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domingo, 11 de agosto de 2019

A sabedoria é o reflexo da vontade e do desígnio de Deus



Na homilia da Missa do 19.º domingo do Tempo Comum no Ano C, o reitor do Santuário de Fátima a partir do Evangelho dominical (Lc 12,32-48), exortou a assembleia de peregrinos presentes no Recinto de Oração a viver a relação com Deus de um modo “vigilante e desinstalado”, a não “ceder ao comodismo” e a perseverar na fé. E alertou para o perigo de “secundarizar Deus” através do comodismo e da rotina.
O padre Carlos Cabecinhas falava aos participantes na celebração, na sua maioria,  peregrinos oriundos do território nacional e do estrangeiro, designadamente de: Espanha, França, Itália, Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Polónia, Malta, Suécia, Brasil, Costa do Marfim, Síria, Vietname e Indonésia – com para um grupo da iniciativa do Santuário “Vem para o meio”, que oferece férias para pais de filhos com deficiência.
Baseado na “riqueza das imagens sugestivas” presentes na perícopa evangélica em referência, o presidente da celebração começou por esclarecer o significado da vigilância:
Estarmos preparados para acolher Deus não significa não deixarmos que a nossa fé se acomode numa atitude passiva de quem se limita a esperar que Ele Se revele; implica, antes, uma atitude ativa de conversão de coração e compromisso efetivo com a vontade de Deus, que nos permite reconhecer a Sua presença na nossa vida.”.
E alertou para o perigo dos “dos valores secundários” que nos impedem de assumir esta atitude de perseverança na fé e permanência na comunhão com Deus, explicitando:  
Com muita facilidade nos prendemos àquilo que é passageiro, por causa da rotina que se instala, pela sedução dos caminhos fáceis e das preocupações que nos desviam do essencial e nos levam, muitas vezes, a fazer com que Deus e os outros fiquem esquecidos e secundarizados”.
No final, com referência à fé, apresentada na carta aos Hebreus (Heb 11,1-2.8-19) como “garantia dos bens que se esperam e certeza de realidades que não se veem”, o presidente da celebração reforçou a importância da atenção e vigilância que a fé traz à relação com Deus, lembrando o convite que a Mensagem de Fátima faz à “descoberta de Deus como o tesouro que dá sentido pleno à vida”. E concluiu, reforçando o lado positivo da vigilância acima referido:
Estarmos vigilantes e atentos significa olhar com atenção a nossa vida, à luz de Deus e da sua Palavra, para percebermos o que pode ser obstáculo a acolher este Senhor que vem e a reconhecê-Lo presente em nós”.
***
Entretanto, é de destacar a perícopa do Livro da Sabedoria (Sb 18,6-9) tomada para 1.ª leitura.
O texto proposto para proclamação e meditação pertence à 3.ª parte do livro (10,1-19,22). Aí, recorrendo a factos concretos e a exemplos de figuras históricas, o hagiógrafo exalta as maravilhas operadas pela “sabedoria” na história do Povo de Deus. Nos últimos capítulos desta 3.ª parte (16-19), passando do geral ao particular, o autor sagrado mostra como a natureza divinizada pelos ímpios se volta contra eles, enquanto essa natureza se torna salvação para o Povo de Deus. O cenário desta reflexão é a comparação entre o que um dia (no Êxodo) sucedeu aos egípcios e o que, em contraste, aconteceu ao Povo de Deus: as pragas de animais castigaram os egípcios, mas as codornizes alimentaram os israelitas (cf 16,1-4); moscas e gafanhotos atormentaram os egípcios, mas a serpente de bronze erguida por Moisés no deserto salvou o Povo de perecer (cf 16,5-15); chuvas e granizo destruíram as culturas egípcias, mas o maná alimentou o Povo de Deus (cf 16,15-29); as trevas cegaram os egípcios que perseguiam os israelitas, mas a coluna de fogo iluminou a caminhada do Povo de Deus para a liberdade (cf 17,1-18,4); os primogénitos dos egípcios foram mortos, mas Deus salvou a vida do seu Povo (cf 18,5-25); e assim por diante. O texto em causa evoca, em concreto, a noite em que foram mortos os primogénitos dos egípcios, à noite do êxodo (cf Ex 12,29-30).
O autor inspirado interpreta essa noite (cf Sb 18,5) como a resposta de Deus ao decreto do faraó que ordenava a matança das crianças hebreias do sexo masculino (cf Ex 1,22). Para os egípcios, foi uma noite trágica, de ruína, pesadelo, destruição, morte e luto; para os judeus, foi noite de salvação, glória e louvor do Deus libertador. Na perspetiva do hagiógrafo, Deus esteve na origem da libertação e, por Moisés, fez saber com antecedência aos hebreus os acontecimentos da noite pascal (cf Ex 12,21-28), para que ganhassem ânimo. Tudo isto foi entendido pelo Povo como ação de Deus. E, confrontado com a atuação de Deus em favor do seu Povo, Israel encontrou forma de responder a Jahwéh e de Lhe manifestar o seu louvor e agradecimento: os sacrifícios (alude-se ao sacrifício do cordeiro pascal, entendido como celebração da libertação operada por Deus) e a solidariedade (remonta ao momento do Êxodo das leis sobre a participação de todas as tribos na conquista – cf Nm 32,16-24 – e sobre a partilha igual dos despojos – cf Nm 31,27; Js 22,8), o cântico de hinos, alusão ao Hallel – Sl 113-118 – cantados todos os anos durante a ceia pascal) definem a resposta do Povo à ação de Deus. E é óbvia a conclusão: enquanto os egípcios (que divinizavam a natureza e que corriam atrás dos deuses falsos) se deixaram conduzir por esquemas de opressão e de injustiça e receberam de Jahwéh o justo castigo, os israelitas (fiéis a Jahwéh e à Lei, que sempre louvaram Deus e Lhe agradeceram seus dons e benefícios) viram Deus atuar em seu favor e encontraram a liberdade e a paz.
***
O livro da Sabedoria (Sophía) situa-nos no fim do AT (Antigo Testamento), num tempo fundamental do diálogo entre o judaísmo e a o helenismo. É, neste sentido, um bom predecessor do NT (Novo Testamento). Por isso, a língua é o grego e pertence aos chamados livros Deuterocanónicos, por se encontrar só na Bíblia grega e, consequentemente, não entrar nem no Cânone judaico (da Bíblia hebraica) nem, mais tarde, no Cânone das igrejas protestantes.
É um dos livros sapienciais em que surge a sabedoria, mas neste vem a Sabedoria personificada e como protagonista. A redação e o vocabulário (culto e filosófico) elevam o livro acima do restante texto dos Setenta. Trata-se duma escrita expressiva e magnífica, que homenageia o estilo septuagintístico, através da opção por um discurso poético que não alinha com os padrões gregos clássicos, mas por aquele registo que tanto pode ser prosa poética como poesia em prosa (cf Frederico Lourenço, Bíblia, Vol IV, Tomo I, Quetzal,2018)  
O termo “sabedoria” é polissémico. Pode ser descrito como: aplicação da mente à aquisição de conhecimentos, a partir da experiência humana; habilidade prática no exercício duma atividade profissional ou na fuga a situações de perigo; prudência na linguagem e no comportamento; discernimento em ajuizar o que é bom ou mau para o ser humano; capacidade para detetar as formas de sedução e de engano…
A sabedoria bíblica é o conhecimento baseado na experiência acumulada ao longo da vida e enriquecida através das gerações, que se fixou gradualmente em máximas, sentenças e provérbios breves e ritmados, recheados de imagens ou comparações.
O povo de Deus apercebeu-se da importância da sabedoria para a vida, pois não era possível regulamentar todas as áreas da vida só pela lei de Moisés e pela palavra dos profetas. Havia espaços a preencher por opções e iniciativas pessoais, pelo que era preciso adquirir conhecimentos e capacidade crítica para avaliar pessoas e coisas, situações e acontecimentos.
Cotejado o conjunto da sabedoria de Israel com outros corpos literários do AT, não é difícil verificar que os Livros Sapienciais formam um mundo à parte, caraterizado pela fé na sabedoria divina que rege o universo e cada pessoa em particular.
Ah! A sabedoria bíblica remete para a sabedoria divina. Deus é a sabedoria por excelência, a Santa Sophia, a Sabedoria incriada. Porém, embora veicule o ponto de vista judeu, o livro da Sabedoria apresenta muitos pontos de contacto com a literatura greco-latina coeva, sobretudo ao nível do ideário. Frederico Lourenço considera-o herdeiro da poesia didática (de que é exemplo Fenómenos, de Arato), que descende de Teogonia e Trabalhos e Dias, de Hesíodo, e que estimulou, em Roma, a composição de poesia didática de relevo e de grande alcance filosófico, como o De Rerum Natura, de Lucrécio.
No âmbito sapiencial, o centro de interesse e de atenção desloca-se do povo, enquanto tal, para a pessoa indivídua; da História para o quotidiano; da situação peculiar de Israel para a condição humana universal; das vicissitudes históricas do povo da Aliança para a existência no mundo da criação; das intervenções prodigiosas de Deus para as relações entre causa e efeito; da esfera da Lei e do culto para o mundo das opções livres e da iniciativa pessoal; da autoridade de Deus para a esfera da experiência e da tradição humana; dos oráculos dos profetas, proclamados como palavra de Deus para o uso de todos os recursos da razão e da prudência, em ordem à orientação da própria vida; da imposição da Lei para a força persuasiva do conselho e da exortação; do castigo apresentado como sanção externa para a consequência negativa, resultante de uma escolha errada ou de um ato insensato, da morte não por culpa de Deus, mas como resultado do pecado. Assim, a sabedoria faz-se filosofia (enquanto gosto do saber, sabor do conhecimento), faz-se teologia, faz-se universalidade e interioridade, tira-nos do narcisismo coletivo, faz-nos assim como pessoas a mergulhar em Deus, tira-nos das fronteiras étnicas e geográficas para nos abrir ao mundo. E a sabedoria divina, cósmica (que esteve na criação do mundo e o rege), é o que em hebraico se chama “hokmah”; mas o seu conceito pode também ser expresso por “sedaqah” = “justiça”. Ao invés da palavra profética, a sabedoria exige o empenho de todas as capacidades e dons de que o ser humano dispõe (Sir 15,14-20; 17,1-14). Mais do que procedendo do alto, como a Lei, a Profecia e a própria História, a sabedoria surge e cresce a partir de baixo, da experiência humana. Sábio (ou sensato) é quem sabe adaptar-se ao sistema cósmico, descobre o seu mecanismo operativo e entra na sua essência. “Insensato” (ou mesmo “ímpio”) – o que não tem sabedoria e piedade – é quem não descortina as regras desse jogo ou não se interessa por elas.
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Atribuído a Salomão por algumas versões e manuscritos antigos, o livro é da responsabilidade de um autor anónimo bem distante de Salomão no tempo, que não pode situar-se para cá do ano 50 a.C. (entre 150 e 50 a.C.). Isso manifesta-se nos indícios literários e históricos. A atribuição do livro a Salomão, nos cap 6-9 (e só implicitamente) deve-se ao facto de a tradição bíblico-judaica situar este monarca na origem do género literário sapiencial, o que faz dele o Sábio (7,1-21; 8,14-16; 9; vd 1Rs 3,5-9; 5,9-14; 10,23-61). Provavel­­mente, a autoria humana é de um judeu de Alexandria, no Egito – onde residia uma forte comu­nidade judaica (um dos centros culturais mais importantes da Diáspora judaica) – que utilizou a pseudonímia. Como fruto dessa comuni­dade, o livro está marcado culturalmente por forte influência helenista. De facto, como diz Lourenço, a filosofia grega faz parte do horizonte do livro da Sabedoria através do vocabulário, que nos coloca em frente dum escritor que parece conhecer Platão (que valoriza a sophía na República) e o estoicismo.
Mas o autor conhece sobretudo a História do seu povo e a fé num Deus sem­pre presente e pronto a intervir nela; e sente a forte atração que as principais filosofias helenísticas e as diversas religiões exercem na vida dos seus irmãos de raça e de fé. Por isso, pretende estabelecer o diálogo entre fé e cultura gregas (6-8), de modo a sublinhar que a sabedoria que brota da fé e conduz a vida dos israelitas é superior à que inspira o modo de viver dos habitantes de Alexandria. Com o livro, o autor dirige-se a dois destinatários diferentes: os judeus de Alexandria, direta ou indiretamente perseguidos pelo paga­nismo do ambiente; e os pagãos, sobretudo os intelectuais helenis­tas, mais abertos à cultura hebraica, intentando convertê-los ao Deus único, vivo e verdadeiro. Dirigindo-se aos judeus (que vivem cercados por um ambiente de idolatria e imoralidade), o autor faz o elogio da “sabedoria” israelita, a fim de animar os israelitas fiéis e fazer voltar ao bom caminho os que tinham abandonado os valores da sua fé; dirigindo-se aos pagãos, o escritor (que se exprime em termos e conceções do mundo helénico, para que a sua mensagem chegue a todos) apresenta-lhes a superioridade da cultura e da religião israelitas, ridicularizando os ídolos e convidando, implicitamente, à adesão a uma fé mais pura, que é a fé judaica.
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Em termos de estrutura e conteúdo, a proposta de vida, assente na revela­ção de Deus, manifestada na História e no mundo criado, é desenvolvida em três partes: “I. A Sabedoria e o destino do homem (1,1-5,23), em que se descreve a sorte dos justos e dos ímpios, à luz da fé; sendo a justiça imortal (1,16) e reservando Deus a imortalidade aos justos; “II. Elogio da Sabedoria (6,1-9,18), com a origem, natureza, propriedades e dons que acompanham a sabedoria (7,22-8,1), como personificação de Deus (vd Pr 8; Sir 24) e o elogio da sabedoria, elevando-a acima dos valores mais apreciados neste mundo; e “III. A Sabedoria na História de Israel(10,1-19,22), em que se descreve a presença e a atividade da sabedoria em toda a História do povo de Israel com especial incidência no Êxodo (11,1-19,17), em forma de midrache e de contrastes, que caraterizam o estilo desta 3.ª parte (11,4-15,19; 16,1-4.5-14.15-29; 17,1-18,4; 18,5-25; 19,1-21). Todavia, o autor manifesta conhecimentos profundos de outros livros: Génesis, Provérbios, Ben Sirah e Isaías. Merece um relevo especial a brilhante polémica contra a idolatria. E o estilo da obra inclui recursos estilísticos hebraicos (paralelismo, parataxe, comentário midráchico, alusões a motivos do AT) e gregos (abundância de sinónimos, adjetivação rebuscada, aliterações, rimas e jogos de palavras). Tudo isto faz do livro um modelo do grego da Bíblia dos Setenta.
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No âmbito da teologia e leitura cristã do livro, ressalta que muitos judeus seriam tentados a seguir o caminho da impiedade e a renegar a fé, quer pela perseguição, quer pelo ridículo a que eram sujeitos por via das práticas da fé, quer pela vida moral fácil que os alexandrinos levavam, em contraste com as exigências apontadas pela Lei de Moisés (2,1-20). Mais que uma categoria de pessoas, os “ímpios” (o contraponto dos “justos” ao longo de todo o livro) personificam um estilo de vida oposto e hostil ao que deveria constituir o do judeu crente. Esta temática pode caraterizar-se pela ideia de justiça, nos três sentidos bíblicos: virtude da equidade, dando a cada um o que lhe pertence; cumprimento perfeito da vontade de Deus; e força ou ação de Deus, que nos livra de toda a espécie de mal. O hagiógrafo resolve o problema da felicidade dos justos e infelicidade dos ímpios com a retribuição ultra­ter­rena para os justos. Face a um ambiente religioso, filosófico e cultural, que apresentava um estilo de vida atraente, era imperioso dar razões fortes da fé em termos racionais e vitais, para que ela não aparecesse inferiorizada como proposta ou estilo de vida. Por isso, o livro mostra exce­cio­­nais conhecimentos de toda a Bíblia e da vida cultural helenística.
Uma segunda ideia teológica fundamental do livro é a personificação da Sabedoria divina. Enquanto, para os gregos, a sabedoria era meio para o conhecimento e contemplação divina, para o livro, é proposta de vida e alguém que está presente em toda a vida e que preside à vida toda, falando, estimulando e argumentando. A sabedoria é assim porque é o reflexo da vontade e do desígnio de Deus (9,13.17); partilha da própria vida de Deus e está associada a todas as suas obras (8,3-4); e tem a ver com o espírito de Deus (1,6; 7,7.22-23; 9,17). É ela que torna a religião judaica muito superior às religiões idólatras (cap. 13-15). Enfim, a sabedoria é um outro modo da revelação de Deus, isto é, o próprio Deus que age na História de Israel (cap. 11-12; 16-19) e no mundo criado. Ela prefigura o amor e a sabedoria de Deus que culmina em Jesus Cristo, também chamado “Sabedoria de Deus” (vd 1Cor 1,24.30). (cf Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, 2018).
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Deus nos dê a sua Sabedoria ou, melhor, nos refaça à sua imagem e semelhança e nos faça vez a sua vontade e o seu desígnio!
2019.08.11 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo


É o primeiro verso dum poema de Fernando Pessoa ortónimo, escolhido para análise na parte A do grupo I da Prova de Português (cód. 639) do 12.º ano, 1.ª fase, e que se transcreve e se comenta na esteira do pretendido pelos organizadores da prova, embora, por vezes, com um certo sentido crítico-interpretativo:

Bem sei que há ilhas lá ao sul de tudo
Onde há paisagens que não pode haver.
Tão belas que são como que o veludo
Do tecido que o mundo pode ser.

Bem sei. Vegetações olhando o mar,
Coral, encostas, tudo o que é a vida
Tornado amor e luz, o que o sonhar
Dá à imaginação anoitecida.

Bem sei. Vejo isso tudo. O mesmo vento
Que ali agita os ramos em torpor
Passa de leve por meu pensamento
E o pensamento julga que é amor.

Sei, sim, é belo, é longe, é impossível,
Existe, dorme, tem a cor e o fim,
E, ainda que não haja, é tão visível
Que é uma parte natural de mim.

Sei tudo, sei, sei tudo. E sei também
Que não é lá que há isso que lá está.
Sei qual é a luz que essa paisagem tem
E qual a rota que nos leva lá.

Fernando Pessoa, Poesia do Eu, edição de Richard Zenith, 2.ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2008, pp. 314-315.
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Na questão 1, insinua-se que o poema (de 5 quadras com alternância entre rimas agudas e rimas graves) se pode entender como dividido em duas partes ou marcado por dois momentos, o que me parece bem. Com efeito, as primeiras 3 estrofes, embora sujeitas ao fio condutor pessoal do emissor lírico, expresso na forma verbal “sei” (1.ª pessoa do singular do presente do indicativo, com igual peso das rimas pobres e das ricas), vertida aqui na convicta e convincente anáfora corporizada na repetição do segmento textual “bem sei”, gravitam em torno dos espaços que formam, não exaustivamente, a configuração do lugar imaginado pelo poeta.  
Obviamente que a idealização deste lugar, que não existe, é mero fruto da imaginação que se alimenta do jogo de ideias resultantes da avidez do desejo de mais e melhor da parte do sujeito poético, inconformado com o que possui. Esta operação mental expressa-se, na 1.ª estrofe, pela metáfora hiperbólica e oximórica de “ilhas lá ao sul de tudo” – não pode haver sul ao fundo de tudo, mas apenas em relação a um determinado ponto –; pela asserção autocontradicente da existência de “paisagens que não pode haver”; pelo juízo altamente valorativo dessas paisagens esboçadas pela “imaginação anoitecida”, expresso pelo grupo adjetival “tão belas” a postular a oração subordinada adverbial consecutiva com que ficam enganchadas a oração subordinada adverbial comparativa e a subordinada adjetiva relativa restritiva; pela comparação das paisagens com o veludo; pela metáfora veludo-mundo, que torna extensiva a todo o mundo a textura que enforma aquela paisagem idealizada pela imaginação poética fértil e extravasante.
Enfim, o poeta triturado pelas andanças da vida, descontente da sua sorte familiar, sofrido pela itinerância, sem a profissão almejada, sem sucesso no amor, abandonado dos amigos e refugiado no álcool, encontra pascigo no produto da imaginação, que lhe dá ilusoriamente, neste momento poético, a macieza do veludo, pespegada nas “vegetações” viradas para o mar, no coral, nas encostas, da 2.ª estrofe – acumulação de elementos sintetizados naquele pronome indefinido, feito quantificador universal “tudo”, palavra-chave da estrofe e que os faz desembocar metaforicamente na “vida”, no “amor”, na “luz”, no “sonho”. Mais: tudo isto que o poeta evoca a sugerir descrição valorativa é dádiva do sonho à imaginação anoitecida. Será a noite romântica em que o poeta se refugia para se encontrar consigo, sofrer por via do muito imaginar e sentir ou a sensação de que a vida lhe está a fugir debaixo dos pés ou a desviá-lo do abismo em que teima precipitar-se?
Lá está. A 3.ª estrofe dá-nos já não só a imaginação do lugar idealizado, mas a sua visualização concreta (isso) e totalizante (tudo), “vejo isso tudo”, na linha do fingimento como técnica poética, ou seja, o pensamento como ficção, tornando palpável o imaginado, tal como faz a criança, que joga ao faz-de-conta. Neste sentido, o poeta vê “o mesmo vento” das vegetações, do coral ou do mar, o mesmo vento que agita os ramos das árvores a passar de leve (note-se a antítese: “agita os ramos em torpor”, mas “passa de leve” pelo pensamento do poeta). E, ainda, no jogo do faz-de-conta, surge a forte subjetividade da metáfora avaliativa do pensamento-amor – um instante de enlevo amoroso, talvez a compensar a falta de correspondência ao amor que sente por alguém, o que o leva a refugiar-se no êxtase poético.
Nas outras duas estrofes, há o reforço do empenhamento discursivo do “eu” poético na afirmação da beleza do que a sua imaginação observa plasmado no emprego da forma verbal “sei”, mas agora a iniciar o verso, seguida elo conector de afirmação “sim”. A par disso, o sujeito poético tem a consciência clara de que o espaço imaginado é tão distante que se lhe torna inacessível. Porém, faz de conta que existe. Atente-se no animismo “dorme” e no visualismo da “cor” e no caráter finito (fim) daquele espaço idealizado (contrasta com a idealização), que resultam na confissão do poeta de que, mesmo que tal não exista, é uma parte de si. Teremos aqui a fragmentação do “eu” ou a sua aniquilação, dado que o “eu” se identifica com a não existência? Que poder do sonho, da desilusão da vida ou a da vontade de viver pela antítese da vida!
Se o “sei” do verso 13 abre para as variantes da anáfora das primeiras três estrofes, o primeiro verso da última (v. 17), confirma a anáfora a que junta a diácope a iteração da afirmação “sei” a propósito do “tudo” que o poeta sabe, porque o imaginou e sonhou. E a anáfora mete-se pelo meio do verso para enformar o oxímoro “não é lá que há isso que lá está”, que insinua a transcendência desse espaço. Ou seja, o poeta sabe que não pode aceder a ele, mas sabe da luz que dá origem aquela paisagem e sabe o caminho para a ceder a essa luz. Enfim, no meio da desilusão, tédio e desamparo, o poeta tem a esperança que lhe dá azo à resignação a esta vida e o incita a procurar outra bem melhor. E ele o sabe (vd v. 19, iniciado por “sei”, último lanço da anáfora).
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Os organizadores da prova pretendiam que o examinando, considerando que, “nas três primeiras estrofes, o sujeito poético descreve um lugar idealizado”, apresentasse duas caraterísticas desse espaço exemplificando cada uma delas com uma transcrição pertinente.
Já insinuei que o predito espaço, ao invés de fruto da idealização, enquanto lugar a atingir, não passa de produto da imaginação de quem sonha (ou seja, dom do sonho à imaginação vespertina). Agora devo dizer que o lugar não é descrito, mas apenas pincelado por um conjunto de elementos, que poderiam servir de subsídios para uma descrição que vão acumulando até desembocarem no “tudo” que apontei e de que dimanam, não em perspetiva linear, uma série de outros elementos que a acumulação desmultiplica. E não acredito que os professores de Português não tenham ensinado aos alunos em escola o conceito e as técnicas da descrição! Posto isto, devo dizer que, se os critérios de correção não foram alterados ao longo do processo de avaliação da prestação na prova, as hipóteses de resposta me parecem decorrentes da boa leitura do poema, sendo importante atender que, além dos tópicos avançados, devem ser considerados outros igualmente relevantes que o aluno apresente. São elas: espaço de sonho/espaço da imaginação – “Onde há paisagens que não pode haver” (v. 2)/ “Sei, sim, é belo, é longe, é impossível” (v. 13)/ “E, ainda que não haja” (v. 15); espaço belo, suave e acolhedor – “Tão belas que são como que o veludo” (v. 3); espaço perspetivado como promessa de felicidade – “tudo o que é a vida / Tornado amor e luz” (vv. 6-7); e espaço propiciador da ilusão do amor – “Passa de leve por meu pensamento / E o pensamento julga que é amor” (vv. 11-12).
Não obstante, tendo sido mencionadas as três primeiras estrofes, devia ter sido explicitamente indicado que o suporte da resposta à questão podia ser encontrado também nas outras. 
Depois, era pedido que o aluno explicasse “o conteúdo dos versos 3 e 4” e o relacionasse com “a temática pessoana em evidência no poema”. E as sugestões de resposta são: a “comparação entre a beleza das ilhas e o veludo”, para sugerir a suavidade/a felicidade que o mundo pode proporcionar, se existir harmonia/se a tessitura dos seus elementos for harmoniosa; e o enquadramento na temática do sonho e da realidade, na medida em que as ilhas imaginadas permitem ao sujeito poético vislumbrar um mundo de plenitude a que, no entanto, só pode aceder através do sonho.
Se nada tenho a apontar em relação à 2.ª, a meu ver, a 1.ª sugestão não mostra claramente a ligação à temática pessoana, a menos que se considerem alguns aspetos estilísticos, como o arrojo da comparação entre as ilhas e o veludo, pinçando a sua beleza que se faz coincidir, de certo modo como a macieza, que dá comodidade e afago a quem sente a aspereza da vida, em compensação da inquietação, da angústia existencial, da solidão interior, da melancolia da resignação, ou do tédio, da náusea, do desencontro dos outros, do desamparo, e da nostalgia do bem perdido e do mundo fantástico da infância feliz – aspetos vivenciais e de introspeção-extroversão ultrapassados poeticamente no enlevo da beleza visualizada no sonho. Por outro lado, podia ter-se explorado a musicalidade e o ritmo dos versos, como marca da reminiscência da felicidade vivida na infância e como amostra da transfiguração da emoção pela razão.           
Por fim, era pedido ao estudante que explicitasse dois sentidos das anáforas e das suas variantes (vv. 1, 5, 9, 13, 17 e 19), tendo em conta o desenvolvimento temático do poema. E as sugestões de abordagem, a que nada oponho, são: a afirmação da consciência de que o espaço descrito existe apenas no sonho; a afirmação da certeza de que o espaço descrito é um espaço de felicidade, mas também de que, sendo fruto do sonho, é inacessível; e a afirmação da consciência de que o sonho é inerente à essência do sujeito poético.
Repito como plausível que os organizadores da prova tenham acautelado a consideração tópicos relevantes, além dos sugeridos, o que mostra que não têm a arrogância de quem sabe tudo e que reconhecem a capacidade de o aluno pensar e encontrar meios de análise.
No entanto, essa capacidade de pensar, de analisar e sintetizar era mais visivelmente solicitada nas velhas provas de Português A. Por exemplo, o grupo I, perante o poema “Visita”, de Torga, pedia: “Elabore um comentário ao poema que integre o tratamento dos seguintes tópicos: traços caraterizadores do sujeito poético; importância das referências ao ato de ver; aspetos formais e recursos estilísticos relevantes; valor simbólico de “mar”. O grupo II solicitava a redação de um texto expositivo-argumentativo bem estruturado, de 200 a 300 palavras, considerando e comentando o juízo crítico apresentado numa frase apresentada a propósito de Cesário Verde. E o grupo III mandava resumir um texto crítico sobre “Os Maias”, estipulando um mínimo e um máximo de palavras a utilizar.   
Ora, atualmente a prova vem com 3 grupos, em que o 1.º tem dois textos (partes A e B) com três questões cada um e uma questão (parte C) que serve de rampa de lançamento para uma exposição sobre uma obra do programa. A seguir, vem um grupo II com um texto não literário armadilhado com 7 questões (de interpretação textual, estilística e gramática). E, por fim, um grupo III, com a obrigação da elaboração dum texto de opinião bem estruturado sobre o tema proposto, com um mínimo de 200 palavras e um máximo de 350, com dois itens de exigência. Assim, o tempo de 2 horas pode não ser suficiente para o aluno médio pensar, ponderar. Dizem que as provas são pobres. Talvez o sejam na prestação do aluno. Mas penso que o enunciado é demasiado extenso. Dizer que é fácil é enganoso. Eu queria ver os organizadores a fazer a prova em duas horas…         
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Por fim, em jeito de justificação para o exposto acerca do texto pessoano, deixo uma resenha das linhas da tessitura da poesia pessoana ortonímica.
Uma das suas linhas temáticas é a nostalgia da infância, que irrompe como consequência do desejo de regresso do poeta aos tempos da infância feliz e inocente – época longínqua do bem (da unidade, da inconsciência e da verdade) –, sem o drama da dor de pensar, mas sinónimo de segurança, pureza e felicidade. E o poeta evoca esses tempos através da memória que lhe traz angústia e solidão, ao aperceber-se de que essa época não é mais que um paraíso longínquo, perdido na memória do tempo. E, negando-lhe a felicidade, o Presente funciona como o marco de sublimação do Passado, abrindo passagem à nostalgia dessa infância lembrada e esquecida.
Outra linha temática é a dor de pensar, com a dualidade da consciência-inconsciência e a problemática do sentir-pensar. O poeta, ser consciente, sente que a extensão dos seus sentimentos é diminuída pela vastidão do pensamento a corromper a inconsciência inerente à felicidade de viver, pelo que a consciência lhe surge como fardo e fatalidade que desencadeiam no poeta o estado de desencanto e impotência face ao absurdo da existência, já que, por um lado, não se liberta do peso da reflexão e, por outro, não alcança a alegre inconsciência de outros, mantendo-se intacta a sua própria consciência. Simplesmente paradoxal, pois consciente de que nunca será consciente, sofre a dor de pensar e paga caro a extrema lucidez que possui.
Por sua vez, o contraste sonho/realidade é tema que perpassa a poesia retratando a multiplicidade do “eu” introspetivo, inquieto e desdobrável noutros seres, despersonalizando-se. Marcado pelo fluir contínuo do tempo, Pessoa sente-se separado de si, distante do passado e do futuro, restando-lhe o ser que é no instante que passa e não o que existe na duração do tempo. Assim, o poeta exprime um misto de inquietação e absurdo ante a divisão do ser que o faz sentir-se estranho a si mesmo, fragmentado entre o real e o ideal e acabando por ser um ser perdido no labirinto de si, não encontrando o fio que o levaria à saída e ao equilíbrio interior.
E também o fingimento poético constitui uma das dialéticas desta poesia, em que o poeta sofre uma forte tensão conducente ao antissentimentalismo e à intelectualização da emoção. Para o emissor poético, fingir é inventar, elaborar conceitos que exprimem emoções, gerando nova conceção da arte, antirromântica, despersonalizada, expressão de sensações intelectualizadas, onde ocupa o papel principal a imaginação e a arte é criada a partir de inspiração individual. Pessoa não transmite a emoção pura e simples, mas submete-a sempre ao exame da inteligência e da razão poética, deixando que o seu cadinho a racionalize, desviando-se do sentimentalismo tradicional. Assim, a arte nasce da realidade e consiste no fingimento dela realidade, ou seja, na sua intelectualização materializada em texto. Neste âmbito, a composição poética nunca ocorre no momento da emoção, mas no momento da recordação dessa emoção.
Em suma, Pessoa ortónimo desenvolve as seguintes linhas de sentido: procura da decifração do enigma do ser; fragmentação do eu e perda de identidade; pendor filosófico; obsessão da análise, dor de pensar e lucidez; fuga da realidade para o sonho; incapacidade de viver a vida; inquietação, angústia existencial, solidão interior, melancolia, resignação; tédio, náusea, desencontro dos outros e desamparo; nostalgia do bem perdido e do mundo fantástico da infância; fingimento poético; e transfiguração da emoção pela razão. 
A nível do estilo, releva-se a preferência pela métrica curta (5 ou 7 sílabas – redondilha menor ou maior, respetivamente); a influência do lirismo lusitano (reminiscência da cantiga de embalar, toadas do romanceiro, conto de fadas);  gosto pelo popular (uso frequente da quadra/quintinha; rima cruzada); linguagem simples, espontânea, mas sóbria; criação de metáforas inesperadas, uso frequente do paradoxo;  versos leves com recurso frequente à interrogação, à exclamação, às reticências.
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Enfim, um poeta leve, mas complexo.
2019.07.01 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Padre e poeta, profeta e apóstolo


Ainda está fresca na retina da memória portuguesa a nomeação, pelo Papa Francisco, do Padre e poeta português José Tolentino Mendonça, ocorrida no passado dia 26 de junho, como arquivista do Arquivo Secreto do Vaticano e bibliotecário da Santa Sé, passando a tutelar a mais antiga biblioteca do mundo e sucedendo na liderança daqueles serviços ao Arcebispo francês Jean-Louis Bruguès.
O Arquivo Secreto do Vaticano conserva os documentos relativos ao governo da Igreja para, antes de tudo, estarem à disposição da Santa Sé e da Cúria no desempenho do próprio trabalho, e para que depois, por concessão pontifícia, possam representar para todos os estudiosos de história fontes de conhecimento, mesmo profano, das regiões que há séculos estão intimamente ligadas com a vida da Igreja. E a Biblioteca Apostólica do Vaticano apresenta-se como “instrumento da Igreja para o desenvolvimento, a conservação e a divulgação da cultura” e, constituída pelos Papas, oferece, nas suas várias secções, “tesouros riquíssimos de ciência e de arte aos estudiosos que investigam a verdade”.
O sacerdote português, até agora vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e diretor da Faculdade de Teologia (por decreto de 22 de maio de 2018, da Congregação para a Educação Católica), foi ainda elevado à dignidade de Arcebispo de Suava, no Norte de África.
O novo Arcebispo, que iniciará funções como arquivista do Arquivo Secreto e bibliotecário do Vaticano no dia 1 de setembro, foi convidado para orientar o retiro anual de Quaresma do Papa Francisco e da Cúria Romana (que decorreu entre 18 e 23 de fevereiro, em Ariccia, nos arredores de Roma), convite que então o deixou tão surpreendido que achou ter “sonhado” com isso.
Conhecido por utilizar referências à literatura nas meditações religiosas, Dom José Tolentino Mendonça chegou a citar Fernando Pessoa nas meditações apresentadas ao Papa Francisco, que lhe agradeceu por conseguir estabelecer uma ponte entre os textos bíblicos e a literatura secular.
Considerando o convite do Papa como uma grande honra para a Igreja portuguesa, para Portugal e para a UCP, a reitora Isabel Gil Capeloa lembra, em comunicado, que Tolentino Mendonça tinha assumido o pelouro das relações culturais e bibliotecas da Católica nas últimas duas equipas reitorais. Segundo a reitora da UCP, o Professor “contribuiu para tornar a atividade artística um eixo central da ação da Universidade Católica Portuguesa, incentivando um diálogo renovado e fecundo com a sociedade através da sua intervenção cultural e literária” e trabalhou no desenvolvimento do Código de Ética e Deontologia da UCP.
O novo arquivista e bibliotecário da Santa Sé manifestou à agência Ecclesia a sua determinação de “servir a Igreja na Cultura”, referindo:
A Cultura faz-nos viajar à raiz arquitetural da pessoa, àquilo que constitui o núcleo fundante da sua aventura existencial, mas também nos permite interrogar e iluminar o seu horizonte de sentido”.
Dom José Tolentino Mendonça sustenta que a sua missão como “Arquivista e Bibliotecário da Santa Igreja Romana” se insere numa tradição papal de “conservar num arquivo próprio a memória dos mártires e a gesta dos pastores, bem como os livros que asseguravam a atividade litúrgica e as necessidades administrativas da comunidade eclesial”. O Arcebispo salienta que há, desde o século VIII, notícias da existência duma biblioteca, enriquecida ao longo dos tempos com “monumentais e preciosos espólios”, que colocam a atual Biblioteca Apostólica Vaticana entre “as mais fascinantes instituições culturais do mundo”. Diz o novel prelado:
O arquivo e a biblioteca são assim lugares referenciais da memória específica do cristianismo, mas também da cultura universal; são espaços de ciência e de construção de pensamento, procurados por investigadores de todo o mundo que ali encontram o rastro da história e a capacidade que esta tem de iluminar o presente; são grandes repositórios daquela beleza capaz de ferir de infinito o coração humano”.
Para este colaborador do Papa, a Cultura é uma das “fronteiras proféticas” para o catolicismo de todos os tempos e, “de um modo talvez ainda mais incisivo, para o catolicismo contemporâneo”. Neste sentido, declarou:
A cultura documenta o que somos, é verdade. Mas espelha e potencia as grandes buscas interiores, o contacto com as grandes perguntas, a vizinhança das razões maiores que funcionam como patamares do caminho a que a nossa humanidade vai chegando, a proximidade daquele vastíssimo e inconsútil silêncio que, porventura ainda melhor do que a palavra, exprime em nós o mistério do Ser.”.
No pontificado de Francisco o Arcebispo destaca a “arte do encontro” que o Papa tem promovido e que encontra na Cultura “um espaço de desenvolvimento natural”, aliás na linha dos antecessores, embora com um tom muito próprio. E, sobre a cultura, diz neste sentido:
A Cultura, no seu sentido mais verdadeiro, é prática de escuta, de atenção, de intercâmbio e de interdependência; é exercício interminável de hospitalidade. Não admira que um dos serviços que a Igreja de cada tempo presta ao futuro seja, por isso, o investimento no diálogo entre a Fé e a Cultura, que constitui um horizonte inequívoco para uma apresentação credível do Evangelho ao coração das mulheres e dos homens nossos contemporâneos e uma reparadora fonte de esperança e de paz.”.
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Dom José Tolentino Mendonça nasceu em Machico (Região Autónoma da Madeira) em 1965 e foi ordenado sacerdote em 28 de julho de 1990. Deslocou-se para Roma, onde concluiu, no Pontifício Instituto Bíblico, o mestrado em Ciências Bíblicas. Regressado a Portugal, ingressou na UCP, onde foi capelão e lecionou as disciplinas de Hebraico e Cristianismo e Cultura. Aí se doutorou em teologia bíblica, tornando-se seu professor auxiliar. Dirigiu até ao ano de 2014 o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, da Igreja Católica em Portugal, de que foi o primeiro Diretor e a revista Didaskália editada pela Faculdade de Teologia. As linhas de investigação privilegiadas do teólogo e poeta são Bíblia e literatura, teologia de Paulo, representações de Jesus nos textos cristãos e na cultura contemporânea, a par do tema do corpo nos textos cristãos das origens.
O novo Arcebispo, consultor do Conselho Pontifício da Cultura (Santa Sé) desde 2011, por designação de Bento XVI, era capelão na Capela do Rato e na UCP, foi reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, e era diretor da Faculdade de Teologia da UCP. O seu livro “A Mística do Instante” foi galardoado com o Prémio literário Res Magnae 2015, um importante prémio italiano atribuído no campo da ensaística. Foi o primeiro português e o único não italiano, até à data, a receber este prémio. Em 2016, a sua obra de cronista foi distinguida com o prémio APE e a sua obra poética com o Prémio Teixeira de Pascoaes. A 9 de junho de 2016, foi designado Membro do Conselho das Antigas Ordens Militares. E, em 2012, foi considerado um dos 100 portugueses mais influentes em 2012, pela REVISTA do jornal Expresso.
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Este padre poeta é um exemplo do que devia ser qualquer sacerdote: poeta, profeta e apóstolo.
Com efeito, Deus é poeta por Se comunicar-se por versos e metáforas. É certo que a Sua linguagem, carregada de símbolos, é hermética, misteriosa, para o coração duro e rude, e que, para O entender, se precisa de ouvido espiritual, sensível ao êxtase transcendental, mas, quando Deus declama, o universo dança, as donzelas e os jovens saltam de alegria, as crianças sorriem e gritam e os anciãos e anciãs têm sonhos e visões. E todos fazem associar-se a si a terra, o mar e o firmamento, os animais e plantas e as próprias pedras para enarrarem as maravilhas de Deus.
Por que nos criou à Sua imagem e semelhança, Deus põe os Seus olhos na procura e na mira de homens e mulheres disponíveis para encarnar os divinos sentimentos. Ora, nesta linha, vêm os profetas, que foram todos chamados e enviados por Deus para, por metáforas e imagens, porem dramaticamente o dedo nas chagas sociais, morais e religiosas cavadas pelos homens, anunciarem, na alegria do Espírito, o compromisso de Deus com a vida e construírem as sólidas plataformas da esperança messiânica, vindo, as plantas venenosas congraçar-se com as sãs, os animais opostos a juntar-se em convivência e as espadas da guerra a transformar-se em relhas de arado – e, na doçura do poema inspirado, se eleva ao Altíssimo o melhor hino à vida e ao amor.   
Porque o compromisso de Deus é só com a vida, o Senhor faz alçar homens e mulheres que se indignam com a sordidez, mas se apaixonam com o sublime. E toda a sua profecia é vertida em linguagem poética. Inundados do Espírito de Deus, os profetas cantam em elevado lirismo o sentimento do amor devotado, infinito e misericordioso de Deus para com o Seu Povo, o ser humano, e cantam a resposta eucaristicamente anafórica do Povo e do Homem ao seu Deus. Se dramaticamente levam ao Deus da misericórdia a miséria e debilidade humanas para que Se apiede, também com a ousadia recebida do Alto põem a humanidade a cantar a épica Odisseia do Deus que desceu à condição humana para o elevar ao patamar da condição divina, tornando-o filho com o Filho e com Ele herdeiro dos tesouros da Verdade, da Bondade e da Beleza.  
A vocação poética do profeta pode não o levar ao jeito de fazer rimas ou versos segundo qualquer métrica tradicional, mas leva-o ao derrame das lágrimas sobre o ambão da preleção, ao suor do esforço da caminhada à procura de quem precisa de chamada de atenção, conforto, metanoia, a sangrar no texto que deseja que perdure para a posteridade. A expressão rítmica do coração de Deus vaza na tinta da sua pena. O poeta-profeta pressente o que presente deveria ser, mas ainda não é; e vê-se convocado para reencantar os desanimados, curar os desesperançados, destilar beleza de mundos imaginários em terras áridas. E esta atividade dá-lhe o júbilo de Deus.
A matéria-prima do profeta é a poesia. Como artesão de polifacetados vasos de cristal ou oleiro de frágeis vasos de barro, o poeta-profeta maneja a palavra com simplicidade natural, mas com encantadora delicadeza. Pretende mostrar que o quotidiano, nas suas perversas contradições, poderia seguir por outra via. O poeta-profeta derrama-se como óleo perfumado no texto que é todo seu, mas que se torna todo para os outros porque o recebeu de Deus; faz-se lenho do fogo abrasador que aquece a história e gera a luminosidade que dá a vista aos cegos; torna-se mola do coxo que precisa de andar, estímulo para o surdo que precisa de ouvir, bálsamo para o doente que necessita da cura, farinha e água para quem precisa de pão e de água para saciar a fome e a sede. Ansioso por conjugar os extremos na síntese promotora do bem, sabe que o único Absoluto é o Amor, o único Bem é Vida e o único Alvo é a valorização do instante de Deus.
Como o poeta-profeta é o apóstolo. Porém, enquanto o profeta se constitui chamado, predestinado e discípulo mediante uma teofania em que não pôde ver o rosto de Deus, o apóstolo constitui-se como discípulo privando com o Deus encarnado em Seu Filho Jesus, sendo convidado a segui-Lo, ouvindo-O no quotidiano, partilhando com Ele o banquete da Salvação, o trabalho, os direitos e as obrigações; sente com Ele o momento da celebração da Aliança, come do Seu corpo e bebe do Seu sangue. Depois, tem o privilégio de rezar com o próprio Jesus/Deus. Não assistiu à Sua morte porque teve medo ou, se assistiu, recebe como testamento da caridade divina a Mãe do próprio Deus e confia-se a Ela. Tem mãe. Fixa e contempla o Ressuscitado e com alegria, movido pela força do Espírito Santo, vai anunciar que Aquele que estava morto vive e é constituído o Senhor em quem encontramos o perdão. E esta mensagem é comunicada a partir de Jerusalém, em círculos concêntricos, até aos últimos confins da Terra.
Queremos melhor pretexto para o dinamismo poético-profético-apostólico?
Mas há mais. Enquanto os profetas antigos tinham uma missão provinda dum passado teofânico, mas nubloso, com vista à aquisição das coisas que iriam acontecer, o apóstolo é enviado porque foi constituído testemunha ocular e auditiva (ou equivalente nos seus fundamentos) de factos já ocorridos que persistem no presente e permitem um futuro assente não apenas na esperança, que se reforça como força motriz, mas sobretudo na abundância da caridade divina que se torna mandamento irrecusável com intensidade pessoal e abrangência universal tornada marca indelével e contagiante dos novos seguidores, discípulos e apóstolos – quiçá mártires até ao sangue ou professores da fé até à entrega ilimitada, heroica e docente.
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Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé rejeitam redomas, estufas, viveiros, gaiolas. Quererem diminuir-se para que Ele cresça. Não aprisionam a mensagem, o mistério, o projeto. Comunicam-no, divulgam-no, consolidam-no, celebram-no.
Trocam os tapetes pelo chão batido. Solitários, não se vergam aos homens; só obedecem a Deus, que marca o compasso do próprio coração; indomáveis, revoltam-se com o trivial; irrequietos, perturbam o normal. São verdadeiros revolucionários da ternura e da misericórdia de Deus. Fazem a poesia da vida e transformam a desgraça em sublimação do desígnio divino presente nos homens mais pobres, doentes, descartados ou no coração das almas generosas, dedicadas. De gente dispersa constroem a comunhão, com indivíduos isolados fazem comunidade viva na fé, na esperança e no amor. É a verdadeira poesia factiva!
Poetas-profetas discípulos-apóstolos, mártires-professores da fé não defendem a própria reputação. Alvos fáceis dos ímpios quando negam a história, só as gerações futuras lhes fazem justiça. Pedras do meio do caminho incomodam; indestrutíveis, semeiam trigo que se fará o pão do idealista, do revolucionário, mesmo que perturbado pelo crescimento irritante da cizânia.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé é alquimista, pois faz das palavra poção encantante e o seu feitiço condimenta a vida. Cria sabores exóticos; usa verbo forte, inebria a imaginação e gera o sonho. Conhece o segredo de transformar o transcendental no plausível. Alado, vive nas nuvens, mantém parceria perpétua com os anjos e adora a Deus em espírito e verdade, na intimidade do quarto, no interior do Templo, no silêncio das montanhas ou no bulício das praças. Escuta a bruma do vale, agasalha-se sob o manto platinado da lua e expõe-se ao fulgor e calor do sol. Não teme ausências e a solidão não o intimida. É selvagem como o tigre, altivo como a águia e acutilante ou encantador como a serpente.
Poeta-profeta discípulo-apóstolo, mártir-professor da fé nascera no pé do arco-da-velha; salvo das águas, cresce como o cedro do Líbano; sensível, plora com o dedilhar da harpa; torna-se parceiro dos humildes, dos mansos e dos puros de coração. Contudo, o seu destino é a cruz.
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Que de junto de São Pedro e imerso na sua Cultura, Dom José Tolentino, brilhe com a poesia, a profecia e o apostolado.
2018.07.02 – Louro de Carvalho

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Luís Veiga Leitão, um poeta e militante antifascista

Desta vez, tenho o prazer de dar a conhecer o perfil e a obra, embora de forma diáfana, dum escritor e poeta oriundo das conhecidas por Terras do Demo, denominação aquiliniana. Estou a referir-me a Luís Veiga Leitão de que há, além da produção literária, as seguintes memórias:
- Uma placa na casa onde nasceu em Moimenta da Beira;
- A Galeria Municipal Luís Veiga Leitão e a Rua Luís Veiga Leitão, em Moimenta da Beira;
- A Rua Luís Veiga Leitão, no Porto.
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Luís Veiga Leitão é o pseudónimo de Luís Maria Leitão, que nasceu em Moimenta da Beira a 27 de maio de 1912 e faleceu, com a idade de 75 anos, durante uma visita ao Brasil, em Niterói, a 9 de outubro de 1987.
Viveu a meninice e a adolescência/juventude na freguesia de Penso, do concelho de Sernancelhe, residindo na Quinta de São Luís.  
Foi um poeta e artista plástico, membro do grupo literário Germinal, e militante antifascista, sendo obrigado a exilar-se devido à perseguição pelo regime político iniciado em 1926 e consolidado em 1933. Era amigo do poeta brasileiro Odilo Costa Filho, tendo feito o seguinte elogio ao brasileiro: “Poeta do amor pelo amor / das coisas, dos bichos, do ser”.
Lutou, ainda durante o tempo de estudante, pela criação de uma universidade livre, empreendimento inviabilizado pela galopante ascensão do regime ditatorial no início da década de 30, que sobreviveu com o rosto de Estado Novo até 1974. Publicou, em 1950, “Latitude”, uma coletânea de poemas, vindo a sofrer, dois anos depois, a prisão política no forte de Caxias, onde magicou as composições, que, três anos depois, formaram a obra “Noite de Pedra”, cuja publicação foi apreendida pela polícia política. Muitos destes poemas conheceram tradução em várias línguas – castelhano, inglês, francês, grego, russo, albanês, italiano, checo, búlgaro, alemão… – e integram muitas das melhores antologias da moderna poesia portuguesa, nacionais e estrangeiras, como: Ciclo de Pedras (1964); Sonhar da Terra Livre e Insubmissa (1973); Longo Caminho Breve – Poesias Escolhidas (1943 e 1983); e Biografia Pétrea (1989).
Pela sua hostilidade ao regime salazarista, foi demitido de escriturário da 7.ª Brigada Cadastral da Federação dos Vinicultores da Região do Douro, atividade aonde ingressara após a conclusão do ensino liceal. Não obstante, não desistiu das suas ideias e percorreu todo o país e algumas terras europeias como delegado de informação médica ao serviço de laboratórios farmacêuticos nacionais e estrangeiros.
A partir de 1957, foi também cronista de viagens e costumes e artista plástico dedicando-se ao desenho. Sob os auspícios da Universidade de Aix-Marseille, de cuja Faculdade de Letras foi professor, inaugurou um curso de traduções de português com base em modernos textos literários. Foi escritor e conferencista, com André Joucla, no Collège Internacional de Cannes.
Foi codiretor de “Notícias do Bloqueio”, fascículos de poesia, e membro da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e da Associação Portuguesa de Escritores.
Em 1959, a “Arnaldo Trindade” (Porto e Lisboa) editou um disco “Gravação Antológica da Poesia Portuguesa”, música e voz, da coleção “Orfeu”, com poesia de Luís Veiga Leitão. Em, 1974, a mesma editora lançou novo disco “Noite de Pedra”, com música de Rão Kyao.
O poeta, de feição neorrealista, colaborou nos suplementos literários da imprensa diária e em revistas, como “Seara Nova”, “Vértice”, “Colóquio/Letras”, etc. Também colaborou em revistas estrangeiras, como “Belles Paroles”, “Poet An International Monthly” e “Humboldt”.
Integrou, pela feitura temática, ao lado dos poetas Egito Gonçalves e Papiano Carlos, uma antologia organizada sob a epígrafe feita de um verso de Daniel Filipe “Sonhar a terra livre e insubmissa”. E, em 1964, surgiu o seu terceiro livro “Ciclo de Pedras”, editado pela Portugália Editora, Lisboa, na coleção “Poetas de Hoje”.
Foi em meados de 1967 que se radicou no Brasil, passando a morar no Rio de Janeiro e em Niterói e exercendo ali múltiplas atividades: redator, bibliotecário, desenhador, pesquisador iconográfico, leitor profissional, autor e locutor de programa televisionado acerca da moderna poesia portuguesa. Integrou uma equipa multidisciplinar, que incluía também sociólogos e economistas, sobre a produção do livro no Brasil (parceria da Fundação Getúlio Vargas e MEC). Colaborou no “Jornal do Escritor”, Rio de Janeiro, e no suplemento literário de “Correio do Povo” e proferiu conferências e palestras em vários estabelecimentos de ensino secundário e superior.
Antes e depois do seu regresso a Portugal em 1976, já em plena era democrática, autografou, no Rio de Janeiro e em Niterói, o “Livro de Andar e Ver(com prefácio de Jayro José Xavier), publicado por Robson Achiamé Fernandes, editor, na primeira daquelas cidades. A segunda edição da mesma obra saiu em 1978, em Lisboa, editada pel’ “A Regra do Jogo”. Entretanto, em 1977, a “Oiro do Dia” e ditou a plaquete “Linhas do Trópico”.
***
Luís Veiga Leitão foi, pois, escritor e poeta, cronista e conferencista, professor e publicista, bibliotecário e desenhador, pesquisador e leitor profissional. Trabalhara como escriturário e como delegado de informação médica. Foi um homem que passou um pouco por tudo na vida, em Portugal e no estrangeiro, na prisão por motivos políticos e em liberdade, na pátria e no exílio, em ditadura e em democracia. De perfil e trabalho plurifacetados, manteve, contudo, um denominador comum – as letras e o grafismo. A sua poesia reflete o inconformismo e a amargura, o sentimento e a esperança. Foi o homem que a vida deu e que se deu à vida.
As suas principais obras são: Latitude, Régua, Imprensa do Douro, 1950, com desenhos do autor e carta-prefácio de Ferreira de Castro; Noite de Pedra, Porto, 1955, com ilustração de Augusto Gomes; Dispersas, in “Ciclo de Pedra” (antologia), Lisboa, Portugália Editora, 1964, organizada pelo autor, com prefácio de Fernando Guimarães; Sonhar a terra livre e insubmissa…, em colaboração com Egito Gonçalves e Papiniano Carlos, Porto, Editorial Nova, 1973; Livro de Andar e Ver, Rio de Janeiro, Robson Achiamé Fernandes, Editor, 1976, e Lisboa, A Regra do Jogo, 1978, com desenhos do autor e prefácio de Jayro José Xavier; Linhas do Trópico, Porto, Editorial Nova, 1977, com desenhos de Veiga Luís; Figurações, in “Longo Caminho Breve – Poesias Escolhidas” (antologia), 1943-1983, Lisboa, INCM, 1985, organizada pelo autor, com prefácio de Fernando Guimarães; Livro da Paixão – Para Ler e Contar, Lisboa, Ulmeiro, 1986, com ilustrações de Veiga Luís; Novos Poemas, in “Biografia Pétrea” (antologia), Brasília, Thesaurus Editora, s/d (provavelmente póstuma de 1989), organizada e prefaciada por António Roveral Mikten; e Rosto por Dentro, Porto, Edições Afrontamento, edição póstuma, 1992, organização de Fernando Guimarães, Lucinda Araújo e Luís Adriano Carlos.
Em 1997, Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro coligiram num volume sob a epígrafe de “Obra Completa” a produção literária do escritor e poeta Luís Veiga Leitão, com nota à edição pelos organizadores e com introdução e notas de Luís Adriano Carlos. É uma edição de “Campo das Letras”, Porto.
A edição contém Obra Poética e Prosas. Em Obra Poética, temos Latitude, Noite de Pedra, Dispersas, do Livro de Andar e Ver (que também tem prosas), Linhas do Trópico, Figurações, Livro da Paixão – Para Ler e Contar e Rosto por Dentro; em Prosas, temos Livro de Andar e Ver (que também tem poesia), Crónicas Ambulantes, Pescador à Linha e Palavras Puxam Palavras, com Textos de Autorreflexão, Textos de Crítica Literária e Textos Políticos.
***
Aqui deixo um poema de Luís Veiga Leitão para leitura:
Acompanhamento Lírico

Desceu a nuvem. E de vale em vale
a manhã ficou pálida suspensa
Árvores lama fronte de quem pensa
vestem de branco um branco glacial
Como flecha de lume no vitral
também minha alma que brilhou intensa
novamente afogou sua presença
no fundo de uma túnica irreal
E levo-a
pelo mar fora pelo mar da névoa
sob o silêncio húmido profundo
em cujas mãos de lágrimas deponho
o mutilado corpo do teu sonho
corpo sem asas de voar no mundo

2017.12.05 – Louro de Carvalho