Mostrar mensagens com a etiqueta Universalidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Universalidade. Mostrar todas as mensagens

sábado, 19 de outubro de 2019

Proposta de um rito amazónico neste Sínodo


Foram ontem, dia 18, apresentados na Sala de Imprensa da Santa Sé os relatórios dos Círculos Menores no âmbito da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-amazónica em torno do tema “Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”.
Entre os participantes estavam Dom Mário António da Silva, Bispo de Roraima (Brasil), Dom Rino Fisichella, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, Mauricio Lopez, secretário executivo REPAM (Rede Eclesial Pan-amazónica), e irmã Daniela Adriana Cannavina, secretária-geral da CLAR (Colômbia).
Padre Giacomo Costa, secretário da Comissão de Informação, abriu a conferência de imprensa com a seguinte premissa:
Os relatórios dos Círculos Menores não são textos definitivos, mas são um primeiro passo de um tecido nascido da escuta e orientado pelo discernimento. Em alguns grupos, o debate e o confronto são abertos. As posições dos padres sinodais nem sempre coincidem, mas cada um oferece a sua própria contribuição.”.
Na convicção de que o Sínodo é também uma exortação, a Irmã Daniela Adriana Cannavina, reiterou que o convite é pensar na Amazónia e abrir novos caminhos para a Igreja. É necessário torná-los possíveis e praticáveis, ultrapassando e vencendo os medos. E a secretária-geral da CLAR lembrou que, durante o trabalho sinodal, foi dado espaço às contribuições das mulheres. Referindo-se à vida consagrada, indicou uma prioridade: a de continuar a promover uma vida centrada no Evangelho. Acrescentou que, nesse sentido, devemos resistir à indiferença, porque a vida consagrada é um ícone da aceitação da vida. E, a este propósito, indicou quatro chaves fundamentais, sendo a primeira a inculturalidade e a segunda a itinerância, que assegura a presença de uma Igreja em saída. As outras duas chaves para abrir novos caminhos são o fortalecimento da presença missionária, a partir dos carismas, e a promoção do diálogo entre pastores e leigos em ambiente de corresponsabilidade. Enfim, impõe-se a renovação e o fortalecimento da vida consagrada como uma mais-valia para a ação naquela região, aliás como em toda a Igreja e no mundo.
Dom Rino Fisichella, por seu turno, salientando que a experiência do caminho sinodal é única e que cada Sínodo é uma emoção intelectual cada vez mais profunda, sublinhou que este Sínodo nos exorta a refletir também sobre o significado da universalidade da Igreja, pois, como acentuou, a Igreja é uma só, mas é composta por muitos povos, um diferente do outro. Por conseguinte, vincando que todos os povos devem ser respeitados, o Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização frisou que este pressuposto implica o reconhecimento da complementaridade entrosada na universalidade. Assim, cada povo, cada cultura e cada tradição têm algo a dizer para que o património comum possa ser compreendido e iluminado. Nestes termos, o Arcebispo entende que cada uma das culturas da Amazónia expressa algum elemento que nos permite compreender a grandeza da fé cristã. Com efeito, em minha opinião, somente se pode intervir localmente com eficácia se pensarmos globalmente e só pensamos globalmente se tivermos em conta as experiências que obtivermos do contacto com cada povo que nos é dado conhecer. A Igreja é universal. E o conceito clássico de universal refere-se àquilo que se aplica a todos e a cada um “singulariter et divisim”.  
***
Dom Rino Fisichella lembrou também que foi feita uma proposta para seguir o caminho de um “rito amazónico” que permita desenvolver sob o aspeto espiritual, teológico, litúrgico e disciplinar, a singular riqueza da Igreja Católica na Amazónia. Na verdade, como explicou, os ritos são a expressão da evangelização. E, quando o anúncio do Evangelho atinge uma cultura, é inculturado através das formas mais coerentes para expressar o mistério. Na época contemporânea, foi concedido para o caminho neocatecumenal um rito, limitado apenas à liturgia. No caso do rito amazónico, especificou Dom Fisichella, “estamos diante de uma proposta que diz respeito ao rito na sua totalidade”. Venha daí o rito novo e adequado!
Dom Mário António da Silva observou que “este Sínodo é uma oportunidade que temos para nos colocarmos em contacto com a vida, com o ambiente, mas sobretudo com a vida das comunidades” e frisou que a assembleia sinodal é uma oportunidade de escuta da voz da Amazónia, uma oportunidade de reconhecimento dos caminhos já traçados pelos mártires e uma oportunidade de abertura de novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral. Recordando a realidade da sua diocese, identificou a migração como um dos principais desafios, nomeadamente o que decorre da atual crise humanitária, por via da qual o Papa Francisco, como o Bispo de Roraima explicou, nos convida “a sermos capazes, como Igreja, de acolher, proteger, promover e integrar os migrantes”. Por outro lado, vincou a necessidade de novos colaboradores para chegar até mesmo às pequenas comunidades, longe das pequenas cidades. Entre as propostas há também a da ordenação sacerdotal dos “viri probati”, isto é, a ordenação de adultos casados. Vincando que o celibato é um dom da Igreja e que deve ser considerado como algo muito precioso, o prelado advertiu para a necessidade de oferecer respostas prontas e diversificadas às necessidades da Igreja presente nos povos mais longínquos e mais necessitados de estímulos à vivência da fé e à multiplicação de situações da sua vivência. Por outro lado, Dom Mário António da Silva recordou que o Papa Francisco nos pede que prestemos atenção a toda a Criação, pois a ecologia integral leva-nos a pensar também nas gerações futuras.
E Mauricio Lopez, secretário da REPAM, depois de perguntar “qual é o olhar de Deus sobre a realidade amazónica”, propôs um momento de silêncio e reflexão na conferência de imprensa, que durou 30 segundos. E este interveniente disse que “é necessário observar a realidade com o olhar de Deus”. E, sustentando querer voltar ao lugar onde trabalham todos os dias, quer dizer ao povo da Amazónia que “honramos as suas vidas” e que “as suas vozes foram ouvidas”. E acrescentou esclarecedoramente:
As periferias não querem roubar o lugar do centro: trata-se de iluminar o centro a partir das periferias. E não se deve perder de vista o que é realmente importante: as pessoas.”.
Seguindo o itinerário proposto pelo Papa Francisco, disse Mauricio López, devemos promover uma autêntica conversão pastoral, ecológica e sinodal, a conversão ecológica. E esta conversão leva-nos necessariamente a ver a realidade com o olhar de Deus.
***
Em seguida, surgiram as perguntas dos jornalistas, e os participantes da conferência de imprensa focaram-se no tema dos pecados ecológicos.
A Irmã Daniela Adriana Cannavina contou como pecados a exclusão dos irmãos indígenas e a pobreza por causa das atividades de mineração. E disse que tudo isso, que aproxima a vida da morte é pecado.
Dom Rino Fisichella explicou que o pecado é o fechamento do homem em si mesmo: quem vive neste fechamento corre o risco de morrer de asfixia. O pecado fundamental é o comportamento do homem que se fecha diante de Deus. A criação, observou Dom Fisichella, é uma manifestação de Deus. Quando alguém não reconhece Deus na criação, não há desculpa e incorre-se numa dimensão de pecado.
Dom Mário António da Silva pediu uma conversão sincera: tudo isso, explicou ele, que nos leva ao uso necessário e sensato dos bens da Criação é virtuoso. Tudo o que, pelo contrário, nos leva a utilizar os bens da criação para o lucro não só “fede”, mas traz consigo a injustiça.
Uma jornalista recordou que a Fundação Ford, que não é contrária ao aborto, conseguiu fundos para a REPAM. Mas o Bispo de Roraima reiterou que a Igreja defende a vida desde a conceção até ao fim natural. Disse que os fundos devem ser utilizados para promover a vida das crianças, das mulheres e das famílias. E sublinhou que a REPAM usa as doações feitas por fundações para promover a vida, independentemente do cariz de tais fundações.
Por sua vez, o Prefeito do Dicastério para a Comunicação, Paolo Ruffini, disse que considera uma coisa boa que o dinheiro seja usado para promover obras de caridade.
E a conferência de imprensa terminou com um breve retrato da situação atual dos trabalhos sinodais. Dom Mário António da Silva disse que as propostas feitas até agora são, até ao momento, discussões que estão em andamento, pois esta é ainda uma fase de recolha das propostas que serão depois confiadas ao discernimento. A próxima fase, concluiu, será a do documento final a ser confiado ao Papa e ao seu discernimento.
***
Para que se entenda como sensato o estabelecimento de um rito amazónico que enquadre e exprima as demais inovações que o Sínodo proponha, segue-se uma resenha histórica sobre a diversificação de ritos na Igreja Católica em conformidade com as diversas tradições e culturas sem que a unidade da Igreja seja prejudicada segundo o aforismo augustiniano: in essentia unitas, in caeteris libertas.
No âmbito da Igreja Católica e Apostólica, a liturgia é a mesma e é única a soberania da Cátedra de Pedro. Entretanto, há diferentes formas de celebração da Missa e da realização das demais cerimónias litúrgicas católicas, todas autênticas e aprovadas formalmente pela Igreja. A origem destas diferenças é histórica: desde os primórdios dos Atos dos Apóstolos, cada comunidade cristã se desenvolveu, de forma independente e adaptada à cultura e aos costumes locais. 
No Ocidente, o rito latino foi dominante desde o princípio, mas, no Oriente, com o surgimento dos grandes patriarcados como Jerusalém, Constantinopla, Alexandria e Antioquia, estes ritos assumiram um caráter regional e específico:  o rito bizantino teve origem em Bizâncio, capital do Império romano do Oriente, e dominou a região da Ásia Menor (greco-melquita, eslavo, ucraniano e outros); o antioqueno (siríaco, antioqueno, maronita e malancar na Índia), o caldeu (na Índia) e o alexandrino (copta e etíope), tornado preponderante, por exemplo, em certas regiões da África. 
Assim, a Igreja Católica comporta atualmente 23 Igrejas autónomas (chamadas sui juris), todas mantendo a integridade da Fé e a obediência ao Sumo Pontífice, simultaneamente Papa, Bispo de Roma e Chefe de toda a Igreja Católica. Destas, a Igreja Católica Latina que segue o Rito Latino é a maior, contando com cerca de 98% dos fiéis católicos do mundo inteiro.
No Rito Romano, convivem desde 2007 a liturgia tridentina (menor expressão) e a do Vaticano II.
Em função dos diferentes ritos litúrgicos adotados, são estas as seguintes igrejas que compõem a Igreja Católica (a data entre parênteses, logo após a denominação das igrejas orientais, refere-se ao momento em que as mesmas retornaram à plena comunhão com a Igreja Católica):
1. Ritos Ocidentais – Igreja Católica Latina: rito romano (missa tridentina, de São Pio V, e nova missa, de São Paulo VI); rito ambrosiano; rito bracarense; rito galicano; rito moçárabe; uso anglicano (para absorver os convertidos do anglicanismo); e rito dos cartuxos.
2. Rito Bizantino – adotado pelas Igrejas: Igreja Greco-Católica Melquita (1726); Igreja Católica Bizantina Grega (1829); Igreja Greco-Católica Ucraniana (1595); Igreja Católica Bizantina Rutena (1646); Igreja Católica Bizantina Eslovaca (1646); Igreja Católica Búlgara (1861); Igreja Greco-Católica Croata (1611); Igreja Greco-Católica Macedónica (1918); Igreja Católica Bizantina Húngara (1646); Igreja Greco-Católica Romena unida a Roma (1697); Igreja Católica Ítalo-Albanesa (sempre em comunhão com a Igreja Católica); Igreja Católica Bizantina Russa (1905); Igreja Católica Bizantina Albanesa (1628); e Igreja Católica Bizantina Bielorrussa (1596).
3. Rito de Antioquia – adotado pelas Igrejas: Igreja Maronita (união oficial reafirmada em 1182); Igreja Católica Siro-Malancar (1930); e Igreja Católica Siríaca (1781);
4. Rito Siríaco – adotado pelas Igrejas: Igreja Caldeia (1692); e Igreja Católica Siro-Malabar (1599).
5. Rito Arménio adotado pela Igreja Católica Arménia (1742).
6. Rito de Alexandria – adotado pelas Igrejas: Igreja Católica Copta (1741); e Igreja Católica Etíope (1846).
Os fiéis pertencentes a estas igrejas orientais católicas (não confundir com as igrejas orientais não-católicas, chamadas ortodoxas, separadas de Roma, que, muitas vezes, adotam os mesmos ritos litúrgicos) são tão católicos quanto os pertencentes à Igreja Latina, mas, de acordo com o Direito Canónico, só podem mudar de rito sob autorização da Santa Sé. Embora conservem tradições litúrgicas e devocionais próprias há séculos e apresentem abordagens teológicas, ritos litúrgicos e regras canónicas específicas (os católicos bizantinos ou greco-católicos constituem cerca de 50% dos católicos orientais e professam o rito bizantino), têm em comum com a Igreja Latina o primado pela unidade da fé e a submissão ao poder do Papa, reconhecido em sua suprema autoridade e infalibilidade magisterial. Em função de suas particularidades histórico-geográficas, as igrejas orientais católicas apresentam estruturas e organização distinta da Igreja Católica Latina,  sendo dirigidas por um hierarca e o respetivo Sínodo (Concílio de Hierarcas), do seguinte modo: 6 Igrejas – Igreja Católica Copta, Igreja Católica Siríaca, Igreja Greco-Católica Melquita, Igreja Maronita, Igreja Católica Caldeia e Igreja Católica Arménia – governadas por Patriarcas, eleitos pelos seus Sínodos e depois somente reconhecidos pelo Papa; 4 Igrejas – Igreja Greco-Católica Ucraniana, Igreja Católica Siro-Malabar, Igreja Católica Siro-Malancar e Igreja Greco-Católica Romena unida à Roma – governadas por Arcebispos Maiores, eleitos pelos Sínodos e depois, ao invés dos Patriarcas, aprovados formalmente pelo Papa; 3 Igrejas – Igreja Católica Etíope, Igreja Católica Bizantina Eslovaca e Igreja Católica Bizantina Rutena – governadas por Arcebispos Metropolitas, indicados em lista tríplice pelos Concílios de Hierarcas, sendo um deles escolhido e nomeado pelo Papa; e mais 9 Igrejas, governadas por um ou mais hierarcas, diretamente nomeados e supervisionados pelo Papa, por não existirem sínodos nem concílios de hierarcas.
Recorde-se que Patriarca era o título dado antigamente ao bispo de uma diocese onde vivera e governara um dos Apóstolos ou discípulos de Jesus Cristo. Assim, havia o Patriarca de Jerusalém, cidade da qual fora primeiro Bispo o Apóstolo São Tiago; Antioquia, onde São Pedro fora Bispo; Alexandria, regida por São Marcos e Roma, onde São Pedro foi Bispo. Mais tarde, o título de Patriarca foi concedido honorificamente aos arcebispos de algumas cidades, por exemplo, Constantinopla, Veneza e Lisboa.
2019.10.19 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
***
Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
***
Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
***
Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
***
Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Deus envia-nos a testemunhar o seu Reino


É o que está evidenciado no Evangelho do 14.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 10,1-12.17-20), que, apresentando o número simbólico “72” dos discípulos enviados, nos quer dizer que a sua missão envolve todos os escolhidos e se dirige a todos os seres humanos, a todos os povos. É de si mobilizadora de todos os que são discípulos (pelo batismo e, nalguns casos, por vocação especial confirmada pelo sacramento da Ordem) e um destino universal.
Com efeito, aquele episódico envio em missão (exclusivo de Lucas), que tem de ser entendido em relação com Gn 10 (na versão grega do AT), onde o número se refere à totalidade das nações que habitam a terra, é antecipação do mandato confiado aos discípulos no fim do texto evangélico (cf Lc 24,47-48; Mc 16,15-18; Mt 28,1-20) e é lido à luz da Ressurreição e dos dons messiânicos. Se na perícopa em referência o conteúdo fundamental da pregação é “A paz esteja nesta casa… O Reino de Deus já está próximo de vós”, nos aludidos textos dos sinóticos, fala-se expressamente em ir por todo o mundo, fazer discípulos de todas as nações, ser testemunhas em toda a parte, pregar o arrependimento e o perdão dos pecados, provocar a conversão aos valores do Reino…  
Lucas, assinalando que os discípulos foram enviados dois a dois, assegura que o testemunho deles tem valor jurídico (cf Dt 17,6; 19,15) e que o anúncio do Evangelho é tarefa comunitária, não por iniciativa pessoal e própria, mas por mandato de Jesus e em comunhão com os irmãos. E, indicando que os discípulos são enviados às aldeias e localidades aonde Jesus “devia de ir”, quer dizer que a tarefa dos discípulos não é pregar a sua própria mensagem, mas preparar o caminho de Jesus e dar testemunho d’Ele.
Depois, o evangelista descreve o modo de concretização missão. Primeiro, temos o aviso sobre a dificuldade: os discípulos são enviados “como cordeiros para o meio de lobos” (v. 3), com reporte à imagem que, no AT (Antigo Testamento), descreve a situação do justo, perdido no meio dos pagãos (cf Sir 13,17; nalgumas versões, a imagem aparece em 13,21). Aqui, é a situação do discípulo fiel ante a hostilidade do mundo. A seguir, vem a exigência de pobreza e simplicidade: os discípulos não levam consigo bolsa, alforge ou sandálias; não se detêm a saudar ninguém pelo caminho (v. 4); não saltaricam de casa em casa (v. 7). Estas indicações sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força libertadora da Palavra; indicam a urgência da missão, que não permite aos discípulos deterem-se nas intermináveis saudações peculiares da cortesia oriental, sob pena de o essencial – o anúncio do Reino – ser adiado; e querem dizer que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não o encontro duma hospitalidade mais confortável.
Os discípulos devem começar por desejar “a paz” (vv 5-6), não só como saudação normal entre os judeus, mas significando a paz messiânica que preside ao Reino e configurando o anúncio do mundo novo da fraternidade, da harmonia com Deus, consigo próprio, com os outros e com a criação, do bem-estar, da felicidade, enfim de tudo quanto significa a palavra hebraica “shalom”. E esse anúncio tem de ser acompanhado por gestos concretos de libertação, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (v. 9), tal como disse Jesus, segundo Marcos:
Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados. (…) Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.” (Mc 16, 17-18.20).
Em Lucas, o Senhor diz:
E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.” (Lc 24,49).
E, em Mateus, garante:
E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28,20).
A ameaça às cidades que recusem o acolhimento da mensagem (vv. 10-11), que não deve ser tomada à letra, é uma forma de dizer que a rejeição do Reino trará consequências nefastas à vida de quem escolhe continuar em caminhos de egoísmo, orgulho e autossuficiência.
E Lucas (vv. 17-20) refere o resultado daquela ação missionária dos discípulos. As palavras com que Jesus acolhe os discípulos evocam os sinais da presença do Reino enquanto realidade libertadora. Assim, as serpentes e escorpiões, frequentemente tidos como símbolos das forças do mal que escravizam o homem, mas aqui dominados, e a “queda de Satanás” significam que o reino do mal começa a desfazer-se em confronto com o Reino de Deus. Porém, não obstante o êxito da missão, Jesus alerta os discípulos contra o orgulho pela obra feita: não devem ficar contentes pelo poder que lhes foi confiado, mas porque os seus nomes estão “inscritos no Céu”. Anote-se que a imagem dum livro onde estão inscritos os nomes dos eleitos é frequente nesta época, particularmente na literatura apocalíptica (cf Dn 12,1; Ap 3,5; 13,8; 17,8; 20,12.15; 21,27).
Como se pode facilmente verificar, Lucas continua a situar-nos no contexto da caminhada de Jesus para Jerusalém. É mais uma etapa catequética, esta exclusiva do relato lucano, do “caminho espiritual”, em que Jesus vai oferecendo aos discípulos a revelação do Pai e os prepara para continuarem, após a sua partida, a missão de levar o Evangelho a todos os homens.
Nesta catequese, Lucas ensina que o cristão tem de continuar no mundo a missão de Jesus, tornando-se testemunha, para todos os homens, da proposta de salvação que Ele veio trazer.
***
A perícopa tomada para 1.ª leitura (Is 66,10-14c) insere-se no quadro desenhado pelos capítulos 56-66 do Livro de Isaías (designados como “Tritoisaías”), atribuídos pela maior parte dos estudiosos a diversos autores, vinculados espiritualmente ao Deuteroisaías (o autor dos capítulos 40-55) e que apresentaram a sua mensagem nos últimos anos do século VI e primeiros do século V a.C. Em Jerusalém, vários anos após o regresso do Exílio da Babilónia, a reconstrução é muito lenta e penosa; a maioria da população mergulha na miséria; os inimigos, atacando continuamente, põem em causa o esforço da reconstrução; e a esperança definha, com o Povo a perguntar “quando é que Deus vai realizar as promessas que fez, ainda na Babilónia”. Por isso, os profetas apresentam uma mensagem de salvação e alimentam a esperança para que o Povo recobre forças e confie em Deus. É neste contexto que se situa o hino que a perícopa em referência contém: o profeta apresenta um quadro de restauração (cf Is 66,7-14) e convoca os seus habitantes para a alegria. Neste quadro, o objetivo fundamental do profeta é “consolar” o Povo sofrido, que não vê perspetivas de futuro. Todo o quadro gravita em torno de Jerusalém como mãe. Depois de dar à luz o filho (o povo), sem esforço e antes do tempo (cf Is 66,7), Jerusalém alimenta-o com o leite abundante e reconfortante (cf Is 66,11). A referência à sucção do leite “até à saciedade”, ao “seio glorioso” evoca a imagem da fecundidade e da vida em abundância. No entanto, o profeta está consciente de que é Deus quem está por detrás desta corrente de vida e de fecundidade que a mãe-cidade dispensa ao filho-povo. Por isso, põe Deus a fazer chegar à cidade/mãe a paz e a riqueza das nações, para que ela as distribua pelo filho/povo. A paz (“shalom”) inclui aqui a saúde, fecundidade, prosperidade, amizade com Deus e com os outros – enfim, a felicidade total, que Deus Se propõe oferecer em abundância ao Povo. E é sugestiva a forma como se fala de Deus. É o pai que dá ao filho-povo a vida plena, o acaricia e consola como faz a mãe. O profeta apresenta a este Povo um Deus que ama e que, em cada dia, vem ao encontro dos homens para lhes trazer a salvação. Daí o insistente convite à alegria.
Assim, Deus é a esperança, a alegria, a consolação e a paz.
O convite de Isaías à alegria, à exultação e ao júbilo, depois de termos participado no pranto de Jerusalém, resulta da capacidade e vontade consoladoras e esperançosas de Deus. Na palavra do profeta, Deus mostra consolar o Seu Povo a partir de imagens tiradas da vida familiar, sobretudo da relação mãe-filho. Compara-nos à criança que chora faminta e desconsolada e a quem a mãe se esforça por consolar. E, nesta visão profética, o Senhor promete bens que contrastam com a situação atual do Povo. O clima humano em que vive contrasta com o ambiente inseguro e triste em que se encontrava nos tempos do cativeiro de Babilónia. Veja-se como era dantes:
Nas margens dos rios da babilónia sentamo-nos a chorar, lembrando-nos de Sião. / Nos salgueiros daquela terra, pendurávamos as nossas harpas, / porque os que nos tinham deportado pediam-nos um cântico. / Os nossos opressores exigiam de nós um hino de alegria: Cantai-nos um dos cânticos de Sião. / Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor em terra estranha? / Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! /Que minha língua se me apegue ao paladar, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.” (Sl 137,1-7).
Ora, importa que aceitemos os dons que o Senhor nos oferece na Sua Igreja. Se teimássemos em procurar teimosamente o prazer dos sentidos, estaríamos na situação de quem procura matar a sede com água salgada. Com efeito, para termos verdadeira alegria, precisamos de mudar de mentalidade, convertermo-nos às promessas de Deus. Ele será a nossa alegria e conforto.
Porque assim fala o Senhor: ‘Farei correr para Jerusalém a paz como um rio e a riqueza das nações como torrente transbordante’.”. Ora, a verdadeira paz é tranquilidade na ordem. Com efeito, há tranquilidade na desordem quando ela é fruto do medo, da prepotência de alguns que nos mantêm imobilizados. Mas é mais que tranquilidade na ordem: é a força anímica de crescer harmonicamente, conviver de forma saudável e partilhar; é servir e aceitar o serviço dos outros; é o exercício em concreto da fraternidade. Assim, a paz é um dom de Deus e nasce de uma consciência que, secundando o dom, procura conhecer e seguir a Sua vontade.
É curioso notar que, no mundo político – quando todos deveríamos estar à procura de uma melhoria de vida para todos, cada grupo reivindica o próprio interesse, mesmo que não seja justo. Ora, ao invés, é necessário reconhecer que pertencemos todos à mesma família dos filhos de Deus na terra, que somos irmãos uns dos outros e vamos todos a caminho do Céu. Se não alcançássemos esta meta, seríamos as mais desgraçadas de todas as pessoas, participando para sempre no ódio e tristeza de Satanás. Por isso, é tempo de parar com os gritos, os amuos, as formas de agressividade ou os entretenimentos egoístas, e fazer a aposta no sorriso e interajuda.
A falta de paz vem da falta de segurança interior em que muitas pessoas vivem porque, no fundo, sabem que estão enganadas e querem sufocar a voz da consciência para não ouvirem os seus gritos a pedir mudança radical de vida. Ora, Deus será a nossa paz, se O deixarmos entrar no nosso coração, para aí a derramar como um bálsamo confortante. É preciso lutar contra a desordem, os falsos deuses que entronizámos na nossa vida, para que a paz possa reinar.
Como a mãe que anima o filho, também Eu vos confortarei: em Jerusalém sereis consolados”.
Constitui uma verdade axial da nossa fé a filiação divina. Deus ama-nos tanto que nos torna Seus filhos pela morte e ressurreição de Cristo, em quem nos incorporamos pelo Batismo. Não somos filhos segundo a natureza, porque não somos deuses, mas não podemos reduzir a nossa filiação divina à simples filiação adotiva, que é uma ficção jurídica: a pessoa arvora-se em pai ou em mãe, mas não há uma verdadeira comunicação da riqueza contida em cada natureza. Os pais adotivos não podem fazer correr o seu próprio sangue nas veias do filho adotado. Na filiação divina é diferente. Pedro afirma, na sua primeira carta, que nós somos “participantes da natureza divina”. E Isaías, ao transmitir-nos a mensagem do Senhor, recorre a imagens da vida familiar: a criança que chora com desconforto – como os regressados do cativeiro de Babilónia – e a mãe que faz apelos ao seu carinho para a confortar. É a segurança dos braços da mãe e o calor do seu afeto que dá à criança a alegria de que precisa. Assim procede Deus para connosco. Deus faz-nos seus verdadeiros filhos e é por isso que o Ressuscitado trata aos discípulos por irmãos. E, na Carta aos Gálatas (é a única), o termo “irmãos” aparece na saudação final: é grito de angústia e de confiança, apelo à comunhão, expressão da esperança na fraternidade total.
E isto traz consequências. Não podemos viver uma vida esquizofrénica, acreditando, dentro do templo, na filiação divina, para logo a seguir, nos deixarmos mergulhar num pessimismo sem horizontes. A única coisa que o Senhor recusa fazer (porque é o melhor dos pais) é satisfazer-nos todos os caprichos, porque muitas vezes são maus e não nos resolvem os problemas.
Por outro lado, uma das consequências da nossa filiação divina é testemunhar e irradiar fraternidade. Deus quer agir no mundo para resolver os problemas que nos afligem, mas precisa da nossa cooperação. Sem esse pequeno nada que podemos fazer, Deus não agirá.
Designou o Senhor 72 discípulos e enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir”. Jesus enviou, pois, à Sua frente os discípulos, para uma missão bem definida: preparar o acolhimento a Jesus Cristo. Todo o apostolado que fazemos se concretiza não na afirmação pessoal ou num projeto individual, mas na preparação do acolhimento a Jesus Cristo pela conversão pessoal. Quando somos enviados aos outros, não há uma separação física entre nós e Jesus, mas levamo-Lo presente. O Espírito Santo faz que Ele fale pela nossa boca. Não é a nossa eloquência que faz mudar as pessoas, mas a ação misteriosa e eficaz da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade presente em cada pessoa. É uma grande honra e um grande dever dar visibilidade a Jesus Cristo no mundo, restituir-Lhe o lugar a que Ele tem direito, na família, no trabalho, nos divertimentos e nas leis. Para isso precisamos de apostar na identificação com a vontade de Deus e na coerência de vida.
Identificação com a vontade de Deus. É preciso purificar a nossa mente e desprendê-la de interesses pessoais; e querer o que Deus quer, sem forçar a verdade teológica e moral para os nossos gostos e interesses. Mas, para querermos o que Deus quer, temos de saber o que Ele quer, ou seja, requer-se formação doutrinal e pedagógica. Aliás, podemos dar conselhos que, em vez de ajudar as pessoas, as afastam de Jesus Cristo e as levam a não O acolher.
Coerência. Deus não pede que nos tornemos santos antes de começarmos a fazer apostolado, mas que estejamos sinceramente dispostos a cumprir o que aconselhamos aos outros.
***
Enfim, somos enviados a testemunhar o Reino de Deus, a sua força e dinamismo. E o Reino merece tudo: empenhamento total, atenção aos seus sinais no mundo, seguimento das pegadas do Mestre, docilidade ao Espírito Santo, doação à comunidade e serviço aos que mais precisam – dando o rosto sempre que necessário, sabendo optar pela discrição quando ela convir ao desenvolvimento do Reino e sempre cantando “A terra inteira aclame o Senhor”.
2019.07.07 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Páscoa da liberdade, abundância, universalidade e indefetibilidade


Obviamente a Páscoa é a festa da fé cristã que tem a sua base na Ressurreição de Cristo, que, falando do templo do seu corpo (Jo 2,21), desafiara os contemporâneos que teimavam em não O aceitar:Destruí este templo e eu, em três dias, o reedificarei” (Jo 2,19).
Comentando a perícopa do Evangelho de João (Jo 20,1-10) proclamada na missa da manhã da Páscoa, o Bispo do Porto indica as pistas que levam à certeza da ressurreição e à aceitação do mistério: a perceção de Maria Madalena, a pedra de acesso ao túmulo retirada, as ligaduras no chão, o sudário enrolado”. E, admitindo a insuficiência destes sinais para muitos por impossibilidade de demonstração laboratorial ou matemática, considera-os “plenamente reveladores para quem os vive a partir da experiência da proximidade, da fé e do amor”.
Assim, o discípulo que chegou ao túmulo em primeiro lugar “viu e acreditou”. Assenta o prelado portucalense que João (“porventura apelidado de louco pelos comerciantes da estreita rua que, da cidade velha de Jerusalém, saía em direção ao monte Calvário”), o mais jovem dos Apóstolos, fora o único a viver de perto “os dramas do julgamento, crucifixão e sepultura do Senhor”, ou seja, “fez-se ‘próximo’ de Jesus, quando os outros se afastaram”, movido por amor do “Amigo” e da “Mãe do Amigo”, recebendo d’Ele “o sagrado encargo de amparar a Mãe, já viúva e, a partir daquele momento, sem ninguém para cuidar dela”. E terá sido “esta contínua presença junto do Amigo” que a fé na ressurreição “se tornou um dado quase natural” para o “discípulo amado”. Assim, “viu a partir do olhar da afetividade e acreditou confiadamente ou com a naturalidade com que uma criança acredita na mãe” – disse Dom Manuel Linda. Embora a razão não compreendesse tudo, garante o prelado diocesano, “o amor ajudou o coração a abrir-se e a ver” – “intuição amorosa e de proximidade” que lhe permitiu “ver e acreditar antes de todos os outros”. Dito de outro modo, em João, “a alegria pascal maturou sobre uma base de amor fiel”, que “nada nem ninguém pode quebrar ou pôr em causa”. E é a via da proximidade existencial e amorosa com o Senhor que garante o acesso ao mistério central da nossa fé: a ressurreição de Cristo. Com efeito, “comendo e bebendo com Ele”, como invocava Pedro no discurso em Casa de Cornélio, a fé de que “Deus O ressuscitou dos mortos” e “O constituiu juiz dos vivos e dos mortos” torna-se uma “absoluta certeza” – dizia o Bispo do Porto aludindo à perícopa dos Atos dos Apóstolos (At 10, 34a.37-43), assumida como 1.ª leitura da Liturgia da Páscoa, e acrescentava: 
Certeza pregável a ‘toda a casa de Israel’, mais familiarizada com a crença na ressurreição, mas também pregável ao ainda pagão Cornélio e sua família, o qual, curiosamente, o chamou à cosmopolita Cesareia marítima, porque se impressionou com esse testemunho e se dispôs a ser batizado”.
***
Este discurso homilético, que envolve a ressurreição com dinamismo da fé e com o amor que se faz próximo, abre para a libertação da descrença, dos germes da destruição, do erro e da morte. E a homilia de Manuel linda na Vigília Pascal, sob o signo “Salvação e luz”, garantia a libertação das trevas, do medo e da tristeza para a luz, para a fortaleza e para a alegria incontida. Por isso, a maior iluminação é a que surge dentro da alma e que se descreve “como alegria, que não pudemos calar e exprimimos com uma luz acesa na nossa mão”, dando por nós “a cantar um aleluia festivo, genuíno e emotivo”. Mas esta alegria pascal postula o testemunho em saída e a comunicação a todos. Aponta para a universalidade. E, se a homilia do prelado portucalense no dia de Páscoa aponta a universalidade da salvação no gesto de Cornélio (a pedir o Batismo a Pedro), pois todo aquele que acredita em Jesus – judeu ou pagão – recebe pelo seu nome a remissão dos pecados (cf At 10,43), a homilia da Vigília Pascal é mesmo apostólica e universalista, como se vê pelo quadro seguinte, concluído a partir dos Evangelhos:   
As mulheres são enviadas a comunicar o facto a Pedro e aos outros discípulos. E é este dado que faz com que a ressurreição do Senhor deixe de ser uma experiência privada, pessoal, sujeita à ilusão, e se torne um acontecimento de toda a Igreja e vivido como celebração e festa coletiva.”.
O homiliante prossegue fazendo a atualização:
Assim tem de acontecer hoje. Páscoa não rima com experiência individual. Tem de ser facto difundido e comunicado a todos. E no ato de se comunicar, de falar dele, de lhe pronunciar o significado, verifica-se a dupla vertente da fé: a transmissão a quem, porventura, andará mais esquecido e o aumento em quem a anuncia. Se pensarmos bem, damo-nos conta de que, quase sempre, na nossa vida, aconteceu uma situação que nos gerou fé ou, pelo menos, nos ‘prendeu’ à fé.”.
E, colocando-nos na situação dos outros, interpela-nos:  
Uma comunicação da nossa experiência de fé não poderia gerar neles uma interrogação e consequente adesão à fé? Então, porque não anunciamos aos outros alguma manifestação do Senhor nas nossas vidas? A nossa fé na ressurreição obriga-me a comunicá-la, tal como às mulheres de que fala o Evangelho?”.
Por fim, exortava:
Nesta Páscoa, ide dizer a todos que, por amor de Deus, ‘não busquem entre os mortos Aquele que está vivo’.”.
***
 Porém, na Missa da manhã da Páscoa, o prelado encarece a relevância atual do testemunho “dado por aqueles que vivem a tal proximidade amorosa com o Senhor” em contraponto à “nova cultura de massas, por vezes de base materialista e hedonista, e assegura:
É preciso apresentar o grande ‘sinal’ histórico: ao longo de dois milénios, milhões e milhões de cristãos afinaram a sua existência pela ‘ressurreição’ e celebraram-na ininterruptamente no próprio dia semanal em que aconteceu: no primeiro dia da semana ou domingo. De tal forma que fé em Jesus Cristo, crença na ressurreição, guarda do Domingo como dia absolutamente diferente e celebração festiva [se] aglutinaram numa mesma unidade, qual marca identitária da cultura ocidental humanista.”.
Verificando que esta marca está a perder-se “em detrimento da dignidade pessoal e dos direitos humanos”, denuncia “o novo esclavagismo da laboração contínua, ‘legalmente’ imposta pelos novos senhores do mundo que dominam a economia e, por esta, os governos”. E exemplifica com “os critérios dos ‘turnos’, em setores onde, para [lá] da ganância, nada os justifica, a par dos graves transtornos psicológicos do trabalhador e do fracionamento dos encontros familiares”, o que “está a gerar a ‘morte do Domingo’, o fim dos ritmos semanais, a abolição dos verdadeiros momentos celebrativos e o fracionamento da família e das relações de amizade”. De igual modo, acusa a abertura dominical dos supermercados e centros comerciais como “expressão de um certo subdesenvolvimento humano e mesmo económico”. Tudo isto, na ótica do nosso Bispo, contribui para “gerar uma civilização fria, sem alma, individualista, sem profundidade de relações” e sem outros contactos “que não sejam os da realidade virtual”. E o pregão libertador soa concreto, dirigido aos cristãos, mas tendo todos como destinatários:
Caros cristãos, convoco-vos para esta tarefa urgente de trazer nova alma à nossa cultura mediante a inserção nela da crença profunda na ressurreição. Dizei-o a todos e vivei-a convictamente a partir da proximidade amorosa com o Senhor Jesus. A Páscoa é a alegria do céu que irrompe sobre a terra. A Páscoa é a luz da esperança que desfaz as nossas trevas e angústias. A Páscoa é a forma de percebermos uma nova comunhão entre as pessoas. Jesus está vivo! Brilhe em todos nós a alegria da ressurreição.”.
***
No fim da tarde da Páscoa, a RTP1 passou o filme “Ressurreição”, com realização de Kevin Reynolds, segundo argumento seu e de Paul Aiello, um filme dramático que relata a morte e ressurreição de Cristo. O elenco conta, entre outros, com Joseph Fiennes, Tom Felton, Peter Firth e Cliff Curtis.
Depois do controlo da revolta de zelotes liderada por Barrabás, que lutava contra o domínio de Roma, Pôncio Pilatos incumbiu o tribuno Clavius (interpretado por Joseph Fiennes), poderoso militar romano, e o seu assistente Lucius (interpretado por Tom Felton) de investigarem o mistério do sucedido com Yeshua (Jesus) nas semanas subsequentes à crucificação, a fim de desmentir os rumores sobre o ressurgimento do Messias e impedir uma provável rebelião popular em Jerusalém. Para tanto, teriam de localizar o corpo desaparecido. Ora, após buscas intensivas em todos os lugares e sepulturas sem conseguir encontrar o corpo, Clavius procura os seguidores de Jesus, que lhe mostram as razões da sua crença. Clavius, de natureza cética, tendo visto com os próprios olhos o Ressuscitado, vê-se numa luta interior ao tentar conciliar o que lhe dizem os sentidos com o que sempre acreditou ser possível. Pilatos descobre a traição de Clavius e envia um contingente de tropas romanas para o capturar e matar todos os discípulos de Cristo.
Aquando da sua estreia no Brasil, alguns líderes cristãos pronunciaram-se sobre a importância do argumento, considerando-o uma forma de lembrar a importância e significado do sacrifício de Jesus na Cruz. E destacavam a originalidade de os factos terem sido abordados sob o olhar do perseguidor romano, o que é inédito em relação a outras produções que já apresentaram os factos, mas descritos na narrativa bíblica sobre a crucificação e ressurreição de Cristo pelo olhar dos apóstolos ou de Jesus.
O pastor Russell Sheed, doutor em teologia com pós-doutoramento em Novo Testamento, afirmava que a história do filme deve impactar muitas vidas e discorria:
É excelente ter um filme como esse em cartaz. ‘Ressurreição’ conta uma história verídica ontem e hoje que vai impactar muitas vidas, com certeza!”.
Já o pastor Flávio Valvassoura, da Igreja do Nazareno de Campinas, São Paulo, enfatizava:
Esse filme traz a verdadeira e extraordinária mensagem do evangelho que nos motiva e baseia a nossa fé na vida de Cristo em nós”.
Para lá dos líderes evangélicos, homens do catolicismo como Dom Devair Araújo, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, também pronunciaram. E este bispo comentava:
Ressurreição apresenta os evangelhos de forma muito bem contada. Além disso, o filme parte da morte de Jesus e de uma série de factos que levantam um questionamento profundo até nos dias atuais, falar de Jesus hoje é falar da fé. Então, diante da Ressurreição cada um de nós [é chamado] a professar a nossa fé.”.
E Dom Tarcisio Marques, Bispo Auxiliar da Região Episcopal Belém, dizia:
O filme conseguiu abordar, de forma muito muito humanizada, um dos temas mais importantes do Cristianismo, a Ressurreição, com uma história apaixonante. Para nós que somos católicos é uma verdadeira catequese bíblica que vale a pena ser seguida.”.
Mickey Liddel, um dos produtores do filme, assegurando que sempre quis representar a classe cristã no cinema, observou:
Sempre quis contar uma história como essa, que parece um grande filme de Hollywood, mas quero que os cristãos que irão assistir ao filme se sintam representados de forma correta”.
Na verdade, a produção tem um visual espetacular, cenas de ação viscerais e abordagem de mistério de série de investigação policial, que pretende ressoar entre os espectadores cristãos e incrédulos de uma forma impactante. Enquanto se mantém fiel aos ensinamentos do Novo Testamento, Ressurreição conserva um tom atual e, ao mesmo tempo, a sensibilidade para mostrar os conflitos de um homem incrédulo ao se deparar com o inexplicável.
Vi o filme e chamaram-me a atenção a pesca milagrosa com a aparição de Jesus na margem do lago de Tiberíades (Jo 21,1-14) e a missão pastoral de Pedro (Jo 21,15-23).
À ordem de Jesus que aparecera (mas sem = reconhecerem) e pedira algo de comer, que não tinham, os apóstolos lançaram a rede “e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar”. E foi na superabundância que o discípulo que Jesus amava O reconheceu e disse a Pedro: “É o Senhor!”. O Ressuscitado faz e testemunha o mistério da abundância do Reino, como o fez em Caná quando Se autorrevelou na transformação da água em vinho bom e muito (vd Jo 2,1-12). Recorde-se que esse episódio do vinho também aconteceu “ao terceiro dia”. E, ao invés do que sucedeu na pesca milagrosa relatada por Lucas em que a rede se rompeu (Lc 5,6-7), agora a rede – quando Jesus mandou que levassem os peixes que apanharam e Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes – “apesar de serem tantos, a rede não se rompeu”. Não esqueçamos o v 13 a referir que “Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe”. É o gesto eucarístico essencial ao ser e missão da Igreja, que celebra e festeja o Corpo do Senhor no mistério do pão e dele faz dádiva!  
Assim, além da abundância, é de concluir pela indefetibilidade do povo pascal. Com efeito, a pesca milagrosa tem acentuado valor simbólico aludindo à missão da Igreja no mundo: Jesus na praia e os discípulos (“pescadores de homens”: Mc 1,17; Lc 5,10) no mar, com Pedro à frente. Assim, com a não rutura da rede, parece aludir-se à unidade da Igreja e à sua indefetibilidade e a grande quantidade de peixes realçará, além da abundância, a universalidade. O número de 153 peixes é o número simbólico da totalidade. Por outro lado, esta gematria evoca a índole da Igreja como comunidade de amor.
Assim, o amor que o Bispo do Porto realça – e muito bem – em João, agora emerge na tríplice confissão petrina de amor a Jesus Cristo. E, se em Mateus 16,16-18, a base de apoio da firmação da Igreja em Pedro é a fé messiânica e em Lucas 22,32 é a oração de Cristo, aqui em João é o amor de Simão Pedro que suporta o apascentar dos cordeiros e das ovelhas de Cristo. E repare-se que, enquanto Jesus requer um amor divino, profundo intelectual e fator de comunidade, perguntando “agapâs me – amas-me?”, Pedro responde com amor de simples afeição amizade, “Philô se – gosto de ti”. E a tristeza de Pedro por Jesus o questionar uma terceira vez (e, desta feita, perguntando como Simão Pedro o entendia, “phileîs me?”) dever-se-á à conexão que subjetivamente terá feito com a tríplice negação e ao reconhecimento da imperfeição do seu amor.
***
Em suma, se a fé é capaz de mover montanhas, o amor total e vivenciado a Cristo e às pessoas em que se encontra presente Cristo (doentes, pobres, oprimidos, explorados, descartados…) moverá corações (o que naturalmente se torna mais difícil) em prol da Páscoa da liberdade e da libertação, da abundância e da unidade, da universalidade e da totalidade, da indefetibilidade e da persistência.
E as portas do inferno não prevalecerão contra ela (a Igreja), porque Jesus Se mantém na praia. Non praevalebunt contra eam. Kai pýlai hadou ou katiskhýsousin autês. (Mt 16,18).
Santa Páscoa!
2019.04.21 – Louro de Carvalho