazer florir o que vive na pessoa.
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O nível biológico leva a equacionar o trinómio “jogo, desporto e corporeidade”. Com efeito, a corporeidade tem um valor fundamental, embora depreciado por vezes, que tornou tão difundida e popular a atenção prestada e a prestar à atividade física. Na verdade, como escreveu o cardeal Danneels, de Bruxelas, o ser humano “é, antes de tudo, espírito, pessoa única e livre, e é através do corpo que o seu espírito abre um caminho na matéria e na história”. E o francês Jean Giraudoux escrevia que “o desporto consiste em delegar ao corpo algumas das mais elevadas virtudes da alma”. Assim, o desporto, entendido como “jogo locomotivo para orientação motivacional intrínseca”, assume o papel de “manifestação ritualizada e organizada das expressões do espírito na corporeidade”, ou seja, de experiência que busca e desenvolve competências físicas, psicológicas e relacionais fundamentais para a formação da personalidade. Por conseguinte, o desporto é “askesis”, ou seja, experiência ascética, e é paideia (educação global) enquanto atividade de transformação do corpo e da alma.
Atentos a estes considerandos os gestores desportivos deveriam impedir qualquer tentativa de instrumentalização. Porém, embora o desporto queira aparecer e até ser como realidade em si mesmo e sem ligações de fé religiosa ou de interesses económicos e políticos, pelo menos ao nível das altas prestações, subjazem estas interferências. O desporto é hoje o negócio mais florescente do mundo e o produto mais vendível. E a história evidencia a sua instrumentalização para fins ideológicos: do romano “panem et circenses” para anestesiar as multidões ao empolgamento nazi e fascista, da ditadura argentina, dos mundiais de futebol, aos direitos humanos na China, das Olimpíadas, da cisão da ex-Jugoslávia ao Qatar dos tempos mais recentes.
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O subtítulo “o desporto à luz da doutrina cristã” lembra que os pensadores do cristianismo se concentraram mais nas questões éticas entre a mansidão evangélica e a competitividade desportiva do que na relação entre fé e desporto. Oferecem importantes pontos de reflexão as referências da 1.ª carta de Paulo aos Coríntios. Mas é original e interessante a ótica do pastor anglicano Lincoln Harvey que fala do desporto como “celebração da nossa contingência”, ou seja, do sentido, ao mesmo tempo, fugaz e eterno do nosso ser. E o ponto de vista do Papa Francisco, que chama ao desporto “metáfora da vida”, abre novos pontos de reflexão. A transferência das competências na área do desporto do Conselho Pontifício para os Leigos para o Conselho Pontifício da Cultura é significativa: o desporto é cultura.
E o congresso sobre desporto e fé “O desporto ao serviço da humanidade”, realizado no Vaticano em outubro de 2016, representa uma pedra angular neste sentido. Foi, como dizia o cardeal Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura, ocasião de encontro, para debate conjunto (crentes e não crentes) dos grandes desafios da sociedade contemporânea e dos interesses partilhados das comunidades desportivas e religiosas do mundo. Intentou-se “lançar um movimento que inspire a pensar e agir segundo a ‘Declaração dos Princípios do Desporto ao Serviço da Humanidade’, com um conjunto de valores orientadores que articulam a influência combinada de desporto e fé”. São eles: a compaixão, que leva a dar força aos que são pobres e desfavorecidos; o respeito, que induz a reverência pelos adversários e a compreensão da sua cultura, bem como a condenação da violência no desporto, dentro e fora de campo; o amor, pois amar o desporto, que é para todos, leva a promover a participação fraterna e “permite a todos competir em condições iguais”; a iluminação, já que “o desporto tem o poder de transformar a vida e construir o caráter”; o equilíbrio, pois em cada fase da vida se joga por divertimento, saúde e amizade: e a alegria, pois desporto é sobretudo alegria, muito mais eficaz e visível no exercício que no vencer. O desporto bem poderá constituir o comércio e a indústria da paz!
Por fim, emerge, sobretudo para quem é cristãmente inspirado, a urgência de realçar e promover a beleza no desporto, a “estética”. Embora não seja viável não haver confronto no desporto, há que o apresentar como uma “via pulchritudinis”. Para tanto, todos, mas em especial os cristãos, devem questionar-se sobre o valor a reconhecer ao mundo do desporto, o relacionamento dos praticantes coma atividade desportiva – da atividade juvenil ao profissionalismo, sobre as expressões de fé no desporto, sobre a explicação das manifestações de fé, superstições e exorcismos no desporto e sobre se há uma fé incarnada no desporto e quais os seus pressupostos.
O desporto merece intensa, profunda e alargada reflexão.
2018.05.30 – Louro de Carvalho


sexta-feira, 2 de março de 2018

UMA SÓ FAMÍLIA HUMANA, CUIDAR DA CASA COMUM


É o tema da Semana Nacional da “Cáritas” em Portugal, que está a decorrer de 26 de fevereiro até ao próximo dia 4 de março.
Gosto de falar desta iniciativa, quando sei que algumas “Cáritas” diocesanas estão com problemas alegadamente por via da gestão de verbas (com o labéu de gestão danosa), mas sobretudo para dizer que não alinho na confusão entre a “Cáritas” de Lisboa e a “Cáritas” Portuguesa, sendo que a “Cáritas” Portuguesa é uma entidade nacional com personalidade e capacidade jurídicas próprias, bem como serviços e agentes próprios, e que em cada diocese, mais ativa e operativa ou menos, existe a “Cáritas” diocesana para garantir o serviço da ação pastoral da Igreja local junto de quem mais precisa. E é bom que os agentes operativos prestem, sim, um serviço assistencial sempre que a emergência o exige, mas que não se esqueçam de que o importante é trabalhar pela autonomização das pessoas e grupos que hoje se sentem fragilizados e dependentes, na linha de que nunca se deve dar por caridade o que é devido por justiça, pois a caridade cristã deveria ser o selo de Evangelho que se apõe à obra da promoção da justiça social, para garantir um rosto de humanidade em todo quanto se faz de bem.
Não se pode olvidar que a “Caritas” em Portugal é composta por mais de 1400 colaboradores profissionais, cerca de 100 dirigentes e conta com a colaboração regular de cerca de 250 voluntários e mais de 4 mil voluntários ocasionais.
Por outro lado, será de grande utilidade e de exercício de seriedade tentar conhecer todo o bem que as “Cáritas” fazem, mesmo aquelas que eventualmente acusem problemas de gestão. Com efeito é fácil – e a nossa comunicação social merece críticas neste aspeto – propalar os aspetos negativos das diversas organizações, sobretudo daquelas em que se evidencia o trabalho das Igrejas, mas torna-se bem difícil expor Urbi et Orbi a ação benéfica de quem trabalha pelas grandes causas, a não ser que seja útil fabricar mitos para chapar com eles na face de quem não gostamos. Mas, como diz António Costa, “é a vida”.
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Ora, para lá dum conjunto de ações locais, nesta semana, a “Cáritas” quer a participação de todos os portugueses Peditório Público Nacional, entre os dias 1 e 4 de março.
Com efeito, são muitas as situações que levam os portugueses a procurar a ajuda da “Cáritas”. São elas os baixos rendimentos, o desemprego, a falta de saúde e a ausência de habitação.
Assim, segundo os dados oportunamente divulgados, no primeiro semestre de 2017, a rede nacional “Cáritas” atendeu um total de 68 258 pessoas. E os atendimentos reportados pelas “Cáritas” diocesanas relativamente ao primeiro semestre de 2017 registaram uma diminuição face aos anos anteriores, mas não com uma diferença muito elevada, verificando-se em relação ao ano de 2016 uma diminuição de 7%.
Eugénio Fonseca, presidente da “Cáritas” Portuguesa (e sabemos que é um lídimo discípulo de Dom Manuel Martins, que foi o 1.º Bispo de Setúbal) frisa:
Este ano, a Cáritas olhar particularmente para o mundo como ‘casa comum’ e é nessa perspetiva que desenvolve a sua missão diária de resposta às emergências locais e nacionais. Acreditamos que o mundo pode ser um lugar melhor se todos nos sentirmos parte de uma mesma família e é esse o contributo que a Cáritas quer dar a Portugal e ao Mundo.”.
Dom Joaquim Traquina, Bispo de Santarém e Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade (sucessor, neste cargo, de Dom António Francisco dos Santos, que foi Bispo do Porto), lembra que nunca podem andar sozinhos as expressões “casa comum” e “família humana”, sobretudo quando se pretende alcançar um desenvolvimento sustentável integral. Evocando as palavras do Papa ao sublinhar que não existem duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma e complexa crise socioambiental”, Dom José entende dever encontrar-se “uma abordagem integral que permita combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza”.
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No sítio Web da “Cáritas” Portuguesa, fica plasmado o dinamismo de algumas das suas principais iniciativas e da sua ação em geral.   
A Semana Nacional Cáritas é uma iniciativa da rede “Cáritas” em Portugal que acontece todos os anos na semana que antecede o Dia Nacional Cáritas, que se assinala no 3.º domingo da Quaresma (este ano, 4 de março). É uma semana em que, por todo o país, se multiplicam atividades de ação social, atividades de animação pastoral e também iniciativas de angariação de fundos, como é o caso do peditório público nacional, que reverte para o apoio da missão da “Cáritas” a nível nacional.
Persegue os seguintes objetivos: divulgação as atividades de apoio social desenvolvidas pela rede “Cáritas”; promoção da reflexão sobre temas relevantes conexos com essas atividades; realização de atividades locais para dar a conhecer a “Cáritas” e o seu trabalho; e angariação de fundos (de 1 a 4 de março)
Em 2018, em torno do tema “Uma Só Família Humana, Cuidar da casa Comum”, pretende-se promover a reflexão na sociedade sobre a “ecologia integral” que é, para a “Cáritas”, estabelecer uma relação única com Deus, com o outro e com o planeta.
Apesar de existirem, na sociedade portuguesa, sinais de melhoria das condições de vida, as famílias chegam à “Cáritas” com problemas sociais graves, sobretudo em matéria de trabalho e sobre-endividamento, quer devido à insuficiência de recursos para fazer face às despesas correntes, quer devido a piores condições laborais. Esta realidade é ainda mais preocupante nos jovens, do que se deu conta no recente relatório conjunto da “Cáritas” Portuguesa e da “Cáritas” Europa “Os jovens na Europa precisam de um futuro!”.
Como se disse, no primeiro semestre de 2017, a rede nacional “Cáritas” respondeu a mais de 68 mil pessoas. A resposta às situações de emergência é missão da “Cáritas”. E, assim, em junho e outubro de 2017, esteve com as vítimas dos incêndios prestando apoio direto à população. As duas campanhas de recolha de fundos que se realizaram angariaram cerca de 2 milhões e 100 mil euros. Perto de metade destes recursos adveio dos ofertórios das comunidades cristãs, decidido pelos Bispos portugueses. Com esta verba, assumiu-se a construção de 51 habitações em Coimbra e Portalegre-Castelo Branco (28 concluídas e as restantes em curso), foram apoiados produtores de animais em Viseu e Guarda e muitas famílias nos complementos dos seus meios de vida. O trabalho foi feito em rede com as “Cáritas” diocesanas, as comunidades paroquiais, as autoridades públicas nacionais e locais e inúmeros parceiros.
O peditório público, que vai decorrer até 4 de março, reverte para o apoio de projetos sociais nas 20 dioceses do país. A conclusão do peditório coincide com o fim da Semana Nacional Cáritas, que este ano tem como tema ‘Uma Só Família Humana, Cuidar da Casa Comum’.
Em 2017 esta atividade permitiu angariar “um total de 194 510,41 euros que foram aplicados nos diferentes projetos diocesanos de apoio à população fragilizada”.
Na dimensão internacional, a “Cáritas” apoiou com alimentos, agasalhos, apoio social e alojamento mais de 3200 refugiados na Turquia, na Sérvia e na Grécia, mantendo-se ativa na resposta a esta crise humanitária. Esteve com as vítimas das cheias na Albânia e contribuiu com medicamentos para muitas famílias da Venezuela. Foi um trabalho realizado, através da rede mundial, com as “Cáritas” destes países.
A campanha da Caritas Internationalis “Partilhar a Viagem”, lançada em setembro, pelo Papa, pretende promover a “cultura do encontro” encorajando as pessoas a refletir, aproximando migrantes, refugiados e comunidades com o escopo de mudar corações e mentalidades. Além de se associar ao lançamento mundial, a “Cáritas” Portuguesa assinalou, com este tema, o 1.º Dia Mundial dos Pobres.
A Semana Nacional Cáritas – uma iniciativa que quer dinamizar na sociedade a reflexão à volta de uma “ecologia integral” que privilegia e defende “a relação única com Deus, com o outro e com o planeta” encerra no próximo domingo, na Sé de Santarém, com uma celebração eucarística presidida por Dom José Traquina, bispo desta diocese e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.
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O Bispo de Santarém, por ocasião da Semana Nacional Cáritas deixou aos portugueses uma mensagem em que, além das afirmações que lhe foram atribuídas supra, refere que “o mundo é a nossa casa”, o que nos foi dado perceber desde a infância em qualquer lugar que tenhamos vivido e crescido ou no convívio com as que pessoas cujo contacto a vida nos proporciona e o que nos é todos os dias feito sentir pela comunicação social. Se o mundo é a nossa casa, o conjunto de quantos os habitam constituem a nossa família. Sendo assim, a nossa responsabilidade, começando no nosso núcleo familiar mais próximo, estende-se a todo o mundo, particularmente aos que nele vivem em jeito de fragilização, opressão, marginalização ou descarte.    
É nestes termos que o prelado escalabitano nos propõe a releitura atenta da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, e destaca, a propósito, o segmento da introdução que diz:
O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum. Desejo agradecer, encorajar e manifestar apreço a quantos, nos mais variados setores da atividade humana, estão a trabalhar para garantir a proteção da casa que partilhamos. Uma especial gratidão é devida àqueles que lutam, com vigor, por resolver as dramáticas consequências da degradação ambiental na vida dos mais pobres do mundo. Os jovens exigem de nós uma mudança; interrogam-se como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pensar na crise do meio ambiente e nos sofrimentos dos excluídos.” (n.13).
Crente de que “as coisas podem mudar” e convicto de que “a nossa casa comum” e “toda a família humana” estão na rota da procura de um “desenvolvimento sustentável e integral”, o prelado do Ribatejo reforça:
É esta a missão da Cáritas. É este o nosso compromisso na transformação do mundo em que vivemos para que seja, cada vez mais, uma terra de irmãos, um mundo de paz.”.
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Depois, é justo não deixar de pôr em relevo o “Projeto +Próximo”. Com efeito, apostando na organização do pilar social da Igreja e na formação dos agentes pastorais, a Cáritas ambiciona fazer caminho na estruturação dum modelo nacional para a intervenção social de proximidade da Igreja em Portugal, reforçando a formação das pessoas, comunidades e instituições católicas locais no desenvolvimento espiritual e social, de forma sustentada e duradoura. É uma aposta que aponta para a construção dum modelo de formação nacional, baseado num sistema descentralizado de formação (por Diocese, utilizando formadores locais), utilizando materiais de base nacionais devidamente reconhecidos e aceites pela hierarquia da Igreja Portuguesa.
Visa reforçar competências, animar e promover a criação de grupos em todas as comunidades paroquiais e melhorar a cooperação entre os vários organismos e movimentos da ação social e caritativa que já existem. Trata-se duma opção estratégica assumida para os próximos anos. E, desta forma, o projeto vem ganhando relevo como instrumento de resposta à crise através do desenvolvimento de atividades transversais de sensibilização que envolvem todos os cristãos e as organizações da Igreja empenhadas na pastoral social de proximidade. A abordagem projetada apoia-se fundamentalmente no esforço de gerar consensos quanto à forma de organização e de cooperação entre os organismos sócio-pastorais; na construção de materiais formativos; e na formação de formadores Diocesanos e de agentes paroquiais de ação social.
Tudo isto, porque “o kérigma possui um conteúdo inevitavelmente social: no próprio coração do Evangelho, aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros e o conteúdo do primeiro anúncio tem uma repercussão moral imediata, cujo centro é a caridade”.
Tudo isto, sim, porque,para a Igreja, a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia, mesmo, deixar aos outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência”.
Tudo isto, para que “que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!”. (vd “Quem Somos, visão, missão e valores, http://caritas.pt/quem-somos/missao-visao-e-valores/).
2018.03.02 – Louro de Carvalho

sábado, 6 de janeiro de 2018

Procura, indiferença e medo ou olhar ao Alto, caminhar e oferecer!

Hoje, 6 de janeiro, o Papa Francisco, abordou o mistério da Solenidade da Epifania do Senhor na homilia da Missa e por ocasião da recitação do Angelus e apresentou o outro lado misterioso do Natal e as atitudes que os crentes devem apresentar, cultivar e desenvolver ante o mistério do Deus encarnado e exposto aos homens.
Entretanto, é de lembrar o sentido literal e originário da solenidade. A Epifania do Senhor (do grego: Ἐπιφάνεια: aparição; fenómeno miraculoso) ou Teofania (do grego: Θεοφάνια: manifestação de Deus) é a festividade cristã que assinala a manifestação de Jesus Cristo como o Deus Emanuel (Deus-connosco), ou seja, Cristo como Deus encarnado, feito homem ou tornado visível.
No cristianismo ocidental, a festividade recorda primariamente a visita dos magos (como vem narrado em  Mt 2,1-12), enquanto no Oriente evoca o Batismo de Jesus. A data tradicional da Epifania é a de 6 de janeiro, mas, quanto à Igreja Latina, desde a reforma do Calendário Romano em 1969, é possível que a solenidade seja transferida para um domingo, o que acontece no caso português, que se celebra no domingo que ocorra entre 2 e 8 de janeiro (este ano, a 7 de janeiro); e, quanto à Igreja Ortodoxa e à Igreja Católica Oriental, o uso do calendário juliano antigo por algumas jurisdições faz com que a solenidade seja transferida para o dia 19 de janeiro, sendo amanhã, dia 7, ali festejado o Natal.
A Epifania é relacionada com o momento da manifestação de Jesus Cristo como o enviado de Deus, quando o mesmo se autoconclama filho do Criador. Na narração bíblica, Jesus deu-se a conhecer a diferentes pessoas e em diferentes momentos. Porém, o mundo cristão ocidental celebra como epifania três eventos: a Epifania propriamente dita perante os magos do Oriente e que é celebrada no dia 6 de janeiro ou, como foi referido, no domingo entre 2 e 8 de janeiro; a Epifania a João Batista no Jordão durante o Batismo de Jesus; e a Epifania aos seus discípulos e início da sua vida pública com o milagre de Caná, quando começa o seu ministério.
Assim, a solenidade da Epifania do Senhor, celebra a tríplice manifestação do nosso grande Deus e Senhor, Jesus Cristo: em Belém, o Menino Jesus foi adorado pelos magos (cf Mt 2,11); no Jordão, Jesus, já adulto, foi batizado por João Baptista, ungido pelo Espírito Santo e chamado Filho de Deus Pai (cf Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22; Jo 1,29-34); em Caná da Galileia, numa festa de núpcias, transformando a água em vinho, Jesus manifestou a sua glória (cf Jo 2,1-11).
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Antes da recitação do Angelus perante a multidão reunida na Praça de São Pedro, o Papa soube anotar três atitudes com que foi acolhida a vinda de Jesus e a sua manifestação ao mundo.
O Natal aconteceu em lugar inóspito, porque não havia lugar para o Senhor e seus pais na cidade, mas os anjos vêm cantar a glória de Deus e a paz para os homens e anunciam a alegria do mistério aos pastores que se apressam a correr a Belém, ficando contentes por tudo ter acontecido como lhes fora dito pelo anjo. Abandono, alegria, procura, contemplação. Porém, na Epifania sentida pelos magos, as coisas sucedem um pouco na inversa: a procura e procura pressurosa; a indiferença; e o medo.
Quando veem a estrela do Rei dos Judeus, os magos não hesitam em pôr-se a caminho na procura do Messias. Este é o primeiro apontamento de Francisco. Chegados a Jerusalém, após “uma longa viagem”, dirigem-se a Herodes a perguntar onde nasceu o Rei dos Judeus, porque viram despontar a sua estrela e vieram adorá-lo.
A esta procura pressurosa responde a indiferença. Herodes convocou os sacerdotes e escribas para se informar sobre o lugar onde deveria nascer o Messias. Estes zelosos guardas da Lei e do culto – diz o Papa – estavam mui comodamente instalados, conheciam as Escrituras e estavam em condições de fornecer a resposta adequada (“Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pela mão do profeta”). Sabem-no, mas não se desinstalam para irem à procura do Messias, quando Belém fica a poucos estádios de Jerusalém. Mais negativa, porém, é a postura de Herodes: o medo. É o medo de que o recém-nascido o desaloje do poder. E o medo gera nele a hipocrisia, o disfarce:
Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem” (Mt 2,8).
Na verdade, Herodes queria saber onde se encontrava o menino, não para o adorar, mas para o eliminar. O assassinato pode ser um terrível fruto do medo, do medo de perder posição, poder, riqueza. O menino constituía para Herodes um rival. E o Papa adverte:
O medo comporta sempre hipocrisia. Os hipócritas são assim, porque têm medo no coração.”.
Perante as posturas encontradas no Evangelho – procura pressurosa, indiferença e medo – colocam-se a cada crente questões existenciais que mexem com a pessoa. Pode um crente procurar pressurosamente Jesus. Mas, como não O sente e não vislumbra resposta dele, pode cair na tranquilidade da indiferença ou na indiferença da tranquilidade. Pode ter medo de Jesus no coração e tentar expulsá-lo da vida… Com efeito, como refere o Pontífice, o egoísmo pode induzir a consideração da entrada de Jesus na nossa vida como uma ameaça. Quando se erigem “as ambições humanas”, “as perspetivas mais cómodas”, “as inclinações para o mal, Jesus é tido como “um obstáculo” e tenta-se suprimi-lo ou fazer calar a sua mensagem.
Por outro lado, é de ter em conta que nos persegue sempre a tentação da indiferença, pois, como refere o Papa Francisco, sabendo-se que Jesus é o Salvador de todos nós, prefere-se viver como se não o fosse e, em vez de nos comportarmos em coerência com a fé cristã, seguimos os critérios do mundo que levam à prepotência, à sede de poder e às riquezas. Porém, adverte:
Somos chamados a seguir o exemplo dos magos: ser pressurosos na procura, prontos para o esforço por encontrar Jesus na nossa vida. Procurá-Lo, para O adorar, para reconhecer que Ele é nosso Senhor, ele que indica a verdadeira vida a seguir. Se temos esta postura, Jesus realmente nos salva e podemos viver uma vida bela, podemos crescer na fé, na esperança, na caridade para com Deus e para com os nossos irmãos.”.
No término da sua alocução mariana, o Santo Padre invocou a Mãe de Jesus e nossa Mãe, “estrela da humanidade peregrina” para que, com a sua intercessão, possamos encontrar Cristo, “Luz da Verdade”, a fim de progredirmos no caminho da justiça e da paz.
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Na homilia da Santa Missa, Francisco entendeu que “o nosso percurso ao encontro do Senhor, que hoje Se manifesta como luz e salvação para todos os povos, é elucidado por três gestos dos magos”, os quais “veem a estrelapõem-se a caminho oferecem presentes”.
Segundo o Pontífice, “ver a estrela” constitui “o ponto de partida”. E só os magos a viram, porque, talvez como poucos, “levantaram o olhar para o céu”. Muitas vezes, na vida, “contentamo-nos com olhar para a terra”. Basta-nos “a saúde, algum dinheiro e um pouco de divertimento”. E o Papa interroga-se e interpela-nos:
Sabemos nós ainda levantar os olhos para o céu? Sabemos sonhar, anelar por Deus, esperar a sua novidade, ou deixamo-nos levar pela vida como um ramo seco pelo vento?”.
Com os magos, que “não se contentaram com deixar correr, flutuando”, mas “intuíram que, para viver de verdade”, aprendemos que é necessária “uma meta alta” e que “é preciso manter alto o olhar”. Mas poderíamos e deveríamos interrogar-nos:
Porque é que muitos outros, dentre aqueles que levantavam o olhar para o céu, não seguiram aquela estrela, ‘a sua estrela’ (Mt 2,2)?”.
E Francisco tem a resposta:
Talvez porque não era uma estrela deslumbrante, que brilhasse mais do que as outras. Era uma estrela que os magos viram – diz o Evangelho – ‘despontar’ (cf Mt 2,2.9). A estrela de Jesus não encandeia, não atordoa, mas gentilmente convida. Podemos perguntar-nos pela estrela que escolhemos na vida. Há estrelas deslumbrantes, que suscitam fortes emoções, mas não indicam o caminho. Tal é o sucesso, o dinheiro, a carreira, as honras, os prazeres procurados como objetivo da existência. Não passam de meteoritos: brilham por um pouco, mas depressa caem e o seu esplendor desaparece.”.
Não é assim a estrela do Senhor. Se nem sempre é fulgurante, contudo não é uma estrela cadente, perecível; está sempre presente e, na sua meiguice, guia e acompanha. Não prometendo recompensas materiais, garante a paz, dá enorme alegria (cf Mt 2,10) e incita a caminhar.
E caminhar “é essencial para encontrar Jesus”. Mas implica “a decisão de se pôr a caminho”, o que origina a fadiga de todos os dias, em que a pessoa tem de “se libertar de pesos inúteis e sumptuosidades embaraçantes, que estorvam, e aceitar os imprevistos que não aparecem assinalados no mapa da vida tranquila”. No entanto, o Papa sublinha a maravilha esforçada:
Jesus deixa-Se encontrar por quem O busca, mas, para O buscar, é preciso mover-se, sair. Não ficar à espera; arriscar. Não ficar parados; avançar. Jesus é exigente: a quem O busca, propõe-lhe deixar as poltronas das comodidades mundanas e os torpores sonolentos das suas lareiras. Seguir a Jesus não é um polido protocolo a respeitar, mas um êxodo a viver. Deus, que libertou o seu povo mediante o trajeto do êxodo e chamou novos povos para seguir a sua estrela, dá a liberdade e distribui a alegria, sempre e só, em caminho.”.
Na verdade, “para encontrar Jesus”, tem de se “perder o medo de entrar em jogo”, desvalorizar “a satisfação do caminho andado”, vencer “a preguiça de não pedir mais nada à vida”. Enfim, “encontrar aquele Menino” e “descobrir a sua ternura e o seu amor” é encontrarmo-nos a nós mesmos. Mas a decisão de se pôr a caminho não se torna fácil: exige lucidez, coragem, isenção, falta de medo e de hipocrisia; implica reta intenção.
O Papa mostra-nos esta dificuldade através das várias personagens do Evangelho da Epifania.
Herodes, perturbado pelo medo dum rei que venha ameaçar o seu poder, “organiza reuniões e envia outros a recolher informações”, mas ele próprio fica imóvel, fechado no seu palácio. E “toda a Jerusalém” (Mt 2,3), com ele e como ele, “tem medo”, mesmo “das coisas novas de Deus”. Preferem que tudo fique como antes (“fez-se sempre assim”); não se decidem pôr a caminho.
Por sua vez, em posição mais subtil, estão os sacerdotes e escribas: “conhecem o lugar exato e indicam-no a Herodes, citando inclusive a profecia antiga”, mas não dão o passo para Belém.
O Pontífice vê aqui a tentação de quem é crente há muito tempo:
Discorre-se da fé, como de algo que já é conhecido, mas que não se compromete pessoalmente com o Senhor. Fala-se, mas não se reza; lastima-se, mas não se faz o bem.”.
Já os magos, que falam pouco, caminham muito. E, embora desconhecessem “as verdades da fé”, a sua ânsia levou-os a pôr-se a caminho. Os verbos utilizados nesta perícopa evangélica são verbos de postura positiva, de atividade e de movimento: “viemos adorá-lo”, “puseram-se a caminho”, “entraram na casa”, “prostraram-se”, “regressaram”.
Depois das atitudes da perspicácia de ver a estrela e da coragem de se porem a caminho, vem o Oferecer. Efetivamente, como diz o Evangelho, os magos, ao chegarem junto de Jesus, fazem como Ele: “dão”. Jesus oferece a vida: dá-Se. Os magos, vindos do oriente em longa viagem, “oferecem as suas preciosidades: ouro, incenso e mirra”. E diz Francisco, a este propósito:
O Evangelho está cumprido, quando o caminho da vida chega à doação. Dar gratuitamente, por amor do Senhor, sem esperar nada em troca: isto é sinal certo de ter encontrado Jesus, que diz ‘recebestes de graça, dai de graça’ (Mt 10,8). Praticar o bem sem cálculos, mesmo se ninguém no-lo pede, mesmo se não nos faz ganhar nada, mesmo se não nos apetece. Isto é o que Deus deseja. Ele, que Se fez pequenino por nós, pede-nos para oferecermos algo pelos seus irmãos mais pequeninos. E quem são? São precisamente aqueles que não têm com que retribuir, como o necessitado, o faminto, o forasteiro, o preso, o pobre (cf Mt 25,31-46).”.
Como se vê, o Papa Bergoglio não deixa de pôr o acento epifânico nas consequências que a busca, a caminhada e a contemplação do mistério têm na sociedade e nas suas franjas mais deserdadas, nas relações interpessoais, nas estruturas sociais e políticas de pecado:
Oferecer um presente agradável a Jesus é cuidar dum doente, dedicar tempo a uma pessoa difícil, ajudar alguém que não nos inspira, oferecer o perdão a quem nos ofendeu. São presentes gratuitos, não podem faltar na vida cristã; caso contrário, como nos recorda Jesus, amando apenas aqueles que nos amam, fazemos como os pagãos (Mt 5,46-47).”.
E o Papa Francisco não descura o discurso exortativo no sentido de que “olhemos as nossas mãos muitas vezes vazias de amor” e, como compensação e reforço, procuremos “pensar num presente gratuito, sem retribuição, que possamos oferecer”, que seja “agradável ao Senhor”. Depois, é salutar pedir: “Senhor, fazei-me redescobrir a alegria de dar”.
Por fim, vem o apelo a que “façamos como os magos: olhar para o Alto, caminhar e oferecer presentes gratuitamente”.
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Após a oração do Angelus, Francisco passou a saudar os diversos grupos de fiéis presentes na Praça São Pedro. Antes de tudo, recordou que algumas Igrejas orientais, católicas e ortodoxas, celebram, este domingo, o Natal do Senhor:
A estas Igrejas dirijo as minhas felicitações mais cordiais. Que esta celebração seja fonte de novo vigor espiritual e de comunhão entre todos os cristãos, que reconhecem Jesus como Senhor e Salvador.”.
E exprimiu, em especial, a sua proximidade aos cristãos ortodoxos coptas, saudando o irmão, o Papa de Alexandria Tawadros II, na jubilosa ocasião da consagração da nova Catedral do Cairo.
A seguir, recordou o Dia da Infância Missionária, que se celebra neste sábado (6 de janeiro). E a todas as crianças e adolescentes missionários convidou a dirigir os seus olhares ao Menino Jesus, para que Ele seja a guia preciosa no seu compromisso de oração, fraternidade e partilha entre seus coetâneos mais necessitados.
Por fim, dirigiu aos participantes na manifestação folclórica da XXIII edição de “Viva a Epifania”, promovida pela Associação Famílias Europeias, cujo objetivo é reafirmar e transmitir o verdadeiro significado espiritual e os valores da Epifania do Senhor, bem como o Cortejo dos Magos que se realiza em muitas das cidades da Polónia com larga participação de famílias e associações.
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Enfim, para encontrar Jesus é preciso entrar em ação. Com efeito,
Deus, que libertou seu povo, por meio do êxodo, e chamou novos povos para seguir a sua estrela, concede a liberdade e a alegria somente a quem está a caminho. Para encontrar Jesus, é preciso entrar em ação, pôr-se a caminho, sempre e sem cessar. Para encontrar o Menino, é preciso arriscar: descobrindo a sua ternura e o seu amor nós nos encontramos”.

2018.01.06 – Louro de Carvalho