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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Papa em Moçambique, recebido com satisfação, compreende e exorta


No quadro da sua viagem apostólica de 4 a 10 de setembro a Moçambique, Madagáscar e Maurícias, Francisco chegou à tarde do dia 4 a Maputo, em cujo aeroporto decorreu a cerimónia de boas-vindas, permanecendo na cidade até ao final da manhã do dia 6.
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Após a visita de cortesia ao Presidente da República no Palácio da Ponta Vermelha, o Pontífice encontrou-se com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático.
No seu discurso, sentiu-se feliz por iniciar a viagem apostólica “por este país, tão abençoado pela sua beleza natural como pela sua grande riqueza cultural que traz à provada alegria de viver do vosso povo a esperança num futuro melhor” e que “abre as suas portas para alimentar um renovado futuro de paz e reconciliação”.
Dirigiu “palavras de proximidade e solidariedade” aos que sentiram as pesadas consequências dos ciclones Idai e Kenneth, partilhando “a angústia e sofrimento” de quem foi atingido e “o compromisso da comunidade católica para fazer frente a tão dura situação” e pedindo “a solicitude de todos os atores civis e sociais que, pondo a pessoa no centro, sejam capazes de promover a necessária reconstrução”.
Saudou o esforço de paz e reconciliação desenvolvido sob a égide da comunidade internacional como “o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e desafios” que Moçambique tem como nação, destacando o acordo de cessação definitiva das hostilidades militares entre irmãos moçambicanos assinado recentemente na Serra da Gorongosa – um marco plantado na senda da paz que parte do Acordo Geral de 1992 em Roma. São esforços que sustentam a esperança e dão confiança para que o modo de escrever a história não seja “a luta fratricida”, mas “a capacidade de se reconhecerem como irmãos, filhos duma mesma terra, administradores dum destino comum”. É a coragem da paz, “uma coragem de alta qualidade: não a da força bruta e da violência, mas aquela que se concretiza na busca incansável do bem comum”.
Assegurando que os moçambicanos conheceram “o sofrimento, o luto e a aflição”, mas sem deixarem que “o critério regulador das relações humanas fosse a vingança ou a repressão” ou que “o ódio e a violência tivessem a última palavra”, citou São João Paulo II para observar:
Com a guerra ‘muitos homens, mulheres e crianças sofrem por não terem casa onde habitar, alimentação suficiente, escolas onde se instruir, hospitais para tratar a saúde, igrejas onde se reunir para rezar e campos onde empregar as forças de trabalho. Muitos milhares de pessoas são forçadas a deslocar-se à procura de segurança e de meios para sobreviver; outras refugiam-se nos países vizinhos.’ (...) Não à violência e sim à paz!” (Discurso de Chegada, 16 de setembro de 1988, n. 3).
Reconhecendo que o povo, ao longo dos anos, sentira que a busca da paz – missão que envolve a todos – “exige um trabalho árduo, constante e sem tréguas”, pois a paz é “como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência”, disse que é preciso continuar a afirmar, com determinação mas sem fanatismo, com coragem mas sem exaltação, com tenacidade mas de maneira inteligente: não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.
Mais que a ausência de guerra, a paz é “o empenho incansável”, especialmente dos que ocupam um cargo de maior responsabilidade, em “reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os principais protagonistas do destino da própria nação”, pois, “sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão”. Ora, se a sociedade “abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”.
Depois, Francisco salientou alguns dos aspetos de desenvolvimento que a paz possibilitou, como a educação e a saúde, e encorajou a prossecução do trabalho de “consolidar as estruturas e instituições necessárias” para que “ninguém se sinta abandonado”, especialmente os jovens, que formam grande parte da população e que “são o presente que interpela, busca e precisa de encontrar canais dignos que lhes permitam desenvolver todos os seus talentos; e são um potencial para semear e desenvolver a tão desejada amizade social”.
E frisou que, no quadro da cultura de paz, “o caminho há de ser aquele que favoreça a cultura do encontro e dela fique todo impregnado: reconhecer o outro, estreitar laços, lançar pontes”; e, por outro lado, torna-se “imprescindível manter viva a memória como caminho que abre futuro; como caminhada, que leve a procurar metas comuns, valores compartilhados, ideias que favoreçam superar interesses setoriais, corporativos ou partidários para que as riquezas da nação sejam colocadas ao serviço de todos, especialmente dos mais pobres”. E exortou:
Tendes uma corajosa e histórica missão a cumprir: não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra... Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.”.
E, após ter afirmado as condições-base da subsistência condigna – terra, teto e trabalho –, o Santo Padre inscreveu na rota da paz o olhar pela Casa Comum e disse que, nesta ótica, “Moçambique é uma nação abençoada”, sendo os moçambicanos “especialmente convidados a cuidar desta bênção”. A seguir, explanou:
A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, não é cultivada sequer por pessoas que habitam estas terras, nem é motivada pelo bem comum do vosso povo. Uma cultura de paz implica um desenvolvimento produtivo, sustentável e inclusivo, onde cada moçambicano possa sentir que este país é seu, e no qual possa estabelecer relações de fraternidade e equidade com o seu vizinho e com tudo o que o rodeia.”.
Por fim, disse que todos são “os construtores da obra mais bela a ser realizada: um futuro de paz e reconciliação como garantias do direito ao futuro dos vossos filhos” e expressou o desejo de, em comunhão com os irmãos bispos e “a Igreja Católica que peregrina nesta terra”, contribuir para que “a paz, a reconciliação e a esperança reinem definitivamente” no povo moçambicano.
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Numa festa inter-religiosa e culturalmente rica da juventude, Francisco pronunciou o segundo discurso do dia em Maputo, neste dia 5. Os jovens foram a expressão da paz e da reconciliação do país, através de cantos, apresentações artísticas e tradições religiosas, sempre encorajados pelo Pontífice que incentivou a não se resignarem diante das provações e terem cautela com a ansiedade que pode criar barreiras para realizar os sonhos.
O Papa encontrou os jovens no Pavilhão do Clube de Desportos do Maxaquene, conhecido como Maxaca – uma sociedade com tradição no futebol, tanto que já ganhou cinco títulos nacionais. Hoje o espaço acolheu mais de 4 mil jovens cristãos, muçulmanos e hinduístas para um grande encontro inter-religioso.
Em cerca de uma hora com a juventude de Moçambique, o Papa conseguiu conhecer um pouco da realidade local das diferentes confissões religiosas que se apresentaram, através da arte do canto e de coreografias especiais, demonstrando diferentes temas e motivos de preocupação dos jovens do país. E foi interpretado um hino comum às denominações religiosas antes do discurso do Pontífice, em que destacou no quadro da consciência da importância dos jovens:
O que há de mais importante para um pastor do que encontrar-se com os seus jovens? Vós sois importantes! Precisais de saber disso, precisais de acreditar nisso: vós sois importantes! Mas com humildade porque não sois apenas o futuro de Moçambique ou da Igreja e da humanidade; vós sois o presente de Moçambique! Com tudo o que sois e fazeis, já estais a contribuir para ele com o melhor que hoje podeis dar.”.
O Papa começou por enaltecer a expressão tão autêntica da alegria que carateriza o povo de Moçambique, vincando:
É uma alegria que reconcilia e se torna o melhor antídoto capaz de desmentir todos aqueles que querem dividir, fragmentar ou contrapor. Como faz falta, em algumas regiões do mundo, a vossa alegria de viver!.
Também foi elogiada pelo Pontífice a presença das diferentes confissões religiosas no local, demonstrando a união familiar através do “desafio da paz”, da esperança e da reconciliação. Com essa experiência, disse ele, é possível perceber que “todos somos necessários: com as nossas diferenças, mas necessários”. E apontou:
Vós, jovens, caminhais com dois pés como os adultos, mas, ao contrário dos adultos que os mantêm paralelos, vós colocais um atrás do outro, pronto a arrancar, a partir. Vós tendes tanta força, sois capazes de olhar com tanta esperança! Sois uma promessa de vida, que traz em si um certo grau de tenacidade (cf Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 139), que não deveis perder nem deixar que vos roubem.”.
Procurando responder a duas perguntas dos jovens sobre como realizar os sonhos da juventude e como contribuir para solucionar os problemas que afligem o país, a indicação do Pontífice veio do caminho de riqueza cultural apresentado pelos jovens, através da arte, expressão “de parte dos sonhos e realidades”, sempre regada de esperança e de ilusões. E Francisco voltou a insistir com os jovens para não deixarem que “roubem a sua alegria”, para não deixarem de cantar e se expressarem conforme as tradições de casa.
Depois alertou para a cautela com “duas atitudes que matam os sonhos e a esperança: a resignação e a ansiedade”.
São grandes inimigas da vida, porque normalmente nos impelem por um caminho fácil, mas de derrota; e a porta que pedem para passar é muito cara… (…) Paga-se com a própria felicidade e até com a própria vida. Resignação e ansiedade: duas atitudes que roubam a esperança. Quantas promessas de felicidade vazias que acabam por mutilar vidas! Certamente conheceis amigos, conhecidos – ou pode mesmo ter acontecido convosco – que, em momentos difíceis, dolorosos, quando parece que tudo cai em cima de vós, ficais prostrados na resignação. (…) Quando tudo parece estar parado e estagnante, quando os problemas pessoais nos preocupam, as dificuldades sociais não encontram as devidas respostas, não é bom dar-se por vencido’. ”.
Inspirado no desporto, deu o exemplo do futebolista Eusébio da Silva, o “pantera negra”, que começou a carreira no clube de Maputo, acentuando que o atleta não se resignou ante as graves dificuldades económicas da família e a morte prematura do pai, sendo que o futebol o ajudou a perseverar. E, fazendo a analogia com o jogo em equipa, falou da importância do empenho pelo país com a tática da união e independentemente do que diferencia as pessoas, frisando:
Como é importante não esquecer que ‘a inimizade social destrói. E uma família se destrói pela inimizade. Um país se destrói pela inimizade. O mundo se destrói pela inimizade. E a inimizade maior é a guerra porque são incapazes de se sentar e falar, de se sentar e falar. Sede capazes de criar a amizade social!”.
E o Papa lembrou o provérbio africano conhecido e citado mundialmente para “sonhar juntos”, que diz: “Se quiseres chegar depressa, caminha sozinho; se quiseres chegar longe, vai acompanhado”. Mas é preciso afastar a ansiedade que é inimiga dos sonhos da juventude por um país melhor, pois – diz o Pontífice – “eles são conquistados com esperança, paciência e determinação, renunciando às pressas”.
A seguir, veio o exemplo de Maria Mutola, que aprendeu a perseverar, apesar de ter perdido a medalha de ouro nos três primeiros Jogos Olímpicos que disputou. O título dourado veio na quarta tentativa, quando a atleta dos 800 m venceu nas Olimpíadas de Sidney. “A ansiedade não a deixou absorta em si mesma, ao conseguir nove títulos mundiais”, disse Francisco.
No âmbito da importância dos idosos e da Casa Comum, o Papa exortou a não esquecerem o apoio dos idosos, que podem ajudar a realizar sonhos sem que “o primeiro vento da dificuldade” venha a impedir. Com efeito, escutar as pessoas mais experientes, valorizando as tradições e fazendo a própria síntese, como aconteceu com a música (o ritmo tradicional de Moçambique: da marrabenta nasceu o pandza, com toque moderno). Por outro lado, o Papa argentino lembrou o comprometimento com o cuidado da Casa Comum num país com tamanha beleza natural, mas que também já sofreu com o embate de dois ciclones, pois o desafio de proteger o meio ambiente é uma forma de permanecer unidos para ser “artesãos da mudança tão necessária”.
Por fim, o Papa Francisco encorajou os jovens a encontrarem novos caminhos de paz, liberdade, entusiasmo e criatividade, e “com o gosto da solidariedade”, para responderem às provações e problemas vividos no país, dado que é grande “o poder da mão estendida e da amizade” para que a solidariedade cresça e se torne na melhor arma para transformar a história. E Francisco concluiu apelando aos jovens que não esqueçam quanto Jesus os ama:
[É o amor do Senhor que se entende mais de levantamentos que de quedas, mais de reconciliação que de proibições, mais de dar nova oportunidade que de condenar, mais de futuro que de passado (Ibid., 116). Eu sei que vós acreditais nesse amor que torna possível a reconciliação.]”.
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No encontro em Maputo, na catedral da Imaculada Conceição, com bispos, sacerdotes, religiosos, seminaristas, consagrados, catequistas e animadores, o Papa exortou:
Reavivemos o nosso chamamento vocacional e que o nosso sim comprometido proclame as grandezas do Senhor e alegre o espírito do nosso povo em Deus nosso Salvador. E encha de esperança, paz e reconciliação o vosso país, nosso querido Moçambique.”.
Sugeriu que voltar a Nazaré pode ser o caminho para enfrentar a crise de identidade, para nos renovarmos como pastores-discípulos-missionários. E disse:
Não podemos correr atrás daquilo que redunda em benefícios pessoais; os nossos cansaços devem estar mais relacionados com ‘a nossa capacidade de compaixão: são compromissos nos quais o nosso coração estremece e se comove’.
“Para nós, sacerdotes – acrescentou o Santo Padre –, as histórias do nosso povo não são um noticiário: conhecemos a nossa gente, podemos adivinhar o que se passa no seu coração”. “E, assim, a nossa vida sacerdotal se vai doando no serviço, na proximidade ao povo fiel de Deus…, etc., o que sempre, sempre cansa.”.
Falando aos jovens que se interrogam ou que se sentem chamados à vida consagrada, disse:
Tu que ainda te interrogas ou tu que já estás a caminho duma consagração definitiva dar-te-ás conta de que ‘a ansiedade e a velocidade de tantos estímulos que nos bombardeiam fazem com que não haja lugar para aquele silêncio interior onde se percebe o olhar de Jesus e se ouve o seu chamamento’.”.
Depois, aconselhou:
Procura, antes, aqueles espaços de calma e silêncio que te permitam refletir, rezar, ver melhor o mundo ao teu redor e então sim, juntamente com Jesus, poderás reconhecer qual é a tua vocação nesta terra.”.
E concluiu vincando que a Igreja em Moçambique é convidada a ser a Igreja da Visitação: “não pode ser parte do problema das competências, menosprezos e divisões de uns contra os outros, mas porta de solução, espaço onde sejam possíveis o respeito, o intercâmbio e o diálogo”.
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Seguiu-se a visita privada à “Casa Mateus 25” e espera-se pelo que, após a visita ao hospital de Zimpeto, vai dizer na Missa do dia 6, no Estádio de Zimpeto.
O Papa não para de ouvir, compreender e levantar a sua voz – ora ternurenta ora interpelante – de profeta, apóstolo e missionário.
2019.09.05 – Louro de Carvalho

domingo, 10 de março de 2019

Um dos mais dramáticos testes de stresse de Jesus: no deserto

No início da Quaresma, a Palavra de Deus incentiva a repensar as nossas opções pessoais de vida e a tomar consciência das “provações” que tentam impedir-nos de renascer para a vida de Deus, que se alimenta com o jejum e a abstinência da sobriedade, para nos desprendermos dos bens materiais, que nos ofuscam o espírito, com a oração, que nos faz entrar dentro de nós, superar a autossuficiência e dirigir o olhar para as estrelas, e com a esmoleridade, que nos treina para a partilha – de modo que se desenvolva a pessoa e se edifique a comunidade solidária.
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Um trecho evangélico de antologia
O trecho evangélico do I domingo (Lc 4,1-13) é vulgarmente conhecido como “as tentações de Jesus”, o que, de si, é ambíguo, pois ser tentado significa ser atraído para algo proibido ou ser induzido a pecar. Porém, na Bíblia e nesta perícopa, o verbo “peirázein” e o nome “peirásmos” não têm o sentido de tentar, mas de pôr à prova, fazer teste para verificar a fidelidade e o valor de alguém. Assim, Jesus é posto à prova, não para ser levado a cometer pecado, mas para manifestar o que de mais profundo existe em Si, o que não significa que não tivesse de fazer escolhas fundamentais exigentes. O diabo queria desviá-Lo do caminho e levá-Lo por atalhos.
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Augusto Cury, no livro “O homem mais inteligente da História”, põe na boca de Marco Polo, um cientista da psiquiatria que decidiu analisar o perfil de Jesus exclusivamente do ângulo das ciências humanas, garantindo que o Mestre dos Mestres foi um educador das mentes para as levar a pensar autonomamente e a gerir a emoção pessoal num dinamismo de fazer um “gasto de energia emocional útil” (GEEU) e que, “antes de abrir a boca para o mundo, passou pelo mais dramático teste de stresse”. Diz que os testes a que Jesus se sujeitou são incomuns, insuperáveis e até insuportáveis para o homem comum que não se autodomine no campo da emoção.  
Uma das componentes do teste do trecho em causa é a passagem no deserto por 40 dias (e 40 noites) sem comer – o desafio à capacidade de sobrevivência que a ciência não explica sobretudo no quadro da penúria de água. É óbvio que depois sentiu fome e Satanás incitou-o ao abuso do poder do milagre espetacular para satisfazer as necessidades corporais: podia transformar pedras em pão. No entanto, o provando responde ao tentador que nem só de pão vive o homem, mas da Palavra que sai da boca de Deus, um pensamento lógico. Na resposta, releva a força da Palavra, mostra “um pensamento lúcido quando todo o seu corpo morria” e evidencia um alto “poder mental” e revela “uma consciência crítica comparativa: pão físico versus pão metafísico. Depois, entra num campo vedado à ciência, a sobrevivência humana simbolizada no pão de trigo, mas propiciada pelo suprimento produzido pelo Autor da Vida. Ou seja, Jesus apontava o maior sonho dos mortais: a eternidade. Por outras palavras, irrigava a vida com a esperança, pois, sem esperança, morreremos. O corpo de Jesus foi levado ao limite como iria suceder mais tarde e, em vez de sucumbir aos instintos, preservou a sua consciência crítica.
A seguir, veio o apelo neurótico ao poder, sendo o autocontrolo do Mestre testado ao máximo. Diz Cury que “Jesus, depois do teste físico, foi testado no que toca a ambicionar o poder e usá-lo de forma desmedida durante toda a sua jornada”. Enquanto muitos vendem a alma ao diabo pelo poder, se corrompem, destroem princípios, esmagam a ética, “matam, controlam os seus pares e fomentam guerras”, Jesus, que tinha a capacidade de seduzir e dominar povos e reinos, não usou do poder. Antes, reagia sempre “como um nobre, não como um encarcerado”, a ponto de Pilatos vir a parecer “uma criança diante d’Ele” e Herodes “um rapazinho”.
Por fim, o desafio do espetáculo religioso – atirar-se do pináculo do Templo – garantir-Lhe-ia o domínio e a gestão de todas as religiões. Mas Ele recusou, pois desejava “apenas ser humano”. E, porque “propunha uma revolução na essência da humanidade”, pode dizer-se que “nunca alguém tão grande desejou fazer-se tão pequeno para fazer os pequenos grandes”.
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Estamos no começo da atividade pública de Jesus, que acabara de ser batizado por João Baptista e recebera o Espírito para a missão (cf Lc 3,21-22). Agora, é impelido ao deserto pelo Espírito Santo, para preparar proximamente o ministério em sobriedade e oração, e confronta-Se com uma proposta de atuação messiânica que subverte a proposta do Pai: prescindir de Deus e seguir um caminho mundano de êxitos, aplausos, poder e riqueza. No entanto, soube dizer não a todas as propostas que O afastavam do plano do Pai. “E o diabo retirou-se de junto dele” (Lc 4,13).
Mais do que um relato de episódios da vida de Jesus no início do seu ministério público, o texto evangélico é uma catequese sobre o modo como Jesus foi posto à prova (vd Lc 4,13). Servindo-se de imagens bíblicas e citações do AT (Antigo Testamento), o autor sintetiza imageticamente a luta contra o mal que Jesus manteve, não só durante algum tempo, mas durante toda a sua vida.
O médico Lucas sugere que Jesus recusou radicalmente o caminho de materialismo, poder, êxito fácil, pois o plano de Deus não passa pelo egoísmo, mas pela partilha; não passa pelo autoritarismo, mas pelo serviço; não passa por manifestações espetaculares impressionantes para as massas, mas pela proposta de vida plena, feita de simplicidade e amor. E esse caminho foi sugerido aos seguidores de Jesus, embora eles fossem amiúde tentado a trilhar outras vias.
O texto lucano mostra a preparação de Jesus para a atividade que está para inaugurar, manifestando uma superioridade serena sobre os adversários que encontrará no ministério. Jesus permanece permanentemente fiel à vontade de Deus, sem ambição pessoal, sede de poder ou egocentrismo. Nada o desviará da sua missão messiânica; vive a sua realidade de Filho de Deus como homem autêntico, sem procurar fugir da condição humana comum a todos, pois faz questão de Se afirmar como Filho do Homem, assumindo por inteiro a marca da Humanidade, para que o homem seja cada vez mais homem.
Lucas (como já o havia feito Mateus) apresenta a catequese sobre as opções de Jesus, em três “miniparábolas”. O relato constrói-se em torno dum diálogo em que tanto o diabo como Jesus citam a Escritura em apoio da sua postura. A 1.ª “miniparábola” sugere que Jesus podia optar pela via da facilidade e riqueza, utilizando a sua divindade para resolver qualquer necessidade material. Mas Ele sabe que “nem só de pão vive o homem” e que o caminho do Pai não passa pela acumulação egoísta de bens. A resposta de Jesus cita Dt 8,3, sugerindo que o seu alimento, a sua prioridade, é a Palavra do Pai. A 2.ª “miniparábola” sugere que Jesus podia ter escolhido um caminho de poder, domínio, prepotência, ao jeito dos grandes da terra. Porém, Ele sabe que esses esquemas diabólicos não entram nos planos do Pai; por isso, citando Dt 6,13, diz que só o Pai é o “Absoluto” e que não se deve adorar mais nada nem mais ninguém: adorar o poder que corrompe e escraviza é contrário ao projeto de Deus. E a 3.ª “miniparábola” sugere que Jesus poderia ter construído um caminho de êxito fácil, mostrando o seu poder através de gestos espetaculares e sendo aclamado pelas multidões (sempre dispostas a deixarem-se fascinar pelo “show” mediático). Jesus responde citando Dt 6,16, que manda “não tentar” o Senhor Deus. Aqui, “tentar” significa “não utilizar os dons de Deus ou a bondade de Deus com um fim egoísta e interesseiro”.
Apresentam-se, portanto, diante de Jesus, dois caminhos: dum lado, a proposta do diabo, de que Jesus realize o seu papel na história da salvação como um Messias triunfante, ao jeito dos homens; do outro, a escolha de Jesus, o caminho de obediência ao Pai e de serviço aos homens, que elimina qualquer conceção do messianismo como poder.
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Os elementos comuns – tentação, deserto, 40 dias – sugerem o paralelo entre este texto e a prova de Israel no deserto, durante o Êxodo. As respostas de Jesus são citações que provêm do Deuteronómio (Dt 8,3; 6,16.13), considerando a experiência de Israel no deserto como prova a superar e referindo-se a três acontecimentos peculiares: murmuração do povo antes do maná; murmuração antes do milagre da água em Massa; e chamada de atenção de Moisés ao povo contra o perigo da idolatria.
Nas primeiras tradições cristãs a expressão “filho de Deus” tinha um acento messiânico: Jesus, vitorioso sobre Satanás, neste novo êxodo revela-Se como o messias esperado. Mas Lucas não se fixando na história passada, mostra-se menos sensível que Mateus em relação à experiência de Israel no deserto. Para ele, o novo êxodo é, antes de mais, o drama pascal que se desenrolará em Jerusalém, ponto central de toda a sua obra (Evangelho e Atos dos Apóstolos). Por isso, inverte a ordem das tentações, finalizando com Jesus no Templo e não sobre o alto dum monte, como faz Mateus. A insistência Lucana sobre o “diabo” visa a apresentação, desde já, da personagem que reentrará em cena no momento da Paixão – o tempo oportuno – para entrar em Judas (vd Lc 22,3-5) e inspirar os responsáveis do drama. E o pão já não é o maná do deserto, como em Mateus, que grafa pães no plural.
Mais que a imagem dos dons de Deus e do dom por excelência que alimenta o povo – a Lei – o pão é agora o símbolo da vida, a vida que somos sempre tentados a compreender não como dom, mas como algo de que queremos ser senhores. Também Jesus, ao longo da sua vida, foi tentado a servir-se do poder divino, de Filho de Deus, para resolver as suas dificuldades e problemas comuns a todos os homens. Agindo deste modo, afastar-se-ia da condição humana, deixando de ser solidário com os outros. Neste sentido, compreende-se a tentação do malfeitor impenitente sobre a cruz: “Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (vd Lc 23,29).
Neste Evangelho (vd Lc 4,6), como nos Atos, fala-se claramente do poder de Satanás (At 26,18). A grande tentação está entre o domínio e o serviço. Jesus é tentado a dominar os que o rodeiam, servindo-se do estatuto de Mestre e Filho de Deus. Mas a sua opção foi a do serviço: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). No Calvário os soldados desafiarão Jesus: “Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!” (Lc 23,37). Jesus recusa esta conceção de poder. Já no momento da sua prisão ele tinha dito: “Esta é a vossa hora e o poder das trevas!” (Lc 22,53).
A provação do Templo não é propriamente a de se apropriar dos dons de Deus, de colocar o poder de Deus ao serviço dos seus projetos particulares, mas a de fugir ao seu destino, evitando a prova. É a tentação do angelismo narcisista a quem procura viver a relação íntima com Deus, exigindo de Deus uma prova do seu amor e uma proteção especial. “Salvou outros! Salve-se a si mesmo, se ele é o Cristo de Deus, o Eleito!” (Lc 23,35) – ironizarão os chefes do povo, propondo ao Crucificado que assuma um destino incomum. Ora, Jesus quer viver a confiança filial no Pai na obediência quotidiana como homem que não espera privilégios nem intervenções extraordinárias, mas que aceita pacientemente o seu destino até ao fim e nele reconhece a proximidade divina: não em resignação, mas no pleno uso da liberdade pessoal.
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Fazer de Deus a nossa referência fundamental
A passagem do livro do Deuteronómio (Dt 26,4-10), tomada para 1.ª Leitura desta dominga, convida a eliminar os ídolos (falsos deuses: heróis, dinheiro, prazer, poder, prestígio), em que, às vezes, apostamos tudo, e a fazer de Deus a nossa referência fundamental. Alerta-nos, na mesma lógica, contra a tentação do orgulho e da autossuficiência, que nos levam a caminhos de egoísmo, egotismo e egocentrismo, de desumanidade, de desgraça e de morte.
O Deuteronómio é o “livro da Lei” ou “livro da Aliança” descoberto no Templo de Jerusalém no 18.º ano do reinado de Josias (622 a. C.). Nele os teólogos deuteronomistas (originários do norte mas refugiados no sul, em Jerusalém, após as derrotas dos reis do norte frente aos assírios) expõem os dados fundamentais da sua teologia: há um só Deus, que deve ser adorado por todo o Povo num único local de culto (Jerusalém) e que amou e elegeu Israel, com quem fez uma aliança eterna; e o Povo de Deus deve ser um povo único, unido, a propriedade pessoal de Jahwéh, pelo que não têm qualquer sentido as divisões históricas que levaram o Povo de Deus à divisão política e religiosa, após a morte do rei Salomão.
Literariamente, o livro compendia discursos de Moisés pronunciados nas planícies de Moab. Com efeito, antes de entrar na Terra Prometida, Moisés lembrou ao Povo os compromissos para com Deus e convidou os israelitas à renovação da aliança com Jahwéh.
Em concreto, o texto em referência integra um bloco (cf Dt 12-26) que apresenta “as leis e os costumes” que o Povo da aliança devia pôr em prática na terra de que iria tomar posse. Uma dessas leis estipulava que fossem oferecidos ao Senhor os primeiros frutos da terra e que o israelita formulasse a sua “confissão de fé”. Provavelmente, este costume israelita radica no costume cananeu: cada ano, por ocasião da recolha dos produtos da terra, o cananeu celebrava festa em honra de Baal, a divindade da fecundidade e da vegetação, agradecendo-lhe os dons da terra. Israel, porém, sabendo que não era a Baal, mas a Jahwéh, que devia agradecer tudo, centrava a confissão de fé na ação de Deus em favor do seu Povo, sublinhando sobretudo a libertação do Egito, os acontecimentos do deserto, a eleição e o dom da Terra.
Todo este “credo”, que acompanha a oferta das primícias da terra e recapitula as antigas intervenções do Senhor em prol do seu Povo (eleição dos patriarcas, êxodo, dom da Terra), tem como objectivo último afirmar e reconhecer que essa Terra Boa – e tudo o que cresce sobre ela – onde Israel construiu a sua existência é dom de Deus e produto do Seu amor em favor do Povo. É isso que significavam e simbolizavam as primícias que o israelita depositava sobre o altar, por meio do sacerdote. E as ofertas que fazemos ao Senhor significam para nós hoje que tudo o que temos e produzimos, mesmo que à custa do nosso trabalho, é dom de Deus, não como objeto de estimação pessoal, mas para provermos ao nosso desenvolvimento pessoal segundo o coração de Deus e providenciarmos ao dinamismo da partilha, fazendo cimentar e crescer a comunidade. 
As profissões de fé que os israelitas eram instados a pronunciar periodicamente na liturgia faziam parte da pedagogia de Deus, com vista a prevenir o Povo contra a tentação da idolatria. Por um lado, Israel era estimulado a reconhecer o seu Senhor e que tudo era um dom do Seu amor, não de outros deuses; e, por outro, Israel sentia-se incitado a libertar-se do orgulho, do egoísmo, da autossuficiência e a reconhecer que tudo o que era e que tinha não era fruto de conquista humana, mas de Jahwéh. Israel era, assim, convidado a reconhecer que só no amor e na ação de Deus encontrava a vida e a felicidade.
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Sobre a “carta da reconciliação”
A Carta aos Romanos é tida por alguns como a “carta da reconciliação”. Na verdade, nos anos 57/58, a convivência entre judeo-cristãos e pagano-cristãos apresenta problemas, dadas as diferenças sociais, culturais e religiosas subjacentes aos dois grupos. A comunidade cristã corria o risco de radicalizar as incompatibilidades e de se dividir. Nesta situação, Paulo escreve a vincar o que a todos une. O núcleo da carta seria, nesta perspetiva (Rm 15,7): “Acolhei-vos, pois, uns aos outros, como Cristo vos acolheu, para glória de Deus”.
O texto assumido para 2.ª leitura do I domingo da Quaresma no Ano C (Rm 10,8-13) pertence à primeira parte da carta (Rm 1-11), cuja síntese pode ser: o Evangelho de Jesus é a força que congrega e que salva todo o crente (judeus e pagãos).
Depois de demonstrar que todos os homens vivem mergulhados em ambiente de pecado (Rm 1,18-3,20), mas que a “justiça de Deus” dá a vida a todos sem distinção (Rm 3,21-5,11) e que é em Jesus que essa vida se comunica (Rm 5,12-8,39), o apóstolo reflete sobre o desígnio de Deus a respeito de Israel (Rm 9,1-11,36) e põe em relevo o que une judeus e gregos: a mesma fé em Jesus Cristo e na proposta de salvação que Ele traz.
Nos versículos anteriores (cf Rm 9,30-10,4), Paulo criticara o orgulho e a autossuficiência dos judeus, que pensavam chegar à salvação pelas obras que praticavam, ou seja, se cumprissem as obras da Lei, Deus teria de os salvar. Ora, ótica paulina, a salvação não é conquista humana, mas dom gratuito de Deus que, na sua bondade, “justifica” o homem. E foi essa autossuficiência que levou os judeus a desprezar a salvação de Deus, oferecida gratuitamente em Jesus Cristo. Ao invés, os pagãos, com simplicidade e humildade, acolheram a salvação que Jesus trouxe.
Porém, nada está perdido para os judeus. Basta-lhes, como a todos, acolher Jesus como “o Senhor” e aceitar a sua condição de ressuscitado e dela dar testemunho, o que significa aceitar que Ele veio de Deus e que a salvação que proclama tem a chancela de Deus. Assim, nascerá um povo único, sem distinção de raça, cor ou estatuto social. O que é decisivo é acolher a proposta de salvação que Deus faz através de Jesus e aderir a essa comunidade de irmãos, “justificados” pela bondade e pelo amor de Deus.
Nestes termos, o texto paulino convida-nos a prescindir duma tentadora atitude arrogante e autossuficiente em relação à salvação que Deus nos oferece, pois a salvação não é conquista nossa, mas dom gratuito de Deus. É preciso, pois, “converter-se” a Jesus, isto é, reconhecê-Lo como o “Senhor” e acolher no coração a salvação que, n’Ele, Deus nos propõe.
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Estamos a sair do cais de embarque para navegarmos no mar da Quaresma com Cristo ao leme a rumar para o porto seguro da Páscoa da Ressurreição, em cujo cais o Pai nos faz irmãos em Cristo e, como Ele, nos torna seres verdadeiramente pensantes e sencientes para viver a Vida.
No silêncio reflexivo e orante, na escuta da Palavra, na celebração da fé, na aceitação da reconciliação e no exercício da partilha, superaremos como Cristo (e com a sua ajuda) os testes dramáticos que se nos deparem, teremos um gasto de energia emocional útil, alcançaremos maior compreensão do mistério de Cristo, participaremos na consolidação da comunidade e o nosso estilo de vida será um digno testemunho para que os outros creiam. E cada um medite:
Aquele que habita sob a proteção do Altíssimo e mora à sombra do Omnipotente pode exclamar: ‘SENHOR, Tu és o meu refúgio, a minha cidadela, o meu Deus, em quem confio!’.” (Sl 91,1-2).
2019.03.10 – Louro de Carvalho

domingo, 26 de agosto de 2018



É a grande afirmação pastoral do Papa Francisco logo no discurso às autoridades, à sociedade civil e ao corpo diplomático, no Castelo de Dublin. Com efeito, referindo-se ao motivo da visita papal, explicitou que era a participação no Encontro Mundial das Famílias. E, porque, na realidade, “a Igreja é uma família de famílias”, é natural que sinta “a necessidade de apoiar as famílias nos seus esforços por responder fiel e jubilosamente à vocação que Deus lhes deu na sociedade”. Para elas, este Encontro é a oportunidade “para reafirmar o compromisso de fidelidade amorosa, ajuda mútua e respeito sagrado pelo dom divino da vida em todas as suas formas”, bem como “para testemunhar o papel único desempenhado pela família na educação dos seus membros e no desenvolvimento de um tecido social sadio e vigoroso”.
Depois, considerou este Encontro “um testemunho profético do rico património de valores éticos e espirituais, que cada geração tem a tarefa de guardar e proteger”, bem como a tomada de consciência das dificuldades que enfrentam as famílias na sociedade atual “em rápida evolução” e da necessidade da preocupação com os efeitos que “o transtorno do matrimónio e da vida familiar inevitavelmente implicará, a todos os níveis, para o futuro das nossas comunidades”. E, de facto, “a família é a coesão da sociedade”, mas, não podendo “o seu bem ser dado como garantido”, deve então “ser promovido e tutelado com todos os meios apropriados”. Nela, cada um “deu os primeiros passos na vida”, aprendendo “a conviver em harmonia”, a controlar os instintos egoístas, “a conciliar as diversidades e, sobretudo, a discernir e procurar os valores que dão sentido autêntico e plenitude à vida”.
Embora consideremos o mundo inteiro como uma só família por reconhecermos os laços da nossa humanidade comum e intuirmos a chamada à unidade e solidariedade, sobretudo para com os irmãos vulneráveis, muitas vezes, contudo – diz o Papa – sentimo-nos impotentes face à persistência dos males do ódio racial e étnico, de conflitos e violências inextrincáveis, de desprezo pela dignidade humana e pelos direitos humanos fundamentais, e ao crescente desnível entre ricos e pobres. Por isso, vem evidenciar a necessidade de recuperar, na vida política e social, o sentido da verdadeira família de povos, sem perder “a esperança e a coragem de perseverar no imperativo moral de sermos obreiros de paz, reconciliadores e guardiões uns dos outros” – isto no fio condutor dos ensinamentos papais logo desde o início do seu Pontificado.
Neste âmbito, recordou os esforços de há 20 anos por parte do Governo irlandês, “juntamente com os líderes políticos, religiosos e civis da Irlanda do Norte e do governo britânico e com o apoio de outros líderes mundiais, de dar vida “a um contexto dinâmico tendente a resolver pacificamente um conflito que causara enormes sofrimentos em ambos os lados”.
Recordando que, segundo o Evangelho, a paz verdadeira é dom de Deus, brota de corações sanados e reconciliados e se estende até abraçar o mundo inteiro, diz que postula, da nossa parte, “uma conversão constante, fonte dos recursos espirituais que são necessários para construir uma sociedade verdadeiramente solidária, justa e ao serviço do bem comum”. Sem isto, “o ideal duma família global de nações de não passará dum “lugar-comum” vazio”. E Francisco denuncia que o objetivo de gerar prosperidade económica ou financeira, em vez de levar a uma ordem social mais justa e equitativa, pode aumentar a “cultura do descarte”, perdido no lodaçal da indiferença para com os pobres e os membros mais indefesos da família humana, incluindo os nascituros privados do próprio direito à vida. Ademais, põe o dedo na chaga da maciça crise migratória tendente a não desaparecer e cuja solução exige sabedoria, perspetivas amplas e a preocupação humanitária que ultrapasse as decisões políticas de curto prazo.
Depois, tendo em conta os mais vulneráveis, o Papa reconheceu publicamente “o grave escândalo causado na Irlanda pelos abusos sobre menores por parte de membros da Igreja encarregados de os proteger e educar” – o que alguns observadores consideram pouco, talvez porque não ouviram ou não leram tudo. Com efeito, Francisco agradecendo as palavras da Ministra para a Infância no aeroporto, reconheceu que “o falimento das autoridades eclesiásticas – bispos, superiores religiosos, sacerdotes e outros – ao enfrentarem adequadamente estes crimes repugnantes, suscitou, justamente, indignação e continua a ser causa de sofrimento e vergonha para a comunidade católica”, sendo que o próprio Pontífice partilha estes sentimentos, o qual salientou o facto de Bento XVI não ter poupado “palavras para reconhecer a gravidade da situação e pedir que fossem tomadas medidas ‘verdadeiramente evangélicas, justas e eficazes’ em resposta a esta traição de confiança”. E mencionou a recente Carta ao Povo de Deus, onde reafirmou “o compromisso, antes, o compromisso maior, de eliminar este flagelo na Igreja a qualquer custo, moral e de sofrimento”. E justificou-se também pela positiva:
Cada criança é um dom precioso de Deus que devemos guardar, encorajar no desenvolvimento dos seus dons e levar à maturidade espiritual e à plenitude humana. A Igreja na Irlanda desempenhou, no passado e no presente, um papel de promoção do bem das crianças que não pode ser ofuscado. A minha esperança é que a gravidade dos escândalos dos abusos, que fizeram emergir as culpas de muitos, sirva para evidenciar a importância da proteção de menores e adultos vulneráveis por parte da sociedade inteira. Neste sentido, todos temos consciência da necessidade urgente de oferecer aos jovens um acompanhamento sábio e valores sadios para o seu caminho de crescimento.”.
E não omitiu referências ao trabalho evangelizador na e da Irlanda desde os tempos de São Patrício e de outros missionários e santos, bem como a toda a evolução político-social do país.
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Na visita à histórica pró-Catedral de Santa Maria – testemunha de inúmeras celebrações do sacramento do matrimónio e agora palco do encontro papal com muitos casais de noivos e de esposos que se encontram nas diferentes fases do percurso do amor sacramental, bem como da bela música das crianças que choram – Francisco responde ao estribilho de que “os jovens não querem casar-se” assegurando: “Casar-se e compartilhar a vida é algo belo”. E abona-o com o ditado espanhol “Dores em dois, dor pela metade”.
Reparando que estavam ali casais com 50 anos de matrimónio, declarou que “o futuro e o passado se encontram no presente”. Na verdade, se os idosos (e também as sogras) possuem a sabedoria, as crianças e os jovens devem escutar a sabedoria e falar com os idosos, porque “eles são as raízes”. As novas gerações, de facto, não são como as antigas, mas precisam da experiência dessas para serem diferentes, para avançarem ainda mais. E, face às experiências conjugais de dificuldade e até discussão, o Papa salienta um segredo, que explica assim:
Podem até voar os pratos, mas o segredo é fazer a paz antes que termine o dia. E para fazer a paz, não é preciso um discurso, basta uma carícia e, assim, faz-se a paz. E sabeis porque é importante? Porque, se não se faz a paz antes de ir para a cama, a ‘guerra fria’ do dia seguinte é demasiado perigosa; começa o rancor... Sim, brigueis o que queirais, mas no final da noite fazei a paz.”.
Depois, salienta o contributo dos casais antigos e modernos:
Crescendo juntos nesta comunidade de vida e de amor, experimentastes muitas alegrias e também, certamente, não poucos sofrimentos. Juntamente com todos os esposos que já percorreram um longo pedaço do caminho, sois os guardiões da nossa memória coletiva. Precisaremos sempre do vosso testemunho, cheio de fé. É um recurso precioso para os noivos, que olham para o futuro com emoção e esperança... e, também, talvez com um pouco de ansiedade: como será este futuro?”.
E, para que o matrimónio se afirme como uma vocação e uma forma de vida duradoura – contra a cultura do provisório –, Francisco indica a necessidade de fazer crescer diariamente o amor e pôr ao serviço da família os meios que a Graça de Deus coloca à nossa disposição. E diz:
Entre todas as formas da fecundidade humana, o matrimónio é único. É um amor que dá origem a uma nova vida. Implica a responsabilidade mútua na transmissão do dom divino da vida e oferece um ambiente estável no qual a nova vida pode crescer e florescer. O matrimónio na Igreja, isto é, o sacramento do matrimónio, participa de modo especial no mistério do amor eterno de Deus. Quando se unem pelo vínculo do matrimónio um homem e uma mulher cristãos, a graça de Deus habilita-os a prometerem-se livremente um ao outro um amor exclusivo e duradouro. Assim, a sua união torna-se sinal sacramental – e isso é importante: o sacramento do matrimónio – torna-se um sinal sacramental da nova e eterna aliança entre o Senhor e a sua esposa, a Igreja. Jesus está sempre presente no meio deles. Sustenta-os ao longo da vida no dom recíproco de si mesmos, na fidelidade e na unidade indissolúvel.”.
Por outro lado, salienta a importância de rezar juntos em família de falar de coisas boas e santas, de deixar que Maria, nossa Mãe, entre na vida da família, de celebrar as festividades cristãs e de viver em profunda solidariedade com aqueles que sofrem e estão à margem da sociedade.
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Na visita ao Centro de Acolhimento dos Padres Capuchinhos para famílias sem casa, dirigindo-se ao superior capuchinho, frisou o carisma dos Capuchinhos de proximidade com o povo e, em especial, com os pobres, tendo “a graça de contemplar as chagas de Jesus em pessoas que passam necessidade, que sofrem, que não são felizes ou que não têm coisa alguma, ou estão cheias de vícios e falhas”. Para eles esta “é a carne de Cristo”.
Dirigindo-se aos pobres, reconheceu que eles ali não pedem nada, só esperam a dádiva. Mais, passando para o caso dos sacerdotes que na confissão cumulam o penitente de perguntas, disse:
O vosso testemunho ensina os sacerdotes a escutar, ser próximos, perdoar e não perguntar muito. Ser simples, como Jesus contou que fez aquele pai, quando o filho voltou cheio de pecados e vícios: o pai não se sentou no confessionário e se pôs a perguntar e perguntar; ele acolheu o arrependimento do filho e abraçou-o. Que o vosso testemunho para o povo de Deus, e este coração capaz de perdoar sem causar sofrimento, alcance todos os sacerdotes.”.
E, considerando que o amor e a confiança destes pobres com os Capuchinhos resulta de eles ajudarem sem arrancar a dignidade dos destinatários, pois cada um destes é Cristo, frisou:
Vós sois a Igreja, sois o povo de Deus. Jesus está convosco. Eles dar-vos-ão coisas de que necessitais, mas escutai os conselhos que eles vos dão: eles sempre vos aconselharão bem. E, se tendes alguma coisa, alguma dúvida, alguma dor, falai com eles, e eles vos aconselharão bem. Sabeis que eles vos querem bem: ao invés, esta obra aqui não existiria. Obrigado pela vossa confiança. E uma última coisa: rezai. Rezai pela Igreja. Rezai pelos sacerdotes. Rezai pelos Capuchinhos. Rezai pelos bispos, pelo vosso Bispo. E rezai por mim também... permito-me pedir um pouco.”.
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No fim do dia 25, foi a Festa das Famílias, no Croke Park Stadium (Dublin) – a 2.ª em que participou Francisco (a 1.ª foi em Filadélfia em 2015, como recordou aos jornalistas no voo de Roma para Dublin) – cuja celebração o Papa reconhece que “nos torna mais humanos e mais cristãos”, ajudando “a partilhar a alegria de saber que Jesus nos ama, acompanha no percurso da vida e, cada dia, nos atrai para mais perto de Si”. E, da noção de família, passa à noção de Igreja:
Em cada celebração familiar, sente-se a presença de todos: pais, mães, avós, netos, tios e tias, primos, quem não pôde vir e quem vive demasiado longe, todos. Hoje, em Dublin, reunimo-nos para uma celebração familiar de ação de graças a Deus pelo que somos: uma única família em Cristo, espalhada por toda a terra. A Igreja é a família dos filhos de Deus; uma família, onde se regozija com aqueles que estão na alegria e se chora com aqueles que estão na tribulação ou se sentem desanimados com a vida. Uma família onde se cuida de cada um, porque Deus nosso Pai nos fez, a todos, seus filhos no Batismo.”.
Daqui resulta a vantagem de os pais levarem ao Batismo os filhos logo que possível, “para que se tornem parte da grande família de Deus”, pois “uma criança com o Batismo, com o Espírito Santo dentro de si, é mais forte, porque tem dentro a força de Deus!”.
E, precisamente, porque, no seu dizer, sem as famílias cristãs, a Igreja ficaria descaraterizada ficando como “uma Igreja de estátuas, uma Igreja de pessoas solitárias”, revelou ter sido para “ajudar a reconhecer a beleza e a importância da família, com as suas luzes e sombras”, que foi escrita a Amoris laetitia, sobre a alegria do amor, e que o tema escolhido para este IX Encontro Mundial das Famílias foi “O Evangelho da família, alegria para o mundo”. Na verdade, “Deus quer que cada família seja um farol que irradia a alegria do seu amor pelo mundo”, ou seja, “que nós, depois de ter encontrado o amor de Deus que salva, procuramos, com palavras ou sem elas, manifestá-lo através de pequenos gestos de bondade na vida rotineira de cada dia e nos momentos mais simples da jornada”. E isto chama-se santidade, a santidade dos santos ‘ao pé da porta’, isto é, “de todas aquelas pessoas comuns que refletem a presença de Deus na vida e na história do mundo”. E disse com toda a clareza:
A vocação ao amor e à santidade não é algo reservado para poucos privilegiados. Não. Mesmo agora, se tivermos olhos para ver, podemos vislumbrá-la ao nosso redor. Está silenciosamente presente no coração de todas as famílias que oferecem amor, perdão, misericórdia, quando veem que há necessidade, e fazem-no tranquilamente, sem tocar a trombeta. O Evangelho da família é, verdadeiramente, alegria para o mundo, visto que lá, nas nossas famílias, sempre se pode encontrar Jesus; lá habita, em simplicidade e pobreza, como fez na casa da Sagrada Família de Nazaré.”.
De facto, segundo o Bispo de Roma, estacionado em Dublin, “o matrimónio cristão e a vida familiar são compreendidos em toda a sua beleza e fascínio, se estiverem ancorados no amor de Deus, que nos criou à sua imagem para podermos dar-Lhe glória como ícones do seu amor e da sua santidade no mundo”.
Depois, mencionando o ensinamento do Padre Peyton, irlandês, referiu que “a família que reza unida permanece unida” e irradia paz, podendo “ser um apoio especial para outras famílias que não vivem em paz”, logrando o perdão, a reconciliação e o reencaminhamento. E enfatizou a importância de se ensinar bem, em família, às crianças o sinal da cruz, porque esta é fonte futura de ensinamento e porque o sinal da cruz “é o primeiro Credo que as crianças aprendem, o Credo no Pai, no Filho e no Espírito Santo”.
Por fim e apesar do notório cansaço geral, ainda pediu que lhe deixassem dizer mais uma coisa:
Vós, famílias, sois a esperança da Igreja e do mundo! Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, criou a humanidade à sua imagem e semelhança para fazê-la participante do seu amor, para que fosse uma família de famílias e gozasse daquela paz que só Ele pode dar. Com o vosso testemunho do Evangelho, podeis ajudar Deus a realizar o seu sonho. Podeis contribuir para aproximar todos os filhos de Deus, para que cresçam na unidade e aprendam o que significa, para o mundo inteiro, viver em paz como uma grande família.”.
Por isso, Francisco quis entregar a cada um dos presentes uma cópia da Amoris laetitia, preparada nos dois Sínodos sobre a família e escrita como uma espécie para se viver com alegria o Evangelho da família. E a sessão festiva encerrou-se com a oração deste Encontro das Famílias e com a bênção papal e o desejo de boa dormida e despedida até ao dia seguinte.
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Talvez seja oportuno assumir esta dimensão da Igreja como “Uma Família de famílias” e perceber que as feridas das famílias, como as da Igreja, não se previnem, curam ou evitam deitando a toalha ao chão, como se diz hoje, ou rasgando as vestes, como faziam os antigos, e, muito menos, enveredando por um estilo de maledicência ou por uma campanha de difamação e de infamação ou de caça ao homem, mas encarando os problemas com todo o realismo humano e toda a caridade evangélica e a necessária solidariedade. Et Deus adiuvet!
2018.08.26 – Louro de Carvalho