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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Temos de estar em constante discernimento ante os sinais dos tempos


É um alerta de Dom José Domingo Ulloa, Arcebispo do Panamá, que esteve no Santuário de Fátima de passagem para a cidade do Porto, onde participou como coordinante na ordenação episcopal de Dom Américo Aguiar, bispo titular de Dagno e auxiliar de Lisboa.
Rezou na Capelinha das Aparições e respondeu a algumas questões que a Sala de Imprensa do Santuário lhe colocou e de que se destacam o enunciado vertido em epígrafe e o que justifica uma ligação, espécie de ponte entre a JMJ (Jornada Mundial da Juventude) do Panamá, no passado mês de janeiro, e a que vai realizar-se em 2022 em Lisboa – o papel de Maria entre os jovens.   
Efetivamente, sobre a importância da Virgem Peregrina, diz que “levou a luz de Fátima ao mundo e agora acende-a em Portugal para todo o mundo”. E, falando sobre a JMJ do Panamá, encareceu a importância da presença da Virgem Peregrina diante dos jovens.
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Segundo o prelado panamiano, o convite para a presença da Imagem da Virgem Peregrina de Fátima na Jornada Mundial da Juventude do Panamá não surgiu por acaso, foi mesmo bem pensado e premeditado. Com efeito, como refere, logo que foi anunciada, a 31 de julho de 2016, em Cracóvia, “a escolha do Panamá como o lugar que acolheria a Jornada Mundial da Juventude 2019, tendo em consideração que este povo é tão mariano e desde logo que a Virgem de Fátima estava – e está! – tão enraizada no coração deste povo”, a organização descobriu a necessidade de colocar esta jornada nas mãos de Maria.
No tocante ao desenrolar de todo o processo, o Arcebispo revelou que, três dias depois do anúncio (no dia 3 de agosto), estivera na audiência geral e disse ao Papa que o grande presente que “poderia dar ao povo do Panamá e a todo o povo latino-americano seria a invocação mariana para esta jornada”. E lembrou que há vários motivos para estas escolhas:
Somos a primeira diocese em terra firme com invocação mariana, concretamente de Santa Maria la Antigua. Mas somos marianos com uma especial devoção a Nossa Senhora de Fátima. É preciso recordar, ainda, que estávamos em véspera do ano do Centenário, ano (2017) em que tivemos a visita da Virgem Peregrina ao Panamá.”.
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Na verdade, Santa Maria La Antigua é a Virgem Padroeira do Panamá. A sua imagem representa Nossa Senhora com o Menino Jesus e uma rosa branca; e a sua festa é celebrada no dia 9 de setembro.
A história conta que a imagem mariana estava numa capela lateral da Catedral de Sevilha, em Espanha, que foi reconstruída no século XIV e de que se conservou apenas a parede onde estava a imagem, por isso que é chamada Santa Maria de la Antigua.
Na América, em 1510, os conquistadores Vasco Núñez de Balboa e Martín Fernández de Enciso fundaram, em homenagem a esta devoção, a cidade de Santa Maria la Antigua de Darién (atualmente território colombiano), que foi a primeira diocese em terra firme. E, em 1524, o segundo bispo dessa diocese, o dominicano Frei Vicente Peraza transferiu a sede diocesana para a recém-fundada Cidade do Panamá, nas margens do Pacífico.
Santa Maria la Antigua é a padroeira da catedral e da Diocese do Panamá desde 1513, mas foi recentemente, a 9 de setembro de 2000, Ano Santo Jubilar, que a Conferência Episcopal Panamenha a proclamou padroeira do país e solicitou à Santa Sé o reconhecimento oficial dessa proclamação, pedido aceite, em 27 de fevereiro de 2001, pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos.
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Mas, voltando à visita da imagem da Virgem Peregrina ao Panamá em 2016…
… Enfatiza Dom José Domingo que “esta visita foi uma das que mais tocou o coração do povo do Panamá” e, quando terminou, sentira que tinham de pedir a Fátima que se fizesse novamente presente na Jornada Mundial da Juventude, esse “momento tão especial para o Panamá, para a juventude do Panamá”.
A 11 de fevereiro de 2018, memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes, o Papa inscreveu-se na Jornada e, ao meio dia desse mesmo dia, o Panamá recebe a comunicação do Santuário de Fátima a confirmar a presença da Imagem da Virgem Peregrina. E foram estes os peregrinos número 1 e número 2 destas jornadas.
No âmbito da preparação da JMJ, diz o prelado que “as jornadas sempre tiveram em conta os jovens e o papel das mulheres”, pois a Igreja panamenha – aliás, “esta é uma visão a partir da América Latina” – está convicta de que “não se pode pensar a Igreja sem a participação efetiva e a presença das mulheres na Igreja”. Por isso, seguindo “Maria, a eterna jovem que foi capaz de dizer ‘sim’, invocámo-la do ponto de vista vocacional” – assegura Dom Ulloa, que garante: 
Toda a jornada foi preparada em função de Maria. E até o Sínodo dos jovens nos ajudou nesta preparação de uma Igreja voltada para a juventude a partir do exemplo de Maria, uma jovem que disse ‘sim’ sem reservas. Também tivemos uma ajuda imensa do Apostolado Mundial de Fátima, um grupo dedicado que, durante um ano e meio, fez tudo para ajudar nesta grande jornada Mariana, promovendo desde logo a devoção dos primeiros sábados.”.
Sobre a grande exigência duma preparação da Jornada Mundial da Juventude e da experiência panamenha, destaca:
A melhor estratégia para a organização de um evento como este é colocá-lo nas mãos de Deus e pedir a intercessão de Maria. Temos de fazer tudo o que é possível do ponto de vista humano, mas é a providência que nos protege. Por isso, o que é preciso é pedirmos a Maria e, através da sua intercessão, esperar pela ajuda de Deus. A Jornada Mundial da Juventude, como tudo na nossa vida, é obra Dele.”. 
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Depois, ver o santo Padre diante da Imagem da Virgem Peregrina de Fátima concitou um sentimento muito forte e o Pastor panamenho rezou pensando: “Mãe, esta obra que é Tua está a comover o mundo”. E foi muito comovente ver o Sumo Pontífice a rezar num profundo silêncio diante daquela Imagem da Virgem. Foi mesmo “a confirmação de que esta hora da Igreja, comprometida neste projeto com a juventude, está nas mãos de Maria, a grande Influencer da juventude”. E o Panamá viu, “com a emoção dos jovens, que Maria lhes conquistou o coração”.
Com efeito, depois de o Papa ter estado diante da Imagem, sem velas e com telemóveis, a noite da Vigília foi marcada pela procissão das velas a acompanhar a Imagem da Virgem Peregrina, o que – diz o Arcebispo – “foi um mar de luz”. E Dom Ulloa confessa:
Fiquei muito comovido: ver o santo Padre a rezar diante da Virgem, mas sobretudo ver a alegria dos jovens diante de Nossa Senhora de Fátima e ver nos seus olhos e nas suas expressões como a Mãe lhes encheu o coração... foi extraordinário. A Virgem de Fátima é sempre um tema que tem de ser ressalvado quando falamos da Jornada Mundial da Juventude e, sobretudo, desta em particular.”.
Anuindo à asserção de quem orientou a entrevista de que esse momento terá sido porventura a confirmação de que as opções da presença da Virgem Peregrina de Fátima tinham sido as mais acertadas”, porfiou que tudo o que fizeram fora sem saberem “que Portugal iria receber a próxima Jornada Mundial da Juventude”. Mas, sabendo que não há acasos nem meras coincidências, revelou que, ao falar-se do assunto, foi mais um tema que deu bastante alegria. Com efeito “a Mãe que nós levámos até junto da juventude mundial no Panamá é a mesma mãe que vai trazer a cruz da Jornada Mundial da Juventude à sua nova morada”, ou seja, “Maria fez-se presente no outro lado do mundo, para regressar com todos os seus filhos a Fátima e a Portugal – disse perentoriamente.
Mas não se ficou por estas afirmações. Antes adiantou que “Maria sempre ocupou um lugar central na Jornada Mundial da Juventude, mas que esse papel será ainda muito mais forte em 2022”, pois torna-se “impensável” a organização do grande evento sem a presença de Nossa Senhora de Fátima”, que “é a Mãe que nos protege e abraça”, o que Lisboa só confirmará. De facto, “Ela levou a luz de Fátima ao Mundo e agora acende-a em Portugal para todo o mundo”.
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Ainda discorreu sobre a importância de Fátima no Mundo referindo que “um dos grandes conteúdos da Mensagem de Fátima é a conversão”. Nesse sentido, precisou:
Fátima convida-nos a recriar a necessidade e o desejo de mudança em ordem a que a palavra que escutamos nos invada o coração e alimente os nossos gestos. Tem de haver esta sintonia entre a palavra que anunciamos e os gestos da nossa vida.”.
É na relação com a conversão e na sintonia entre a prática e a palavra que o Arcebispo formulou o enunciado vertido na epígrafe do presente texto, quando atesta que “esta [a mudança e a sintonia entre palavra e vida] é a raiz da Mensagem de Fátima que nos remete para um convite permanente à conversão, a sermos íntimos de Deus, a começar por nós, hierarquia da Igreja, que temos de estar em constante discernimento diante dos sinais dos tempos”.
E é por ter no centro a conversão – “com outros ingredientes que remetem para a infância, para a humildade, para a sensibilidade dos pequenos, dos mais fracos, dos oprimidos, dos pobres de coração” – que é muito atual a Mensagem de Fátima que “nos é dirigida a todos: bispos, padres, leigos, jovens e menos jovens”. Depois, um outro fator de atualidade da Mensagem é a oração como caminho; e o hierarca vinca, no quadro do aperfeiçoamento pessoal e do labor apostólico:
Temos de rezar muito para que o nosso coração se converta e assim consigamos ajudar outros a converterem-se”.
Com efeito, a Mensagem, convidando-nos à oração – falar e escutar Deus na maior intimidade –“é um itinerário que nos ajuda a libertar o nosso coração de coisas que não interessam e estarmos mais livres para dar a Deus o lugar de Deus”. E constitui um imperativo a oração pela Paz num mundo ferido e que espera a misericórdia de Deus, devendo os obreiros eclesiais ser testemunhas e arautos da misericórdia. Sublinha Dom Ulloa:
A Mensagem de Fátima é sempre atual porque nos alerta para um mundo ferido, um mundo que está ferido porque nós estamos feridos. E cada um de nós tem de se converter porque cada um de nós tem esta missão. Por isso, diante do mundo concreto de hoje, a Mensagem de Fátima ajuda-nos a purificar o coração dos homens. E este é o terceiro elemento que gostava de destacar: a misericórdia. Em Fátima, através desta presença materna de Nossa Senhora sentimos que há sempre um coração grande que nos acolhe, por piores que sejam os males do mundo.”.
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Por fim, como a JMJ do Panamá se realizou entre dois Sínodos dos Bispos, o dos jovens e o da Amazónia, deixa, a pedido, uma palavra sobre a oportunidade, referindo que “a Amazónia é apenas um lugar, importante, mas apenas um lugar”. Nestes termos, o Sínodo constituirá “uma mensagem que Deus nos envia”, ou seja, “a partir de povos martirizados, o Senhor fala para o mundo inteiro”. Assim, dali “sairá a luz para o mundo inteiro sobre a necessidade de tomarmos consciência de que todos temos a obrigação de cuidar desta casa comum” – disse.
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Por falarmos de conversão, oração, misericórdia e paz – tetranómio nuclear da Mensagem de Fátima –, não fica descabido acolher algumas das palavras do Vice-reitor do Santuário de Fátima, que desafiou, no passado domingo, dia 31, os peregrinos a olharem o próximo como Jesus olha para cada um de nós “sem etiquetas e como pessoas amadas”.

Com efeito, na Missa Internacional a que presidiu na Basílica da Santíssima Trindade, no domingo da alegria, o 4.º da Quaresma (chamado “Domingo Laetare”, denominação ligada à Antífona de Entrada da Eucaristia, “Laetare, Ierusalem” – Alegra-te, Jerusalém), o padre Vítor Coutinho pediu aos milhares de participantes – com particular destaque para o grupo mobilizado pela Peregrinação Nacional dos Amigos do Verbo Divino, que se fizeram anunciar – que olhassem os seus semelhantes com os olhos de Jesus, límpidos e compassivos, que transportam misericórdia e ternura em vez de distância, julgamento, censura e condenação. E explanou:

Jesus nunca vê mais nada além de pessoas, pessoas amadas. Jesus não vê etiquetas, mas pessoas amadas por Deus e este olhar dá a cada pessoa a oportunidade de dar passos na vida; este olhar dá a cada um a possibilidade de não ficar fechado na imagem que tem de si mesmo ou na que os outros fazem dele.”.
A partir do Evangelho do dia – a parábola do Pai misericordioso que tinha dois filhos: o pródigo e o que não abandonou a casa paterna – onde se releva o amor paciente e sempre acolhedor do Pai, independentemente do itinerário de vida de cada um, os peregrinos foram instados pelo sacerdote celebrante a fazerem uma verdadeira comunhão com Deus. Na verdade, como sublinhou, o olhar do pai sobre o filho pródigo “é o olhar de Jesus que não tem paralelo no mundo de hoje”, sendo que, “tal como o pai da parábola acolhe o filho faminto e pecador”, que se converte e reza confessando, arrependido o seu pecado, também “Jesus acolhe todos os que dele se aproximam e querem com ele fazer comunhão”.
E, como sublinhou o sacerdote em seu discurso homilético, sabemos “da história do filho pródigo” que aquilo que nos salva “é o olhar comovido de Deus, que não fica indiferente”, mas cuja compaixão “não olha de cima nem de longe, mas de perto, deixando-nos sempre um olhar de perdão que nos renova” e nos dá a paz interior, que nos faz trabalhar a paz para e com os outros e criar um estilo de vida em profundeza e solidariedade. E é com este olhar terno inspirador dos cristãos a participarem no sentido de festa que somos convidados a saborear “a bondade Daquele que nos olha”.
Não podemos comportar-nos como o filho mais velho da parábola, que roído de inveja, se pôs a acusar o Pai e o irmão do que fizeram e do que não fizeram, omitindo gravemente os atos generosos do Pai e desprezando a mudança de vida do irmão.   
Por conseguinte, ao longo da Liturgia da Palavra ecoou um convite a fazer festa, isto é, um convite a que tenha cada um a capacidade de, em cada momento da vida, “viver na plenitude do sentido que só Deus permite” e a que nos estimula. E disto é testemunha, mensageira e promotora a Virgem Santa Maria Mãe de Deus e nossa Mãe.
2019.04.01 – Louro de Carvalho

terça-feira, 31 de julho de 2018

A melhor tese de doutoramento da Europa foi escrita por uma portuguesa


Mais uma mulher portuguesa em destaque na cena internacional em razão do mérito. Margarida Carvalho, com a idade de 30 anos, natural da cidade do Porto, em cuja Universidade fez a licenciatura em matemática e o mestrado em engenharia matemática, estava no Canadá em atividade de investigação quando recebeu a notícia de que a sua tese de doutoramento, escrita a partir da FCUP (Faculdade de Ciências da Universidade do Porto), foi considerada a melhor da Europa.
Assim, a antiga estudante do Doutoramento em Ciências dos Computadores da FCUP e investigadora do INESC TEC é a primeira portuguesa a ser premiada com o EURO Doctoral Dissertation Award, distinção que reconhece dissertações de doutoramento excecionais na área de investigação operacional (IO).
Com o título Computation of equilibria on integer programming games, a tese premiada foi escrita e apresentada, em 2016, por Margarida Carvalho, sob orientação de João Pedro Pedroso, docente na FCUP e investigador no INESC TEC (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência), e de Andrea Lodi, professor no Departamento de Engenharia Elétrica, Electrónica e Informação “Guglielmo Marconi”, na Universidade de Bolonha.
Nela, resulta o  cruzamento de duas áreas científicas, a otimização combinatória e a teoria dos jogos, para desenvolver resultados matemáticos que evidenciam a utilidade da teoria na prática. Com efeito, as conclusões apresentadas têm um potencial prático no âmbito da saúde, com aplicações em casos de transplante renal.  
Margarida Carvalho, agora docente na Universidade de Montreal, onde vive há pouco mais de um ano, explica-se:
Na tese foi, pela primeira vez, formulado um jogo para modelar programas de trocas de rins envolvendo hospitais de vários países. O que conseguimos concluir foi que o jogo tem boas propriedades do ponto de vista do bem-estar social. Quer isto dizer que, quando as entidades se comportam de forma mais racional, ou seja, concentrando-se apenas no seu benefício individual, o número de pacientes com insuficiência renal que recebe um transplante é maximizado.” (vd Observador, 23 de julho).
Segundo Mariana Barbosa (Eco, 30 de julho), a investigação, que Margarida tinha começado ainda na licenciatura, serviu de mote à tese do doutoramento. Na verdade, ela queria estudar teoria da informação e calcular a informação que um determinado evento dá, de modo a poder planear o comportamento estratégico de decisores, sejam eles empresas ou outras instituições, ou seja, estudar formas de otimizar um determinado processo. Assim, focada na otimização, escolheu o Porto, que lhe dava a oportunidade de fazer uma parte dos estudos fora. Entretanto, teve a oportunidade de se mudar para Bolonha, na Itália, a trabalhar de perto com Andrea Lodi, uma espécie de “estrela de rock ou guru” desta área de investigação. De pronto, este orientador recomendou-lhe que lesse algumas das teses de doutoramento de anteriores vencedores, pois, talvez pudessem “ser uma inspiração”.
Depois da apresentação da candidatura ao prémio atribuído de dois em dois anos, a tese ficou entre os três trabalhos finalistas. A investigadora portuense foi, depois, convidada a defender a tese num evento internacional e, aí, foi-lhe comunicado que era a vencedora. Isto faz-lhe concluir que o seu trabalho “não vai ficar esquecido no jornal onde for publicado nem na biblioteca de uma faculdade”.
Embora a tese se foque no âmbito da saúde, com aplicações em casos de transplante renal, por se tratar do desenvolvimento de resultados matemáticos e da área de investigação operacional (IO), a teoria é aplicável a outras áreas, incluindo a economia.
A grande vantagem do modelo proposto está na combinação de uma área que permite aumentar o coeficiente de otimização de uma empresa, como é a otimização combinatória e conseguir prever respostas da concorrência.
Exemplo disso são as empresas que produzem energia. E investigadora lança a premissa em formato de pergunta: Qual seria a melhor proposta de venda de energia, tendo em conta a concorrência? Mais: no trabalho desenvolvido, é introduzido um novo fator: em vez de se tratar de apenas um player do mercado, foi criado um processo que permite incluir vários decisores em cuja dinâmica se vai refletir a decisão.
A este respeito, o orientador português da tese João Pedro Pedroso, investigador do CEGI (Centro de Engenharia e Gestão Industrial) do INESC TEC e docente na FCUP, explicita:
Os modelos de otimização são utilizados hoje em dia em inúmeras aplicações, como por exemplo no planeamento da produção de uma empresa. A evolução que houve na área de otimização permite que as empresas que apliquem estes modelos tenham muito sucesso. Os modelos mais comuns, no entanto, não têm em conta alguns fatores importantes, como é o caso da influência mútua que as decisões das várias empresas têm num mercado. A ciência que nos permite prever esses comportamentos chama-se teoria dos jogos. A Margarida propõe formulações matemáticas para problemas concretos e também algoritmos que podem ser aplicados de forma mais geral na solução de jogos que envolvem programação inteira, chamados integer programming games como aparece no título da tese. (vd ECO, 30 de julho).
Outra das áreas de aplicação da teoria desenvolvida é a da segurança. E a investigadora dá outro exemplo: é possível proteger um aeroporto otimizando o trajeto das patrulhas de polícias antecipando o comportamento das entidades mal-intencionadas. A base, como explica a autora da tese, assenta “no líder que toma a decisão e nos seguidores, que olham para o líder e depois tomam uma decisão”.
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Em suma,
Computation of equilibria on integer programming games”, a tese de Margarida Carvalho – cujas conclusões têm um potencial prático no âmbito da saúde, com aplicações em casos de transplante renal –, levou a investigadora do Porto a alcançar uma distinção até agora nunca conseguida por um português, o EURO Doctoral Dissertation Award (EDDA), prémio atribuído à melhor tese de doutoramento da Europa, na área da investigação operacional (IO).
Neste trabalho, orientado por João Pedro Pedroso e por Andrea Lodi, formula-se, pela primeira vez, um jogo para modelar programas de trocas de rins envolvendo hospitais de vários países.
A investigação permitiu concluir que “o jogo tem boas propriedades do ponto de vista do bem-estar social”, de acordo com a antiga colaboradora do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e atual docente na Universidade de Montreal, citada pelo Viva Porto.
Ainda segundo a investigadora, isto significa que, quando as entidades se comportam de forma mais racional, o número de beneficiários é maximizado.
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Lançado em 2003 e promovido pelo EURO – the European Association of Operacional Research Society, o prémio “Euro Doctoral Dissertation Award” (EDDA) distingue contribuições de estudantes de doutoramento ou cientistas que tenham menos de dois anos de experiência desde a conclusão do doutoramento na área da investigação operacional; e avalia, não só a originalidade e novidade do tema da tese, mas também aspetos como a importância para a área de investigação operacional, a profundidade e amplitude dos resultados e as contribuições práticas e teóricas. Por conseguinte, nos critérios de avaliação incluem-se: a originalidade e a novidade do tema, a pertinência para a área de IO, a profundidade e amplitude dos resultados, as contribuições práticas e teóricas, as aplicações dos resultados, o impacto nas áreas de investigação e a qualidade das publicações associadas.
A edição deste ano foi entregue no passado dia 11 de julho, no encerramento da EURO 2018, a maior e mais importante conferência europeia nos domínios da Investigação Operacional e da Science Management organizada pelo EURO – a Associação Europeia de Sociedade de Pesquisa Operacional (EURO – the European Association of Operacional Research Society) e pela Sociedade Espanhola de Estatística e Pesquisa Operacional. É realizado pelas duas principais universidades valencianas, Universitat de València e Universitat Politècnica de València.
Foi esta a primeira vez que um investigador português foi distinguido com este prémio.
Aqui fica para que se fortaleça a memória coletiva e não se conclua que em Portugal não se produz conhecimento ou não se escreve ciência.
2018.07.31 – Louro de Carvalho

terça-feira, 12 de junho de 2018

No centenário da morte dum santo, grande missionário e bispo


Decorreu, nos passados dias 7 e 8 de junho, no Auditório do Paço Episcopal do Porto, um colóquio científico em torno do tema “Entre a Monarquia e a República: os tempos de Dom António Barroso no centenário da sua morte (1918-2018)”. Trata-se duma iniciativa que visou assinalar o centenário do insigne prelado portucalense e promover a conveniente reflexão sobre o tempo do missionário e bispo e os respetivos contextos, bem como inferir em que sentido se pode concluir algo de útil para os tempos de hoje.
A organização do evento coube à Diocese do Porto, ao CEHR (Centro de Estudos de História Religiosa, Porto / Gabinete D. Armindo Lopes Coelho) da UCP (Universidade Católica Portuguesa), que forneceu o secretariado, ao Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição e à Irmandade dos Clérigos. E a Comissão Científica foi constituída por Adélio Fernando Abreu, Luís Carlos Amaral, Luís Leal, Paulo F. de Oliveira Fontes e Sérgio Ribeiro Pinto.
De acordo como texto de apresentação do CEHR, o colóquio pretendeu “abordar a vida e a ação pastoral de Dom António Barroso, inscritas no cenário político, social e eclesial do seu tempo, entre a Monarquia e a República”. Com efeito, segundo a cronologia dos Bispos do Porto, constante da página web da diocese, Dom António José de Sousa Barroso nasceu em Remelhe, Barcelos, a 5 de novembro de 1854, e faleceu a 31 de agosto e 1918; foi missionário no Ultramar português entre 1880 e 1889, Bispo de Himéria de 1891 a 1897, Bispo de Meliapor de 1897 a 1899 e Bispo do Porto de 1899 a 1918.
É ainda referido que foi destituído do cargo de Bispo do Porto, por não acolher as medidas republicanas, situação que se manteve até 1914. Porém, em 1917, um novo conflito o afastou da sua cátedra. Em termos organizacionais, salienta-se a divisão da diocese em 37 distritos eclesiásticos.
Também e ainda segundo o acima mencionado texto de apresentação do colóquio, o homenageado frequentou o Seminário das Missões de Cernache do Bonjardim, antes de ser ordenado presbítero, em 1879, e partir como missionário, ao serviço do Padroado português, em Angola e Congo, em Moçambique e em Meliapor. Aí se encontrava quando foi nomeado bispo do Porto, “diocese que pastoreou entre 1899 e 1918, com um estilo missionário e uma irredutível firmeza, esta no contexto subsequente à afirmação da República, em 1910”.
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Segundo o programa, que foi integralmente cumprido, decorreram as seguintes realizações:  
No primeiro dia, dedicado ao subtema A sociedade, o Estado e a Igreja entre a Monarquia e a República, foram proferidas as conferências:O século XIX em Portugal: Algumas linhas interpretativas”, por Jorge Fernandes Alves, do CITCEM-UP (Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória – Universidade do Porto) e” Secularização e laicidade na emergência da Primeira República, por Fernando Catroga, da FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), a que se seguiu o debate – da parte da manhã; Catolicismo no trânsito do século XIX para o século XX”, por António Matos Ferreira, do CEHR-UCP (Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa),O contexto missionário português na viragem do século: Do Mapa Cor-de-Rosa do Padroado à "Concordata impossível, por Hugo Gonçalves Dores, do CES-UC (Centro de Estudos Sociais – Universidade de Coimbra) e do CEHR-UCP (Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa) e “O clero português no século XIX e no início do século XX”, por Sérgio Ribeiro Pinto”, do CEHR-UCP (Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa), a que se seguiu o debate – da parte da tarde.
No fim do dia ocorreu a visita guiada ao Museu do Seminário Maior de Nossa Senhora da Conceição, no Porto.
No segundo dia, dedicado ao subtema Um homem no seu tempo: da vida e da ação pastoral de Dom António Barroso foram proferidas as conferências:A Igreja Portucalense nas últimas décadas do século XIX”, por Adélio Fernando Abreu, do CEHR-UCP (Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa) e Dom António Barroso: Pobre nasci, rico não vivi e rico não quero morrer, por António Júlio Limpo Trigueiros SJ, da Revista Brotéria, a que se seguiu o debate – da parte da manhã; Dom António Barroso: O missionário ao serviço do Padroado português, Amadeu Gomes de Araújo, do CEHR-UCP (Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa) eDom António Barroso: O bispo portucalense”, por Dom Carlos Alberto de Pinho Moreira de Azevedo, do Conselho Pontifício para a Cultura (Santa Sé) e do CEHR-UCP (Centro de Estudos de História Religiosa – Universidade Católica Portuguesa), a que se seguiu o debate – da parte da tarde.
Procedeu-se ao lançamento do livro “Dos Homens e da Memória: Contributos para a história da Diocese do Porto”, do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa – contando com a coordenação do Cónego Adélio Abreu e do prof. Luís Amaral e que recupera as intervenções produzidas no âmbito do Seminário de História Religiosa de 2015 subordinado ao tema: “Dos homens e da memória: os tempos da Diocese do Porto”. A sua apresentação no colóquio foi proposta por Maria de Lurdes Correia Fernandes, professora catedrática e investigadora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, antiga e agora outra vez vice-reitora daquela Universidade, e membro do Pontifício Comité de Ciências Históricas. Seguiu-se a Vista ao Paço Episcopal e, à noite, houve um concerto.
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Rui Saraiva faz longa referência ao evento na edição on line de “Voz Portucalense”. Do seu texto retiram-se algumas das ideias que perpassaram o colóquio.
Considerando que esteve em análise a vida e ação pastoral do prelado portuense no contexto político, social e eclesial da época, salienta que “foi missionário em África e na Índia”, que “pastoreou a diocese do Porto de 1899 a 1918”, que “viveu o exílio durante a Primeira República”, mas sempre mostrou “firmeza, visão pastoral, autenticidade, liberdade e simplicidade evangélica”.
No primeiro dia, foi desenvolvido, como se deixou entrever, um subtema “de contexto e de enquadramento histórico, político e social da ação do missionário português”.
A comunicação do prof. Jorge Fernandes Alves fez aflorar algumas linhas interpretativas do século XIX em Portugal, relevando “uma importante conferência do missionário António Barroso na Sociedade de Geografia de Lisboa em finais do século XIX”, em que manifestou “as suas preocupações sobre a ‘captação dos traços culturais’ nas zonas de missão em África e a necessidade de organizar missões para evangelizar as populações”, propondo a criação de “missionários indígenas” e “missionárias” para revitalização das missões africanas. Como elementos simbólicos, o missionário Barroso propunha a cruz e a enxada: “o primeiro como símbolo da paz e da fraternidade e o segundo assumindo a simbologia do trabalho”.
O prof. Fernando Catroga, sobre a realidade histórica da secularização e da laicidade na nossa sociedade nos inícios do século XX, frisou que as dificuldades sofridas pelos bispos no período da I República e, em particular, o exílio de Dom António Barroso resultaram da “intransigência da época” – linha de reflexão por que enveredou também o prof. Matos Ferreira ao caraterizar o prelado portuense como “firme” e “moderado” no âmbito do processo de separação entre a Igreja e o Estado, tendo, como homem lúcido que era, pugnado por uma “separação justa”.
Ao nosso contexto missionário e à sua evolução histórica, com grande relevo para o Padroado Português de que Barroso foi servidor após os seus estudos em Cernache do Bonjardim no Seminário das Missões, referiu-se o prof. Hugo Dores, recordando que a República “não extingue o Padroado” e vincando que, por exemplo, no caso do padroado asiático, cuja Concordata era de 1886, o regime republicano declarou no texto da Lei de Separação que ”não prescindia do Padroado” asiático.
Por seu turno, o prof. Sérgio Ribeiro Pinto falou sobre o clero português nos finais do século XIX e inícios do século XX, evidenciando a defesa que Barroso fez dos padres pobres num tempo histórico conturbado tendo sido criada uma Liga do Clero Paroquial em 1907.
No segundo dia do Colóquio, sobressaiu o estudo da vida e ação pastoral de Dom António Barroso, no tempo histórico em que viveu, sobretudo na diocese do Porto, sendo de realçar a conferência do Cónego Adélio Abreu, que abordou a evolução histórica da igreja portucalense nas últimas décadas do século XIX. Assinalando que o prelado dotou à diocese duma pastoral “muito atenta à realidade” e, em particular “às realidades sociais”, sublinhou que o Bispo sempre afirmou que “não estava contra a República”, mas que assumiu, como homem corajoso que era, muitas atitudes frontais como, por exemplo, a divulgação da “pastoral coletiva” do Episcopado, que tinha sido proibida pelo Governo da República.
Do percurso do missionário e bispo, visto a partir da sua terra natal, Remelhe, e da consequente evolução para a vocação missionária, António Trigueiros, padre jesuíta e diretor da revista “Brotéria”, interveio a sublinhar a frase que Dom António Barroso inscreveu no seu testamento: “Pobre nasci, rico não vivi e pobre quero morrer”. Recordou que na pequena igreja medieval da sua aldeia ordenou na clandestinidade muitos padres e diáconos durante o seu exílio. E salientou que uma das memórias que fica deste prelado portucalense é o forte sentido de humor.
Por sua vez, o Dr. Amadeu Gomes de Araújo, vice-postulador da causa de beatificação de Dom António Barroso, revelou que foi este homem quem sugeriu a criação da Sociedade Missionária da Boa Nova, tendo-se apercebido das lacunas da sua formação para a vida missionária.
Por fim, Dom Carlos Azevedo, abordando o perfil daquele bispo portucalense, salientou a sua frontalidade e capacidade de decisão, munido de singular verticalidade e autenticidade e capaz de ter “liberdade” nos pareceres que dava à Santa Sé, a ponto de revelar grande “autonomia em relação a qualquer jogo que não estivesse de acordo com o Evangelho”. E Dom Carlos assinalou que Barroso “não tinha medo de dizer que discordava de certas normas da Santa Sé”, sendo um homem que “pegava no Evangelho aplicando-o ao concreto dos tempos”.
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Dom Manuel Linda, Bispo do Porto, esteve presente durante todo o Colóquio tal como os bispos auxiliares Dom António Taipa, Dom Pio Alves e Dom António Augusto Azevedo. E o Bispo do Porto recordou que Dom António Barroso foi “confrontado com limitações que o poder político lhe impôs” tendo-lhe sido fortemente limitada a liberdade. Declarando encontrar uma “similitude entre Dom António Barroso e Dom António Ferreira Gomes na reclamação da capacidade da Igreja se afirmar no espaço público e, fundamentalmente, exercer a sua liberdade de pregação, disse que “a liberdade da Igreja é um bem, não só para a Igreja, mas também para a sociedade civil”. E vincou que um e outro foram “colhidos, atacados e perseguidos por uma dimensão sociopolítica que não lhes tolera isso”.
Quanto a si, Dom Manuel Linda diz-se sentir “uma pessoa que reclama para a sua ação na Igreja do Porto a absoluta liberdade de atuar com critérios eclesiais” – o que está na história recente da diocese do Porto”.
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É de recordar que, a 16 de Junho de 2017, foi publicado o decreto pontifício que reconhece a heroicidade das virtudes de Dom António Barroso – um passo importante em ordem à canonização deste Servo de Deus. A este propósito, o postulador da causa, Monsenhor Arnaldo Pinto Cardoso, dizia então que a devoção particular recebe com tal gesto – “um estímulo a olhar” este Venerável que “pode ser visto como exemplo e como protetor”. E a Igreja, que ele serviu “com tanta dedicação e fidelidade”, propondo-o “como modelo e varão justo”, teve para com ele “um gesto de justiça”. Na verdade, segundo Pinto Cardoso, “o seu perfil de missionário e de bispo é de tal forma imponente que só a incúria ou a distração poderiam explicar o seu esquecimento” ou “deixar na penumbra” esta “figura eminente de pastor”. Com efeito, “nas diversas paragens aonde foi enviado, nos momentos de glória e de ignomínia, nas horas de sofrimento e de exílio”, o Bispo mostrou “a sua integridade e zelo, sempre voltados para aqueles que mais precisavam” e “a sua envergadura manifestou-se não só nas paragens africanas e indianas, mas também, mais tarde, nos tribunais nacionais e perante governantes prepotentes”. Assim, a estatura deste Bispo, na sua imponência espiritual, “interessa à Igreja e à sociedade civil”, pela “coerência, responsabilidade, coragem, zelo, caridade”.
E, a 25 de julho, Festa do apóstolo São Tiago, Dom António Francisco dos Santos, então o amado Bispo do Porto e agora de grata e saudosa memória, referindo-se ao Decreto e ao Venerável, enaltecia esta como “a hora de agradecermos a Deus a bênção que nos concedeu com a vida e pelo ministério episcopal de Dom António Barroso, concretamente no serviço da Igreja do Porto, depois de um longo percurso pastoral que o levou a Angola, a Moçambique e a Meliapor, na Índia”. E preconizava:
Esta é a hora de continuarmos a trabalhar e a rezar pela canonização de Dom António Barroso, proclamando com as mesmas palavras do Salmo 34 que iniciam o texto do Decreto das suas Virtudes Heroicas: Em todo o tempo bendirei o Senhor; o seu louvor estará sempre nos meus lábios. A minha alma gloria-se no Senhor. Que os humildes saibam e se alegrem.”.
Enfim, “Laudemus viros gloriosos (louvemos os homens ilustres), guias do povo, pelos seus conselhos, chefes do povo, pela sagacidade, sábios narradores, pelo seu ensino, criadores de melodias musicais e cantores de poemas escritos” (Sir 44,1.4-5).
2018.06.12 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Ponte D. António Francisco dos Santos


Foi hoje, dia 12 de abril, anunciada, pelos presidentes das câmaras municipais de Vila Nova de Gaia e do Porto, a construção de uma nova ponte entre Porto e Vila Nova de Gaia.
A nova travessia, que vai unir Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia) à zona de Campanhã (Porto), será intitulada a “Ponte D. António Francisco dos Santos” e significará um investimento de 12 milhões, repartido em partes iguais pelas duas autarquias – um projeto de investimento inteiramente interautárquico, não necessitando de financiamento exterior.
A travessia, a designar Ponte D. António Francisco dos Santos, em homenagem ao bispo que morreu em setembro do ano passado, vai unir os dois concelhos entre Oliveira do Douro, em Gaia, e a zona de Campanhã, no Porto.
O anúncio foi feito por Rui Moreira e Eduardo Vítor Rodrigues, durante a manhã de hoje no Laboratório Edgar Cardoso, equipamento próximo da ponte São João, que une os dois concelhos via ferroviária.
Os autarcas estimam que a nova ponte custe cerca de 12 milhões de euros e esteja concluída no prazo de três a quatro anos.
Serão necessários dois concursos públicos, um para conceção que será lançado ainda este ano, e um segundo de caráter internacional para a construção.
A travessia será construída à cota baixa, terá 250 metros e ligação para trânsito rodoviário e transporte público, passagem pedonal e ciclovia.
“É uma solução que vinha sendo exigida pelas necessidades atuais e pelo facto de as duas cidades conviverem quase como uma. Temos um centro histórico, não temos dois” – disse o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, à margem da apresentação.
Já o autarca de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues, disse acreditar que a nova ponte “vai transformar as duas margens”, sendo que do lado sul, é objetivo “explorar o potencial de acessos ao IC23 e à VL9”.
Os dois presidentes destacaram como meta o “alívio da pressão das pontes atuais”, bem como a “inclusão de territórios que ao longo dos tempos têm sofrido alguma estigmatização”, como referiu Eduardo Vítor Rodrigues.
Rui Moreira avançou ainda que com a construção desta nova ponte, a atual travessia da Ponte Luiz I poderá passar a exclusivamente pedonal, somando-se a passagem do elétrico e de veículos de emergência.
Quanto à ponte Dona Maia Pia, atualmente desativada, o autarca referiu que os dois concelhos “têm vindo a trabalhar em soluções para esse tabuleiro” que, garantiu, “não será abandonado porque os dois projetos são conjugáveis”.
Questionados sobre o financiamento para a obra, Rui Moreira e Eduardo Vítor Rodrigues frisaram que Porto e Gaia vão pagar a ponte em partes iguais, com o autarca de Gaia a apontar que o fará sem recurso à banca.
No decorrer da apresentação, Rui Moreira já tinha salientado: “Não precisamos de pedir nada ao senhor ministro das Infraestruturas e também não precisamos do Ministério da Cultura”.
Entretanto, segundo refere o JN, o portal online da Câmara do Porto publicou, no Youtube, um vídeo promocional da nova infraestrutura, onde apresenta ainda alguns dados sobre o trânsito da ponte Luís I, onde circulam, por dia, mais de 5600 veículos, mais de 11 mil peões e mais de 30 mil utilizadores do metro. Quando a nova obra estiver concluída, o tabuleiro inferior da ponte D. Luís vai estar apenas aberto ao trânsito para elétrico e peões.
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Na sessão, o ainda administrador diocesano do Porto, Dom António Taipa, Bispo Auxiliar do Porto, mostrou-se “profundamente emocionado” pelo nome escolhido para esta travessia, lembrando o antigo Bispo Dom António Francisco dos Santos como “uma pessoa marcada pelo carinho e pelo afeto que nunca precisou de se colocar em bicos de pé para ser amado e respeitado”.
Dom António Francisco dos Santos foi uma personalidade construtora de pontes de diálogo e de comunhão – foi o que afirmaram os presidentes das Câmaras de Porto, Rui Moreira,  e Vila Nova de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues,  na apresentação pública desta obra.
A “Voz Portucalense” refere que, na cerimónia de apresentação desta nova ponte sobre o rio Douro, que decorreu no Laboratório Eng. Edgar Cardoso em Gaia, esteve também presente o Administrador Diocesano do Porto e que Dom António Taipa felicitou os presidentes de Câmara das duas autarquias pela iniciativa e, confessando-se profundamente emocionado, salientou a figura de D. António Francisco e o registo “simples” e “afetivo” de um bispo que foi “muito amado”.
O nome do Bispo do Porto, que faleceu a 11 de setembro de 2017, ficará assim a batizar a nova ponte que ligará as zonas de Campanhã no Porto e Oliveira do Douro em Vila Nova de Gaia. Esta nova infraestrutura tem um custo orçamentado de 12 milhões de euros e deverá ser inaugurada em 2022. Será paga exclusivamente pelos municípios de Porto e Vila Nova de Gaia.
Esta ponte percorrerá 250 metros entre as duas margens e partirá da zona do Areinho, em Oliveira do Douro, até à marginal do Porto na Avenida Gustavo Eiffel. E nela vão transitar automóveis, peões e bicicletas.
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Segundo o DN de 20 de dezembro de 2017, o presidente da Câmara do Porto defendia então que a localização “ideal” para uma nova travessia rodoviária sobre o Douro seria “entre a pontes Luiz I e de D. Maria”.
Em declarações aos jornalistas nos Paços do Concelho, Rui Moreira observava que a nova ponte “pode ser à cota baixa”, alertando que “a amarração” nas cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia “tem [ainda] de ser estudada com todo o cuidado”, nomeadamente “no âmbito dos planos desenvolvimento dos municípios de ambos os lados”. E afirmava que Gaia e Porto colaboram mutuamente, “têm uma excelente relação e têm vindo a equacionar quer isso, quer outros aspetos fundamentais de vizinhança”.
Questionado pelos jornalistas sobre a avaliação em curso de uma nova ponte sobre o Douro, avançada pelo próprio autarca na Assembleia Municipal, Moreira indicava que a “solução” começou a ser equacionada depois de se perceber ser inviável o alargamento dos passeios para circulação pedonal e de bicicletas no tabuleiro inferior da ponte Luiz I. Com efeito, como referiu, “houve um anteprojeto que defendia o alargamento do tabuleiro inferior da ponte Luiz I, permitindo que, através de passagens exteriores, fosse feita passagem para peões e bicicletas, libertando a faixa para o trânsito rodoviário”. Contudo, aquele anteprojeto não tinha condições para andar por não merecer aprovação das entidades que classificam a ponte.
“Em função disso”, esclareceu, “o que falamos com Gaia é que temos de encontrar soluções. Essas soluções podem passar pela construção de uma nova ponte”. E acrescentou:
    Entendemos que seria mais interessante olhar para uma ponte a montante da Luiz I”.
Quanto à localização exata, Moreira começou por responder “teremos que ver”, admitindo depois como “ideal” entre as pontes Luiz e de D. Maria, mas alertou que isso implicava a amarração dos dois lados e isso estava então muito longe de ser estudado.
Em relação à ponte D. Maria, disse que não seria opção, notando que aquela travessia, que serviu a ferrovia, “não tem condições” nem a melhor localização. E vincou:
    “Gaia tem, para a ponte D. Maria, um projeto de ecopista que temos vindo a acompanhar. Esse projeto, sim, parece fazer sentido. [A ponte D. Maria] não resolve problemas de mobilidade, até porque, dos dois lados, a atracação não faz muito sentido.”.
O autarca portuense observou que, “se for pedonal”, a nova travessia “tem de ser a cota baixa”, mas que o mesmo pode acontecer “se for rodoviária”, pois, como notou, “só temos uma passagem à cota baixa, que é o tabuleiro inferior da Luiz I”. E explicou: “Não temos nenhuma à cota média e as outras são todas à cota alta. Temos, de facto, um problema histórico nas ligações Porto-Gaia.”.
Para Rui Moreira, “estas questões têm de ser estudadas com todo o cuidado”. De facto, “o problema é a amarração dos dois lados. Isto tem de ser visto no âmbito dos planos desenvolvimento dos municípios de ambos os lados” – disse.
A câmara do Porto revelou então que estava, juntamente com a congénere de Vila Nova de Gaia, a “avaliar a possibilidade de construir uma nova ponte” sobre o Douro e que, no caso de avançar a ideia, “a localização mais provável será a montante da ponte Luiz I”.
É o que está agora para acontecer, como foi hoje anunciado.

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Obviamente, como amigo e admirador de Dom António Francisco dos Santos, manifesto o meu sentido agrado pela decisão dos dois municípios. Com efeito, sendo o Bispo, no sentido eclesial, o pontífice (construtor de pontes) a atribuição do nome de uma ponte, a fazer, ao anterior Bispo do Porto quadra-lhe bem, já que foi, no pouco tempo que durou o seu pontificado no Porto, um insigne artífice das relações humanas e eclesiais, tentando tudo para esbater divisões e fazer ou refazer aproximações, no respeito pelas liberdades, opiniões e opções dos demais.
Resta-me desejar que a nova ponte se faça e que eu por lá possa transitar também.
2018.04.12 – Louro de Carvalho