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sábado, 30 de novembro de 2019

No fim de novembro, um “até à próxima” a este mês outonal


Este é o 11.º mês do ano no calendário gregoriano. A designação de “novembro” resulta do facto de ser o nono mês do ano em Roma, quando o ano começava em março sob a égide de Marte, o deus da guerra e guardião da agricultura.
Num país em que não queremos a guerra, mas onde a agricultura está pelas ruas da amargura – excetuando alguns exemplos de agricultura mecanizada e em extensão, o abandono dos campos está mais que generalizado e a floresta desordenada oferece à onda e fúrias incendiárias o flanco, o ventre e o costado – pouco mais resta, nesta ocasião, do que as castanhas e o vinho.
A acompanhar a penúria na agricultura e o desbaste da floresta desordenada e anárquica, regista-se a bastante disseminada falta de valores éticos que gera e mantém uma sociedade degradada, impante de direitos para uns e sem a assunção de deveres, deixando ficar muitos outros na margem do caminho ou atirando-lhe o piparote do espezinhamento ou o do descarte.
Apesar de a Igreja Católica dedicar o mês à oração em sufrágio pelas almas do Purgatório e, nalgumas terras, os populares passarem pelas ruas a cantar o clamor pelas almas e a paróquia promover o jubileu das almas (com serviço de Confissões, Ofício de Defuntos, Missa e Sermão), muita gente vive alheada do imperativo religioso curtindo a vida na tasca, café, bar, discoteca ou, em casa, a ver telenovelas. As almas são lembradas por muitos apenas aquando da morte de familiares e amigos e, não raro, para responder a um imperativo de cariz social.
***
Não obstante a penúria horto-agrícola, que já nem dá para subsistir ou para empobrecer alegremente, os entendidos consideram que, no mês de novembro, no pomar, devem ser estrumadas as árvores de fruto no crescente, podadas no minguante e protegidas das geadas; que se plantam cerejeiras, pessegueiros, pereiras e macieiras, etc., no crescente; e que, na horta, se pode semear agrião, alface, cenoura, couves, com exceção da couve-flor e brócolos. Pode, segundo os mesmos entendidos, plantar-se batata, mas em zonas secas e protegidas das geadas, alho, couve temporã, tremoço. Também pode semear-se fava, ervilha, nabiça, nabo, rabanete, beterraba e, em camas quentes, alface, cebola, e tomate. É ainda altura de semear aveia, cevada, trigo e centeio. No jardim, podem estercar-se as covas para, na primavera, se plantarem árvores e arbustos. Devem colocar-se estacas para proteger as plantas do vento. E é a altura para plantar bolbos de flores e para podar e plantar roseiras.
Do ponto de vista religioso cristão, todos nos lembramos de que celebrámos em grande a Solenidade de Todos os Santos (no dia 1); fizemos a Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos (no dia 2), celebrámos as memórias litúrgicas de São Martinho de Porres, Religioso (no dia 3), de São Carlos Borromeu, Bispo (no dia 4), de São Nuno de Santa Maria, Militar e Religioso (no dia 6), de São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja (no dia 10), de São Martinho de Tours, Bispo (no dia 11), de São Josafat, Bispo e Mártir (no dia 12), de Santo Alberto Magno, Bispo e Doutor da Igreja (no dia 15), de Santa Margarida da Escócia, Mãe e Rainha, ou de Santa Gertrudes, Virgem (no dia 16), de Santa Isabel da Hungria, Mãe e Rainha (no dia 17), da Apresentação da Virgem Santa Maria (no dia 21), de Santa Cecília, Virgem e Mártir (no dia 22), de São Clemente I, Papa e Mártir, ou de São Columbano, Abade (no dia 23), de Santo André Dung-Lac, Presbítero, e Companheiros, Mártires (no dia 24) e de Santa Catarina de Alexandria, Virgem e Mártir (no dia 25); celebrámos as festas da dedicação da Basílica de Latrão (no dia 9) e das Basílicas de São Pedro e de São Paulo, Apóstolos (no dia 18); a diocese de Lamego celebrou a festa da Dedicação da sua Sé Catedral (no dia 9); Celebrámos hoje, dia 30, a festa de Santo André, Apostolo; e a, 10 de novembro, celebrou-se em ação de graças a canonização de São Bartolomeu dos Mártires, Religioso da Ordem dos Pregadores e Arcebispo de Braga.
Tantas e tão belas efemérides do calendário litúrgico constituirão um apelo ao compromisso sócio-cristão, num mês cheio de chuva, por vezes intensa, em que o Sol espreitou timidamente só alguns dias, deixando-nos muitíssimas horas disponíveis para a leitura, reflexão e escrita.
Os magustos pelo São Martinho (o de Tours) e a prova do vinho novo animaram o povo, mesmo em tempo que não deixou que, este ano, desfrutássemos do verão de São Martinho.
Para mim, o mês de novembro tem marcas de tristeza e saudade pelo falecimento de minha mãe, no dia 29, no ano de 1989 (há 30 anos), e de meu pai, no dia 10, no ano de 2002 (há 17 anos). Mas também oferece marcas de realização pessoal e profissional. No dia 4, no ano de 1975, apresentei-me como professor de Religião e Moral Católicas (era assim a designação da atual EMRC) na Escola Preparatória do Dr. Francisco Campos Henriques, Vila Nova de Foz Coa; no dia 12, no ano de 1976, apresentei-me na Escola Secundária de Vila Nova de Paiva; no dia 7, no ano de 1977, apresentei-me na Escola Preparatória de Aquilino Ribeiro, Vila Nova de Paiva; e, no dia 1, em 1979, apresentei-me e tomei posse como pároco de Vila da Ponte, Granjal e Freixinho, sem que, tal como me preveniram, qualquer eclesiástico me fosse acompanhar. Mas não me inibi e gostei das pessoas. Freixinho já a servia há uns meses e, nas outras, um colega, o Lemos, levou-me a passar por lá e a entrar discretamente nas igrejas enquanto as pessoas estavam a rezar, mas sem eu me dar a conhecer.
Num adeus a novembro, até à próxima – porque novembro voltará –, em pleno outono de folhas caídas, ventos fustigantes, paisagens sombrias, mas de trechos paisagísticos lindíssimos, como as encostas do Vale do Chile, em Sernancelhe e mesmo em toda a Beira-Távora, pedindo a intercessão da Virgem Maria e de todos os Santos, tentando honrar a memória dos antepassados e esperando na benevolência do Pai misericordioso, entramos no mês do NATAL: o Natal é o primeiro passo de Deus visível no mundo para a nossa redenção. É a encarnação redentora ou a redenção encarnada!
2019.11.30 – Louro de Carvalho


segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Invocar, caminhar e agradecer, três marcas do cristão em Igreja


Foi em torno destes três verbos que o Papa desenvolveu a sua homilia da Missa de canonização, a 13 de outubro, na Basílica de São Pedro, do Cardeal John Henry Newman, das religiosas Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e da leiga Margarida Bays.
Partindo do episódio dos 10 leprosos de que fala o texto do Evangelho de Lucas (Lc 17,11-19) assumido para o 28.º domingo do Tempo Comum no Ano C, Francisco salientou que a palavra do Senhor ao leproso que, tal como os outros, indo de caminho mostrar-se aos sacerdotes, se sentiu curado da lepra e deu meia volta para vir agradecer, “A tua fé te salvou” “é o ponto de chegada” do Evangelho que mostra o caminho da fé. Com efeito, por um lado, o caminho da fé espelha-se no percurso que Jesus fez com os discípulos para Jerusalém, onde ia ser sujeito à Paixão em que o Pai o glorificaria e Se glorificaria n’Ele, sendo a ressurreição dos mortos o certificado da glorificação de Cristo. Um caminho para o qual Jesus convida quem o quiser seguir e que implica renúncia e andar sem olhar para trás. Por outro lado, este percurso de fé mostra-nos três momentos significativos vincados pelos leprosos, sendo que apenas um – e estrangeiro – executou o 3.º momento: invocar, caminhar e agradecer.
Naqueles tempos, os leprosos sofriam a doença que os afligia (ainda hoje presente e a exigir combate) e sofriam o estigma da exclusão social em razão do perigo de contágio, pelo que deviam estar isolados do resto do mundo e gritar a quem pressentissem aproximar-se: Impuro, impuro! Também à passagem de Jesus, aqueles 10 leprosos gritaram, não o pregão estabelecido na Lei, mas o da confiança. Vão ter com Jesus, mas mantêm-se à distância e invocam-No. Vencem as exclusões ditadas pelos homens e invocam o Filho de Deus, que não exclui. Não se contentaram com o que ouviram dizer que Jesus fez a outrem; acreditavam que Jesus os podia curar. Isto faz dizer ao Santo Padre que “a salvação não é beber um copo de água para estar em forma, mas é ir à fonte, que é Jesus”. Na verdade, “só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida”. Os leprosos foram à fonte.
Ora, nós não podemos dizer que isso não nos diz respeito, pois todos nós necessitamos de cura, Precisamos da cura sobre a pouca confiança em nós mesmos, na vida, no futuro; sobre os medos que nos paralisam; sobre os vícios que nos escravizam; sobre a nossa autossuficiência, eu nos isola dos demais; sobre os fechamentos, dependências e apegos ao jogo, ao dinheiro, à televisão, ao telemóvel, às opiniões alheias. O Senhor liberta e cura o coração, se O invocarmos. Ora, invocar remete para a oração que nos leva a chamar a Deus pelo seu nome, o que é sinal de confidência, de que o Senhor gosta e que faz crescer a fé. Com a invocação confiante da fé, levando a Jesus o que somos, sem esconder as nossas misérias, sabemos que Deus salva. Isto é rezar, é mostrar fé. A fé salva e a oração, que “é a porta da fé”, é “o remédio do coração”.
Depois, é preciso atentar no facto de os leprosos terem sido curados, não quando estavam diante de Jesus, mas enquanto caminhavam às ordens de Jesus para se mostrarem aos sacerdotes, como diz o Evangelho: “Enquanto iam a caminho, ficaram purificados” (17,14). Foram curados enquanto caminhavam para Jerusalém palmilhando uma estrada a subir. Também nós somos purificados no caminho da vida, um caminho frequentemente a subir, porque leva para o alto. A fé requer um caminho, uma saída e só acontece o milagre, diz o Papa, “se sairmos das nossas cómodas certezas, se deixarmos os nossos portos serenos, os nossos ninhos confortáveis”. E o Sumo Pontífice recordou que também o Profeta a Naaman, general sírio que pedia a cura da sua lepra, indica a tarefa de caminhar até ao rio Jordão para se banhar sete vezes. Naaman, que esperava o espetáculo da cura milagrosa pelas rezas e toques do homem de Deus, fica desapontado, pois tinha na sua terra rios melhores que o Jordão. E foi um servo que o aconselhou a fazer aquela coisa tão simples que o Profeta lhe recomendara. E ficou curado, o que leva o Sumo Pontífice a dizer:
A fé aumenta com o dom e cresce com o risco. A fé atua, quando avançamos equipados com a confiança em Deus. A fé abre caminho através de passos humildes e concretos, como humildes e concretos foram o caminho dos leprosos e o banho de Naaman no rio Jordão (cf 2 Re 5, 14-17). O mesmo se passa connosco: avançamos na fé com o amor humilde e concreto, com a paciência diária, invocando Jesus e prosseguindo para diante.”.
Em contexto sinodal, Francisco sublinha o facto de os leprosos ficarem curados quando se moviam juntos. O Evangelho refere, no plural, que “iam a caminho” e “ficaram purificados”, pelo que se deduz que “a fé é também caminhar juntos, jamais sozinhos”. E o Papa Bergoglio anota que, uma vez curados, nove continuam pela sua estrada e apenas um regressa para agradecer. E Jesus desabafa a sua mágoa perguntando pelos outros nove. Esqueceram que é tarefa dos homens agradecer. E isto faz-se de forma eminente na Eucaristia, que nos leva a “ocuparmo-nos de quem deixou de caminhar, de quem se extraviou”, pois “somos guardiões dos irmãos distantes, todos nós”, somos intercessores por eles, somos responsáveis por eles, isto é, chamados a responder por eles, a tê-los a peito”.
Agradecer é a última etapa do percurso. E só àquele que agradece é que Jesus diz: “A tua fé te salvou”. E é de notar que “não se encontra apenas curado; também está salvo”. Isto quer dizer que “o ponto de chegada não é a saúde, não é o estar bem, mas o encontro com Jesus”. Quando o homem encontra Jesus, brota dele espontaneamente o “obrigado”, porque descobre o mais importante da vida: “não o receber uma graça nem o resolver um problema, mas abraçar o Senhor da vida”. E o Papa desenvolve:
É encantador ver como aquele homem curado, que era um samaritano, manifesta a alegria com todo o seu ser: louva a Deus em voz alta, prostra-se, agradece (cf 17,15-16). O ponto culminante do caminho de fé é viver dando graças. Podemos perguntar-nos: Nós, que temos fé, vivemos os dias como um peso a suportar ou como um louvor a oferecer? Ficamos centrados em nós mesmos à espera de pedir a próxima graça, ou encontramos a nossa alegria em dar graças?”.
Depois, enuncia os efeitos do agradecimento a Deus:
Quando agradecemos, o Pai deixa-Se comover e derrama sobre nós o Espírito Santo. Agradecer não é questão de cortesia, de etiqueta, mas questão de fé. Um coração que agradece, permanece jovem. Dizer ‘obrigado, Senhor’, ao acordar, durante o dia, antes de deitar, é antídoto do envelhecimento do coração, porque o coração envelhece e se habitua mal.”.
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Do episódio dos leprosos, o Pontífice passa ao episódio da canonização, a que procedeu, dos cinco beatos. Também eles invocaram o Senhor, para se purificarem das tentações de autossuficiência, dos medos paralisantes, dos vícios que os espreitavam. E nós agora invocamo-los como intercessores. Também eles caminharam na fé em conjunto com os irmãos e irmãs. E nós agora queremos associá-los à nossa caminhada conjunta assumindo-os como luzeiros da doutrina, da fé, da Eucaristia, da caridade e da misericórdia. Também eles souberam agradecer os benefícios de que Deus os cumulou, os dons que o Senhor lhes dispensou para benefício da Igreja e da humanidade. E o Papa sintetiza em breves palavras as suas vidas:  
Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela, na sua humildade, o esplendor da Páscoa. Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman quando diz: ‘O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (...) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (...) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum’ (Parochial and Plain Sermons, V, 5).”.
E terminou exortando e rezando:
Peçamos para ser, assim, ‘luzes gentis’ no meio das trevas do mundo. Jesus, ‘ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros’ (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.
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O Vatican News em português realça, de entre os cinco beatos canonizados, a Irmã Dulce Pontes, a primeira santa brasileira, a devotada aos pobres. Assim, enfatiza:
Irmã Dulce é santa. A celebração litúrgica com o rito da canonização reuniu cerca de 50 mil pessoas na Praça São Pedro. Com o “Anjo bom da Bahia”, foram canonizados também João Henrique Newman, Josefina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, e Margarida Bays.”.
Depois, relata em três pontos:
A cerimónia teve início com o rito da canonização: o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Becciu, acompanhado dos postuladores, foi junto do Santo Padre e pediu que se procedesse à canonização dos beatos.
O Cardeal apresentou brevemente a biografia de cada um deles, que foram então declarados santos. Seguiu-se a ladainha dos santos e o Pontífice leu a fórmula de canonização.
O prefeito da Congregação, sempre acompanhado dos postuladores, agradeceu ao Santo Padre e o coro entoou o canto do Glória.”.
E refere que, “na homilia, o Papa Francisco comentou o Evangelho deste 28.º Domingo do Tempo Comum, que narra a cura de 10 leprosos”, como já foi desenvolvido, em torno dos verbos invocar, caminhar e agradecer.
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Antes de concluir a celebração eucarística da canonização, o Santo Padre rezou com os fiéis a oração mariana do Angelus e fez dois apelos: ao Médio Oriente e ao Equador.
Formulou uma saudação e um agradecimento a todos, nomeadamente aos cardeais, bispos, sacerdotes, monjas, religiosos e religiosas de todo o mundo, em especial aos que pertencem às famílias espirituais dos novos Santos, e aos fiéis leigos ali reunidos.
Saudou as delegações oficiais de vários países e, em particular o Presidente da República Italiana e o Príncipe de Gales, pois, com o seu testemunho evangélico, estes Santos fomentaram o crescimento espiritual e social nas respetivas nações. E dirigiu uma saudação especial aos delegados da Comunhão anglicana, com profunda gratidão pela sua presença.
Saudou todos os peregrinos, bem como todos os que seguiram aquela Missa através da rádio e da televisão. E dirigiu uma saudação especial aos fiéis da Polónia que celebravam o Dia do Papa: agradeceu as suas orações e o seu constante afeto.
Os seus pensamentos dirigiram-se uma vez mais para o Médio Oriente, em particular, para a amada e martirizada Síria, de donde voltam a chegar notícias dramáticas sobre o destino das populações do nordeste do país, obrigadas a abandonar os seus lugares por causa das ações militares: entre estas populações há também muitas famílias cristãs. E renovou o seu apelo a todos os atores envolvidos e à comunidade internacional no sentido de se comprometerem com sinceridade honestidade e transparência no caminho do diálogo para buscar soluções eficazes.
Referiu que, juntamente com todos os membros do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, especialmente os equatorianos, seguia com preocupação o que tem vindo a suceder no Equador nas últimas semanas. Encomendou o país à oração comum e à intercessão dos novos Santos, unindo-se à dor pelos mortos, feridos e desaparecidos. Animou-o a buscar a paz social, com especial atenção às populações mais vulneráveis, aos pobres e aos direitos humanos.
E, por fim, exortou a que todos se dirigissem à Virgem Maria, modelo de perfeição evangélica, para que nos ajude a seguir o exemplo dos novos Santos, que são nossos intercessores e luzeiros nesta nossa caminhada de fé, de oração, de testemunho evangélico e de caridade na justiça.
2019.10.14 – Louro de Carvalho

sábado, 17 de fevereiro de 2018

O Papa Beato Paulo VI vai ser canonizado em 2018


É uma revelação feita pelo próprio Papa Francisco num encontro com o Clero em Roma, no passado dia 15 de fevereiro, na Basílica de São João de Latrão, a Igreja Catedral do Papa enquanto Bispo de Roma.
A Sala de Imprensa da Santa Sé fez uma recolha das respostas do Pontífice às questões levantadas por diversos grupos etários de sacerdotes, a que Monsenhor Angelo De Donatis, vigário geral de Sua Santidade para a diocese de Roma, Arcipreste da Basílica de São João de Latrão, administrador apostólico de Ostia e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Latrão, deu uma redação mais orgânica.
Francisco respondeu às questões dos sacerdotes mais jovens acautelando a necessidade de não deixar afrouxar a vocação sacerdotal, conservando o encanto do enamoramento sacerdotal e construindo um estilo de sacerdote na relação com o mundo, o que não se consegue sem o acolhimento de momentos fortes de oração pessoal.
Compreendeu a crise que pode invadir os sacerdotes de média idade, pela multiplicidade de circunstâncias que rodeiam a vida do clero e que podem gerar algum tédio e um descentrar da atenção relativamente ao que é essencial, pelo que se torna necessário um revigoramento da vocação e do cultivo da personalidade sacerdotal. É o tempo da segunda chamada, que requer o diálogo psicoespiritual, a saída dos moralismos vazios e a tomada de consciência de que somos pecadores e pessoas imperfeitas – mas chamadas a redimensionar o nosso projeto de vida e de proximidade com Jesus Cristo.
Aos sacerdotes anciãos, que já ultrapassaram a crise do meio-dia e viram desfilar pelas suas vidas muitas e diversas circunstâncias, o que lhes dá a sensação de estarem a perder a corrida, o Bispo de Roma, pede que sejam testemunhas da alegria e da entrega generosa e se decidam a enveredar pelo caminho da compreensão intergeracional.
E a todos solicitou que não decaiam do fervor da entrega sacerdotal, cultivem o sentido de pertença ao Reino e que estejam disponíveis para auscultar e ler os sinais destes tempos.
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E foi precisamente no fim do encontro que veio a comunicação que encima esta reflexão.
Mons. De Donatis tomou a palavra para dizer:
Agora, antes da bênção, agradecemos ao Papa Francisco este momento muito intenso, belo, desta manhã e recebemos um pequeno texto em que foram recolhidas, pelo Papa Francisco, meditações de Paulo VI: são trechos a utilizar neste tempo da Quaresma como segunda leitura do Breviário [Ofício de Leitura], de modo que o empenho na oração possa ser comum. E refletiremos um pouco dobre o que os nossos Bispos [Os Bispos de Roma], nestes anos, nos comunicaram sobre a vida sacerdotal. Creio que nos fará bem, porque nos preparará para outras passagens que viveremos – espero – de futuro sobre o aprofundamento do nosso modo de ser sacerdotes em Roma, hoje. Agora, os Prefeitos podem tomar os textos, assim como distribui-los e, depois, receberemos a bênção.”.
E o Papa Francisco comentou:
Eu vi isto e agradou-me imenso. São dois [recentes] Bispos de Roma já Santos [João XXIII e João Paulo II]. Paulo VI será santo este ano. Um outro, João Paulo I, tem a causa de beatificação em curso, a causa já foi aberta. E Bento e eu [tem piada] estamos em lista de espera: [A sério] rezai por nós!”.
E assim se ficou a saber que Paulo VI (Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, 1897-1978), o Pontífice que liderou a Igreja Católica entre 1963 e 1978, período em que encerrou o Concílio Vaticano II, vai ser canonizado. A data e local para a cerimónia de canonização do Papa que foi beatificado por Francisco a 19 de outubro de 2014, vão ser decididos num próximo consistório (reunião de cardeais), no Vaticano.
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Já no dia 6 de fevereiro, o semanário da Diocese de Brescia, ‘La Voce del Popolo’, insistia na notícia que avançara no passado mês de dezembro. A este respeito, Mons. Fabio Peli, pároco de Concesio dizia: “A comunidade, quando o souber, não deixará de se regozijar”. Referia-se o sacerdote à notícia, lançada no site do Vaticano, da aprovação unânime do reconhecimento do milagre atribuído à intercessão de João Batista Montini na reunião daquele dia dos Bispos e Cardeais da Congregação para as Causas dos Santos.
Concesio, terra natal do Pontífice bresciano, espera com ansiedade a canonização, cuja data seria conhecida após a aprovação do Papa Francisco. De momento, sabe-se da intenção da canonização, faltando saber a data e o local. O mencionado pároco referia:
Estamos a preparar este evento através de encontros, momentos de oração e aprofundamento para a ele chegarmos com alegria”.
Muito já foi escrito sobre o milagre reconhecido a 13 de dezembro de 2017 e descrito pormenorizadamente na “positio” para sustentar a causa da canonização. A 23 de setembro de 2014, Vanna Pironato, de 35 anos, mãe dum menino de 5 anos e à espera dum segundo filho, já na 13.ª semana de gravidez, baixou ao hospital por ameaça de aborto devida a rutura prematura da placenta. Durante o internamento, não melhorava a situação e os médicos não esconderam da mãe a sua preocupação: esta gravidez era de risco. Agravando-se a situação, propunha-se o discreto aborto terapêutico, mas Vanna e o marido decidem levar por diante a gravidez. Passado algum tempo, por sugestão duma amiga, confiaram a aquela difícil gravidez à intercessão de Paulo VI, que fora beatificado a 14 de outubro daquele ano em virtude dum milagre operado, em 2001, sobre um feto gravemente doente, ocorrido nos Estados Unidos da América.
A 29 de outubro, Vanna e o marido vão rezar ao Beato Montini em peregrinação ao Santuário das Graças, um dos lugares que lhe era mais querido. Ali celebrara a sua primeira missa no dia seguinte ao da ordenação sacerdotal
Desde o dia da peregrinação a Brescia, o casal invoca quotidianamente a intercessão do Beato e paralelamente, através do internamento em diversas estruturas hospitalares, têm a gravidez sob controlo, que prossegue com uma constante perda de líquido amniótico. A situação avança com notícias mais ou menos preocupantes e com a submissão a terapias que os postuladores descrevem de modo pormenorizado. Entretanto, às 4 horas de 25 de dezembro, Vanna é hospitalizada com os sintomas de parto iminente. Mais de duas horas depois, na 26.ª semana de gestação, dá à luz, com parto prematuro e em apresentação pélvica, a pequenina Amanda Maria Paola. Transferida imediatamente para uma unidade de terapia intensiva neonatal, a bebé é sujeita a todos os cuidados necessários. Passados dois dias, já estabilizada, passa para uma unidade de patologia neonatal para a prossecução dos cuidados. Quase quatro meses depois, deixa o hospital em boas condições de saúde, que perduram até hoje.
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Giovanni Battista Montini nasceu em Concesio, Bréscia, na região italiana da Lombardia, e foi ordenado sacerdote ainda antes de completar 23 anos, em 1920, tendo estudado no seminário e na Universidade Gregoriana, na Universidade de Roma e na Pontifícia Academia Eclesiástica e concluído doutoramentos em filosofia, direito civil e direito canónico. O talento levou-o a uma carreira na Cúria Romana, a administração do Vaticano. Em 1937, foi nomeado Substituto para Assuntos Correntes pelo Cardeal Pacelli, o Secretário de Estado da Santa Sé no papado de Pio XI. Quando Pacelli foi eleito como Papa Pio XII, Montini manteve o cargo com o novo Secretário de Estado. Em 1944, o Secretário de Estado faleceu e o cargo foi tomado diretamente pelo Papa, e Montini passou a trabalhar diretamente sob orientação do Sumo Pontífice.
Ainda como sacerdote, esteve ao serviço diplomático da Santa Sé e da pastoral universitária italiana, tendo vivido a II Guerra Mundial no Vaticano, onde se ocupou da ajuda aos refugiados e judeus. Após aquele conflito, colaborou na fundação da Associação Católica de Trabalhadores Italianos, antes de ser nomeado arcebispo de Milão, em 1954. São João XXIII criou-o cardeal em 1958 e participou nos trabalhos preparatórios do Concílio Vaticano II.
A 21 de junho de 1963, foi eleito Papa, adotando o nome de Paulo VI, e concluiu os trabalhos do Concílio “entre várias dificuldades, estimulando a abertura da Igreja ao mundo e o respeito pela tradição”.
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O futuro santo deu continuidade ao Concílio Vaticano II, que tinha cumprido apenas a 1.º sessão, promulgou as 4 constituições, os 9 decretos e as 3 declarações e publicou todos os instrumentos necessários à execução das reformas conciliares. E apresentou um rosto novo e aberto da Igreja, já sem o estigma dos anátemas ou a perspetiva do divórcio entre a Igreja e o mundo. O mistério da Igreja e a sua relação com o mundo contemporâneo brilham na Lumen gentium (Constituição dogmática sobre a Igreja), na Sacrosanctum concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia) e na Gaudium et spes (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual), com apoio na Dei verbum (Constituição sobre a Divina Revelação).
Não precisaríamos de mais documento algum para enaltecer a figura de Paulo VII se tivéssemos apenas a encíclica Ecclesiam suam, sobre o ser da Igreja e da sua necessidade de se estabelecer no diálogo. Porém, o relevo dado à Doutrina Social da Igreja está bem patente na encíclica Populorum progressio, sobre o desenvolvimento dos povos, bem como na Carta Apostólica Octogesima adveniens no 80.º aniversário da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, sobre a questão social.
No atinente à sinodalidade, instituiu o Sínodo dos Bispos e, no concernente a grandes problemas mundiais, instituiu o Dia Mundial da Paz, o Dia Mundial do Migrante, o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Dia Mundial do Enfermo e o Dia Mundial das Vocações.E foi colossal a sua exortação apostólica Evangelii nuntiandi sobre a evangelização no mundo contemporâneo, na linha do Sínodo de 1974; e este Papa não perdeu qualquer oportunidade de fazer apelos à paz, não só como ausência de guerra, mas como desenvolvimento e objeto de educação. Não é despiciendo referir que o Papa Paulo VI veio ao Santuário de Fátima como peregrino implorar de Maria a unidade interna da Igreja e a paz no Mundo.Paulo VI foi o primeiro Papa a visitar os cinco continentes e, até a João Paulo II, o mais viajado, pelo que foi chamado o Papa Peregrino. Em 1970, sobreviveu a uma tentativa de assassinato nas Filipinas. Embora o Vaticano negue, provas determinadas posteriormente indicam que o papa sofreu um ligeiro golpe de arma branca no incidente. Foi o primeiro Papa a encontrar-se com o arcebispo de Cantuária e o primeiro, em vários séculos, a encontrar-se com os dirigentes das diversas Igrejas Ortodoxas orientais, dando com outras ações forte impulso ao ecumenismo.
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Foi quem abriu o precedente da dispensa das obrigações do ministério sacerdotal aos que a solicitaram, incluindo a autorização para contrair matrimónio, embora nem sempre o discurso sobre esta matéria fosse de todo benevolente. E, apesar de fundamentar bastante bem a opção celibatária por motivos de serviço ao Reino de Deus, a sua encíclica Sacerdotalis coelibatus não foi recebida com grande conforto, dado que o manteve obrigatório para os sacerdotes de rito latino, embora tenha oferecido a ordenação diaconal a homens casados. Nesta matéria, o Pontífice não se revelou audaz, mas também não sabemos se o resultado da possível audácia não seria contraproducente ao tempo. Pena é que a evolução esteja em ponto morto.
Porém, o que mais desconforto causou na opinião pública e em muitos cristãos foi a publicação da encíclica Humanae vitae, mal recebida por muitos elementos do Episcopado, alegadamente por se desviar quase na totalidade das conclusões da comissão que constituiu para estudar a matéria. Nela sustenta a visão tradicional da Igreja sobre métodos anticoncecionais artificiais e aborto – posição reiterada e reforçada por João Paulo II na exortação Familiaris consortio e na encíclica Evangelium vitae. A Humanae vitae serviu de base fundamental para dois outros documentos do Magistério da Igreja as instruções Donum vitae e Dignitas personae, ambos sobre moral sexual e ética reprodutiva.
A encíclica foi considerada pelos opositores como um retrocesso em relação ao Vaticano II iniciado por João XXII, mas vem na linha da encíclica Mater et Magistra, do próprio João XXIII, entre outros pontos afirma: A vida humana é sagrada, desde o seu alvorecer compromete diretamente a ação criadora de Deus. E vem na continuidade da Constituição Pastoral Gaudium et spes, do próprio Vaticano II, que deixou expresso no capítulo que trata da família (ns. 47 a 52) que se haveria, na regulação da natalidade, de recorrer à castidade conjugal:
Quando se trata, portanto, de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal. Segundo estes princípios, não é lícito aos filhos da Igreja adotar, na regulação dos nascimentos, caminhos que o magistério, explicitando a lei divina, reprova.”.
Neste aspeto, o Papa Francisco sublinha que Paulo VI foi um visionário porque anteviu o recrudescimento do neomalthusianismo, resultante, a meu ver, do hedonismo campeante e do consumismo, bem como da dificuldade em articular a vida de trabalho com a vida familiar. A mentalidade disseminada em muitos países espelha-se no spot publicitário aparentemente inocente, mas cheio de egoísmo grassante, posto na boca do bebé: O papá diz ‘preservativo’, a mamã diz ‘pílula’ e eu digo ‘surpresa!’. Quer dizer que o filho ou é programado ou é tolerado, não? É curioso que os dois milagres do seu processo estão conexos com problemas de gestação!
Montini foi tão profético e audaz como hesitante: viagens, interrompidas pela artrose; abdicação da tiara, sede gestatória, algum aparato pontifício; reforma da Cúria; ecumenismo, sinodalidade e diálogo; receio do recrudescimento do tradicionalismo e do excesso do progressismo; tentativa da preservação do depósito da fé e a abertura à exposição doutrinal em novos moldes.
A biografia exposta aquando da beatificação rezava que Paulo VI “sofreu muito por causa das crises que afetaram repetidamente o corpo da Igreja”, tendo respondido com “uma corajosa transmissão da fé, garantindo a solidez doutrinal num período de mudanças ideológicas”. E manifestou grande capacidade de mediação em todos os campos, foi prudente nas decisões, tenaz na afirmação dos princípios, compreensivo com as fraquezas humanas”.
Muito me agrada a canonização deste Papa. A História há de reconhecer os seus méritos!
2018.02.17 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A multidão dos bem-aventurados, filhos de Deus, que procuram o Senhor

A Liturgia da Solenidade de Todos os Santos assume para proclamar e meditar os textos das passagens: do Apocalipse (Ap 7,2-4.9-14), para 1.ª leitura; da 1.ª carta de São João (1Jo 3,1-3), para 2.ª leitura; e do Evangelho de São Mateus (Mt 5,1-12), 3.ª leitura. Estas leituras revelam o projeto de Deus a respeito do homem: torná-lo participante da sua Vida e Santidade.
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A perícopa do Apocalipse apresenta uma visão celestial em que o vidente, que se chama João, falando na 1.ª pessoa do singular se surpreende com a subida dum Anjo, que vinha do nascente trazendo “o selo do Deus vivo” (marca de propriedade, aqui de Salvação: a Cruz e o Batismo) e que bradou aos quatro anjos (dos 4 pontos cardeais, donde emergem as 4 virtudes humanas: prudência, justiça, fortaleza e temperança) a quem foi dado o condão de danificar a terra e o mar:
Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”.
Essa ordem do Anjo lembra-nos que aqueles que procuram o Senhor, os que se deixam purificar no sangue vertido de Deus feito homem (representado na água do Batismo), recebem na fronte (para se tornar visível) a marca de filhos, de herdeiros; o selo de Deus, o selo do Espírito.
E o vidente, tornado ouvinte, escutou o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel – este número simbólico de 144 mil (formado por números sagrados de totalidade: 12 mil por cada uma das 12 tribos; ou 12 apóstolos x 12 mil) é o da totalidade dos filhos de Israel que se mantiveram na fidelidade ao seu Deus e ao Cristo que os remiu, continuando seu povo a integrar o reino messiânico, que desemboca no dia escatológico, onde se inclui, por mercê de Deus, toda a comunidade cristã, viva ela onde viver, porque herdeira das promessas e dos bens messiânicos e escatológicos.
Mas este vidente/ouvinte, testemunha das maravilhas de Deus e da caminhada do seu povo para a escatologia alargou a sua visão e ampliou a sua audição para contemplar “a multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Todos estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro (Jesus Cristo, o divino Alfa e Ómega, o perfeito “éscaton”, como é o perfeito “arque”), revestidos de túnicas brancas e com palmas na mão. É a Igreja militante que, mediante a sua condição de Igreja purgante, se torna Igreja triunfante, com os mártires na vanguarda. E clamavam em alta voz a saudação a Deus (o divino Grande Ancião) e ao seu Cordeiro:
A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”.
Todos os Anjos (os espíritos celestes que servem a Deus e se incumbem de mensagens e missões da Divindade para os homens) formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo em doxologia:
Ámen! A bênção e a glória, a sabedoria e a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Ámen!”.
Um dos Anciãos tomou a palavra e interpelou o vidente: “Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?”. E o vidente respondeu: “Meu Senhor, vós é que o sabeis”. E o Ancião, que de interpelante passou a profeta ou porta-voz do Altíssimo, declarou:
São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro”.
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A grande tribulação de que fala o texto será certamente a prova escatológica antecipada por Daniel (Dn 12,1: surgirá Miguel, o grande chefe, o protetor dos filhos do seu povo. Será época de tal desolação, como jamais houve igual desde que as nações existem até àquele momento. Então, entre os filhos do teu povo, serão salvos todos aqueles que se acharem inscritos no livro), relacionada com o Dia do Senhor, de que falam também outros profetas. Aqui, será o longo e intenso tempo das perseguições a que foram sujeitos – e continuam a sê-lo – os cristãos.
As primeiras perseguições tinham feito destruições cruéis nas comunidades cristãs, ainda tão jovens. A questão que se levantava era: Iriam desaparecer estas comunidades, acabadas de fundar? E as visões do apóstolo ou profeta cristão trazem uma mensagem de esperança na provação, mas veiculada por uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilónia, qualificativo aplicável à onda das perseguições organizadas dos tempos históricos e dos atuais, muitas delas de índole terrorista. E a revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro, que paradoxalmente fora imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado, que transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que o seguem, em particular pelo martírio. E os mártires, tão numerosos, participam doravante no seu triunfo, numa festa eterna.
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A perícopa da 1.ª Carta de João assegura que somos efetivamente filhos de Deus mercê do admirável amor que o Pai nos consagrou em nos chamar seus filhos. E, garante que, se o mundo não nos reconhece como filhos de Deus, é porque O não conheceu a Ele.
E o texto joânico recorda-nos que a Vida divina de filhos de Deus, que se manifestará no final da vida, já está presente em nós desde agora. Desde o nosso batismo, somos chamados filhos de Deus e o nosso futuro tem a marca da eternidade e da santidade. O texto reforça esta mensagem de esperança, que responde às nossas interrogações sobre o destino dos defuntos: Que virão a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser? A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já qual o futuro a nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele, vê-Lo-emos tal como Ele é. E todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como ele é puro.
E esta pureza joânica da Carta liga-se perfeitamente à pureza das túnicas brancas do Apocalipse branqueadas no sangue do Cordeiro mártir. Ligamo-nos a Ele pelo batismo de água e/ou pelo batismo de sangue. E esta pureza remete para a pureza das bem-aventuranças, não assente na pureza ritual exterior imposta na Lei, mas sobretudo na do coração apregoada pelos profetas. Os puros de coração, que são filhos de Deus, mercê da bondade divina e da sua capacidade em fazer a paz, verão a Deus na sua luz e perfeição. Trata-se de uma pureza de coração, dom de Deus, que parte da limpidez do olhar e se reflete no olhar com que se olham os mistérios de Deus e a beleza do mundo, mas é também uma pureza que se ganha, constrói e cultiva.
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E estamos catapultados para o Evangelho das bem-aventuranças (pórtico do Sermão da Montanha, em Mateus) se quisermos, como discípulos, aproximar-nos de Jesus, que subiu ao monte e nos fala sentado, não com arrogância dos poderosos, mas com doçura e simplicidade (vd Mt 5,1-2).
Jesus apresenta a proposta das Bem-Aventuranças, como a melhor via para a Santidade. Cristo diz a palavra Bem-aventurados ou Felizes oito vezes com os verbos na 3.ª pessoa do singular e uma vez na 2.ª do plural endereçada diretamente aos discípulos. Vejamos:
Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus; os humildes, porque possuirão a terra; os que choram, porque serão consolados; os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; os puros de coração, porque verão a Deus; os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus; e os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Mas Bem-aventurados sereis, “quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa”. (Sublinhei os tipos de bem-aventurados e coloquei a negrito as expressões de recompensa).
A posse do reino dos Céus é para os pobres voluntários e não só à força e para os perseguidos, não por motivos políticos ou por teimosia pessoal, mas por amor da justiça e do Evangelho. Ver a Deus e ser chamado de filho de Deus são atributos dos puros de coração (que olham o mundo com olhar de criança e não de malícia) e para os que fazem a paz, respetivamente; a posse da terra, a consolação e a saciedade serão apanágio respetivamente dos mansos ou humildes, dos que choram e dos famintos e sedentos de justiça; e a misericórdia será atributo dos que usam de misericórdia para com todo aquele que se constitui em próximo pela exploração, necessidade, pela marginalização, roubo da dignidade, abandono ou fragilidade. Porém, tudo isto deverá coincidir harmoniosamente na pessoa do discípulo de Cristo; e a Igreja dos discípulos tem de ser mais a Igreja das bem-aventuranças que a dos 1752 cânones do Código de Direito Canónico e legislação complementar ou que a dos 1546 cânones do CODEX CANONUM ECCLESIARUM ORIENTALIUM e legislação complementar.
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As Bem-aventuranças revelam a misteriosa realidade da vida em Deus, iniciada no Batismo. Aos olhos do mundo, os servidores de Deus sofrem, efetivamente, formas de morte: pobreza, humildade, aceitação das provações (os que choram) ou privações (fome e sede) de justiça, simplicidade, perseguição, pacificidade, reconciliação e misericórdia, num mundo de violência e de lucro... Tudo isso aparece como não rentável, votado ao fracasso, à morte. Mas que pensa Cristo? Pelo contrário, proclama felizes a todos os seus amigos – os que O seguiram, se sentem filhos de Deus, beberam das águas da salvação e querem ser puros como Deus é puro – que o mundo despreza e considera como inúteis, descartáveis ou mortos, e consola-os, alimenta-os, chama-os filhos de Deus, introdu-los no Reino dos Céus e na Terra Prometida.
Ora, a Solenidade de Todos os Santos abre-nos assim o espírito e o coração às consequências da Ressurreição. O que se passou em Jesus realizou-se também nos seus bem-amados, os nossos antepassados na fé, e diz-nos igualmente respeito: sob as folhas mortas, sob a pedra do túmulo, a vida continua, misteriosa, para se revelar no Grande Dia, quando chegar o fim dos tempos. Para Jesus, foi o terceiro dia; para os seus amigos, isso acontecerá mais tarde.
É a festa da Vida, mesmo que renascida do turbilhão, dos escombros ou das cinzas, e celebra a plenitude da Vida cristã e a Santidade de Deus manifesta nos seus filhos, os santos da Igreja. Celebra como que, em antecipação e em comunhão com a liturgia celeste, a vitória dos irmãos que superaram “a grande tribulação” e estão marcados com o selo do Deus vivo; os que vivem para sempre diante de Deus, entre os quais, se encontram os nossos entes queridos já falecidos.
A fé é culto à Vida, porque o nosso Deus é um Deus de vivos e, pelo Espírito, nos dá a Vida em Cristo Jesus ressuscitado de entre os mortos. Por isso, esta é a festa do convite total à alegria e à esperança, que nasce das profundezas da Vida, da aspiração da felicidade sem ocaso.
A Fonte da santidade é Deus. E a santidade tem o seu início, crescimento e consumação na graça de Deus, no amor gratuito do Senhor, que derrama o seu Espírito nos nossos corações para que possamos chamá-lo “Paizinho”. A santidade não é, pois, um mero produto do esforço humano que procura alcançar Deus com as suas forças nem tão-pouco resultado automático da graça que paira nos ares, mas efeito da ação de Deus em nós. A santidade tem, assim, duas dimensões: é ação de Deus em nós pelo dom do Espírito Santo; e resposta do cristão a esse dom e presença de Deus. A Santidade manifesta-se como participação na vida de Deus, que se realiza com os meios que a Igreja nos oferece, especialmente através dos Sacramentos. E a morada dos Santos será o Céu, que não é tanto um lugar, mas sobretudo um estado de felicidade na presença e companhia de Deus, dos anjos e dos santos, que supera a nossa imaginação e entendimento:
Nem olhos viram, nem ouvidos escutaram nem o homem pode imaginar o que Deus preparou para aqueles que O amam” (1Cor 2,9). “Agora vemos como num espelho, mas depois veremos face a face” (1Cor 13,12).
A Eternidade não se reduz ao “eterno descanso”, mas é vida ativa e intensa com Deus.
Santo significa que não tem nada de imperfeito, de fraco, de precário. Neste sentido, só Deus é Santo. Porém, por sua graça, imitamo-Lo e participamos da sua Santidade e unimo-nos a todos os irmãos. Esta doutrina era tão viva nos primeiros séculos, que os membros da Igreja não hesitavam em chamar-se “Santos” e a própria Igreja era chamada de “Comunhão dos Santos”. Com efeito, diz o CIC (Catecismo da Igreja Católica) que esta expressão indica, em primeiro lugar, a comum participação de todos os membros da Igreja nas “coisas santas”: “a fé, os Sacramentos, os Carismas e outros dons espirituais” (cf CIC 194). E adiante, refere:
Designa também a comunhão entre as pessoas santas, ou seja, entre as que pela graça estão unidas a Cristo morto e ressuscitado. Alguns são peregrinos na terra; outros, tendo deixado esta vida, estão a purificar-se ajudados também pelas nossas orações; outros já gozam da glória de Deus e intercedem por nós. Todos juntos formamos em Cristo uma só família, a Igreja, para a glória da Trindade.” (CIC 195).
E os santos não são apenas os que estão nos altares, declarados santos pela Igreja – mediante a beatificação e a beatificação e a canonização. São todas as pessoas que vivem unidas a Deus, construindo o bem. São pessoas normais, que no passado e no presente dão testemunho de fidelidade a Cristo; vivem de forma excelente o que é comum a quem segue o Evangelho.
A Festa de hoje pretende homenagear todos os santos, beatificados e canonizados, é certo, mas sobretudo os que permanecem no anonimato ou porque não foram indigitados e examinados para o catálogo das honras dos altares ou porque apenas viveram seguindo Cristo na discrição. E a festa quer apresentar o ideal da santidade como possível hoje a todos e desejado por Deus. Com efeito, todos os fiéis são chamados à Santidade, que é a plenitude da vida cristã e perfeição da caridade e se realiza na união íntima ao Cristo e, Nele, com a Santíssima Trindade (cf CIC 428). Portanto, podemos e devemos ser Santos também nós. Acolhamos o apelo de Deus à Santidade e que os Santos sejam nossos modelos e intercessores nesta caminhada. Não esperemos vir a fazer milagres, pois nem os “santos” canonizados os fazem. É Deus e só Deus que faz milagres. E faz muitos através dos “santos” de altar e faz maravilhas através de nós tantas vezes. E invoquemos todos os santos: Omnes sancti et sanctae Dei, intercedite pro nobis!
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Porém, temos de apostar na pertença à “geração dos que procuram o Senhor” (cf Sl 24/23, 6).
Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e quantos nele habitam. Ele a fundou sobre os mares e a consolidou sobre as águas. Quem poderá subir à montanha do Senhor? Quem habitará no seu santuário? O que tem as mãos inocentes e o coração puro, o que não invocou o seu nome em vão. Este será abençoado pelo Senhor e recompensado por Deus, seu Salvador. Esta é a geração dos que O procuram, que procuram a face de Deus. (Sl 24/23, 1-2.3-4ab.5-6).

2017.11.01 – Louro de Carvalho

sábado, 31 de dezembro de 2016

Canonização de Madre Teresa de Calcutá marcou a Igreja e o Mundo

Do meu ponto de vista, a canonização de Santa Teresa de Calcutá, a 4 de setembro de 2016, poderá ter sido o facto mais marcante da Igreja Católica do ano que hoje termina. Obviamente não o será do ponto de vista da teologia pura ou mesmo da pastoral. No entanto, vem consagrar a vertente da opção preferencial pelos pobres em que a Igreja melhor se revê no seu ser e na sua missão; e, por outro lado, salienta o impacto que a ação de alguém que se dedique ao cuidado dos mais pobres, doentes, oprimidos e descartados – aliada à profunda vivência cristã – tem na dinâmica da luta não violenta pela justiça, pedindo a todos o contributo segundo as suas posses para acorrer a cada um segundo as suas necessidades. É claro que a sua elevação à honra universal dos altares não desprega nem da vida religiosa na dimensão contemplativa nem na dimensão ativa (Madre Teresa corporiza as duas dimensões) nem do dinamismo do Ano Jubilar da Misericórdia. Aliás, o Francisco, na linha dos seus predecessores mais próximos, considerou-a um ícone da misericórdia; e a sua canonização ocorreu no último trimestre do Ano Jubilar por ocasião do Jubileu dos operadores e dos voluntários da misericórdia.
A seguir a este jubileu, foram-se celebrando, no âmbito do Ano Jubilar da Misericórdia, outros jubileus emblemáticos, sem conotação com a hierarquia: o jubileu dos catequistas, de 23 a 25 de setembro; o jubileu mariano, de 7 a 9 de outubro; o jubileu dos encarcerados, a 5 e 6 de novembro; e o jubileu das pessoas socialmente excluídas, de 11 a 13 de novembro.
Sobre Santa Teresa de Calcutá e do desafio que para nós constitui a sua vida, declarou Francisco na homilia de 4 de setembro:
“Estamos chamados a pôr em prática o que pedimos na oração e professamos na fé. Não existe alternativa para a caridade: quem se põe ao serviço dos irmãos, embora não o saibamos, são aqueles que amam a Deus (cf 1 Jo 3,16-18; Tg 2,14-18). A vida cristã, no entanto, não é uma simples ajuda oferecida nos momentos de necessidade. Se assim fosse, certamente seria um belo sentimento de solidariedade humana, que provoca um benefício imediato, mas seria estéril, porque careceria de raízes. O compromisso que o Senhor pede, pelo contrário, é o de uma vocação para a caridade com que cada discípulo de Cristo põe ao seu serviço a própria vida, para crescer no amor todos os dias.”.
E, no momento da recitação do Angelus, disse aos voluntários e agentes da misericórdia:
“É com carinho que saúdo todos vós, estimados voluntários e agentes de misericórdia. Confio-vos à proteção de Madre Teresa: ela vos ensine a contemplar e adorar todos os dias Jesus Crucificado, para o reconhecer e servir nos irmãos em necessidade. Peçamos esta graça também para aqueles que estão unidos a nós através dos mass media, de todas as partes do mundo.”
Mas, se com a canonização de Madre Teresa o Papa conseguiu alertar para a síntese que os voluntários da misericórdia têm de fazer entre a contemplação e adoração de Cristo crucificado e o reconhecimento do mesmo nos irmãos em necessidade a quem é preciso servir, a 16 de novembro, na canonização de sete beatos, enalteceu todos aqueles que “permaneceram firmes na fé, com o coração generoso e fiel”. Vale a pena recordar daquela homilia de 16 de outubro o que Francisco disse destes espelhos da misericórdia divina posta em ação:
“Os Santos são homens e mulheres que se entranham profundamente no mistério da oração. Homens e mulheres que lutam mediante a oração, deixando rezar e lutar neles o Espírito Santo; lutam até ao fim, com todas as suas forças; e vencem, mas não sozinhos: o Senhor vence neles e com eles. Também estas sete testemunhas, que hoje foram canonizadas, travaram o bom combate da fé e do amor através da oração. Por isso permaneceram firmes na fé, com o coração generoso e fiel. Que Deus nos conceda também a nós, pelo exemplo e intercessão delas, ser homens e mulheres de oração; gritar a Deus dia e noite, sem nos cansarmos; deixar que o Espírito Santo reze em nós, e orar apoiando-nos mutuamente para permanecermos com os braços erguidos, até que vença a Misericórdia Divina.
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Madre Teresa ficou conhecida como a “Santa das Sarjetas”, mas é acusada por críticos de promover a pobreza. Era o que faltava não se levantarem os picuinhas da benemerência. Na verdade, enquanto naquela manhã de domingo Francisco proclamava a santidade de vida da benemérita freira católica e todo mundo comemorava o faustoso evento, alguns distorciam a realidade segundo as suas categorias mentais, sociais, ideológicas e económicas.
Diante de milhares de pessoas na praça de São Pedro, o Papa engrandecia Teresa, que se ajoelhava “diante dos que foram deixados para morrer nas margens das estradas, enxergando neles a dignidade dada por Deus”. Reconheceu que a Madre “se fez ouvir pelas potências do mundo, para que elas reconheçam a sua culpa pelos crimes da pobreza que criaram”. Porém, os críticos questionam a comprovação dos ‘milagres’ reconhecidos pela Igreja e consideram a sua canonização como símbolo dum “triunfo da fé religiosa sobre a razão e a ciência”. Esquecem que os ditos milagres – que apenas confirmam a veridicidade da santidade de vida e devem ser atribuídos a Deus, que tudo pode – não são o móbil mais importante das canonizações, pois ignoram o instituto da canonização equipolente. E, sobretudo, ignoram a cumplicidade normal entre fé e razão, entre fé e ciência – tantas vezes afirmada neste mundo dos séculos XX e XXI.
Teresa foi galardoada com o Prémio Nobel da Paz em 1979. E não parece que a Academia se tenha vergado alguma vez à falta de ciência ou à pseudociência. Afinal, o que é a ciência? Será que os críticos ainda estão apegados ao conceito redutor de ciência instaurado pelo positivismo?
Conhecida pela construção de hospitais, casas de repouso, cozinhas, escolas, colónias de leprosos e orfanatos, era chamada a “Santa das Sarjetas” pelo seu trabalho nas regiões mais pobres de Calcutá. E a sua ação estendeu-se praticamente a todo o mundo, sendo que a Congregação das Missionárias da Caridade, fundada por Madre Teresa, reúne atualmente mais de 3 500 religiosas no mundo inteiro e tem um grande número de missionários da caridade.
Todavia, apesar da legião de fiéis e admiradores, existe um sério número de detratores.
O falecido autor britânico Christopher Hitchens, um dos principais, descreveu Teresa como “uma fundamentalista religiosa, uma agente política, uma pregadora primitiva e uma cúmplice dos poderes seculares mundanos”. No seu livro “A Posição Missionária: Madre Teresa em teoria e prática, lançado em 1995, e no documentário “O Anjo do Inferno”, critica o que denomina de “cultura de sofrimento” e afirma que ela criou um imaginário de “buraco do inferno” da cidade que a acolheu, além de se ter tornado “amiga de ditadores”.
Também o físico londrino Aroup Chatterjee publicou, em 2003, uma crítica a Teresa depois de ter feito pelo menos 100 entrevistas com pessoas envolvidas com a congregação criada por ela, apontando o dedo à alegada “espantosa falta de higiene” nos centros de saúde administrados pelas Missionárias de Caridade – onde se reutilizavam agulhas, por exemplo – e descrevendo os locais em que o grupo cuidava de doentes como “confusos e mal organizados”. E considera os milagres “baratos e infantis demais até para questionar”.
E o cubano Hemley Gonzalez tornou-se crítico depois de sair de Miami para trabalhar como voluntário numa das casas de Teresa em Calcutá por 2 meses, em 2008. Diz-se chocado com o modo “terrivelmente negligente como esta missão de caridade opera e as contradições entre a realidade e a forma como ela é percebida pelo público”. Hoje, através da sua organização de caridade humanista, sem ligação à Igreja Católica, critica os alegados pensamentos retrógrados:
“Ser contra o controlo da natalidade e o planeamento familiar, a modernização de equipamentos e uma miríade de iniciativas que solucionam problemas causados pela pobreza são coisas que fazem Madre Teresa não ser 'amiga dos pobres', como dizem, mas uma pessoa que promove a pobreza”.
Também o indiano Sanal Edamaruku questionou os milagres que levaram Teresa à canonização. De facto, para ser considerado santo ou santa pelo Vaticano, ordinariamente, a pessoa precisa de ter alguns “milagres” atribuídos a ela, após a sua morte, por conta de preces que foram feitas em seu nome. Quando situações como essa acontecem, elas são “verificadas” por meio de provas exigidas pela Igreja antes de serem aceites como milagres. Normalmente, os casos são de curas ou recuperações de doenças que acontecem sem aparente explicação médica.
Assim, 5 anos após a morte de Madre Teresa, o Papa João Paulo II aceitou o que seria o seu primeiro milagre – a cura duma mulher de uma tribo de Bangladesh, Monica Besra, que tinha um tumor abdominal, cura que teria sucedido devido a intervenção sobrenatural. Isto abriu caminho para a beatificação da Madre em 2003. Em 2015, o Papa Francisco reconheceu um segundo milagre, que envolveu a cura dum brasileiro com tumores no cérebro em 2008.
Ora, Edamaruku questionou o primeiro milagre, questionando como pode uma mulher ser curada por foto de freira colocada sobre o seu estômago quando há provas de que recebeu tratamento médico contra a doença. Porém, alegando que hoje “a maioria das pessoas não quer mais negar os feitos de Madre Teresa porque ela tem uma imagem de alguém que sempre trabalhou para os pobres”, declara que não tem nada contra ela e que não é “antipobre” (como temem ser chamados os opositores da Santa), mas sustenta que “dizer que alguém faz milagres não é científico”.
A iniciativa mais significativa proveio de alguns académicos e trabalhadores sociais indianos, que pediram ao Ministro das Relações Exteriores, Sushma Swaraj, que reconsiderasse a decisão de ir ao Vaticano para prestigiar a cerimónia de canonização de Madre Teresa, pois aduziam que se tornava espantoso que “o ministro dum país cuja Constituição pede aos seus cidadãos para terem um pensamento científico aprove uma canonização baseada em milagres”,
No entanto, alguns contestam tal argumento no pressuposto de que “provas científicas e fé são coisas diferentes”.
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Quanto a milagre, basta dizer que a Igreja apenas aceita como tal o que os médicos atestam não decorrer da ciência (apesar da aplicação da terapêutica possível) e que só a fé permite aceitar o milagre, o que a razão podia acolher, ao menos, quando não tem outra explicação.
No respeitante à alegada falta de condições, os críticos mostram nunca terem trabalhado em hospitais de campanha nem esterilizado material cirúrgico, optando pelo descarte, e que a deficiência de condições se colmata pela correção e não pelo encerramento de unidades de cuidados de saúde e/ou de educação.
Acresce apontar a hipocrisia iníqua dos que pensam reduzir a pobreza com a aplicação das teses neomalthusianas. Controlar a natalidade pela pílula (com efeitos cancerígenos, antinidificadores ou mesmo abortivos) traz mais consequências para a saúde que vantagens; e fazê-lo pela via do preservativo pode levar à ineficácia. Mas ambos os recursos engrossam a indústria e o comércio. E os grandes interesses não criam só a pobreza, cavam a miséria para nutrir os grandes.
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Assim, é de incrementar a dinâmica de Madre Teresa até que os poderes se abram à Justiça e à equidade, pois todos somos filhos de Deus e irmãos universais! Que sejam estes os propósitos para 1 de janeiro, Dia Mundial da Paz e da fraternidade universal, com a Santa Mãe de Deus!

2016.12.31 – Louro de Carvalho