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domingo, 14 de outubro de 2018

O dilema salvação-riqueza no Evangelho de Marcos (Mc 10,17-30)


Esta passagem evangélica (do XXVIII domingo do Tempo Comum no Ano B) distribui-se por três itens: a busca da vida eterna (salvação) por parte dum homem rico (17-22 – Mateus refere “um jovem “e Lucas “certo chefe”); o perigo das riquezas (23-27); e a recompensa pelo desprendimento (28-31). 
Um dilema surge neste evangelho de difícil solução: a salvação, que desejamos, e as riquezas, que nos seduzem. A salvação postula a prática dos mandamentos; e a posse das riquezas implica que, em vez da atitude avara, se assuma  a partilha com os mais necessitados. Porém, a situação é problemática porque o desejo ou a posse obsessiva da riqueza torna o homem rico e apegado aos bens materiais levando-o à acumulação sem freios. E, deste modo, se a riqueza não é compartilhada, arvora-se em ídolo que, exigindo a escravidão pessoal e alheia, se torna fonte de iniquidade. Ou, como assenta o Evangelho, o deus Mammon opõe-se ao Senhor e, nesta oposição, servimos a um e desprezamos o outro – escolha, difícil que, pressupondo a abertura do homem, depende da graça de Deus que pode atuar onde o homem falha totalmente.
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Alguém corre pressuroso para o Senhor
Efetivamente, um determinado indivíduo (eis, em grego), um homem reto, na sua inquietude e prontidão, corre para Jesus e, prostrando-se (gonypetêras) ante Ele, pergunta o que precisa de fazer para alcançar a vida eterna (A ideia de que a salvação depende das nossas obras!). A sua atitude de prostração foi um modo de adoração a Jesus  ou assumiu os contornos da proskinese oriental ou, ainda, se assimilou à maneira como os discípulos manifestavam a reverência pelos mestres, não só ajoelhando-se, mas abraçando-lhe os pés e beijando-os, visível em Madalena, que se abraçou aos pés do ressuscitado (Jo 20,17). A palavra “didáskale” (mestre) com que se dirige a Jesus parece apontar para a terceira hipótese. Mas a expressão vocativa completa é “didáskale agathê”. Ora, o adjetivo agathós originariamente significa “bom”, mas, ao qualificar nome que denota função ou profissão, não exprime a moralidade do referente, mas a sua excelência no mister. Assim, Jesus foi tratado por Mestre insigne ou excelente, que sabe dar as respostas, pois tem uma sabedoria incomum, a sabedoria de Deus. 
A pergunta denota insatisfação com a vida cómoda e rica face ao ambiente de pobreza e dificuldades da generalidade das pessoas. Algo teria de fazer o jovem para não ser excluído das bem-aventuranças que terá escutado dos lábios de Jesus (Mt 5,3-11). Esta inquietude quer dizer que as palavras de Jesus não tinham caído em terra baldia (Mc 4,8), pois, enquanto os outros mestres falavam da Lei como se fora um deus a quem se devia adorar (Eram puros intérpretes, que não distinguiam entre o verdadeiramente essencial e transcendente do contingente das normas de pureza ritual), Jesus falava da vida, dum Deus que é Pai e dum futuro muito mais relevante que a contingência circunscrita a um corpo mortal e aos bem materiais. E o interlocutor, sabendo que a sua riqueza não lhe proporcionava segurança e bem-estar por tempo ilimitado e pretendendo assegurar a vida futura, perguntava o que fazer. Por sua vez, Jesus pedagogicamente sustenta que ninguém é bom senão Deus (Com efeito, não era a hora de reiterar o segredo messiânico, mas de manter o mistério do homem-Deus que tudo recebe do Pai) e avança para a solução: para alcançar a vida, é imperativo guardar os mandamentos. É a resposta que revela que todo o ser humano é por natureza falível e limitado e que só Deus é o mestre por excelência, tendo só Ele a resposta a todas as interrogações da vida. Assim, Jesus afirma que a moralidade depende apenas de Deus, sendo a Lei a concretização da sua bondade, pois favorece os mais desamparados, as vítimas e não os carrascos. Os mandamentos remetem para Deus como o bom (cf Sl 118,1), o melhor dos mestres para obter a vida, de acordo com o que afirmou Moisés, após a Teofania do monte Horeb: 
Por todo o caminho que vos ordenou o Eterno, vosso Deus (Jahvé Elohim), andareis para que vivais e seja bem para vós e prolongueis os dias na terra que haveis de herdar (Dt 5,29).”.
Da bondade divina dão testemunho os salmos: “Provai e vede que o Senhor é bom” (Sl 34,8);  e “Tu és bom e fazes o bem; ensina-me os teus decretos” (Sl 119,68). Ao invés dos rabinos da  época, que tinham como norma a sentença de que não há nada bom exceto a Lei, o salmista indica que é do Senhor que devemos escutar, como discípulos, os preceitos e Jesus está na verdadeira linha da tradição, indicando que também Ele tem como mestre o único Deus. Neste sentido recorda ao seu interlocutor os mandamentos referentes às relações com o próximo (Ex 20,12-17  e Dt 5,16-21), os da segunda tábua do decálogo. O texto mais antigo (Êxodo) tem esta ordem: adultério, roubo, homicídio. Já  o Deuteronómio põe o homicídio a anteceder o roubo. E há uma diferença entre Marcos e os outros dois evangelistas dos sinóticos:  só Marcos completa a citação da tábua com “não defraudarás” (não privarás o próximo do que lhe é próprio, como em Dt 24, 14), o que significará: “não cobiçarás a casa do teu próximo, nem a mulher, nem o campo, nem o servo, nem a serva, o boi ou o asno, ou tudo que seja do teu próximo”. Marcos é, pois, o único dos sinóticos a referir este preceito e utiliza o verbo “apostereîn”, que sugere que não se pode reter o salário dos trabalhadores O preceito de não assassinar deve, contra os budistas que citam o texto para evitar a matança de animais, ser entendido como referido só à morte de seres humanos. E a honra devida aos pais expressa a preocupação com o seu sustento. Na sua resposta, Jesus aponta que no homem existe um dever que ele reduzirá ao amor e respeito para com o próximo, sem o qual a vida terrena se inferniza por falta de convivência e a vida eterna será a continuidade dessa desordem.
Quando à noção de próximo, são de referir, segundo os diversos textos, significados como: irmão, companheiro, camarada, amigo, esposo, amante e vizinho. Como mandamento da Lei, aparece em Dt 5, 20: Não dirás falso testemunho contra teu próximo. Com o significado de amigo temos: Teu amigo que amas como à tua alma (Dt 13,6). A passagem que o escriba [nomikós] cita em Lc  10,27 é Lv 19,18 é: Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo, antes amarás o teu próximo como a ti mesmo. Segundo o comentário do rabino Meir Matziliah, “réa- amith- ben- am- ah” são os termos utilizados para designar “companheiro, próximo e irmão” (Ah é irmão e era usado para todo israelita). O livro do Levítico (19,17-18) tem: ah (irmão) amith (companheiro), ben (filho) am (povo) e rea (próximo). Assim, a citação será: 
Não odiarás o teu irmão [ah] no teu coração; repreenderás a teu companheiro [amith] e por causa dele não levarás sobre ti pecado. Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos [ben] do teu povo [am], mas amarás o teu próximo [reya] como a ti mesmo.
Próximo era todo o que merece o nosso amor. Jesus, com a parábola do bom samaritano (Lc cap 10) estende a ideia de próximo a todo homem, incluindo o que é nosso inimigo (desde que precise de nós). O próprio doutor da Lei, que pretendia saber quem era o seu próximo, descobriu que o próximo é aquele de que devemos ter compaixão, bem como aquele que tem compaixão de nós.
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Ante a resposta de Jesus, o rico reage perplexo dizendo que  vem guardando tudo isto desde a sua juventude [neotëtos]. Nestas palavras evidencia-se a integridade do homem que indica a sua boa disposição face aos ensinamentos de Jesus a quem chama de Mestre pela segunda vez e a afirmação da sua maturidade, pois a sua juventude era um passado mais ou menos recente. E Lucas refere que era um príncipe ou principal entre os judeus, o que requeria uma idade superior a 30 anos. Porém, Mateus (19,22) apresenta o interrogador como um jovem [neaniskos]. É uma divergência a testemunhar as diversas origens na transmissão das narrativas (Lucas segue com bastante precisão o relato de Marcos e, como Mateus, tem essa divergência). E, longe de jogar contra a história do facto, esta divergência, não sendo essencial, mostra como os evangelhos têm uma componente humana, dependente da condição do tempo e das testemunhas. Provavelmente “desde a minha juventude” (neotëtos]) transformou o indivíduo no homem jovem (neaniskos) de Mateus ou será tradução imperfeita do aramaico. E, Jesus, tendo-o olhado, amou-o e disse-lhe:
Uma só coisa falta: vai, vende quanto tens e dá aos pobres. E terás um tesouro no céu e vem. Depois, vem e segue-me (tendo tomado a cruz). – vd AugustinusMerk, para a inclusão de “tendo tomado a cruz” .
Marcos diz que, tendo fixado a vista nele, “o amou”, ao passo que outros traduzem por “lhe demonstrou o seu amor”. Em todo o caso, é gesto de ternura da parte de Jesus (talvez o beijo na fronte como os mestres faziam aos discípulos), que revela que reconhecia a verdade do testemunho do rico, humanamente dotado dos requisitos para entrar no círculo dos discípulos. E Jesus declara que a coisa em falta não é para ingressar na vida eterna, mas para se tornar um dos prediletos: é o despojamento total das riquezas, que são obstáculo à perfeição. Jesus exige a privação das riquezas, não como fim absoluto, mas como meio para obter a felicidade.  De facto, a causa importante é seguir o Mestre. Por outro lado, o despojamento não é destruição, mas repartição entre os necessitados. Ptöchos, no grego, é o homem que sobrevive com a caridade de outros. É usado o termo para descrever a viúva que deu duas moedas ao tesouro (Mc 12,42 e Lc 21,3) e os discípulos que tudo deixaram. Caso semelhante é o de Zaqueu que promete, em sinal de conversão, dar metade dos bens aos pobres, após ter restituído, segundo Lei, 4 vezes o injustamente roubado (Lc 19,8). Pobre é Lázaro, o mendigo da parábola do  epulário. Hoje, diríamos necessitados e não mendigos, já que pobres são os que não têm riquezas, propriedades.
Com a sua proposta, Jesus coloca o bem e a felicidade, não na proibição do decálogo, mas na prática generosa do desprendimento e do amor ao próximo. Assim, para entrar na vida, devemos evitar o mal; mas, para obter o tesouro celeste, temos mesmo de praticar o bem. Não fazer o mal ao próximo é compatível com a posse das riquezas, mas para fazer o bem devemos usá-las como meio e repartir. E este despojamento é a condição que Jesus exige dos discípulos: negar-se a si mesmo (Mc 8,34), ou seja, renunciar as todas as riquezas – materiais e espirituais – à ambição, posição social e poder, bem como renunciar a preeminências e privilégios. Assim o entenderam os primeiros cristãos que vendiam os seus bens e entregavam o produto da venda à comunidade.
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Contrariado e anuviado, o jovem afastou-se triste e pesaroso, pois tinha muitas propriedades. Esta retirada significa a dificuldade em o rico de seguir Jesus, por implicar uma renúncia muito difícil, e a tristeza que acompanha o homem rico quando contempla as necessidades do próximo e não o ajuda com os seus bens. Lucas não fala de retirada, mas supõe-na ao afirmar que ficou muito triste porque era enormemente rico (Lc 18,23).
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O comentário de Jesus sobre as riquezas
Tendo lançado o olhar ao redor, Jesus adverte os discípulos de como é difícil os que têm riquezas ("chrëmata"), bens (ou dinheiro, “chrëma) entrarem no reino do Deus, o que os deixou admirados. Porém, Jesus reitera:
Filhos, como é difícil aos que têm confiado nas riquezas entrarem no Reino de Deus” (Mc 10,24).
O termo utilizado no singular é dinheiro (chrema), como em At 4,37 – o dinheiro da venda do terreno de Barnabé, traduzido por pretium em latim, e em AT 8, 18 era o dinheiro (argýrion) que o mago Simão ofereceu a Pedro para obter os dons do Espírito Santo.
O jovem rico, que era um dos príncipes ou principais de Israel (Lc 18,18), ao ouvir que devia deixar a suas posses, afastou-se com amargura e tristeza, talvez porque pensava ser escolhido para integrar a chefia do novo Messias (aliás, era a ambição dos apóstolos). Foi a retirada do jovem o pretexto para Jesus falar abertamente com os discípulos, que acreditavam serem os ricos, os privilegiados de Jahvé (portanto, os que deviam ser escolhidos pelo Messias).  E, dado o espanto dos discípulos, Jesus matiza o discurso: não são apenas os ricos quem tem dificuldade em ingressar no Reino, mas também os que põem a esperança nas riquezas, ou seja, os que não as possuem, mas labutam por adquiri-las a todo custo.  Com efeito, as riquezas constituem a razão de ser e do agir de muitos, que tudo subordinam às riquezas, cuja sedução (com as demais concupiscências) leva ao sufoco da palavra  que fica sem fruto (Mc 4,19). E elas constituem em si mesmas um deus que escraviza e exige adoração divina (Mt 6,24). Por isso, ao transformarem-se em ídolo, são iníquas (mamona iniquitatis / mamoma tês adikías – Lc 16,9.11), sendo que “iniquidade” (adikia) é a palavra para significar “injustiça” no sentido humano, a lesão da justiça, a virtude correspondente (em Lc especialmente do juiz [18,6] e do desonesto administrador [16,8]).
O argumento de Jesus, além de insistente, é audaz e eloquente: “é mais fácil um camelo passar (dielthein) pelo orifício duma agulha que um rico entrar (eiselthein) no Reino de Deus” (Mc 10,25). O aoristo infinitivo de “dielthein” e eiselthein indica um tempo quase futuro de possibilidade e não um presente já em andamento. O buraco duma agulha  era símbolo de pequenez, ao passo que o camelo era então o animal de maior tamanho. Hoje, diríamos “um elefante”, tal como sucede na escola babilónica em que o Rabi Rabba troca o camelo pelo elefante e compara sonhos irrealizáveis com quem sonhou com uma palmeira de ouro ou com um elefante a passar pelo ocelo duma agulha. A comparação aduzida por Jesus evoca uma pequena parábola ou um provérbio da época que pretende sublinhar a dificuldade. Também Maomé, que foi educado num mosteiro cristão, afirma no Alcorão: 
Aos que desmentem e menosprezam nossas revelações, as portas do céu serão fechadas e não entrarão no paraíso até que o camelo passe pela fenda duma agulha” (Alc 7,40).
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Face ao discurso pedagogicamente subversivo de Jesus, os discípulos ficavam estupefactos dizendo entre si: Então quem pode ser salvo? Somente Lucas refere que eram os ouvintes quem comentava. Assim, as palavras de Jesus foram proferidas mais ou menos publicamente como uma asserção para toda a gente. Entende-se a perturbação emergente pela convicção epocal: os abençoados por Deus, os ricos, não se salvam ou dificilmente se podem salvar. Então é de perguntar o que se pode passar com o resto maioritário dos mortais.
Porém, Jesus, tendo fixado neles o olhar, esclarece através duma antítese em que sobressai o poder de Deus: para os homens é impossível, mas não para Deus (cf Lc 1,37), uma vez que para Deus todas as coisas são possíveis. Jesus afirma que o impossível (adynaton) para os homens é possível (dynaton) para Deus. E a história abunda em casos destes – como revelam os exemplos de António do Egito, de Francisco de Assis e de muitos outros – a confirmar a possibilidade exposta por Jesus. Os outros sinóticos escrevem o comentário final de Jesus com as mesmas palavras usando a oposição “impossível e  possível” correspondentes ao poder humano e à absoluta faculdade divina. Jesus sabia, por exemplo, que tanto José de Arimateia como Nicodemos eram pessoas ricas, mas que o amor deles à verdade era muito superior à sua ambição terrena. Nicodemos submete a sua sabedoria a Jesus quando lhe faz perguntas e lhe aceita as respostas. E José, num momento em que todos abandonam Jesus, faz-se seu coveiro, dando-lhe um sepulcro rico como a uma personagem amiga e venerada.
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O valor do desprendimento total
Então Pedro desafia: “Eis que nós abandonamos todas as coisas e te seguimos” (Mc 10,28). Lucas expressa com as mesmas palavras o pensamento de Pedro. Porém, Mateus adiciona a pergunta, implícita nos outros dois: Que podemos esperar? Ou seja: Que recebem os que abandonam tudo para seguir Jesus? Segundo Marcos, Jesus, em resposta, declara: 
Em verdade vos digo: Não há ninguém que tenha abandonado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos por minha causa e do evangelho que não receba centuplicados agora neste tempo casas e irmãos e irmãs e mães e filhos e campos no meio de perseguições e na outra época que vem a vida eterna.” (Mc 29-31).
Lucas praticamente coincide com Marcos, enquanto Mateus contém um inciso peculiar. Antes de se dirigir aos seus seguidores em geral, Jesus fala aos seus imediatos apóstolos, os doze: 
Em verdade vos digo: No dia da regeneração de todas as coisas, quando o Filho do Homem se sentar no seu trono de glória, vós, que me seguistes, haveis de sentar-vos em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel(Mt 19,28). 
Para Mateus, a resposta tem duas componentes: a dada aos doze apóstolos; e a dirigida a todos os abandonam tudo para seguir Jesus. A primeira, que só Mateus relata porque se refere diretamente a Israel – que não interessava aos gentios – releva a fundação dum reino novo sob o poder do Messias, em que o poder judicial, definindo quem é inocente (entra) e quem é culpado (fica de fora), seria dado aos apóstolos. Mateus identifica esse tempo com uma regeneração ou novo nascimento [palingenesia], que implica a instauração do Reino, significando o tempo após a ascensão de Jesus (quando o Filho do Homem estiver assentado no trono de sua glória), em que eles então se tornarão juízes das doze tribos de Judá. A segunda, narrada pelos três sinóticos, apresenta Jesus a enumerar esse tudo que abrange a família (o mais próximo e sagrado que há) e os bens, por escolha do evangelho; os tais  receberão neste mundo (en to kairo touto) o cêntuplo   (máximo rendimento duma semente e dum capital) que Lucas (mais moderado) afirma ser muitas vezes mais, e assegurarão a vida eterna. Esta promessa, válida em todos os tempos, tem levado muitos à vida religiosa, como anacoretas e cenobitas nos primeiros séculos, como monges e frades na Idade Média e como regulares e associados de institutos religiosos e seculares nos tempos modernos. E pode dizer-se que a promessa se cumpre, já aqui na terra, com os notáveis aumentos de paz e bem-estar na vida dos que O seguem, bem como na comunhão fraterna, como o entenderam os primeiros cristãos. Marcos tem um inciso surpreendente: “juntamente com perseguições” – o que era factual quando ao tempo da escrita do seu evangelho (antes dos anos 50), posterior à morte de Estêvão (ano 40, vd At 6, 8 – 7,1-60) à perseguição de Agripa (43-44, vd At 12,1-19) em que morre Tiago e é encarcerado Pedro. E é isso o que podem esperar os cristãos que o sã a sério.
O jogo dos últimos e primeiros com que termina a perícopa configura a profecia de que aqueles que, ao modo do jovem rico, não renunciam, passam de primeiros a últimos, mas quem se despoja de tudo e segue o Mestre, passa de último a primeiro.
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É de convocar a sabedoria que o hagiógrafo preferiu e implorou (Sb 7,7) para compreendermos e degustarmos esta Palavra de Deus cortante, viva e eficaz, que nos penetra o íntimo (Heb 4,12-13).
2018.10.14 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat!

A 22 de novembro, a Igreja Católica celebrou a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. Não se trata de um rei com poderio limitado a um território, a uma nação, a um período de tempo. É, sim, o rei universal e de todo o tempo: Princípio e Fim, Alpha (Α) e Ómega (Ω), o Primeiro e o Último, Senhor do Tempo e da Eternidade!
Os reis da Terra, mesmo que sejam imperadores, têm a jurisdição confinada a um território e a um período de tempo bem limitado. E hoje as democracias atribuem-lhes um poder pouco mais que simbólico. Alguns nem do poder de veto dispõem em relação aos seus parlamentos. Pertencem a família real, nascem em palácio ou então distinguiram-se pela sua bravura militar em prol do seu povo, que em compensação os aclamou como defensores, condutores e reis.
Jesus Cristo, ao invés, nasce em Belém numa gruta e é reclinado num presépio. A sua família é pobre e os seus feitos ignoraram a espada e os cavalos de guerra. Hoje, o bombardeiro, o míssil, o tanque de guerra, as minas e armadilhas, as armas biológicas, químicas e de hidrogénio não constituiriam recursos ao seu dispor. Mas Ele é Rei. Mateus (Mt 21,5) porfia que Ele cumpre as profecias veterotestamentárias referentes ao Messias-Rei e apresenta-o como o pregador genuíno do Reino dos Céus (cf Mt 4,17; 6,33) e como o líder do reino escatológico, que vem a julgar-nos pelas ações praticadas para com o próximo (cf Mt 25,21-46). Também Marcos o apresenta como o pregador do reino de Deus, apelando ao arrependimento (cf Mc 1,15). Por seu turno, Lucas apresenta as multidões a aclamá-lo, quando entrava solenemente em Jerusalém, como “o Rei que vem em nome do Senhor” (Lc 19,38) e coloca um dos salteadores que foram crucificados com Ele a pedir-lhe: “lembra-te de mim quando estiveres no teu reino” (Lc 23,42).
Os evangelhos sinóticos apresentam-no recorrentemente como o Rei dos Judeus ou o Rei de Israel. Todavia, é interessante anotar que Mateus nos reporta os presentes oferecidos por uns magos que vieram do Oriente: ouro, porque é rei; incenso, porque é Deus; e mirra, porque é homem (vd Mt 2,1-12). Mais do que o seu valor real, importa a simbologia: Rei, Deus, Homem.
Segundo João, Jesus a Pilatos que lhe pergunta se é o Rei dos Judeus, esclarece o sentido e a finalidade do seu reino:
“A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá. […] É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.” (Jo 18,36.37). 
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Assim, todos aqueles que reconhecem o reinado e a realeza de Cristo, se apressam a apresentar a distinção entre os reinos deste mundo e o reino de Cristo e o modus faciendi das suas realezas.
Por exemplo, o Bispo do Porto na sua homilia do dia 22, refere que o Evangelho do dia (Jo 18,33-37) nos recorda “que o reino de que somos membros e a realeza de Jesus, agora celebrada, não são feitos de grandeza nem de poder ou de ambição”, porquanto Jesus “não possui cetros nem tronos”, sendo “o seu reino” o “reino de amor e de serviço” – ainda que, esclareça-se, os salmos e a literatura apocalíptica ponham na mão do Messias-Rei o cetro, o sentem num trono de luz, lhe coloquem na cabeça a coroa e lhe firmem no escabelo os pés. E adiantou:
“Aqui reside a distinção entre o reino de Deus e aquilo a que nos habituou o mundo com os seus reinos, ideologias e impérios, que foi fazendo e desfazendo, construindo e desconstruindo, impondo e desmoronando, criando e levando a ruir” (sublinho).
E, a seguir, adverte com a lucidez do seu raciocínio e a firmeza simples da sua voz:
“Aqui devemos encontrar também a diferença entre o que Jesus nos propõe e as solicitações do mundo e do tempo, que, por vezes, em momentos menos lúcidos, nos levam a prender-nos ao poder, à riqueza, às aparências ou aos interesses pessoais momentâneos, em vez de nos dedicarmos, com uma vida simples, humilde e desprendida, ao serviço dos mais simples e dos mais pobres”.
Também o sacerdote que presidiu à celebração eucarística da Solenidade de Cristo Rei, ao meio dia, na igreja dos Passionistas frisou em três notas a distinção entre o Reino de Cristo e os reinos do mundo. O Reino de Cristo é, ao invés dos reinos do mundo, o reino da não-violência, o reino do amor, o reino do serviço – disse – evocando a onda de violência dos dias anteriores em Paris.
Com efeito, a violência gera mais violência, mas o amor gera mais amor e é mais forte que a morte, o serviço leva a cuidar do outro e a proporcionar-lhe o aumento do bem-estar e sentido da dignidade humana. Neste sentido, o serviço e o amor desempenham a função da autêntica autoridade (auctoritas, no latim, significa aumento).
Por outro lado, o Prelado portuense, referindo-se ao facto de a liturgia ter escolhido a perícopa do Evangelho de São João sobre o sentido e a finalidade da realeza de Cristo ao concluir e ao completar o ano litúrgico dela fazendo “uma espécie de síntese da palavra de Deus proclamada ao longo de todo o ano”, esclareceu-nos sobre o rumo da nossa participação no Reino da Cruz:
“Somos convidados a perceber que a vida de Jesus, a sua palavra e a sua herança se consubstanciam neste reino que anuncia a boa nova aos pobres e aos retos de coração. Jesus foi reconhecido como Salvador e como Rei no auge da cruz, através do olhar crente do centurião romano que, ao ver como Jesus dá a vida, numa total fidelidade e obediência à vontade do Pai, reconhece que Ele é o Filho de Deus.”
Depois, assinala o sentido do serviço totalizante (até ao sangue, se necessário for) que somos convidados a exercer em prol do Reino:
“Só quando damos a vida, quando somos servos, quando nos entregamos à missão é que contribuímos para a salvação do mundo, para a construção do reino de Deus e para a vida da Igreja”.
E, fazendo a ponte de passagem deste fim de ano litúrgico para a “Caminhada de Advento-Natal”, proposta à Diocese nos alvores do novo ciclo anual, afirma que ela vai proporcionar “este sentido de serviço e esta dimensão de entrega da vida a Deus para bem dos irmãos”, na certeza de que  “Há mais alegria em dar-(Se)”.
Assim, “os gestos, os desafios, as atitudes e os valores” da predita Caminhada de Advento-Natal mostram “como podemos fazer das nossas vidas, dos lugares que habitamos e dos projetos humanos e pastorais que desenvolvemos, presépios onde Jesus nasça”, para que se faça Natal “no coração de cada pessoa, de cada família e de cada comunidade”.
Ademais, evocando a proximidade da inauguração do Ano da Misericórdia, mostrou-se convicto de que sob o signo do Jubileu, “compreenderemos ainda mais o que hoje nos diz o Evangelho” e explicitou:
“O amor e o serviço a que somos chamados como construtores de um reino novo e de mundo melhor são o rosto humanizado da bondade, da ternura e da misericórdia de Deus. Encontraremos em Jesus, o Filho de Deus, a porta da misericórdia divina. Pertence-nos viver, anunciar, celebrar e testemunhar esta misericórdia que constitui a essência do Reino de Deus e o desígnio da missão da Igreja.”.
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Lá de Roma, também Francisco, à recitação do Angelus, no passado domingo, evocou a Solenidade de Cristo Rei. E, comentando o Evangelho da Eucaristia desta solenidade litúrgica, sublinhou que Jesus, apresentado a Pilatos, se intitula como rei de um reino que “não é deste mundo” (Jo 18,36).
Porém, o Papa, para que não se pense que este reino pode esperar, por supostamente ser considerado como de um mundo longínquo e incessível à maioria, adverte:
“Isto não significa que Cristo é rei de outro mundo, mas que é rei de outra maneira. É uma contraposição entre duas lógicas. A lógica mundana apoiada na ambição e na competição, combate com as armas do medo, da chantagem e da manipulação das consciências. A lógica do Evangelho, a de Jesus, ao invés, expressa na humildade e na gratuidade, afirma-se silenciosamente, mas eficazmente com a força da verdade.”
É, pois, um reino que já começou, que está entre nós, mas com uma lógica e um dinamismo diferentes dos reinos deste mundo e que a ele se confinam. Enquanto “os reinos deste mundo, por vezes, são erguidos sobre a prepotência, a rivalidade, a opressão”, o reino de Deus ou o reino de Cristo é um “reino de justiça, de amor e de paz” (vd Prefácio da Missa de Cristo Rei).
Por outro lado, o Pontífice aponta o facto de Jesus se revelar como rei justamente na cruz. E a quem supõe que isto é “uma falência”, responde que se trata da “surpreendente gratuitidade do amor” ou, se quisermos, a “falência do pecado”, das ambições, explicitando:
“Na falência da Cruz se vê o amor, este amor que é gratuito, que Jesus nos dá. Falar de potência e de força para o cristão, significa fazer referência ao poder da Cruz e à força do amor de Jesus: um amor que permanece firme e íntegro, mesmo diante da recusa, que surge como o cumprimento de uma vida gasta na oferta total de si em favor da humanidade”.
Sobre o facto de, “no Calvário, os circunstantes e os líderes” ridicularizarem Jesus pregado na cruz e lhe lançarem o desafio do “Salva-te a ti mesmo, e desce da cruz” (Mc 15,30), o Bispo de Roma ensina que efetivamente “a verdade de Jesus é aquela que em tom de zombaria os seus adversários lançam sobre Ele de que “não pode salvar-se a si mesmo!” (Mc 15,31) e assegura:
“Se Jesus tivesse descido da cruz, teria cedido à tentação do príncipe deste mundo; ao invés, Ele não se salva a si mesmo justamente para poder salvar os outros, porque deu a sua vida por nós, por cada um de nós”.
Depois, apela a que cada um interiorize a entrega de Jesus por cada um de nós. Assim, explica:
“Dizer ‘Jesus deu a vida pelo mundo é verdadeiro’, mas é mais belo dizer ‘Jesus deu a sua vida por mim’. E hoje aqui na praça, cada um de nós diga em seu coração ‘Deu a vida por mim’, para salvar cada um de nós dos nossos pecados.”.
E destacou o facto de ter sido um malfeitor a entender isto. Com efeito, foram crucificados com Ele dois malfeitores. Desses, um conhecido como o “bom ladrão” suplicou-Lhe que se lembrasse dele, quando entrasse no seu reino” (cf Lc 23,42). A este propósito o Papa comentou:
“Ele era um malfeitor, era um corrupto que foi condenado à morte por causa da brutalidade que cometeu na vida. Mas viu na atitude de Jesus, na humildade de Jesus o amor. Esta é a força do reino de Cristo: o amor”.
Por isso, o Prelado de toda a Igreja Católica medita diante do povo reunido à sua frente:
“A força de Reino de Cristo é o amor, por isso, a realeza de Jesus não nos oprime, mas liberta-nos das nossas fraquezas e misérias, encorajando-nos a seguir os caminhos do bem, da reconciliação e do perdão”.
Daí o conselho papal de contemplação e de oração de súplica confiante:
“Olhemos para a cruz de Jesus, olhemos para a cruz do bom ladrão e digamos todos juntos aquilo que disse o bom ladrão: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino”. Pedir a Jesus, quando nos encontramos frágeis, pecadores, derrotados, para nos guardar e dizer: ‘O Senhor está ai. Não se esqueça de mim’.”.
E pretende que, face a “tantas dilacerações no mundo” e a demasiadas feridas na carne dos homens, Nossa Senhora nos ampare no nosso esforço de imitação de Jesus, o rei, tornando visível o seu reino nos “gestos de ternura, de compreensão e de misericórdia”.
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Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat! – Cristo vence, reina e impera.

2015.11.24 – Louro de Carvalho