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domingo, 12 de agosto de 2018

A primeira das Damas Pobres da Ordem dos Menores


Celebra a Igreja Católica, a 11 de agosto, a memória litúrgica de Santa Clara, virgem, a primeira das Damas Pobres da Ordem dos Menores, que, no seguimento da via espiritual de Francisco, abraçou em Assis uma vida austera, mas rica em obras de caridade e piedade. Amou de tal modo a pobreza, voluntariamente assumida, que nunca mais quis dela separar-se, nem sequer na extrema indigência e na enfermidade.
Imitando o exemplo do concidadão Francisco de Assis – filho de um rico comerciante, a cuja riqueza renunciou livremente para despojadamente abraçar a pobreza –, quis institucionalizar o ramo feminino daquele carisma fundando a Ordem monástica das Clarissas.  
Clara, cujo nome significa “aquela que resplandece”, nasceu em Assis com o nome de Chiara d’Offreducci, no ano 1193, a 16 de julho, no seio duma família da nobreza italiana, muito rica, que lhe deu uma educação à altura da sua elevada condição social e onde possuía de tudo. Porém, o que a donzela, que desde cedo se sentiu vocacionada para a vida de oração e para as obras de caridade, mais queria era seguir os ensinamentos de Francisco, com quem entabulou conhecimento na Quaresma de 1212. Aliás, foi a primeira mulher da Igreja a entusiasmar-se com o ideal franciscano, contrariando a família.
Depois de ver e ouvir Francisco, escolheu-o para seu orientador espiritual. E, cada vez que conversava com Francisco, voltava para casa determinada a romper com as coisas do mundo e a entregar-se totalmente a Deus. O grande empecilho, contudo, era a família. Bela, nobre e prendada, os pais queriam a todo custo vê-la casada com alguém da sua condição social. Mas Clara era mulher firme, que sabia o que queria.
E, a 18 de março de 1212, domingo de Ramos, com 18 anos de idade, fugiu de casa e, humilde, apresentou-se na Porciúncula, na igreja de Santa Maria dos Anjos, onde era aguardada por Francisco e seus confrades. Ele cortou-lhe o cabelo, pediu que vestisse um modesto hábito de lã e emitisse os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência.
Os parentes, inconformados, foram buscá-la, mas ela refugiou-se na igreja e, quando a iam arrastar, ela agarrou-se ao altar, retirou o véu, mostrou a cabeça rapada e declarou publicamente ser Jesus seu único esposo. A partir desse momento, deixaram-na em paz.
Depois, a conselho de Francisco, ingressou no Mosteiro beneditino de São Paulo das Abadessas para ir se familiarizando com a vida em comum. Pouco depois, foi para a Ermida de Santo Ângelo de Panço, onde Inês, sua irmã de sangue, se lhe juntou. Passado algum tempo, Francisco levou-as para o humilde e paupérrimo Convento de São Damião, destinado à Ordem Segunda Franciscana, das monjas. Em agosto, quando ingressou Pacífica de Guelfúcio, Francisco deu-lhes a sua primeira forma de vida religiosa. Primeiramente, foram chamadas de “Damianitas”, mas, depois, Clara escolheu a designação de “Damas Pobres”. Finalmente, como sempre, foram chamadas de “Clarissas”.
Em 1216, sempre orientada por Francisco, que não deu às religiosas uma regra escrita, mas lhes incutiu no coração um verdadeiro espírito de pobreza e confiança na solicitude divina, Clara aceitou para a Ordem as regras beneditinas e o título de abadessa, mas conseguiu do Papa Inocêncio III o “privilégio da pobreza”, mantendo, assim, o carisma franciscano. O testemunho de fé de Clara foi tão grande que a sua mãe, Ortolana, e mais uma das suas irmãs, Beatriz, abandonaram os seus ricos palácios e foram viver ao seu lado, ingressando na nova Ordem.
Porém, em 1224, Clara adoeceu e, aos poucos, foi definhando. E, em 1226, Francisco de Assis morreu e Clara teve visões projetadas na parede da sua pequena cela. Nelas, via Francisco e os ritos das solenidades do seu funeral que decorriam na igreja. Anteriormente, tivera esse mesmo tipo de visão numa noite de Natal, quando viu projetado o presépio podendo, assim, assistir ao santo ofício que se desenvolvia na igreja de Santa Maria dos Anjos. Por essas visões, que pareciam filmes projetados numa tela, Santa Clara é considerada Padroeira da Televisão e de todos os seus profissionais – e obviamente dos telespectadores que a queiram assumir.
Após a morte de Francisco, Clara viveu mais 27 anos, dando continuidade à obra que aprendera e iniciara com ele. Outro feito seu ocorreu em 1240, quando, trazendo nas mãos o Santíssimo Sacramento, defendeu a Cidade do ataque do exército dos turcos muçulmanos.
No dia 11 de agosto de 1253, algumas horas antes de morrer, recebeu das mãos dum enviado do Papa Inocêncio IV a aguardada bula de aprovação canónica, deixando, assim, asseguradas as suas “irmãs clarissas”. Dois anos depois da sua morte, o Papa Alexandre IV proclamou-a como Santa Clara de Assis. (vd site Paulinas e https://pt.wikipedia.org/wiki/Clara_de_Assis).
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Clara deu novo sopro de vida, não apenas às religiosas do seu tempo, mas à Igreja. A sua resposta ao ideal franciscano foi total.
Ao falarmos da santa do dia 11 de agosto, relembramos a história de Santa Clara. O seu nome foi-lhe dado devido a uma inspiração dada a sua fervorosa mãe, que acabou por lhe revelar que a filha haveria de iluminar todo o mundo por meio de sua santidade: “Clara de nome, mais clara de vida e claríssima de virtudes!”.
A santa italiana pertencia, como se disse, a uma nobre família, destacando-se desde nova pela caridade e pelo respeito para com os pequenos. Por isso, quando Clara se deparou com a pobreza evangélica vivida por Francisco, apaixonou-se pelo estilo de vida franciscano. E, aos 18 anos de idade, quase a fazer os 19, decidiu seguir Jesus mais radicalmente. Por esta razão, Santa Clara foi ao encontro de Francisco de Assis na Porciúncula. Lá renunciou aos seus lindos cabelos, que então lhe foram cortados, o que representava a sua entrega total ao Cristo pobre, obediente e casto.
A partir do momento em que se dirigiu para a igreja de São Damião, começou a Ordem contemplativa e feminina, das Clarissas, da Família Franciscana. Clara tornou-se mãe e modelo da Ordem, principalmente no longo tempo de enfermidade, quando permaneceu em paz e se manteve totalmente resignada à vontade divina.
Nada podia contra a fé de Clara na Eucaristia. Com o Santíssimo Sacramento no ostensório, Clara pôde, como se disse, ainda se levantar para expulsar os turcos muçulmanos, então conhecidos como homens violentos, que desejam invadir o Convento em Assis.
A sua escolha para padroeira da televisão acentua que a missão da Igreja é evangelizar. Mas como fazer a Palavra chegar mais rápido ao povo? E é Santa Clara de Assis, a padroeira da televisão, que inspira a resposta: através dos meios de comunicação. Usar, portanto, os meios de comunicação para revelar ao mundo a face misericordiosa do Pai, converter os meios de comunicação em meios geradores de verdade, justiça e paz, é tarefa para todos, nomeadamente para os missionários deste terceiro milénio, como tem sido sublinhado pelos Sumos Pontífices das últimas décadas. É um tempo de grandes desafios, em que a premência dos sinais dos tempos cuja leitura é urgente contrasta com um mundo de divisões, exploração, opressão, repressão, império do capitalismo sem rosto – empresarial ou de Estado –, deslocação forçada das terras de origem, deixando para trás bens e haveres pessoais e familiares, guerra mundial aos pedaços e assim por diante. Cada vez mais a Igreja se assume como Igreja em saída qual hospital de campanha num mundo que ameaça desfazer-se. Porém, Deus terá a última palavra!
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Não será despicienda a reflexão com base num excerto da Carta de Santa Clara, virgem, à Beata Inês de Praga – (Escritos de S. Clara, ed. 1 Omaecheverría, Madrid 1970, pp. 339-341) (Sec. XIII), que recomenda a imitação da pobreza, da humildade e da caridade de Cristo, e surge como proposta de 2.ª leitura para o ofício de leitura do próprio de Santa Clara de Assis (11 de agosto):
Feliz de quem pode gozar as delícias do sagrado banquete e unir se intimamente ao coração de Cristo, cuja beleza os Anjos admiram sem cessar, cujo afeto atrai os corações, cuja contemplação nos reconforta, cuja benignidade nos sacia, cuja suavidade enche a alma, cuja lembrança nos inunda de luz suave, cuja fragrância ressuscita os mortos, cuja visão gloriosa constitui a felicidade de todos os habitantes da Jerusalém celeste. Ele é o esplendor da luz eterna, o espelho puríssimo da ação divina. Olha continuamente para este espelho, rainha e esposa de Cristo; contempla nele o teu rosto e procura adornar-te interior e exteriormente com as mais variadas flores das virtudes e com as vestes formosas que convêm à filha e à esposa castíssima do Rei dos reis. Neste espelho se reflete esplendidamente a ditosa pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como podes observar, com a graça de Deus, em todas as suas partes. Ao começo do espelho, repara na pobreza d’Aquele que foi colocado no presépio e envolvido em panos. Oh admirável humildade, oh espantosa pobreza! O Rei dos Anjos, o Senhor do céu e da terra deitado num presépio! No centro do espelho, observa como a humildade ou a santa pobreza, suporta tantos trabalhos e tormentos para remir o género humano. E, no fim do espelho, contempla a caridade inefável que O levou à cruz e à morte mais infamante. 
Por isso, o próprio espelho, suspenso na cruz, exortava os transeuntes a considerar estas coisas, dizendo: Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha dor. 
Respondamos nós aos seus clamores e gemidos, com uma só alma e um só coração: A minha alma sempre o recorda e desfalece de tristeza dentro de mim. Abrasa-te cada vez mais neste amor, ó rainha do Rei celeste. Contempla ao mesmo tempo as delícias inefáveis do Rei dos Céus e as suas riquezas e honras perpétuas e, suspirando de amor ardente, proclama no íntimo do teu coração: Leva-me contigo; correrei seguindo o aroma dos teus perfumes, ó Esposo celeste. Correrei sem desfalecer, até que me introduzas na sala do festim, até que na tua mão esquerda descanse a minha cabeça e a tua direita me abrace com terno amor
No meio destas piedosas contemplações, lembra te desta pobrezinha, tua mãe, sabendo que te levo inseparavelmente gravada no meu coração como filha predileta.”. (vd Liturgia das Horas – 11 de agosto).
Uma carta que se centra no mistério da Eucaristia como banquete para alimento das almas e da comunidade – Cristo exposto à adoração como na manjedoura de Belém – e antecipação da gloria celeste, mas a lançar do alto da Cruz o apelo a uma resposta de adesão pessoal em contexto comunitário.  
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Porém, como os demais dias, o 11 de agosto não se esgota na memória de Santa Clara. Outros santos e beatos são apresentados para comemoração em conformidade com as comunidades com eles mais relacionadas, como consta do Martirológio.
Assim, em Comana, no Ponto, hoje Gumenek (Turquia), Santo Alexandre (falecido no século III), bispo chamado o Carvoeiro, que, passando da eminente erudição na filosofia à ciência da humildade cristã, foi elevado por São Gregório, o Taumaturgo, à sé episcopal desta Igreja, que ilustrou com a pregação e com o martírio consumado nas chamas da fogueira.
Em Roma, no cemitério “Ad Duas Lauros”, junto à Via Labicana, São Tibúrcio, mártir (falecido no séculos III-IV), cujos louvores foram celebrados pelo Papa São Dâmaso; e também em Roma, a comemoração de Santa Susana (falecida em data desconhecida), a cujo nome, celebrado entre os mártires nos antigos memoriais, foi dedicada a Deus no século VI uma basílica no título de Gaio junto das Termas de Diocleciano. Em Assis, na Úmbria, hoje Toscana (região da Itália), São Rufino (falecido cerca do século IV), considerado o primeiro bispo desta cidade e mártir. E, em Benevento, na Campânia (região da Itália), São Cassiano (falecido no século IV), bispo.
Em Évreux, na Gália (hoje França), São Taurino (falecido cerca do século IV), venerado como o primeiro bispo desta cidade.
Na Irlanda, Santa Atracta (falecida no século V), abadessa, que, segundo a tradição, recebeu das mãos de São Patrício o véu das virgens.
Na província de Valéria, hoje Úmbria (região da Itália), Santo Equício (falecido no ano 571), abade, que, segundo o Papa São Gregório Magno, pela sua santidade, foi pai de muitos mosteiros e abria a fonte da Sagrada Escritura onde quer que chegasse.  
Em Cambrai (Austrásia), atualmente na França, São Gaugerico (falecido cerca do ano 625), bispo, insigne pela piedade e caridade para com os pobres, ordenado diácono por Magnerico de Tréveris e eleito depois para a sé episcopal de Cambrai, exercendo o ministério 39 anos.
Em Arles, na Provença (atual França), Santa Rustícola (falecida no ano 632), abadessa, que dirigiu santamente as monjas durante quase 60 anos.
Em Gloucester (Inglaterra), beatos mártires João Sandys e Estêvão Rowsham, presbíteros, e Guilherme Lampley, alfaiate (falecidos nos anos 1586, 1587, 1588 – respetivamente), que, no reinado de Isabel I, em dias diversos e não conhecidos, sofreram o mesmo suplício por Cristo.
Num barco-prisão ancorado ao largo de Rochefort (França), Beato João (Tiago Jorge Rhem), presbítero da Ordem dos Pregadores e mártir (falecido em 1794), que, encarcerado durante a perseguição contra a fé, exortava à esperança os companheiros de cativeiro duramente atribulados, até que ele próprio, atingido por doença incurável, morreu por Cristo.
Em Milão (Itália), Beato Luís Birághi (falecido em 1789), presbítero da diocese de Milão, fundador da Congregação das Irmãs de Santa Marcelina.
Em Agullent, povoação do território de Valência (Espanha), Beato Rafael Afonso Gutiérrez (falecido em 1936), mártir, pai de família, que, na violenta perseguição contra a fé, derramou o seu sangue por Cristo; com ele comemora-se o beato mártir Carlos Díaz Gandia (Espanha), que, na mesma localidade e dia, venceu o combate da fé e alcançou a vida eterna. Em Prat de Compte, perto de Tarragona (Espanha), Beato Miguel Domingos Cendra (falecido em 1936), religioso salesiano e mártir, que, na mesma perseguição, mereceu receber a sublime palma do martírio.
Nos confins do Tibete, Beato Maurício Tornay (falecido em 1949), presbítero e mártir, cónego regular da Congregação dos Santos Nicolau e Bernardo de Mont-Joux, que anunciou ardorosamente o Evangelho na China e no Tibete e foi assassinado pelos inimigos em ódio ao nome de Cristo.
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Enfim, dá para louvar a Deus em seus anjos e santos e rogar: “Todos os santos e santas de Deus, intercedei por nós”.
2018.08.11 – Louro de Carvalho

domingo, 19 de novembro de 2017

Uma leitura da parábola dos talentos no Dia Mundial dos Pobres

O I Dia Mundial dos Pobres ocorre no XXXIII domingo do Tempo Comum do Ano A, em que se proclama e medita nas igrejas a perícopa do Evangelho de Mateus que enuncia a parábola dos talentos ou do “homem que, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens… (Mt 25,14-30), de teor semelhante ao da parábola das minas de Lucas (vd Lc 19,12-27).
É também uma parábola do Reino dos Céus, pois o cap. 25 inicia-se com a expressão “o Reino dos Céus é semelhante a dez virgens que…”. E, terminada essa parábola, vem o segmento “Será também como um homem que, ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens. E segue a narrativa conhecida de todos.
Esta parábola apresenta-nos dois exemplos opostos de como esperar e preparar a última vinda do Senhor. Louva o discípulo que se empenha em fazer frutificar os bens que Deus lhe confia – o servo que recebeu 5 talentos e trabalhou com eles, ganhando mais 5, recebe como prémio a entrada no gozo do seu Senhor; e como a ele, foi dado o prémio de entrar na comunidade feliz do Senhor ao que recebera dois talentos e ganhou com a sua dedicação outros dois –, mas condena o discípulo que se instala no medo e na apatia e não põe a render os bens que Deus lhe entrega (está a desperdiçar os dons de Deus e a privar os irmãos, a Igreja e o mundo dos frutos a que têm direito).
Enquanto os servos diligentes, com o seu trabalho lúcido e diligente, ganharam o dobro do que receberam e o puderam entregar ao Senhor aquando do seu regresso da longa viagem, o servo mau, porque preguiçoso, tinha escondido cuidadosamente o talento que lhe fora confiado, pois conhecia a exigência do “senhor” e dele tinha medo. Ora, se os dois primeiros servos foram louvados pelo Senhor, o terceiro foi severamente criticado e condenado (pranto e ranger de dentes).
A parábola, tal como saiu da boca de Jesus, é uma “parábola do Reino”. O amo ou senhor exigente seria Deus, que reclama para Si uma lealdade a toda a prova e que não aceita meias tintas e situações de acomodação e de preguiça. Os servos a quem Ele confia os valores do Reino devem acolher os seus dons e pô-los a render, a fim de que o Reino seja uma realidade. No Reino, ou se está completamente comprometido, ou não se está. Não há lugar à tibieza ou mornice. Entretanto, Mateus partindo da mesma parábola, sem a descaraterizar como parábola do Reino, situou-a num outro contexto: o da vinda do Senhor Jesus, no final dos tempos. A vinda do Senhor é uma certeza; e, quando Ele voltar, julgará os homens conforme a atitude fundamental e os comportamentos que tiverem assumido na sua ausência. Nesta versão da parábola, este “senhor” é Jesus que, antes de deixar este mundo, entregou bens consideráveis aos seus “servos” (os discípulos), que serão seus amigos se fizerem o que Ele manda (cf Jo 15,14). Estes “bens” ou talentos (talento era 6000 dracmas ou 3000 siclos = 36Kg de ouro) são os dons que Deus, por Jesus, ofereceu aos homens – a Palavra divina, os valores evangélicos, o amor tornado serviço aos irmãos, sobretudo aos mais pobres, e que se dá até à morte, a partilha e o serviço, a misericórdia e a fraternidade, os carismas e ministérios que ajudam a construir a comunidade do Reino dos Céus. Os discípulos de Jesus são os fiéis depositários (não só depositários) e generosos despenseiros destes “bens”. A questão gira, pois, em torno das seguintes perguntas:
Como devem ser utilizados estes “bens”? Devem dar frutos, que devem ser distribuídos por quem precisa, ou devem ser conservados cuidadosamente enterrados? Os discípulos de Jesus podem – por medo, por comodismo, por desinteresse – deixar que esses “bens” fiquem infrutíferos e inúteis?
Nos termos da parábola, os bens que Jesus deixou aos discípulos têm de dar frutos, visto que ela apresenta como modelos os dois servos que mexeram com os bens, que demonstraram interesse, que se preocuparam em não deixar parados os dons do Senhor, que fizeram investimento, que não se acomodaram nem se deixaram paralisar pela preguiça, rotina ou medo. Por outro lado, a parábola condena veementemente o servo que entregou intacto o bem que recebeu. Teve medo, pelo que decidiu não correr riscos. Porém, não só não tirou fruto desses bens, como impediu que os bens do “Senhor” fossem criadores de vida nova e de oportunidades para outrem.
Através da parábola, Mateus exorta a comunidade a estar alerta e vigilante, sem se deixar vencer pela preguiça, medo, comodismo e rotina. Esquecer os compromissos assumidos com Jesus e com o Reino, demitir-se das suas responsabilidades, deixar na gaveta os dons de Deus, aceitar passivamente que o mundo se construa de acordo com valores que não são os do Evangelho de Jesus, instalar-se na passividade e no comodismo, é privar os irmãos, a Igreja e o mundo dos frutos a que têm direito.
O discípulo de Jesus não pode esperar o Senhor de mãos vazias, ainda que erguidas e de olhos postos no céu, alheado dos problemas do mundo e preocupado em não se contaminar com as questões do mundo. O discípulo de Jesus espera o Senhor profundamente envolvido e empenhado no mundo, ocupado em distribuir por todos os homens seus irmãos os bens de Deus e em construir o Reino, pondo os seus talentos ao serviço da comunidade, sobretudo dos mais pobres, olhando-os no rosto, chamando pelos seus nomes e urgindo a sua dignidade.
O que se diz de cada discípulo deve dizer-se da Igreja, que tantas vezes se refugia no medo da contaminação e se refugia no escondimento de dons e abafa os talentos da comunidade e de cada um dos seus membros. Quantas comunidades e cristãos que se sentem castrados pelo medo da contaminação e pelo peso da lei, com medo do mundo e de seus dirigentes! E quantas vezes, a contrario, a Igreja e os seus membros por medo se antecipam e, em vez do serviço e do rendimento dos talentos, se querem impor como poder inibidor, à semelhança dos poderes mundanos! Quantas vezes não se trava a pobreza ou se deixa avançar pelo não uso do génio criativo e operativo para a anular ou, ao menos a minorar, limitando-nos a praticar uns atos isolados de caridadezinha para termos a consciência tranquila!
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O Papa, na homilia da Eucaristia a que presidiu com a participação de 4000 pessoas pobres e os respetivos voluntários, começou por assumir que somos mendigos do essencial e disse:
Temos a alegria de repartir o pão da Palavra e, em breve, de repartir e receber o Pão eucarístico, alimentos para o caminho da vida. Deles precisamos todos nós, sem ninguém ser excluído, porque todos  somos mendigos do essencial, do amor de Deus, que nos dá o sentido da vida e uma vida sem fim. Por isso, também hoje, estendemos a mão para Ele a fim de receber os seus dons.”.
Da parábola do Evangelho de Mateus, Francisco refere que, segundo ela, nós somos destinatários dos talentos de Deus, “cada qual conforme a sua capacidade” (Mt 25,15). Quer que, antes de mais, reconheçamos que “temos talentos”, que “somos ‘talentosos’ aos olhos de Deus”. Por conseguinte, “ninguém pode considerar-se inútil”, nem “dizer-se tão pobre que não possua algo para dar”. Como “eleitos e abençoados por Deus, que deseja cumular-nos dos seus dons, mais que um pai e uma mãe o desejam fazer aos seus filhos”. E é Deus, aos olhos de Quem nenhum filho é descartável, quem confia a cada um uma missão.
Na verdade, como Pai amoroso e exigente, “responsabiliza-nos”. E explica o Pontífice:
Vemos, na parábola, que a cada servo são dados talentos para os multiplicar. Mas, enquanto os dois primeiros realizam a missão, o terceiro servo não faz render os talentos; restitui apenas o que recebera: ‘Com medo – diz ele –, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence’. Como resposta, este servo recebe palavras duras: mau e preguiçoso.”.
Perante a situação de servos e de uma situação servilista, Francisco levanta uma questão, a que responde com mestria:
Nele, o que desagradou ao Senhor? Diria, numa palavra (talvez caída um pouco em desuso mas muito atual), a omissão. O seu mal foi o de não fazer o bem. Muitas vezes também nos parece não ter feito nada de mal e com isso nos contentamos, presumindo que somos bons e justos. Assim, porém, corremos o risco de nos comportar como o servo mau: também ele não fez nada de mal, não estragou o talento, antes o guardou bem na terra. Mas, não fazer nada de mal, não basta. Porque Deus não é um controlador à procura de bilhetes não timbrados; é um Pai à procura de filhos, a quem confiar os seus bens e os seus projetos (cf Mt 25,14). E é triste, quando o Pai do amor não recebe uma generosa resposta de amor dos filhos, que se limitam a respeitar as regras, a cumprir os mandamentos, como jornaleiros na casa do Pai (cf Lc 15,17).”.
Ao servo mau associa o Papa a atitude de muitos também na Igreja e da própria Igreja, às vezes, quando se confunde fidelidade com mera conservação. Diz Bergoglio:
O servo mau, tendo recebido o talento do Senhor que gosta de partilhar e multiplicar os dons, guardou-o zelosamente, contentou-se com salvaguardá-lo; ora não é fiel a Deus quem se preocupa apenas em conservar, manter os tesouros do passado, mas, como diz a parábola, aquele que junta novos talentos é que é verdadeiramente ‘fiel’ (Mt 25, 21.23), porque tem a mesma mentalidade de Deus e não fica imóvel: arrisca por amor, joga a vida pelos outros, não aceita deixar tudo como está. Descuida só uma coisa: o próprio interesse. Esta é a única omissão justa.”.
Depois, fala da indiferença como novo rosto da omissão, sobretudo quando atinge a pobreza:
E a omissão é também o grande pecado contra os pobres. Aqui assume um nome preciso: indiferença. Esta é dizer: ‘Não me diz respeito, não é problema meu, é culpa da sociedade’. É passar ao largo quando o irmão está em necessidade, é mudar de canal, logo que um problema sério nos indispõe, é também indignar-se com o mal, mas sem fazer nada. Deus, porém, não nos perguntará se sentimos justa indignação, mas se fizemos o bem.”.
Interrogando-se como podemos então, concretamente, agradar a Deus, o Papa dos pobres diz:
Quando se quer agradar a uma pessoa querida, por exemplo dando-lhe uma prenda, é preciso primeiro conhecer os seus gostos, para evitar que a prenda seja mais do agrado de quem a dá do que da pessoa que a recebe. Quando queremos oferecer algo ao Senhor, os seus gostos encontramo-los no Evangelho. Logo a seguir ao texto que ouvimos hoje, Ele diz: ‘Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes’ (Mt 25,40).
Ora, os irmãos mais pequeninos, prediletos do Senhor, “são o faminto e o doente, o forasteiro e o recluso, o pobre e o abandonado, o doente sem ajuda e o necessitado descartado”. Segundo o Pontífice, a Eucaristia tem íntima relação com os pobres. Com efeito:
Nos seus rostos, podemos imaginar impresso o rosto d’Ele; nos seus lábios, mesmo se fechados pela dor, as palavras d’Ele: ‘Isto é o meu corpo’ (Mt 26,26). No pobre, Jesus bate à porta do nosso coração e, sedento, pede-nos amor. Quando vencemos a indiferença e, em nome de Jesus, nos gastamos pelos seus irmãos mais pequeninos, somos seus amigos bons e fiéis, com quem Ele gosta de Se demorar.”.
Mas o Papa não deixa de associar ao fazer render dos talentos e à preocupação pelos pobres, o exemplo da mulher virtuosa do Livro do Provérbios (Pr 31,10-13.19-20.30-31), que Deus tem em grande apreço. De facto, a “mulher forte” estende os braços ao infeliz e abre a mão ao indigente (cf Pr 31,10.20). Esta é a verdadeira fortaleza, a dos valores do trabalho, do compromisso, da generosidade, do “temor de Deus” – de que deve revestir-se o discípulo que quer viver na fidelidade aos projetos de Deus e corresponder à missão que Deus lhe confiou; e não a dos punhos cerrados e braços cruzados. Queremos a fortaleza “das mãos operosas e estendidas aos pobres, à carne ferida do Senhor”. Como diz o Papa:
Nos pobres, manifesta-se a presença de Jesus, que, sendo rico, Se fez pobre (cf 2Cor 8,9). Por isso neles, na sua fragilidade, há uma ‘força salvífica’. E, se aos olhos do mundo têm pouco valor, são eles que nos abrem o caminho para o Céu, são o nosso ‘passaporte para o Paraíso’. Para nós, é um dever evangélico cuidar deles, que são a nossa verdadeira riqueza; e fazê-lo não só dando pão, mas também repartindo com eles o pão da Palavra, do qual são os destinatários mais naturais. Amar o pobre significa lutar contra todas as pobrezas, espirituais e materiais.”.
Mesmo em termos de realização (mais do que satisfação) pessoal, cuidar dos pobres faz-nos bem:
Abeirarmo-nos de quem é mais pobre do que nós, tocará a nossa vida. Lembrar-nos-á aquilo que conta verdadeiramente: amar a Deus e ao próximo. Só isto dura para sempre, tudo o resto passa. Por isso, o que investimos em amor permanece; o resto desaparece.”.
Assim, cada um pode interrogar-se:
Para mim, o que conta na vida? Onde invisto? Na riqueza que passa, da qual o mundo nunca se sacia, ou na riqueza de Deus, que dá a vida eterna?”.
E Francisco ensina respondendo:
Diante de nós, está esta escolha: viver para ter na terra ou dar para ganhar o Céu. Com efeito, para o Céu, não vale o que se tem, mas o que se , e ‘quem amontoa para si não é rico em relação a Deus’ (cf Lc 12,21).”.
E exorta fundamentadamente:
Então não busquemos o supérfluo para nós, mas o bem para os outros; e nada de precioso nos faltará. O Senhor, que tem compaixão das nossas pobrezas e nos reveste dos seus talentos, nos conceda a sabedoria de procurar o que conta e a coragem de amar, não com palavras, mas com obras.”.
***
Também o reitor do Santuário de Fátima, que presidiu à Eucaristia dominical na Basílica da Santíssima Trindade perante os peregrinos (fizeram-se anunciar no Serviço de Peregrinos do Santuário 13 grupos) disse que São Francisco Marto e Santa Jacinta Marto se tornaram “transparência de Jesus Cristo”. Recorde-se que se tratou de celebração rica a muitos títulos: foi missa de peregrinação; o Grupo de Acólitos do Santuário de Fátima renovou os seus votos; sintonizou com o final da Semana Nacional dos Seminários, fazendo reverter o produto do ofertório a favor do Seminário Diocesano de Leiria-Fátima; e esteve em união com o Santo Padre na sua preocupação pela eficácia do I Dia Mundial dos Pobres e na assunção do conceito profundo e existencial da pobreza e do pobre, como recurso da Sociedade e tesouro da Igreja.
O Padre Carlos Cabecinhas, comentando a parábola, alertou para a “vinda do Senhor”, uma chegada em que devemos estar “vigilantes e sem medo”. E, seguindo a liturgia, questionou os peregrinos acerca do fim que dá cada um aos “talentos que Deus nos dá”. Perguntou o sacerdote, deixando entrever nas questões formuladas as respostas consequentes:
Como preparamos a vinda do Senhor? Com confiança ou medo? Com compromisso ou apatia? Jesus antes da ascensão ao Céu entregou-nos os Seus talentos, a sua palavra, o Evangelho, o seu amor, os valores evangélicos: O que estamos a fazer a estes bens? Fazemos frutificar na nossa vida a Sua palavra e os Seus ensinamentos? Deixamos que a indiferença e o medo tomem conta de nós?”.
Mas o Padre Cabecinhas explicitou a resposta a estas interpelações, lembrando  que “o apelo à conversão na mensagem de Fátima tem sentido de vigilância, desafio a vencer o comodismo e a rotina”, pois “a mensagem de Fátima exorta-nos a não nos acomodarmos na vivência da nossa fé, a não cruzarmos os braços e a sermos criativos”. Frisando que os videntes não se acomodaram (não enterraram o talento), foram criativos na busca do bem e vontade de Deus, apelou:
Tomemos o exemplo de Francisco e Jacinta, que receberam exortações e pedidos e acolheram esse dom e os fizeram frutificar”.
Os dois santos meninos tiveram “vontade de fazer render o talento de Deus”, e foram “criativos para encontrar momentos de oração, ajudar os outros”, mesmo os mais pobres, os que eles conheciam. Por isso, segundo as palavras do reitor, “tornaram-se transparência de Jesus Cristo”, e constituem “importantes exemplos por mostrarem como fazer render esses talentos”. Com efeito, porque todos “somos testemunhas de Jesus Cristo, é com a nossa voz que Jesus Cristo faz chegar a Sua voz e solidariedade”. E concluiu o padre Carlos Cabecinhas:
Temos de ter a dignidade de fazer render este tesouro e tomar consciência desta enorme responsabilidade”.
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Prosit!

2017.11.19 – Louro de Carvalho

sábado, 18 de novembro de 2017

O Dia Mundial dos Pobres visa a relação de acolhimento transformador

No próximo dia 19 de novembro, XXXIII domingo do Tempo Comum no Ano A, penúltimo domingo do Ano Litúrgico, a Igreja Católica vai assinalar o Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo Papa Francisco no final do Ano Santo da Misericórdia (dezembro 2015-novembro 2016), pela Carta Apostólica Misericordia et misera (n.º 21), de 26 de novembro de 2016.
Neste documento pontifício, Francisco escreve:
Os pobres não são um problema: são um recurso de que lançar mão para acolher e viver a essência do Evangelho”.
A propósito desta jubilosa e operativa efeméride, o Pontífice emanou para a Igreja e para o Mundo uma substanciosa mensagem, em torno do tema joânico “Não amemos com palavras nem com a boca, mas com obras e com verdade” (1Jo 3,18), em que alerta para a necessidade de a Igreja não se resignar ao escândalo da pobreza. Com efeito, “não podemos ficar inertes nem tão pouco resignados” perante o escândalo do “alastramento da pobreza nos grandes setores da sociedade do mundo inteiro”.
O Dia Mundial dos Pobres constitui para toda a comunidade cristã, na esteira do Ano Jubilar da Misericórdia, uma ocasião para testar a capacidade “de estender a mão aos pobres, aos débeis, aos homens e às mulheres aos quais muitas vezes é espezinhada a dignidade”, como explicou o arcebispo Dom Rino Fisichella, Presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, apresentando o texto da mensagem na manhã de terça-feira, 13 de junho, na Sala de imprensa da Santa Sé. Nesta perspetiva, o dicastério preparou um subsídio pastoral que esteve disponível a partir do mês de setembro, para permitir “que sacerdotes e o mundo do voluntariado vivam ainda mais intensamente” o sentido desta jornada.
O momento central de 19 de novembro será a missa presidida pelo Pontífice com a participação de 4000 pobres e voluntários. Em particular, para estes últimos está prevista também uma vigília de oração hoje, sábado dia 18, em São Lourenço fora dos Muros: uma ocasião para fazer memória do diácono e “grande santo romano” que elevou “a figura do pobre a verdadeiro e único ‘tesouro’ da Igreja”. Esta atenção privilegiada representou uma constante na história eclesial, como sublinhou na sua intervenção o bispo José Octavio Ruiz Arenas, secretário do dicastério, recordando que para o Papa Francisco “a opção pelos pobres é uma categoria teológica antes de ser cultural, sociológica, política ou filosófica”, constituindo “uma forma especial de primazia no exercício da caridade cristã, da qual toda a tradição da Igreja dá testemunho”. Por outro lado, almoçarão com o Pontífice 1500 homens e mulheres dos mais necessitados provindos de várias partes do mundo acompanhados por dezenas de voluntários, ao som dos acordes da banda da polícia vaticana e um coro de crianças entre os 5 e os 14 anos.
Também Francisco fez, no dia 16 uma visita surpresa ao pequeno hospital de campanha montado na Praça Pio XII, junto do Vaticano, por ocasião do I Dia Mundial dos Pobres. O espaço, com várias tendas, oferece consultas médicas e de enfermagem a pessoas necessitadas que vivem na capital italiana.
O Papa cumprimentou o pessoal médico, voluntários e várias pessoas que se encontravam na fila à espera de consulta gratuita. E falou com voluntários da Confederação das Misericórdias italianas, que lhe ofereceram, como fazem a todos os que deslocam ao espaço, uma bebida quente para combater o frio.
Em Lisboa, um conjunto de organizações católicas de solidariedade vai assinalar a data numa iniciativa promovida pela Cáritas Portuguesa que começa no Largo da Trindade e prossegue às 11 horas, na igreja de São Roque, presidida por Dom António Vitalino, bispo emérito de Beja e vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana.
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O Semanário Ecclesia, do dia 17, apresenta uma entrevista com Teresa Vasconcelos, vogal da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP), em que a entrevistada faz a sua leitura do significado da efeméride, da mensagem pontifícia e das preocupações da CNJP.
E a ideia fulcral de Teresa Vasconcelos é que “a relação da Igreja com os pobres passa por acolhimento transformador”, o que implica a transformação das relações humanas e sociais e uma caminhada conjunta em que todos têm algo a dar e a receber.
Segundo a entrevistada, a iniciativa do Papa de instituir o Dia Mundial dos Pobres é fundamental e vem na linha de vários predecessores de Francisco, nomeadamente João XXIII, “que chamaram a atenção para a questão dos pobres, com um desafio aos cristãos: não se pode pôr em prática a mensagem do Evangelho sem olhar para os mais desprotegidos”. E “esta é uma linha já coerente, dentro da Igreja Católica”.
O facto de Francisco ter lançado este dia mundial constitui “a possibilidade de, no contexto de uma jornada, se refletir sobre esta questão da pobreza no mundo”. Na verdade, “nunca, a não ser no tempo da escravatura ou da exploração total dos trabalhadores, houve tanta desigualdade – e o nosso país é um dos piores a nível da Europa – entre uma minoria dos mais ricos e uma maioria de pobres. E, apesar de em Portugal, as coisas estarem um pouco “mais estabilizadas”, “este cancro que mina a sociedade” existe. Com efeito, encontramos cada vez mais pessoas que optam por viver na rua ou para ela são empurradas e “famílias que vivem muitas vezes uma pobreza escondida”.
Porém, no seu desafio, o Papa “pega nas coisas um bocadinho ao contrário, ao dizer que os pobres – cuidar dos pobres, pensar nos pobres – podem ser um meio fundamental para o nosso crescimento, a exemplo de Jesus Cristo”. Ora, “se nós cultivarmos, e se a Igreja nos ajudar a cultivar, esta atenção prioritária aos pobres, nós cada vez mais caminhamos na linha dos Evangelhos, daquilo que Cristo nos interpelou”.
Francisco não se contenta com olhar os pobres numa ótica assistencialista, “mas como companheiros de crescimento”. Ora, esta interpelação papal “vem colocar-nos num patamar superior”. Assim, o apelo não é à “caridadezinha” – mas “é fundamental, na situação de crise, providenciar com aquilo que é urgente, necessário” – é, antes, a que “nos debrucemos realmente sobre as estruturas injustas das sociedades em que vivemos para, de alguma forma, encontrarmos meios de trabalhar para uma maior justiça social”. E a entrevistada evoca o exemplo de Teresa de Ávila:
Eu lembro sempre uma coisa muito bonita de Santa Teresa de Ávila, quando ela tinha as experiências místicas, nomeadamente na Sétima Morada, dizia sempre: a união com Deus, tal como eu a experimento, é provisória, é temporária. Eu tenho de regressar ao mundo e fazer obras”.
Este é o apelo: “a nossa vida será sempre trabalhar para o Reino de Deus”, no mundo, “aqui e agora”, também ao nível da sociedade portuguesa, “a que mais diretamente nos interessa, mas também ao nível do equilíbrio entre ricos e pobres no mundo”, cuja “situação é absolutamente dramática”.
A entrevistadora Lígia Silveira pergunta se a mensagem do Papa é recado para quem está numa situação social diferente para que olhe para a pobreza sem perpetuar estruturas assistencialistas que consideram que pobreza haverá sempre. Ao que T. Vasconcelos responde:
Mais uma vez, o Papa fala num patamar diferente. Questiona estruturas da Igreja e da sociedade civil, e lança-lhes a questão de saber em que medida estão a fazer apenas um remedeio temporário ou estão a ajudar os pobres a serem donos do seu próprio destino, dando-lhes meios, educação, trabalho, para que o ciclo da pobreza seja interrompido.”.
Falando da sua antiga experiência de trabalho numa IPSS, diz que “há um salto qualitativo que a Igreja”, em sua opinião, “deve fazer, formando as direções e quem trabalha nestas instituições, para uma postura de acolhimento dos pobres que seja um acolhimento transformador e não algo que os humilhe, que os faça sentir que são um ‘cancro’ na sociedade”. E sustenta que “há um trabalho muito grande a fazer, se queremos desenvolver, como o Papa nos desafia, uma verdadeira atitude de compaixão e de misericórdia”.
No atinente ao facto de Francisco indicar exemplos, como a figura de São Francisco de Assis, com uma intenção pedagógica, porque este “fazer caminho com” acaba por ser transformador aduz que este processo “envolve o nosso coração”, pois, “neste caminho transformador, é preciso encarar o pobre, que muitas vezes não é atrativo, a maior parte das vezes – o pobre da rua, vestido Deus sabe como, sem os mínimos cuidados de higiene…”. E explicita:
É preciso acolher como iguais, aqui no verdadeiro sentido de hospitalidade: acolher o outro, mas não de cima para baixo, pensando que eu posso fazer alguma coisa pelo pobre e que ele pode fazer muita coisa por mim. No verdadeiro sentido do que são as obras de misericórdia, corporais e espirituais. Eu também posso ser objeto das obras de misericórdia.”.
Em relação à  pobreza evangélica de que fala o Papa, disse com amarga ironia:
Estamos muito longe, a começar por mim, que nem sempre penso que há outros que vivem pior do que eu. Depois, as estruturas mais altas da Igreja Católica não são sempre exemplo de um abraçar do Evangelho e aí também é importante que todos olhem para este estado de coisas e nos possamos perguntar: o que é que Cristo faria se estivesse no meu lugar?”.
E assegura: 
Se levarmos a sério a profundidade desta questão ‘Como é que Cristo faria no meu lugar”, a Igreja Católica e o mundo, em geral, serão muito mais justos e solidários. Tenho a convicção absoluta de que foi para isso que Cristo viveu entre nós.”.
O que se pergunta a cada um, na ótica da entrevistadora, “é não tanto que o fazes ao teu dinheiro, mas o que o teu dinheiro faz de ti”. E a entrevistada acorre, de imediato, com a universalidade da questão:
É para todos. Esta interpelação é para todos. Eu posso ter o meu dinheiro e ter liberdade interior em relação a ele, saber que o dinheiro é para o serviço da comunidade. Posso ter, infelizmente, a atitude oposta, inclusive em pessoas que se autodenominam católicas, que é a ganância. Dizer: eu quero mais, eu quero mais, eu quero mais dinheiro. Pode ser uma dependência como qualquer outra.”.
E conclui que “é importante que os cristãos se interpelem uns aos outros”, dizendo que é a razão pela qual está, como vogal, na CNJP, “para que, de uma forma mais institucional, aquilo em que acredito possa ter impacto na sociedade”.
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Replicando à entrevistadora, que aduz que “o Papa recorda a pobreza que atinge os jovens que não conseguem encontrar o seu primeiro emprego” e que pergunta se “esta é uma realidade que a sociedade portuguesa enfrenta muito, como a chamada pobreza envergonhada”, explica-se com base em situações diferentes, incluindo aspetos pessoais:
Há níveis muito diversificados de pobreza. Mais facilmente penso na pessoa que está à porta de uma igreja a pedir pão, mas se nós fôssemos mais solidários com os jovens… Por exemplo, quando me aposentei, fui convidada por uma universidade, podendo acumular rendimentos, e eu disse: não, há dezenas de jovens que fizeram os seus graus e que vocês devem contratar. Para mim é uma questão ética.”.
Sobre as questões que os jovens nos podem colocar neste âmbito, sustenta:
Os jovens podem questionar se os cristãos estão a ser solidários com eles, se estamos a viver a vida das primeiras comunidades cristãs, onde cada qual vivia de acordo com as suas necessidades e havia uma partilha de bens. Isso é o que os Atos dos Apóstolos nos dizem.” (cf At 2,42-47; 4,32-37).
E, pretendendo estender a interrogação a todos nós, questiona-se:
Como é que eu partilho, nos tempos de hoje, com os mais jovens que não conseguem o primeiro emprego ou trabalham com níveis de salários absolutamente escandalosos”?
Estriba-se nas estatísticas para vituperar a sociedade. Na verdade estas “dizem que, mesmo numa situação de ligeira melhoria, as relações laborais – exploração, subemprego – pioraram”. E acusa que “continuam a piorar”, pois “não vivemos, por muito que haja tentativas de melhorar as coisas, numa sociedade mais justa”. Com efeito, “todas as estruturas, a nível micro, meso ou macro, devem ser passadas em revista por nós, cristãos, de uma forma crítica, para depois se pensar, individualmente ou em grupo, como é que se podem abalar essas estruturas”.
É a coesão social que está fendida quando quem não tem um emprego e não aufere um salário digno para cobrir as suas despesas não tem vontade de participar civicamente. A isto, Teresa Vasconcelos diz que “o primeiro passo da cidadania é a consciência de que se pode participar” e que a participação de cada um “tem impacto”; ao invés, “as pessoas desistem e conformam-se”. E confidencia:
Das piores situações que vi, no mundo, foi na Índia, porque a pobreza é absolutamente conformada. Há uma aceitação tácita de que, porque se nasceu numa casta, não se tem hipótese. Cá, sem termos um sistema de castas, temos um sistema que referencia pessoas que assumem que não há nada a fazer ou vivem à sombra de uma caridade que não é uma caridade que transforme a situação.”.
Contra a apatia, o conformismo e a aceitação das fendas da coesão social, há que estabelecer e desenvolver a “cultura do encontro”, expressão tão cara ao Papa Francisco, e da pró-atividade. Segundo esta dinâmica cultural, apesar de “vivermos numa situação de esperança perante o absurdo da sociedade”, somos induzidos “a continuar o trabalho que todos somos chamados a fazer”. Ora, “é preciso que a Igreja e os cristãos divulguem este tipo de ações”, que pretendem colmatar as fendas de coesão, puxam à solidariedade, promovem a cidadania consciente, responsável e com impacto, criam o encontro. De facto, “sermos companheiros de viagem é”, como diz, “a essência desta carta e o chamamento que Deus, através de Jesus Cristo, nos faz”.
Quanto a um futuro influenciado positivamente pelo Dia Mundial dos Pobres, a entrevistada adianta:
Vamos esperar que, ano a ano, uma vez que se atribui um Dia Mundial dos Pobres pouco antes de iniciar o Advento, este dia nos traga uma reflexão imbuída de ação para melhorarmos estruturas injustas. Mas também para, à semelhança de São Francisco de Assis, nos tornarmos companheiros não dando de cima para baixo, mas entrando no mesmo caminho. Os pobres podem interpelar-nos, chamar à ação e treinar o nosso olhar para a verdadeira misericórdia – essa palavra que vem do coração.”.
O que ressalta na mensagem é “a forma ampla como o conceito de pobreza é tratado pelo Papa”. Quando ele diz isto, é porque o vive e “isso é uma grande bênção”. De facto, a pobreza interpela-nos, para que de algum modo refaçamos a vida, juntamente com os pobres.
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É imperioso que a Mensagem de Francisco leve a que o Dia Mundial dos Pobres constitua um marco de referência que evidencie para todos os anseios gritantes dos pobres, mesmo que silenciados ou sufocados. Que a pobreza humana não seja mais uma fatalidade, que os cristãos saibam enveredar pela séria partilha dos bens espirituais, sociais, culturais e materiais. É a dignidade do homem que o postula. Há sempre alternativa.

2017.11.18 – Louro de Carvalho