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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A propósito dum método de leitura no Ensino Básico


Traz o DN on line, a 13 de agosto, uma reportagem-entrevista com Raul da Silva Mendes, “um antigo professor do ensino primário”, agora o 1.º Ciclo do Ensino Básico, a relatar a sua história de ensino com especial atenção às crianças com dificuldades de aprendizagem no tempo em que as crianças que não sabiam ler nem escrever eram postas na fila dos burros”.  
Diz que até desenvolveu um método para ensinar os miúdos mais “complicados” a ler e escrever. E ainda hoje anda com um bloco onde aponta as suas investigações que gostava de ver aplicadas sobretudo no ensino dos imigrantes.
O seu método de ensino Do Número à Palavra (associa cada letra a um número, A=1 etc., o que permite aos alunos associarem letras até formarem palavras, das mais simples à mais complexas).
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Nasceu em Évora a 24 de agosto de 1940. Ali fez o curso na Escola de Magistério Primário (que chamava a universidade do povo, frequentada pela classe pobre ou mesmo média que não podia ir para uma das três universidades) – a “solução para quem não podia ir para as três universidades que havia, Lisboa, Porto e Coimbra” – mas foi no Montijo, onde vive, que cumpriu quase toda a sua carreira e onde vê reconhecido o mérito do seu trabalho.
E desfia memórias – das aulas de Marcelo Caetano na Faculdade de Direito, das exigências de Salazar e das dificuldades de aprendizagem dos alunos – que vão sempre dar aos alunos que ajudou. Diz que teve dois alunos chineses que eram muito bons, mas que só concluíram o atual 9.º ano – grandes amigos, que tiveram um restaurante onde deixou de ir almoçar porque não pagava. Mas ainda hoje tem uma mágoa: o não ser aproveitado como devia ser o livro de Vergílio Ferreira Vagão J, de 1944, que lhe serviu de guia e que chegou a ser censurado em 1971 e em que o tema central é as diferenças entre estratos sociais. Foca a ação do professor na escola e na aldeia, a influência social e política do professor e na melhoria das condições sociais da população. Entra em contradição com o então Ministro da Educação Nacional Carneiro Pacheco (1936-1940), que entendia que as crianças aos 7 anos tinham um cérebro tão plasticável, que todas as ideias que lhes incutissem lá ficavam, sobretudo as de pátria, amor a Portugal, amor ao Estado, dentro da trilogia Deus, pátria, família. E Vergílio Ferreira sustentava que as crianças têm um cérebro que faz lembrar a cera, simplesmente têm outros sulcos que lhes tinham sido transmitidos ao nascer. Essa contradição levou a que o livro fosse censurado. Depois, foi reeditado pela Bertrand na pequena abertura, em 1971, com Marcelo Caetano.
A estratégia passou por fazer um curso médio de professor, pois, dantes, para se ser professor do ensino primário bastava a o 5.º ano, o atual nono. Fez, a seguir, o antigo 7.º ano, na alínea D, para frequentar o curso de Direito. Só que o programa jurídico não tinha nada que ver com o programa pedagógico. Pôs de lado o Direito, que frequentou um ano, tendo Marcelo Caetano como professor de Introdução ao Estudo do Direito e Direito Administrativo. Com a desistência do curso, começou a dedicar-se aos alunos e a observar melhor a sala de aula, o meio familiar e as influências que tinha na escola.
Foi morar para Carcavelos e deu aulas em Manique (do Estoril). Cedo passou para o Montijo.
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Diz ter ficado alarmado com a quantidade de crianças que não conseguiam fazer a 1.ª classe (num tempo em que o aluno podia ficar retido na 1.ª classe) porque não sabiam ler nem escrever. Eram postas sistematicamente numa fila a que os coleguinhas chamavam a “fila dos burros”. Mas o professor, no primeiro ano em que começou a ensinar crianças da 1.ª classe, percebeu que elas, nas operações e no cálculo, eram absolutamente normais e até tinham ideias interessantes na Educação Visual. E questionou-se se as crianças com dificuldades na aprendizagem da leitura preferem o número, se “na sua vida prática ao contarem as caricas, ao contarem as pedrinhas adquirem essas noções” e se “gostam de ligar a vida, a brincadeira, ao estudo, à prática”.
A pari, surgiu a questão: “Porque é que eles ao entrarem no domínio da língua portuguesa, na iniciação da leitura, se desinteressavam, mas depois nos domínios da matemática eram paralelos aos outros”? E pensou no que aconteceria se fizesse a simbiose do número com a palavra. E, no ano letivo de 1985-86, introduziu na classe, a par da turma “normal”, 5 alunos que já tinham vários anos de repetência e eram totalmente analfabetos. Selecionava as 6 palavras da língua portuguesa que se escrevem apenas com uma letra: u, o, ã, a, é, i. E foram estas as primeiras letras que começaram a conhecer. Ora, enquanto nos anos anteriores lhes davam logo de início palavras e sílabas, este professor fazia textos só com palavras com uma letra, pondo-os a dialogar: “É o i? É o. É o u?”. O diálogo motivou-os e diziam que já sabiam ler. Era a noção de que a leitura estava muito ligada ao número. Depois, vinham palavras com duas letras e assim por diante. Quando se chegou às palavras com 3 letras já se podiam fazer inúmeras variantes. Com efeito, antes de iniciar a fase da leitura, o aluno, tem de dominar o alfabeto, então construiu tabelas com o alfabeto numeradas por baixo: A -1; B - 2; C – 3, etc.
Esta lógica do número e do fonema (diferente do que se ensina) possibilita iniciar jogos com dinâmica. Assim, para buscar letras que possam formar a palavra pai, iam ver os números a que correspondia cada letra. Concluindo, a ligação do número ao fonema ia ao encontro do problema de que a criança gosta mais das coisas concretas, do número. E o professor obteve resultados sobretudo na resposta das crianças, que diziam: “Eu já não sou maluco, eu já sei ler”.
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Depois das crianças, os adultos... Fez um curso de especialização no ensino de adultos. Com efeito, apercebeu-se das novas exigências: por exemplo, para ter a carta de condução era obrigatório ter a 4.ª classe, por determinação de Salazar. Ora, havia imensas pessoas com negócios que precisavam das carrinhas e então surgiram muitos alunos a frequentar os cursos de adultos. Então surgiram problemas curiosos. Como, por exemplo, o gerente de um balcão do Banque Franco-Portugais, que tinha o curso de Economia tirado no estrangeiro, teve de fazer a 4.ª classe; e os frades capuchinhos tiveram de a fazer para poderem guiar os tratores e só falavam espanhol. Depois surgiram problemas dramáticos: na Base Aérea do Montijo, os soldados só podiam sair da base se fossem o braço-direito dos pais, por exemplo, na agricultura, quando fizessem a 4.ª classe. Agora, vinha o dilema do professor primário: se reprovasse um aluno, ele não saía; se o passasse sem ele saber, tinha problemas de consciência. 
Isto constituiu uma longa aprendizagem, porque eles, ao escreverem – sobretudo os agricultores –, tinham tanta força na mão que, entre a caneta e o papel, rasgavam o papel. Enquanto o professor, se fosse cavar a terra, não conseguia fazer um sulco, na aula o agricultor estava com força a mais.
E, como professor tem de ser um ator, tem, em todas as circunstâncias, que se adaptar e saber motivar, pois com um aluno desmotivado não há aprendizagem.
Para ter sucesso, apresentava palavras com uma letra, com duas e dizia: cá está um texto. A novidade consistia em produzia um texto significativo juntando os três vetores fundamentais e universais: o movimento, a música e o drama. Todo o texto no ensino básico que não for passível de dramatização não é texto – diz Raul Mendes.
Tinha de ser um diálogo muito estimulante, senão eles desistiam. Por exemplo, teve um pequeno grupo de 6 pescadores do Montijo em que a sala de aulas era a sala da casa de um deles. Um era o pai da artista que fez as ondas do mar nos relvados, a Fernanda Fragateiro. E ele dizia: “A minha filha faz para lá uns desenhos”. Ia a casa deles, falava com eles sobre a pesca, as suas dificuldades. Acabou por se integrar no meio piscatório do Montijo. Era sempre muito difícil estimulá-los, queriam o mais fácil, o desistir.
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Depois, falou da formação dos professores. E disse que o problema é que se diluiu a especialização. O ensino (sobretudo da escrita e da língua) leva muito tempo, o professor tem de observar, pois a escola é um laboratório. Ora, hoje os candidatos a professor estudam muitas disciplinas e ficam preparados de maneira igual. Não há especialização e perde-se o fundamental: o aluno pode sair do ensino básico a saber ler, escrever e contar e, sobretudo, saber descodificar mensagens. E “um aluno que saia iletrado da escola terá sempre dificuldades enormes em sobreviver”.
A isto obvia o seu método de ensino. Diz o professor que sempre teve “um ensino muito dinâmico”. E exemplifica com os dois chineses, já referidos, sendo que os outros diziam que “eles têm os olhos em bico” e não foi fácil integrá-los na sala de aula. Dizia aos coleguinhas que eram meninos com outras valências, outros costumes, que até nos contariam, quando soubessem ler e escrever, histórias do seu país, sobretudo dos jogos. Foram sempre excelentes no cálculo, na matemática. Eram ótimos alunos, era bom que continuassem a estudar. Até disse aos pais que os filhos deviam ir para um curso de Gestão, sobretudo dominando o chinês e o português, mas chegaram ao 9.º ano e pararam.
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Sobre a condição do professor como ator, discorre (os políticos deviam pensar nisto e ser consequentes):
O ato de ensinar, a sala de aula, exige muito do professor. Ele não pode ir para casa pousar a caneta. Exige todo um planeamento para o dia seguinte. São 5 horas que passa como um ator. Tive um professor que antes de entrar na sala de aula chegava ao pé do cabide e, apesar de não usar chapéu, fazia o gesto de o tirar e colocar lá. Os miúdos diziam-lhe: ‘Porque está a tirar o chapéu, enganou-se, não tem chapéu?’. E ele respondia: ‘Estou a pôr aqui as preocupações’. Ou seja, a sala de aula tem de ser de uma concentração absoluta do professor para os alunos. E tem de preparar a lição porque tem de saber que tem de fazer este jogo, a seguir tem de preparar a aula, a seguir eles já estão muito cansados, têm de ir um bocadinho ao recreio se o tempo o permitir. Quando fui trabalhar, a empregada dizia: ‘Julgava que o senhor não estava lá [na sala de aula]’ – porque estava habituada a ouvir os professores a gritar. Comigo não era assim, pois cada aluno sabia o que tinha de fazer’.”.
E, quanto à condição de fingidor, diz:
A sala de aula é um palco e um palco muito importante. Sabe, também dialoguei muito com os pais e isso foi uma inovação perigosa. Antes do 25 de Abril, reuniões só as autorizadas. E essas eram poucas.”.
No atinente à boa relação com os alunos e à ligação do ensino à vida , conta: 
A ligação da vida à escola foi sempre a minha preocupação. Nos 3.º e 4.º anos destinava os primeiros 10 minutos de aula para que eles me fizessem uma pergunta. Um dia fiquei de boca aberta quando um me perguntou: ‘Professor, o que é investigar? Estão sempre a falar na televisão em investigar.’. Obrigou-me a fazer a ligação à vida. Eu era muito amigo de um agricultor e aproveitava as histórias dele para a escola. Um dia disse-me: ‘Ó professor, este ano foi um desastre para as ervilhas. Veja lá se consegue acompanhar a minha ideia: eu costumava guardar as sementes das ervilhas em frascos de vidro e este ano coloquei em caixas de plástico. Será que isso está ligado?’. Peguei neste problema e investiguei. Tínhamos de arranjar uma amostra com frascos e caixas, registar tudo e depois ver na produção. Isto é que é investigar. Investigar não é responder sim ou não.”.
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Na situação de aposentado, continuam as ideias e a valorização pelo saber. Entende que deve ser feita uma análise às escolas que fecham. Por não haver alunos, fecham-se escolas e pergunta-se para que passam a servir estes equipamentos. E defende que deveriam ser polos culturais, locais de encontro. Refere que o problema surgiu já no tempo de Salazar. O pai de Caetano, que foi governador-geral de Moçambique e Subsecretário de Estado da Educação, queria o aproveitamento das escolas como polos culturais de aldeia. Por exemplo, levar lá um rancho folclórico. Mas Salazar discordava, pois remetia isso para a Casa do Povo, onde era suposto fazer-se política.
Quando se aproximou do fim da carreira e com mais tempo livre, matriculou-se, aos 54 anos, na Escola Superior de Educação João de Deus, que julgava o polo por excelência da formação de professores. Esteve lá dois anos. Mas o seu método era mais virado para a recuperação de crianças – não congraçava muito com o método deles –, mas um dos professores quis ser seu orientador de tese. Serviu-se dessa escola para apresentar este método, que lá está na biblioteca das teses sob o título “Do Número à Palavra”, que nunca teve, nem terá, divulgação por colidir com o método João de Deus.
Depois fez o mestrado e o doutoramento sobre “A formação de professores em Portugal antes e depois do 25 de Abril – que mudanças”, para o que ouviu 34 professores que tinham exercido uns, antes dessa data, e outros, depois. As diferenças que encontrou neles estão mais na idade que na formação profissional. Os mais antigos estavam muito afetos à trilogia Deus, pátria, família, ao passo que os mais novos aderiram melhor ao 25 de Abril. Mas, como refere, “sempre houve quem furasse o sistema”. Assim, Raul Mendes “não admitia que numa classe houvesse a fila dos burros e a dos outros”, sendo que a única divisão era os que viam melhor e os que viam pior, como entre os que ouviam melhor e ou que ouviam pior.
E ainda hoje mantém a ligação ao estudo pensando sobretudo nos imigrantes que têm dificuldades no português e procura conciliar o que é este método com pessoas com estrato social normal. Enviou o seu método de ensino a uma editora que, passados 15 dias, respondeu que a parte editorial estava esgotada. Não explicaram, mas ele sabe que no ensino há um milhão de alunos e com problemas são 10%, pelo que a edição não é rentável. Ademais, o livro seria caro porque é todo baseado em gravuras.
Para fechar o ciclo, pretendia ver esta obra continuada e aplicada pelo menos no sentido de experiência para ver se as crianças se desenvolvem e aprendem.
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Essa grande atenção ao número na ordem da metodologia faz-me lembrar o número na filosofia. E vem à tona Pitágoras de Samos (570/495 a.C.), para quem o número é o princípio de todas as coisas. Foi uma das personalidades mais fascinantes da filosofia antiga. Nasceu na Ilha de Samos e lá viveu até se indispor com o tirano Polícrates. Mudou-se para Crotona, colónia grega situada na Itália, e lá ajudou a redigir uma Constituição.
Fundou uma comunidade filosófico-religiosa (onde se cultivava o ideal de uma vida de contemplação, voltada para o conhecimento, a busca da verdade e a realização espiritual), os pitagóricos, que atingiu enorme poder político e que foi destruída em função de intrigas motivadas pelo descontentamento de alguns com a sua influência. Este modo de vida apresenta grandes semelhanças com o orfismo, pois os pitagóricos acreditavam na imortalidade e transmigração da alma (metempsicose); cultivavam as práticas ascéticas purificadoras, como a abstenção de comer carne e de matar animais; cultivavam as ciências (matemática e astronomia) e também a música. Entretanto, o estudo dessas áreas não constituía um fim, mas um meio para a purificação da alma e sua libertação.
O primeiro pitagórico a publicar uma obra foi Filolau, já no tempo de Sócrates. O pitagorismo marcou a transferência da atividade filosófica praticada primeiro na Jónia, para as colónias gregas da Itália. A sua doutrina também se diferencia profundamente da dos milesianos, pois Pitágoras manteve a busca do princípio (arché), ou elemento primordial, para explicar o surgimento dos seres, mas não o identificou com um elemento da natureza (fogo, terra, água e ar). Segundo a tradição pitagórica, o princípio de todos os seres é o número.
Os pitagóricos escolheram o número como princípio porque, ao dedicarem-se ao estudo da aritmética e geometria, começaram a perceber que o comportamento regular de determinados fenómenos pode ser interpretado em termos numéricos ou quantitativos. Como exemplo, temos as medições que realizamos dos ciclos da natureza: o ano, as estações, os dias e muitos outros ciclos dos fenómenos vitais.
Essas e outras regularidades presentes na natureza só são explicáveis e inteligíveis, segundo os pitagóricos, se admitirmos que expressam o que pertence ao princípio de todas as coisas: o número. A visão do universo como um cosmos (ou seja, como um conjunto harmonioso dotado de ritmo, ordem, regularidade e proporção) foi uma das contribuições mais importantes dos pitagóricos.
Os números eram representados geometricamente e, enquanto concebidos desta maneira, eram dotados de extensão. Explicar o surgimento das coisas a partir dos números, dentro desta perspetiva, tornou-se perfeitamente plausível, pois todas as coisas, como os números, também só existem enquanto dotadas de extensão. O número um é identificado com o ponto, o dois com a linha, o três com a superfície e o quatro com o sólido. Tentaram estabelecer uma relação entre as figuras dos sólidos geométricos e os quatro elementos, conforme segue: “Terra – cubo; Fogo – pirâmide; Ar – octaedro; Água – icosaedro”.
Filolau identificou ainda os conceitos de limitado e ilimitado aos números ímpares e pares, respetivamente. Como o limitado e o ilimitado não existem separadamente, os números são a síntese dos dois, sendo que nos pares predomina o ilimitado e nos ímpares o limitado. Como todos os seres são a expressão de um número, em cada um deles o limitado e o ilimitado estão misturados. Se o ilimitado existisse sozinho, não haveria nenhum ser na natureza e a própria multiplicidade e individualidade dos seres seria impossível. A pari, o limite também não pode existir sozinho, pois é o limitador de algo que a princípio não possuía por si mesmo tal limite.
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É interessante verificar como o pitagorismo pode influenciar um método de ensino-aprendizagem, tal como o socratismo pela arte da ironia e da maiêutica; e como é importante hoje a física quântica.   
2019.08.16 – Louro de Carvalho

sábado, 13 de julho de 2019

Faleceu o meu 3.º professor de Latim e meu único professor de Inglês


Andava ontem, dia 12 de julho, à procura de informação no site da Câmara Municipal de Moimenta da Beira por motivos atinentes a notícias dos últimos dias e deparei-me com o facto do falecimento do Cónego António de Sousa Pinto, que ocorrera a 11 de julho, dia litúrgico de São Bento de Núrsia, padroeiro principal da Europa. Mais tarde, vi a notícia confirmada no site do jornal diocesano “Voz de Lamego” e na agência Ecclesia.  
O Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, José Eduardo Ferreira, lamentando profundamente o seu desaparecimento e endereçando “à família e a todos os paroquianos os seus mais sentidos pêsames”, sublinhava a importância da “personalidade do Cónego Sousa Pinto, que marcou incontestavelmente muitas gerações”. E destacava esta “figura distinta do nosso meio eclesiástico, merecedor do respeito por parte do município e do seu povo, pela sua vida de entrega, de trabalho às causas da Igreja, na valorização espiritual dos crentes, no contexto da sua ação social, no exercício da responsabilidade de formação eclesiástica, como gestor eclesiástico e como professor que foi”.
As notas biográficas referem que era natural de Vide, da freguesia de Rua (paróquia de Vila da Rua), nascido a 10 de junho de 1929 (faleceu, pois com 90 anos de idade), Filho de João de Sousa Júnior e de Maria José Pinto de Sousa. Foi batizado na igreja paroquial de Vila da Rua. Fez o curso dos seminários diocesanos. Depois de recebida a ordem do diaconado, a 16 de março de 1957, e a do presbiterado, a 17 de agosto do mesmo ano, ambas na Capela do Seminário de Lamego e das mãos do então Bispo de Lamego, Dom João da Silva Campos Neves, foi nomeado professor (sobretudo de Latim, Inglês e Canto Coral) e prefeito do Seminário de Resende, passando mais tarde a acumular com as funções de ecónomo do mesmo Seminário.
Em 26 de novembro de 1966, foi nomeado pároco de Leomil e simultaneamente professor de Inglês no Seminário de Lamego, bem como confessor e auxiliar na direção espiritual no mesmo seminário. Foi, depois, professor no Externato Infante Dom Henrique e na Escola Preparatória Duarte Madeira Arrais, em Moimenta da Beira.
A 21 de setembro de 1976, foi-lhe confiada a paróquia de Moimenta da Beira, e, mais tarde, também a de Alvite. Exerceu ao cargo de arcipreste de Moimenta da Beira durante alguns anos. Vigário Episcopal de Zona Riba Távora em 12 de março de 1982, foi nomeado cónego honorário em 11 de fevereiro de 1988 e, a 2 de março de 1996, foi nomeado cónego capitular.
A 20 de janeiro de 2002 foi nomeado pároco de Nagosa e de Aldeia de Nacomba, do arciprestado de Moimenta da Beira, cargo que desempenhou até 2 de outubro de 2002.
O site da Câmara Municipal de Moimenta da Beira refere que “foi também pároco de Ariz e de Aldeia de Nacomba, nunca deixando Leomil”.
Vivia na Paróquia de São Tiago de Leomil, da qual foi pároco durante muitos anos.
Convém, neste momento a oração e o agradecimento a Deus pelo dom da sua vida, da sua vocação e do seu ministério sacerdotal e, como diz o Bispo diocesano, Dom António Couto, deve sublinhar-se “a graça do encontro com Deus na ressurreição dos mortos, na vida eterna, deste nosso irmão, com quem nos encontraremos em definitivo quando chegar a nossa hora” e pedir Deus “a sabedoria para valorizarmos a vida como dom e como bênção”.
O funeral foi a 12 de julho, às 18 horas, a partir da Igreja Matriz de Vila da Rua, Moimenta da Beira, onde foi celebrada missa de corpo presente.
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Devo, em memória do Cónego Sousa Pinto, uma palavra de aplauso e outra de gratidão.
A palavra de aplauso deve-se à sua simplicidade pessoal, à constante procura da sabedoria que induz o aprofundamento do conhecimento e a sua comunicação oportuna e importunamente, como recomenda o Apóstolo, ao seu estilo de proximidade e ao zelo com se aplicava ao seu múnus. Porém, a sua humildade quase natural não o impedia de reivindicar direitos que julgasse fundamentais para si e, sobretudo, para as comunidades que servia.
No quadro desta simplicidade, gosto de recordar as situações em que, pela sua intervenção a viagem de Lamego para Resende, aquando dos dias de entrada no Seminário Menor, se tornava leve e alegre. Isto explica-se do seguinte modo: Nós, os que viajávamos de Castro Daire para Lamego em autocarro da Empresa Guedes, encontrávamo-nos em Lamego com os que viajavam a partir do Vale do Távora em autocarro da EAVT. E todos, a partir do cimo da Praça do Comércio, viajávamos para Resende em autocarro da Empresa Soares Oliveira – um horror – o cheiro a gasóleo demasiado queimado, só curvas e contracurvas e sentados três em cada banco. Então o Padre Sousa Pinto, que tomara o autocarro da EAVT na Vila da Rua, distraía e animava a malta cantando, explicando algumas coisas do que se avistava e contando algumas anedotas. E a viagem de quase uma hora tornava-se mais alegre e menos maçadora. Obviamente, à saída de Lamego era usual a recitação da Avé Maria a Nossa Senhora dos Remédios.
Como professor, primava pela assiduidade e pontualidade, bem como pela simpatia, clareza, rigor e exigência. Como prefeito, a simpatia e a atenção aos rapazes não o impediam de infligir alguns castigos em moda na época, embora optasse pelos mais brandos. Como pároco, sempre ouvi sublinhar o seu zelo e proximidade, bem como a sua vontade de articular a segurança da doutrina e da liturgia com a abertura a novas ideias e estilos.     
Naturalmente, o excesso de simplicidade e alguma persistência não entendida por outrem como por ele originaram alguma incompreensão nalguns momentos, tal como a maneira simples com que reconhecia e elogiava o trabalho de colegas o levava às vezes, nos últimos tempos de vigário episcopal a discurso bastante longo, repetitivo e mesmo hiperbólico. É a vida!    
Como vigário episcopal (recordo que a sua simplicidade me levara a um esforço junto de outros para a sua eleição) – e é sobretudo aqui que entra a minha palavra de gratidão –, devo salientar a solicitude com que se entregava a este múnus de coordenação pastoral, sem pompa, mas disponibilizando-se sempre na atenção aos problemas dos colegas e no apoio, sobretudo se solicitado, pois não se intrometia indevidamente na vida e na gestão do espaço dos colegas. E, sempre que necessário ou sempre solicitado, presidia a eventos pastorais na zona de Riba Távora e acompanhava as reuniões do clero com o prelado diocesano. Confesso o desapontamento com que vi um grupinho de leigos a pedir ao Bispo diocesano que presidisse a um determinado evento local ou que se fizesse representar, mas não pelo Senhor Vigário Episcopal de Zona.
Do meu lado, lembro três casos: aquele em que alguém tentou junto do prelado diocesano que este me impedisse de testemunhar em tribunal sobre uma ocorrência; aquele em que o Bispo diocesano, supostamente influenciado por um autarca, me desautorizaria em relação a uma diligência em que me envolvi em prol da comunidade; e aquele em que um sacerdote com largo tempo de serviço como professor de Educação Moral e Religiosa Católica ficaria fora do sistema após a publicação do Decreto-lei n.º 407/89, de 16 de novembro (que criou nas escolas dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico e nas escolas do ensino secundário lugares do quadro para professores da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica). Intervim junto do vigário episcopal, que, em articulação com o então vigário geral adjunto, hoje Bispo emérito de Lamego, Dom Jacinto Tomás de Carvalho Botelho, contribuiu para a reversão das preditas situações que estavam na iminência de ser alteradas.
Por fim, devo salientar o seu desempenho como confessor e diretor espiritual, marcado pela lucidez e compreensão, sentido do humano e do divino, conhecedor das limitações e instigador das possibilidades de quem lhe contava a vida.
Por tudo, além do que disse Dom António Couto, penso dever agradecer a Deus pelo bem que fez através deste sacerdote, professor e líder de comunidades, bem como agradecer todos os benefícios que Deus lhe concedeu. De resto, como se reza em Igreja, que descanse eternamente nos esplendores da luz perpétua.
2019.07.13 – Louro de Carvalho       

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Guindar o “Professor” a Património Imaterial da Humanidade


A edição de hoje, 30 de outubro, do Jornal de Notícias publica um artigo de opinião de Rui Nunes, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto sob o título “Professor”, Património Imaterial da Humanidade”, em que sustenta que “o professor deveria ser considerado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade” advertindo que não está em causa ‘um professor’ individualmente considerado, mas “o magistério e a profissão que ele representa”. E refere que a proposta surgira “num debate sobre educação promovido por professores em Mirandela”, o que, segundo o também investigador do CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, revela que, “no interior do país, frequentemente esquecido e marginalizado, também se pensa”, já que “o pensamento é livre”. E sublinha: “Mas só é livre porque alguém nos educou para a liberdade e para a cidadania”. Obviamente que nos remete para a missão e papel do educador, professor e formador, bem como para o jardim de infância, a escola, a academia.
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Obviamente que se concorda com a pretensão do investigador e professor na pretensão que enuncia. Porém, não era necessário advertir para o facto de não se tratar de relevar um professor individualmente considerado, pois ninguém de bom senso cairia nesse entendimento. Com efeito, não raro se fazem homenagens ou se erigem monumentos (estátuas, bustos, medalhas comemorativas…) a entidades representativas ou simbólicas duma profissão, agremiação ou corporação. Temos, por exemplo, os casos, por antonomásia, de monumentos ao Soldado Desconhecido, ao Bombeiro, ao Ranger, ao Comando, ao Marinheiro, ao Pescador, ao Catequista, aos Combatentes, aos Mártires da Pátria, aos Descobridores, como temos, por exemplo, a rua dos Caldeireiros, o bairro dos Pescadores, a rua dos Ferreiros, a rua dos Sapateiros, a rua dos Cónegos, a avenida das Forças Armadas, a avenida dos Defensores de Chaves, a igreja das Carmelitas, o convento dos Franciscanos, o valado dos Frades, o curral das Freiras… E não nos cabe na cabeça individualizar alguém em casos destes. Já não é o caso de monumentos, bairros, praças, ruas, avenidas em que o homenageado é perfeitamente identificado e individualizado (vg avenida Gago Coutinho, aeroporto Francisco Sá Carneiro, estátua equestre de Dom José I…). E isto acontece mesmo quando a identificação é implícita como, por exemplo, no caso do Mosteiro da Batalha, que é memória da batalha de Aljubarrota, ou o da Praça da Batalha, onde esteve a Capela de Nossa Senhora da Batalha e foi edificado o Palacete da Batalha, que é memória do que, segundo a tradição, ali se passou no século X, uma sangrenta batalha entre os sarracenos de Almançor e os habitantes do Porto, que acabariam por sair derrotados, sendo arrasada a cidade, e lembrando-nos mais para cá as batalhas miguelistas – liberais do século XIX. Não passo em silêncio que os públicos louvores, as condecorações e prémios tanto são atribuíveis a pessoas singulares como a pessoas públicas, bem como a insígnias identificadoras destas. Por exemplo, o Regimento de Infantaria n.º 14 foi, a 25 de abril de 2000, feito Membro-Honorário da Ordem da Liberdade e, a 5 de março de 2012, Membro-Honorário da Ordem Militar de Avis; e que Mário Soares, quando um dos governos de Cavaco Silva urgiu a extinção do Regimento de Comandos, condecorou o estandarte, a 16 de dezembro de 1993, com o título de Membro-Honorário da Ordem Militar de Avis.
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Por mim, que me habituei a tratar os meus habituais destinatários do correio eletrónico por Veneráveis Unidades do Património Imaterial da Humanidade, concordo em absoluto com a proposta veiculada pelo Professor Rui Nunes. Na verdade, se considero que uma pessoa per se tem um valor inestimável e a sua passagem pela vida constitui uma irrepetível e imaterial mónada patrimonial da humanidade, com maioria de razão hei de considerar o professor na sua missão valorosa já não como uma unidade, embora a pessoa de cada um o seja, do Património Imaterial da Humanidade, mas uma pertença coletiva e inestimável desse património imaterial.
Portugal já fez entrar no Património Cultural Imaterial da Humanidade o Fado (2011), o Cante Alentejano (2014) e a Arte Chocalheira (2015) – elementos envolvidos pelos objetivos da UNESCO: levar o público a reconhecer, salvaguardar e revitalizar o património imaterial; avaliar e inventariar a herança cultural intangível em todo o mundo; incentivar os Estados a estabelecer inventários nacionais e tomar medidas legais e administrativas relevantes; e encorajar os portadores do conhecimento a identificar, revitalizar e salvaguardar a sua herança.
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O predito Professor Catedrático sustenta a proposta no pressuposto facto de a educação ser “o mais potente fator de desenvolvimento de um povo e o garante da construção de uma sociedade plural, igualitária e inclusiva”, sendo que “não há igualdade de oportunidades sem educação” – o que deve induzir o carinho e o respeito pelo “professor”. E defende que tal atitude deve ser visível logo em relação ao Ensino Básico e ao Secundário, justificando:  
É ele que molda a personalidade de todas as crianças e jovens e lhes garante, apesar de outras condicionantes sociais e económicas, um futuro aberto às diferentes experiências que a vida pode proporcionar. E potencia a aquisição das competências necessárias a uma plena autorrealização.”.
E, considerando a missão da UNESCO, discorre:
Sendo a UNESCO a entidade responsável pela difusão global da educação, da cultura e da ciência, faz sentido que seja aqui reconhecido o imenso papel que a educação e os educadores prestam no devir coletivo da humanidade. Mais ainda quando estamos a entrar numa era profundamente tecnológica onde é necessário aprofundar as “soft skills” relacionadas com a inteligência emocional.”.
Por outro lado, insistindo na missão tão nobre como espinhosa do professor a sugestão de Rui Nunes frisa a responsabilidade “pela incorporação de outros valores intangíveis tal como a língua e a cultura” e ainda “a aprendizagem da arte ou da história como fatores identitários únicos e exclusivos de qualquer sociedade”. Por isso, o reconhecimento pela UNESCO será, na ótica daquele professor universitário, “um gesto de reconhecimento e gratidão pelo papel único do professor na sociedade e pela sua função de educador e de exemplo, em qualquer país e cultura”. E, no atinente ao caso português, vinca:
Em Portugal, foi a universalização do ensino que colocou o país na rota da modernidade. Se hoje temos excelentes médicos, arquitetos, engenheiros, entre outros profissionais, ou se temos uma cultura de cidadania democrática e de respeito pelos direitos humanos, devemos aos professores o seu empenho e a sua dedicação.”.
Importa acentuar que esta proposta vem a talhe de foice num momento em que, depois de tantos ataques desferidos por sucessivos governos da República aos professores, estimulados ou secundados por sinistros fazedores da opinião pública, contra o seu estatuto profissional e a sua posição na sociedade, na onda da desvalorização dos trabalhadores na administração pública, encontramos os educadores e professores sobrecarregados de trabalho, tantas vezes inútil, numa situação de verdadeira proletarização e risco profissional e muitos em estado de depressão, num contexto de escola degradada, sobretudo a pública a responder, cada vez mais exclusivamente, à população social e economicamente mais desfavorecida. E, neste contexto, por fatores vários, a apreciação que muitos na sociedade portuguesa fazem da profissão docente é negativa, contrariando a visão tradicional sobre a escola e o professor.  
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Por tudo isto, é de considerar oportuna e benéfica a proposta de Rui Nunes, cuja intervenção não se tem confinado ao exercício da medicina nem mesmo à medicina e à docência, como se pode ver a partir de alguns dados curriculares colhidos da Wikipédia e do site da Universidade do Porto (UP), que mostram uma personalidade que faz pontes entre a academia e a sociedade, a academia e a cultura, a academia e a administração pública.
Rui Manuel Lopes Nunes (Porto, 1961), médico, investigador do CINTESIS (Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde) e professor catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é o primeiro doutorado em todo o espaço lusófono na área da bioética e o presidente e fundador da APB (Associação Portuguesa de Bioética). Foi membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida), domínio em que se distinguiu nas atividades académicas e de formação, nomeadamente no curso de doutoramento em bioética, parceria entre a Faculdade de Medicina da UP e o Conselho Federal de Medicina Brasileiro. Neste quadro, contribuiu para a formação de mais de duas centenas de especialistas brasileiros nos diferentes domínios da bioética, sendo de salientar a organização de numerosas iniciativas, de que se destacam o Congresso Nacional de Bioética e o Fórum Luso-Brasileiro de Bioética. Publicou mais de 20 livros e cerca de duas centenas de artigos, sendo de realçar as obras “Prioridades na Saúde” (com Guilhermina Rego, edição: Mc Graw-Hill, abril de 2002), “Testamento Vital” (com Helena Pereira de Melo, edição: Edições Almedina, junho de 2011), “Regulação na Saúde” (edição: Vida Económica, dezembro de 2014), “Ensaios em Bioética”  (edição: CINTESIS – Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde, setembro de 2017) e “GeneÉtica” (edição: Edições Almedina, junho de 2013). Na área cultural, é também autor e/ou coordenador das obras “Cultura & Sociedade” (edição: Edições Almedina, setembro de 2015), “Educação para a Arte” (edição: Pelouro da Educação, Organização e Planeamento [da] Câmara Municipal do Porto, 2015), “O Porto e a Escola” (edição: Câmara Municipal do Porto, janeiro de 2015) e “O Porto e as Igrejas” (edição: Pelouro da Educação da Câmara Municipal do Porto, em parceria com a Diocese).
A pari, mantém intensa atividade social: foi o primeiro presidente da ERSE (Entidade Reguladora da Saúde), membro do Conselho Médico-Legal do Ministério da Justiça e formador do CEJ (Centro de Estudos Judiciários). Foi um dos fundadores do CISP (Centro de Inovação Social do Porto) e coordena o programa “Porto Cidade de Ciência”. Em 2012, fundou o Fórum Democracia e Sociedade, espaço de reflexão política sobre a sociedade contemporânea. E participa num espaço de opinião semanal “Tema Central”, onde aborda as principais questões políticas e sociais da atualidade.
Na área da cultura, destaca-se o seu empenho em causas culturais, tendo sido responsável pela elaboração do Plano Municipal de Cultura do Porto e vindo a contribuir regularmente para a revista “As Artes entre as Letras”. Foi administrador da Fundação Ciência e Desenvolvimento e do Teatro do Campo Alegre, no Porto, membro do júri do Concurso Nacional de Leitura e comissário de diferentes exposições de pintura e fotografia, nacionais e internacionais, de que se destaca a exposição em Paris Ponts d'Espoir da artista plástica Isabel Saraiva.
Ganhou notoriedade pela proposta de legalização do Testamento Vital em Portugal e no Brasil e pela proposta que efetuou à UNESCO de Declaração Universal de Igualdade de Género. Desde 4 de março de 2015, é presidente do Conselho Consultivo da Entidade Reguladora da Saúde, cargo para que foi eleito por larga maioria, através de voto secreto dos seus 19 pares neste órgão. Em junho de 2016, foi nomeado Head of the Research Department of the International Network of the UNESCO Chair in Bioetnics (Haifa). E, em novembro de 2017 foi eleito membro titular da Academia Nacional de Medicina de Portugal, instituição que acolhe os mais elevados representantes da medicina portuguesa.
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É, pois, de inteira justiça o público reconhecimento da missão do professor, como o será todo o esforço coletivo feito e a fazer em ordem à dignificação da sua profissão e à valorização do seu estatuto. Estão em causa o bem das crianças, adolescentes, jovens e adultos, num mundo em que o docente não pode deixar de ser discente, e a educação, que não pode ser balizada por critérios etários, devendo, antes, abranger a vida toda e estender-se a todas as atividades. Com efeito, a educação constitui um bem superior – se não em si mesma – como instrumento e meio de construção harmónica da personalidade e de desenvolvimento pessoal e social, numa sociedade que não deve parar de ser aprendente.
E, se o Fado, o Cante Alentejano ou a Arte Chocalheira dizem respeito apenas a um povo ou a uma região, o Professor e a Educação dizem respeito a todo o mundo. Por outro lado, se se pretende constituir o Professor como integrante do Património Imaterial da Humanidade, tem imperativamente de se considerar cada professor e cada professora como um ser humano colocado numa posição especial na sociedade e de se velar pela sua integridade física, psicológica e moral (para o que o próprio e a própria também devem contribuir). Merece tal proteção enquanto pessoa humana e enquanto promotor/a social, pelo que não pode ficar em silêncio ante a falta de solidariedade dos poderes!  
2018.10.30 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Padre e poeta, profeta e apóstolo


Ainda está fresca na retina da memória portuguesa a nomeação, pelo Papa Francisco, do Padre e poeta português José Tolentino Mendonça, ocorrida no passado dia 26 de junho, como arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Santa Sé, passando a tutelar a mais antiga biblioteca do mundo e sucedendo na liderança daqueles serviços ao Arcebispo francês Jean-Louis Bruguès.
O Arquivo Secreto do Vaticano conserva os documentos relativos ao governo da Igreja para, antes de tudo, estarem à disposição da Santa Sé e da Cúria no desempenho do próprio trabalho, e para que depois, por concessão pontifícia, possam representar para todos os estudiosos de história fontes de conhecimento, mesmo profano, das regiões que há séculos estão intimamente ligadas com a vida da Igreja. E a Biblioteca Apostólica do Vaticano apresenta-se como “instrumento da Igreja para o desenvolvimento, a conservação e a divulgação da cultura” e, constituída pelos Papas, oferece, nas suas várias secções, “tesouros riquíssimos de ciência e de arte aos estudiosos que investigam a verdade”.
O sacerdote português, até agora vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e diretor da Faculdade de Teologia (por decreto de 22 de maio de 2018, da Congregação para a Educação Católica), foi ainda elevado à dignidade de Arcebispo de Suava, no Norte de África.
O novo Arcebispo, que iniciará funções como arquivista do Arquivo Secreto e bibliotecário do Vaticano no dia 1 de setembro, foi convidado para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e da Cúria Romana (que decorreu entre 18 e 23 de fevereiro, em Ariccia, nos arredores de Roma), convite que então o deixou tão surpreendido que achou ter “sonhado” com isso.
Conhecido por utilizar referências à literatura nas meditações religiosas, Dom José Tolentino Mendonça chegou a citar Fernando Pessoa nas meditações apresentadas ao Papa Francisco, que lhe agradeceu por conseguir estabelecer uma ponte entre os textos bíblicos e a literatura secular.
Considerando o convite do Papa como uma grande honra para a Igreja portuguesa, para Portugal e para a UCP, a reitora Isabel Gil Capeloa lembra, em comunicado, que Tolentino Mendonça tinha assumido o pelouro das relações culturais e bibliotecas da Católica nas últimas duas equipas reitorais. Segundo a reitora da UCP, o Professor “contribuiu para tornar a atividade artística um eixo central da ação da Universidade Católica Portuguesa, incentivando um diálogo renovado e fecundo com a sociedade através da sua intervenção cultural e literária” e trabalhou no desenvolvimento do Código de Ética e Deontologia da UCP.
O novo arquivista e bibliotecário da Santa Sé manifestou à agência Ecclesia a sua determinação de “servir a Igreja na Cultura”, referindo:
A Cultura faz-nos viajar à raiz arquitetural da pessoa, àquilo que constitui o núcleo fundante da sua aventura existencial, mas também nos permite interrogar e iluminar o seu horizonte de sentido”.
Dom José Tolentino Mendonça sustenta que a sua missão como “Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana” se insere numa tradição papal de “conservar num arquivo próprio a memória dos mártires e a gesta dos pastores, bem como os livros que asseguravam a atividade litúrgica e as necessidades administrativas da comunidade eclesial”. O Arcebispo salienta que há, desde o século VIII, notícias da existência duma biblioteca, enriquecida ao longo dos tempos com “monumentais e preciosos espólios”, que colocam a atual Biblioteca Apostólica Vaticana entre “as mais fascinantes instituições culturais do mundo”. Diz o novel prelado:
O arquivo e a biblioteca são assim lugares referenciais da memória específica do cristianismo, mas também da cultura universal; são espaços de ciência e de construção de pensamento, procurados por investigadores de todo o mundo que ali encontram o rastro da história e a capacidade que esta tem de iluminar o presente; são grandes repositórios daquela beleza capaz de ferir de infinito o coração humano”.
Para este colaborador do Papa, a Cultura é uma das “fronteiras proféticas” para o catolicismo de todos os tempos e, “de um modo talvez ainda mais incisivo, para o catolicismo contemporâneo”. Neste sentido, declarou:
A cultura documenta o que somos, é verdade. Mas espelha e potencia as grandes buscas interiores, o contacto com as grandes perguntas, a vizinhança das razões maiores que funcionam como patamares do caminho a que a nossa humanidade vai chegando, a proximidade daquele vastíssimo e inconsútil silêncio que, porventura ainda melhor do que a palavra, exprime em nós o mistério do Ser.”.
No pontificado de Francisco o Arcebispo destaca a “arte do encontro” que o Papa tem promovido e que encontra na Cultura “um espaço de desenvolvimento natural”, aliás na linha dos antecessores, embora com um tom muito próprio. E, sobre a cultura, diz neste sentido:
A Cultura, no seu sentido mais verdadeiro, é prática de escuta, de atenção, de intercâmbio e de interdependência; é exercício interminável de hospitalidade. Não admira que um dos serviços que a Igreja de cada tempo presta ao futuro seja, por isso, o investimento no diálogo entre a Fé e a Cultura, que constitui um horizonte inequívoco para uma apresentação credível do Evangelho ao coração das mulheres e dos homens nossos contemporâneos e uma reparadora fonte de esperança e de paz.”.
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Dom José Tolentino Mendonça nasceu em Machico (Região Autónoma da Madeira) em 1965 e foi ordenado sacerdote em 28 de julho de 1990. Deslocou-se para Roma, onde concluiu, no Pontifício Instituto Bíblico, o mestrado em Ciências Bíblicas. Regressado a Portugal, ingressou na UCP, onde foi capelão e lecionou as disciplinas de Hebraico e Cristianismo e Cultura. Aí se doutorou em teologia bíblica, tornando-se seu professor auxiliar. Dirigiu até ao ano de 2014 o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica em Portugal, de que foi o primeiro Diretor e a revista Didaskália editada pela Faculdade de Teologia. As linhas de investigação privilegiadas do teólogo e poeta são Bíblia e literatura, teologia de Paulo, representações de Jesus nos textos cristãos e na cultura contemporânea, a par do tema do corpo nos textos cristãos das origens.
O novo Arcebispo, consultor do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé) desde 2011, por designação de Bento XVI, era capelão na Capela do Rato e na UCP, foi reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, e era diretor da Faculdade de Teologia da UCP. O seu livro “A Mística do Instante” foi galardoado com o Prémio literário Res Magnae 2015, um importante prémio italiano atribuído no campo da ensaística. Foi o primeiro português e o único não italiano, até à data, a receber este prémio. Em 2016, a sua obra de cronista foi distinguida com o prémio APE e a sua obra poética com o Prémio Teixeira de Pascoaes. A 9 de junho de 2016, foi designado Membro do Conselho das Antigas Ordens Militares. E, em 2012, foi considerado um dos 100 portugueses mais influentes em 2012, pela REVISTA do jornal Expresso.
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Este padre poeta é um exemplo do que devia ser qualquer sacerdote: poeta, profeta e apóstolo.
Com efeito, Deus é poeta por Se comunicar-se por versos e metáforas. É certo que a Sua linguagem, carregada de símbolos, é hermética, misteriosa, para o coração duro e rude, e que, para O entender, se precisa de ouvido espiritual, sensível ao êxtase transcendental, mas, quando Deus declama, o universo dança, as donzelas e os jovens saltam de alegria, as crianças sorriem e gritam e os anciãos e anciãs têm sonhos e visões. E todos fazem associar-se a si a terra, o mar e o firmamento, os animais e plantas e as próprias pedras para enarrarem as maravilhas de Deus.
Por que nos criou à Sua imagem e semelhança, Deus põe os Seus olhos na procura e na mira de homens e mulheres disponíveis para encarnar os divinos sentimentos. Ora, nesta linha, vêm os profetas, que foram todos chamados e enviados por Deus para, por metáforas e imagens, porem dramaticamente o dedo nas chagas sociais, morais e religiosas cavadas pelos homens, anunciarem, na alegria do Espírito, o compromisso de Deus com a vida e construírem as sólidas plataformas da esperança messiânica, vindo, as plantas venenosas congraçar-se com as sãs, os animais opostos a juntar-se em convivência e as espadas da guerra a transformar-se em relhas de arado – e, na doçura do poema inspirado, se eleva ao Altíssimo o melhor hino à vida e ao amor.   
Porque o compromisso de Deus é só com a vida, o Senhor faz alçar homens e mulheres que se indignam com a sordidez, mas se apaixonam com o sublime. E toda a sua profecia é vertida em linguagem poética. Inundados do Espírito de Deus, os profetas cantam em elevado lirismo o sentimento do amor devotado, infinito e misericordioso de Deus para com o Seu Povo, o ser humano, e cantam a resposta eucaristicamente anafórica do Povo e do Homem ao seu Deus. Se dramaticamente levam ao Deus da misericórdia a miséria e debilidade humanas para que Se apiede, também com a ousadia recebida do Alto põem a humanidade a cantar a épica Odisseia do Deus que desceu à condição humana para o elevar ao patamar da condição divina, tornando-o filho com o Filho e com Ele herdeiro dos tesouros da Verdade, da Bondade e da Beleza.  
A vocação poética do profeta pode não o levar ao jeito de fazer rimas ou versos segundo qualquer métrica tradicional, mas leva-o ao derrame das lágrimas sobre o ambão da preleção, ao suor do esforço da caminhada à procura de quem precisa de chamada de atenção, conforto, metanoia, a sangrar no texto que deseja que perdure para a posteridade. A expressão rítmica do coração de Deus vaza na tinta da sua pena. O poeta-profeta pressente o que presente deveria ser, mas ainda não é; e vê-se convocado para reencantar os desanimados, curar os desesperançados, destilar beleza de mundos imaginários em terras áridas. E esta atividade dá-lhe o júbilo de Deus.
A matéria-prima do profeta é a poesia. Como artesão de polifacetados vasos de cristal ou oleiro de frágeis vasos de barro, o poeta-profeta maneja a palavra com simplicidade natural, mas com encantadora delicadeza. Pretende mostrar que o quotidiano, nas suas perversas contradições, poderia seguir por outra via. O poeta-profeta derrama-se como óleo perfumado no texto que é todo seu, mas que se torna todo para os outros porque o recebeu de Deus; faz-se lenho do fogo abrasador que aquece a história e gera a luminosidade que dá a vista aos cegos; torna-se mola do coxo que precisa de andar, estímulo para o surdo que precisa de ouvir, bálsamo para o doente que necessita da cura, farinha e água para quem precisa de pão e de água para saciar a fome e a sede. Ansioso por conjugar os extremos na síntese promotora do bem, sabe que o único Absoluto é o Amor, o único Bem é Vida e o único Alvo é a valorização do instante de Deus.
Como o poeta-profeta é o apóstolo. Porém, enquanto o profeta se constitui chamado, predestinado e discípulo mediante uma teofania em que não pôde ver o rosto de Deus, o apóstolo constitui-se como discípulo privando com o Deus encarnado em Seu Filho Jesus, sendo convidado a segui-Lo, ouvindo-O no quotidiano, partilhando com Ele o banquete da Salvação, o trabalho, os direitos e as obrigações; sente com Ele o momento da celebração da Aliança, come do Seu corpo e bebe do Seu sangue. Depois, tem o privilégio de rezar com o próprio Jesus/Deus. Não assistiu à Sua morte porque teve medo ou, se assistiu, recebe como testamento da caridade divina a Mãe do próprio Deus e confia-se a Ela. Tem mãe. Fixa e contempla o Ressuscitado e com alegria, movido pela força do Espírito Santo, vai anunciar que Aquele que estava morto vive e é constituído o Senhor em quem encontramos o perdão. E esta mensagem é comunicada a partir de Jerusalém, em círculos concêntricos, até aos últimos confins da Terra.
Queremos melhor pretexto para o dinamismo poético-profético-apostólico?
Mas há mais. Enquanto os profetas antigos tinham uma missão provinda dum passado teofânico, mas nubloso, com vista à aquisição das coisas que iriam acontecer, o apóstolo é enviado porque foi constituído testemunha ocular e auditiva (ou equivalente nos seus fundamentos) de factos já ocorridos que persistem no presente e permitem um futuro assente não apenas na esperança, que se reforça como força motriz, mas sobretudo na abundância da caridade divina que se torna mandamento irrecusável com intensidade pessoal e abrangência universal tornada marca indelével e contagiante dos novos seguidores, discípulos e apóstolos – quiçá mártires até ao sangue ou professores da fé até à entrega ilimitada, heroica e docente.
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Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé rejeitam redomas, estufas, viveiros, gaiolas. Quererem diminuir-se para que Ele cresça. Não aprisionam a mensagem, o mistério, o projeto. Comunicam-no, divulgam-no, consolidam-no, celebram-no.
Trocam os tapetes pelo chão batido. Solitários, não se vergam aos homens; só obedecem a Deus, que marca o compasso do próprio coração; indomáveis, revoltam-se com o trivial; irrequietos, perturbam o normal. São verdadeiros revolucionários da ternura e da misericórdia de Deus. Fazem a poesia da vida e transformam a desgraça em sublimação do desígnio divino presente nos homens mais pobres, doentes, descartados ou no coração das almas generosas, dedicadas. De gente dispersa constroem a comunhão, com indivíduos isolados fazem comunidade viva na fé, na esperança e no amor. É a verdadeira poesia factiva!
Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé não defendem a própria reputação. Alvos fáceis dos ímpios quando negam a história, só as gerações futuras lhes fazem justiça. Pedras do meio do caminho incomodam; indestrutíveis, semeiam trigo que se fará o pão do idealista, do revolucionário, mesmo que perturbado pelo crescimento irritante da cizânia.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé é alquimista, pois faz das palavra poção encantante e o seu feitiço condimenta a vida. Cria sabores exóticos; usa verbo forte, inebria a imaginação e gera o sonho. Conhece o segredo de transformar o transcendental no plausível. Alado, vive nas nuvens, mantém parceria perpétua com os anjos e adora a Deus em espírito e verdade, na intimidade do quarto, no interior do Templo, no silêncio das montanhas ou no bulício das praças. Escuta a bruma do vale, agasalha-se sob o manto platinado da lua e expõe-se ao fulgor e calor do sol. Não teme ausências e a solidão não o intimida. É selvagem como o tigre, altivo como a águia e acutilante ou encantador como a serpente.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé nascera no pé do arco-da-velha; salvo das águas, cresce como o cedro do Líbano; sensível, plora com o dedilhar da harpa; torna-se parceiro dos humildes, dos mansos e dos puros de coração. Contudo, o seu destino é a cruz.
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Que de junto de São Pedro e imerso na sua Cultura, Dom José Tolentino, brilhe com a poesia, a profecia e o apostolado.
2018.07.02 – Louro de Carvalho