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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Terrorismo – low-cost ou sofisticado – é sempre terrorismo

Depois dos episódios terroristas na Catalunha, que suscitaram a convergência generalizada das manifestações de solidariedade para com as vítimas e suas famílias, ressalta o primeiro vídeo do Estado Islâmico (EI) em castelhano a exaltar os ataques e a parecer ameaçar a Espanha. Porém, “Espanha” deve entender-se como conceito a abranger a Península Ibérica. Com efeito, nesta divulgação, pela primeira vez, dum vídeo em castelhano por parte do EI, em que “reameaça” a Península Ibérica, esta é designada por Al Andalus. De facto, o militante que aparece no vídeo de cara descoberta – lá identificado como Abu Lais Al Qurdubi, o que pode ser lido como El Cordobés, em referência à cidade espanhola de Córdova, segundo o El País – prometeu: “Com a permissão de Alá, o Al Andaluz voltará a ser o que foi: terra do califado.
De acordo com a polícia espanhola, trata-se de Muhammad Yasin Ahram Pérez, jovem de 22 anos, nascido em Córdova, filho de espanhola e de marroquino e cujo pai está preso em Tânger (Marrocos), por ligação ao jihadismo radical. O jovem faz esta advertência em jeito coloquial:
Se não podes fazer a Hégira ao Estado Islâmico, a jihad não tem fronteiras. Faz a jihad onde estiveres.”.
E continua perentoriamente:
Aos espanhóis cristãos, não se esqueçam do sangue dos muçulmanos derramado pela inquisição espanhola. Vingar-nos-emos da vossa matança e da que estão a fazer agora com o Estado Islâmico.”.
E outro homem, identificado no vídeo como Abu Salman Al Andalus, faz o seguinte voto:
Que Alá aceite os sacrifícios dos nossos irmãos em Barcelona. A nossa guerra convosco durará até ao fim do mundo.”.
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Não é a primeira vez que o EI ameaça esta Península. Já em 2015, o grupo divulgou um mapa onde definia os territórios que reivindica como parte do califado, incluindo Portugal e Espanha. Na verdade, para o ISIS, este território tem um valor simbólico por ter sido uma das raras regiões que esteve durante séculos sob o domínio muçulmano – sobretudo entre os séculos VIII e XV – e, depois, foi perdida para estados não islâmicos. E Fernando Reinares, especialista espanhol em terrorismo, disse ao DN que estas ameaças não devem ser desvalorizadas, pois tanto o EI como a Al-Qaeda e suas ramificações “falam do Al-Andaluz com hostilidade contra Espanha e Portugal”, através de “menções agressivas que há que ter em conta no momento de avaliar em conjunto a ameaça do terrorismo jihadista”. Depois, deve considerar-se que, este ano, foram detidos e condenados a 75 anos de prisão 9 membros da autodenominada Brigada Al Andalus, que se dedicavam à doutrinação e recrutamento de ‘jihadistas’ em Madrid.
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Neste quadro, vem o Presidente do Parlamento Europeu, o italiano Antonio Tajani, propor um “FBI europeu”, por acreditar que esta força pode fortalecer a cooperação antiterrorista entre os 28 Estados-membros da União Europeia. Numa entrevista à rádio Onda Cero, reproduzida pela Europa Press, o eminente europolítico sustenta a importância de “trabalhar a esse nível de cooperação, de serviços secretos, para tentar ter uma liderança europeia”.
Após o atentado em Barcelona, em que morreram 15 pessoas (entre as quais duas cidadãs portuguesas), e das ligações ao estrangeiro de vários dos terroristas, Tajani destaca a importância do intercâmbio de informações, não só entre serviços secretos europeus, mas também com países como Marrocos, Jordânia, Israel ou Rússia.
Na predita entrevista, o eurocrata atribui a onda de ataques terroristas na Europa ao recuo do EI no terreno na Síria e no Iraque, sobretudo desde a batalha de Raqqa e do “desastre” de Mossul.
Segundo Tajani, a solução para evitar a radicalização de jovens europeus passa por ter “imãs europeus”, que falem “espanhol, italiano, francês ou alemão, não só árabe”.
Também o Presidente do Governo de Espanha, Mariano Rajoy, disse hoje, dia 25, que está disposto a rever o código penal para enfrentar o terrorismo, assegurando que, “se é necessário mudar o código penal para combater o jiadismo, fá-lo-emos”. E acrescentou:
“É evidente que os terroristas modificam os seus comportamentos e que nós devemos fazer o que é necessário”.
Mariano Rajoy sustentou, além disso, que as forças de segurança “devem encontrar os melhores instrumentos legais” para combater o terrorismo e, para isso, apelou a uma união política para lá da bancada parlamentar do Partido Popular, o partido que dirige. A este respeito, declarou:
“Na luta contra o terrorismo, temos que pôr de lado as nossas diferenças, torna-nos maiores e mais fortes perante os assassinos. A unidade política é fundamental. Deve oferecer resultados sob a forma de reformas que dotem os nossos juízes, polícias e procuradores com as melhores ferramentas para lutar contra esta chaga.”.
Rajoy comentou ainda os rumores que se formaram em torno da colaboração, ou falta dela, entre o Governo central e o governo regional da Catalunha, liderado por Carles Puigdemont, que se prepara, à revelia de Madrid, para referendar a independência daquela região a 1 de outubro. Segundo o Chefe do Governo espanhol, houve uma “coordenação fluida e constante” entre as duas entidades. Com efeito, “desde o minuto zero, o Governo de Espanha e o da Generalitat concordaram em constituir um gabinete de crise, que recebe informação em tempo real”, tendo havido “sempre membros da Guardia Civil e da Polícia Nacional”, que atuaram em coordenação com as forças de segurança catalãs, os Mossos d’Esquadra. E Rajoy destacou “o caráter de lealdade e de cooperação entre os diferentes órgãos implicados na investigação”.
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É certo que a liberdade pessoal e a da circulação de pessoas, bens e capitais é um património inestimável, mas a defesa da vida e a promoção da segurança dos poderes políticos é o escopo de quem governa. Por outro lado, fala-se agora da penúria de meios do ÍSIS, das suas perdas militares e políticas. Mas isso não legitima o desdém pela obrigação de vigilância contra o terrorismo. Com efeito, este tem múltiplas formas de autoria e expressão. Desde o combate organizado e militarmente enquadrado, de preferência em jeito de emboscada ou de guerrilha, passando pelo carro-bomba e/ou homem-bomba, ao camião ou à simples carrinha ou à explosão de botijas de gás – tudo serve. Importa-lhe semear o pânico, o medo coletivo. E tanto o ataque com meios sofisticados como o barato (dito low cost) são altamente perigosos porque, estabelecendo o ambiente de intimidação, desestabilização e terror, cumprem o objetivo.
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O terrorismo apresenta várias origens e autorias, desde o IRA, na Irlanda do Norte, passando pela ETA, no País Basco, até à Al-Qaeda, de Bin Laden. E recordamos os atentados cirúrgicos numa praça em que era vitimada uma alta figura de Governo ou desfeito um edifício simbólico do poder político, com algumas vítimas de entre a população, como recordamos ações massivas que fizeram vítimas mortais a esmo. É o caso do atentado às Torres Gémeas em Nova Iorque, na estação ferroviária de Atocha, em Madrid, no metro de Londres. Mais tarde, assistimos aos casos repetidos de Paris, aos de Bruxelas, Alemanha, Metro de Moscovo, Egito e, agora, Barcelona e Cambrils, como assistimos ao desaparecimento e despenhamento de aeronaves.
Ante o espectro dos iminentes ataques terroristas, coloca-se a questão dilemática da opção pelo reforço da segurança em nome do bem-estar das populações e preservação do património urbano ou pela afirmação das liberdades para não dar satisfação ao desejo dos terroristas.
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Sobre o tipo de cooperação internacional havida em relação à Catalunha, registam-se situações de ambiguidade. Foi, assim, referido que um agente da polícia belga contactara um conhecido dos Mossos d’ Esquadra a levantar dúvidas sobre o imã marroquino Abdelbaki Es Satty, o suspeito cérebro dos atentados de Barcelona e Cambrils. Porém, o governo catalão desmente a receção oficial de qualquer alerta por parte da Bélgica nesse sentido e julga que o suposto aviso terá sido feito com base na relação de amizade existente entre um agente belga e um dos Mossos d’ Esquadra, segundo avançou o El Mundo. Em concreto, o Ministério do Interior catalão explicou ao jornal que não se tratou de aviso oficial, mas de contacto informal entre dois polícias que se conheceram numas jornadas internacionais sobre a luta contra o terrorismo. De acordo com o jornal La Vanguardia, o pedido de informações feito por um polícia belga foi feito através dos emails pessoais, não tendo havido um alerta oficial. E o El País acrescenta que o chefe da Unidade de Análise Estratégica, do comando geral de informações da polícia catalã (Mossos de d’ Esquadra), Daniel Canals, terá respondido por correio eletrónico às suspeitas da polícia da cidade belga de Vilvoorde, sobre as “possíveis ligações terroristas” de Es Satty.
Na verdade, a 8 de março de 2016, Canals, número dois dos serviços de informações da polícia catalã, respondeu à polícia belga que Abdelbaki Es Satty “não era conhecido”, mas que tinha sido investigada por “ligações a extremistas islâmicos” noutra operação uma pessoa com o mesmo apelido. Era um seu familiar: Mustafa Es Satty, imã numa mesquita de Vilanova i la Geltrú (Barcelona), que residiu num apartamento utilizado, pelo menos, por dois indivíduos implicados nos atentados de 11 de março de 2004, em Madrid.
A eventual falta de atenção das autoridades catalãs ao aviso belga sobre o imã de Ripoll surgiu após entrevista do autarca de Vilvoorde à agência noticiosa Efe, em que diz ter pedido, em 2016, informações às autoridades policiais de Espanha sobre Abdelbaki Es-Satty.
Nessa época, este vivia naquela cidade belga, a 12 quilómetros de Bruxelas. O imã da cidade vizinha de Diegem ter-se-á dirigido ao autarca com dúvidas, nomeadamente se existiam antecedentes criminais. E o autarca Hans Bonte, citado pelo La Vanguardia, contou:
“Parecia-lhes um homem estranho, que dizia que vinha de Espanha porque lá não tinha futuro e que se autoproclamava imã, apesar de não ter nenhum papel a comprová-lo”.
Estivera detido entre 2010 e 2014 por tráfico de droga, mas sem antecedentes ou suspeita de ligação ao terrorismo (apesar de um primo ter sido detido em 2006 na desativação duma célula terrorista em Vilanova i la Geltrú, na província de Barcelona). Não obstante, a comunidade muçulmana local expulsou-o da mesquita.
O Ministro do Interior espanhol, Juan Ignacio Zoido, indicou que nem a Guarda Civil nem a Polícia Nacional foram alertadas pelas autoridades belgas. Em Paris, com o homólogo francês Gérard Collomb, defendeu maior partilha da informação na Europa e referiu:
“Segundo tenho conhecimento neste momento, nem a Guarda Civil nem a Polícia Nacional receberam qualquer comunicação das autoridades belgas. O mais importante é que as investigações abertas possam completar-se quanto antes.”.
O imã de Ripoll teve ordem de expulsão após 4 anos de prisão, mas o juiz considerou que não constituía “uma ameaça real”. Com efeito, Abedelbaji Es Satty, imã de Ripoll e organizador do grupo responsável pelo ataque a Barcelona e Cambrils, fora preso por agentes da Guardia Civil durante a inspeção aos veículos que embarcavam no porto da cidade autónoma de Ceuta, a 1 de janeiro de 2010, antes de cruzar o Estreito de Gibraltar, quando embarcava para Algeciras com 136 quilos de haxixe (resina de haxixe dissimulada no teto do veículo). Tinha 37 anos aquando da detenção em Ceuta, na fronteira com Marrocos, tendo sido condenado a 4 anos de prisão por “delito contra a saúde pública”. Posteriormente, foi transferido para o estabelecimento prisional de Castellón tendo sido libertado em 2014. Depois, recebeu ordem de expulsão do país, mas um juiz revogou a decisão por considerar que este não constituía “uma ameaça real” e demonstrava os seus “esforços de integração na comunidade espanhola”. E acabou como um dos dois mortos da explosão ocorrida em Alcanar (Catalunha), na véspera do ataque de Barcelona.
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O que é, afinal, um ato terrorista? Define-se terrorismo como o uso sistemático do terror, da violência imprevisível, contra governos, públicos ou indivíduos, para a atingir um objetivo político. O terrorismo existe desde sempre, mas foi Robespierre o primeiro a defender o uso do terror como meio de fomentar a virtude revolucionária – o que originou, em França, o Reino do Terror, entre 1793 e 1794, durante o qual foram guilhotinadas inúmeras pessoas, suspeitas de serem inimigos da Revolução.
Assim, o terrorismo moderno remonta à Revolução Francesa, mas a conceção moderna do terrorismo está mais conexa com os anarquistas do século XIX, que no Ocidente fomentavam a ‘propaganda pelos atos’. Há 110 anos, as pessoas receavam eram os anarquistas, responsáveis pelo assassínio dum grande número de líderes políticos. Pensava-se estarem escondidos por todo lado, como nós imaginamos suceder com os sucessores de Osama bin Laden.
Porém nem toda a violência política é terrorista. Isso depende do grau de adesão dos autores dos atos a um programa de terror sistemático. Por exemplo, o assassinato na Rússia imperial de figuras de proa do czarismo por niilistas e revolucionários foram atos terroristas, mas os assassinatos de Abraham Lincoln ou de John Kennedy, apesar de politicamente motivados, não o foram. Mais o denominativo terrorista não se aplica ao ataque suicida, por fanáticos religiosos, ou a alvos militares em zona de guerra. 
Recentemente o terrorismo é marcado pela internacionalização (capacidade de agir fora das fronteiras nacionais) e pelo facto de as vítimas serem civis inocentes escolhidos ao acaso ou encontradas casualmente no local do atentado. Também a mediatização (com as cadeias de televisão a transmitir para todos os cantos do mundo as imagens dos atentados) faz com que muitos grupos recorram a atos terroristas para dar a conhecer ao mundo a sua existência obtendo uma cobertura mediática que nunca alcançariam de outro modo. O atentado desempenha aqui o papel de campanha de marketing. E está muito fortemente associada ao terrorismo a ideia de destabilização social e de perturbação da economia, pois, pelo medo que inspiram às populações (ir ao cinema, andar de avião, sair de casa…), os grupos ou indivíduos terroristas tentam paralisar a sociedade para destabilizar ou derrubar os sistemas políticos, enfraquecer as economias e criar tensões sociais e dissensões políticas nos países-alvo.
E, frequentemente, mesmo no quadro do terrorismo empresarial, grupal ou do Estado, o terror é espalhado entre a população para obter a adesão forçada às posições emergentes. Pretende-se que a população ceda à chantagem e exigir aos quadros que deem aos terroristas o que se pede, quer se trate da libertação de membros duma organização ou da independência de uma região, quer duma imposição ditatorial de medidas políticas a abranger toda a população ou um setor considerável dela, mesmo alegando a inevitabilidade ou denegrindo o panorama geral.

2017.08.25 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 31 de maio de 2017

O terrorismo está a tornar-se um mal crónico e um duro combate

O atentado terrorista desencadeado com um camião-cisterna armadilhado na manhã de hoje, 31 de maio, no bairro diplomático de Cabul, perto do Palácio Presidencial e junto das embaixadas da Alemanha, Turquia e Japão, fez 90 mortos e 463 feridos, como refere o centro de imprensa do Governo afegão e a própria ONU.
O mesmo centro de imprensa, já aludido, indica como fonte deste balanço, que aumenta os números veiculados por anteriores notícias do Ministério da Saúde Pública (80 mortos e 350 feridos), o Conselho Afegão de Ulemas, o principal órgão religioso do país, que inclui clérigos muçulmanos e académicos sobre Religião e Direito, e que, segundo a agência noticiosa norte-americana Associated Press, considera que “realizar tais ataques no mês sagrado do Ramadão é completamente contra a Humanidade”.
Testemunhas falam num carro armadilhado que estava estacionado junto da embaixada da Alemanha e que, ao explodir, destruiu janelas e portas num raio de centenas de quilómetros. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram uma grande coluna de fumo negro sobre o centro da cidade e uma série de carros destruídos.
O atentado, um dos piores dos últimos anos no Afeganistão, sendo mesmo o mais mortífero, ainda não foi reivindicado, tendo indicado um porta-voz dos talibãs, na rede social Twitter, que este grupo rebelde “não está envolvido no ataque de Cabul e condena-o firmemente”, nomeadamente no atinente à população civil.
Em comunicado difundido pelo seu porta-voz Zabihulla Mujaid, os talibãs asseguram que “os mujhaedines não têm nada com a explosão” e declaram que os elementos do grupo não estão autorizados a preparar ataques “sem objetivos”, como o que se verificou em Cabul, neste dia 31.
O mesmo comunicado salienta que “o Emirato Islâmico (denominação dos talibãs) condena os ataques levados a cabo contra civis e em que se verificam baixas civis sem um objetivo claro”.
Na verdade, na última década só um atentado suicida em Kandahar (a segunda cidade afegã), a 17 de fevereiro de 2008, que fez mais de 100 mortos e várias dezenas de feridos, ultrapassou o número de vítimas mortais do ataque deste dia 31 em Cabul, a capital afegã.
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O porta-voz da polícia de Cabul, Basir Mujahid, citado pela BBC, disse à EFE que um camião armadilhado explodiu numa estrada muito movimentada ao início da manhã e perto da embaixada da Alemanha. E acrescentou que “é difícil dizer qual era o alvo exato do atentado”, visto que, naquela zona, se situam várias embaixadas, edifícios do governo e o Palácio Presidencial. Segundo este elemento policial, as primeiras investigações indicam que o veículo foi carregado com explosivos detonados numa zona onde se verifica sempre uma grande concentração de tráfego. Porém, apesar de o atentado ter sido perpetrado perto da embaixada alemã, o seu objetivo ainda não é conhecido, pelo que toda a zona foi isolada e as investigações ainda decorrem. A explosão, que se ouviu em várias zonas da capital, ocorreu a poucos dias depois do início do Ramadão.
Por seu turno, Najib Danish, porta-voz do Ministério do Interior afegão, informou, na sua conta oficial de Twitter, que a explosão decorrente do ataque aconteceu no distrito policial 10, perto da praça de Zanbaq, na área diplomática da capital.  
Como resultado do ataque – disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Sigmar Gabriel – a predita explosão, além de ter provocado danos materiais, feriu funcionários da embaixada alemã e matou um guarda afegão no exterior. Porém, todos os trabalhadores da embaixada estão já em segurança, pois o Ministério ativou um gabinete de crise para lidar com a situação naquela zona e o Ministro já enviou condolências à família do guarda morto.
Sigmar Gabriel disse que os pensamentos do Governo alemão “estão com as famílias e amigos das vítimas”, desejando “aos feridos uma recuperação rápida” e prometendo que o ataque não abalará a determinação alemã em “apoiar o regime afegão com a estabilização do seu país”.
Por sua vez, a Ministra dos Assuntos Europeus francesa, Marielle de Sarnez, declarou à agência Reuters e à rádio Europe 1 que o edifício da embaixada de França ficou danificado, mas não há para já registo de vítimas entre os funcionários.
E a chefe da diplomacia da Índia, no seu Twitter, relata que a embaixada da Índia não registou vítimas nem feridos. Sushma Swaraj escreve que “Graças a Deus, o pessoal da embaixada indiana saiu ileso da enorme explosão de Cabul”. No entanto, segundo embaixador Manpreet Vohra, o edifício sofreu “danos consideráveis”, com “janelas partidas e portas rebentadas”.
A BBC relata que 4 jornalistas seus ficaram feridos, na sequência do ataque que atingiu a carrinha em que seguiam. No comunicado de Twitter, lamenta ainda a morte do condutor da carrinha. Mohammed Nazir – de origem afegã – trabalhava para a estação há mais de 4 anos. E o correspondente da BBC em Cabul descreve cenas caóticas, com dezenas de pessoas transferidas para o hospital.
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O ataque ainda não foi reivindicado, mas a explosão aconteceu depois do anúncio, no final de abril, da “ofensiva de primavera” dos talibãs (que até vieram condenar o atentado), contra as forças estrangeiras no país. Neste momento, os Estados Unidos têm cerca de 8400 tropas (reforço de Trump) destacadas no Afeganistão, a par de outros 5000 soldados de vários países da NATO.
Um ataque recente dos talibãs contra um campo de treino do exército afegão em Mazar-e Sharif provocou a morte a pelo menos 135 soldados, levando o Ministro da Defesa e o chefe de gabinete das Forças Armadas a resignarem aos seus cargos. E, a par dos talibãs, também o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) tem estado ativo no Afeganistão, tendo reivindicado um atentado bombista no início deste mês de maio que teve como alvo uma coluna de veículos da NATO de passagem pela embaixada dos EUA, tendo morrido pelo menos 8 civis no ataque.
Recorde-se que a 23 de julho de 2016, um ataque suicida também em Cabul contra uma manifestação da minoria étnica hazara (de origem mongol e maioritariamente xiita), reivindicado pelo Estado Islâmico (de linha sunita), fez 80 mortos e 231 feridos.
Os dois últimos ataques bombistas de grandes proporções em Cabul, o último no princípio de maio, foram reivindicados pelo Estado Islâmico, mas os talibãs também têm levado a cabo uma série de ataques que provocaram muitos mortos entre a população civil. Assim, em março, um ataque seu contra um posto da polícia de Cabul fez 29 mortos e 122 feridos, a maior parte civis. E, em janeiro, um duplo atentado perto do Parlamento, reivindicado pelos talibãs, causou 30 mortos e 80 feridos.
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O Presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, condenou veementemente o atentado de Cabul que fez, neste dia 31, pelo menos 90 mortos segundo o último balanço provisório. Segundo as autoridades, o atentado, ainda não reivindicado, foi levado a cabo por um bombista suicida que fez explodir um carro armadilhado numa zona onde se situam várias representações diplomáticas da capital afegã. Uma nota emitida pelo gabinete do Chefe de Estado afegão refere que “os terroristas, mesmo no mês sagrado do Ramadão, no mês de Deus e de oração, não param a matança do nosso povo inocente”.
Também o Paquistão condenou “fortemente o atentado terrorista de Cabul”, acrescentando que a explosão causou a perda de vidas e provocou “muitos” feridos. A declaração do Paquistão refere que o ataque provocou danos em várias residências de diplomatas paquistaneses que sofreram ferimentos ligeiros.
Por seu turno, o Papa expressou suas condolências por este ataque terrorista. Com efeito, um comunicado enviado pelo Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, afirma que, “após tomar conhecimento, com tristeza, do abominável ataque em Cabul e dos muitos mortos e feridos graves, o Papa Francisco manifesta as suas sentidas condolências a todos os que foram afetados por este brutal ato de violência”, confiando “as almas dos falecidos à misericórdia do Todo-Poderoso” e assegurando “ao povo do Afeganistão as suas contínuas orações pela paz”.
Também o secretário-geral da ONU, António Guterres, condenou veementemente este atentado bombista, que fez pelo menos 90 mortos e 463 feridos, e pediu intensificação dos esforços na luta contra o terrorismo. O porta-voz do secretário-geral, Stéphane Dujarric, afirma em comunicado que “os ataques indiscriminados contra civis são graves violações dos direitos humanos e da lei humanitária internacional e nunca podem ser justificados”. Expressando repúdio pelo atentado, Guterres sublinhou a “necessidade de reforçar a luta contra o terrorismo e o extremismo violento” e de fazer os responsáveis responder perante a justiça.
Por sua vez, o Conselho de Segurança da ONU condenou igualmente o atentado, classificando-o como um ato “atroz e cobarde” e sublinhando que ocorreu durante a celebração do mês do Ramadão. Em nota enviada à imprensa, lê-se:
“Os membros do Conselho de Segurança reafirmam que o terrorismo em todas as suas formas e manifestações constitui uma das mais graves ameaças à paz e à segurança internacionais”.
O órgão executivo da ONU insistiu também na necessidade de levar diante da justiça os autores e organizadores do atentado, bem como os que o financiaram, e instou todos os Estados “a cooperarem ativamente com o Governo do Afeganistão e com todas as autoridades relevantes a este respeito”. E, por último, reiterou que “qualquer ato de terrorismo é criminoso e injustificável, independentemente do motivo ou do autor, lugar ou momento” em que ocorra.
Por causa do ataque, o Governo alemão anunciou a suspensão do programa de deportações de requerentes de asilo afegãos que viram os seus pedidos recusados. “Os funcionários [da embaixada] têm funções logísticas importantes na receção das pessoas deportadas”, justificou um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Porém, a política de deportações posta em curso pela chanceler Angela Merkel em dezembro não será terminada.
A Amnistia Internacional aproveitou para deixar um apelo a Berlim para que reconsidere a política de expulsões de volta ao Afeganistão de requerentes de asilo cujo pedido não foi atendido. “As deportações não são justificáveis perante estas condições de segurança”, segundo declarou aquela organização de defesa dos direitos humanos.
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Dada a multiplicidade de ataques desta ordem no Afeganistão e um pouco por todo o mundo – recordem-se os ataques recentes em Manchester, no Egito ou no Sudão do Sul, para lá de todos os numerosos e cruéis que se têm lamentado – parece que o terrorismo, revestido de novas cambiantes e refinada crueldade, se torna um mal crónico. Será que temos de aprender a viver com ele? E porque não tentar a eliminação ou a minoração das suas causas? É que, mesmo ante uma doença crónica, os pacientes não se limitam a conviver com ela: tentam minimizá-la pelo estilo de vida, pela adoção de comportamentos de vida saudáveis, pela medicação e pela esperança da eliminação da doença – sem perder a liberdade e o gosto de viver.
Assim se comportam as pessoas-pessoas: de pé face à doença, ao terrorismo e à morte!

2017.05.31 – Louro de Carvalho

sábado, 29 de abril de 2017

Não para a praga incendiária nem a onda terrorista e a guerra ameaça

Que mundo! Já não sei dizer se a situação que se vive no mundo é aguda a alastrar ou se é crónica com laivos de agudeza. Por isso, resta o estilo da prece, da educação e do diálogo.
A comunicação social, embora de forma tímida, acaba por assentar em que não há memória de tantos fogos ocorridos entre os meses de janeiro e de abril, fora da época de maior risco. E, segundo o JN, já a GNR deteve pelo crime de incêndio, nos primeiros quatro meses deste ano, 9 homens, com idades entre os 30 e os 65 anos – o que representa mais de um terço dos suspeitos presos em todo o ano de 2016. As chamas destruíram cerca de 11 mil hectares de espaços florestais e 2017 ficará na história pelos piores motivos: os incêndios florestais fora da época de risco. Se assim é fora de época, o prenúncio para dentro da época não pode ser otimista. E avizinha-se o espetáculo do ar pesado, do fumo e céu toldado e das labaredas. Esperamos que não haja óbitos, feridos graves, desalojados e evacuados. Mas a prevenção com base no ordenamento florestal tarda enquanto o país se prepara para arder; e a mobilização de meios sacrifica bombeiros, põe em acelerado rodopio a proteção civil e engorda as empresas de fornecimento, distribuição e manutenção de equipamentos. E, depois, vêm as notícias de que o espetáculo é semelhante em muitos recantos do planeta.
Não se faz política da terra queimada, mas parece que a política assiste impávida ou impotente ao espetáculo da queima da terra! Ou assobia para o lado e empurra a barriga para a frente…
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Também as notícias registam o facto de, segundo fontes policiais e hospitalares, quatro pessoas terem morrido e oito ficado feridas, no passado dia 27, num ataque com um carro-bomba a uma esquadra no centro de Bagdade.
Com efeito, Saad Mann, porta-voz do Ministério da Administração Interna e do Comando de Operações de Bagdade, disse que o ataque foi realizado por um bombista suicida, falando só em três mortos, que são policias. Todavia, as fontes da polícia e do hospital, que falaram à Associated Press sob anonimato, apontaram para quatro mortos.
Momentos depois do ataque, era visível a coluna de fumo negro vinda do carro a arder e a polícia dava alguns tiros para o ar para dispersar uma pequena multidão.
O ataque ocorreu quando as forças iraquianas lutavam para empurrar o grupo do Estado Islâmico para a cidade de Mossul, no nordeste do país, a última área urbana que o grupo domina no Iraque.
Este é notório ato de terrorismo em espaço de guerra. Mas há outros de que temos memória ainda fresca: Paris, Bruxelas, Berlim, Nice, Londres, São Petersburgo, Estocolmo, Egito…
Depois, os instrumentos de atos de terrorismo, além das armas convencionais, passam a ser também os intimidantes sacos, envelopes, carteiras, telefonemas, o perigoso e programado jogo online “baleia azul” – um dos “erros da Rússia” –, o avião-bomba, o homem-bomba, o carro-bomba ou o camião atropelante…
E atacam-se prédios, estações de metro, peões em ruas ou em espaços pedonais. Tudo vale, mesmo tirar olhos. Tempos de selvajaria civilizada ou encontro de desencontros!
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Numa guerra aos pedaços, que vem ameaçando o mundo, destrói-se um país, utilizam-se armas químicas (gás sarin), lançam-se numa noite 59 mísseis sobre uma zona concreta cirurgicamente definida, mobiliza-se uma gigantona arma não nuclear contra túneis em zona montanhosa do Afeganistão, alegadamente para abater elementos do autoproclamado Estado Islâmico ali acantonados. E, hipocritamente dão-se números aos pinguinhos sobre os mortos pela dita mãe de todas as bombas, a norte-americana bomba termobárica. E, quando os russos dizem possuir o pai de todas as bombas, a informação vem declarar, em tom de frustração, que, afinal os alvejados túneis não foram destruídos.
A Coreia do Norte, entretanto, persiste na produção de testes de mísseis (com ou sem falhanço) e ameaça destruir o porta-aviões norte-americano que foi deslocado para as proximidades. E Donald Trump, que pensava não ser tão difícil a presidência dos EUA, embora prefira a negociação diplomática, avisa que podemos ter um enorme conflito dom a Coreia do Norte.
É a guerra na sua face mais soft. Mata e diz que não mata; usa as armas e a sua utilização e minimiza os resultados. Mata civis ou usa-os como escudo humano. Impõe, ameaça, ataca cirurgicamente e, sobretudo, cria ambiente de medo e de terror. Demente, confirma e mente!
Razão tem o Papa Francisco quando intercede perante Deus e os decisores humanos (e estes é que são perigosos, inamovíveis, teimosos, egoístas…) pela paz na Síria, no Afeganistão ou no Médio Oriente. E deve ser escutado e acompanhado nas suas viagens a países problemáticos como a República Centro-Africana ou o Egito.
Razão tem o patriarca Kirril quando implora que “Deus liberte a Rússia e o mundo do terror” ou afirma que “devemos reconhecer a importância de manter uma vida pacífica”.

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Perante este mundo em situação pré-caótica, talvez brilhem pela oportunidade algumas das afirmações de Francisco proferidas no seu discurso no quadro da Conferência Internacional em prol da Paz idealizada e organizada pelo Grande Imã no Egito, por ocasião da visita papal.
O Papa elege “a busca do saber e o valor da instrução” como “opções fecundas de desenvolvimento empreendidas pelos antigos habitantes” do Egito, que se traduzem em “opções necessárias também para o futuro, opções de paz e em prol da paz, porque não haverá paz sem uma educação adequada das gerações jovens”. E esta educação será adequada para os jovens de hoje se corresponder “à natureza do homem, ser aberto e relacional”.
E Francisco assegura que a educação se torna “sabedoria de vida, quando é capaz de tirar do homem, em contacto com Aquele que o transcende e com aquilo que o rodeia, o melhor de si, formando identidades não fechadas em si mesmas”. Com efeito, “a sabedoria procura o outro, superando a tentação da rigidez e fechamento”; é “aberta e em movimento, humilde e ao mesmo tempo indagadora”; e, certamente, “sabe valorizar o passado e pô-lo em diálogo com o presente, sem renunciar a uma hermenêutica adequada”. Por outro lado, “prepara um futuro em que se visa fazer prevalecer, não a própria parte, mas o outro como parte integrante de si mesmo”; não se cansa de “individuar, no presente, ocasiões de encontro e partilha”, aprendendo, do passado, “que do mal brota unicamente mal, e da violência só violência, numa espiral que acaba por nos fazer prisioneiros”. Ademais, “rejeitando a avidez de prevaricação, coloca no centro a dignidade do homem” e uma ética “digna do homem, rejeitando o medo do outro e o temor de conhecer, mediante os meios de que o dotou o Criador”.
E, discorrendo sobre o diálogo, como caminho para a paz, o Pontífice aponta três diretrizes fundamentais: a identidade, a alteridade e a sinceridade. Pela identidade, entende-se não poder “construir diálogo sobre a ambiguidade nem sobre o sacrifício do bem para agradar ao outro”; pela alteridade, percebe-se que o ser cultural ou religiosamente diferente “não deve ser visto e tratado como um inimigo”, mas como companheiro de viagem, na convicção de que “o bem de cada um reside no bem de todos”; e pela sinceridade, pensa-se o diálogo “enquanto expressão autêntica do humano” e não como “estratégia para se conseguir segundos fins” – caminho de verdade a ser pacientemente empreendido para fazer, da competição, colaboração.
Assim, o Papa Francisco enuncia as verdadeiras marcas da educação para a paz no diálogo:
“Educar para a abertura respeitosa e o diálogo sincero com o outro, reconhecendo os seus direitos e liberdades fundamentais, especialmente a religiosa, constitui o melhor caminho para construir juntos o futuro, para ser construtores de civilização. Porque a única alternativa à civilização do encontro é a incivilidade do conflito; não há outra. E, para contrastar verdadeiramente a barbárie de quem sopra sobre o ódio e incita à violência, é preciso acompanhar e fazer amadurecer gerações que, à lógica incendiária do mal, respondam com o crescimento paciente do bem: jovens que, como árvores bem plantadas, estejam enraizadas no terreno da história e, crescendo para o Alto e junto dos outros, transformem dia a dia o ar poluído do ódio no oxigénio da fraternidade.”.
Desejando que “se levante o sol duma renovada fraternidade em nome de Deus e surja desta terra, beijada pelo sol, o alvorecer duma civilização da paz e do encontro”, implora a intercessão de São Francisco de Assis, que veio ao Egito e encontrou o Sultão Malik al Kamil.
E, verificando que, “no Egito, não surgiu apenas o sol da sabedoria”, mas também “a luz policromática das religiões”, sendo que as diferenças entre elas constituíram “uma forma de enriquecimento recíproco ao serviço da única comunidade nacional”, constata o encontro de crenças diferentes e a mistura de várias culturas, “sem se confundirem mas reconhecendo a importância de se aliarem para o bem comum” – alianças deste género mais urgentes hoje.
E a sua urgência justifica-se pelo “perdurar hodierno dum paradoxo perigoso”, que Francisco carateriza assim:
“Por um lado, tende-se a relegar a religião para a esfera privada, não a reconhecendo como dimensão constitutiva do ser humano e da sociedade e, por outro, confundem-se, não as distinguindo adequadamente, as esferas religiosa e política. A religião corre o risco de ser absorvida pela gestão de assuntos temporais e tentada pelas adulações de poderes mundanos que, na realidade, a instrumentalizam. Num mundo que globalizou muitos instrumentos técnicos úteis, mas ao mesmo tempo tanta indiferença e negligências, e que corre a uma velocidade frenética, dificilmente sustentável, sente-se a nostalgia das grandes questões de sentido que as religiões fazem aflorar e que suscitam a memória das próprias origens: a vocação do homem, que não foi feito para se exaurir na precariedade dos assuntos terrenos, mas para se encaminhar rumo ao Absoluto para o qual tende.”.
Por isso, entende que
“A religião, especialmente hoje, não constitui um problema, mas é parte da solução: contra a tentação de se contentar com uma vida superficial em que tudo começa e termina aqui, a religião lembra-nos que é necessário elevar o espírito para o Alto a fim de aprender a construir a cidade dos homens”.
E Francisco propõe-se, com o demais chefes religiosos, “desmascarar a violência” disfarçada de suposta sacralidade e apoiada na absolutização dos egoísmos, em vez da autêntica abertura ao Absoluto; “denunciar as violações contra a dignidade humana e contra os direitos humanos”; e trazer à luz do dia as tentativas de justificar toda a forma de ódio pela religião”, condenando-as como “falsificação idólatra de Deus”, cujo nome é Santo, sendo que “nenhuma violência pode ser perpetrada em nome de Deus”, que é a Paz. Assim, diz o Papa:
“Reiteramos um ‘não’ forte e claro a toda a forma de violência, vingança e ódio cometida em nome da religião ou em nome de Deus. Juntos, afirmamos a incompatibilidade entre violência e fé, entre crer e odiar. Juntos, declaramos a sacralidade de cada vida humana contra qualquer forma de violência física, social, educativa ou psicológica.”.
E, como a religião não é chamada só a desmascarar o mal, mas traz a vocação de promover a paz, a nossa tarefa é rezar uns pelos outros orando a Deus o dom da paz e do encontro concorde, havendo, simultaneamente, que remover as situações de pobreza e exploração, onde criam raízes os extremismos, e bloquear os fluxos de dinheiro e armas para quem fomenta a violência.

2017.04.29 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Celebrar a Páscoa em tempo de sobressalto

Segundo a Reuters, as Igrejas na cidade de Minya, no sul do Egito, não festejarão a Páscoa no próximo domingo, em luto pelos 46 cristãos coptas mortos nas explosões em duas igrejas nas cidades de Tanta e Alexandria, nas cerimónias do Domingo de Ramos. Em especial, a Diocese Copta Ortodoxa de Minya explicou que as celebrações se aterão às orações litúrgicas, sem outras quaisquer manifestações festivas. De facto, a Província de Minya tem a maior população cristã copta do país. E os coptas realizam as celebrações e orações da Páscoa na noite de sábado, dedicando o Domingo da Ressurreição à vida em família e refeição com amigos e visitantes.
Por seu turno, o Parlamento egípcio aprovou, no dia 11, a decisão do Presidente Abdel Fattah al-Sissi de decretar o Estado de Emergência de 3 meses após os ataques de domingo, decisão que entrou em vigor às 13 horas do dia 10. E aprovou preliminarmente, na segunda-feira, emendas a um conjunto de leis destinadas a acelerar os julgamentos dos acusados em casos de terrorismo. E al-Sissi criou o Conselho Supremo de Combate ao Terrorismo e ao Fanatismo.
Os ataques, reivindicados pelo Estado Islâmico, são mais uma etapa do cumprimento das ameaças divulgada por vídeo em que os radicais islâmicos prometiam atacar a minoria cristã no Egito. Centenas de famílias haviam sido obrigadas a abandonar o Sinai do Norte após assassinatos em série de cristãos coptas. O grupo reivindicara também a autoria do ataque perpetrado em dezembro passado no Cairo contra uma igreja adjacente à Catedral de São Marcos, que matou 30 fiéis e deixou uma dezena de feridos.
Estamos perante um caso nítido de perseguição de cristãos bem similar das dos primeiros tempos do cristianismo, tanto na Palestina como depois em Roma.
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Está a Rússia ainda a viver o pesadelo dos recentes ataques no Metropolitano de São Petersburgo, com a morte de 11 pessoas e ferimento de mais 30. E “a Igreja Ortodoxa Russa condena com veemência a ação agressiva contra os civis e convida a sociedade a opor-se a toda a manifestação de violência” – é o que afirma o Patriarca de Moscou Kirill (para quem “não há nenhuma justificação para este crime”), na mensagem enviada ao Governador de São Petersburgo, Georgy Poltavchenko, e ao Metropolita Varsonofio.
A Suécia reforçou os controlos nas fronteiras após o atentado com um camião que provocou quatro mortos no centro de Estocolmo, pois enveredou por uma das ruas comerciais mais movimentadas do centro da cidade, a Drottninggatan, abalroando várias pessoas pelo caminho antes de embater na montra dum grande armazém, Åhléns Citya.
Segundo a agência de notícias sueca TT News, a empresa dona do camião usado no ataque, a fabricante de cerveja sueca Spendrups, adiantou que o camião foi roubado na manhã do dia 7 durante uma entrega a um restaurante. “Alguém entrou no camião e o levou enquanto o motorista fazia a descarga”, disse o diretor de comunicações Mårten Lyth.
Está viva na memória das pessoas o atentado em Londres junto da ponte de Westminster perto do Parlamento britânico e o alarme público que a tragédia causou.
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Falámos de terrorismo, mas poderíamos falar de guerra, morte, destruição massiva e fome. Sim, a onda de migrantes que passam por corredores humanitários, os refugiados que embatem contra os muros de todas as ordens recentemente erguidos ou os que se perdem nos mares da exploração e do naufrágio são testemunho de quê? E, por exemplo, os países em que a propalada primavera árabe venceu não estão melhor que antes. E a guerra na Síria mostra o espetáculo da destruição.
Mui recentemente um ataque com armas químicas matou 72 pessoas em Idlib, na Síria. A embaixadora de Trump na ONU ameaçou ação unilateral e Guterres falou em crime de guerra. E a Rússia fica isolada na defesa de Assad.
O incidente vem motivando uma forte reação internacional e os EUA, ameaçaram reagir unilateralmente se a ONU nada fizer sobre a Síria. Yusif é uma das 25 vítimas que estão a ser tratadas no Reyhanli Hospital, no Sul da Turquia.
O Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede em Londres, falou em 52 adultos e 20 crianças mortas no dito ataque. O regime de Bashar al-Assad tem sido alvo de todas as acusações, ao mesmo tempo que dão a volta ao mundo imagens de crianças e adultos, estendidos no chão, paralisados, mortos ou a sufocar. Segundo várias organizações, esses são sintomas de um ataque com gás sarin. E O diretor do programa de emergências da OMS, Peter Salama, lembrou que “o uso destas armas é proibido”. E os Médicos Sem Fronteiras trataram oito pacientes com sintomas de exposição a agentes nervosos.
Na condenação a Assad, a exceção foi a Rússia, que numa reunião do Conselho de Segurança da ONU disse ser inaceitável o projeto de resolução dos EUA, França e Reino Unido. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, a quem a Amnistia Internacional tenciona dirigir uma petição que pôs a circular na net pedindo justiça para as vítimas do ataque, classificou o sucedido como “crime de guerra”. Porém, segundo Igor Konashenkov, o porta-voz do Ministério da Defesa russo, os gases letais procederam de “um armazém onde os terroristas [rebeldes] guardavam projéteis carregados com agentes tóxicos” que, por sua vez, foram alvo dos bombardeamentos lançados pelo regime sírio.
Não obstante, ouvido pela rádio BBC 4, o coronel Hamish de Bretton-Gordon, especialista em armas químicas, disse tratar-se de gás sarin e que a versão dos russos é insustentável. E explicou: “Inevitavelmente, se explodirem o sarin, vão destruí-lo”. Fonte da Casa Branca disse à Reuters a coberto do anonimato, que os americanos “não acreditam” na versão russa.
Com as fotos das crianças mortas, a embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, interrogou:
“Quantas crianças têm de morrer para que a Rússia se importe? Quando a ONU falha frequentemente o seu dever de agir coletivamente, há alturas em que os Estados têm de agir sós.”.
À ameaça de ação unilateral, o presidente dos EUA, Donald Trump, juntou mais um aviso: “Quando se matam crianças inocentes, bebés, com gás químico letal, isso ultrapassa muitas linhas vermelhas”. Trump referia-se ao facto de Barack Obama ter dito que o uso de armas químicas era a linha vermelha para Assad. Ontem garantiu ainda: “As ações hediondas do regime de Assad não podem ser mais toleradas”. E desafiando tudo e todos lançou uma jogada perigosa ao mandar bombardear a Síria com 59 mísseis – o que pôs de sobreaviso a Rússia e a Coreia do Norte.
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Ademais, a comunicação social diariamente faz eco de fenómenos que trazem à tona a onda de criminalidade organizada e factos de crimes graves praticados de forma isolada. Assim, é de questionar que lugar fica para a festa da Páscoa neste ambiente de medo e de sobressalto.
Para glosar uma resposta à questão, é pertinente ver como foi o ambiente de celebração da Páscoa judaica. O povo israelita estava esmagado (trabalhos forçados e limitação coerciva da natalidade masculina) pelo regime faraónico. Havia que preparar a fuga de noite e sabendo que a perseguição dos carros e cavalos egípcios iria no seu encalço. Nem as 10 pragas lançadas por Moisés surtiam efeito. Mesmo a da morte dos primogénitos não criou uma convicção irreversível na mente de Faraó. E os israelitas tiveram de reunidos, pela calada da noite, cada um em sua família, comer o cordeiro pascal com pão ázimo e ervas amargas – de pé, rins cingidos e bordão na mão e com as portas aspergidas com o sangue do cordeiro. Era preciso partir. E, sob o comando de Moisés atravessaram a pé enxuto o Mar Vermelho, cujas águas se reajuntaram para submergir carros cavalos e cavaleiros egípcios que iam em perseguição dos israelitas. A partir daí, todos os anos, no deserto (40 anos) e, depois, na terra de Canaã, se celebrava do mesmo modo a festa da Páscoa, como a Passagem do Mar Vermelho ou a Libertação do poder opressivo do Egito.
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E as circunstâncias da celebração da Páscoa por Jesus não foram melhores. O ambiente era de divisão. Belém era uma cidade minúscula, Nazaré na Galileia tinha má fama, pasto dos vícios comerciais do cosmopolitismo. Samaritanos e judeus nem se falavam, separados até ela disputa do lugar de adoração. O crime, se não era organizado, era frequente e profissional. O poder romano era opressivo através dos impostos excessivos, com agravo mercê da ladroagem dos publicanos, e reprimia todas as sedições que eram recorrentes. É célebre o episódio de Pôncio Pilatos em que o Governador mandou matar um número significativo de galileus. Por outro lado, o serviço do Templo não era menos opressor quer na captação de esmolas, quer nas prescrições.
Jesus, que passou pelo mundo a fazer o bem e pregava o reino de Deus, muitos dos discípulos O abandonaram – e, no fim, todos menos um; e as multidões eram seduzidas por Ele e aclamaram-No como Rei de Israel, como Messias, mas acabaram por gritar a sua crucifixão e pedir a libertação de Barrabás.
Ora, Jesus não teve medo. Cumprindo as Escrituras, fez a vontade do Pai. Preparou a entrada triunfal em Jerusalém exigindo a cedência da jumenta e do jumentinho, que restituiu; deixou-se aclamar pela multidão; expulsou os vendilhões do Templo e aí ensinou; e lamentou a sorte de Jerusalém que matou os profetas não se arrependendo nem agora. Na altura própria, quis pela última vez celebrar a Páscoa com os discípulos e requisitou casa e sala. Não se desculpou com a hostilidade dos sacerdotes, o desprezo dos saduceus e a hipocrisia dos fariseus, nem com a timidez dos discípulos. Ali Se entregou como alimento – seu corpo e sangue – nas espécies de pão e vinho pela multidão dos seres humanos, antecipando o sacrifício da Cruz, e enunciou o mandamento novo do amor como sinal distintivo dos discípulos para que o mundo creia. E instituiu o sacerdócio ministerial como serviço à aliança nova e eterna firmada no seu sangue.
Deixou-Se trair por Judas, sabendo que este era o primeiro, mas que muitos mais Judas haviam de surgir ao longo da História; tolerou a negação de Pedro, sabendo que muitos haviam de O negar ao longo dos séculos; deixou-Se manietar pelos que O procuravam no Horto e conduzir ao tribunal do sinédrio e ao de Pilatos; e carregou a cruz para o Gólgota secundado pelo Cireneu. Finalmente, aceitou despojarem-No das vestes e crucificarem-No, na certeza de que o Pai perdoaria aos algozes porque não sabiam o que estavam a fazer. Mesmo ali teve a lucidez de confiar a Mãe ao discípulo amado (a nós todos) e vice-versa. E, depois de expirar, alguém reconheceu Nele o Filho de Deus; e do seu lado brotou sangue e água – símbolos do batismo no fogo e no Espírito e da Eucaristia, sacrifício e comunhão no seu corpo e sangue.   
Não hesitou em descer à mansão dos mortos e, sobretudo, venceu os prováveis comentários de “imposturice” e ressuscitou para dar as últimas instruções aos discípulos, fortalecendo-os com a força do Alto e confiando-lhes a missão de fazerem discípulos em todas as nações para que a todos fosse pregado o Reino de Deus e alcançassem o perdão dos pecados crendo no Messias.
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E a Páscoa da Igreja?
Os primeiros cristãos foram perseguidos pelos chefes do Templo, presos e açoitados, proibidos de falar. Estêvão foi apedrejado e deu testemunho de Cristo. Depois, a perseguição generalizou-se. E Paulo, o apóstolo que, dantes, fora feroz perseguidor dos cristãos, argumentou com o seu estatuto de cidadão romano e apelou para César, pelo que seguiu para Roma, caminho que Pedro acabou por seguir.
De nada a Igreja primeva teve medo. Era comunidade modelo e vivia a alegria da Ressurreição:
Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fração do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, o temor dominava todos os espíritos. Todos os crentes viviam unidos e possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um. Como se tivessem uma só alma, frequentavam diariamente o Templo, partiam o pão em suas casas e tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e tinham a simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava, todos os dias, o número dos que tinham entrado no caminho da salvação (At 2,42-47).
No meio desta exemplar comunhão de todos, destacava-se o papel dos apóstolos e da Graça:
A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum.  Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles (At 4,32-33).
Face a desordens e mal-entendidos, Paulo apelava à pureza da celebração pascal:
Purificai-vos do velho fermento, para serdes nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado. Celebremos, pois, a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da pureza e da verdade (1Cor 5,7-8).
A celebração da morte, sepultamento e ressurreição de Jesus é crucial para os crentes em Jesus Cristo. Sem essa doutrina, não há Cristianismo e nem a Páscoa cristã. No princípio, a Páscoa era celebrada semanalmente no primeiro dia da semana, o da Ressurreição de Jesus. Depois, além desta, passou-se também (Não esqueçamos aqui a palavra “também”!) à especial celebração anual
Policarpo representava (no século II) o costume da festa da Páscoa com vigília, a terminar com a Santa Ceia, na noite do 14.º dia do mês de nisã (mês do calendário judaico), como a Páscoa judaica, independentemente do dia da semana que fosse. E Aniceto representava o costume romano, também seguido por alguns no Oriente, da festa da Páscoa sempre no domingo.
No século III, para a Igreja, o grande evento do ano era a Páscoa. O período anterior era de jejum em memória dos sofrimentos de Cristo. Em Roma, era feito jejum e vigília de 40 horas em memória do seu descanso tumular. Com o Concílio de Niceia, que fixou a data da Páscoa nos termos atuais, esse período foi antecipado pela Quaresma (40 dias). O jejum terminava na alvorada de Páscoa, dando início então ao período Pentecostal de regozijo.
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Também hoje, apesar de tudo, temos o direito e a obrigação de celebrar a Páscoa, confiados em Jesus força e esperança da Igreja. Talvez seja oportuno fazer o jejum solidário pelo sofrimento dos que partem e pela dor dos que ficam. Mas não pode faltar o cântico de Aleluia e a memória celebrativa da Paixão e Ressurreição, porque Ele, Cristo, é a garantia da Ressurreição de todos.
Sem medo e crendo no futuro, Santa Páscoa para todos e todas!

2017.04.13 – Louro de Carvalho