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sábado, 29 de junho de 2019

“Fátima, Hoje que caminhos?”


Foi a questão dominante do Simpósio Teológico-Pastoral 2019, que decorreu no Salão do Bom Pastor, Centro Pastoral de Paulo VI, do Santuário de Fátima, de 21 a 23 de junho – três dias de reflexão, diálogo e celebração, cada um deles organizado em torno de um núcleo temático: o 1.º dia, a condição do peregrino; o 2.º dia, a peregrinação a Fátima; e o 3.º dia, a Igreja peregrina.  
As intervenções dos oradores distribuíram-se por 10 conferências: cinco no dia 21; três no dia 22; e duas no dia 23. As do 1.º e 2.º dias foram seguidas de diálogo.
As conferências do 1.º dia foram subordinadas aos seguintes títulos: “Leitura dos movimentos migratórios na atualidade”, por Paulo Rangel; “O homo viator na contemporaneidade”, por Lídia Jorge; “A Criação como paradigma da Peregrinação, por José Rui Teixeira; Fátima: um espaço global e multirreligioso”, por Helena Vilaça; e Turismo, peregrinação, hospitalidade”, por José Paulo Abreu. Os trabalhos do dia terminaram com a celebração da Missa, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima [sexta-feira da semana XI do Tempo Comum, São Luís Gonzaga, Memória Obrigatória], às 18,30 horas; e, depois do jantar, às 21 horas, realizou-se o Serão Cultural, no Centro Pastoral de Paulo V, em torno do tema “Exodus – Geometrias da Libertação”, com Celina Tavares (voz e guitarra), José Miguel Costa (piano) e  José Rui Rocha (leituras).
O 2.º dia, iniciado com uma oração em comum, foi preenchido com três conferências subordinadas aos seguintes títulos: “A peregrinação a Fátima. Uma leitura de antropologia teológica”, por António Martins; Os Papas peregrinos de Fátima”, por Marco Daniel Duarte; e “São Francisco Marto: peregrinação e páscoa,  no centenário da sua morte” por Adrian Attard, da Academia Pontifícia Mariana Internacional. A meio da tarde, desenvolveu-se um painel temático em torno de “As marcas da peregrinação a Fátima”, desdobrado em três itens: “Da bênção dos doentes” por José Manuel Pereira de Almeida; “Do serviço do lava-pés”, por Ana Luísa Castro; e “Das procissões de Fátima: a luz, o silêncio e o adeus”, por Carlos Cabecinhas.
Depois do subsequente diálogo, procedeu-se à celebração da Missa, na Capela da Morte de Jesus, no piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade [Missa votiva de Nossa Senhora de Fátima]. E, às 21,30 horas, foi o Rosário e a Procissão das Velas, a partir da Capelinha das Aparições.
O 3.º (e último) dia iniciou-se com a celebração da Missa, às 9 horas, na Basílica da Santíssima Trindade [Missa do Domingo XII do Tempo Comum]. Seguiu-se a 9.ª conferência “Variações sobre a Igreja peregrina. Da Lumen Gentium ao pontificado de Francisco”, por Benito Mendez Fernandez; e 10.ª conferência “Maria pôs-se a caminho: caminhos de hoje da Peregrina da fé”, por Nunzio Capizzi. Recorde-se que este é o tema da JMJ de 2022, em Lisboa.
Na apresentação do programa, Marco Daniel Duarte (diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos e Presidente da Comissão Organizadora do Simpósio) referia que, ao longo de um século, a “condição de peregrino” do ser humano é uma das grandes verdades que Fátima tem proclamado e que, “a partir da Cova da Iria” essa condição será “a mais clarividente metáfora da própria vida humana”, que se ilustra “no espaço”, mas que “ganha pleno e inquestionável sentido, sobretudo no tempo que o ser humano percorre desde o nascimento ao óbito”. E, atento ao que se passa em Fátima, rumo a Fátima e a partir de Fátima, considerava:
A imagem das incontáveis fileiras de homens e mulheres que rumam ao Santuário de Fátima, a pé ou de carro, de mota ou de bicicleta, de avião ou de barco ou até de forma espiritual a partir de outros polos de culto dedicados à Virgem de Fátima espalhados pelo mundo, somada ao trilho luminoso e branco das procissões das velas e das procissões do adeus, é, de facto, uma das mais expressivas imagens para a definição do ‘homo viator’, quer o leiamos no contexto do Cristianismo de sinal católico, quer o leiamos no contexto das inquietações várias – religiosas ou não – que povoam os fóruns académicos e a vida quotidiana”.
Nesse sentido, “investigadores de diferentes academias, nacionais e estrangeiras”, olharam para a humanidade peregrina para “analisarem desafios antigos e desafios novos” e se debruçarem “sobre a condição peregrina”, “sobre a peregrinação a Fátima” e “sobre a Igreja peregrina”. 
A agência Ecclesia, em abril, citando um comunicado que lhe fora enviado, dizia que “o sentido de peregrinar” nortearia o encontro que o Santuário de Fátima estava a organizar para o decurso de três dias com a presença de investigadores nacionais e estrangeiros “convidados a olhar a humanidade peregrina” e a analisar os “desafios inerentes à condição de peregrino”. Relevava a intervenção de Adrian Attard, da Academia Pontifícia Mariana Internacional, no 2.º dia, e as do Padre Benito Mendez Fernandez delegado para o ecumenismo da diocese de Mondoñedo-Ferrol, província eclesiástica de Santiago de Compostela, e do Frei Nunzio Capizzi, Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. E considerava que o tema do Simpósio se insere na reflexão proposta pelo Santuário para o presente ano pastoral “Dar graças por peregrinar em Igreja”, que se integra “no triénio 2017-2020, sob o tema “Tempo de Graça e Misericórdia”, e transcrevia significativos segmentos textuais da explicação programática do Presidente da Comissão Organizadora do Simpósio.
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Na sessão de abertura, o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que denominou a vida de “aventura”, enquanto “viagem no desconhecido”, começou por dizer:
Procuramos segurança e estabilidade, no meio da mudança rápida e vertiginosa dos acontecimentos, procuramos uma felicidade que não se evapore, há toda uma busca pelo sucesso, por bens, por prestígio”.
E, afirmando que é “este anseio, que de algum modo invade o íntimo de cada humano” e “faz dele ser peregrino”, observou:
Assim, o peregrinar é geralmente um movimento externo, físico, que desloca cada pessoa de um lugar para outro. No entanto, é possível falar de peregrinação interior, aspeto esse que coloca o peregrino na linha da reflexão cristã da interioridade. Tendo em conta os dados sociológicos, não se pode negar que existe hoje uma intensa busca de espiritualidade que se declina em vários códigos interpretativos.”.
Colocando-se na perspetiva dos crentes”, o purpurado caraterizou a peregrinação como uma “parábola da existência humana entendida à luz da fé”, visto que, “no anseio de sentido, latente no coração humano, vemos um desejo ardente de Deus, porque só Ele nos pode encher e satisfazer de modo definitivo, tornar-nos felizes, livres e satisfeitos”. E, apresentando os lugares de peregrinação como “lugares de graça onde, de várias formas se pode fazer a experiência da riqueza e da beleza dos diversos aspetos do peregrinar”, discorreu:
A peregrinação pode ser uma experiência bela e surpreendente de Deus, de interioridade e de renovação espiritual, de evangelização e de testemunho. Deste modo, o peregrino deixa o seu lugar e o seu ritmo quotidiano, (...) e o seu coração abre-se à medida que caminha, tudo adquire nova dimensão, seja o tempo, os encontros que são preciosos como partilha de vida interior, o silêncio que fala da própria vida e de Deus; o próprio Deus é, por vezes, surpresa ou faz acontecer surpresas.”.
Depois, considerou que a peregrinação ao Santuário de Fátima tem particularidades singulares, que lhe são atribuídas pelo conteúdo da Mensagem, na sua dimensão mística e profética, mas também por alguns aspetos simbólicos caraterísticos, como é imagem da Virgem Peregrina, que já deu a volta ao mundo por 16 vezes, percorreu 645.000 Km, e é, hoje, “verdadeiro ícone da peregrinação, juntamente com o mar de luz da procissão das velas, e o adeus de Fátima”.
O prelado leiriense-fatimita salientou ainda a afluência de peregrinos de “quase todos os povos do mundo e de todas as culturas e até de outras religiões”, que chegam a Fátima por ser um “lugar com o ambiente de silêncio e de oração e com os lugares de referência como é a Capelinha das Aparições ou os Valinhos” – tudo o que levou Bento XVI a dizer-lhe pessoal e textualmente: “Não há nada como Fátima em toda a Igreja católica no mundo”. E concluiu:
Fátima abre caminhos para cá chegar e abre caminhos para quem daqui parte para a Igreja e para o mundo, pela dimensão mística da mensagem, face a um certo eclipse cultural de Deus no ocidente, e pela dimensão profética urge a atenção ao problema sempre atual da paz pela cultura do encontro, do diálogo e da reconciliação e pela ação correspondente de uma Igreja em saída da sua autorreferencialidade para as periferias do mundo”.
Antes, o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário, dera as boas-vindas aos cerca de 250 participantes, a quem apresentou o “caminho a que o peregrino se lança” como “símbolo da experiencia humana”. E, depois, justificou o uso da “metáfora da peregrinação” para “refletir acerca da experiencia de fé”, sustentando que a experiencia da peregrinação “não permite apenas aceder à mais profunda compreensão da fé, mas também oferece uma bela metáfora da vida em Igreja”.
Por seu turno, o presidente da Comissão Organizadora do Simpósio, começou por afirmar que, “entre as verdades que Fátima tem proclamado, ao longo de um século, está a de que o ser humano continua a exercer a sua condição de peregrino” e reiterou que “a imagem das incontáveis fileiras de homens e mulheres que rumam ao Santuário de Fátima” é “uma das mais expressivas imagens para a definição do ‘homo viator’, quer o leiamos no contexto do Cristianismo de sinal católico, quer o leiamos no contexto das inquietações várias – religiosas ou não – que povoam os fóruns académicos e a vida quotidiana”.
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Para o carmelita Adrian Attard, que não compareceu, mas enviou o texto que Isabel Varanda leu, a conversão proposta por Fátima deve-se “ao testemunho da existência cristiforme dos videntes”, que se “associaram a Jesus, mediante o Espírito, à história da liberdade de Jesus, ou seja, à sua fé obediencial ao Pai”. Por isso, o seu testemunho “mostra-nos” como a vida quotidiana pode tornar-se ocasião para alcançar a fé. Ora, “quando se reconhece a presença de Cristo que, na sua liberdade, vem ao nosso encontro no concreto da vida real, Ele torna-se a pedra angular para o significado de toda a vida pessoal”. E Attard vincou:
O caminho que cada um está chamado a realizar coloca-o misteriosa e progressivamente num espaço cada vez mais amplo que lhe permite alcançar o mais profundo de si mesmo, sem esquecer aquele que está ao seu lado”.
À distância de cem anos da sua morte, São Francisco Marto continua a ser uma “figura singular” que “conferiu à infância uma importância decisiva, vivendo-a em toda a sua profundidade e plenitude”, manifestada “na proximidade a Deus e ao seu mistério”. Com efeito, “no cumprimento de cada dever, nos atos de mortificação, em todas as ocasiões de zelo, de oblação, de abnegação e de caridade que se lhe apresenta, Deus colocou no coração de Francisco a sua vontade, e este cooperou eficazmente no processo de assimilação ao seu Senhor”. Por isso, “a vida do santo menino ajuda-nos a insistir em alguns pontos de interesse antropológico-espiritual e a clarificar algumas perspetivas para o futuro” – esclareceu.
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É de relevar algo do teor do painel temático da tarde do dia 22, marcado por três intervenções.
O reitor do Santuário, sublinhando o sentido da procissão como “uma caminhada comum” sinal da condição peregrina da Igreja enquanto povo de Deus, disse:
A luz da procissão das velas; o silêncio da procissão do silêncio (exclusiva de Fátima) e a saudade expressa no adeus à Virgem constituem marcas importantes no imaginário deste lugar”.
Em Fátima, particularmente, a procissão é uma forma “de aproximação” à veneranda imagem de Nossa Senhora e, simultaneamente, um  momento de oração, meditação e peregrinação. A este respeito, o Padre Cabecinhas vincou a especial relação entre estas procissões e a própria Mensagem de Fátima, nomeadamente a Procissão das Velas que remete para a “luz de Deus”, relatada nas memórias da Irmã Lúcia por variadas vezes, em concreto, quando descreve a experiência de Francisco, tocado pela Luz de Deus. Já a Procissão do Adeus, sendo um rito de despedida, “um adeus emotivo” dos peregrinos a Nossa Senhora, representa um aspeto indelevelmente ligado à `alma portuguesa: a saudade. E há uma outra procissão, criada por razões funcionais, mas que hoje é um dos momentos mais belos e que mais dizem da experiência que se faz em Fátima: o silêncio. Trata-se da procissão de regresso da imagem à Capelinha, depois da missa da Vigília na noite dos dias 12, entre maio e outubro, durante a qual milhares de peregrinos rezam em silêncio, “o silêncio orante caraterístico de Fátima”. É a mais recente das procissões, mas tornou-se “marcante nos rituais processionais do Santuário”, sendo que, “para muitos, é este silêncio que faz da Cova da Iria um lugar especial”.
Em todos estes momentos, concluiu o reitor, os peregrinos são “os grandes protagonistas de Fátima”. Os peregrinos “criaram estes rituais e são eles que os protagonizam”, quer quando levam as velas acesas, quer “quando se movimentam no recinto para ficarem mais próximos da imagem, quer ainda quando acenam os lenços brancos para se despedirem”.
Outra das “marcas” da peregrinação a Fátima é a bênção dos doentes, no final da missa, particularmente nas grandes celebrações. A partir do Evangelho de São Marcos, o médico e sacerdote José Manuel Pereira de Almeida apresentou este gesto litúrgico como a “expressão da proximidade de Jesus” para com todos os doentes e os que são frágeis. E afirmou:
Jesus, no Santíssimo Sacramento, passa bem junto dos doentes para lhes dizer a Sua proximidade e o Seu amor. E eles – tal como os Pastorinhos – confiam-lhe as suas dores, os seus sofrimentos, o seu cansaço. (…) Como discípulos do Senhor, cada doente quer viver a sua vida como um ‘dom’. Naquele momento podem dizer-Lhe de novo, como os Pastorinhos, que querem oferecer-se a Deus de todo o coração.”.
Depois, assegurou que “a nossa vida de comunhão com Jesus corresponde a vivermos com Ele e como Ele na terra”. E lembrou as palavras  do Papa Francisco, antes da bênção dos doentes em Fátima, no final da missa de canonização dos santos Francisco e Jacinta, a 13 de maio de 2017:
Jesus sabe o que significa o sofrimento, compreende-nos, dá-nos força e consola-nos. Por isso, a bênção dos doentes é a certeza de que Jesus está presente, nos compreende, nos dá força e nos consola.”.
Por fim, foi relevado o lava-pés como outra das grandes ‘marcas’ de Fátima. Ana Luísa Castro (médica religiosa da Aliança de Santa Maria e diretora do Posto de Socorros do Santuário) apresentou o gesto como “um primeiro desejo” dos que, movidos pela compaixão para com os primeiros peregrinos” (um grupo “de cavalheiros e senhoras” que, em 1924, haveriam de formar a Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima), lançaram mãos à obra no apoio e assistência” a quem chegava a pé. E frisou que o serviço “cabe no desejo de excesso, suscitado por Deus, podemos dizer, então nesse carisma, de se sacrificar para dignificar o outro, para o servir, ao jeito de Jesus na Última Ceia, mas também como única forma de realização plena do que se é chamado a ser em Cristo”.
Tendo atravessado já várias fases, o serviço do lava-pés assiste hoje a uma redução da procura pelos peregrinos. As razões para “esta curva descendente” podem ser consideradas de ordem prática, mas há “outras que nos devem interpelar”, pois deriva da forma “como hoje o homem se coloca diante de Deus”. Com efeito, “temos dificuldade em reconhecer que somos frágeis, que precisamos que nos lavem os pés”, convictos da “autossuficiência” inerente ao homem de hoje, que privilegia o ritmo frenético imposto pelas mãos ao invés da “lentidão que os pés pedem”.
E, porque “os pés feridos são a manifestação física de um mundo interior magoado”, exortou:
Deixemos que os pés definam os nossos mapas, aceitemos percorrer um caminho interior, lento e esforçado, mas que permite ir experimentando os cheiros, as cores e os sons que a vida tem para dar (…).Temos que reaprender a usar os pés”.
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Na sua conferência, Marco Daniel Duarte considerou que “os Papas, ao virem a Fátima, deixam transfigurar o seu olhar” num lugar onde “a ritualidade transcende a mensagem”. Para o historiador, quem quiser compreender melhor Fátima na sua plenitude “deve analisar os discursos dos Papas em Fátima e a propósito de Fátima”.
O orador disse que os Papas, mesmo antes de iniciarem o ciclo das viagens pontifícias a Fátima, fizeram-se representar pelos seus delegados.
Paulo VI foi o primeiro a visitar a Cova da Iria, numa peregrinação de profundo “culto à Mãe de Deus”. Ao chegar a Fátima, lembrou a sua condição de “peregrino entre peregrinos” e, através dessa presença, “sentiu a força histórica da Irmã Lúcia de Jesus”, justamente pelas ovações dos peregrinos ali presentes. E ofertou o seu báculo, um gesto que merece “atenção”, porque não é “comum” um Papa proceder desta forma.
João Paulo II foi o segundo Papa a visitar a Cova da Iria e “nada previa que se fizesse peregrino em tão pouco tempo de pontificado”. Em Fátima, teve um gesto simbólico pondo-se de joelhos aos pés de Nossa Senhora e orando na Capelinha das Aparições, um ano depois do atentado e na hora em que ele aconteceu, num “profundo momento de silêncio”. O investigador falou da “relação física” de João Paulo II com a Imagem de Nossa Senhora, presente na Capelinha, onde “ele frente a frente mete no coração a humanidade e trata Maria como uma Mãe, gesto vivível nos seus discursos e orações”. O investigador lembrou a “gratidão” presente nos gestos e nas palavras do Santo Padre, que assumiu uma imagem de peregrino, com gestos idênticos aos dos outros peregrinos.
Em 2010, Bento XVI foi o primeiro a falar do Centenário das Aparições de Fátima, dando indicações orientadoras que o Santuário seguiu. Consagrou ali os sacerdotes ao Coração de Maria. E afirmou o Santuário de Fátima como coração espiritual de Portugal. 
Francisco esteve em Fátima, em maio de 2017, 100 anos depois da 1.ª aparição de Maria. E “um dos primeiros gestos foi o silêncio, seguindo-se a entrega de três ramos de rosas, cuja origem ainda hoje não sabemos, e posteriormente a Rosa de Ouro”. Bergoglio foi o “primeiro Papa a caminhar no Recinto de Oração sem ser num percurso celebrativo”. E, “na bênção aos doentes, o Papa Francisco deu um novo sentido à expressão Jesus escondido”.
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E ressaltam do Simpósio alguns elementos importantes: a dimensão da condição de peregrino do ser humano e da Igreja; as três marcas de Fátima (três procissões – velas, adeus e silêncio; bênção dos doentes; e lava-pés); e a condição de peregrinos dos Papas, iguais aos outros (rezam, cantam, fazem ofertas, acenam adeus, cumprem promessas, celebram datas significativas, caminham…) e diferentes deles (pontificam, pregam, abençoam, são aclamados…). É Fátima em conexão com Jesus Cristo e a Santíssima Trindade, em Igreja e pelo mundo.
2019.06.29 – Louro de Carvalho   


terça-feira, 16 de outubro de 2018

Fátima fez memória de São Paulo VI no dia da sua canonização


A evocação litúrgica e decorativa da canonização
Na missa dominical do passado dia 14, no Recinto de Oração, presidida pelo Padre Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário de Fátima, e em que participaram 27 grupos de peregrinos, fez-se memória de Paulo VI, o primeiro Papa a visitar a Cova da Iria, e foram usadas as alfaias litúrgicas por ele oferecidas a este Santuário mariano.  
Na homilia, o presidente da celebração instou os participantes a profunda reflexão sobre as “prioridades e sobre as opções que daí decorrem”, isto porque a liturgia do dia exortava “a eleger Jesus Cristo como prioridade da nossa vida”, sendo que a sabedoria reside mesmo nisto: “deixarmo-nos guiar por Ele nas nossas opções e decisões”. Por outro lado, disse o Reitor, “a fé, que leva ao seguimento de Jesus, implica sempre quer a coragem de renunciar às nossas seguranças, quer a confiança n’Aquele em quem se acredita”, ao mesmo tempo que nos indica “as prioridades, que devem guiar as nossas opções e escolhas”, pois “qualquer escolha significa sempre e necessariamente eleger um caminho ou uma atitude, em detrimento de outros caminhos ou atitudes”. Assim, o Evangelho desafia o crente a escolher como prioridade “o seguimento de Jesus Cristo, da sua vontade, do seu exemplo, como critério fundamental que guia as nossas opções, as nossas escolhas”. E o Padre Cabecinhas vincou:
É uma questão de prioridades, ser cristão, ser seguidor, discípulo de Jesus Cristo, é ter como prioridade, como objetivo mais importante, como valor fundamental, a vontade de Deus, a comunhão com Deus”.
Entretanto, deve ter-se em conta que “Jesus não é concorrente com os nossos afetos e a vontade de Deus não se opõe ao que constitui já a nossa vida”, nem significa “ignorar a família ou desvalorizá-la”. Mas o presidente da celebração especificou:
Significa viver a vida familiar a partir de Deus; não significa não procurar os bens necessários para uma vida digna, significa ter a vontade de Deus, transmitida por Jesus, como guia seguro também no trabalho; não significa renunciar a procurar realização profissional. Significa não deixar que isso se sobreponha aos valores mais importantes que devem nortear a nossa vida e o nosso agir.”.
Sobre a Mensagem de Fátima, o Padre Cabecinhas sublinha que se centra “na primazia de Deus nas nossas vidas, na prioridade que Lhe demos dar e que só Ele deve ter”, tendo os Pastorinhos sido um bom exemplo do que significa dar a prioridade a Deus.
No final da missa, os peregrinos foram ainda convidados a rezar a oração que São Paulo VI fez em Fátima, escrita numa pagela distribuída no início da celebração. 
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São Paulo VI (1897-1978) foi o primeiro Papa a visitar Fátima a 13 de maio de 1967, por ocasião do cinquentenário das Aparições. Na celebração litúrgica associada à canonização e evocativa da visita papal foram utilizadas as alfaias litúrgicas oferecidas ao Santuário pelo Papa na sua peregrinação: o Cálice (juntamente com a Patena) e o Cibório (ou píxide) – obras da casa Giovanni Tosi, executadas em ouro e esmalte vermelho escuro, que apresentam (Cálice e Cibório) pé́ cónico, sobre base circular, sob a qual foi gravado o brasão pontifício paulino. Estas alfaias integram o acervo do Museu do Santuário, encontrando-se na exposição permanente “Fátima Luz e Paz”.
Também a estátua do Pontífice, que encerrou o Concilio Vaticano II, da autoria de Joaquim Correia e que se encontra no alto do Recinto de Oração, tem a partir do passado dia 14, uma ornamentação especial. O conjunto – tocheiro e floreira – parte do princípio de desenho utilizado junto da imagem de São João Paulo II e é igualmente conceção da arquiteta Joana Delgado. O tocheiro destaca-se do lado direito da imagem. A floreira é uma peça única, em pedra calcária, toda ela baixa. Enquadrando a  inscrição existente na base, a parte da floreira, cuja ornamentação será garantida pelo Santuário, sobressai cerca de 5cm relativamente à pedra.
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O primeiro papa a peregrinar para o Santuário de Fátima de que se mostrou amigo
São Paulo VI foi o primeiro Papa a fazer viagens internacionais, entre as quais uma visita a Fátima, em Portugal, onde deixou um acutilante e suplicante apelo à construção da Paz:
A nossa oração, depois de se ter dirigido ao céu, dirige-se aos homens de todo o mundo: Homens, dizemos neste momento singular, procurai ser dignos do dom divino da paz. Homens, sede homens. Homens, sede bons, sede cordatos, abri-vos à consideração do bem total do mundo. Homens, sede magnânimos. Homens, procurai ver o vosso prestígio e o vosso interesse, não como contrários ao prestígio e ao interesse dos outros, mas como solidários com eles. Homens, não penseis em projetos de destruição e de morte, de revolução e de violência; pensai em projetos de conforto comum e de colaboração solidária. Homens, pensai na gravidade e na grandeza desta hora, que pode ser decisiva para a história da geração presente e futura; e recomeçai a aproximar-vos uns dos outros com intenções de construir um mundo novo; sim, um mundo de homens verdadeiros, o qual é impossível de conseguir se não tem o sol de Deus no seu horizonte. Homens, escutai, através da Nossa humilde e trémula voz, o eco vigoroso da Palavra de Cristo: Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra, bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.” (Da homilia de Paulo VI, na Missa, 13 de maio de 1967).
Uma primeira mostra do carinho paulino pelo Santuário fatimita foi revelada no encerramento da 3.ª sessão do Concílio Vaticano II, com a proclamação, por parte de Paulo VI, de Nossa Senhora como “Mãe da Igreja” e o anúncio da oferta da Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima, com as seguintes palavras:
Resolvemos enviar proximamente, por meio de uma missão especial, a Rosa de Ouro ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, tão caro não só ao povo da nobre nação portuguesa... como também conhecido e venerado pelos fiéis de todo o mundo católico. Destarte, também nós pretendemos confiar aos cuidados da celeste Mãe a inteira família humana...”.
Também no dia da sua partida para Fátima, publicou a Exortação Apostólica Signum Magnum sobre o culto da Virgem Maria, Mãe da Igreja e modelo de virtudes, com o exortação explícita a todos os cristãos “a renovar pessoalmente a sua própria consagração ao Coração Imaculado da Mãe da Igreja”, aspeto central da mensagem de Fátima.
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Dados biográficos de São Paulo VI
Como o nome de Giovanni Battista Montini nasceu em Concesio, Bréscia, na Lombardia, e foi ordenado sacerdote ainda antes de completar 23 anos, em 1920, tendo feito doutoramentos em filosofia, direito civil e direito canónico.
Esteve ao serviço diplomático da Santa Sé e da pastoral universitária italiana, tendo vivido a II Guerra Mundial no Vaticano, onde se ocupou da ajuda a refugiados e a judeus. E, após o conflito, colaborou na fundação da Associação Católica de Trabalhadores Italianos, antes de ser nomeado Arcebispo de Milão, em 1954. São João XXIII criou-o cardeal em 1958, o que o levou a participar nos trabalhos preparatórios do Concílio.
Eleito Papa a 21 de junho de 1963, escolheu o nome de Paulo VI, e assumiu o timão do Concílio guiando, entre várias dificuldades, a Igreja para o diálogo com o mundo da contemporaneidade e para a refontalização evangélica no respeito pela genuína tradição. Entretanto, escreveu sete encíclicas, entre as quais a ‘Ecclesiam suam’, sobre os caminhos da Igreja, a ‘Populorum progressio’ (1967), sobre o desenvolvimento dos povos, e a ‘Humanae vitae’ (1968), sobre a regulação da natalidade, produziu várias exortações apostólicas, com relevo para a ‘Marialis cultus’, para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à bem-aventurada Virgem Maria, e a ‘Evangelii nuntiandi’ (1978), sobre a evangelização no mundo contemporâneo, e instituiu o Sínodo dos Bispos e o Dia Mundial da Paz.
Falecido em Castel Gandolfo a 6 de agosto de 1978, festa da Transfiguração do Senhor, foi beatificado a 19 de outubro de 2014 e canonizado no passado dia 14 de outubro, tornando-se no quarto Pontífice do século XX a ser canonizado, depois de Pio X, João XXIII e João Paulo II.
A biografia divulgada pelo Vaticano aquando da sua beatificação referia que Paulo VI “sofreu muito por causa das crises que afetaram repetidamente o corpo da Igreja”, durante a sua vida, tendo respondido com “uma corajosa transmissão da fé, garantindo a solidez doutrinal num período de mudanças ideológicas”. E “manifestou uma grande capacidade de mediação em todos os campos, foi prudente nas decisões, tenaz na afirmação dos princípios, compreensivo com as fraquezas humanas”.
Por seu turno, a biografia divulgada a propósito da canonização salienta a sua ação junto dos perseguidos durante a II Guerra Mundial, a sua proximidade para com os afastados da Igreja e os marginalizados e a sua entrega ao “anúncio do Evangelho, testemunhando com paixão o seu amor ao Senhor e a Igreja”.
A 7 de março de 2018 o Papa Francisco aprovou um milagre atribuído à intercessão do Beato Paulo VI abrindo assim caminho à sua canonização.
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A vinda de Paulo VI veio a Fátima levou Fátima ao mundo
O anúncio da concessão da Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima, na conclusão da 3.ª sessão do Concílio Vaticano II, a 21 de novembro de 1965, foi o primeiro ato público de Paulo VI para com Fátima. Foi o Cardeal Ferdinando Cento, legado pontifício, que fez a entrega desta “expressão de particular reconhecimento por serviços prestados à Igreja”, a 13 de maio do ano seguinte. Contudo, a presença do Papa na Cova da Iria viria a concretizar-se daí a dois anos: a 13 de maio de 1967, tornando-o, assim, no primeiro Papa peregrino de Fátima aonde veio rezar pela Igreja e pela paz, pondo Fátima no centro do mundo católico.
A sua vinda a Fátima para o Cinquentenário das Aparições foi tornada pública pela Santa Sé apenas 10 dias antes, não se prevendo que ele viesse, até porque nomeara como seu legado a latere o Cardeal Dom José da Costa Nunes para presidir às solenidades da Peregrinação Aniversária. Porém, a 3 de maio de 1967, um ano após o convite do episcopado português para que o Pontífice estivesse na Cova da Iria por ocasião da efeméride, o próprio confirmava a sua vinda a Fátima, “para honrar Maria Santíssima e para invocar a sua intercessão a favor da paz da Igreja e do Mundo”.
A ocasião não podia ser mais oportuna. Além do cinquentenário da 1.ª Aparição da Virgem, o Papa preparava-se para publicar a Exortação Pastoral ‘Signum magnum’, já referida. Por outro lado, as relações entre o Governo português de então e a Santa Sé passavam por um momento delicado, em parte, devido à guerra colonial e à presença do Papa, 4 anos antes, no congresso eucarístico na Índia, onde se situava Goa, que era o patriarcado do oriente e uma das possessões ultramarinas então ainda reclamadas pelo executivo português.
Em todo o caso, compareceram em Monte Real, onde o avião da TAP aterrou, como em Fátima, (após ter sobrevoado a Cova da Iria, cuja multidão aclamou entusiasticamente o Papa com o acenar de lenços brancos) o Presidente da República, o Presidente do Conselho de Ministros, outras altas individualidades civis e militares, juntamente com o Bispo de Leiria, o Núncio Apostólico e muito povo. O Presidente da República, depois dos cumprimentos, proferiu uma saudação de boas-vindas, que o Santo Padre agradeceu comovidamente, evocando a vinda de peregrinos de todo o mundo a Fátima, a Portugal, em contraponto à partida de muitos portugueses para longínquas terras a anunciar o Evangelho, e enunciou o seu propósito de peregrino da paz:
É Nosso ardente desejo render homenagem filial à excelsa Mãe de Deus, na Cova de Iria. Para lá encaminharemos agora os Nossos passos, com espírito de oração e de penitência, para suplicar a Nossa Senhora de Fátima que faça reinar na Igreja e no mundo o inestimável bem da paz.”.
E, em tempo de raridade das viagens pontifícias, a vinda de Paulo VI a Fátima – a 4.ª do seu pontificado – encontrou, desde logo, resistência no Vaticano. O cardeal Dom António Marto deu conta dessa oposição, no passado dia 12, na conferência de imprensa da última Peregrinação Aniversária de 2018, ao revelar uma informação do Cardeal Giovanni Battista Re, que na altura estava no serviço diplomático da Santa Sé e que lhe referiu pessoalmente que Paulo VI “veio a Fátima por uma decisão total e estritamente pessoal, contra a opinião de toda cúria romana”.
O Bispo de Leiria-Fátima, que então era um jovem, ainda hoje recorda as palavras lapidares que o Santo Padre deixou em Fátima na sua homilia:
Homens, (…) procurai ser dignos do dom divino da paz. Homens, sede homens. Homens, sede bons, sede cordatos, abri-vos à consideração do bem total do mundo”.
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A paz e a unidade da Igreja
A paz e a unidade da Igreja foram os dois pontos fulcrais que trouxe Paulo VI à Cova da Iria. Isso mesmo o espelha a edição de junho de 1967 do mensário “A Voz da Fátima”, que abria a 1.ª página com o título “O Papa veio a Fátima”, enunciando logo depois as “duas preocupações dominantes do Papa na sua histórica peregrinação”: “a Igreja e a paz”. Por outro lado, frisava:
 Fátima tornou-se, agora, mais que nunca verdadeiro altar do mundo, para onde se voltam todos os corações que buscam a paz e o bem”.
Após a visita de Paulo VI, começou a fazer-se notar a visibilidade de Fátima logo no mês seguinte, segundo o predito mensário, pelas inúmeras cartas, telegramas, mensagens e petições que chegavam, de todo o mundo, ao Santuário, com pedidos de estampas, livros, orações, e a felicitar pela forma brilhante como decorreu a peregrinação de Sua Santidade.
Entrevistado pelo jornal diocesano “A Voz do Domingo”, meses após a visita, Dom João Pereira Venâncio, Bispo de Leiria, revelava o entusiasmo com que o Papa viveu na vinda a Fátima, num testemunho de quem o acompanhou muito de perto:
O povo português foi uma revelação para o Santo Padre. Nunca Sua Santidade, decerto, imaginaria vir encontrar aqui tanta devoção à Virgem e ao Vigário de Cristo, tanto entusiasmo, tanta alegria.”.
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Eu vi a humanidade – disse o Papa a Jean Guitton
Monsenhor Luciano Paulo Guerra, Reitor do Santuário de Fátima de 1973 a 2008, presente em Fátima naquele dia 13 de maio de 1967, como locutor da Peregrinação, descreve:
Recordo-me de que foi um dia de muita chuva. Tenho uma vaga ideia de ter visto o Papa por entre a multidão, que era imensa e cerrada. A memória mais pessoal que tenho foi de me terem pedido para anunciar, ao microfone, que o Santo Padre estava a mostrar a Irmã Lúcia às pessoas. Naquele período conciliar, fiquei surpreendido com esta atitude do Papa de colocar a Irmã em relevo.”.
Sobre o contacto que viu o Santo Padre ter com os peregrinos, sublinha que o Papa “ficou muitíssimo impressionado com a multidão”, tal como o refere, no seu diário, o filósofo cristão Jean Guitton, que, dias depois da visita, se encontrou pessoalmente com o Papa, e ouviu as impressões do Pontífice sobre a peregrinação a Fátima:
Foi muito diferente das outras três visitas que eu fiz, totalmente diferente. Não poderei resumir a minha impressão senão por uma única palavra: eu vi a humanidade. Sim, a humanidade, a verdadeira, a humanidade no seu estado de simplicidade, de oração e de penitência. Era a visão da reunião final, talvez a maior reunião de verdadeiros crentes. Nunca tinha visto tal coisa neste mundo. Em Fátima a multidão ocupava uma só cova, tendo a impressão que a humanidade, verdadeiramente, era uma.”.
A propósito da Mensagem de Fátima, o Papa nada disse, provavelmente, como interpreta Monsenhor Luciano Guerra, “numa vontade de querer respeitar a sensibilidade cautelosa de uma parte importante da Igreja”.
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Um marco e um novo fôlego para a vida de Igreja em Portugal
Num momento em que ainda eram vivamente discutidas na Igreja as Aparições, a vinda do Papa “despertou um certo interesse e uma nova perspetiva sobre Fátima”, como refere o Padre Manuel Antunes, também presente na Cova da Iria a 13 de maio de 1967. Para este capelão do Santuário e coordenador do serviço de confissões nesse dia, a presença de Paulo VI em Fátima foi um marco na vida da igreja  católica portuguesa, como recorda:
A vinda de Paulo VI marcou muito a vida religiosa da nossa gente e foi um novo fôlego para a fé em Portugal. Também foi a partir daí que o mundo começou a olhar mais para Fátima, porque esta visita foi vista, por muitos, como uma confirmação das Aparições. Esse crescendo de interesse notou-se no aumento do número de peregrinos, inclusivamente sacerdotes.
E, refere enaltecendo a qualidade papal de peregrino em detrimento de uma postura política:
Como veio como peregrino, não tomou uma atitude diplomática, mas de pastor da Igreja, desligando-se completamente da política. Quando entrou no Santuário, foi uma explosão de alegria da multidão, ali presente para ver o primeiro Papa em Fátima.”.
Por sua vez, o Padre José Galamba de Oliveira, da diocese de Leiria, fez um breve relato na edição de julho de 1967 do mensário “A Voz da Fátima”, de que se destacam alguns dados.
O Papa e a sua comitiva saíram de Roma cedinho em avião da TAP, que sobrevoou a Espanha, abordou a Cova da Iria e aterrou no aeródromo de Monte Real às 9,53 horas. Calorosamente saudado em todo o percurso e em especial junto das povoações dos arredores, o cortejo deteve-se na cidade de Leiria, onde o Presidente da Câmara entregou ao Santo Padre as chaves da cidade, com uma bela mensagem de saudação e pedido de bênção para todo o povo do concelho.
A entrada solene na Cova da Iria foi certamente a mais extraordinária ovação que Paulo VI jamais recebeu. Proclamado o Evangelho na Santa Missa, o Santo Padre proferiu em português uma pertinente homilia e, na altura própria, deu a comunhão a uns 50 fiéis.
Terminada a Missa, benzeu a primeira pedra do novo Colégio Português em Roma, recebeu os cumprimentos da Irmã Lúcia que apresentou à multidão e ofereceu um belo rosário de prata à Imagem de Nossa Senhora de Fátima. Feita uma oração especial pelos doentes e dada a bênção em conjunto, saudou uma vez mais a multidão e retirou-se para a Casa de Retiros Nossa Senhora do Carmo, onde tinha os seus aposentos e tomou a refeição. Antes, veio uma vez mais à presença da multidão à antiga varanda do albergue, onde recebeu nova aclamação.
A seguir, tiveram lugar audiências ao Presidente da República, Presidente do Conselho, com alguns membros do Governo, episcopado português, corpo diplomático, famílias reais presentes, leigos dirigentes de várias obras católicas e um grupo de cristãos não católicos.
A despedida foi breve e afetuosa. Às 22 horas da noite, chegou a Roma e disse:
Encontrei em Portugal um povo bom e piedoso. Foi uma experiência maravilhosa que mostrou o caminho para a reconstrução do Mundo tal como o desejamos – de oração, humildade, concórdia e boa vontade.”
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O 13 de maio de 1967 foi, pois um marco para a Igreja em Portugal, para Fátima e para a maior divulgação da Mensagem.  “Peregrino humilde e confiante”, rezou pela “paz interior” da Igreja e pela paz mundial” e levou ao mundo a Mensagem de paz que Nossa Senhora nos deixou.
2018.10.16 – Louro de Carvalho

terça-feira, 21 de março de 2017

Um programa de peregrino…

O Papa Francisco virá a Fátima a 12 e 13 de maio como peregrino. Embora estejam previstos, em lugares e horas acertados, encontros com o Presidente da República e com o Primeiro-Ministro, a visita de Sua Santidade (dada a idiossincrasia deste Papa, parece nem soar bem este tratamento, mas é-lhe devido como aos demais) não assume a configuração duma visita de Estado. Para sermos mais claros, Francisco estará em Fátima com os peregrinos e não com a autoridade que lhe advém da sucessão petrina – sem alguma vez se esquecer de que é o sucessor de Pedro e confirma os irmãos na fé – nem revestido do poder que lhe conferem a tradição eclesiástica medieval e renascentista ou o Tratado de Latrão.
Além disso, os preditos encontros revestem um caráter privado. Não obstante, desde que o Pontífice, embarcado no Aeroporto de Fiumicino, em Roma, chegue à Base Aérea de Monte Real, às 16 horas e 20 minutos do dia 12 de maio, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, assumir-se-á por inteiro como o anfitrião do Santo Padre, papel que desempenhará até ao momento em que o ilustre peregrino levante voo a partir de Monte Real, pelas 15 horas do dia 13, em avião da TAP, com destino ao Aeroporto de Ciampino, em Roma.
Depois da aterragem na referida Base Aérea, ocorrerá a cerimónia de boas-vindas, a que se seguirá o encontro privado, de 20 minutos, com o Chefe de Estado e a visita à capela da Base, onde há 50 anos rezou (a 13 de maio) Paulo VI, que rumou a Fátima como peregrino da Paz, e João Paulo II, a 12 de maio de 1991, regressando da viagem às regiões autónomas dos Açores e da Madeira e rumando a Fátima.
O programa da viagem – viagem que responde aos convites da Conferência Episcopal Portuguesa e do Estado Português, entregues respetivamente pelo bispo de Leiria-Fátima, Dom António Marto, e pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa – foi divulgado a 20 de março pela Sala de Imprensa da Santa Sé e replicado, quer pelo Santuário de Fátima quer pela Comunicação Social Portuguesa.
Após os atos previstos para Monte Real, o Papa deslocar-se-á, em helicóptero da Força Aérea Portuguesa, para o Estádio de Fátima, que servirá de heliporto, e do Estádio deslocar-se-á em carro aberto até ao Santuário, para que os circunstantes possam, ao longo da jornada, ver e saudar o Sumo Pontífice e este mostrar alguns de seus gestos típicos.
Prevê-se a visita papal à Capelinha das Aparições pelas 18 horas e 15 minutos, onde o Pontífice terá um momento de oração. E, depois do necessário o tempo de repouso e refeição (também aspetos inerentes à condição de peregrino), as 21 horas e meia oferecerão a oportunidade da bênção das velas a partir da Capelinha das Aparições, a saudação do Santo Padre e a recitação do Santo Rosário.
O dia 13 iniciar-se-á com um encontro privado, de cerca de meia hora, com o Primeiro-Ministro, António Costa, pelas 9 horas e 10 minutos, na Casa de Retiros Nossa Senhora do Carmo, seguido da visita à Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, onde se encontram os túmulos dos três pastorinhos: Francisco, Jacinta e Lúcia. E, pelas 10 horas, celebrar-se-á a Santa Missa no Altar Recinto de Oração, com a homilia do Santo Padre e a bênção e saudação aos doentes – a celebração mais marcante da peregrinação aniversária.
O último ato oficial do programa será o almoço com os bispos portugueses no dia 13 na Casa de Retiros Nossa Senhora do Carmo, devendo o protocolo do Estado prover ao acolhimento dos Chefes de Estado que, na ocasião, estiverem em Portugal, na sequência do repto lançado por Marcelo na cimeira ibero-americana e na da CPLP.
Duas horas depois, o Papa estará de volta à Base Aérea de Monte Real, donde partirá em avião da TAP rumo a Roma após a cerimónia de despedida, estando a chegada a Roma prevista para as 19 horas e 5 minutos, hora de Roma.
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Francisco será o 4.º Papa a peregrinar para Fátima e, obviamente, o 4.º Papa a visitar Portugal. Porém, o mais assíduo visitante de Portugal e de Fátima foi São João Paulo II: esteve quatro vezes em Portugal, sendo que uma consistiu numa escala técnica no Aeroporto de Lisboa, onde falou aos portugueses, e três vezes em Fátima.
Paulo VI, como confidenciou no discurso que proferiu perante o Chefe de Estado em Monte Real, veio, por ocasião do cinquentenário, “render homenagem filial à excelsa Mãe de Deus, na Cova de Iria” e “suplicar a Nossa Senhora de Fátima que faça reinar na Igreja e no mundo o inestimável bem da paz”, bem como pedir a “Nossa Senhora de Fátima se digne derramar sobre Portugal católico as mais copiosas graças de bem-estar espiritual e material, de prosperidade, de progresso e de paz”. Não é de somenos sublinhar, para aquele tempo, o segmento discursivo transcrito em itálico!
João Paulo II veio, no aniversário do atentado que sofreu na Praça de São Pedro, com esta mística, referida à chegada a Portugal: “Em direção a Fátima ou no retorno de Fátima, levo no coração o cântico de ação de graças de Nossa Senhora, por Deus me ter salvado a vida, aquando do atentado sofrido, a 13 de Maio do ano passado; assim, em atitude adoradora, vou repetindo: “A minha alma glorifica o Senhor / e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1,47).
Voltou, 10 anos depois, a Fátima para “agradecer a Nossa Senhora a proteção dada à Igreja nestes anos, que registaram rápidas e profundas transformações sociais, permitindo abrirem-se novas esperanças para vários povos oprimidos por ideologias ateias que impediam a prática da sua fé”, bem como para “renovar a minha gratidão pela especial proteção da Virgem Mãe que me salvou a vida no atentado de há dez anos, mais precisamente em 13 de maio de 1981 na Praça de São Pedro”. E expressou o desejo de que em Portugal todos me sintam próximo de suas pessoas e vida, como mensageiro da Boa Nova da Salvação e do Amor de Deus”.
E, no ano 2000, veio celebrar a beatificação dos videntes Jacinta e Francisco e, sem que a opinião pública estivesse a contar, acabou por induzir a revelação e interpretação teológica da terceira parte do Segredo de Fátima.
Por seu turno, Bento XVI veio a Portugal “como peregrino de Nossa Senhora de Fátima, investido pelo Alto na missão de confirmar os meus irmãos que avançam na sua peregrinação a caminho do Céu”. Ao mesmo tempo, não esqueceu de vir afirmar que, “situada na história, a Igreja está aberta a colaborar com quem não marginaliza nem privatiza a essencial consideração do sentido humano da vida”. E, lembrando o centenário da viragem republicana, declarou:
“Não se trata de um confronto ético entre um sistema laico e um sistema religioso, mas de uma questão de sentido à qual se entrega a própria liberdade. O que divide é o valor dado à problemática do sentido e a sua implicação na vida pública. A viragem republicana, operada há cem anos em Portugal, abriu, na distinção entre Igreja e Estado, um espaço novo de liberdade para a Igreja, que as duas Concordatas de 1940 e 2004  formalizariam, em contextos culturais e perspetivas eclesiais bem demarcados por rápida mudança.
Mas sublinhou que “os sofrimentos causados pelas mutações foram enfrentados geralmente com coragem” e na convicção de que “viver na pluralidade de sistemas de valores e de quadros éticos exige uma viagem ao centro de si mesmo e ao cerne do cristianismo para reforçar a qualidade do testemunho até à santidade, inventar caminhos de missão até à radicalidade do martírio”.
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Resta-nos estar atentos a ver o que o Papa Francisco vem dizer e fazer. Para já, sabemos que, a 7 de setembro de 2015, no seu encontro com os bispos de Portugal durante a visita “ad Limina”, Francisco transmitiu-lhes o “desejo profundo” de visitar Fátima. E, em 29 de setembro de 2016, a Rádio Renascença recolhia declarações do Cardeal Patriarca e Presidente da CEP, Dom Manuel Clemente, do Bispo Auxiliar do Patriarcado, Dom Nuno Brás (que acentuava a alegria com que o Papa o terá dito), e do Bispo de Leiria-Fátima – todas no sentido de que o Papa viria a Portugal no âmbito do centenário, mas só a Fátima.
Entretanto, o Santuário de Fátima divulgou o site e o logótipo da vinda do Papa, que veio a ser assumido pelo Vaticano, em que surge a figura de Francisco e a legenda “Com Maria Peregrino na esperança e na paz”.
Por isso, temos de prestar toda a atenção às declarações que houver por bem fazer e, em especial, nesses dias 12 e 13 de maio, que o crente, o português e devoto de Maria espera com esperançosa ansiedade. Certamente que a palavra de Francisco proferida em Fátima será semente que terá, parafraseando Carvalho Rodrigues, o condão de se globalizar e tornar-se planetária e cósmica, porque será palavra seminal produzida no solar da Mãe de Deus (cf Carvalho Rodrigues em vídeo “Vozes do Centenário”, 13 de maio).

2017.03.21 – Louro de Carvalho