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sábado, 28 de abril de 2018

A pessoa humana é ponto de encontro e instrumento de unidade


Esta é a grande asserção do Papa Francisco proferida, na Sala Paulo VI, no dia de hoje, 28 de abril, perante os cerca de 700 participantes na IV Conferência Internacional, promovida pelo Pontifício Conselho para a Cultura, sobre o tema: “Unidos para curar”. Disse o Santo Padre:
Quando vejo representantes de culturas, sociedades e religiões diferentes unir as suas forças, para empreenderem um percurso comum de reflexão e compromisso em prol de quem sofre, fico muito feliz, pois a pessoa humana ‘é ponto de encontro e instrumento de unidade’. De facto, diante do problema do sofrimento humano é preciso saber criar sinergias entre pessoas e instituições, para superar os preconceitos e cultivar maior consideração pela pessoa enferma.”.
Referindo-se ao percurso da Conferência, o Papa sintetizou-o em quatro linhas: prevenir, restabelecer, cuidar e preparar o futuro.
Explicando cada uma destas linhas, Francisco frisou que “estamos cada vez mais cientes de que muitos males podem ser evitados, se houver maior atenção pelo estilo de vida e pela cultura que promovemos”. Eis porque é importante “prevenir”, ou seja, ter uma perspetiva profética em relação ao ser humano e ao ambiente, por uma cultura de equilíbrio para se viver melhor e com menos riscos, em diversos âmbitos: educação, atividade física, observância dos códigos de saúde, derivantes de práticas religiosas e diagnose. E sublinhou:
Isto é particularmente importante se pensarmos nas crianças e jovens, cada vez mais expostos aos riscos de doenças, ligados às mudanças radicais da civilização moderna. É só perceber o impacto que têm sobre a saúde o fumo, o álcool, as substâncias tóxicas, que poluem o ar, a água e o solo, além do alto percentual de tumores. Logo, torna-se urgente uma maior sensibilidade de todos por uma cultura de prevenção para tutelar a saúde.”.
Nesta ordem de ideias e preocupações, o Bispo de Roma realçou, com enorme satisfação, o grande esforço da pesquisa científica na descoberta de novas curas, mormente em âmbito regenerativo. Portanto, é preciso restabelecer e curar, mas, neste contexto, é fundamental aumentar a nossa responsabilidade em relação ao ser humano e ao ambiente. E ponderou:
Enquanto a Igreja louva todo o esforço de pesquisa e seus resultados para curar as pessoas que sofrem, recorda um dos princípios fundamentais: ‘nem tudo o que é tecnicamente possível e executável  é eticamente aceitável’. A ciência sabe que tem limites e senso de responsabilidade ética, pelo bem da humanidade. A verdadeira medida do progresso visa o bem do homem na sua totalidade.”.
E, numa outra e última linha, estendida pelo Papa, com base na temática da Conferência Internacional: preparar o futuro, considerando o bem de toda a pessoa humana, afirmou que “devemos refletir sobre a saúde humana, não só em nível científico, mas também preservando e tutelando o ambiente em que vivemos”.
E, no termo da audiência, Francisco encorajou os participantes no Congresso e exortou-os a preparar o futuro mediante uma dúplice ação: reflexão interdisciplinar, na presença de peritos, por um maior intercâmbio de conhecimentos; e ações concretas pelos que mais sofrem.
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Se a predita na IV Conferência Internacional se centra na pessoa humana pelo lado da prevenção e da cura dos males, evidenciando o sofrimento, Mons. Maurizio Bravi, observador permanente da Santa Sé na Organização Mundial do Turismo (OMT), através da Sala de Imprensa da Santa Sé, referiu-se hoje ao Programa dos Itinerários Culturais do Conselho da Europa, a que a Santa Sé aderiu formalmente a 21 de março de 2018.
Salientando que, mais do que o turismo e a arqueologia, o património cristão é desafio e interpelação, frisou que a intenção do programa em referência é mostrar que “o rico património cultural dos países europeus é uma realidade que, apesar de poliédrica, os une, como compartilhadas são as raízes históricas que a geraram”. E, aqui, é de salientar que na cultura e pela cultura se vê o rosto do homem e da comunidade com que interage e em que se desenvolve.
Não é por acaso que, segundo o referido prelado, os itinerários culturais europeus se apresentam como “uma tradução em chave cultural e turística dos valores fundamentais a que o Conselho da Europa faz referência para a sua ação política, como os direitos do homem, a democracia, o Estado de direito, o diálogo e o intercâmbio intercultural; valores que ultrapassam as fronteiras territoriais nacionais e que, na sucessão de diferentes períodos históricos, encontraram expressões culturais eloquentes, que se tornaram parte do património comum europeu”.
Como fica plasmado no site do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), a estreia oficial do programa dos itinerários culturais europeus ocorreu em 1987, com a certificação do 1.º itinerário, “Os Caminhos de Santiago de Compostela”, destacando-se como significativo o facto de se ter começado por uma antiga rota de peregrinação, ainda muito frequentada (talvez com frequência renovada, promovida e intensificada), “a exprimir as aspirações e os destinos comuns do continente”, em cuja história a dimensão religiosa desempenhou “papel importante e decisivo”.
A seguir, nasceram e foram certificados outros 30 itinerários, alguns com referência direta à tradição religiosa do continente: a Via Francigena (1994); a rota do património judaico europeu (2004); o itinerário de São Martinho de Tours (2005); os sítios cluniacenses na Europa (2005); a Transromênica, os itinerários do património românico europeu (2007); o itinerário europeu das abadias cistercienses (2010); o itinerário europeu dos cemitérios (2010); o itinerário dos caminhos de Santo Olavo (2010); os caminhos dos huguenotes e dos valdenses (2013).
Entretanto, o programa inicial foi-se estruturando e organizando nos procedimentos relativos à certificação do “Itinerário Cultural do Conselho da Europa” e nas estruturas operacionais e estratégias da sua promoção. Neste aspeto, é de sublinhar “o desenvolvimento que conheceu o binómio cultura-turismo, até confluir num plano de ação europeu do turismo, para o qual os itinerários culturais contribuem grandemente”. E é de notar a relevância da assinatura, em setembro de 2006, do memorando de cooperação entre o Conselho da Europa e a OMT.
A execução técnica dos objectivos do Acordo foi confiada ao Instituto Europeu dos Itinerários Culturais, sediado na antiga abadia de Neumunster, no Luxemburgo, criado, em 1998, através de acordo entre o Conselho da Europa e o Grão-Ducado do Luxemburgo, para “avaliar itinerários certificados e oferecer suporte a novos projetos interessados ​​na certificação”.
Deve dizer-se que o programa dos itinerários culturais se propõe como um ‘canal’ para o diálogo intercultural e “compreensão da identidade da Europa, pela valorização do rico património histórico dos seus povos”. Assim, é de realçar que “a ideia da Europa não se esgota na adoção da moeda única comum ou apenas na regulação do seu mercado continental ou na elaboração de políticas económicas mais ou menos compartilhadas”. Há, na verdade, um pano de fundo de valores e ideais que deu vida, no tempo, à variada diversidade de expressões de uma “identidade comum” – poliédrica e variada –, “cuja redescoberta só pode beneficiar a própria identidade e servir como antídoto contra as recorrentes pressões nacionalistas”. Espera-se, assim, que 2018, que a UE declarou “Ano Europeu do Património Cultural” – iniciativa a que aderiu o Conselho da Europa – registe “uma consideração renovada do precioso papel da cultura na construção da sociedade e na escolha das orientações gerais da política comunitária”.
Por outro lado, como afirmava o cardeal Ratzinger numa poderosa intervenção perante o Senado da República Italiana (13 de maio de 2004), “a Europa apenas de maneira completamente secundária é um conceito geográfico: a Europa não é um continente claramente compreensível em termos geográficos, mas é um conceito cultural e histórico”.
Merecem especial atenção as expressões religiosas dessa sua identidade, que contribuíram notavelmente para moldar o rosto da Europa. Elas estão vivas em todos os países europeus e têm oferecido, ao longo do tempo, terreno fértil para o crescimento, amadurecimento, partilha e difusão de valores de grande conteúdo simbólico e ético. Delas são visível expressão os itinerários elencados referentes à peregrinação, experiência monástica, formas de piedade religiosa e figuras de santos, que “marcaram profundamente uma era e contribuíram para fixar os traços típicos da identidade europeia”. Tais itinerários são o testemunho histórico de como a experiência religiosa, em particular a cristã, se traduziu em cultura e como esta encontrou força inspiradora na religião, vindo a expressar-se em edifícios singulares (catedrais, basílicas, igrejas, mosteiros, etc.), valiosas obras de arte (retábulos, pinturas devocionais, ícones, joias e objetos de artesanato sacro, etc.), textos musicais e literários (canto gregoriano, hinos medievais, poemas, representações sacras, etc.) que se encontram por todo o continente, em grandes cidades e em pequenas aldeias. Todo este património tem ainda muito a dizer ao homem europeu de hoje e convida a abrir os olhos e a mente à função social da cultura e do “sentimento religioso”.
São, pois, atuais as considerações de Romano Guardini que, estudando a incidência do elemento religioso na totalidade da existência, salientava como sempre iminentes dois extremos possíveis: a “religiosidade que se retira cada vez mais dos campos de vida cultural”, fazendo-se “mais interior”; e a cultura que se torna mera expressão horizontal da autonomia humana em que “o homem cai à mercê da sua própria obra”. Desta verificação “deve nascer o compromisso de congraçar os dois âmbitos, religião e cultura, e entabular um diálogo livre de contraposições ideológicas e preconceitos, na ótica dum serviço compartilhado ao bem integral da pessoa humana e da construção da sociedade. É de considerar o desejo do Papa comunicado aos participantes da conferência “(Re)Pensar a Europa”, organizada pela COMECE (Comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia), em colaboração com a Secretaria de Estado da Santa Sé, a 28 de outubro de 2017, de “considerar o papel positivo e construtivo que, em geral, a religião tem na edificação da sociedade”.
Assim, “a conservação, valorização e promoção do vasto património cultural europeu, fruível também em chave turística, não se limita a uma necessária recuperação arqueológica, mas pretende torná-lo disponível para o conhecimento e leitura de uma mensagem que desafia a nossa contemporaneidade e cujo valor transcende o tempo e o espaço em que foi criado, voltando a propor as sempre atuais questões sobre o sentido do viver e do agir do homem no mundo”. (vd Vatican News e SNPC – 28de abril de 2018).
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Está a prosa de Mons. Bravi em consonância com o Papa Francisco. Com efeito, o homem é ponto de encontro e unidade, mas também centro, fator e objeto da cultura.
2018.04.28 – Louro de Carvalho

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A secularidade enquanto marca do cristianismo

A leitura da síntese da intervenção de Sérgio Ribeiro Pinto, no passado dia 30 de janeiro, no âmbito das Jornadas de Formação do clero do sul promovidas pelo ISTE (Instituto Superior de Teologia de Évora) levou-me a pensar na secularidade como uma das vertentes do ser e viver cristãos e não como algo de estranho ou até inimigo da causa cristã.
O predito conferencista – historiador e investigador do Centro de Estudos de História Religiosa do Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade Católica Portuguesa – explicou ao clero do sul do país as “raízes” e as “causas” da secularização.
Ora, a palavra “secularização” vem de “saeculum”, que, no latim clássico, significava “século” (período de cem anos) e também “idade”, “época”. Porém, no latim eclesiástico, adquiriu o significado de “o mundo”, “a vida do mundo” e “o espírito do mundo”. E viver no mundo é a caraterística do ser humano, que dele sai pela morte. E os cristãos, embora almejem a vida eterna, como cume da realização e da felicidade que se efetivam na contemplação de Deus, estão no mundo com uma missão de aperfeiçoamento pessoal e desenvolvimento comunitário, que passa pela otimização das relações interpessoais com base na solidariedade, formação das consciências, construção das comunidades, utilização do trabalho para dignificação do homem e valorização, salvaguarda da “Casa Comum”. Esta a secularidade como condição do homem e, por consequência, do cristão.
À partida, não seria necessário colocar-se o problema da secularização. Não fazia sentido tornarmo-nos o que já somos. Todavia, o termo “secularização”, utilizado já no século XVI, figura, no século XVII, no Tratado de Vestefália (1648), para referir o abandono do sacerdócio ou da vida religiosa e com o sentido jurídico de apropriação pelo “mundo” de bens pertencentes à Igreja. E, no século XIX, assumiu um significado cultural, designando “um processo de mundanização vivido pela sociedade no seu conjunto”.
Hoje continua o debate, sobretudo no domínio teológico, sobre a secularização. Uns condenam-na por entenderem que ela estaria na base do afastamento da religião; outros saúdam-na como condição da purificação religiosa, da liberdade e da paz – na ótica de que é preciso dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César (cf Mt 22,21).
Como se depreende do que motiva e sustenta o debate, é que existem vários sentidos de secularização. Pode ser vista como “eclipse do sagrado”, “autonomia do profano”, “privatização da religião”, “retrocesso das crenças e práticas religiosas”, “mundanização das próprias Igrejas”. Nesta panóplia de sentidos, interessa sobretudo o sentido de secularização com vista à legitimidade da autonomia das realidades terrestres. É justo distinguir e até separar o sagrado do religioso, as Igrejas do poder político, mas sem impedir a convivência, o respeito e a cooperação nas causas que podem ser comuns – o que o secularismo ou o laicismo exigem.  
Na perspectiva bíblica, o Deus transcendente e pessoal cria o mundo a partir do nada e por um ato de pura liberdade de amor. A criação assim entendida implica uma diferença qualitativa infinita entre Deus e a criatura e a real autonomia do mundo, que é mundano e não divino, e é o fundamento da aliança do Deus-Liberdade com homens e mulheres livres. Os homens não são deuses. Aqui reside a diferença. Porém, os homens são chamados a cooperar com a obra de Deus, a pôr-se em contacto com Deus e a viver a vida de Deus. E aqui reside a semelhança.
Se Deus cria por amor e não por necessidade, não há rivalidade nem concorrência de interesses entre Deus e a criatura. Ao invés, a vontade de Deus é a realização plena do homem: quanto mais vivo e realizado o ser humano for mais Deus é glorificado. Assim, a secularização no sentido da emancipação da razão autónoma e das esferas temporais tem fundamentos bíblicos e pertence à dinâmica adulta do cristianismo.
No entanto, é preciso tornar claro que a secularização não se confunde com secularismo, termo criado pela Londoner Secular Society, fundada por G. J. Holyoake, em Londres, em 1846, cujo programa consistia, em traços largos, em conceber e organizar a vida prescindindo de Deus e da religião. Ora, o crente maior de idade pressupõe e quer uma razão e um mundo adultos, mas sabe que a secularização não elimina o Mistério, pois a infinitude não é secularizável.
Neste contexto, o projeto de Tratado Constitucional Europeu, no artigo consagrado ao “estatuto das Igrejas e organizações não confessionais”, prevê “um diálogo aberto, transparente e regular com estas Igrejas e organizações”.
Porém, a secularização, enquanto separação da(s) Igreja(s) e do Estado constitui um avanço civilizacional fundamental em ordem à não discriminação dos cidadãos e à salvaguarda da paz, não pode significar indiferença mútua, minoração, hostilização. Pelo contrário, a separação pode e deve conviver de modo saudável com o reconhecimento do papel público das religiões, traduzido em múltiplas formas de cooperação entre as Igrejas e o Estado. Não é lícito calar a voz das Igrejas ou tentar remeter a fé e a religião para a esfera das consciências ou dos espaços privados. A fé evangélica dos crentes exprime-se na sociedade e tem de poder influenciar o devir social.
Na verdade, o cristão vive permanentemente a dialética ou tensão entre o mundo que há de vir, o da parusia, e o mundo presente, que é passageiro, Tanto assim é que na sua oração sacerdotal, Jesus pede ao Pai, não que tire do mundo (do século) os seus discípulos, mas que os livre do maligno, porque eles não são do mundo, como também Jesus não é do mundo (cf Jo 17,15-16).
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Também se fala de secularização em sentido oposto à clericalização. Suponho que, a este respeito, estabelecemos demasiadas barreiras. Além de se rotular estranhamente de “redução ao estado laical” (não se deixa de ser bispo, presbítero ou diácono por despacho ou por casamento, como os clérigos não deixam de pertencer ao povo – laós, em grego) o facto de um sacerdote ficar dispensado das funções sacerdotais e poder vir a contrair matrimónio, falamos de secularização dos padres quando se entregam a atividades não diretamente conexas com a evangelização e culto no sentido estrito. Falamos do clericalismo quando diáconos, padres e bispos querem intrometer-se em tudo quanto é devir social, económico e político ou quando pretendemos que os leigos intervenham no culto, na evangelização ou na ação pastoral como os padres ou em substituição dos padres.
Na verdade, os leigos, na sua qualidade de membros do sagrado laós, povo de Deus (condição adquirida pelo Batismo e reforçada na Confirmação) têm uma participação no tríplice múnus de Cristo: profecia, sacerdócio e realeza. Por isso, no âmbito do sacerdócio comum com o dos padres e bispos, exercem de pleno direito funções de evangelização e catequese, de participação na liturgia (com ou sem a presença do sacerdote) e no serviço à comunidade. Porém, enquanto aos sacerdotes (sacerdócio ordenado diferente do comum) cabe a presidência nos atos de culto, que é exclusiva no caso da celebração Eucarística, no sacramento da reconciliação e no da Unção dos Doentes (aos bispos cabe, em exclusivo, a ministração do sacramento da Ordem), o impulso e coordenação das tarefas de evangelização e a animação da ação pastoral – aos leigos cabe, além do já referido, a ação eminente no meio do mundo. E este mundo, que lhes incumbe eivar do espírito e do fermento do Evangelho, pela presença, pelo testemunho e, eventualmente, pela palavra, é o mundo da profissão, dos negócios, da política, do desporto, da dinamização social, do jornalismo.
Não obstante, os sacerdotes, que também são cristãos, não deixam de olhar o mundo e de nele intervir; e, se necessário ou oportuno, proferir uma palavra de orientação de forma que os cristãos, cada um na sua condição, saibam explicar as razões da sua fé e da sua esperança (cf 1Pe 3,15) e mostrem a sua caridade baseada na justiça, em cumprimento do novo mandamento do Senhor (vd Jo 13,34-35; 15,12-14).
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O que sucede é que não foi apenas a “transcendência religiosa” que perdeu vigor, também a “transcendência política” está em crise. Por isso, as sociedades liberais veem-se a braços com a dificuldade de fundamentar os valores e estabelecer vínculos de cidadania. Não faltam, assim, pensadores que fazem apelo à religião no seu papel espiritual, ético, cultural, pois sabem que, respeitando as autonomias individuais e o pluralismo democrático, as religiões podem dar um contributo positivo com os seus recursos simbólicos. Precisamente face aos enormes desafios éticos com que o nosso tempo se confronta, Jürgen Habermas, filósofo e agnóstico, manifesta interesse por uma aproximação respeitosa das tradições religiosas que se distinguem pela capacidade superior que têm de articular a nossa sensibilidade moral, aproximação que ofereceria o exemplo duma secularização que salva em vez de aniquilar. Para ele, nesta conjuntura, as vozes religiosas têm tanto direito a pronunciar-se como as visões laicizadas do mundo, sobretudo se aceitarem “traduzir a sua mensagem em linguagens públicas e universalmente acessíveis”.
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Voltando a Sérgio Ribeiro Pinto, refira-se que explicou ao clero do sul que, no atinente ao fenómeno de secularização – embora ele tenha um “caráter tardio” –, as suas raízes remontam à “própria estruturação da organização eclesial” e que as suas causas são “de natureza teológica”, não obstante terem implicações nos âmbitos económico, social e político.
Aquele professor da UCP, ao abordar “As múltiplas raízes da Secularização nos países de tradição religiosa cristã”, disse que o termo secularização surgiu já nos inícios da segunda metade do século XVI, referente a uma “alteração de estatuto da propriedade” relacionada com o “aresto dos bens da Igreja”. Negando que a secularização resulte dum “declínio contínuo permanente da adesão religiosa”, referiu três raízes do fenómeno: a “tradição religiosa cristã”; a “construção da autonomia entre o político e o espiritual”; e a “experiência moderna (contemporânea) do tempo”. E destacou três processos que o induziram: a “autonomização da religião”; a “autonomização da política”; e a “autonomização das sociabilidades”.
De facto, nos séculos XVI e XVIII, produziu-se uma “rutura entre religião e moral”. “A construção de identidades, que não se pensam já a partir da pertença religiosa, cria espaço à existência de outro tipo de crer, socialmente legítimo e mais significativo – o das possibilidades de descrer, de não crer e de combater a crença. E o investigador referiu que esta “pulverização das identidades”, tendo reforçado o “papel da máquina administrativa do Estado”, também o tornou “alvo de debate, de disputa”.
Assim, a “tentativa de obrigar” as Igrejas a cingirem-se ao âmbito espiritual originou a afirmação, em nome da autonomia do político, de que o homem pode ser “indiferente, neutro, separado e até antirreligioso, constituindo-se como um “elemento de concorrência” do próprio dado religioso. Deste modo, “o religioso vai tornar-se num facto de opinião” e a “opinião religiosa de cada um” passa a ser uma “aquisição legitimada socialmente”.
Focando a “luta pela supremacia entre o espiritual e o temporal”, recorrente na baixa Idade Média, o conferencista lembrou que “dessa distinção radical entre os dois elementos nasce também um conflito que atravessa as diferentes formulações, sobretudo de natureza eclesiológica”. E essa distinção abriu um espaço ideológico, mas também um espaço social e político em que se insinua a possibilidade de essa confessionalidade não existir”.
Embora tenha surgido o questionamento do “próprio ato mediador do religioso”, o investigador rejeitou que o início da Modernidade tenha significado o começo da perda de influência do religioso cristão. Com efeito, segundo ele, “a erosão da sociedade medieval não resultou de uma apreciação moral que não se fez contra a religião, ou seja, contra o Cristianismo e contra o seu hipotético excesso, mas por causa da sua insuficiência”. Surgiu, antes, “uma nova noção de religião” e a “constituição de espaços de sociabilidade que são pensados a partir de maneiras diferentes de formular o que é a Igreja”.
Ribeiro Pinto constatou que “a cristianização intensiva, levada a cabo pelas duas reformas [protestante e católica] a partir do século XVI, constituiu um esforço sem precedente para espiritualizar os comportamentos quotidianos” e “mudou a maneira de entender o que era o núcleo essencial da experiência cristã, do que eram as formas de manifestação de religião”. Disse que esta “resulta, não no intuito de fazer restringir o âmbito do religioso, mas de o alargar”. E acrescentou que, “em nome desta exigência espiritual resultará uma alteração profunda que demorará, nalguns casos até ao início do século XX, a alterar o sistema beneficial que, de alguma forma, estruturava a existência eclesiástica, ou seja, o lugar das mediações”.
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Enfim, a secularização nefasta é de recusar, mas a secularização necessária e clarificadora é bem-vinda. Na verdade da condição dos cristãos, que vivem no mundo, mas não são do mundo, nele tentando viver como não sendo de cá, é tão marcada pela secularidade como pela espiritualidade, sempre na tensão entre o “já” do Reino de Deus que está entre nós e o “ainda não” do mesmo Reino de Deus que se consumará em pleno somente na escatologia. E, nesta condição de secularidade que vivem a laicidade própria enquanto membros efetivos do povo de Deus. Não fogem do mundo a não ser transitoriamente para se purificarem pela via da ascese ou para, através da vida contemplativa se aproximarem mais de Deus, intercedem pelo mundo e darem testemunho da vida futura em que não tem de se viver a limitada condição do mundo.
Tal como a condição dos crentes de guardiões e zeladores do mundo, mas não seus donos, assim é a sua condição de “seculares” ou “laicos” (no sentido positivo), que vivem no século, mas não se esgotam nele, nem são seus serventuários.

2018.02.03 – Louro de Carvalho 

domingo, 22 de outubro de 2017

Deus e César ou Religião e Política

No XIX domingo do Tempo Comum do Ano A, a liturgia assume para leitura do Evangelho a perícopa de Mateus (Mt 22,15-21), em que, à semelhança do que sucede noutras passagens, se apresentam as controvérsias de Jesus com diversos grupos religiosos, particularmente os chefes dos sacerdotes e anciãos do povo. E o texto desta dominga evidencia dois grupos diferentes, fariseus e herodianos, que passam ao ataque, dirigindo-se a Jesus com uma pergunta capciosa: “É lícito ou não dar o tributo a César?”.
Estamos perante uma questão que parecia envolver um dilema: Deus ou César, Religião ou Política. Porém, a questão do tributo ao imperador, que necessariamente envolve um aspeto político e um aspeto religioso, não se coloca da parte de Jesus em alternativa ou em regime de exclusão. E hoje o problema que se coloca aos cristãos é o de saber qual a sua relação com a sociedade, com a Política (com “P” maiúsculo ou grande e não com “p” minúsculo ou pequeno) e com Deus. E este Evangelho, aliás com a primeira leitura, nos apresenta várias pistas de reflexão sobre o perfil dos governantes e sobre a participação dos cristãos na vida política. 
Se os fariseus e os herodianos queriam reduzir Jesus ao silêncio pela contradição, enganaram-se.
É certo que o pagamento do tributo que o judeu devia pagar era sinal de submissão ao poder político estrangeiro. Mas tal situação implicava um problema de religião porque o imperador de Roma era um soberano pagão que, assumindo-se a si mesmo como divino, reivindicava uma forma de reconhecimento e de culto idolátrica e perversa. A geral rejeição da dominação romana era levada ao extremo pelos zelotes, revolucionários fanáticos que optavam pela luta armada, em termos de guerrilha organizando contínuas investidas contra os cobradores de impostos e cometendo assassínios políticos.
É neste contexto que os representantes dos dois grupos judaicos acima referenciados, os porta-vozes de duas posições que se diferenciam da posição extrema dos zelotes, colocam a questão a Jesus. De facto, os fariseus, do ponto de vista religioso, têm dificuldade em aceitar o poder romano de ocupação, mas não propõem a revolta armada; e os herodianos apoiam as autoridades locais, aceitam de bom grado a presença romana e contestam a luta armada dos fanáticos religiosos. Assim, a pergunta feita a Jesus revela, não só o escrúpulo religioso dos fariseus, mas também a sua intenção, juntamente com os herodianos, de envolver Jesus na questão pró ou contra o poder romano de ocupação. O próprio narrador adverte o narratário leitor ou ouvinte: os seus interlocutores queriam apanhá-lo em falta na palavra, isto é, queriam comprometê-lo de qualquer maneira”, pois, se fosse a favor do tributo, seria acusado de colaboracionista e de ir contra o Deus de Israel, Yahweh; e, se fosse contra o tributo, seria acusado de revolucionário, inimigo do império romano.
Porém, o Mestre dos mestres escapa à cilada que lhe querem armar fazendo-lhes uma outra pergunta factual aparentemente comezinha, mas crucial para a resposta e que veio a ser fonte de lição para a prática dos cristãos. Jesus pede que lhe mostrem uma moeda do tributo, o que significa que ele não detinha nenhuma e até podia não a conhecer. E, face ao denário de prata (unidade do sistema monetário romano, com o qual se paga o tributo ao imperador) que lhe mostraram, interroga-os: “De quem é esta efígie e a inscrição?”. A moeda mandada cunhar sob a égide de Tibério, imperador desde o ano 14 até 37 d.C., ostenta a efígie do imperador (César) e a inscrição: Tiberius Caesar divi Augusti filius Augustus (Tibério César, filho augusto do divino Augusto) e, no reverso, Pontifex Maximus (Sumo Pontífice).
E Jesus responde: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Obviamente, parece que se devia, por um lado, restituir ao imperador os seus direitos, como pensavam os herodianos que era justo pagar as taxas imperiais, mas, por isso, eles eram suspeitos de colaboracionismo; e, por outro lado, parece que se devia reconhecer o princípio de fidelidade a Deus, único Senhor, como entendiam os fariseus. E era em nome deste princípio que os zelotes pregavam a necessidade de recusar o tributo e de combater o poder romano.
A originalidade de Jesus consiste em conjugar pragmaticamente a lealdade do pagamento do imposto a César com a opção religiosa da fidelidade a Deus. O pertence de César está bem especificado: o denário, como símbolo do poder político e administrativo, pois tem a efígie e a inscrição de César; e o pertence de Deus, definível a partir do conceito de Deus que o Evangelho, aliás toda a Bíblia, apresenta como pano de fundo de toda a tradição doutrinal, assumida, purificada e reforçada por Cristo: “Escuta, Israel, o Senhor é o nosso Deus, o Senhor é único…” (Dt 6,4-5; Mt 22,37). A total e íntegra entrega a Deus, único Senhor, não admite compromissos e partilha com qualquer outro senhor ou poder concorrente, pois não se pode servir a dois senhores. O ser humano, na medida em que é “imagem e semelhança” de Deus (Gn 1,26-27), só a Deus pertence e, por isso, deve ser restituído a Deus. E mais: “Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto” (Mt 4,10; cf Lc 4,8; Dt 6,13) é a norma absoluta.
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O profeta Isaías (Is 45,1.4-6), na 1.ª leitura deste domingo, recorda-nos que Deus vai agindo na nossa história através de homens que são seus instrumentos de salvação no nosso mundo. O povo estava no exílio da Babilónia. No entanto, Ciro, o rei da Pérsia, passa a obter uma série de vitórias militares que o prestigiam. A própria Babilónia será conquistada por Ciro e o povo vai recebê-lo como um libertador. Não obstante, a situação levanta um problema teológico. Com efeito, as vitórias de Ciro fazem com que o povo de Deus sonhe com a libertação. E o facto de a libertação vir dum rei estrangeiro e não dum membro do povo de Deus levanta sérias dúvidas teológicas existenciais: o Deus de Israel ter-se-á esquecido do seu povo? Será o deus dos persas mais poderoso do que o Deus de Israel? E, se Ciro libertar o povo do domínio da Babilónia, a quem se deve atribuir a vitória: ao Deus de Israel ou a Marduk, deus dos persas?
O Déutero-Isaías, profeta que exerceu a missão entre os exilados na Babilónia, tenta responder a estas questões. O profeta não duvida de que o Deus de Israel é mesmo o libertador do povo de Deus. Ciro é efetivamente um ungido, um escolhido de Deus. Por amor de Jacob e Israel, Deus escolheu e chamou Ciro para o desempenho duma missão política e militar em prol do povo de Deus. Mas o Deus de Israel é que é o Deus libertador e o Senhor da história. Porém, Ele age na história através de homens concretos, que podem não ter consciência da relevância da sua missão. É também neste sentido que as escolhas de Deus podem surpreender. Na verdade, Ciro não era um membro do Povo de Deus, era um pagão, ficando claro que o mais importante não é a força e as capacidades do intermediário, mas a força de Deus que atua nos seus escolhidos. 
Está perícopa do livro de Isaías configura assim uma forte provocação para todos aqueles que exercem alguma responsabilidade política. Os líderes da comunidade, numa perspetiva de fé, devem entender o seu serviço como uma missão confiada por Deus para o bem comum da sociedade. Assim, os líderes políticos – ideais e eficazes – deveriam manter uma atitude orante para descobrirem qual é a vontade e qual é o projeto de Deus, para efetivamente poderem ser conscientes instrumentos de Deus no mundo. No entanto, também hoje o Senhor pode servir-se, para realização do seu desígnio, de não crentes sensíveis aos valores da magnanimidade, da justiça, da equidade e da paz
O Evangelho já comentado parcialmente acima abre para os nossos deveres cívicos e para as nossas responsabilidades no âmbito da comunidade política e social. Na verdade, Mateus, depois de ter narrado as três parábolas apresentadas pelo Mestre que ilustravam a recusa dos líderes judeus em aceitar a pessoa e a mensagem de Jesus, relata três controvérsias de Jesus com os fariseus. Estas controvérsias são provocadas pelos fariseus que procuram encontrar motivos para acusar Jesus no sinédrio e tribunal romano. Jesus entrara triunfalmente em Jerusalém e adensa-se o confronto entre Jesus e os líderes judaicos que o conduzirá à paixão e morte na cruz.
A primeira controvérsia de Jesus com os fariseus e com os herodianos, que o evangelho deste domingo narra, relaciona-se, como se viu, com a questão muito delicada da licitude ou ilicitude de pagar os impostos ao Imperador romano que dominava aquele território.
Com a sua resposta Jesus afirma que os seus seguidores devem ser bons cidadãos e cumprir as suas obrigações políticas e sociais, até para poderem cumprir o dever de exigir dos governantes que se empenhem na sua missão de poder como serviço. Não há bom cristão que não seja bom cidadão, como não pode haver um profissional cristão que não seja bom profissional. Quem é cristão tem de ser bom cidadão e cumprir com todas as suas obrigações sociais e políticas. Nunca o cristão poderá demitir-se dos nem dos direitos nem deveres para com a sociedade. Porém, deve advertir-se que a resposta de Jesus não implica uma submissão incondicional à autoridade política. Nós somos servidores de Deus e dos homens e não serventuários servis de quem quer que seja. Assim, quando estão em confronto claro os interesses de Deus (verdade, fé, evangelização, culto, opção pelos pobres, marginalizados indefesos, vida dos homens…) e os interesses dos homens (poderosos, gananciosos, sanguinários…), a escolha é só uma: Deus (cf Mt 16,23). E, quando se confronta a obediência a Deus com a obediência aos homens, a posição tem de ser claramente pela obediência a Deus (cf At 5,29).
Mais: Jesus não proíbe a resistência ao tirano que espezinha os súbditos, como Tomás de Aquino veio a ensinar mais tarde. Obviamente que prefere a resistência não violenta. E, sobretudo, em qualquer tempo e lugar, os cristãos não podem compactuar com sistemas de corrupção, com fuga aos impostos, branqueamento de capitais, fraude fiscal – pois o cristão tem de contribuir para o bem comum.
Também importa anotar que não é do agrado de Deus a concentração dos poderes – político e religioso – numa só entidade, como algumas vezes se tem tentado. Nem o Imperador (Rei ou Presidente da República) pode assumir-se como o Chefe de Igreja nem o Papa pode arvorar-se em Chefe dos Estados. O cesaropapismo é censurável, por qualquer vertente que seja considerado.  
Todavia, o cristão não pode tornar-se por si fonte de conflito, deve tentar pragmaticamente viver a vida do cidadão tentando articulá-la com a vida cristã. Não pode refugiar-se no seu reduto, mas partir para o meio dos outros, estando no mundo, por um lado, e, por outro, rejeitando pela vida o espírito mundano e explicando oportuna e inoportunamente as razões da sua esperança. Deve assim aceitar a autonomia das realidades terrestres, não confundindo Igreja com Estado, mas sem negar a cooperação recíproca, ao menos nas causas comuns.
O cristão não pode limitar-se a ser um bom cidadão. Na verdade, o cristão é o que foi criado à imagem e semelhança de Deus, é quem transporta em si a imagem de Deus, é aquele que é pertença de Deus, pois foi configurado com Cristo pelo Batismo. Assim sendo, o cristão deve-se reconhecer como pertença do Senhor. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus e só seremos pessoas verdadeiramente felizes e realizadas na medida em que vivermos em comunhão com Deus. Sendo assim, o homem deve entregar a sua vida e a sua existência a Deus. Só assim é que podemos ser felizes. No entanto, não são poucos os que, esquecendo-se de que foram criados à imagem e semelhança de Deus, entregam a sua vida, não a Deus, mas a vários ídolos: o clube, a ideologia, o ter, o prazer, o poder, entre outros. No entanto, quando uma pessoa entrega a sua vida, não a Deus, mas a estes ídolos, vê que a vida não é marcada pela felicidade e entra no mecanismo de escravidão e infelicidade. Só seremos pessoas felizes e realizadas quando entregarmos a nossa vida, toda a nossa existência a Deus. Criados por Deus e à imagem de Deus só seremos felizes se construirmos a nossa vida com Deus e em Deus. 
E, enquanto vamos servindo a Deus e cumprindo as nossas obrigações cívicas, temos de saber levantar a voz e empunhar a pena (pessoalmente ou como Igreja – hierarquia e povo) pela causa de Deus presente nos doentes, pobres, débeis, descartados para que também as autoridades cumpram a missão de os integrar do dinamismo da consecução do bem comum na justiça e na dignidade. E, seja como for, a Igreja de voz profética pelos seus pobres (cf Lc 1,53) não pode deixar de rezar pelos governantes, mesmo que eventualmente sejam seus perseguidores e até detratores da sua ação evangélica e promocional (cf Mt 5,44; Lc 6,27-28). Esta será a humildade e a grandeza do seu serviço e ser de Igreja em saída ou em missão pela justiça, pela saúde, pela educação e pela paz.
Não é, pois, Deus ou César o que está em causa, mas Deus e César autónomos e não antagonistas nem confundidos, mas com Deus e os seus pobres em primeiro lugar!

2017.10.22 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 12 de junho de 2017

IV Congresso Internacional “Santuários” CULTURA, ARTE, ROMARIAS, PEREGRINAÇÕES, PAISAGENS, PESSOAS

Vai realizar-se, de 13 a 17 de junho, o IV Congresso Internacional Santuários na região do Douro, com referência aos centros urbanos de Régua, Vila Real, Lamego e Meda. Com efeito, o Museu do Douro, a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) e a Universidade de Lisboa (UL) são algumas das instituições envolvidas na organização, que tem o apoio das câmaras municipais dos municípios envolvidos e das entidades que gerem os espaços das sessões e visitas.
O “Congresso Internacional Santuários”, que já vai na 4.ª edição, constitui-se em encontro cuja caraterística principal consiste, segundo o site da UTAD, em “estimular e promover a troca de ideias por parte de estudiosos e interessados nos mais diferentes campos do saber”. A ideia de realizar esta modalidade de congressos “nasceu da vontade e da preocupação científica dum grupo de investigadores, pertencentes a diversas universidades europeias e brasileiras, de criar uma nova plataforma de diálogo entre as ciências sociais, humanas, exatas, as artes e as diversas expressões do Sagrado ao longo do tempo e nas mais diversas localizações geográficas”.
Não se trata assim, apesar do apoio do SNPC (Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura), cujo site faz eco desta iniciativa, de um congresso de santuários na estrita aceção cristã, muito menos na linha de pensamento da Carta Apostólica Sanctuarium in Ecclesia, de 11 de fevereiro de 2017 – o que não quer dizer que alguns santuários abordados neste género de congressos não estejam vocacionados a cumprir o desiderato plasmado no mencionado documento pontifício. Porém, estas jornadas fazem a bordagem mais nas vertentes históricas, culturais, artísticas, sociais e económicas – incluindo manifestações religiosas pré-cristãs. Na verdade, como se dizia a propósito do anúncio da 1.ª edição do Congresso, em 2014, “um santuário constitui-se como um ‘concentrado espacial’ da cultura e da religião, um sítio de ligação privilegiada e imediata com o sagrado, sendo muitas as possibilidades de análise de determinado santuário”.
O objetivo destes congressos é, pois, o estudo dos santuários desde a pré-história até à contemporaneidade, passando pelo mundo romano. Uma das temáticas dos congressos é o uso continuado dos locais de oração, bem como as mudanças que sofreram ao longo dos séculos.
São aceites contributos nos campos da antropologia, da arqueologia e da história das religiões, ligados à escolha do local sagrado, da arquitetura e demais artes plásticas, dança, economia, geologia, história, história das religiões, medicina, música, museologia, paisagem, património material e imaterial, religião, turismo e afins, do uso das imagens sacras e da sua disseminação ao longo dos caminhos de peregrinação. A peregrinação, outra das redes que une muitos locais religiosos na Europa e fora dela, é investigada e apresentada pelos oradores participantes.
E, para promover o progresso do seu conhecimento e chamar a atenção para os santuários há espaço para a abordagem das antigas e das novas peregrinações, bem como o turismo religioso contemporâneo, tendo como foco o itinerário cultural do Conselho da Europa.
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O “I Congresso Internacional Santuários” realizou-se, nos dias 12 a 14 de setembro de 2014, no Auditório do Fórum Cultural Transfronteiriço, no Alandroal, vila do Alentejo, em cujo território se situa o santuário ao deus Endovélico, um dos maiores santuários da época romana (séculos I d.C. — V d.C.), na Península Ibérica.
O “II Congresso Internacional Santuários” decorreu no dia 18 de dezembro de 2015 (só um dia), no Grande Auditório da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
O “III Congresso Internacional Santuários” realizou-se da 9 a 13 de julho, em Itália, na Valcamonica, o Vale dos Símbolos – um dos raros locais no mundo onde é narrada ao longo dos tempos uma longa história de profunda espiritualidade, estando incluída nos seus tesouros uma rica coleção de arte rupestre, que induziu o seu reconhecimento como Património Mundial pela UNESCO. À dominação romana sucedeu uma complexa sequência de eventos que acompanharam a conversão ao cristianismo nos Alpes. O seu legado inclui inúmeros vestígios de igrejas, capelas, santuários e locais de culto.
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Nesta quarta edição, o Congresso vai continuar a tradição criada pelos investigadores que lhe deram origem, sendo, portanto, como já foi referido, aceites contributos nos campos da antropologia, arqueologia, arquitetura, artes plásticas, dança, economia, geologia, história, história das religiões, medicina, música, museologia, paisagem, património material e imaterial, religião, turismo e afins. Uma sessão especial será dedicada aos “Itinerários Culturais do Conselho da Europa” com especial referência para aqueles que estão ligados ao sagrado.
Assim, foram selecionados como exemplos de temáticas a ser abordadas os seguintes: “Santuários e rituais, da Pré-história aos nossos dias”;Arte e iconografia: presença, modelos e vias de difusão”; “Arquitetura, arte, devoção”; “Locais sagrados, peregrinações, romarias e festas”; “Paisagens e ambientes naturais”; e “Pessoas e manifestações do sagrado”.
As comunicações selecionadas serão publicadas em 2 volumes na Revista “/Santuários/” (n.os 7 e 8, 2017) que será editada pelo CIEBAUL / CETRAD-UTAD (cf sites da UTAD e do SNPC).
O congresso vai ter lugar no Museu do Douro (Régua), no Teatrino (Vila Real) e na Casa da Cultura da Meda.
Além das cinco sessões de trabalho, o programa inclui visitas guiadas, a par de uma conferência sobre os “Itinerários Culturais do Conselho da Europa” com referência especial aos ligados ao sagrado.
As visitas vão incluir: o Museu do Douro, o Miradouro de São Leonardo da Galafura, Santuários de Panoias, UTAD-Jardim Botânico Museu de Geologia, Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, Museu de Lamego, Museu Diocesano de Lamego, Sé de Lamego, Comboio Régua-Pocinho, Marialva, Longroiva (Castelo e Termas). Visitas pré e pós-congresso: Museus de Vila Real; Sabrosa (Espaço Miguel Torga, Castro de Sabrosa). Vale do Coa, Museu e sítio de arte rupestre do Coa.
As visitas pré-congresso foram: Vila Real, a 11 de junho, e Sabrosa, a 12; as visitas pós-congresso serão: Vila Nova de Foz Coa, a 18 de junho, e Sabrosa, a 19 de junho.
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O programa prevê, no 1.º dia, com atividades na Régua, o início dos trabalhos no Museu do Douro, na Régua, com a abertura da secretaria e entrega da documentação, a que se seguirá a sessão de abertura e a apresentação do Congresso.
Depois, realizar-se-á a 1.ª sessão de trabalho com uma interrupção para café. E, depois do almoço, que decorrerá em regime livre, terá lugar a 2.ª sessão de trabalho, após a qual, uma pausa para café precederá a visita guiada ao Museu do Douro.
O dia terminará com “Segredos do Néctar Sagrado” – prova de vinhos do Douro no Teatrino com a coordenação de António Pirra – e jantar em regime livre, podendo os congressistas aproveitar o ensejo para contemplar a beleza da paisagem duriense no fim do dia.
O 2.º dia, que prevê atividades na Régua e em Vila Real, começará também na Régua, no Museu do Douro, com a 3.ª sessão de trabalho, que sofrerá uma interrupção para café. E, depois do almoço, em regime livre, será a partida para Vila Real, durante cujo percurso se efetuará a visita ao Miradouro de São Leonardo da Galafura evocado num belo poema de Miguel Torga. Seguir-se-á a visita ao Santuário Rupestre de Panoias, em Valdenogueira, Vila Real, guiada por Mila Simões de Abreu.
Na UTAD, decorrerá a visita ao Museu de Geologia “Fernando Real” e a visita ao Jardim Botânico da UTAD, guiada por António Crespi e Isabel Cabral.
E este 2.º dia terminará com o churrasco de convívio organizado pela Rupestris, na UTAD.
O 3.º dia, que prevê atividades na Régua e em Lamego, iniciar-se-á na Régua, no Museu do Douro, com a 4.ª sessão de trabalho, que terá uma interrupção para café.
Depois do almoço, em regime livre, será a partida para Lamego para a visita ao Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, a visita guiada ao Museu de Lamego e visita guiada à Sé de Lamego e ao Museu Diocesano do Lamego.
O dia terminará com um lanche ajantarado (oferta) e regresso à Régua.
O 4.º dia decorrerá com atividades na Régua e na Meda. Começará com concentração na Estação de Comboios de Peso da Régua e subsequente partida, em comboio, com destino à estação de Pocinho, em Vila Nova de Foz Coa, e dali, em autocarro, para Meda. Durante este percurso, far-se-á a visita a Longroiva.
Na Meda, haverá um ato de boas-vindas, a que se seguirá a 5.ª sessão de trabalho, com pausa para café.
Depois, será o momento da palestra de honra, a cargo de Roberta Alberotanza, Ex-Presidente do Comité Cultura do Conselho de Europa e especialista do Ministero dei beni e dele attività culturali e del turismo, Itália sob o título “Caminhos Europeus da Cultura”. Seguir-se-á o debate geral e a sessão final, findando o dia com lanche ajantarado (oferta) e convívio cultural.
O 5.º (e último) dia decorrerá no concelho da Meda e constará de: visita à vila medieval de Marialva, pausa para café, visita a Longroiva (castelo e termas), almoço (em regime livre) na Meda, assembleia da “Alter Ibi”, colóquio «‘Santuários’ projetos futuros» e encerramento. (cf site da CM Meda).
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Por esta iniciativa, liderada por investigadores da UTAD e da UL, se vê quão importante se afigura o estudo dum património que, até há relativamente pouco tempo, interessava a curiosos, a alguns especialistas e ficava longe do interesse popular, a não ser que estivesse de algum modo afeto ao culto cristão. Por outro lado, estes testemunhos (antigos ou coevos) podem constituir excelente ferramenta para a descoberta da história evolutiva das mentalidades, dos usos e da tendência a religiosa do homem, que não se confina aos limites o tempo e do espaço: quer, antes, projetar-se no espaço, no tempo, no futuro, na memória, no transcendente. E nem sempre consegue libertar-se do ensimesmamento crónico ou da má tentação de explorar o próximo.
2017.06.12 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 7 de junho de 2017

“Pensar Fátima – Leituras interdisciplinares”

É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar” – Helena Vaz da Silva

O Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima (SF) e a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT/UCP) vão promover, de 21 a 24 de junho, pf., no Centro Pastoral Paulo VI, o Congresso Internacional do Centenário de Fátima com vista a desafiar investigadores de diferentes áreas do saber a “Pensar Fátima”, ou seja, o fenómeno, a mensagem de Fátima e a dinâmica do Santuário numa perspetiva de interdisciplinaridade.
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Âmbito e organização
“Dedicado ao tema, referenciado em epígrafe, “Pensar Fátima – Leituras interdisciplinares”, o Congresso, no seguimento dos diversos encontros, conferências, colóquios e simpósios, já promovidos no âmbito do Centenário das Aparições de Fátima, propõe-se promover o estudo de Fátima “a partir de diferentes prismas, da História à Teologia, da Sociologia à Psicologia, da Arte e do Património”.
As intervenções dividem-se em conferências plenárias, conferências temáticas e comunicações paralelas propostas por investigadores. Nestes termos, o Congresso desafia os investigadores ao estudo do acontecimento de Fátima, particularmente através da reflexão sistemática e aprofundada sobre as suas fontes com os instrumentos próprios das diferentes disciplinas do saber. O período de submissão de comunicações decorreu até ao final de dezembro de 2016.
Foram selecionadas sete áreas científicas a destacar neste evento de estudos: Fátima e as dinâmicas sociais; Fátima na perspetiva de fenomenologia religiosa; a História de Fátima; Mariologia nas fontes escritas de Fátima; Fátima e as linguagens, profética e apocalíptica; a Espiritualidade e a Teologia de Fátima; e A presença de Fátima ao longo de cem anos.
Celebrar o centenário das aparições de Fátima torna-se ocasião propícia para um olhar agudo e amplo sobre a história do “acontecer de Fátima” e sobre as suas implicações religiosas, sociais, culturais e artísticas, como: o impacto religioso e sociocultural das aparições dentro e fora das fronteiras portuguesas; a influência deste fenómeno na afirmação do catolicismo português; a atenção crescente dos Papas por Fátima projetando a Mensagem a uma escala global; as chaves de leitura propiciadas por Fátima para um relance sobre a atualidade. Além disso, o Santuário de Fátima, enquanto lugar de acolhimento de quantos o visitam, crentes ou não crentes, constitui-se em espaço privilegiado de estudo de fenómenos diversos como a religiosidade popular, a peregrinação, as práticas votivas e outras temáticas particularmente pertinentes para as ciências sociais e comportamentais.
A Comissão Organizadora do Congresso é constituída por dez personalidades ligadas ao Santuário e à UCP e é presidida pelo Professor João Duque, Presidente do Centro Regional de Braga da UCP, sendo 5 da UCP e 5 do SF. A Comissão Científica, cujo primeiro nome, por ordem alfabética, é o de Adélio Fernando Abreu / CEHR-UCP, é composta por 44 membros das mais diversas áreas do saber e de diferentes latitudes, com destaque, em relação ao estrangeiro, para: Roma, Milão, Salamanca, Burgos, Frankfurt, São Paulo, Rio Grande do Sul e Louvain-la-Neuve.
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Áreas científicas
Segue-se o conspecto geral dos conteúdos das sete áreas científicas a que se aludiu acima:
1. Fátima e as dinâmicas sociais. Com base em estudos de ciências sociais, pretende-se equacionar a relação do fenómeno de Fátima com temas transversais dessas ciências, como: a religiosidade popular, a peregrinação, as práticas votivas, o santuário, as linguagens, a comunicação social, etc. Enquadram-se também nesta área estudos específicos sobre Fátima bem como sobre iniciativas relacionadas com Fátima em todo o mundo.
2. Fátima na perspetiva de fenomenologia religiosa. É uma área temática mais de índole antropológica ou mesmo psicológica, atingindo assuntos pertinentes para o fenómeno de Fátima, tais como: as experiências religiosas (nomeadamente infantil), a cognição, as hierofanias (nomeadamente mariofanias), as inspirações, as moções do Espírito, a comparação com outros fenómenos, a taumaturgia, etc.
3. História de Fátima. Nesta área entrará naturalmente tudo quanto se possa relacionar com a história do fenómeno fatimita, nomeadamente os acontecimentos e seus protagonistas, no contexto da história, nas suas diferentes escalas, nomeadamente Portugal, Europa e Mundo. Propõem-se estudos historiográficos ainda não realizados, privilegiando a documentação de Fátima – observando sempre os pressupostos epistemológicos e científicos, designadamente os atinentes à heurística e à hermenêutica.
4. Mariologia nas fontes escritas de Fátima. Entra aqui a apresentação de estudos especificamente mariológicos, que possam relacionar tópicos da Mariologia geral com contributos presentes nos escritos de Fátima, nomeadamente nas fontes documentais e nas atas das conferências, simpósios e congressos organizados pelo Santuário, e que sirvam de suporte teológico, doutrinal, espiritual e pastoral aos atos de culto e devoções mariais no mistério de Cristo e da Igreja.
5. Fátima e as linguagens, profética e apocalíptica. Devem mobilizar-se, nesta área, estudos que possam enriquecer o estabelecimento da relação entre a tradição (nomeadamente bíblica) da literatura apocalíptica e profética e a teologia política, sobretudo no contexto do discurso sobre a paz, essencialmente a partir do conteúdo da documentação de Fátima. Terá especial relevância a suscitação de estudos que relacionem a linguagem fatimita, a partir da documentação, com este modo específico de linguagem.
6. Espiritualidade e Teologia de Fátima. Neste âmbito, pretende-se a abordagem da “Mensagem de Fátima”, assim como de determinadas práticas relacionadas com ela, que abranja, de forma articulada, os grandes temas da espiritualidade e da teologia: a oração, o sacrifício, o sofrimento, a reparação, a consagração, a peregrinação, a cura, a penitência, a Eucaristia, a Trindade, a espiritualidade ecuménica, o diálogo inter-religioso, etc. – recentrando-os no Evangelho.
7. Presenças de Fátima ao longo de cem anos. Considerando o multíplice impacto de Fátima em diversos espaços socioeclesiais, esta área deve promover o encontro entre várias disciplinas que explorem aspetos da presença de Fátima nos mais diversos contextos, nomeadamente com: estudos teológico-práticos do impacto na ação pastoral: implementação de modelos de pastoral, iniciativas pastorais marcantes, etc.; e estudos da presença de Fátima nas artes, enquanto cenário e enquanto protagonista.
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Do programa
Serão, assim, sete as conferências plenárias a proferir durante o Congresso, versando os seguintes temas, correspondendo cada uma a uma das sete áreas científicas: “História e Historiografia de Fátima”, por Marco Daniel Duarte; “Os eixos teológicos da mensagem de Fátima”, por Eloy Bueno de la Fuente; “Fátima no contexto das Mariofanias”, por João Décio Passos; “Hermenêuticas dos três videntes”, por Franco Manzi; “Da Mariologia a Fátima”, por Stella Morra; “Fátima e Roma”, por António Matos Ferreira; e “O lugar de Fátima na reconfiguração do religioso”, por Alfredo Teixeira. A conferência de encerramento terá como tema “Fátima como promessa” e será proferida por D. Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício para a Cultura.  
Haverá ainda lugar para sete conferências temáticas que encabeçarão cada um dos painéis de comunicações propostas ao Congresso: “Fátima e práticas do território”, por Graça Poças Santos; “Taumaturgia em Fátima”, por Tiago Marques; “Fátima e a geografia do conflito”, por Luís Salgado Matos; “As aparições de Fátima na perspetiva da pneumatologia mariológica”, por José Cristo Rey Garcia Paredes; “Fátima e a teologia política”, por João Manuel Duque; “Fátima e  a questão ecuménica”, por José Eduardo Borges de Pinho e “Fátima e as dinâmicas pastorais em Portugal”, por Paulo Fontes.
O programa completa-se com as comunicações paralelas propostas ao Congresso (a numeração dos grupos corresponde à das áreas científicas):
No dia 21
Grupo 1: “A imagem peregrina de Nossa Senhora assume-se como uma marca na promoção do turismo religioso de Fátima?”, por João Miguel Heitor; “Fátima, Espaço de fé: Peregrinos e Peregrinações Ontem e Hoje” por Maria Margarida Rézio; e “Grande Rota Mariana de Trás-os-Montes”, por Aida Carvalho, Betina Teixeira e Maria Gouveia.
Grupo 2: “As periferias marianas de Fátima”, por Rodrigo Portella; «‘Unidos aos Sagrados Corações de Jesus e Maria’. A Mensagem de Fátima e o Sentido da Vida», por Maria Pilar Santos; “Resiliência espiritual do cuidador – Capacidade de Recuperação diante da Adversidade e Fátima como potenciador do efeito regenerador da Fé”, por Lourdes Barbosa; e “On Imaginary Visions in the Theological Commentary of Cardinal Ratzinger”, por Kevin Symonds.
Grupo 3: “Portugal em 1917: contextos gerais de uma aparição política”, por José Miguel Sardica; “Fatima and the Portuguese Intelligentsia”, por Larry Harwood; “La Russia nel Messaggio di Fatima, tra storia e letteratura”, por Federica Bergamino e Maria Matos; e “Leituras politizadas de Fátima na narrativa ocidental da Guerra Fria: uma abordagem exploratória”, por André Melícias.
Grupo 6: “Dimensão ecológica do fenómeno e da mensagem de Fátima”, por Isabel Varanda; “O mistério eclesial que Fátima nos revela”, por Miguel de Salis Amaral; e “O tempo, o espaço e a Mulher-Mãe de Jesus nos escritos joaninos e o Acontecimento de Fátima. Elementos teológicos para uma proposta de espiritualidade discipular para os jovens”, por José Nuno da Silva.
Grupo 7: “Modernidade e tradição na arquitetura e liturgia de uma obra singular: a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa (1934-38)”, por João Alves da Cunha; “A consagração de Portugal ao Imaculado Coração de Maria de 1975 – Breve análise iconográfica da obra no seu contexto sócio-religioso” por Maria Benedita Costa; “Nossa Senhora de Fátima sob o olhar da cultura material” por Claudinéia Genoveze; e “Santuário de Fátima: mármores alentejanos entre a arte e a história”, por Carlos Filipe.
No dia 22
Grupo 1: “Predileção pela Infância. Reflexão no Centenário das Aparições”, por Maria Helena Pratas; “Dinâmicas sociais e religião vivida em Fátima: uma abordagem antropológica”, por Anna Fedele; “Quando a pobreza se torna a eleita”, por Cristina Duarte; e “Le sanctuaire de Fatima, cœur et seuil de l'Eglise”, por Marie-Hélène Chevrier.
Grupo 3: “Fátima, de lugar sagrado nacional a lugar sagrado global”, por José Eduardo Franco e Bruno Cardoso Reis; “As formas de expressão devocional antes e ao tempo dos acontecimentos de Fátima”, por Adélio Abreu; “A Visita da Imagem Peregrina de Fátima à Arquidiocese de Évora, em 1947”, por Nelson Costa Fernandes; e “The Legacy of the Hungarian Calvary in Fatima”, por Albin Laczik. “
Grupo 4: Le dinamiche dell'accompagnamento di Maria con Giacinta, Francesco e Lucia nelle fonti di Fatima”, por Antonio Escudero; “La relación entre la Inmaculada Concepción y la Maternidad espiritual de María en el mensaje de Fátima”, por Francisco Jiménez; e “Fatima svela Maria come donna in relazione”, por Daniela Del Gaudio.
Grupo 5: “La visión del Infierno. Fátima a la luz de Lc 16,19-31”, por Mariano Spléndido; «‘Não tenhas medo’: a formação do culto a Nossa Senhora de Fátima em Portugal e as suas práticas e representações no Brasil (1917-1938)», por Carlos Moura; “Transposiciones del acontecimiento: Fátima-Bogotá. Política de la religión y reescrituras del mensaje de Fátima en un caso colombiano”, por Juan Carlos Hendez; e “Per una ‘civiltà dell'amore’. Il messaggio dei SS. Cuori di Gesù e Maria tra Paray-le-Monial e Fatima, alla luce del Magistero di Giovanni Paolo II”, por Dario Di Maso
Grupo 6: “Fátima: sonata mariana em santidade maior”, por Alexandre Freire Duarte; “No horizonte de uma dimensão social da mensagem de Fátima: testemunho profético com repercussões comunitárias e pessoais”, por André Pereira; “Las flores de María, una invitación a la confianza”, por Paula González; e “Luiza Andaluz: uma protagonista do acontecimento de Fátima”, por Dina Henriques e Jacinto Guerreiro.
Grupo 7: “Les apparitions de Fatima et l'opinion publique française (1917-1945)”, por Yves Chiron; “Experiências devocionais de Nossa Senhora de Fátima na Amazónia”, por Francisco Pinheiro de Assis; “Nuestra Señora de Fatima y la Nueva Evangelización”, por Javier Alson; “Fátima y su mensage en una obra misionera entre los más pobres de Buenos Aires (Argentina)”, por Andrés Tocalini; e “Las sucesivas apariciones como prolongación de las de Fátima”, por Maria del Mar González.
No dia 23
Grupo 1: «Fátima, media e diáspora: os territórios da ‘comunidade imaginada’», por Manuel Antunes da Cunha; “A importância das primeiras notícias sobre Fátima, enquanto fontes fundamentais na perceção histórica das aparições”, por Cátia Sofia Filipe da Silva; “The reaction to the eventos in Fatima in Czech press”, por Jitka Jonová; “Fátima, deusa e mãe? Um caso mediatizado na experiência ‘hindu’ portuguesa”, por Joaquim Franco; e “Fátima nos noticiários da ditadura salazarista”, por José Manuel Ropero.
Grupo 2: A Fenomenologia da Religião (Mircea Eliade) e os Escritos da Irmã Lúcia”, por Manuel Gama; “Fátima como fenómeno: entre chamado e resposta nos tempos de religiosidades flutuantes”, por Krzysztof Dworak; “Os rosários nas identidades coletivas em tempos de mudanças sociais”, por Júlia Lourenço e Eduardo Duque; «Peregrinas a caminho de Fátima: reflexões antropológicas sobre o ‘empoderamento’», por David Soares; “Devotando com os pés: as motivações e a estrada dos peregrinos caminhantes até ao Santuário de Fátima”, por Pedro Pereira.
Grupo 3: “A ação de D. José Alves Correia da Silva no contexto da difusão do culto de Nossa Senhora de Fátima através das viagens da Virgem Peregrina”, por Sónia Vazão; “A ação do poder central e local em Fátima durante a Primeira República – O papel de um republicano convicto, Artur de Oliveira Santos”, por José Manuel Poças das Neves”; Cónego Manuel Nunes Formigão – apóstolo da mensagem de Fátima”, por Rafael Marques; “D. José Alves Correia da Silva – um bispo maiato no centro do fenómeno de Fátima”, por José Augusto Maia; “A ação do bispo D. João da Silva Campos Neves na divulgação e promoção do culto e devoção a Nossa Senhora de Fátima, no patriarcado de Lisboa e na diocese de Lamego”, por Luciano Moreira; “O fundo Monsenhor Francisco Esteves de Jesus (1871-1959): descrição arquivística da coleção de álbuns fotográficos da Paróquia de São Vicente de Fora”, por Rafael Oliveira.
Grupo 4: “The Triumph of the Hearts of Jesus and Mary”, por Arthur B. Calkins; “A Mariologia de Martinho Lutero”, por Artur Oliveira; “Fatima Apparitions and Messages: Divine Confirmation of Blessed Virgin Mary as the Mediatrix of All Grace”, por Judith Gentle; “Por fin, mi Inmaculado Corazón Triunfará. Concepto del Corazón de María en el P. Joaquín María Alonso, figura estelar de Fátima”, por Miguel Tintoré; “Fátima e Aparecida, a mesma ‘Senhora Imaculada’. Centenário de duas devoções marianas com profunda eclesiologia e mariologia”, por Rafael Maria da Silva.
Grupo 5: “Da apocalíptica à teologia da história, a partir da mensagem de Fátima”, por José Jacinto Ferreira de Farias; «‘Atravessou uma cidade meio em ruínas’. Horizontes de esperança, cuidado e perdão na narrativa de Fátima», por Pedro Valinho Gomes; “Fátima y la Iglesia que sufre”, por Maria Dovbnya; “La Mariología Agonal de Fátima signo escatológico para la Iglesia”, por Antonio Grosso; e “La bénédiction prophétique du 13 octobre 1917”, por Francine Dupras e Jean-Marc Rufiange.
Grupo 6: “Fondamenti teologici e tratti salienti della spiritualità della riparazione”, por Vincenzo Battaglia; «‘Cross and Crown’: The Sufferings and the Joys of Sister M. Teresa of Calcutta and the Servant of God M. Lucia of Jesus and the Immaculate Heart. Comparison and Contrast», por Charles Manga; “Modelo pastoral das aparições de Fátima: aspetos psicossociais, espirituais e teológico-pastorais em paralelo com outras mariofanias aprovadas”, por Aires Gameiro; “El acontecimiento de Fátima y las prácticas de Espiritualidad y Religiosidad popular Mariana”, por María Riquelme; e “The Immaculate Heart of Mary in the History of Marian Apparitions”, por Michael O'Neill.
Grupo 7: “O fenómeno de Fátima na obra de Dalila Pereira da Costa”, por Jorge Cunha e Maria João Reynaud; “Imagens e representação de Fátima na literatura”, por Maria Agripina Vieira; “Fátima para o mundo: duas perspetivas cinematográficas contando uma história que faz parte da História”, por Sigridi Alves; “Fátima: as relações dialógicas entre as memórias e as obras cinematográficas”, por Solange Zorzo; “Vaidades, penitência, morte, purgatório e inferno na arte e mentalidade portuguesa (séculos XV-XX)”, por Isabel Bastos; e “Em busca de uma ‘melodia’ para a ‘Senhora que veio do Céu’: a influência da mística e mensagem de Fátima nas composições musicais sacras e eruditas dedicadas a Nossa Senhora”, por Cristina Carvalho Cota.
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Concluindo
É incontornável o impacto religioso e sociocultural que o fenómeno resultante do impulso fatimita inicial teve em Portugal e além das suas fronteiras. Convertido em local de peregrinação para crentes e não crentes de todo o mundo, o Santuário leva a que, em Fátima, no coração de Portugal, se manifestem variados e ricos dinamismos pessoais e sociais. E, ao longo destes 100 anos, o fenómeno de Fátima – inspirado, construído e aproveitado (nem sempre no melhor sentido) – influenciou fortemente o catolicismo português e a vida dos portugueses nas mais diversificadas dimensões.
Pela internacionalização crescente, sobretudo mercê da atenção que os últimos Papas lhe têm prestado, tal influência ganhou escala global. No espaço de relação com Fátima, convivem pessoas, grupos e estilos de vida muito diversificados: “crentes cristãos e não cristãos, não crentes, espiritualidades marcadas por forte religiosidade popular e cristãos em busca de formação, intelectuais cristãos, artistas, crentes ou não, em busca de uma possível experiência da transcendência”. A partir de e com todo este movimento plural, Fátima transformou-se, ao longo de décadas, num fenómeno rico e multifacetado. Por isso, exige estudo e reflexão, para que o pensamento acompanhe, sem a eliminar nem substituir, a vida das gentes que encontram em Fátima uma significativa referência para as suas existências.
No contexto da celebração do centenário, o Congresso Internacional, de teor científico e académico, dará inestimável contributo à causa fatimita com o estudo de várias das dimensões de Fátima, em perspetiva interdisciplinar – Teologia, Sociologia, Psicologia, Cultura, História, Arte, etc. – culminando o percurso feito em vários simpósios, conferências, colóquios, jornadas, encontros e congressos e servindo de ponto de partida para mais iniciativas de estudo, vivência e divulgação de Fátima.
- Dados recolhidos e reflexões feitas a partir dos textos preparatórios do Congresso:

2017.06.07 – Louro de Carvalho