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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Invocar, caminhar e agradecer, três marcas do cristão em Igreja


Foi em torno destes três verbos que o Papa desenvolveu a sua homilia da Missa de canonização, a 13 de outubro, na Basílica de São Pedro, do Cardeal John Henry Newman, das religiosas Giuseppina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes, e da leiga Margarida Bays.
Partindo do episódio dos 10 leprosos de que fala o texto do Evangelho de Lucas (Lc 17,11-19) assumido para o 28.º domingo do Tempo Comum no Ano C, Francisco salientou que a palavra do Senhor ao leproso que, tal como os outros, indo de caminho mostrar-se aos sacerdotes, se sentiu curado da lepra e deu meia volta para vir agradecer, “A tua fé te salvou” “é o ponto de chegada” do Evangelho que mostra o caminho da fé. Com efeito, por um lado, o caminho da fé espelha-se no percurso que Jesus fez com os discípulos para Jerusalém, onde ia ser sujeito à Paixão em que o Pai o glorificaria e Se glorificaria n’Ele, sendo a ressurreição dos mortos o certificado da glorificação de Cristo. Um caminho para o qual Jesus convida quem o quiser seguir e que implica renúncia e andar sem olhar para trás. Por outro lado, este percurso de fé mostra-nos três momentos significativos vincados pelos leprosos, sendo que apenas um – e estrangeiro – executou o 3.º momento: invocar, caminhar e agradecer.
Naqueles tempos, os leprosos sofriam a doença que os afligia (ainda hoje presente e a exigir combate) e sofriam o estigma da exclusão social em razão do perigo de contágio, pelo que deviam estar isolados do resto do mundo e gritar a quem pressentissem aproximar-se: Impuro, impuro! Também à passagem de Jesus, aqueles 10 leprosos gritaram, não o pregão estabelecido na Lei, mas o da confiança. Vão ter com Jesus, mas mantêm-se à distância e invocam-No. Vencem as exclusões ditadas pelos homens e invocam o Filho de Deus, que não exclui. Não se contentaram com o que ouviram dizer que Jesus fez a outrem; acreditavam que Jesus os podia curar. Isto faz dizer ao Santo Padre que “a salvação não é beber um copo de água para estar em forma, mas é ir à fonte, que é Jesus”. Na verdade, “só Ele livra do mal e cura o coração; só o encontro com Ele é que salva, torna plena e bela a vida”. Os leprosos foram à fonte.
Ora, nós não podemos dizer que isso não nos diz respeito, pois todos nós necessitamos de cura, Precisamos da cura sobre a pouca confiança em nós mesmos, na vida, no futuro; sobre os medos que nos paralisam; sobre os vícios que nos escravizam; sobre a nossa autossuficiência, eu nos isola dos demais; sobre os fechamentos, dependências e apegos ao jogo, ao dinheiro, à televisão, ao telemóvel, às opiniões alheias. O Senhor liberta e cura o coração, se O invocarmos. Ora, invocar remete para a oração que nos leva a chamar a Deus pelo seu nome, o que é sinal de confidência, de que o Senhor gosta e que faz crescer a fé. Com a invocação confiante da fé, levando a Jesus o que somos, sem esconder as nossas misérias, sabemos que Deus salva. Isto é rezar, é mostrar fé. A fé salva e a oração, que “é a porta da fé”, é “o remédio do coração”.
Depois, é preciso atentar no facto de os leprosos terem sido curados, não quando estavam diante de Jesus, mas enquanto caminhavam às ordens de Jesus para se mostrarem aos sacerdotes, como diz o Evangelho: “Enquanto iam a caminho, ficaram purificados” (17,14). Foram curados enquanto caminhavam para Jerusalém palmilhando uma estrada a subir. Também nós somos purificados no caminho da vida, um caminho frequentemente a subir, porque leva para o alto. A fé requer um caminho, uma saída e só acontece o milagre, diz o Papa, “se sairmos das nossas cómodas certezas, se deixarmos os nossos portos serenos, os nossos ninhos confortáveis”. E o Sumo Pontífice recordou que também o Profeta a Naaman, general sírio que pedia a cura da sua lepra, indica a tarefa de caminhar até ao rio Jordão para se banhar sete vezes. Naaman, que esperava o espetáculo da cura milagrosa pelas rezas e toques do homem de Deus, fica desapontado, pois tinha na sua terra rios melhores que o Jordão. E foi um servo que o aconselhou a fazer aquela coisa tão simples que o Profeta lhe recomendara. E ficou curado, o que leva o Sumo Pontífice a dizer:
A fé aumenta com o dom e cresce com o risco. A fé atua, quando avançamos equipados com a confiança em Deus. A fé abre caminho através de passos humildes e concretos, como humildes e concretos foram o caminho dos leprosos e o banho de Naaman no rio Jordão (cf 2 Re 5, 14-17). O mesmo se passa connosco: avançamos na fé com o amor humilde e concreto, com a paciência diária, invocando Jesus e prosseguindo para diante.”.
Em contexto sinodal, Francisco sublinha o facto de os leprosos ficarem curados quando se moviam juntos. O Evangelho refere, no plural, que “iam a caminho” e “ficaram purificados”, pelo que se deduz que “a fé é também caminhar juntos, jamais sozinhos”. E o Papa Bergoglio anota que, uma vez curados, nove continuam pela sua estrada e apenas um regressa para agradecer. E Jesus desabafa a sua mágoa perguntando pelos outros nove. Esqueceram que é tarefa dos homens agradecer. E isto faz-se de forma eminente na Eucaristia, que nos leva a “ocuparmo-nos de quem deixou de caminhar, de quem se extraviou”, pois “somos guardiões dos irmãos distantes, todos nós”, somos intercessores por eles, somos responsáveis por eles, isto é, chamados a responder por eles, a tê-los a peito”.
Agradecer é a última etapa do percurso. E só àquele que agradece é que Jesus diz: “A tua fé te salvou”. E é de notar que “não se encontra apenas curado; também está salvo”. Isto quer dizer que “o ponto de chegada não é a saúde, não é o estar bem, mas o encontro com Jesus”. Quando o homem encontra Jesus, brota dele espontaneamente o “obrigado”, porque descobre o mais importante da vida: “não o receber uma graça nem o resolver um problema, mas abraçar o Senhor da vida”. E o Papa desenvolve:
É encantador ver como aquele homem curado, que era um samaritano, manifesta a alegria com todo o seu ser: louva a Deus em voz alta, prostra-se, agradece (cf 17,15-16). O ponto culminante do caminho de fé é viver dando graças. Podemos perguntar-nos: Nós, que temos fé, vivemos os dias como um peso a suportar ou como um louvor a oferecer? Ficamos centrados em nós mesmos à espera de pedir a próxima graça, ou encontramos a nossa alegria em dar graças?”.
Depois, enuncia os efeitos do agradecimento a Deus:
Quando agradecemos, o Pai deixa-Se comover e derrama sobre nós o Espírito Santo. Agradecer não é questão de cortesia, de etiqueta, mas questão de fé. Um coração que agradece, permanece jovem. Dizer ‘obrigado, Senhor’, ao acordar, durante o dia, antes de deitar, é antídoto do envelhecimento do coração, porque o coração envelhece e se habitua mal.”.
***
Do episódio dos leprosos, o Pontífice passa ao episódio da canonização, a que procedeu, dos cinco beatos. Também eles invocaram o Senhor, para se purificarem das tentações de autossuficiência, dos medos paralisantes, dos vícios que os espreitavam. E nós agora invocamo-los como intercessores. Também eles caminharam na fé em conjunto com os irmãos e irmãs. E nós agora queremos associá-los à nossa caminhada conjunta assumindo-os como luzeiros da doutrina, da fé, da Eucaristia, da caridade e da misericórdia. Também eles souberam agradecer os benefícios de que Deus os cumulou, os dons que o Senhor lhes dispensou para benefício da Igreja e da humanidade. E o Papa sintetiza em breves palavras as suas vidas:  
Três deles são freiras e mostram-nos que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo. Ao passo que Santa Margarida Bays era uma costureira e revela-nos quão poderosa é a oração simples, a suportação com paciência, a doação silenciosa: através destas coisas, o Senhor fez reviver nela, na sua humildade, o esplendor da Páscoa. Da santidade do dia a dia, fala o Santo Cardeal Newman quando diz: ‘O cristão possui uma paz profunda, silenciosa, oculta, que o mundo não vê. (...) O cristão é alegre, calmo, bom, amável, educado, simples, modesto; não tem pretensões, (...) o seu comportamento está tão longe da ostentação e do requinte que facilmente se pode, à primeira vista, tomá-lo por uma pessoa comum’ (Parochial and Plain Sermons, V, 5).”.
E terminou exortando e rezando:
Peçamos para ser, assim, ‘luzes gentis’ no meio das trevas do mundo. Jesus, ‘ficai connosco e começaremos a brilhar como brilhais Vós, a brilhar de tal modo que sejamos uma luz para os outros’ (Meditations on Christian Doctrine, VII, 3). Amen.
***
O Vatican News em português realça, de entre os cinco beatos canonizados, a Irmã Dulce Pontes, a primeira santa brasileira, a devotada aos pobres. Assim, enfatiza:
Irmã Dulce é santa. A celebração litúrgica com o rito da canonização reuniu cerca de 50 mil pessoas na Praça São Pedro. Com o “Anjo bom da Bahia”, foram canonizados também João Henrique Newman, Josefina Vannini, Maria Teresa Chiramel Mankidiyan, e Margarida Bays.”.
Depois, relata em três pontos:
A cerimónia teve início com o rito da canonização: o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, Cardeal Angelo Becciu, acompanhado dos postuladores, foi junto do Santo Padre e pediu que se procedesse à canonização dos beatos.
O Cardeal apresentou brevemente a biografia de cada um deles, que foram então declarados santos. Seguiu-se a ladainha dos santos e o Pontífice leu a fórmula de canonização.
O prefeito da Congregação, sempre acompanhado dos postuladores, agradeceu ao Santo Padre e o coro entoou o canto do Glória.”.
E refere que, “na homilia, o Papa Francisco comentou o Evangelho deste 28.º Domingo do Tempo Comum, que narra a cura de 10 leprosos”, como já foi desenvolvido, em torno dos verbos invocar, caminhar e agradecer.
***
Antes de concluir a celebração eucarística da canonização, o Santo Padre rezou com os fiéis a oração mariana do Angelus e fez dois apelos: ao Médio Oriente e ao Equador.
Formulou uma saudação e um agradecimento a todos, nomeadamente aos cardeais, bispos, sacerdotes, monjas, religiosos e religiosas de todo o mundo, em especial aos que pertencem às famílias espirituais dos novos Santos, e aos fiéis leigos ali reunidos.
Saudou as delegações oficiais de vários países e, em particular o Presidente da República Italiana e o Príncipe de Gales, pois, com o seu testemunho evangélico, estes Santos fomentaram o crescimento espiritual e social nas respetivas nações. E dirigiu uma saudação especial aos delegados da Comunhão anglicana, com profunda gratidão pela sua presença.
Saudou todos os peregrinos, bem como todos os que seguiram aquela Missa através da rádio e da televisão. E dirigiu uma saudação especial aos fiéis da Polónia que celebravam o Dia do Papa: agradeceu as suas orações e o seu constante afeto.
Os seus pensamentos dirigiram-se uma vez mais para o Médio Oriente, em particular, para a amada e martirizada Síria, de donde voltam a chegar notícias dramáticas sobre o destino das populações do nordeste do país, obrigadas a abandonar os seus lugares por causa das ações militares: entre estas populações há também muitas famílias cristãs. E renovou o seu apelo a todos os atores envolvidos e à comunidade internacional no sentido de se comprometerem com sinceridade honestidade e transparência no caminho do diálogo para buscar soluções eficazes.
Referiu que, juntamente com todos os membros do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazónica, especialmente os equatorianos, seguia com preocupação o que tem vindo a suceder no Equador nas últimas semanas. Encomendou o país à oração comum e à intercessão dos novos Santos, unindo-se à dor pelos mortos, feridos e desaparecidos. Animou-o a buscar a paz social, com especial atenção às populações mais vulneráveis, aos pobres e aos direitos humanos.
E, por fim, exortou a que todos se dirigissem à Virgem Maria, modelo de perfeição evangélica, para que nos ajude a seguir o exemplo dos novos Santos, que são nossos intercessores e luzeiros nesta nossa caminhada de fé, de oração, de testemunho evangélico e de caridade na justiça.
2019.10.14 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
***
Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
***
Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
***
Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
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Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho

domingo, 10 de março de 2019

Um dos mais dramáticos testes de stresse de Jesus: no deserto

No início da Quaresma, a Palavra de Deus incentiva a repensar as nossas opções pessoais de vida e a tomar consciência das “provações” que tentam impedir-nos de renascer para a vida de Deus, que se alimenta com o jejum e a abstinência da sobriedade, para nos desprendermos dos bens materiais, que nos ofuscam o espírito, com a oração, que nos faz entrar dentro de nós, superar a autossuficiência e dirigir o olhar para as estrelas, e com a esmoleridade, que nos treina para a partilha – de modo que se desenvolva a pessoa e se edifique a comunidade solidária.
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Um trecho evangélico de antologia
O trecho evangélico do I domingo (Lc 4,1-13) é vulgarmente conhecido como “as tentações de Jesus”, o que, de si, é ambíguo, pois ser tentado significa ser atraído para algo proibido ou ser induzido a pecar. Porém, na Bíblia e nesta perícopa, o verbo “peirázein” e o nome “peirásmos” não têm o sentido de tentar, mas de pôr à prova, fazer teste para verificar a fidelidade e o valor de alguém. Assim, Jesus é posto à prova, não para ser levado a cometer pecado, mas para manifestar o que de mais profundo existe em Si, o que não significa que não tivesse de fazer escolhas fundamentais exigentes. O diabo queria desviá-Lo do caminho e levá-Lo por atalhos.
***
Augusto Cury, no livro “O homem mais inteligente da História”, põe na boca de Marco Polo, um cientista da psiquiatria que decidiu analisar o perfil de Jesus exclusivamente do ângulo das ciências humanas, garantindo que o Mestre dos Mestres foi um educador das mentes para as levar a pensar autonomamente e a gerir a emoção pessoal num dinamismo de fazer um “gasto de energia emocional útil” (GEEU) e que, “antes de abrir a boca para o mundo, passou pelo mais dramático teste de stresse”. Diz que os testes a que Jesus se sujeitou são incomuns, insuperáveis e até insuportáveis para o homem comum que não se autodomine no campo da emoção.  
Uma das componentes do teste do trecho em causa é a passagem no deserto por 40 dias (e 40 noites) sem comer – o desafio à capacidade de sobrevivência que a ciência não explica sobretudo no quadro da penúria de água. É óbvio que depois sentiu fome e Satanás incitou-o ao abuso do poder do milagre espetacular para satisfazer as necessidades corporais: podia transformar pedras em pão. No entanto, o provando responde ao tentador que nem só de pão vive o homem, mas da Palavra que sai da boca de Deus, um pensamento lógico. Na resposta, releva a força da Palavra, mostra “um pensamento lúcido quando todo o seu corpo morria” e evidencia um alto “poder mental” e revela “uma consciência crítica comparativa: pão físico versus pão metafísico. Depois, entra num campo vedado à ciência, a sobrevivência humana simbolizada no pão de trigo, mas propiciada pelo suprimento produzido pelo Autor da Vida. Ou seja, Jesus apontava o maior sonho dos mortais: a eternidade. Por outras palavras, irrigava a vida com a esperança, pois, sem esperança, morreremos. O corpo de Jesus foi levado ao limite como iria suceder mais tarde e, em vez de sucumbir aos instintos, preservou a sua consciência crítica.
A seguir, veio o apelo neurótico ao poder, sendo o autocontrolo do Mestre testado ao máximo. Diz Cury que “Jesus, depois do teste físico, foi testado no que toca a ambicionar o poder e usá-lo de forma desmedida durante toda a sua jornada”. Enquanto muitos vendem a alma ao diabo pelo poder, se corrompem, destroem princípios, esmagam a ética, “matam, controlam os seus pares e fomentam guerras”, Jesus, que tinha a capacidade de seduzir e dominar povos e reinos, não usou do poder. Antes, reagia sempre “como um nobre, não como um encarcerado”, a ponto de Pilatos vir a parecer “uma criança diante d’Ele” e Herodes “um rapazinho”.
Por fim, o desafio do espetáculo religioso – atirar-se do pináculo do Templo – garantir-Lhe-ia o domínio e a gestão de todas as religiões. Mas Ele recusou, pois desejava “apenas ser humano”. E, porque “propunha uma revolução na essência da humanidade”, pode dizer-se que “nunca alguém tão grande desejou fazer-se tão pequeno para fazer os pequenos grandes”.
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Estamos no começo da atividade pública de Jesus, que acabara de ser batizado por João Baptista e recebera o Espírito para a missão (cf Lc 3,21-22). Agora, é impelido ao deserto pelo Espírito Santo, para preparar proximamente o ministério em sobriedade e oração, e confronta-Se com uma proposta de atuação messiânica que subverte a proposta do Pai: prescindir de Deus e seguir um caminho mundano de êxitos, aplausos, poder e riqueza. No entanto, soube dizer não a todas as propostas que O afastavam do plano do Pai. “E o diabo retirou-se de junto dele” (Lc 4,13).
Mais do que um relato de episódios da vida de Jesus no início do seu ministério público, o texto evangélico é uma catequese sobre o modo como Jesus foi posto à prova (vd Lc 4,13). Servindo-se de imagens bíblicas e citações do AT (Antigo Testamento), o autor sintetiza imageticamente a luta contra o mal que Jesus manteve, não só durante algum tempo, mas durante toda a sua vida.
O médico Lucas sugere que Jesus recusou radicalmente o caminho de materialismo, poder, êxito fácil, pois o plano de Deus não passa pelo egoísmo, mas pela partilha; não passa pelo autoritarismo, mas pelo serviço; não passa por manifestações espetaculares impressionantes para as massas, mas pela proposta de vida plena, feita de simplicidade e amor. E esse caminho foi sugerido aos seguidores de Jesus, embora eles fossem amiúde tentado a trilhar outras vias.
O texto lucano mostra a preparação de Jesus para a atividade que está para inaugurar, manifestando uma superioridade serena sobre os adversários que encontrará no ministério. Jesus permanece permanentemente fiel à vontade de Deus, sem ambição pessoal, sede de poder ou egocentrismo. Nada o desviará da sua missão messiânica; vive a sua realidade de Filho de Deus como homem autêntico, sem procurar fugir da condição humana comum a todos, pois faz questão de Se afirmar como Filho do Homem, assumindo por inteiro a marca da Humanidade, para que o homem seja cada vez mais homem.
Lucas (como já o havia feito Mateus) apresenta a catequese sobre as opções de Jesus, em três “miniparábolas”. O relato constrói-se em torno dum diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam a Escritura em apoio da sua postura. A 1.ª “miniparábola” sugere que Jesus podia optar pela via da facilidade e riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material. Mas Ele sabe que “nem só de pão vive o homem” e que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3, sugerindo que o seu alimento, a sua prioridade, é a Palavra do Pai. A 2.ª “miniparábola” sugere que Jesus podia ter escolhido um caminho de poder, domínio, prepotência, ao jeito dos grandes da terra. Porém, Ele sabe que esses esquemas diabólicos não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o “Absoluto” e que não se deve adorar mais nada nem mais ninguém: adorar o poder que corrompe e escraviza é contrário ao projeto de Deus. E a 3.ª “miniparábola” sugere que Jesus poderia ter construído um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo “show” mediático). Jesus responde citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus. Aqui, “tentar” significa “não utilizar os dons de Deus ou a bondade de Deus com um fim egoísta e interesseiro”.
Apresentam-se, portanto, diante de Jesus, dois caminhos: dum lado, a proposta do diabo, de que Jesus realize o seu papel na história da salvação como um Messias triunfante, ao jeito dos homens; do outro, a escolha de Jesus, o caminho de obediência ao Pai e de serviço aos homens, que elimina qualquer conceção do messianismo como poder.
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Os elementos comuns – tentação, deserto, 40 dias – sugerem o paralelo entre este texto e a prova de Israel no deserto, durante o Êxodo. As respostas de Jesus são citações que provêm do Deuteronómio (Dt 8,3; 6,16.13), considerando a experiência de Israel no deserto como prova a superar e referindo-se a três acontecimentos peculiares: murmuração do povo antes do maná; murmuração antes do milagre da água em Massa; e chamada de atenção de Moisés ao povo contra o perigo da idolatria.
Nas primeiras tradições cristãs a expressão “filho de Deus” tinha um acento messiânico: Jesus, vitorioso sobre Satanás, neste novo êxodo revela-Se como o messias esperado. Mas Lucas não se fixando na história passada, mostra-se menos sensível que Mateus em relação à experiência de Israel no deserto. Para ele, o novo êxodo é, antes de mais, o drama pascal que se desenrolará em Jerusalém, ponto central de toda a sua obra (Evangelho e Atos dos Apóstolos). Por isso, inverte a ordem das tentações, finalizando com Jesus no Templo e não sobre o alto dum monte, como faz Mateus. A insistência Lucana sobre o “diabo” visa a apresentação, desde já, da personagem que reentrará em cena no momento da Paixão – o tempo oportuno – para entrar em Judas (vd Lc 22,3-5) e inspirar os responsáveis do drama. E o pão já não é o maná do deserto, como em Mateus, que grafa pães no plural.
Mais que a imagem dos dons de Deus e do dom por excelência que alimenta o povo – a Lei – o pão é agora o símbolo da vida, a vida que somos sempre tentados a compreender não como dom, mas como algo de que queremos ser senhores. Também Jesus, ao longo da sua vida, foi tentado a servir-se do poder divino, de Filho de Deus, para resolver as suas dificuldades e problemas comuns a todos os homens. Agindo deste modo, afastar-se-ia da condição humana, deixando de ser solidário com os outros. Neste sentido, compreende-se a tentação do malfeitor impenitente sobre a cruz: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (vd Lc 23,29).
Neste Evangelho (vd Lc 4,6), como nos Atos, fala-se claramente do poder de Satanás (At 26,18). A grande tentação está entre o domínio e o serviço. Jesus é tentado a dominar os que o rodeiam, servindo-se do estatuto de Mestre e Filho de Deus. Mas a sua opção foi a do serviço: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). No Calvário os soldados desafiarão Jesus: “Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!” (Lc 23,37). Jesus recusa esta conceção de poder. Já no momento da sua prisão ele tinha dito: “Esta é a vossa hora e o poder das trevas!” (Lc 22,53).
A provação do Templo não é propriamente a de se apropriar dos dons de Deus, de colocar o poder de Deus ao serviço dos seus projetos particulares, mas a de fugir ao seu destino, evitando a prova. É a tentação do angelismo narcisista a quem procura viver a relação íntima com Deus, exigindo de Deus uma prova do seu amor e uma proteção especial. “Salvou outros! Salve-se a si mesmo, se ele é o Cristo de Deus, o Eleito!” (Lc 23,35) – ironizarão os chefes do povo, propondo ao Crucificado que assuma um destino incomum. Ora, Jesus quer viver a confiança filial no Pai na obediência quotidiana como homem que não espera privilégios nem intervenções extraordinárias, mas que aceita pacientemente o seu destino até ao fim e nele reconhece a proximidade divina: não em resignação, mas no pleno uso da liberdade pessoal.
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Fazer de Deus a nossa referência fundamental
A passagem do livro do Deuteronómio (Dt 26,4-10), tomada para 1.ª Leitura desta dominga, convida a eliminar os ídolos (falsos deuses: heróis, dinheiro, prazer, poder, prestígio), em que, às vezes, apostamos tudo, e a fazer de Deus a nossa referência fundamental. Alerta-nos, na mesma lógica, contra a tentação do orgulho e da autossuficiência, que nos levam a caminhos de egoísmo, egotismo e egocentrismo, de desumanidade, de desgraça e de morte.
O Deuteronómio é o “livro da Lei” ou “livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no 18.º ano do reinado de Josias (622 a. C.). Nele os teólogos deuteronomistas (originários do norte mas refugiados no sul, em Jerusalém, após as derrotas dos reis do norte frente aos assírios) expõem os dados fundamentais da sua teologia: há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém) e que amou e elegeu Israel, com quem fez uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um povo único, unido, a propriedade pessoal de Jahwéh, pelo que não têm qualquer sentido as divisões históricas que levaram o Povo de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão.
Literariamente, o livro compendia discursos de Moisés pronunciados nas planícies de Moab. Com efeito, antes de entrar na Terra Prometida, Moisés lembrou ao Povo os compromissos para com Deus e convidou os israelitas à renovação da aliança com Jahwéh.
Em concreto, o texto em referência integra um bloco (cf Dt 12-26) que apresenta “as leis e os costumes” que o Povo da aliança devia pôr em prática na terra de que iria tomar posse. Uma dessas leis estipulava que fossem oferecidos ao Senhor os primeiros frutos da terra e que o israelita formulasse a sua “confissão de fé”. Provavelmente, este costume israelita radica no costume cananeu: cada ano, por ocasião da recolha dos produtos da terra, o cananeu celebrava festa em honra de Baal, a divindade da fecundidade e da vegetação, agradecendo-lhe os dons da terra. Israel, porém, sabendo que não era a Baal, mas a Jahwéh, que devia agradecer tudo, centrava a confissão de fé na ação de Deus em favor do seu Povo, sublinhando sobretudo a libertação do Egito, os acontecimentos do deserto, a eleição e o dom da Terra.
Todo este “credo”, que acompanha a oferta das primícias da terra e recapitula as antigas intervenções do Senhor em prol do seu Povo (eleição dos patriarcas, êxodo, dom da Terra), tem como objectivo último afirmar e reconhecer que essa Terra Boa – e tudo o que cresce sobre ela – onde Israel construiu a sua existência é dom de Deus e produto do Seu amor em favor do Povo. É isso que significavam e simbolizavam as primícias que o israelita depositava sobre o altar, por meio do sacerdote. E as ofertas que fazemos ao Senhor significam para nós hoje que tudo o que temos e produzimos, mesmo que à custa do nosso trabalho, é dom de Deus, não como objeto de estimação pessoal, mas para provermos ao nosso desenvolvimento pessoal segundo o coração de Deus e providenciarmos ao dinamismo da partilha, fazendo cimentar e crescer a comunidade. 
As profissões de fé que os israelitas eram instados a pronunciar periodicamente na liturgia faziam parte da pedagogia de Deus, com vista a prevenir o Povo contra a tentação da idolatria. Por um lado, Israel era estimulado a reconhecer o seu Senhor e que tudo era um dom do Seu amor, não de outros deuses; e, por outro, Israel sentia-se incitado a libertar-se do orgulho, do egoísmo, da autossuficiência e a reconhecer que tudo o que era e que tinha não era fruto de conquista humana, mas de Jahwéh. Israel era, assim, convidado a reconhecer que só no amor e na ação de Deus encontrava a vida e a felicidade.
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Sobre a “carta da reconciliação”
A Carta aos Romanos é tida por alguns como a “carta da reconciliação”. Na verdade, nos anos 57/58, a convivência entre judeo-cristãos e pagano-cristãos apresenta problemas, dadas as diferenças sociais, culturais e religiosas subjacentes aos dois grupos. A comunidade cristã corria o risco de radicalizar as incompatibilidades e de se dividir. Nesta situação, Paulo escreve a vincar o que a todos une. O núcleo da carta seria, nesta perspetiva (Rm 15,7): “Acolhei-vos, pois, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus”.
O texto assumido para 2.ª leitura do I domingo da Quaresma no Ano C (Rm 10,8-13) pertence à primeira parte da carta (Rm 1-11), cuja síntese pode ser: o Evangelho de Jesus é a força que congrega e que salva todo o crente (judeus e pagãos).
Depois de demonstrar que todos os homens vivem mergulhados em ambiente de pecado (Rm 1,18-3,20), mas que a “justiça de Deus” dá a vida a todos sem distinção (Rm 3,21-5,11) e que é em Jesus que essa vida se comunica (Rm 5,12-8,39), o apóstolo reflete sobre o desígnio de Deus a respeito de Israel (Rm 9,1-11,36) e põe em relevo o que une judeus e gregos: a mesma fé em Jesus Cristo e na proposta de salvação que Ele traz.
Nos versículos anteriores (cf Rm 9,30-10,4), Paulo criticara o orgulho e a autossuficiência dos judeus, que pensavam chegar à salvação pelas obras que praticavam, ou seja, se cumprissem as obras da Lei, Deus teria de os salvar. Ora, ótica paulina, a salvação não é conquista humana, mas dom gratuito de Deus que, na sua bondade, “justifica” o homem. E foi essa autossuficiência que levou os judeus a desprezar a salvação de Deus, oferecida gratuitamente em Jesus Cristo. Ao invés, os pagãos, com simplicidade e humildade, acolheram a salvação que Jesus trouxe.
Porém, nada está perdido para os judeus. Basta-lhes, como a todos, acolher Jesus como “o Senhor” e aceitar a sua condição de ressuscitado e dela dar testemunho, o que significa aceitar que Ele veio de Deus e que a salvação que proclama tem a chancela de Deus. Assim, nascerá um povo único, sem distinção de raça, cor ou estatuto social. O que é decisivo é acolher a proposta de salvação que Deus faz através de Jesus e aderir a essa comunidade de irmãos, “justificados” pela bondade e pelo amor de Deus.
Nestes termos, o texto paulino convida-nos a prescindir duma tentadora atitude arrogante e autossuficiente em relação à salvação que Deus nos oferece, pois a salvação não é conquista nossa, mas dom gratuito de Deus. É preciso, pois, “converter-se” a Jesus, isto é, reconhecê-Lo como o “Senhor” e acolher no coração a salvação que, n’Ele, Deus nos propõe.
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Estamos a sair do cais de embarque para navegarmos no mar da Quaresma com Cristo ao leme a rumar para o porto seguro da Páscoa da Ressurreição, em cujo cais o Pai nos faz irmãos em Cristo e, como Ele, nos torna seres verdadeiramente pensantes e sencientes para viver a Vida.
No silêncio reflexivo e orante, na escuta da Palavra, na celebração da fé, na aceitação da reconciliação e no exercício da partilha, superaremos como Cristo (e com a sua ajuda) os testes dramáticos que se nos deparem, teremos um gasto de energia emocional útil, alcançaremos maior compreensão do mistério de Cristo, participaremos na consolidação da comunidade e o nosso estilo de vida será um digno testemunho para que os outros creiam. E cada um medite:
Aquele que habita sob a proteção do Altíssimo e mora à sombra do Omnipotente pode exclamar: ‘SENHOR, Tu és o meu refúgio, a minha cidadela, o meu Deus, em quem confio!’.” (Sl 91,1-2).
2019.03.10 – Louro de Carvalho

domingo, 13 de janeiro de 2019

Pelo nosso Batismo, tornamo-nos todos discípulos missionários


Com a Festa do Batismo do Senhor, abre-se em grande, a porta do Tempo Comum, em pleno Ano Missionário (e rumo a outubro de 2019, o mês missionário extraordinário). Jesus não Se manifesta de modo aparatoso e extraordinário. Antes Se manifestou extremamente humilde no Presépio; passou despercebido na família de Nazaré 30 anos; continua igual a Si mesmo, escondido entre o povo, entre a fila dos pecadores; desce às águas do Jordão e deixa-Se batizar por João; e inicia a Sua vida pública. E nós recordamos que, por via do Batismo, nos tornámos todos discípulos missionários no alinhamento com o mote para o Ano Pastoral em curso na diocese do Porto. 
A liturgia desta dominga de festa, que funciona como o domingo I do Tempo Comum, tem como pano de fundo o projeto salvador de Deus. No Batismo de Jesus nas margens do Jordão, o Pai revela-nos com gosto o Seu Filho muito amado, que enviou ao mundo a salvar e libertar os homens e que ungiu como Messias, com o Espírito Santo. E, cumprindo a vontade do Pai, Jesus fez-Se um de nós, partilhou a nossa fragilidade e humanidade, libertou-nos do egoísmo e do pecado e empenhou-Se em promover-nos para chegarmos à vida plena. Se, no presépio, surgiu como criança deitada em palhinhas, no Jordão apresenta-Se ao Batista como um simples penitente. E, quando o Batista se inibe, porque devia ser o Mestre a batizar o precursor, “Jesus respondeu-lhe: ‘Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça’.” (Mt 3,15). 
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Na 1.ª leitura (Is 42,1-4.6-7), num trecho pertencente ao Livro da Consolação ou Deuteroisaías (cf Is 40-55) anuncia-se um Servo, eleito por Deus e enviado a instaurar o mundo de justiça e de paz sem fim. Animado pelo Espírito de Deus, concretizará a missão com humildade e simplicidade, sem recurso ao poder, imposição ou prepotência, pois esses não são os critérios de Deus.
As duas partes em que se divide esta passagem de Isaías afirmam – como dois movimentos concêntricos e centrípetos, que partem do mesmo sítio e terminam de modo similar – a eleição do “Servo” e a sua missão.
Na primeira parte (vv 1-4) desenvolvendo-se mais o aspecto da vocação ou chamamento, afirma-se que o Servo é um eleito (behir) de Deus, alguém que Deus escolheu (bahar), entre muitos, para uma missão especial e universal. A ordenação ou configuração do Servo para a missão faz-se através do dom do Espírito (ruah), que lhe dá o alento de Jahwéh e a capacidade para levar a cabo a missão: é o mesmo Espírito que Deus derrama sobre os chefes carismáticos do Povo. Com esse Espírito, o “Servo” levará, sem desânimo, mas com ousadia e coragem, “a justiça (mishpat) a todas as nações”, que será a base duma ordem social consonante com o projeto de Deus e cuja instauração não se dará com o recurso à força, violência, espetáculo, mas através da bondade, mansidão, misericórdia e simplicidade – definidas pela lógica de Deus (cf Mt 5,3-11).
Já na segunda parte (vv 6-7), embora comece por afirmar-se que o Servo foi chamado por Deus, sobressai mais a missão: a instauração da justiça, ou seja, o estabelecimento de uma reta ordem social. Assim, Deus convida o Servo a ser “a luz das nações”, abrindo os olhos aos cegos, tirando do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas – uma missão de libertação e de salvação (cf Is 61,1-3; Lc 4,17-19).
Fica, enfim, claro que o Servo é um instrumento pelo qual Deus age no mundo para levar a salvação aos homens. Escolhido entre muitos para a missão de trazer a justiça e propor a todas as nações uma nova ordem social de que desaparecerão as trevas alienantes e impeditivas de caminhar e de oferecer a todos a liberdade e a paz. Por outro lado, fica evidente que Deus está na origem da missão do Servo e no acompanhamento da sua concretização, a garantir-lhe o pleno êxito.
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O Evangelho (Lc 3,15-16.21-22) mostra a concretização, em Jesus, da promessa profética de Isaías veiculada pela 1.ª leitura. Porém, Jesus mais que o Servo é o Filho de Deus enviado pelo Pai. Sobre Ele repousa o Espírito para que realize a missão de libertação dos homens. Obediente ao Pai tornou-se uma pessoa humana, identificou-Se com as nossas fragilidades, caminhou ao nosso lado, com vista a levar-nos à reconciliação com Deus, que nos dará a vida em plenitude.
O Batismo de João, um batismo de penitência, não é o Batismo que Jesus instituiu, o da nova economia da Aliança, o que abre o caminho da salvação e da comunhão com Deus:
Eu batizo-vos em água, mas vai chegar alguém mais forte do que eu (…). Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo.” (Lc 3,16).
Todavia, é importante por revelar a teofania da filiação divina de Jesus e da missão messiânica:
Todo o povo tinha sido batizado; tendo Jesus sido batizado também, e estando em oração, o Céu rasgou-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado’.” (Lc 3,21-22).
Fica evidente que o contexto da sagração de Jesus para a missão é a assimilação ao povo, aos irmãos e a oração. Depois, ao invés do fechamento céu para os judeus, que tolhia a comunicação de Deus com os homens (não enviava profetas, estavam sujeitos ao jugo romano: parecia que Deus os tinha abandonado), agora o Céu rasga-se: o Espírito Santo desce em forma corpórea e o Pai fala. E diz de e a Jesus: Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado’. Que mais queremos para a teofania divina em Jesus e para a sua missão? A sua unção messiânica não é comum: não é unção com o óleo humano, mas unção radical e totalmente divina.
Em efervescência messiânica, a figura e a atividade de João Batista na Palestina criam a suspeita do seu messianismo. Mas João rejeita categoricamente tal suspeita. Ele não é o Messias; a sua missão, mesmo como ministrador do batismo de penitência e de purificação, é a de preparar o Povo para o tempo novo que vai começar com a chegada do Messias, que João define como “aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno desatar as correias das sandálias”. “Desatar as correias das sandálias” era tarefa de escravo, pelo que a tradição rabínica proibia o discípulo de desatar as correias das sandálias do mestre. Assim, João confessa-se o “escravo” cuja missão é estar ao serviço do Messias que está a chegar e que “batizará com o Espírito e com o fogo”. O batismo no Espírito Santo e a fortaleza são prerrogativas que enformam o Messias que Israel esperava. Por isso, o testemunho de João não oferece dúvidas: chegou o tempo do Messias. Na ótica lucana, esta predição joânica concretizar-se-á no dia de Pentecostes: Do fogo do Messias derramado sobre os discípulos reunidos no cenáculo nascerá um Povo novo e livre, a comunidade da nova Aliança.
O cenário do batismo identificará claramente o Messias anunciado por João com o próprio Jesus (vv 21-22). O Espírito Santo, que desce sobre Jesus “como uma pomba”, remete para a figura do Servo descrito por Isaías, já referido. E a voz celeste apresenta Jesus como o Filho muito amado de Deus (v 22), cuja missão será, como a do Servo: “abrir os olhos aos cegos, tirar do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas” (Is 42,7). E, para concretizar essa missão, Ele batizará no Espírito e inserirá os homens numa dinâmica de vida nova – a vida no Espírito.
No “baptismo” de Jesus, o testemunho de Deus acerca de Jesus é acompanhado por três factos estranhos que, no entanto, devem ser entendidos em referência a factos e símbolos do Antigo Testamento: abertura do céu, que significa a sua união com a terra – imagem inspirada em Is 63,19 (Quem dera que rasgasses os céus e descesses, derretendo os montes com a tua presença), onde o profeta pede a Deus que abra os céus e desça ao encontro do seu Povo, refazendo a relação que o pecado interrompeu (Assim, Lucas anuncia que a atividade de Jesus vai reconciliar o céu e a terra, vai refazer a comunhão entre Deus e os homens); símbolo da pomba, que, podendo ser uma alusão à pomba que Noé libertou e que retornou à arca, com maior probabilidade evocará a pomba que, em certas tradições judaicas, é símbolo do Espírito de Deus que, no início, pairava sobre as águas e agora significará a nova criação que se realizará a partir da atividade que Jesus vai iniciar e que fará aparecer um Homem Novo animado pelo Espírito de Deus; e a voz do céu – forma muito usada pelos rabis para expressar a opinião de Deus acerca duma pessoa ou dum acontecimento –, que declara que Jesus é o Filho de Deus.
Jesus não precisava dum batismo cujo significado estava ligado à penitência, ao perdão dos pecados e à mudança de vida. Contudo, ao receber este batismo de penitência e de perdão dos pecados, Jesus solidarizou-Se com o homem limitado e pecador, assumiu a sua condição, colocou-Se ao lado dos homens para os ajudar a sair desta situação e para percorrer com eles o caminho da libertação rumo à vida plena.
O Batismo de Jesus revela, portanto, que Jesus é o Filho de Deus, que o Pai O envia ao mundo a cumprir um projeto de libertação em prol dos homens. E, como Filho, Jesus obedece ao Pai e concretiza o Seu desígnio salvador: vindo ao encontro dos homens, solidariza-Se com eles, assume as suas fragilidades, caminha com eles, refaz a comunhão entre Deus e os homens que o pecado interrompeu e conduz os homens ao encontro da vida em plenitude. Daqui resultará, pois, uma nova criação, uma nova humanidade.
Por fim, é de reconhecer que Jesus, a partir do Seu Batismo na água, deu um novo sentido ao Batismo: veio o Espírito, que O levará ao deserto, à criação do colégio apostólico, à cruz e nos dará o Pentecostes. E, tal como Jesus, após o batismo, ficou mandatado para a missão, também nós, pelo batismo que recebemos em nome de Cristo, ficamos matriculados como discípulos na escola do mestre com vista à missão que nos entregou aquando da Sua ascensão aos Céus:
E disse-lhes: ‘Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto’. Depois, levou-os até junto de Betânia e, erguendo as mãos, abençoou-os. Enquanto os abençoava, separou-se deles e elevava-se ao Céu.” (Lc 24,46-51).
 Somos, pois, discípulos missionários a partir do Batismo, com a nossa incorporação em Cristo.
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A 2.ª leitura (At 10, 34-38) leva-nos a uma leitura pascal e missionária do Batismo de Jesus. à luz da qual também nós somos seres pascais, porque revestidos da luz de Cristo, e missionários porque testemunhas suas e seus mandatados para ir por todo o mundo proclamar o Evangelho a toda a criatura (cf Mc 16,15).
Pedro diz que, depois do batismo de João, Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré, que “passou pelo mundo fazendo o bem” e libertando todos os que eram oprimidos. Entretanto, mataram-No, suspendendo-O de um madeiro. Mas Deus ressuscitou-O, ao terceiro dia, e permitiu-Lhe manifestar-Se às testemunhas anteriormente designadas por Deus, “a nós que comemos e bebemos com Ele, depois da sua ressurreição dos mortos”. E mandou-nos pregar ao povo e confirmar que Ele é que foi constituído, por Deus, juiz dos vivos e dos mortos (cf At 10,37-42). Tem, assim, tudo origem no Batismo do Jordão na perspetiva petrina. Com efeito, enquanto os evangelhos sinóticos, após o Batismo O remetem para o deserto, conduzido pelo Espírito para ser tentado e depois se afirmar como o Ungido de Deus e pregar a proximidade do Reino, o 4.º Evangelho apresenta-O, a seguir ao batismo, como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo e a recrutar e selecionar os discípulos para o colégio apostólico e para a missão. Pedro assim reafirma que Jesus é o Filho amado que o Pai enviou ao mundo para concretizar um projeto de salvação e que é este o testemunho que os discípulos devem dar, para que a salvação que Deus oferece chegue a todos os povos da terra.
O livro dos Atos contém, em modo narrativo e, por vezes, oratório, uma abundante catequese, na etapa inicial da Igreja, sobre a forma como os discípulos, após a partida de Jesus deste mundo, assumiram e continuaram o projeto salvador do Pai e o levaram a todos os homens.
O livro divide-se em duas partes. Na primeira (cf At 1-12), apresenta-se a difusão do Evangelho dentro das fronteiras palestinas, por ação de Pedro e dos Doze; e, na segunda (cf At 13-28) apresenta-se a expansão do Evangelho fora da Palestina (até Roma), sobretudo por ação de Paulo.
O trecho assumido nesta liturgia inere-se na primeira parte, numa perícopa que descreve a atividade missionária de Pedro na planície do Sharon, planície junto da orla mediterrânica palestina. O texto expõe o testemunho de Pedro em Cesareia. Assim, convocado pelo Espírito (cf At 10,19-20), Pedro entra em casa de Cornélio, expõe-lhe o essencial da fé e batiza-o, bem como a toda a família (cf At 10,23b-48).
A relevância do episódio reside no facto de Cornélio ser o primeiro pagão a cem por cento a ser admitido ao cristianismo por um dos Doze, o que significa que se destina a todos os homens, sem exceção, a vida nova que nasce de Jesus.
No seu discurso, Pedro reconhece que a oferta da salvação é universal, ou seja, destina-se a todas e a cada uma das pessoas, sem distinção de qualquer tipo (vv 34-36). Israel foi, na verdade, o primeiro recetor da Palavra de Deus, mas Cristo veio trazer a boa nova a todos os homens. E agora, por intermédio das testemunhas de Jesus, essa proposta de salvação chega “a qualquer nação que o teme e põe em prática a justiça”. Ou seja, todo o homem e mulher, sem distinção de raça, de cor, de estatuto social, que aceita a proposta e adere a Jesus, beneficiam da salvação, porque “Deus não faz aceção de pessoas, mas, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, é-lhe agradável (cf 34-35).
E definidos os contornos universais da proposta salvadora de Deus, Pedro apresenta um resumo da fé primitiva (vv 37-38), que põe em ato a missão fundamental dos discípulos: anunciar Jesus e testemunhar essa salvação que deve chegar a todos os homens. O trecho de hoje contém apenas a parte inicial do “kérigma” primitivo e resume a atividade de Jesus que “passou pelo mundo fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele” (v 38). No entanto, o anúncio de Pedro continua com a catequese sobre a morte (v 39), sobre a ressurreição (v 40) de Jesus e sobre a dimensão salvífica da Sua vida (v 43).
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Partindo do Batismo no Jordão, em que o Pai e o Espírito revelam a filiação divina de Jesus e o ungem como Messias, fazendo a caminhada no colégio discipular e apostólico até à cruz, onde Jesus sofreu na carne o Batismo do sangue e do fogo, e ao túmulo vazio, em que se perspetiva a vitória, e apoiando-nos no episódio da Última Ceia, encontramos o segredo do mistério de Jesus Cristo, a relevância do nosso ser de cristãos e filhos de Deus e o imperativo da nossa missão.
2019.01.13 – Louro de Carvalho