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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

As trilogias propostas por Francisco em Bolonha a 1 de outubro

No encontro com os migrantes assistidos no Centro Regional da Via Enrico Mattei, o Papa teve um acolhimento foi muito caloroso. E, após saudar demoradamente, um por um, os hóspedes da estrutura, ouviu o apelo de muitos migrantes que apresentavam em suas mãos cartazes com as palavras: “Precisamos de documentos. Ajude-nos.”.
No discurso, assegurou a sua proximidade, porque muitos não os conhecem “e têm medo”. E o medo faz sentir o direito de julgar e de o fazer com dureza  e frieza, acreditando estar a ver bem. Todavia só se vê bem com a proximidade que a misericórdia dá. Sem esta, o outro é um estranho e até um inimigo, que não se pode tornar “meu próximo”. De longe podemos dizer e pensar qualquer coisa, como acontece quando se escrevem frases terríveis e insultos através da Internet. Se olharmos o próximo sem misericórdia, não sentimos o seu sofrimento e problemas.
Três ideias: sofrimento, misericórdia e proximidade. Se o sofrimento for caldeado pela proximidade que a misericórdia dá, não haverá lugar a medo, julgamento e dureza
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Na Praça Maior de Bolonha, onde era aguardado por uma grande multidão de trabalhadores para a oração mariana do Angelus, falou de crise, discussão/diálogo e futuro:
Vós representais diversas partes sociais, muitas vezes em discussões, até ásperas, mas aprendestes que, somente juntos, se pode superar a crise e construir o futuro. Só o diálogo permite encontrar respostas eficazes e inovadoras, sobretudo no que se refere à qualidade do trabalho e o indispensável bem-estar de todos.”.
Frisando a necessidade de encontrar soluções estáveis, capazes de ajudar pessoas e famílias a encarar o futuro, Francisco pediu que nunca rebaixem a solidariedade ao nível da lógica do lucro financeiro, porque, desta forma, a arrancamos ou, melhor, a roubamos dos mais frágeis, que têm tanta necessidade. Frisou que tornar a sociedade mais justa não é um sonho do passado, mas um compromisso, um trabalho que precisa de todos nós. E, tocando a chaga dolorosa do desemprego, sobretudo juvenil, e de tantos que perderam o trabalho e não conseguem inserir-se na sociedade, disse:
O acolhimento e a luta contra a pobreza passam, em grande parte, através do trabalho. Não se pode oferecer ajuda aos pobres sem dar-lhes trabalho e dignidade.”.
Referindo que a crise económica tem uma dimensão europeia e global, o Pontífice recordou que a crise é também uma crise ética, espiritual e humana, pois, “na sua raiz, há traição do bem comum, por parte de indivíduos e de grupos no poder”. Por conseguinte, é preciso eliminar a centralidade da lei do lucro e transferi-la para a pessoa e para o bem comum. Para isso requer-se a discussão/diálogo, a solidariedade e o compromisso com a justiça.
Os três pontos de referência da visita papal à Emília-România compendiam-se em três “P” sobre como ir em frente no caminho da Igreja: a Palavra, o Pão, os Pobres. A Palavra “é a bússola para caminharmos humildes, para não perdermos a estrada de Deus e cairmos na mundanidade”. O Pão tem de ser “o Pão Eucarístico”, porque tudo começa pela Eucaristia e nela se encontra a Igreja: não nas conversas e nas crónicas, mas no Corpo de Cristo partilhado por pessoas pecadoras e necessitadas, mas que se sentem amadas e desejam amar, sendo este “o início irrenunciável do nosso ser Igreja”. Por fim, sobre os Pobres, o Papa carateriza o mundo atual da pobreza e dos diversos tipos de pobres:
Ainda hoje, infelizmente, para tantas pessoas falta o necessário. Mas existem também tantos pobres de afeto, pessoas sozinhas, os pobres de Deus. Em todos eles encontramos Jesus, porque Jesus no mundo seguiu o caminho da pobreza, do aniquilamento.”.
Recordando a interrogação do cardeal Lercaro Se partilhamos o pão do céu, como não partilhar o terrestre?”, que o purpurado gostava de ver escritas no altar, o Papa disse que “da Eucaristia aos pobres vamos encontrar Jesus” e exortou a pedir a graça de nunca esquecermos “estes alimentos-base, que sustentam o nosso caminho”: a Palavra, o Pão, os Pobres.
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No encontro com os estudantes na cidade internacionalmente conhecida pela sua milenária Universidade, o Papa começou por afirmar:
Há quase mil anos, a Universidade de Bolonha é laboratório de humanismo: aqui o diálogo com as ciências inaugurou uma época e plasmou a cidade. Por isso, Bolonha é chamada ‘a douta’.”.
Lembrando que o primeiro curso da Universidade foi o de Direito, propôs aos estudantes três direitos que julga atuais. O primeiro deles é  o “direito à cultura”. E explicou:
Não me refiro somente ao sacrossanto direito de todos de ter acesso ao estudo, mas também ao facto de que, especialmente hoje, o direito à cultura significa tutelar a sabedoria, isto é, um saber humano e humanizador. (...). O estudo serve para se fazerem perguntas, não para se deixar anestesiar pela banalidade, a buscar o sentido da vida.”.
Cultura é o que cultiva, que faz crescer o humano. Face a tanto clamor que nos circunda, frisou que “hoje não precisamos de quem desabafa gritando, mas de quem promove boa cultura”.
O segundo é o “direito à esperança”, o direito a não ser quotidianamente invadidos pela retórica do medo e do ódio. E desenvolveu, exortando os jovens a serem artesãos de esperança:
É o direito a não ser submersos pelas frases feitas dos populismos. É o direito a acreditar que o amor verdadeiro não é descartável e que o trabalho não é uma miragem a alcançar, mas uma promessa que deve ser mantida. Que belo seria se as salas das universidades fossem canteiros de esperança, oficinas onde se trabalha por um futuro melhor, onde se aprende a ser responsáveis por si e pelo mundo!”.
Por último, o “direito à paz” que, além de direito, é dever inscrito no coração da humanidade. A este respeito, Francisco evocou o Papa Bento XV, que foi Bispo justamente de Bolonha, e que, há 100 anos, elevou o seu clamor definindo a guerra um “inútil massacre”. E apelou:
Invoquemos o ius pacis como direito a todos de resolver os conflitos sem violência.  Por isso, vamos repetir: nunca mais a guerra, nunca mais contra os outros, nunca mais sem os outros! Que venham à luz os interesses e as tramas, muitas vezes obscuras, de quem fabrica violência, alimentando a corrida às armas e espezinhando a paz com os negócios.”.
E recomendou e testemunhou:
Não vos contenteis com sonhos pequenos, mas sonhai grande. […]. Eu também sonho, e não só quando durmo, porque os verdadeiros sonhos fazem-se de olhos abertos e levam-se avante à luz do sol.”.
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Com a celebração eucarística no Estádio de Ara, o Papa concluiu a visita pastoral iniciada na manhã do dia 1 de outubro, recordando que a Palavra de Deus, que é Palavra viva, “penetra a alma e traz à luz os segredos e as contradições do coração” e que nunca devemos esquecer os alimentos-base que sustentam o nosso caminho acima apontados:  “a Palavra, o Pão, os Pobres”.
Desenvolveu a homilia inspirado na parábola dos dois filhos que, ao pedido do pai para irem para a sua vinha, um responde ‘não’, mas depois vai, enquanto o segundo diz ‘sim’, mas não vai. Cá está mais uma trilogia: Pai, filhos e vinha (Pai roga, filhos obedecem e vinha será cuidada).
E o Papa sublinha a grande diferença entre o primeiro filho, preguiçoso, e o segundo, hipócrita”. No coração do primeiro, “ainda ressoava o convite do pai”, enquanto no do segundo, “não obstante o ‘sim’, a voz do pai estava sepultada”:
A recordação do pai despertou o primeiro filho da preguiça, enquanto o segundo, mesmo conhecendo o bem, negou o dizer com o fazer. De facto, tornou-se impermeável à voz de Deus e da consciência e assim havia abraçado sem problemas a duplicidade de vida.”.
Com a parábola, segundo o Papa, Jesus coloca duas vias diante de nós, “que nem sempre estamos prontos para dizer ‘sim’ com as palavras e as obras, porque somos pecadores”. Mas, sendo pecadores, temos também dois caminhos em alternativa, como explicita o Pontífice:
Mas podemos escolher ser pecadores em caminho, que  permanecem na escuta do Senhor e, quando caem, se arrependem e se reerguem, como o primeiro filho; ou pecadores sentados, prontos a justificar-se sempre e somente em palavras, segundo o que convém.
Jesus aplica esta parábola a chefes religiosos da  época “que se assemelhavam ao filho de vida dupla, enquanto as pessoas comuns se comportavam frequentemente como o outro filho”:
Estes chefes sabiam e explicavam tudo, em modo formalmente irrepreensível, como verdadeiros intelectuais da religião. Mas não tinham a humildade de escutar, a coragem de interrogar-se, a força de arrepender-se.”.
Repreendendo-os de forma severa, Jesus diz, para confusão dos ouvintes, que até os publicanos – que eram corruptos traidores da pátria – os precederiam no reino de Deus. O problema destes chefes religiosos é que erravam no modo de viver e pensar diante de Deus:
Eram, em palavras e com os outros, inflexíveis custódios das tradições humanas, incapazes de compreender que a vida segundo Deus é ‘em caminho’, que pede a humildade de abrir-se, arrepender-se e recomeçar”.
Isto diz-nos que não há vida cristã decidida em conversa ao redor duma mesa, cientificamente construída, onde basta cumprir alguns ditames para aquietar a consciência:
A vida cristã é um caminho humilde de uma consciência nunca rígida e sempre em relação com Deus, que sabe arrepender-se e entregar-se a Ele nas suas pobrezas, sem nunca presumir bastar-se a si mesma. Assim, são superadas as edições revistas e atualizadas daquele antigo mal, denunciado por Jesus na parábola: a hipocrisia, a duplicidade de vida, o clericalismo que acompanha o legalismo, a separação das pessoas.”.
Neste sentido, na ótica papal, a palavra-chave é “arrepender-se”:
É o arrependimento que permite não enrijecer-se, de transformar os “nãos” a Deus em “sim”, e os “sim” ao pecado, em “não”, por amor ao Senhor. A vontade do Pai, que a cada dia delicadamente fala à nossa consciência, realiza-se somente na forma de arrependimento e da conversão contínua. Definitivamente no caminho de cada um existem duas estradas: ser pecadores arrependidos ou pecadores hipócritas.”.
O que realmente conta “não são os raciocínios que justificam e tentam salvar as aparências, mas um coração que avança com o Senhor, luta a cada dia, se arrepende e retorna para Ele”, porque o Senhor busca puros de coração, não puros “por fora’”.
Também a parábola é atual no atinente às relações, “nem sempre fáceis, entre pais e filhos”:
Hoje, na velocidade das transformações uma geração e outra, constata-se mais forte a necessidade de autonomia do passado, às vezes até mesmo com a rebelião. Mas após os fechamentos e os longos silêncios de um lado ou de outro, é bom recuperar o encontro, mesmo se ainda habitado por conflitos, que podem tornar-se um estímulo de um novo equilíbrio.”.
E tal como na família, “também na Igreja e na sociedade nunca se deve renunciar ao encontro, ao diálogo, em buscar novas vias para caminhar juntos”.
A palavra-chave para “superar a hipocrisia, a duplicidade de vida, o clericalismo (outra trilogia) que acompanha o legalismo” é, pois, o arrependimento, “que permite não enrijecer-se, de transformar os “nãos” a Deus em “sim”, e os “sim” ao pecado em “não” por amor do Senhor". 
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Na tarde de domingo, dia 1, Francisco falou aos sacerdotes, religiosos e religiosas, seminaristas do Seminário regional e aos diáconos permanentes na Catedral de São Pedro, em Bolonha.
Quanto à oportunidade de alimentar a exigência evangélica da fraternidade, centrou-se na importância para cada religioso de viver a diocesanidade, carisma próprio e imprescindível do sacerdote diocesano, dizendo dela:
É uma experiência de pertença. Quer dizer que não és livre, mas és um homem que pertence a um corpo. Acredito que esquecemos isto tantas vezes, porque sem cultivar este espírito de diocesanidade, nos tornamos muito ‘únicos’, muito sozinhos com o perigo de sermos também infecundos, nervosos...”.
E acrescentou que a diocesanidade tem também uma dimensão de sinodalidade com o bispo:
O corpo tem uma força especial e o corpo deve ir em frente sempre com a transparência. O compromisso da transparência, mas também a virtude da transparência cristã como a vive Paulo, isto é: a coragem de falar, de dizer tudo. Paulo sempre ia em frente com esta coragem.”.
Depois, considerou essencial que os sacerdotes sejam pastores do povo que cuidam do rebanho:
 “Não quer dizer ser um populista, não! Pastor do povo, isto é, próximo do povo, porque foi convidado para estar ali e fazer crescer o povo, para ensinar o povo, santificar o povo, ajudá-lo a encontrar Jesus Cristo. Pelo contrário, o Pastor que é muito clerical assemelha-se àqueles fariseus, àqueles doutores da lei, àqueles saduceus do tempo de Jesus: ‘Somente a minha teologia, o meu pensamento, o que se deve fazer, o que não se deve fazer!’, fechado ali e o povo lá, nunca interferindo na realidade de um povo.”.
O Pastor deve ter uma tríplice relação – e isto é sinodalidade – com o povo de Deus:
Na frente, para ver o caminho; digamos o pastor catequista, o pastor que ensina o caminho. No meio, para conhecê-los, proximidade; o pastor é próximo, em meio ao povo de Deus. E também atrás, para ajudar os retardatários e também, às vezes, para deixar o povo ver porque, sabe – tem bom faro o povo, eh! – para ver qual caminho escolher. Mover-se nas três direções: na frente, no meio e atrás. E um bom pastor deve ir neste movimento.”.
No dizer do Papa, o clericalismo é um dos pecados mais fortes, mas tem como antídoto a diocesanidade, ou seja, a relação entre os sacerdotes, a relação com o bispo, com a coragem de falar de tudo e de suportar tudo. Por isso, lamenta:
É triste quando um Pastor não tem o horizonte do povo. É muito triste quando as igrejas permanecem fechadas  - algumas devem permanecer fechadas – mas quando se vê um aviso na porta: de tal a tal hora, depois não tem ninguém. Confissões somente em tal dia, de tal hora a tal hora. Mas tu...não é um escritório do sindicato, eh! É o lugar onde tu vais adorar o Senhor. Mas, se um fiel quer adorar o Senhor e encontra a porta fechada, onde irá fazê-lo? Pastores com horizonte de povo: isto quer dizer “como eu faço para estar próximo de meu povo.”.
***
No atinente à vida consagrada, o Papa centrou-se em dois vícios que a afetam: o mais frequente é a tagarelice, que suja a fama do/a irmão/ã; o outro “é o pensar o serviço presbiteral como carreira eclesiástica. E explica:
Refiro-me a um verdadeiro comportamento galgador. Mas isto é uma peste, num presbítero. Existem duas pestes fortes: esta é uma. Os galgadores. Que buscam fazer carreira e sempre têm as unhas sujas, porque querem subir. Um galgador é capaz de criar tantas discórdias no seio de um corpo presbiteral. Os galgadores fazem tanto mal para a união do presbitério, tanto mal, porque vivem em comunidade, mas fazendo, mas agindo assim para eles irem em frente.”.
Na resposta a uma pergunta sobre os passos a dar para se colocar na perspetiva de Cristo, sendo testemunhas de alegria e esperança, capazes de tocar as chagas dos irmãos, abstendo-se da psicologia da sobrevivência, sustentou:
Cair na psicologia da sobrevivência é como ‘esperar a carruagem’, o carro fúnebre. Esperamos que chegue a carruagem e leve o nosso Instituto. É um pessimismo desesperançado, isto não é de homens e mulheres de fé. Na vida religiosa, esperar a carruagem não é uma atitude evangélica, é uma atitude de derrota. Esta psicologia da sobrevivência leva à falta de pobreza. É buscar a segurança no dinheiro. E este é o caminho mais adaptado para nos levar à morte.”.
Posto isto, o Papa convidou os religiosos a um exame de consciência sobre como vivem a pobreza, recordando que “a segurança na vida consagrada não é dada nem pelas vocações, nem pela abundância do dinheiro; a segurança vem de outro lugar”. E disse:
Tantas Congregações que diminuem, diminuem, e os bens aumentam. Tu vê aqueles religiosos ou religiosas, apegados ao dinheiro como segurança. Esta é a medula da psicologia da sobrevivência: isto é, sobrevivo, estou seguro porque tenho dinheiro. E o problema não está tanto na castidade ou na obediência, não! Está na pobreza. A psicologia da sobrevivência leva a viver mundanamente, com esperanças mundanas, não a colocar-se na estrada da esperança divina, a esperança de Deus. Mas o dinheiro é realmente uma ruína para a vida consagrada.”.
Por tudo e pela necessidade de tocar as chagas de Jesus nas chagas do mundo, propôs a via do rebaixamento, rebaixar-se com o povo, os que sofrem, os que não podem dar nada. E concluiu:
Terás somente a força da oração: esta, ao contrário da psicologia da sobrevivência que se alimenta de pessimismo, é o caminho que conduz ao Reino de Deus. Não é fechada, sem horizontes, sem povo, mas é aberta, com horizontes fecundos.”.
Em suma: Palavra, pão, pobres! Cultura, esperança, paz! Diocesanidade, sinodalidade, rebaixamento! Sofrimento, proximidade, misericórdia!
Aos religiosos, a exortação final foi: “que a vida consagrada seja um tampão na mundanidade”.

2017.10.04 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A mensagem profética de Maria em Fátima continua atual

É este o pano de fundo da peregrinação internacional aniversária da 5.ª Aparição de Nossa Senhora em Fátima, a cujas celebrações presidiu o penitenciário-mor da Santa Sé, cardeal italiano Mauro Piacenza, e que decorreu entre os dias 12 e 13 de setembro, em torno do tema “Mãe da Igreja, rogai por nós”.
Esta peregrinação internacional aniversária contou com 157 grupos inscritos (8982 peregrinos), provenientes de 35 países, tendo marcado presença dois cardeais, 18 bispos e 340 sacerdotes. O Santuário de Fátima destacou a peregrinação do Apostolado Mundial de Fátima da Republica Checa, acompanhada pelo cardeal Dominik Duka, Presidente da Conferência Episcopal daquele país. E, além da peregrinação nacional da República Checa, estiveram (e ainda estão) presentes na Cova da Iria mais de mil colaboradores e benfeitores da fundação pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), que celebra 70 anos de existência e o 50.º aniversário da sua consagração a Nossa Senhora de Fátima (ora renovada) – e cujas jornadas peregrinacionais se estendem até ao dia 15.
A AIS integra esta peregrinação internacional aniversária a Fátima reiterando a consagração a Nossa Senhora que realizou há 50 anos. E, por estes dias, colaboradores e benfeitores estão na Cova da Iria para juntos renovarem os três pilares da sua ação internacional: informação, oração e partilha – que se estende a tantos cenários onde os cristãos são perseguidos por motivos de fé.
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Na Conferência de Imprensa que se tornou usual antes do início das peregrinações aniversárias, no dia 12, Dom Mauro Piacenza, também presidente internacional da AIS, advertiu para a necessidade de preservar a presença cristã no Médio Oriente e manifestou a sua preocupação com os “focos” de potenciais “graves guerras”, lembrando que a AIS começou o seu trabalho há 70 anos, após a destruição do nazismo e da perseguição religiosa nos países do antigo bloco comunista do Leste da Europa. Destacando a ação desta fundação pontifícia junto das comunidades cristãs no Médio Oriente, “para que as terras bíblicas não fiquem desprovidas da vida cristã”, admitiu que “o panorama não é idêntico ao final da II Guerra Mundial, mas há muitíssimas necessidades”,
Segundo este alto responsável pontifício, os esforços da AIS estão concentrados no Iraque e na Síria, com a reconstrução de casas e Igrejas, inclusive de comunidades ortodoxas, num esforço “ecuménico”, para que a presença cristã não se “evapore”.
Mauro Piacenza sublinhou a ligação da AIS à mensagem de Fátima, “uma luz que diz toda a misericórdia de Deus com a sua gente” e de cuja solicitude “a AIS quer ser baços e mãos”.
A conferência de imprensa contou com a presença do secretário-geral internacional da AIS, Philipp Ozores, que realçou a ação da fundação em 150 países (reuniu aqui 23 secretariados) para “fortalecer a Igreja Católica na sua mensagem de fé”, com ênfase nos cristãos perseguidos.
E Catarina Martins de Bettencourt, diretora da Fundação AIS em Portugal, falou, por sua vez, numa peregrinação “muito importante”, tendo em conta que a presença de mais de mil pessoas manifesta a “vitalidade da obra”, centrada nos que sofrem em todo o mundo “por causa da perseguição religiosa”. E não se esqueceu de deixar uma homenagem a Dom António Francisco dos Santos, Bispo do Porto, que faleceu do dia 11, recordando a sua “simpatia, generosidade e partilha de afetos, especialmente para com os mais pobres”.
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No início da peregrinação, a 12 de setembro, o cardeal Dom Mauro Piacenza, penitenciário-mor da Santa Sé, saudou os peregrinos como se fosse o anfitrião e, declarando perante milhares de pessoas reunidas no Recinto de Oração, disse:
Bem-vindos à terra da Senhora de Branco: coloquemos a nossa peregrinação, peregrinação de fé, sob a proteção dos Pastorinhos: que eles nos ajudem a compreender a verdadeira mensagem de Fátima”.
Falando do Centenário das Aparições, defendeu que “a mensagem profética de Maria” continua atual, não se limitando ao período de 1917 a 2000, ano em que se revelou publicamente a terceira parte do chamado Segredo de Fátima. E afiançou que “o triunfo do Coração Imaculado de Maria é o acontecer de Cristo nas consciências dos homens e na história do mundo”.
O penitenciário-mor alertou para a implantação de uma “ditadura do pensamento único” e da “guerra aos bocados”, a nível mundial, que o Papa Francisco tem denunciado e que “poderia deflagrar de um momento para o outro”. Por isso, sustentou:
Olhando para o cenário mundial, seria impossível negar a atualidade de Fátima”.
O cardeal Piacenza deixou uma mensagem especial de boas-vindas aos participantes na peregrinação da AIS, desafiando-os a “levar sempre o amor, a misericórdia, o socorro de Jesus a todas as situações de sofrimento em que a Igreja se encontra no mundo”.
Este momento de oração na Capelinha das Aparições contou com a saudação de Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima – que no dia 13 não iria poder estar presente por se encontrar no Porto para as exéquias solenes de Dom António Francisco dos Santos –, recordando as “vítimas dos incêndios” antes de rezar pela paz no Médio Oriente, pelos refugiados e pelos cristãos perseguidos. O responsável pela Diocese do Lis agradeceu a presença do cardeal italiano, presidente internacional da fundação AIS, em peregrinação a Fátima nos seus 70 anos de existência e nos 50 anos de consagração da Obra à Virgem. E prosseguiu Dom António Marto:
Aqui em Fátima experimentamos de modo particular que temos uma mãe, como aqui disse repetidamente o Papa Francisco”.
O Bispo de Leiria-Fátima saudou os peregrinos “do país e do mundo”, com destaque para a peregrinação da República Checa, acompanhada pelo cardeal Dominik Duka, presidente da Conferência Episcopal local, que no final da celebração do 13 de setembro iria receber solenemente uma Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima.
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Na homilia da Missa do dia 12, o cardeal Piacenza disse que, cem anos depois das aparições, Fátima está por completar, garantindo:
Estaria em erro quem pensasse que a missão profética de Fátima já está concluída. Fátima não terminou.”.
O Presidente da Celebração Eucarística lembrou que a Virgem Maria apareceu em Fátima, não só para exortar os homens à conversão e à oração, mas com um propósito profético: o de cada um se encontrar internamente com Cristo, se converter e ser testemunho para os outros.
Só assim o Coração Imaculado de Maria triunfará. Para o cardeal,
O triunfo do Coração Imaculado de Maria é isto mesmo: o acontecer de Cristo nas consciências dos homens e na história do mundo; o acontecer de Cristo e, com Ele, d’Aquela que O gerou, oferecendo-O por nós e pela nossa salvação; o acontecer, antes de mais em nós, da salvação que nasce do encontro redentor com Cristo e que, por isso, através de nós, leva à apresentação ao mundo do Senhor.”.
O penitenciário-mor da Santa Sé alertou ainda para as consequências duma “recusa definitiva de Deus” e afirmou que a oração é “um grande exorcismo sobre o mundo”. Segundo o cardeal, “também neste sentido, Fátima, ainda não se completou”, porque “não se completou ainda a missão da Igreja, que permanecerá viva até ao fim dos séculos, em todas as circunstâncias históricas e apesar de todas as adversidades vindas da cultura e do poder”.
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Na homilia do dia 13, o cardeal Piacenza denunciou o que qualificou como um ataque “sem precedentes” à família e à vida na sociedade contemporânea, dizendo sem papas na língua:
Este violento ataque à família é sem precedentes na história, tanto de um ponto de vista cultural como sob o aspeto jurídico”.
O responsável da Santa Sé falou duma “destruição cultural da família”, convocando os peregrinos a “resistir, resistir, resistir com a força da fé e da caridade” e advertindo para as consequências do “tremendo ataque ao matrimónio que, em todo o mundo, foi desencadeado, qual último assalto do maligno”. E sustentou ancorado na mensagem bíblica:
Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e pô-lo nessa irrenunciável relação de unidade dual entre homem e mulher, que é pressuposto indispensável para a vida”.
Como fizera na Missa da Vigília da peregrinação, o cardeal italiano sublinhou o caráter “profético” desta mensagem sobre a família:
Estamos convencidos de que nada é mais profético, mais moderno, mais anticonformista do que defender a vida, a educação, reconhecendo que elas constituem hoje uma verdadeira emergência”.
Para o penitenciário-mor, ser cristão na “velha e cansada Europa” é hoje “uma atitude contra a corrente; sob certo ponto de vista, até mesmo uma atitude escarnecida”. Por isso, apelou:
Vigiemos, pois, caríssimos irmãos, para que não acabe o ‘bom vinho’ da nossa fé; para que o ‘bom vinho’ da nossa fé não se veja aguado pela nossa constante mundanização, pelo ceder às tentações do mundo e à ditadura do ‘pensamento único’ que é difundido com todos os meios”.
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No final da celebração, o já referido cardeal checo Cardeal Dominik Duka recebeu solenemente uma Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que vai permanecer na República Checa até 8 de outubro, percorrendo dioceses e santuários daquelas Igrejas locais. Por sua vez, Dom Dominik Duka entregou ao Santuário de Fátima uma réplica da imagem do Menino Jesus de Praga em sinal de reconhecimento por esta “ligação” entre Fátima e a história da República Checa, dizendo ao Reitor do Santuário, ali em representação do prelado diocesano:
Neste lugar único, na Cova da iria, aqui em Fátima, queria agradecer-lhe verdadeiramente de todo o coração, por este momento extraordinário, no qual, com esta celebração eucarística, podemos conjuntamente dar graças a Nossa Senhora de Fátima”.
Assim, no final da peregrinação, o cardeal presidente da Conferência Episcopal da República Checa, agradeceu, em Fátima a “liberdade reconquistada” no país, dizendo, perante os milhares de peregrinos, incluindo os que integravam a peregrinação do Apostolado Mundial de Fátima da Republica Checa, que a história das aparições de Nossa Senhora está ligada à história da nossa pátria e da nossa Igreja na Boémia, Morávia e Silésia” e, por isso, pela segunda vez, a Igreja checa decidiu fazer uma peregrinação nacional à Cova da Iria. E especificou:
Estamos aqui reunidos, pela segunda vez, para a peregrinação nacional de agradecimento. Na primeira peregrinação, aqui, demos graças pela liberdade reconquistada e, hoje, damos graças pela nova geração, que cresceu nesta liberdade: uma geração que não conheceu a prisão nazi, a prisão comunista, o ultraje, a perda da liberdade, a perseguição pelo exercício da fé religiosa. Encontramo-nos aqui, todos juntos – homens, mulheres, mães, pais, filhos, religiosos e religiosas, sacerdotes e também bispos”.
E, ao entregar ao Santuário a predita réplica da imagem do Menino Jesus de Praga, confessou:
“Estamos aqui também para tomar consciência de que é graças ao triunfo do Coração Imaculado de Maria que podemos viver em liberdade”.
Por sua vez, o reitor do Santuário, ao entregar a imagem peregrina da Virgem, afirmou-a como a “grande embaixadora da mensagem de Fátima e deste Santuário” e fez votos de que possa
 “Levar conforto a quantos sofrem, levar força a quantos testemunham corajosamente a sua fé em ambiente adverso e abrir caminhos para Deus no coração de quantos com ela contactarem”.
 E o Cardeal Dominik Duka afirmou, ainda, que  apesar dos tempos serem outros, persistem “ataques à verdadeira humanidade do homem, à religião, [o] que pretende destruir a célula fundamental da sociedade e da Igreja, que pretende destruir a família”.
Por isso deixou um compromisso:
Queremos sustentar e promover, com a oração, mas também com o nosso empenho concreto e incansável, a nossa identidade cristã europeia, a qual não é concebível sem o culto mariano e sem o símbolo da cruz – o testemunho do amor supremo de Deus para com o homem e do homem para com o homem”.
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Há, pois, muito que aprender com Fátima e importa assumir um compromisso inabalável com Cristo e com a Igreja num e para um mundo que precisa cada vez mais de justiça, paz e fraternidade, pela inclusão, pela dignidade das pessoas – todas e de cada uma.

2017.09.13 – Louro de Carvalho    

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O Oriente Médio é notícia por bons e por tristes motivos

A Gaudium Press.org e a Rádio Vaticano, no dia 28 de agosto, deram relevo à exposição temática “Cristãos do Oriente – Dois mil anos de história” que se realizará na capital francesa com o brilhante escopo de “mostrar documentos e obras muito antigas e únicas que narram e documentam a milenar presença cristã no Oriente Médio e a sua contribuição para a vida cultural, política e intelectual do mundo árabe no decorrer dos séculos”.
A mostra expositiva estará patente ao público no IMA (Instituto do Mundo Árabe de Paris) de 26 de setembro de 2017 a 24 de janeiro de 2018. Organizada e preparada em colaboração com a “Ouvre d’Orient” – Associação francesa empenhada na ajuda aos cristãos no Oriente Médio –, esta exposição apresentará mapas, pinturas e documentos, bem como raras obras-primas, algumas das quais ficarão expostas pela primeira vez na Europa.
Entre estas obras inéditas que serão expostas ao público estão os Evangelhos de Rabula, célebre manuscrito “iluminado” (ou seja, decorado com ouro ou prata) siríaco do século IV, conservado na Biblioteca Laurenciana de Florença, além dos primeiros afrescos cristãos conhecidos no mundo e que são provenientes da antiga Igreja de Doura-Europos, a leste do sítio arqueológico de Palmira, na Síria, fronteira com Iraque, e que remonta ao século III.
A mostra apresentará também ícones e fotografias que retratarão o singular papel dos cristãos na região – tópico que será ainda destacado por meio da apresentação de materiais sobre algumas etapas históricas fundamentais, como a adoção do cristianismo no Império Romano como religião de Estado, os Concílios fundadores, o desenvolvimento das missões católicas, a contribuição dos cristãos para o Nahda, designação dada ao Renascimento árabe, e as mudanças ocorridas nos séculos XX e XXI. E outro dos pontos a serem abordados na exposição será a vitalidade das atuais comunidades cristãs no mundo árabe, cuja sobrevivência está hoje ameaçada pela difusão do fundamentalismo islâmico.
De acordo com Charles Personnaz, responsável pelas iniciativas culturais e pelo património dos cristãos do Oriente do “Ouvre d'Orient”, a finalidade da mostra é fazer ressaltar a riqueza da cultura cristã da região, visto que a história dos cristãos não é só feita de dramas e perseguições, mas também de períodos de prosperidade mesmo atualmente com os frequentes perigos que ameaçam a presença dessas comunidades de fé nas regiões do Oriente Médio, que são acompanhados pela esperança de que estas comunidades tomem consciência de uma identidade comum e secular, baseada em uma história compartilhada.
O itinerário da mostra traz ainda a grande diversidade do cristianismo nas suas várias declinações: copta, assírio-caldaica, siríaca, arménia, maronita, latina, ortodoxa e protestante.
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Por outro lado, como atesta a Rádio Vaticana, o Oriente Médio encontra-se totalmente fragmentado, pois as guerras dizimaram as populações e a presença cristã foi reduzida a números decimais. Na Síria, onde a guerra parece enveredar pelo caminho que almeja o fim, o maior desafio é convencer as pessoas a voltarem e a entrarem novamente nas suas casas. De facto, as perspetivas são incertas, as vidas devem ser reconstruídas, nada será como antes. Há iniciativas louváveis levadas adiante pelas Igrejas locais, em que ressalta, de modo especial, a ação dos franciscanos, dos jesuítas e dos salesianos. Mas não se revelam suficientes. Há, com efeito, muitos cristãos esperam emigrar definitivamente, como testemunham tantos jovens iraquianos deslocados. Foi nestes termos que deu testemunho o administrador apostólico do Patriarcado Latino de Jerusalém, o arcebispo Dom Pierbattista Pizzaballa, durante pronunciamento no Encontro de Rimini – centro-norte da Itália – concluído no passado dia 26 de agosto. Para o religioso franciscano, que citou as palavras de um jovem palestino que havia encontrado, “não basta reconstruir, é preciso dar uma orientação, pois, ligar a nossa esperança e o nosso futuro a soluções políticas ou sociais criará somente frustração”.
Dom Pizzaballa vê como fundamental no Oriente Médio em agudas dificuldades a radicação do cristianismo em Cristo e a mostrar o lado atraente e sedutor do seu rosto. Garante o hierarca:
 “Aquilo que salvará o cristianismo será o estar radicado em Cristo. Os cristãos são chamados a evangelizar e a testemunhar o belo, o bom e o verdadeiro que existe no Evangelho e na Tradição, sem se lamentarem por aquilo que foi perdido.”.
Diz o arcebispo que é necessário os cristãos serem “capazes de um anúncio compreensível e atraente”, pois “não se pode falar de valores cristãos sem dizer que Cristo é o que se pode encontrar de melhor”. E propõe a não construção de quaisquer muros que separem porque “não há nada que não possa ser valorizado pela experiência do Evangelho” – uma experiência “grande” porque “é desejo de esperança”. Com efeito, disse, os “nossos pais com esse desejo construíram catedrais e fizeram tudo aquilo que vemos”.
Porém, não basta a convicção interior. Ao invés, tudo quilo que fazemos deve ser caraterizado pelo estilo cristão com um anúncio e uma proposta que encontrará expressão na vida civil, social, política e económica. É o modo cristão de dizer que Cristo se fez homem e reconhecer a glória de Deus no quotidiano. O que conta é a transmissão do desejo duma geração a outra.
E o homem dos nossos dias, ainda que não o manifeste, espera essa tal ‘boa nova’. Portanto, diz ainda o administrador do Patriarcado Latino de Jerusalém que não se trata de recordar por saudade, mas “para despertar o desejo”. É este “o modo com o qual nossos pais testemunharam que se pode viver com estímulo, com satisfação”. E é preciso encontrar os diferentes modos de comunicar a beleza, “porque o homem contemporâneo, inconscientemente, está esperando essa tal ‘boa nova’, que o revela a si mesmo”.
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O Conselho dos Patriarcas Católicos do Oriente esteve reunido na sua sessão anual, antes da Assunção (com início a 10 de agosto), em Dimane, no Líbano, residência patriarcal de verão do Patriarca maronita, tendo alguns participantes sido recebidos pelo Presidente libanês. Na agenda do encontro, esteve a complexa situação vivida pelas comunidades cristãs autóctones em muitas partes do Oriente Médio. E os temas abordados estão intimamente conexos com os problemas pastorais e com as emergências políticas e sociais que afligem, de modo cada vez mais intenso e preocupante, as comunidades católicas orientais, que registaram, em alguns países médio-orientais, nos últimos anos, uma drástica diminuição do número de fiéis.
Nos últimos anos, este organismo que congrega todos os Primazes das Igreja católicas Orientais presentes naquela região do mundo não se pôde reunir devido, sobretudo,  aos conflitos na Síria e no Iraque. Agora, pela primeira vez, tomou parte no encontro como Patriarca, Youssef Absi, novo Primaz da Igreja Greco-católica melquita.
Neste encontro, em Dimane, tomou parte o Núncio Apostólico no Líbano, Dom Gabriele Giordano Caccia e, numa das sessões ecuménicas, estiveram presentes  os Patriarcas greco-ortodoxo Giovani Yazigi, Siro-ortodoxo, Ignazio Efrem II, o Catholicos da Igreja Apostólica Armena, Aram I, e o Presidente da Comunidade Evangélica na Síria e no Líbano, Salim Sahyouni. E, entre os participantes, contam-se ainda o Cardeal Patriarca de Antioquia dos Maronitas, Béchara Boutros Rai, o Patriarca de Antioquia dos Sírios, Ignace Youssif III Younan, o Patriarca de Antioquia dos Greco-melquitas, Joseph Absi, o Patriarca de Alexandria dos Coptas, Ibrahim Isaac Sedrak, o Patriarca de Babilónia dos Caldeus, Louis Raphael Sako, e o Patriarca da Cilícia dos Arménios, Grégoire  Pierre XX Ghabroyan. 
No final do encontro emitiram um comunicado em que sublinham, verificando e exortando:
“É tempo de lançar um apelo profético em testemunho da verdade. Fomos convidados a permanecer apegados à nossa identidade oriental e a permanecer fiéis à nossa missão. Assumindo a atenção pelo pequeno rebanho, nós Patriarcas orientais sentimo-nos aflitos ao assistir à hemorragia humana dos cristãos que abandonam as suas terras de origem no Médio Oriente. […]. Permaneçamos enraizados na terra dos padres e dos antepassados, esperando contra toda a esperança num futuro em que, como componentes de um património autêntico e específico, seremos compreendidos como fontes de enriquecimento para a nossa sociedade e para a Igreja universal no Oriente e no Ocidente.”.  
Os Patriarcas exortam assim a não cessar de proclamar  “a verdade na caridade, a legitimidade da separação entre o Estado e a religião na constituição  das nossas pátrias, a igualdade de direitos e deveres para todos, sem olhar para a pertença religiosa e comunitária”.
O jornal do Vaticano “L’Osservatore Romano” retomou a nota final do encontro e frisa que o Conselho dos Patriarcas Católicos do Oriente aponta o dedo à comunidade internacional por considerar que ela assiste à agonia, causada pela insegurança e pela emigração, uma depois da outra, das igrejas orientais no Iraque, Síria, Palestina, Líbano, Egito, sem reagir devidamente a esta tragédia. O Conselho adverte que, se este estado de coisas continuar, estaremos perante um verdadeiro projeto de genocídio e de uma “afronta contra a humanidade”. Por isso, o Conselho solicita, por carta, às Nações Unidas e aos países afetados de forma direta pelos conflitos na região que ponham termo à guerra, cujos objetivos são claros: destruir, matar, levar ao êxodo, relançar as organizações terroristas, difundir o espírito de intolerância e de conflito entre religiões e culturas. A perpetuação deste estado situacional, com a incapacidade de estabelecer uma paz justa, global e duradoura na região, assegurando o retorno dos refugiados e dos deslocados aos seus lares na dignidade e na justiça, permanecerá como “um estigma de vergonha por todo o século XXI”.
Os Patriarcas Católicos do Oriente dirigem-se também ao Papa Francisco nestes termos:
Nós somos uma nação com amplas fronteiras e que atrai a atenção dos gigantes das finanças; já não somos mais que um pequeno rebanho pacífico. Um pequeno rebanho que não conta com ninguém senão Convosco para convidar os grandes que presidiam os destinos do mundo”.
Estas mensagens coincidem com a publicação de dados eloquentes sobre a diminuição dos cristãos nos vários países do Médio Oriente, sobretudo no Iraque, Síria e Terra Santa (onde já são apenas 1,2% da população); na Síria, devido à guerra desencadeada em 2011, o número de cristãos passou de 250 mil para 100 mil. E no Iraque, os representantes da comunidade cristãos estão a fazer um enorme esforço por convencer a população de Nínive a voltar para a sua terra.
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É tanto de saudar a exposição de Paris a evidenciar a produção cultural e cristã do Oriente Médio, como suscitar a solidariedade para com as Igrejas e grupos étnicos que ali sofrem. É de acolher o apelo dos Patriarcas Católicos do Oriente e rogar a Deus que não seja necessário que no Ocidente hedonista venha o sofrimento para levar os cristãos à radicalidade do evangelho.

2017.08.29 – Louro de Carvalho