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quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Papa em Moçambique, recebido com satisfação, compreende e exorta


No quadro da sua viagem apostólica de 4 a 10 de setembro a Moçambique, Madagáscar e Maurícias, Francisco chegou à tarde do dia 4 a Maputo, em cujo aeroporto decorreu a cerimónia de boas-vindas, permanecendo na cidade até ao final da manhã do dia 6.
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Após a visita de cortesia ao Presidente da República no Palácio da Ponta Vermelha, o Pontífice encontrou-se com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático.
No seu discurso, sentiu-se feliz por iniciar a viagem apostólica “por este país, tão abençoado pela sua beleza natural como pela sua grande riqueza cultural que traz à provada alegria de viver do vosso povo a esperança num futuro melhor” e que “abre as suas portas para alimentar um renovado futuro de paz e reconciliação”.
Dirigiu “palavras de proximidade e solidariedade” aos que sentiram as pesadas consequências dos ciclones Idai e Kenneth, partilhando “a angústia e sofrimento” de quem foi atingido e “o compromisso da comunidade católica para fazer frente a tão dura situação” e pedindo “a solicitude de todos os atores civis e sociais que, pondo a pessoa no centro, sejam capazes de promover a necessária reconstrução”.
Saudou o esforço de paz e reconciliação desenvolvido sob a égide da comunidade internacional como “o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e desafios” que Moçambique tem como nação, destacando o acordo de cessação definitiva das hostilidades militares entre irmãos moçambicanos assinado recentemente na Serra da Gorongosa – um marco plantado na senda da paz que parte do Acordo Geral de 1992 em Roma. São esforços que sustentam a esperança e dão confiança para que o modo de escrever a história não seja “a luta fratricida”, mas “a capacidade de se reconhecerem como irmãos, filhos duma mesma terra, administradores dum destino comum”. É a coragem da paz, “uma coragem de alta qualidade: não a da força bruta e da violência, mas aquela que se concretiza na busca incansável do bem comum”.
Assegurando que os moçambicanos conheceram “o sofrimento, o luto e a aflição”, mas sem deixarem que “o critério regulador das relações humanas fosse a vingança ou a repressão” ou que “o ódio e a violência tivessem a última palavra”, citou São João Paulo II para observar:
Com a guerra ‘muitos homens, mulheres e crianças sofrem por não terem casa onde habitar, alimentação suficiente, escolas onde se instruir, hospitais para tratar a saúde, igrejas onde se reunir para rezar e campos onde empregar as forças de trabalho. Muitos milhares de pessoas são forçadas a deslocar-se à procura de segurança e de meios para sobreviver; outras refugiam-se nos países vizinhos.’ (...) Não à violência e sim à paz!” (Discurso de Chegada, 16 de setembro de 1988, n. 3).
Reconhecendo que o povo, ao longo dos anos, sentira que a busca da paz – missão que envolve a todos – “exige um trabalho árduo, constante e sem tréguas”, pois a paz é “como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência”, disse que é preciso continuar a afirmar, com determinação mas sem fanatismo, com coragem mas sem exaltação, com tenacidade mas de maneira inteligente: não à violência que destrói, sim à paz e à reconciliação.
Mais que a ausência de guerra, a paz é “o empenho incansável”, especialmente dos que ocupam um cargo de maior responsabilidade, em “reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os principais protagonistas do destino da própria nação”, pois, “sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão”. Ora, se a sociedade “abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”.
Depois, Francisco salientou alguns dos aspetos de desenvolvimento que a paz possibilitou, como a educação e a saúde, e encorajou a prossecução do trabalho de “consolidar as estruturas e instituições necessárias” para que “ninguém se sinta abandonado”, especialmente os jovens, que formam grande parte da população e que “são o presente que interpela, busca e precisa de encontrar canais dignos que lhes permitam desenvolver todos os seus talentos; e são um potencial para semear e desenvolver a tão desejada amizade social”.
E frisou que, no quadro da cultura de paz, “o caminho há de ser aquele que favoreça a cultura do encontro e dela fique todo impregnado: reconhecer o outro, estreitar laços, lançar pontes”; e, por outro lado, torna-se “imprescindível manter viva a memória como caminho que abre futuro; como caminhada, que leve a procurar metas comuns, valores compartilhados, ideias que favoreçam superar interesses setoriais, corporativos ou partidários para que as riquezas da nação sejam colocadas ao serviço de todos, especialmente dos mais pobres”. E exortou:
Tendes uma corajosa e histórica missão a cumprir: não cesseis os esforços enquanto houver crianças e adolescentes sem educação, famílias sem teto, trabalhadores sem trabalho, camponeses sem terra... Tais são as bases dum futuro de esperança, porque futuro de dignidade! Tais são as armas da paz.”.
E, após ter afirmado as condições-base da subsistência condigna – terra, teto e trabalho –, o Santo Padre inscreveu na rota da paz o olhar pela Casa Comum e disse que, nesta ótica, “Moçambique é uma nação abençoada”, sendo os moçambicanos “especialmente convidados a cuidar desta bênção”. A seguir, explanou:
A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, não é cultivada sequer por pessoas que habitam estas terras, nem é motivada pelo bem comum do vosso povo. Uma cultura de paz implica um desenvolvimento produtivo, sustentável e inclusivo, onde cada moçambicano possa sentir que este país é seu, e no qual possa estabelecer relações de fraternidade e equidade com o seu vizinho e com tudo o que o rodeia.”.
Por fim, disse que todos são “os construtores da obra mais bela a ser realizada: um futuro de paz e reconciliação como garantias do direito ao futuro dos vossos filhos” e expressou o desejo de, em comunhão com os irmãos bispos e “a Igreja Católica que peregrina nesta terra”, contribuir para que “a paz, a reconciliação e a esperança reinem definitivamente” no povo moçambicano.
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Numa festa inter-religiosa e culturalmente rica da juventude, Francisco pronunciou o segundo discurso do dia em Maputo, neste dia 5. Os jovens foram a expressão da paz e da reconciliação do país, através de cantos, apresentações artísticas e tradições religiosas, sempre encorajados pelo Pontífice que incentivou a não se resignarem diante das provações e terem cautela com a ansiedade que pode criar barreiras para realizar os sonhos.
O Papa encontrou os jovens no Pavilhão do Clube de Desportos do Maxaquene, conhecido como Maxaca – uma sociedade com tradição no futebol, tanto que já ganhou cinco títulos nacionais. Hoje o espaço acolheu mais de 4 mil jovens cristãos, muçulmanos e hinduístas para um grande encontro inter-religioso.
Em cerca de uma hora com a juventude de Moçambique, o Papa conseguiu conhecer um pouco da realidade local das diferentes confissões religiosas que se apresentaram, através da arte do canto e de coreografias especiais, demonstrando diferentes temas e motivos de preocupação dos jovens do país. E foi interpretado um hino comum às denominações religiosas antes do discurso do Pontífice, em que destacou no quadro da consciência da importância dos jovens:
O que há de mais importante para um pastor do que encontrar-se com os seus jovens? Vós sois importantes! Precisais de saber disso, precisais de acreditar nisso: vós sois importantes! Mas com humildade porque não sois apenas o futuro de Moçambique ou da Igreja e da humanidade; vós sois o presente de Moçambique! Com tudo o que sois e fazeis, já estais a contribuir para ele com o melhor que hoje podeis dar.”.
O Papa começou por enaltecer a expressão tão autêntica da alegria que carateriza o povo de Moçambique, vincando:
É uma alegria que reconcilia e se torna o melhor antídoto capaz de desmentir todos aqueles que querem dividir, fragmentar ou contrapor. Como faz falta, em algumas regiões do mundo, a vossa alegria de viver!.
Também foi elogiada pelo Pontífice a presença das diferentes confissões religiosas no local, demonstrando a união familiar através do “desafio da paz”, da esperança e da reconciliação. Com essa experiência, disse ele, é possível perceber que “todos somos necessários: com as nossas diferenças, mas necessários”. E apontou:
Vós, jovens, caminhais com dois pés como os adultos, mas, ao contrário dos adultos que os mantêm paralelos, vós colocais um atrás do outro, pronto a arrancar, a partir. Vós tendes tanta força, sois capazes de olhar com tanta esperança! Sois uma promessa de vida, que traz em si um certo grau de tenacidade (cf Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit, 139), que não deveis perder nem deixar que vos roubem.”.
Procurando responder a duas perguntas dos jovens sobre como realizar os sonhos da juventude e como contribuir para solucionar os problemas que afligem o país, a indicação do Pontífice veio do caminho de riqueza cultural apresentado pelos jovens, através da arte, expressão “de parte dos sonhos e realidades”, sempre regada de esperança e de ilusões. E Francisco voltou a insistir com os jovens para não deixarem que “roubem a sua alegria”, para não deixarem de cantar e se expressarem conforme as tradições de casa.
Depois alertou para a cautela com “duas atitudes que matam os sonhos e a esperança: a resignação e a ansiedade”.
São grandes inimigas da vida, porque normalmente nos impelem por um caminho fácil, mas de derrota; e a porta que pedem para passar é muito cara… (…) Paga-se com a própria felicidade e até com a própria vida. Resignação e ansiedade: duas atitudes que roubam a esperança. Quantas promessas de felicidade vazias que acabam por mutilar vidas! Certamente conheceis amigos, conhecidos – ou pode mesmo ter acontecido convosco – que, em momentos difíceis, dolorosos, quando parece que tudo cai em cima de vós, ficais prostrados na resignação. (…) Quando tudo parece estar parado e estagnante, quando os problemas pessoais nos preocupam, as dificuldades sociais não encontram as devidas respostas, não é bom dar-se por vencido’. ”.
Inspirado no desporto, deu o exemplo do futebolista Eusébio da Silva, o “pantera negra”, que começou a carreira no clube de Maputo, acentuando que o atleta não se resignou ante as graves dificuldades económicas da família e a morte prematura do pai, sendo que o futebol o ajudou a perseverar. E, fazendo a analogia com o jogo em equipa, falou da importância do empenho pelo país com a tática da união e independentemente do que diferencia as pessoas, frisando:
Como é importante não esquecer que ‘a inimizade social destrói. E uma família se destrói pela inimizade. Um país se destrói pela inimizade. O mundo se destrói pela inimizade. E a inimizade maior é a guerra porque são incapazes de se sentar e falar, de se sentar e falar. Sede capazes de criar a amizade social!”.
E o Papa lembrou o provérbio africano conhecido e citado mundialmente para “sonhar juntos”, que diz: “Se quiseres chegar depressa, caminha sozinho; se quiseres chegar longe, vai acompanhado”. Mas é preciso afastar a ansiedade que é inimiga dos sonhos da juventude por um país melhor, pois – diz o Pontífice – “eles são conquistados com esperança, paciência e determinação, renunciando às pressas”.
A seguir, veio o exemplo de Maria Mutola, que aprendeu a perseverar, apesar de ter perdido a medalha de ouro nos três primeiros Jogos Olímpicos que disputou. O título dourado veio na quarta tentativa, quando a atleta dos 800 m venceu nas Olimpíadas de Sidney. “A ansiedade não a deixou absorta em si mesma, ao conseguir nove títulos mundiais”, disse Francisco.
No âmbito da importância dos idosos e da Casa Comum, o Papa exortou a não esquecerem o apoio dos idosos, que podem ajudar a realizar sonhos sem que “o primeiro vento da dificuldade” venha a impedir. Com efeito, escutar as pessoas mais experientes, valorizando as tradições e fazendo a própria síntese, como aconteceu com a música (o ritmo tradicional de Moçambique: da marrabenta nasceu o pandza, com toque moderno). Por outro lado, o Papa argentino lembrou o comprometimento com o cuidado da Casa Comum num país com tamanha beleza natural, mas que também já sofreu com o embate de dois ciclones, pois o desafio de proteger o meio ambiente é uma forma de permanecer unidos para ser “artesãos da mudança tão necessária”.
Por fim, o Papa Francisco encorajou os jovens a encontrarem novos caminhos de paz, liberdade, entusiasmo e criatividade, e “com o gosto da solidariedade”, para responderem às provações e problemas vividos no país, dado que é grande “o poder da mão estendida e da amizade” para que a solidariedade cresça e se torne na melhor arma para transformar a história. E Francisco concluiu apelando aos jovens que não esqueçam quanto Jesus os ama:
[É o amor do Senhor que se entende mais de levantamentos que de quedas, mais de reconciliação que de proibições, mais de dar nova oportunidade que de condenar, mais de futuro que de passado (Ibid., 116). Eu sei que vós acreditais nesse amor que torna possível a reconciliação.]”.
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No encontro em Maputo, na catedral da Imaculada Conceição, com bispos, sacerdotes, religiosos, seminaristas, consagrados, catequistas e animadores, o Papa exortou:
Reavivemos o nosso chamamento vocacional e que o nosso sim comprometido proclame as grandezas do Senhor e alegre o espírito do nosso povo em Deus nosso Salvador. E encha de esperança, paz e reconciliação o vosso país, nosso querido Moçambique.”.
Sugeriu que voltar a Nazaré pode ser o caminho para enfrentar a crise de identidade, para nos renovarmos como pastores-discípulos-missionários. E disse:
Não podemos correr atrás daquilo que redunda em benefícios pessoais; os nossos cansaços devem estar mais relacionados com ‘a nossa capacidade de compaixão: são compromissos nos quais o nosso coração estremece e se comove’.
“Para nós, sacerdotes – acrescentou o Santo Padre –, as histórias do nosso povo não são um noticiário: conhecemos a nossa gente, podemos adivinhar o que se passa no seu coração”. “E, assim, a nossa vida sacerdotal se vai doando no serviço, na proximidade ao povo fiel de Deus…, etc., o que sempre, sempre cansa.”.
Falando aos jovens que se interrogam ou que se sentem chamados à vida consagrada, disse:
Tu que ainda te interrogas ou tu que já estás a caminho duma consagração definitiva dar-te-ás conta de que ‘a ansiedade e a velocidade de tantos estímulos que nos bombardeiam fazem com que não haja lugar para aquele silêncio interior onde se percebe o olhar de Jesus e se ouve o seu chamamento’.”.
Depois, aconselhou:
Procura, antes, aqueles espaços de calma e silêncio que te permitam refletir, rezar, ver melhor o mundo ao teu redor e então sim, juntamente com Jesus, poderás reconhecer qual é a tua vocação nesta terra.”.
E concluiu vincando que a Igreja em Moçambique é convidada a ser a Igreja da Visitação: “não pode ser parte do problema das competências, menosprezos e divisões de uns contra os outros, mas porta de solução, espaço onde sejam possíveis o respeito, o intercâmbio e o diálogo”.
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Seguiu-se a visita privada à “Casa Mateus 25” e espera-se pelo que, após a visita ao hospital de Zimpeto, vai dizer na Missa do dia 6, no Estádio de Zimpeto.
O Papa não para de ouvir, compreender e levantar a sua voz – ora ternurenta ora interpelante – de profeta, apóstolo e missionário.
2019.09.05 – Louro de Carvalho

domingo, 9 de junho de 2019

O sopro de Deus e a força do Espírito


A Solenidade do Pentecostes encerra o ciclo pascal não a sete chaves, mas com a cavilha de segurança para o envio apostólico e a marcha pelo mundo inteiro a pregar o Evangelho, que se acomoda em duas vertentes: Cristo Ressuscitado está a interceder por nós junto do Pai, mas a sua presença junto de nós a ajudar e a consolidar a sua obra é permanente e eficaz; e, em seu nome, os cristãos, liderados pelos pastores, fortalecidos pela unção e movidos pela força do Espírito Santo, têm a missão tão honrosa como espinhosa de testemunhar o Ressuscitado e pregar com ardor e amor, pela palavra e pelas obras, o arrependimento e o perdão dos pecados.  
É verdade que aos apóstolos foi confiada a missão de irem por todo o mundo fazer discípulos que repliquem e multipliquem o apostolado e gerem lideranças apostólicas, mas o guia e animador da missão é o Espírito, que está sempre em ação, sem alguma vez tirar férias, folgar ou adormecer. Habitualmente é discreto, mas paira e sopra onde e donde quer (cf Jo 3,8).   
No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas” (Gn 1,1-2).
É Ele que dá a vida ao homem: “o SENHOR Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo” (Gn 2,7).    
Habitualmente não se arma ao espetáculo, à força  e poder:
Passou diante do Senhor um vento impetuoso e violento, que fendia as montanhas e quebrava os rochedos diante do Senhor; mas o Senhor não Se encontrava no vento. Depois do vento, tremeu a terra. Passou o tremor de terra e ateou-se um fogo; mas nem no fogo Se encontrava o Senhor. De­pois do fogo, ouviu-se o murmúrio de uma brisa suave.” (1Rs 19,11-12).
O Senhor estava na brisa suave, na brisa ligeira, na brisa nova, na brisa do Espírito (A. Mendes).
Não obstante, quando é necessário – se a libertação ou a urgência da Aliança o postulam, o espetáculo emerge:
Olhou e viu que a sarça ardia no fogo, mas não era devorada. Moisés disse: ‘Vou adentrar-me para ver esta grande visão: porque não se consome a sarça?’. Deus disse: ‘Não te aproximes; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa’. E continuou: ‘Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’. Moisés escondeu o rosto, porque tinha medo de olhar para Deus. O SENHOR disse: ‘Eu bem vi a opressão do meu povo que está no Egito e ouvi o seu clamor ante os seus inspetores; conheço, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios.” (Ex 3,2b-3.5-8a). 
E no Sinai:
A montanha do Sinai estava toda coberta de fumo, porque o SENHOR tinha descido sobre ela no fogo; o seu fumo subia como o fumo de um forno; e toda a montanha tremia muito. O som da trombeta era cada vez mais forte. Moisés falava e Deus respondia-lhe no trovão. O SENHOR desceu sobre a montanha do Sinai, no cimo da montanha. Chamou Moisés ao cimo da montanha e Moisés subiu.” (Ex 19,18-20).
O Senhor estava no fogo, no fumo, no tremor, no som da trombeta.
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O Evangelho da Solenidade do Pentecostes (Jo 20,19-23) é o do sopro do Espírito: os discípulos de Jesus estão fechados em casa por medo dos judeus. O Ressuscitado, qual vida nova e novo modo de presença, que nada nem ninguém pode reter ou impedir, atravessa as portas fechadas, aparece e fica de pé no meio deles, o lugar da liderança, e saúda-os por duas vezes: “A paz convosco!”. Mostra-lhes as mãos e o lado, tornados rosto do Deus sofrido, mas ora redivivo, o cartão de identidade de Jesus a fazer coincidir o Ressuscitado com o Crucificado de há dias. Obviamente, o medo cedeu o passo à alegria e os discípulos mostraram-se cheios de alegria (ekhárêsan), disposição que propicia o convite para a missão, tal como sucedeu com Maria: o anjo saudou-A com o piropo “Alegra-te, Cheia de Graça” (Khaîre, kekharitôménnê). E a Virgem de Nazaré, obediente ao Senhor, dispôs-Se a que se fizesse em Si o que a Palavra de Deus ditava. 
Ora, a Vida de Jesus, dada por amor, para sempre e para todos, vincula os discípulos à sua missão de dar a vida por amor: “Como o Pai me enviou (do grego apéstalken: pretérito perfeito de apostéllô), também Eu vos mando ir (pémpô)”. Os discípulos e Jesus têm em comum o envio, mas os verbos gregos marcam a diferença: o envio d’Ele está no tempo perfeito (é para sempre): a sua missão começou e continua, não acaba e Ele continua em missão; a nossa missão está no presente e o presente dela surge agrafado à missão de Jesus, não fazendo sentido sem Ele e sem a sua missão. Imbricados n’Ele e na sua missão, sabemos que Ele está connosco todos os dias até ao fim dos tempos (cf Mt 28,20). Este mandato que recebemos de Jesus define o estilo da nossa missão de acordo com o estilo e a missão de Jesus.
Como foi referido, os discípulos ficaram cheios de alegria (o medo dissipou-se com a presença do Mestre) ao verem (idóntes: particípio aoristo 2.º de horáô) o Senhor. Tal como o Outro Discípulo, aquele que Jesus amava, também eles todos veem a identidade do Senhor Ressuscitado com um olhar histórico (tempo aoristo). Jesus soprou sobre eles. Ora, este sopro de Jesus é o sopro criador (emphysáô), o sopro do Espírito, o mesmo que pairava sobre as águas, o que o Senhor insuflou nas narinas do homem recém-criado, o que inspirou a Aliança e a Lei, o sopro da brisa suave, o que o Senhor derramará sobre toda a criatura, para que os vossos filhos e as vossas filhas hajam profetizar, os vossos jovens hajam de ter visões e os vossos velhos hajam de ter sonhos” (cf At 2,17; Jl 3,1). É o sopro do Espírito para a frágil-forte missão do Arrependimento e do Perdão, o Jubileu Divino do Espírito. Anote-se que o Pentecostes surge 50 dias após o dia da Ressurreição. A Páscoa dos judeus celebra a libertação do Egito, ao passo que o seu Pentecostes, de festa das colheitas passou a celebrar a constituição de Israel como o Povo de Deus. Assim, a nova vida merecida pelo Filho de Deus insufla-se no novo Povo de Deus, a Igreja – anunciada sobre a rocha petrina (vd Mt 16,18-19), gerada na cruz a partir do lado aberto do Salvador (vd Jo 19,34) e nascida na Páscoa (vd Jo 20,21-23) e ‘epifanizada’ com a irrupção do Espírito Santo no Pentecostes (como se verá adiante). Este sopro, este alento, só aparece neste lugar em todo o Novo Testamento, mas é fácil fazer a ponte para Génesis 2,7, para o sopro ou alento (naphah TM / emphysáô LXX) criador de Deus no rosto do homem.
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O trecho do Livro dos Atos dos Apóstolos (At 2,1-11), assumido como 1.ª leitura, apresenta os apóstolos reunidos no Cenáculo, com Maria e outras mulheres, mas agora varridos ou recriados pelo vento impetuoso do Espírito, que os areja e lhes varre as teias de aranha que ainda os tolhem, e pelo seu fogo, que os batiza purificando-os de todas impurezas e vincando-os contra todos os medos e contra toda a pusilanimidade e tibieza. É o momento da espetacularidade teofânica do Espírito, é a Epifania da Igreja, novo Povo de Deus. Anote-se que o interesse catequético fundamental do autor é apresentar a Igreja como a comunidade que nasce de Jesus, é assistida pelo Espírito e é chamada a testemunhar aos homens o projeto libertador do Pai.
O Espírito senta-se (kathízô) sobre os apóstolos como novo Mestre que os orienta e lhes guia a vida. Ei-los a falar agora outras línguas, por dádiva do Espírito! Miraculosamente cessam as incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças. Nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos se entendem tão bem como se todos tivessem a mesma língua materna, da palavra antes das palavras, divina e humana lalação. É o contrário da Babel, que estabelecera a divisão e a confusão das línguas, a dispersão ou diáspora anárquica e atabalhoada. Os apóstolos falam e cada um dos presentes os ouve falar na sua própria língua. Ora, o intérprete da linguagem dos apóstolos é o Espírito Santo. Por outro lado, o mesmo Espírito Santo os faz falar a variedade das línguas. A era do Espírito é a era da confiança, da intimidade, da ternura, da misericórdia, do amor. Assim, o Pentecostes dos “Atos” é a página programática da Igreja e anuncia o que será o resultado da ação das “testemunhas” de Jesus: a humanidade nova, a antiBabel, nascida da ação do Espírito, onde todos serão capazes de comunicar e de se relacionar como irmãos, porque o Espírito reside no coração de todos como lei suprema, como fonte de amor e de liberdade.
Porém, impõe-se, na comunidade, a atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra. E aí vem, a propósito, a advertência aos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1Cor 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1Cor 14,28). Todos consideraríamos um absurdo a existência dum intérprete entre mãe e bebé para traduzir aquela lalação que os dois tão bem entendem.
Ora, é esta divina lalação do Espírito (alálêtos) (Rm 8,26) – única vez no Novo Testamento – que nos ensina a compreender que “Jesus é Senhor” (1Cor 12,3) e que Deus é Pai (ʼAbbaʼ) (Gl 4,6; Rm 8,15). Repare-se na importância da definição de carisma, no que insistiu hoje o Arcebispo de Braga na sua homilia: “a cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum” (1Cor 12,7) e “não para proveito próprio” (1Cor 10,33), sendo que o que define o proveito comum é a edificação, não de si mesmo, mas dos outros (1Cor 10,23-24). E dizia o Arcebispo que este proveito ou bem comum se entende para toda a Igreja e toda a sociedade em que é necessário insuflar o espírito do Evangelho. Trata-se de um só e único Senhor, um só e único Espírito, mas espelhado numa enorme diversidade de dons, serviços, ministérios e membros. E estes inúmeros membros formam um só corpo, o corpo de Cristo, que é a Igreja, cuja alma é o Espírito Santo. E, como nos alerta Paulo, é o Espírito Santo que nos ajuda a discernir a validade dos carismas, pois nunca se pode falar de carisma quando se trata de comportamento que pretende garantir privilégios a certas figuras. O verdadeiro “carisma” é o que leva a confessar que “Jesus é o Senhor” (pois não há oposição entre Cristo e o Espírito) e que é útil para o bem da comunidade.  
A tradição fundada na Bíblia situa no Cenáculo as duas cenas acima descritas – a da aparição do Ressuscitado (bem como a que sucedeu 8 dias depois) e a do Pentecostes. É a sala da Ceia Primeira (designada por Última Ceia) que deu origem a tudo, do último serão de Jesus com os discípulos, da Aparição do Senhor aos Apóstolos, da eleição de Matias, da descida pentecostal do Espírito Santo, enfim, o primeiro lugar de encontro da primeira comunidade cristã reunida em oração com Maria-Mãe de Jesus (At 1,13-14), a primeira Sé-Catedral, a primeira sede da Igreja nascente, a mãe de todas as Igrejas, a primeira domus-ecclesia [casa-igreja] do mundo, situada uns 200 metros a sul da muralha de Jerusalém, muito perto da Porta de Sião. O atual edifício remonta ao trabalho dos Franciscanos no século XIV e é sucedâneo de outras construções sucessivamente edificadas e destruídas, desde a Basílica de Santa Sião [Hagía Sion], do século IV. Por se encontrar no quarteirão sul de Jerusalém, o primitivo Cenáculo resistiu à destruição romana (ano 70), pois os romanos atacaram e destruíram a cidade pela parte norte (mais facilmente expugnável).
Associada às cenas susoidentificadas, a sala superior do Cenáculo [15,30m por 9,40m] assemelha-se ao Sinai com os fenómenos lá registados. Deles fala Fílon de Alexandria (± 20 a.C.-50 d.C.):
Deus não tinha boca ou língua, mas, com um prodígio, fez que um rombo se produzisse no ar, que um sopro se articulasse em palavras pondo o ar em movimento. Este transformou-se em fogo que tinha forma de chamas […], e uma voz ressoava do meio no fogo e descia do céu, e esta voz articulava-se no idioma próprio dos ouvintes.
E evoca-se Babel em contraponto. Em Gn 11,7, “ninguém compreendia mais a língua do seu próximo”, o passo que em Atos 2,6, “cada um compreendia na sua própria língua materna”.
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Não são apenas Cristo e os apóstolos que são enviados em missão. Também o Espírito Santo é enviado em missão como Aquele que recebe o que é do Filho (Jo 16,14.15) e que o Filho recebeu do Pai. Tal como o Filho é a transparência do Pai, o Espírito Santo é a transparência do Filho. O ensinamento do Espírito Santo é o mesmo que Jesus fez e que recebeu do Pai, mas vem depois do de Jesus (Jo 14,26) e processa-se, ao invés do de Jesus, não com palavras sensíveis que tocam os órgãos da audição dum público determinado, mas na interioridade da inteligência e do coração de cada ser humano. Este ensinamento é comparável à unção de óleo (chrísma) que penetra lentamente, como diz o Apóstolo: “Vós recebestes a unção (chrísma) que vem do Santo e todos sabeis (oídate)” (1Jo 2,20); ou então: “a unção (chrísma) dele vos ensina (didáskei) acerca de todas as coisas” (1Jo 2,27). É a unção que, penetrando lentamente em nós, ocupa o nosso interior, suaviza as asperezas, cura as dores e, fazendo nascer entre nós a comunidade concreta, mas com sabor e alcance universal, e gerando a comunhão, ensina o que devemos pedir e o que devemos dizer e fazer. Este saber maravilhoso assemelha-nos a Deus, que sabe de nós (Ex 2,25) e nos põe em confronto com Caim, que não sabe do seu irmão (Gn 4,9), e com Pedro, que não sabe de Jesus (Mt 26,70.72.74). O essencial passa a ser a experiência do amor que, no respeito pela liberdade e pelas diferenças, deve unir todas as nações da terra.
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É um ensinamento novo, não exterior, com sons e palavras, mas diretamente inoculado nas pregas da inteligência e do coração. É assim a linguagem nova do Espírito a afetar ao mesmo tempo o português e o chinês, o inglês e o russo, o católico, o muçulmano e o hebreu. É como se, em vez de falarem cada um a sua língua incompreensível para o outro, o português e o chinês entregassem uma flor um ao outro. Assim fala e age o Espírito, Pessoa-Dom, fonte de dons (1Cor 12,3-13), o verdadeiro dom de Deus. Com Ele, a comunidade canta e realiza a opção formulada no salmo 133, salmo de peregrinação – meditação sapiencial que parece contemplar a vida da comunidade de Israel como uma grande família de irmãos, sendo que as imagens do óleo e do orvalho sugerem a necessária fertilidade da terra:
Vede como é bom e agradável que os irmãos vivam unidos! É como óleo perfumado derramado sobre a cabeça, a escorrer pela barba, a barba de Aarão, a escorrer até à orla das suas vestes. É como o orvalho do monte Hermon, que escorre sobre as montanhas de Sião. É ali que o SENHOR dá a sua bênção, a vida para sempre.”.
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Com razão a Liturgia da Palavra nos faz rezar o Salmo 104 que induz a contemplação das obras maravilhosas de Deus, cheias do seu alento, que são a alegria de Deus (Sl 104,31), que, por sua vez, é a nossa alegria (Sl 104,34). Isto é extraordinário porquanto a temática de Deus que se alegra é rara na Escritura. Aparece agora no meio deste mundo novo e maravilhoso como fonte da nossa alegria. Nós somos efetivamente, pela unção batismal e crismal, templo do Espírito Santo; e, por mandato de Cristo, somos do tempo da missão do Espírito, de tal modo que os apóstolos sentiam a forte vinculação do e ao Espírito santo: “O Espírito Santo e nós” (At 15,28).
E, nesta missão, somos e temos uma realidade nova: Deus a habitar em nós (Jo 14,24), Deus connosco (Ap 21), a Cidade nova, a Consolação nova, a Bênção nova, a Paz nova, o Amor novo, não com a medida do mundo, mas com a medida de Deus (Jo 14,27; Sl 67), não com os critérios do mundo, mas com os critérios das bem-aventuranças (vd Mt 5,3-12).
 2019.06.09 – Louro de Carvalho

domingo, 12 de maio de 2019

Ele conhece as suas ovelhas e elas seguem-No


Jesus é o Cordeiro que revela Deus-Pastor ou a faceta pastoral de Deus, o Cordeiro porque segue o Pai, Bom-Pastor. É o Cordeiro porque, sendo Filho, se faz cordeiro manso e amigo, próximo e voz do Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas. É o Cordeiro que vai à frente do rebanho, como Mestre, e nos desafia a ser cordeiros à sua imagem e no seu seguimento. É o Cordeiro frágil e de coração grande, cuja palavra é vida e luz, que a todos purifica e faz ver o valor que o quotidiano esconde.
Este Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, além do chamamento que a todos e a todas faz à vida da Graça e de apostolado, que deriva do Batismo que nos foi ministrado, chamou e continua a chamar vocações de especial consagração: monges, frades, freiras, leigas e leigos consagrados, sacerdotes, missionários e missionárias. São vidas de cordeiro obediente que se tornam bons pastores, num mundo inquieto e a grande velocidade, que vertiginosamente corre à volta de si correndo o risco de se aniquilar. São opções de vida alternativa que transfiguram o sentido da vida e mostram a força da liberdade de servir com alegria. Constituem um modo dinâmico de aprendizagem com o Cordeiro a fazer a diferença no rebanho, não pela vestimenta, pela aparência ou pela ausência, mas pelo olhar, pelo sentir, pelo amar e pelo acreditar. É necessário um excesso de contemplação do Cordeiro imaculado, no meio de tantos programas de distração a passar.
O Senhor, Bom Pastor, ontem, hoje e para sempre, desvela-se em cuidado paciente, amoroso e misericordioso. Cristo, Cordeiro de Deus, que é o rosto humano do Bom Pastor, abre-nos o coração à Palavra que nos ama e ilumina, para que não nos cansemos em vão nem esqueçamos os irmãos ao longo desta sacra peregrinação terrestre. De coração magnânimo nos chama ao serviço da missão e coloca o tesouro do Evangelho no barro frágil das nossas vidas, que se encarregam de retransmitir o programa de Deus. Ele dá força e entusiasmo àqueles e àquelas que chama a segui-Lo numa vida consagrada ao Evangelho e à Igreja, para que saibam dizer “sim” e serem fiéis ao chamamento divino, em ordem à transformação do mundo.
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O 4.º domingo da Páscoa é o “Domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe um trecho do capítulo 10 do Evangelho de São João, em que Jesus Se apresenta como o Bom Pastor. Por outro lado, a perspicácia de São Paulo VI fez deste domingo o Dia Mundial de Oração pelas vocações Sacerdotais e Religiosas, a cujo tema a evolução dos tempos acabou por consagrar a semana que o antecede e alargou o sentido do dia a todas as vocações especiais que acima se referiram. Como foi referido, no Evangelho (Jo 10,27-30) apresenta-Se Cristo como o Bom Pastor, cuja missão é trazer a vida plena às ovelhas do seu rebanho, as quais, por sua vez, são convidadas a escutar o Pastor, a acolher a sua proposta e a segui-Lo para encontrarem a vida em abundância. Ante a proposta do Pastor, a 1.ª leitura (At 13,14.43-52) evidencia duas atitudes: a das ovelhas autossuficientes e comodamente instaladas nas suas certezas; e a das ovelhas atentas à voz do Pastor e dispostas a arriscar segui-Lo até às pastagens verdejantes da vida abundante e plena. Obviamente, esta segunda atitude é que é evangélica. E a 2.ª leitura (Ap 7,9.14b-17) apresenta a meta final do rebanho que seguiu Jesus, o Bom Pastor: a vida total, de felicidade infinda.  
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A partir do cap. 13, o livro dos Atos dos Apóstolos apresenta a via da Igreja no mundo greco-romano, etapa cujo protagonista humano é Paulo (animado e conduzido pelo Espírito do Ressuscitado).
Efetivamente, a comunidade cristã de Antioquia da Síria, ansiosa por fazer chegar a todos os povos a Boa Nova de Jesus, envia Barnabé e Paulo a evangelizar. Entre 13,1 e 15,35, descreve-se o envio dos missionários, a viagem, a evangelização de Chipre e da Ásia Menor (Perga, Antioquia da Pisídia, Icónio, Listra, Derbe) e os problemas colocados à jovem Igreja pela entrada maciça de gentios, para os quais ela sentiu a necessidade de se voltar.
A perícopa proclamada nesta liturgia dominical situa-nos na cidade de Antioquia da Pisídia (a atual Yalvas, na Turquia), na Ásia Menor. Nos versículos anteriores, o autor de Atos pôs na boca de Paulo, em longo discurso, uma síntese da catequese primitiva sobre Jesus, que enquadra no plano de Deus a oferta de salvação que Jesus trouxe (cf At 13,16-41). E a questão central gira em torno da reação dos judeus (e os cristãos provindos do judaísmo) e pagãos (e os cristãos provindos do paganismo) ao anúncio de salvação apresentado por Paulo e Barnabé. Os que pensavam ter o monopólio de Deus e da verdade, instalados em suas certezas, não estavam dispostos a “embarcar” na aventura do seguimento de Cristo. Porém, os que, no desafio do Evangelho, descobriram a universalidade da vida verdadeira, questionaram-se, arriscaram e responderam com alegria e entusiasmo à oferta libertadora feita por Deus por intermédio dos missionários. Na verdade, a Boa Nova de Jesus é dirigida a todos os homens, de todas as raças e nações; não é proposta fechada, exclusivista, destinada a um grupo de eleitos, mas uma oferta universal em prol de todos os homens (sem exceção). Decisivo não é ter nascido neste ou naquele ambiente, mas a capacidade de aceitar o desafio, acolher com simplicidade, alegria e entusiasmo a oferta de Jesus e partir, no quotidiano, para e pelo caminho onde Deus nos põe a encontrar a vida total.
Os judeus e cristãos provindos do judaísmo são hoje os que se acomodaram à religião morna, segura, feita de hábitos, leis, devoções, ritos externos e fórmulas fixas, mas que não põe em causa a consciência e o coração, nem tem impacto real na vida diária da família e da sociedade. É a religião dos certinhos, que têm medo da novidade de Deus. São o irmão mais velho da parábola do Pai Misericordioso (vd Lc 15,11-32). Ao invés, os cristãos provindos do paganismo e os próprios pagãos são hoje os que, tendo tantas vezes uma história pessoal complicada e uma caminhada de fé nem sempre exemplar, estão abertos à novidade de Deus e se deixam questionar por Ele. São o irmão o filho mais novo da parábola do Pai Misericordioso. Não têm medo de se desinstalar, de arriscar partir para uma vida nova e mais exigente, ainda que seja um caminho de cruz e de perseguição.
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A liturgia do 3.º domingo da Páscoa apresentava-nos o Cordeiro, o Senhor da história, que Se prepara para abrir e ler o livro dos sete selos (sete o número simbólico da totalidade), o livro onde estava escrita a história humana. Segundo o autor do Apocalipse, a abertura dos selos expõe a realidade do mundo: na caminhada histórica dos homens, pontifica Cristo vitorioso em combate permanente contra tudo o que escraviza o homem (1.º selo – o cavaleiro branco); está patente a guerra e o sangue (2.º selo – o cavaleiro vermelho), a fome e a penúria (3.º selo – o cavaleiro negro), a morte, a doença, a decomposição (4.º selo – o cavaleiro esverdeado). Em pano de fundo jazem os mártires, os que sofreram perseguições por causa da fé e que, dia a dia, clamavam a Deus por justiça (5.º selo). Por conseguinte, prepara-se o “grande dia da ira”, que anuncia a intervenção de Deus na história para destruir o mal (6.º selo). E a revelação final apresenta o combate definitivo, em que as forças de Deus derrotam as do mal (7.º selo). Os 4 primeiros selos representam o nosso mundo, sobressaindo o mais excelso dos homens, Cristo, o cavaleiro branco (branca é a cor de Deus e a cor originária da luz), o da alegria da vitória, ao passo que os outros três selos, representam o mundo que ostenta o poder de Deus concretizado na bem-aventurança dos mártires, no domínio da natureza a reagir à soberba humana e nas trombetas a anunciar o juízo de Deus. 
A perícopa proclamada na liturgia de hoje situa-nos no contexto do 7.º selo (o anúncio do “Dia do Senhor”). Aos mártires que clamam por justiça, o autor do “Apocalipse” descreve o que vai resultar da intervenção de Deus: a libertação definitiva. Como que através da fresta duma janela entreaberta, João apresenta-nos uma inumerável, imensa e universal multidão. Os seus componentes estão de pé, em sinal de vitória, pois participam da ressurreição de Cristo; envergam túnicas brancas, já que pertencem à esfera de Deus, aclamam com palmas e louvam Deus e o Cordeiro. Esta aclamação e louvor aludem à Festa das Tendas, celebrada no final das colheitas, marcada pela alegria e pelo louvor, em memória do êxodo (em que os israelitas viveram em “tendas”) e que, por influência de Zc 14,16, assume claras ressonâncias escatológicas. Na liturgia dessa festa, a multidão entrava em cortejo no recinto do Templo, agitando palmas e cantando.
Estes – como diz o vidente – são os que “vieram da grande tribulação e que branquearam as vestes no sangue do Cordeiro” (v. 14), isto é, que suportaram a perseguição mais feroz e alcançaram a redenção pela entrega de Jesus. Diante de Deus tributam-Lhe, dia e noite, o culto, que não é o somatório dum conjunto de ritos, mas fruto da gozosa presença diante de Deus e do Cordeiro.
Recorde-se que a Festa das Tendas aludia à marcha do Povo de Deus pelo deserto, desde a terra da escravidão até à terra da liberdade. A referência a esta festa significa que se cumpre agora o novo e definitivo êxodo: depois da intervenção final de Deus na história, a multidão dos que aderiram ao Cordeiro alcança a libertação definitiva, acolhida na tenda de Deus (É Deus que faz a colheita), onde não haverá a morte, o sofrimento, as lágrimas. Cristo ressuscitado, sentado no trono, é o Pastor deste novo Povo e condu-lo para “as fontes de águas vivas”, isto é, à plenitude dos bens definitivos. Aos santos que gritam por justiça, anuncia-se a mensagem da esperança sustentada. O quadro antecipa o tempo escatológico: o da intervenção definitiva de Deus na história, de que resultará a libertação definitiva do Povo de Deus.  
O autor do Apocalipse deixa-nos, assim, a mensagem da esperança sustentada, pois em vez da condenação ao fracasso, teremos a vida plena, a felicidade total. Basta que acolhamos o dom da salvação que nos é feito por Deus. A resposta positiva à oferta de salvação que Deus nos faz introduz em nós um novo dinamismo que nos fortalece a coragem e nos permite continuar a lutar, desde já, pela concretização do novo céu e da nova terra.
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O capítulo 10 do 4.º Evangelho contém a catequese do Bom Pastor. O autor utiliza esta imagem para apresentar a missão de Jesus: a obra do Messias consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude.
Não foi o autor do 4.º Evangelho que inventou a imagem do Bom Pastor. Este discurso simbólico está construído com materiais do Antigo Testamento. Tem presente Ez 34 onde se encontra a chave de compreensão da metáfora do pastor e do rebanho. Falando aos exilados na Babilónia, Ezequiel realça que os líderes de Israel foram falsos pastores que levaram o Povo por ínvios caminhos de morte e de desgraça; mas, segundo Ezequiel, Deus vai assumir a condução do seu Povo e porá à frente dele um Bom Pastor, o Messias, ali referido como “o meu Servo David”, que o livrará da escravidão e o conduzirá à vida. Assim, a catequese que o 4.º Evangelho nos faz do Bom Pastor sugere que a promessa de Deus afirmada por Ezequiel se cumpre em Jesus. O texto joânico acentua, sobretudo, a relação estabelecida entre o Pastor, Cristo, e as ovelhas, os seus discípulos (e todos aqueles que são chamados à salvação). A missão do Pastor é dar vida às e pelas ovelhas. Sendo assim, João descreve a ação de Jesus como uma recriação e revivificação do homem, no sentido de fazer nascer o Homem Novo (cf Jo 3,3.5-6), o homem que, seguindo Jesus, se torna “filho de Deus” (cf Jo 1,12) e que é capaz de oferecer a vida por amor lúcido e generoso. Quem aceita a oferta de Jesus não se perderá (“nunca hão de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão” – Jo 10,28), pois a qualidade de vida que Jesus lhes comunica supera a própria morte (cf Jo 3,16;8,51). Jesus está disposto a defender os seus até dar a própria vida por eles (cf Jo 10,11), a fim de que nada nem ninguém (os dirigentes, os que estão interessados em perpetuar mecanismos de egoísmo, de injustiça, de escravidão) possa privar os discípulos dessa vida em abundância. As ovelhas (os discípulos), por sua vez, têm de fazer a sua parte: escutar a voz do Pastor e segui-Lo (cf Jo 10,27), ou seja, comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida de amor e de doação ao Pai e aos homens.
O texto termina com uma referência à identificação plena entre o projeto do Pai e o projeto de Jesus: para ambos, o objetivo é fazer nascer uma nova humanidade. Em Jesus está presente e manifesta-se o plano salvador do Pai de dar vida ao homem e pelo homem; pela ação de Jesus, a obra criadora de Deus atinge o seu ponto culminante.
Na nossa cultura urbana, a imagem do pastor é uma parábola de outras eras. Em contraponto, conhecemos a figura do líder: não raras vezes, é alguém que que exige, que manipula, que arrasta, que se impõe despoticamente. Mas o Evangelho convida-nos a descobrir a figura bíblica do Pastor, que evoca doação, simplicidade, amor gratuito, a ponto de dar a vida para defender das garras das feras as ovelhas que lhe foram confiadas. Para os cristãos, o Pastor é Cristo: só Ele nos leva para as “pastagens verdadeiras”, onde encontramos vida em plenitude.
Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e que animam. Aceitamos, sem problemas, que receberam essa missão de Cristo e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições, mas não podemos parar nelas, mas, através delas, escutar e seguir sem condições Cristo, o único e Bom Pastor. As ovelhas da grei de Jesus têm de “escutar a voz” do Pastor e segui-Lo, ou seja, percorrer o mesmo caminho de Jesus, numa entrega total ao projeto de Deus e numa doação total, de amor e de serviço aos irmãos.
A voz de Jesus, o nosso Pastor, distingue-se de outros apelos, de cantos de sereia que não conduzem à vida em plenitude, pelo confronto permanente com a Palavra, pela participação nos sacramentos onde se nos comunica a vida que o Pastor nos oferece e num permanente e íntimo diálogo com Ele. E isto nos fará ver o que se passa no mundo e analisá-lo com o olhar de Deus, estando atentos aos seus sinais neste tempo e nestes lugares, sujeitando o que observamos ao juízo de Deus, e, segundo este juízo, colocarmo-nos em ação para a transformação, mas, se calhar, começando pela aproximação, atendimento, escuta e apoio.
Pessoas que vivem da Páscoa e a testemunham não podem ficar ensimesmadas. Têm que romper cadeias, partir pedra, ser apóstolos, estar e ir em missão.
2019.05.12 – Louro de Carvalho

sábado, 11 de maio de 2019

Grandes devedores explicam à CPI as perdas milionárias da CGD



Ouvidos que foram pela 2.ª CPI (comissão parlamentar de inquérito) à recapitalização da CGD (Caixa Geral de Depósitos) os supervisores, os antigos diretores e presidentes e a consultora EY, passam a fazer os seus depoimentos os grandes devedores: Joe Berardo, Diogo Gaspar Ferreira, Manuel Matos Gil, Manuel Fino, entre outros.
Nesta semana, foi a vez de Diogo Gaspar Ferreira (Vale do Lobo) e de Joe Berardo irem ao Parlamento explicar as perdas milionárias que provocaram ao banco. Seguir-se-ão Manuel Matos Gil (La Seda), Manuel Fino (Investifino) e Joaquim Barroca (grupo Lena). São estes alguns dos nomes ligados à lista dos 25 maiores créditos em incumprimento e que originaram perdas por imparidade na ordem dos 1.200 milhões de euros. Mas cada negócio tem a sua uma história.
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A CGD perdeu 294 milhões de euros com o negócio de Vale do Lobo, pelo que Diogo Gaspar Ferreira foi ao Parlamento contar a sua versão e responder às perguntas dos deputados.
Foi o então administrador Armando Vara quem levou um “dossiê preparado” sobre o projeto do empreendimento turístico de Vale do Lobo a Alexandre Santos, então diretor de Empresas Sul, que disse, há 3 semanas, no Parlamento ter sido caso único no tempo que lá esteve. Em junho de 2006, Vara enviou um e-mail àquele diretor para estudar o projeto com celeridade. E, em outubro, a CGD aprovou um financiamento a Vale do Lobo no valor de 170 milhões de euros, mais suprimentos de 50 milhões, para lá de ter entrado com 30 milhões na sociedade Wolfpart que serviu para compor a parte dos capitais próprios exigidos na estrutura de financiamento do projeto (substituindo-se ao aval pessoal pedido aos promotores, incluindo Diogo Gaspar Ferreira, Rui Horta e Costa e um grupo de Hélder Bataglia). Segundo a EY, o financiamento a este resort de luxo redundou em perdas de 75 milhões de euros à CGD, enquanto a Wolfpart gerou uma menos-valia de 219 milhões – o que, para Vara, constituiu um momento não bom e, para Carlos Santos Ferreira (antigo presidente da CGD), um mau negócio e com maus resultados.
O negócio com Joe Berardo (Metalgest e Fundação Berardo) redundou em perdas para a CGD no valor de 152 milhões de euros. Segundo Mariana Mortágua, a proposta de financiamento de 50 milhões de euros à Metalgest teve como base a “aparente mais-valia” da empresa e notícias sobre os “resultados aceitáveis” do comendador na bolsa. E, mais tarde, foi aberta uma conta corrente onde o empresário se podia financiar até 350 milhões, através da Fundação Joe Berardo. A EY quantifica as perdas por imparidade na ordem dos 150 milhões de euros, mas a CGD não é o único banco que ficou a perder com o empresário. Também o BCP e o Novo Banco avançaram para tribunal para tentar executar a coleção de arte de Joe Berardo. E vários responsáveis do banco estatal foram confrontados pelos deputados com as condições que foram dadas ao empresário madeirense para financiar a batalha na guerra dos acionistas do BCP há cerca de uma década: ausência de aval pessoal, taxas de financiamento mais favoráveis. 
Na sua audição, Carlos Santos Ferreira tentou contrariar a teoria do assalto ao BCP, dizendo que “é bucha para encher discursos”. E, em declarações à imprensa, o comendador sugeriu outro cenário ao dizer que foram os bancos a abordá-lo para comprar ações do BCP numa altura em que os acionistas lutavam pelo controlo do banco. E já depôs no Parlamento.
Do financiamento a Manuel Matos Gil (Imatosgil, acionista de referência da La Seda) resultaram perdas para a CGD no valor de 264 milhões de euros. Em 2006, a CGD entrou no capital da La Seda (onde já estava a Imatosgil) para influenciar as decisões de investimento do grupo catalão. A ideia era trazer uma fábrica de produção da PTA (plástico utilizado no fabrico de vestuário, garrafas plásticas e peças para automóveis) para Sines, a Artlant. Porém, com a crise financeira global, o acionista que deveria ficar com a produção da Artlant faliu e o negócio veio a dar perdas de 264 milhões de euros, respeitantes a menos-valias da participação na La Seda e a imparidades sob crédito. A este respeito, Faria de Oliveira (antigo presidente da CGD) revelou, na semana passada, que foi o grupo Imatosgil quem apresentou o projeto junto da CGD e que o banco público “foi instado várias vezes” pelo Governo de Sócrates a envolver-se no investimento, considerado PIN (Potencial Interesse Nacional). E mencionou uma reunião em que esteve presente o Ministro da Economia da altura, quando a La Seda já se encontrava em reestruturação.
A audição Matos Gil ficou adiada para as próximas semanas por se encontrar no México.
Quem vai ser ouvido, da parte de Manuel Fino, são José Manuel Fino e Francisco Manuel Fino (filhos de Manuel Fino, Investifino) por um financiamento que redundou em perdas para o banco público no valor de 138 milhões de euros, como consta no relatório preliminar da EY. Em 2005 e 2007, a Investifino obteve dois financiamentos de 180 milhões de euros da CGD: a primeira operação serviu para comprar ações da Cimpor, que tinha acabado de desblindar estatutos; a segunda serviu para o empresário participar no denominado assalto ao BCP. A EY identificou situações de exceção ou de não cumprimento das regras internas, nomeadamente quanto às garantias reais para cobrir pelo menos 120% dos custos totais do empréstimo. Dois anos depois, no auge da crise financeira, Manuel Fino e o banco do Estado acordaram uma reestruturação de vários contratos (eram 6 na altura), num processo através do qual a Investifino vendeu 9,5% da cimenteira à CGD, abatendo parte da dívida que, na altura, ascendia a 306 milhões. Em 2015, a CGD tinha uma exposição creditícia de 138,5 milhões que dava por quase totalmente perdida.
Santos Ferreira disse, a este propósito, que a crise financeira não explica tudo e admite alguma culpa nos negócios, referindo que podiam ter sido mais prudentes”.
O financiamento a Joaquim Barroca (Grupo Lena) resultou em perdas de 67 milhões de euros. Embora pouco se tenha falado do grupo Lena na CPI, a EY identifica duas entidades ligadas à construtora de Barroca, acusada de ter corrompido José Sócrates (antigo primeiro-ministro): Lena Construções e Always Special. Segundo a auditora, a CGD detinha, no final de 2015, exposições de crédito de 48,7 milhões de euros, em relação à primeira e de 44,3 milhões em relação à segunda. Estão entre os financiamentos que mais perdas deram ao banco estatal.
Confrontado com o assunto, Santos Ferreira disse que o conselho de crédito da CGD aprovou a primeira operação contrariando o parecer desfavorável da direção de risco mercê da “exposição muito grande à construtora Abrantina” que o grupo havia adquirido em 2007 e da concorrência do mercado. Na altura, a operação foi sugerida pelo banco de investimento da CGD, presidido por Santos Ferreira, como lembrou a deputada do PS Constança Urbano de Sousa. Mas Santos Ferreira, querendo desfazer qualquer dúvida à deputada quanto ao seu envolvimento na operação, revelou que o gestor da parte operacional do banco de investimento era Jorge Tomé, “um grande profissional da banca”.
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Resta saber se a audição dos grandes devedores pela CPI se reveste de alguma utilidade.
Se alguns administradores e supervisores se apresentaram à CPI com amnésias, memórias lacunares e memórias genéricas ou invocaram a praxe corrente, as pressões e a crise, o exemplo de Berardo, que até invocou o segredo bancário para não falar das dívidas das entidades coletivas que gere, é ilustrativo da inutilidade da audição dos grandes devedores. O comendador não tem bens em seu nome, nem dívidas pessoais. Só as suas empresas é que são devedoras. E assegurou que o BCP foi o seu maior desastre.
Sobre a audição que suscitou grandes expectativas, havia dúvidas quanto à estratégia a seguir pelo homem que publicamente exibe fortuna e que deve centenas de milhões de euros à CGD, que serviram para comprar ações do BCP, banco a quem também deve.   
Joe Berardo (nome artístico de José Manuel Rodrigues Berardo) esteve cinco horas a responder a perguntas e deixou várias frases que, passando pelo riso e pela exasperação, quase levaram os deputados ao desespero. Por exemplo, disse que a Caixa só perdeu dinheiro com os seus créditos porque quis; assumiu que dobrou as regras para evitar que os bancos pudessem ficar com as obras de arte da Coleção Berardo; jurou que não tem dívidas, pois os créditos da CGD foram concedidos à Fundação que tem o seu nome e à empresa Metalgest, não pessoalmente a si; e referiu que “não tem nada”: nem a herdade e os vinhos da Bacalhoa, nem as obras de arte da Coleção Berardo, pois está tudo penhorado ou em nome de outras entidades.
Pediu, invocando o direito à imagem, que a audição não fosse transmitida no canal Parlamento. Mas, negando-lhe o pedido, os deputados recordaram que não se preocupou com a imagem quando convidou Manuel Luís Goucha para visitar um dos seus palacetes e exibir a sua fortuna.
Garantiu que tem boa memória, mas em inúmeras ocasiões recorreu ao “não me lembro” (síndrome do bavismo), sobretudo ao ser questionado sobre negócios de muitos milhões ou pessoas que lhe abriram as portas aos mesmos, avisando que era disléxico, pelo que tinha dificuldade em pronunciar corretamente as palavras. Contudo pronunciou bem a maioria das palavras.
Afirmou que, se a Caixa perdeu dinheiro, é porque não acionou as cláusulas no seu contrato de concessão de crédito. A CGD poderia, por exemplo, ter vendido as ações logo e evitaria as perdas que veio a ter, mas ninguém adivinhava que as cotações do BCP iam descer tanto.
Chegou a gozar com os deputados dizendo que deviam era perguntar aos responsáveis pelos financiamentos, não a ele; E, quando perguntou aos deputados se pensavam que ele era o dono da CGD e eles reponderam que não, que é de todos os portugueses, que já meteram milhares de milhões de euros para a sua recapitalização e que está a custar uma “pipa de massa” aos contribuintes, reagiu, dizendo: “A mim não”.
Quis deixar a ideia de que os seus investimentos no BCP (comprando ações com 350 milhões de euros emprestados pela Caixa) foram uma tentativa de ajudar a banca, que o chamou “numa altura de crise”, ajuda que preferia não ter dado, pois (como disse) o BCP foi o maior desastre da sua vida.
Os empréstimos concedidos a Berardo para comprar ações do BCP tiveram como garantia só as próprias ações – um investimento como os outros que tinha feito até então. E Berardo disse:
O meu trabalho é pedir dinheiro para rentabilizar. Não deu certo. A vida é assim. Não sou o primeiro, nem serei o último.”.
À questão se a Caixa lhe pediu um aval pessoal na concessão do empréstimo, primeiro disse que não chegou a pedir esse aval, recomendado pela direção de risco do banco público. Porém, depois admitiu, que no maior financiamento, o de 2007, o pedido foi feito, mas que recusou. Mais tarde retificou: em 2006, no financiamento de 50 milhões de euros, a Caixa não pediu aval; no financiamento de 2007, até 350 milhões de euros, a Caixa pediu aval, mas Berardo recusou; e, em 2008, deu um aval pessoal a um financiamento de 38 milhões de euros da Caixa, mas isso foi para ajudar num aumento de capital do BCP.
Confrontado com os sinais exteriores de riqueza que mostrou ainda recentemente e face à pergunta “Porque não paga os seus empréstimos?”, respondeu:
Eu, pessoalmente, eu não tenho dívidas. Eu tenho tentado ajudar. Claro que não tenho dívidas.”.
E garantiu que não tem bens pessoais: nem a Quinta da Bacalhoa, nem as outras empresas que lhe são imputadas. Revelou, entretanto, que houve ações de empresas que foram dadas como penhora a outros bancos, como o BCP e o BES. Foram os casos da Quinta da Bacalhoa e da Empresa Madeirense de Tabaco e imóveis no Funchal.
Relativamente à coleção de arte moderna com o nome de Berardo, disse que é da Associação Coleção Berardo e quem manda na associação “sou eu” (disse). Já sobre quem são os outros detentores de títulos desta associação e sobre os direitos dos bancos credores a quem deu uma penhora sobre os títulos em 2010, as respostas foram mais complicadas.
Apesar de considerar que não faz sentido a informação de que só tem uma garagem no Funchal em seu nome, Berardo nunca assumiu, ao longo da audição, ser proprietário de mais nada.
Quando assinou o acordo de reestruturação da dívida bancária de Berardo de quase mil milhões de euros, comendador deu um penhor sobre 75% dos títulos da Associação Coleção Berardo, mas, segundo o próprio, não tem direitos sobre as obras de arte que são o ativo desta associação.
E perguntou:
E se os bancos tivessem pedido os títulos na associação para executar as garantias? Como é que eles poderiam executar as obras se elas estavam em exposição?”.
Apesar de o acordo assinado em 2012 prever que os bancos pudessem mandar avaliar as obras e participar em assembleias gerais da associação, esse direito não terá sido exercido.
Já no final da audição, Joe Berardo foi confrontado com a alteração que promoveu dos estatutos da Associação Coleção Berardo, que dificultou ainda mais a vida aos bancos – CGD, BCP e Novo Banco. O comendador terá aproveitado uma decisão judicial, segundo a qual os bancos credores não teriam direito a ser convocados para a assembleia geral. E a alteração avançou do modo seguinte: primeiro, houve um aumento de capital na Associação, que diluiu a posição dos bancos com a entrada de mais sócios; depois, em 2016, realizou-se uma assembleia geral na qual foi aprovada uma mudança de estatutos que limitou a venda dos títulos de participação que a banca pudesse vir a ter por via de uma execução do penhor, o que só poderia acontecer com o acordo da maioria dos sócios.
Não quis identificar os sócios que estão do seu lado e contra a banca e acabou por confessar que alterou os estatutos por haver o receio de que os bancos pudessem vender o penhor sobre os títulos a fundos “abutre” de reestruturação, mas acabou por admitir que mudou os estatutos “para defender os meus interesses”, corrigindo depois, para “os interesses da associação”.
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Perante esta amostra de negação de dívidas e de bens, o descaramento no seu pior e este espetáculo de dislates e ditos e contraditos no próprio depoimento, é de reconhecer a quase nula validade prática da audição dos grandes devedores. Terão os deputados o direito e o dever de os ouvirem? Terão eles o direito de ser ouvidos? Talvez. Mas rebaixarem-se os deputados a este ponto de terem de ouvir disparates como se fossem verdades como punhos… não é assim que garantem a dignidade e credibilidade do Parlamento e o genuíno serviço à democracia e ao povo.
2019.05.11 – Louro de Carvalho