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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A “Mãe da Alegria”


Foi com este sugestivo título que Dom Rui Valério, Bispo das Forças Armadas e de Segurança, que presidiu à peregrinação evocativa da 5.ª Aparição da Virgem do Rosário na Cova da Iria, desafiou peregrinos a testemunharem Cristo pela alegria. Na Cova da Iria, neste dia 13, o venerando Ordinário Castrense olhou para Nossa Senhora como “Mãe da Alegria”, que aponta para o Redentor que salva a humanidade da tristeza da escassez do amor.
Para esta peregrinação, inscreveram-se 87 grupos de peregrinos, de 23 países a saber: Portugal, Alemanha, Austrália, Brasil, Cabo Verde, Coreia do Sul, Eslováquia, Espanha, EUA, França, Holanda, Indonésia, Irlanda, Itália, Polónia, Singapura, Burkina Faso, Canadá, China, República Checa, Filipinas, África do Sul e Reino Unido.
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A peregrinação iniciou-se na tarde do dia 12 com a habitual Saudação a Nossa Senhora na Capelinha das Aparições, com as presenças do presidente da Peregrinação e do Bispo de Leiria-Fátima, o Cardeal Dom António Marto.
Nesse momento, Dom Rui Valério quis interpelar os peregrinos desafiando-os a fazer de Fátima “um lugar de vida” e lembrou que a peregrinação a Fátima é sinónimo da “alegria de encontrar alguém que nos ama, nos recebe, nos acolhe e nos dirige um sorriso”. Por isso, convidou os peregrinos participantes neste momento de oração a encontrarem “essa mãe” e na “intimidade do coração” a escutarem a sua mensagem. E sublinhou:
Ela mostra-nos Cristo, acolhe as nossas preces e ensina-nos a fazer o que Ele quer. Acolhamos Maria no nosso coração para que ele seja morada do Senhor e do Espírito Santo.”.
Por seu turno, Dom António Marto sublinhou a importância do silêncio em Fátima como “a expressão mais bela e apropriada” da homenagem que os peregrinos fazem a Nossa Senhora quando chegam à Capelinha das Aparições e, diante da imagem, rezam em silêncio. E vincou:
É a reação mais profunda de quem chega. Todos ficamos em silêncio junto Dela, na contemplação do seu rosto, sentindo e experimentando a sua proximidade.”.
Para o prelado leiriense-fatimita, é neste silêncio que “sintonizamos o nosso coração com o coração imaculado de Maria, que nos conduz até Deus”. Com efeito, “o silêncio favorece o clima de oração que aqui se torna diálogo íntimo com a mãe; no silêncio interior queremos fazer chegar até Ela a nossa voz, em ação de graças ou com súplicas” – disse o Cardeal, frisando que, nesse silêncio, Maria faz chegar a cada um “o bom conselho para que vivamos na luz, verdade e amor de Deus, amor fraterno e solidário sem distinções ou discriminações”.
E, pedindo aos peregrinos que rezassem pelo Papa, pela Igreja e pela Paz no Mundo, concluiu:
Seja-nos dada a graça de escutarmos esta voz, a voz da Mãe do Senhor, pois todos nós precisamos dessa consolação. É uma palavra de encorajamento para a vida em Cristo, para a nossa participação na vida da Igreja e uma voz de advertência maternal que nos convida a fazer um exame sério de consciência e a pôr em ordem a nossa vida cristã. Escutemo-la e confiemo-nos a Ela.”.
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Durante a homilia da Missa da Vigília da Peregrinação Internacional Aniversária de setembro, no dia 12, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança afirmou que a sociedade moderna vive “encerrada em si mesma” sem soluções de paz porque o homem dispensou Deus. E o prelado sustentou que a autossuficiência do homem é um obstáculo à Paz.
Todas as vezes que o ser humano procura encontrar em si mesmo a solução para os seus problemas, contando só consigo e confiando apenas nas suas capacidades, que faz ele senão uma forte violência a si próprio?” – interpelou Dom Rui Valério, que explicitou detalhadamente o seu pensamento sobre a paz:
De facto, em todo o género de conflito seja bélico ou familiar, existencial, profissional ou pessoal deparamo-nos sempre com o mesmo cenário da pessoa centrada sobre si, fechada dentro do seu mundo, entregue somente aos seus recursos e projetando tudo a partir de si e do ponto de vista dos seus interesses pessoais. Pelo contrário, a paz é a bem-aventurança da aventura ao outro, da desfocalização e descentração e esta atitude germina e floresce na comunhão com o Senhor, vivida na oração autêntica.”.
Perante os milhares de peregrinos que participaram na Eucaristia que se seguiu à Procissão das Velas, o presidente da celebração apontou que não é de estranhar “se hoje nos deparamos, mais uma vez, com uma sociedade demasiado encerrada em si mesma, sem janelas para a eternidade” e porfiou que “só onde há oração há abertura a Deus e aos outros e só onde esta abertura existir será possível construir ou reparar todos os dias os delicados alicerces da paz”. E esclareceu:
A paz tem na oração não só a sua génese e o seu mais profícuo caminho, como também a sua principal medida e a sua mais justa dimensão. Rezar, viver o encanto do encontro com o Senhor não só é a principal ferramenta para destronar a guerra, mas é o passo decisivo para se construir a paz.”.
O prelado, invocando o exemplo de Maria na proximidade a Deus e na comunhão com Ele, frisou que foi esta atitude que fez Dela a construtora de uma “nova Humanidade” e ensinou:
A abertura de Nossa Senhora a Deus e à sua santa vontade abriu novos horizontes à humanidade, outrora bloqueados pela maldade e pelo pecado, quando Adão e Eva avistaram o fruto e, numa mera criatura, num simples objeto, quiseram ver o belo, o bom e o verdadeiro, atributos que só a Deus pertencem”.
E, concluindo que o mundo “só será salvo em Cristo”, o Prelado Castrense observou:
No Éden, o olhar da humanidade, pelos olhos de Eva, ficou fechado na idolatria. Mas, agora, pelos olhos de Maria, a nova Eva, a humanidade redescobre, incessantemente, a Beleza, a Bondade e a Verdade de Deus.”.
Por fim, Dom Rui Valério explicitou o itinerário do caminho que cada peregrino deve fazer para alcançar a verdadeira comunhão com Deus: acolhimento do outro tal como é, capacidade para aceitar o mistério deixando-se surpreender, disponibilidade para o serviço e abertura à missão. E, considerando que “sair ao encontro dos outros é a outra face do encontro com o Senhor”, o insigne Bispo exortou:
Sejamos, com Maria, coerentes com a nossa fé, capazes de nos admirarmos com as surpresas de Deus, de permanecermos disponíveis para fazer a sua vontade através do acolhimento dos outros e da atenção solícita para respondermos aos seus apelos”.
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Na manhã deste dia 13, na homilia da Missa Internacional Aniversária de Setembro (concelebrada, além do cardeal Dom António Marto, por 3 bispos e 123 sacerdotes), Dom Rui Valério apelou aos peregrinos a que deem testemunho vivo da alegria salvífica de Deus, através de uma concretização missionária do Evangelho na vida quotidiana.
A partir do relato da 5.ª Aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, na Cova da Iria, em que a Mãe do Céu “vem falar da alegria de Deus”, o presidente da celebração começou por dar conta da esperança da presença incessante de “um Deus vivo, que conhece e experimenta o doce sabor da alegria que irrompe sempre que o ser humano se deixa resgatar e é salvo”. E lembrou:
A Boa Nova que Nossa Senhora trouxe e que proclamou precisamente neste lugar é que o mundo não está perdido. (…) Maria Santíssima é a Mensageira dessa alegria e da salvação do mundo. Foi-o aqui em Fátima, como o tinha sido quando visitou a sua prima Isabel para lhe comunicar a boa nova da iminente vinda do Redentor.”.
Depois, olhou para Nossa Senhora como “Mãe da alegria” a partir do relato das Bodas de Canaã, proclamado no Evangelho.
Numa interpretação teológica do episódio de Caná, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança apontou o vinho que Jesus ali oferece, a partir de água, como símbolo da “alegria do amor” de Deus, e as talhas de pedra vazias como “o coração e a vida das pessoas privadas de sentido e de razões de viver”. E, tendo em conta que “o vazio indica a tristeza e nada esvazia tanto o coração humano como a escassez do amor”, alertou para a “embriaguez do consumo” com que o ser humano tenta colmatar este vazio e apontando para o amor de Deus como resposta a este “consumismo afetivo e espiritual”. A seguir, garantindo que “a pessoa não se salva por intermédio das coisas efémeras” e, evocando a fundação da “nova Aliança fundada no amor” que Jesus institui com o seu povo nas Bodas de Caná, sublinhou:
Só o amor nos salva e nos preenche, construindo e reconstruindo a vida redimida a partir das ruínas em que tantas vezes nos encontramos. (…) E só Cristo, nosso Redentor, pode realizar essa obra de salvação.”.
O presidente da Peregrinação Internacional Aniversária reforçou, depois, o “valor salvífico” dos sacrifícios dos Pastorinhos, fundado num “excesso de amor abundante”, para enumerar três ações para alcançar a alegria salvífica que Deus oferece à humanidade: acolher Maria no coração, sendo Sua morada; escutar a Palavra do Senhor, pondo-A em prática; e, a partir da comunhão irmãos, assumir a missão evangélica de testemunhar, na vida quotidiana, a alegria da comunhão com Cristo. E, concluindo, desafiou:
Seja esta a nossa proposta para o mundo: mostrar a nossa pessoal experiência de vida com Cristo, testemunhá-la na vida quotidiana para que todos os que observarem a nossa alegria e a forma como vivemos de amor se sintam atraídos e fascinados com a vida cristã que na Igreja transparece”.
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É também de realçar a palavra dirigida aos doentes, durante o momento de Adoração ao Santíssimo Sacramento, por Pedro Santa Marta, da Associação dos Servitas de Nossa Senhora de Fátima, que perspetivou a vida como um Rosário, convidando os peregrinos a ser exemplo de “alegria e esperança na aceitação do sofrimento” e desenvolvendo:
Nem sempre Deus nos cura ou nos alivia. Não porque não goste de nós – porque Deus nunca nos abandona – mas porque, através desse sofrimento, nos oferece uma oportunidade para nos purificarmos ou, então, porque se quer servir de nós para ajudar os outros na sua conversão. E, se o soubermos e quisermos aceitar, com alegria e muita esperança, estaremos a ser um instrumento de Deus na conversão dos pecadores, tal como Nossa Senhora aqui o pediu em maio de 1917.”.
E formulou o seguinte voto:
Que a nossa vida seja como um rosário: as contas serão as nossas boas ações, ligadas por uma corrente feita das nossas orações e do nosso amor a Deus e a quem nos rodeia” – afirmou o responsável pelos Servitas de Fátima.
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Como é habitual, a última palavra da celebração coube ao Bispo de Leiria-Fátima, que reforçou a tonalidade da alegria (a alegria de Deus por nós e a nossa alegria em Deus) enunciada na homilia por Dom Rui Valério, a quem agradeceu a presença e a mensagem “bela e calorosa”. E afirmou:
Deus alegra-se connosco, e a nossa alegria em Deus, no amor, na ternura, na misericórdia, no perdão e na vida nova que nos oferece. A alegria da qual Nossa Senhora fez eco aqui, em Fátima, aos Pastorinhos... Uma alegria que é um dom de Deus e que levamos no nosso coração para dar testemunho dela na vida quotidiana.”.
No dia em que em que se iniciam as aulas para muitas crianças, o Prelado de Leiria-Fátima enviou uma bênção aos “pequenitos e pequenitas” para este início de ano letivo, deixou uma palavra de conforto aos doentes e saudou os peregrinos, que vieram à Cova da Iria, provenientes de várias geografias do mundo.
Por fim, Dom António Marto lembrou os bombeiros portugueses e o seu esforço no combate aos incêndios, convidando a assembleia a rezar uma Ave-Maria por estes soldados da paz.
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E aí está Fátima na sua força da bem-aventurança evangelizadora e como espaço da vida e da alegria em Deus e por Deus.
2019.09.13 – Louro de Carvalho

terça-feira, 13 de agosto de 2019

Pela 79.ª vez, peregrinos ofereceram trigo ao Santuário de Fátima


Os peregrinos que estiveram hoje, dia 13 de agosto, no Santuário de Fátima ofereceram trigo e cumpriram esta tradição solidária pela 79.ª vez, durante o ofertório da Missa de encerramento da Peregrinação Internacional Aniversária de agosto, evocativa da 4.ª aparição de Nossa Senhora (a única que não aconteceu na Cova da Iria no dia 13, mas sim nos Valinhos, a 19) e que integrou a Peregrinação Nacional do Migrante e Refugiado, presidida pelo Prefeito da Congregação para os Bispos (Santa Sé), o Cardeal canadiano Marc Ouellet, e que se iniciou ontem, dia 12.
Com efeito, a Igreja Católica em Portugal está a viver a 47.ª Semana Nacional das Migrações, dinamizada pela OCPM (Obra Católica Portuguesa das Migrações), que termina com uma jornada de solidariedade a 18 de agosto.
O Santuário informou durante a celebração da Eucaristia de encerramento desta peregrinação, que foram, durante 2018, oferecidos 8215 quilos de trigo e 530 quilos de farinha, tendo-se consumido neste santuário mariano, naquele ano, aproximadamente 37700 hóstias, e 2 milhões e 90 mil partículas e foram celebradas 10561 Missas.
A oferta de trigo pelos peregrinos da Diocese de Leiria-Fátima e de outras dioceses de Portugal e do estrangeiro é um gesto da apresentação dos dons da Eucaristia da peregrinação aniversária de 13 de agosto, que recorda a 4.ª aparição de Nossa Senhora aos Santos Francisco e Jacinta Marto e à sua prima, a Irmã Lúcia – tradição que se cumpre desde 1940, quando um grupo de jovens da JAC (Juventude Agrária Católica), de 17 paróquias da Diocese de Leiria, ofereceu 30 alqueires de trigo destinados ao fabrico de hóstias para consumo no Santuário de Fátima.
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Na saudação a Nossa Senhora que inaugurou a Peregrinação, os Cardeais António Marto, Bispo de Leiria-Fátima e Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos e Presidente da  Pontifícia Comissão para a América Latina, lembraram os jovens e os migrantes.
Sobre os migrantes, afirmou Dom António Marto:
Não se trata apenas de migrantes, mas de irmãos e de irmãs que devem ser acolhidos, respeitados e amados onde quer que cheguem”.
Por sua vez, o Cardeal canadiano referiu:
As caravanas de migrantes nunca foram tão numerosas como neste nosso tempo perturbado por tantos males e ameaças”.
Na abertura desta peregrinação, que denominou de “de fé e de esperança”, disse:
Penso particularmente naqueles e naquelas que sofrem pela sua condição de migrante, que choram pelas suas famílias e amigos que deixaram nos seus países de origem, que ainda não encontraram uma situação conveniente no país de adoção”.
E, falando de Fátima e do seu pode carismático, concluiu:
Fátima é um lugar privilegiado de graça, de consolo e de esperança. Unimo-nos à oração da Virgem Maria, à oração das santas crianças mensageiras Francisco e Jacinta, e à do Santo Padre que não se cansa de chamar a atenção do mundo inteiro para o destino dos migrantes e dos refugiados.”.
Já Dom António Marto, que falara também dos migrantes, aproveitou o momento para invocar a intercessão de Nossa Senhora para a juventude portuguesa e mundial.
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Na homilia da Missa da Vigília, Dom Marc Ouellet, presidente da Peregrinação Internacional Aniversária olhou para o drama dos refugiados e apresentou a caridade cristã como “sinal de Deus em ação na história”. Estabeleceu um paralelo entre a génese da Igreja e o drama dos migrantes e refugiados, que definiu como “mensageiros de Deus” e alvo primeiro da caridade de todos batizados. E, ao evocar episódios da “história santa”, lembrou a origem peregrina da Igreja, um “povo a caminho, (…) tantas vezes fustigado e sofredor”, mas sempre “acompanhado” e “protegido” por Deus. Desta constatação e do Mistério da Encarnação, que evidencia um Deus que se faz próximo da humanidade, o insigne purpurado deduziu a “Aliança” de amor através da qual os batizados em Cristo são “levados a espalhar aos outros a caridade gratuita”, e exortou a esta ação caritativa em ordem aos que o Santo Padre apelida de “últimos”, que são os “enganados, abandonados, torturados, abusados e violentados”.
Definindo os migrantes e refugiados como “um povo de seres humanos vulneráveis, descartados, maltratados e desprezados, como o foi o Crucificado”, o prelado romano (de origem canadiana) pediu oração pela ação do Espírito Santo para que estes sejam “reconfortados, consolados, levantados” e que encontrem, nas “peripécias de viagem, () o testemunho da caridade dos cristãos e dos não-cristãos”. E, dirigindo-se à assembleia de peregrinos, vincou:
A vossa solidariedade para com todos eles, que manifestais através desta peregrinação, é um sinal dos tempos e um sinal de Deus em ação na história, Deus que revela através do seu povo a caminho a aspiração profunda da humanidade que ultrapassa, de facto, o horizonte terrestre”.
Na conclusão, Dom Marc Ouellet definiu os migrantes e refugiados como “mensageiros de Deus”, apresentando uma leitura escatológica a partir da realidade que vivem. E frisou:
Não sois apenas miseráveis expostos a todas a intempéries, sois mensageiros de Deus que, através de vós, recorda a todos o destino comum da humanidade a caminho até à cidade de Deus, a Jerusalém celeste prometida a todos os homens de boa vontade”.
Concelebrou a Missa como o Cardeal Ouellet o Cardeal Marto, bispo de Leiria-Fátima, três bispos e 72 sacerdotes. Na assembleia estiveram meia centena de grupos organizados de peregrinos, provenientes de Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, Bélgica, Reino Unido, Irlanda, Malta, Brasil, Estados Unidos da América, Costa do Marfim, Senegal, Vietname e Malásia.
A Peregrinação prosseguiu com uma Vigília de Oração noturna, que terminou com a Procissão Eucarística, já de manhã. E, às 9 horas, procedeu-se à recitação do Terço, na Capelinha das Aparições, tendo, às 10 horas, começado a Missa Internacional, que integrou a tradicional oferta do trigo no momento da apresentação dos dons, como já foi referido, bem como a bênção aos doentes e ao povo e a Procissão do Adeus.
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Diante dos milhares de peregrinos que participaram nas celebrações deste dia 13, tendo concelebrado 99 sacerdotes, 4 bispos e 2 cardeais, o Cardeal Marc Ouellet lembrou que somos todos “peregrinos e mendigos da esperança” mas também “missionários”, “apóstolos ativos”, a quem se exige
Uma caridade mais fervorosa, mais paciente e criativa, para que encontremos a nossa alegria e a nossa salvação não apenas quando as nossas preces são atendidas, mas também na alegria de servir os nossos irmãos e irmãs”.
De olhos postos nos migrantes, o purpurado desafiou os peregrinos a serem “apóstolos ativos” da esperança e da paz diante “das nuvens carregadas que pairam sobre o planeta”. E observou:
A mensagem de Fátima permanece mais atual do que nunca, porque nuvens carregadas pairam sobre o planeta e nós não sabemos o que nos reserva o amanhã. Ainda que o Santo Padre venha multiplicando as iniciativas e assumindo a defesa dos mais vulneráveis na causa da paz, nomeadamente através da promoção de uma ecologia humana integral, muitos são os líderes políticos que se fecham cada vez mais ao diálogo, à compaixão e à paz.”.
A centenária mensagem de Fátima “é e continua a ser a Paz, a garantia da paz, da oração e da penitência para a paz do mundo”, precisou, acrescentando:
Sentimo-nos totalmente impotentes na conjuntura atual da história, mas estamos certos de que Nosso Senhor opera de forma singular na história desde que Sua mãe pronunciou o Fiat ao anúncio do Anjo”.
Sublimando na perspetiva cristã e eclesial a condição do migrante e peregrino, sublinhou:
Hoje, pensamos particularmente em todos os migrantes e refugiados que percorrem as estradas do nosso planeta à procura de uma pátria terrestre melhor, mas à procura também da pátria que Deus prepara para nós na Jerusalém Celeste, cujas portas Cristo escancarou a fim de aí acomodar toda a família humana resgatada pelo seu sangue”.
Alertando para o facto de o povo de Deus a caminho “levar consigo as suas alegrias e as suas tristezas” e ser “solidário com toda a humanidade em Cristo, Príncipe da Paz”, ensinou:
O nosso olhar sobre Maria e o olhar de Maria sobre nós, iluminados pelo Espírito Santo, fazem de nós novas criaturas, homens e mulheres de esperança, peregrinos que de repente sentem que o fardo é mais leve, pobres que repentinamente param de se queixar e começam a ter compaixão pelos que são mais vulneráveis e sofredores”.
Pedindo aos peregrinos que se inspirem no exemplo dos pastorinhos para retomarem o caminho com um espírito novo e novas energias  transformando os infortúnios em aventura missionária, ao jeito de Maria, o Cardeal exortou:
Caros amigos peregrinos, migrantes e refugiados, o que levaremos aos nossos irmãos e irmãs quando regressarmos desta peregrinação? Lembranças? Objetos que nos recordem a graça recebida neste lugar? Atitudes novas para com eles que resultam da transformação do nosso olhar através do olhar de Maria? Sim, haverá certamente lugar para tudo isto, mas também para nos decidirmos tornar apóstolos ativos ao serviço do Príncipe da Paz e da sua Mãe, a Rainha da Paz.”.
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Como foi dito já, esta Peregrinação integrou também a Peregrinação Nacional do Migrante e Refugiado, um dos pontos altos do programa da 47.ª Semana Nacional das Migrações, promovida pela Igreja Católica de 11 a 18 de agosto, cujo tema é “Não são apenas migrantes”. Agosto é um dos meses em que Fátima recebe mais migrantes, sobretudo da nossa diáspora. Além dos peregrinos lusófonos, acorreram grupos de fiéis de dezenas de países, como Vietname, Síria, Senegal, Suécia, Polónia, Malásia, França, Reino Unido, Sri Lanka, EUA, Malta, Bélgica, Brasil, Alemanha, Itália, Costa do Marfim, Irlanda, Indonésia e Espanha.
A diretora da OCPM (Obra Católica Portuguesa das Migrações) lamentou a subsistência de “uma sociedade que exclui” e onde mais do que meios falta a “boa vontade” de ajudar quem precisa de acolhimento. Efetivamente, na conferência de imprensa com os jornalistas, no início da Peregrinação, Eugénia Quaresma frisou a responsabilidade que recai sobre o poder político, de “colocar a questão das migrações na agenda”, mas também sobre “quem elege”, no sentido “de se combaterem os medos” e de se “mudar a narrativa” atual. E apontou que é preciso combater os medos, em vez de alimentar o populismo e a xenofobia, sustentando a necessidade de um trabalho conjunto, que envolva todos os países e governos.
E, em alusão à situação de Itália, um dos países onde a questão do acolhimento aos refugiados mais se tem colocado, indicou:
É importante que se entenda que a questão das migrações é de resolução conjunta e colaborativa, não pode ser só uma questão dos Estados do sul, tem que haver solidariedade na resolução das questões”.
Mais a diretora da OCPM disse que a Igreja Católica em Portugal “está a trabalhar para que as pessoas percebam que todos beneficiam com a diversidade e com o acolhimento, e com a capacidade de integrar o potencial que estas pessoas trazem”.
Eugénia Quaresma recordou ainda a importância de promover “canais seguros e regulares para as migrações”, no sentido de “combater também o tráfico de seres humanos”, e de “influenciar os Estados a serem mais abertos ou a funcionar de uma forma mais aberta”. E relevou o “desafio das crianças” migrantes e refugiadas, cada vez mais um problema presente em diversos países, crianças que chegam muitas vezes sozinhas, sem qualquer suporte – pois, “ao acolher estas crianças estamos não só a cuidar do nosso presente, mas mais a semear o nosso futuro”.
No atinente ao Programa de Recolocação e Reinstalação de Refugiados, desde o início desta crise humana a Europa já acolheu perto de 46 mil pessoas, sendo que para Portugal vieram 1674, e dentro destas 726 pessoas através da PAR (Plataforma de Apoio aos Refugiados) – um número que, para Eugénia Quaresma, vem desmistificar desde logo aquele “discurso de invasão” que muitas vezes tem caraterizado esta problemática.
E a responsável da OCPM, reforçando a necessidade de uma mudança de mentalidade diz:
726 pessoas é um número pequenino, se pensarmos que elas estão dispersas por diversas comunidades e regiões. É um número que não custa a aceitar, que não custa a acolher”, defendeu aquela responsável (…) Se não fosse a recusa de alguns países, a Europa tinha capacidade para acolher muito mais, é uma questão de boa vontade, não só de política e de condições, é uma questão de conseguirmos contar com todos para melhorar este mundo em que vivemos.”.
Por seu turno, Dom António Vitalino Fernandes Dantas, o Bispo que acompanha a OCPM, também presente na predita conferência de imprensa, disse que é preciso “promover a cultura do encontro, da comunicação e da comunhão”.
António Vitalino assinalou que o “mundo atual está marcado pela mobilidade”, algo que “não é novidade” para o cristão, que “sempre foi considerado um peregrino a caminho da terra prometida”, mas alertou para “as guerras, as perseguições, cataclismos e fome”.
Neste contexto, aludiu às alterações climáticas, recordando a realização do Sínodo especial para a Amazónia, “que tratará da Amazónia e do seu significado para o clima a nível mundial”, convocado pelo Papa Francisco para o mês de outubro.
O vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana explicou que os migrantes portugueses estão em “maior número nos países desenvolvidos” onde mantêm um “amor muito grande ao seu país, às suas famílias e tradições”, e destacou as peregrinações que participam em países como a França, a Suíça e a Alemanha. E, contextualizando o acompanhamento espiritual dos migrantes, disse que, “normalmente, as conferências episcopais se orientam para a nomeação pela Erga Migrantes Caritas Christi, de 2004”, que “fala em organização jurídica da nomeação de padres assistentes pastorais e delegados”, embora haja também os missionários avulsos, que enfrentam, por vezes, dificuldades tal como as induzem.
A peregrinação internacional aniversária de agosto releva a tragédia que afeta hoje milhões de pessoas que estão a ser obrigadas a deixar as suas casas devido a problemáticas como a pobreza, a guerra e a perseguição étnica e religiosa.
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Na despedida dos peregrinos, o Cardeal Marto elogiou e agradeceu a ação da GNR no Mediterrâneo ao resgatar mais duma centena de migrantes que tentavam chegar à Europa vindos da costa do Norte de África, deixou mensagem para os migrantes e refugiados e agradeceu testemunho de fé dos peregrinos. Sobre a ação da GNR, disse:
Neste dia não posso deixar de exprimir o louvor e gratidão pelo gesto da Guarda Nacional republicana nas águas do Mediterrâneo, que resgatou mais de uma centena de refugiados”. (…) É um gesto e um sinal muito belo de solidariedade e de coragem que honra a ação da GNR.”.
António Marto, dirigindo-se à assembleia, lembrou que esta peregrinação, “festa de família junto de Nossa Senhora”, serviu para “tomarmos consciência de que os migrantes e os refugiados não são objeto de mercadoria, nem bode de expiação para os males da sociedade”, mas “irmãos e irmãs que devem ser acolhidos e amados”. E, aludindo à situação laboral que atravessa o país, com a greve dos camionistas, nomeadamente os de transporte de matérias perigosas, agradeceu a todos os peregrinos presentes por terem vindo a Fátima, observando:
Viestes em grande número, em número significativo e nem sequer a greve vos desanimou. Aqui fica o meu agradecimento pelo vosso testemunho de fé corajosa, mesmo quando é posta à prova” (…) Fátima é um lugar privilegiado de graça, de consolo e de esperança.”.
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E, sim, Fátima mantém-se na senda da evangelização que se inicia pelo acolhimento, pelo pregão e pelo testemunho orante e atento, importando que o reforce e diversifique e leve o Santuário e o sue dinamismo missionários às comunidades mais próximas e mais distantes.
2019.08.13 – Louro de Carvalho

sábado, 13 de julho de 2019

Busca de luz e verdade, de pureza de coração e reconciliação


É esta a marca da forte experiência peregrinacional, segundo o Cardeal Dom António Marto, bispo da diocese de Leiria-Fátima, que deu boas vindas aos peregrinos presentes na Capelinha das Aparições, na tarde do dia 12, para a Peregrinação Internacional Aniversária de julho.
Na tradicional abertura da Peregrinação, o purpurado considerou que chegar ali “é um momento privilegiado para estar com a Mãe da ternura, da misericórdia, da consolação, que a todos acolhe com sorriso materno e por todos intercede junto de Deus”. Sublinhando que “uma peregrinação é muito mais que fazer turismo, desporto ou viver uma aventura”, observou:
É uma viagem que empreende quem se põe a caminho fazendo caminho interior, é mais que uma viagem física em direção à parte mais profunda de cada um de nós, ao fundo do nosso próprio coração, onde cada um se encontra com o mistério de Deus amor”.
E, apresentando o peregrinar como forte “experiência espiritual” e momento privilegiado para o exercício da “busca de luz e verdade, de pureza de coração e reconciliação”, disse:
Com o Seu imaculado coração, [a Mãe] convida cada um a deixar-se envolver pelo amor de Deus pelo mundo e, assim curar as feridas, aquecer os corações desanimados e reavivar a nossa fé”.
Depois, convidou os peregrinos à oração pelas intenções do Santo Padre, pela paz no mundo, por todos os que sofrem e, de modo particular, oração pelos cristãos perseguidos pelo testemunho da sua fé.
No encerramento da peregrinação, a 13 de julho (hoje), o prelado de Leiria-Fátima recordou o essencial da mensagem do segredo de Fátima e afirmou aos peregrinos:
Quem acredita em Deus não pode ficar cego nem insensível à dor do mundo
Dom António Marto recuperou, no âmbito do essencial do segredo, as palavras do Papa São João Paulo II a propósito da importância e da atualidade da mensagem de Fátima:
Foi a dor da Mãe que a fez falar porque estava em jogo a sorte dos seus filhos, como quem nos diz: quem acredita em Deus não pode ficar cego nem insensível à dor do mundo”.
Concluindo que, em Fátima Nossa Senhora se apresentou “como a Mãe da consolação”, disse:
Cada peregrinação tem o seu tom e o tema próprio e, na de julho, recordamos o chamado segredo de Fátima que consistiu numa séria advertência trazida por Nossa Senhora à humanidade ameaçada de destruição pelas guerras”.
E Sua Eminência recordou que foi nesta aparição que Nossa Senhora deixou a “certeza inabalável” que é a “promessa da vitória da misericórdia e do amor de Deus sobre o mal, o pecado e a miséria humana”.
Por fim, agradeceu ao Presidente da Peregrinação, Dom Daniel Henriques, Bispo auxiliar de Lisboa por “nos ter iluminado” trazendo “esta mensagem de consolação a todos”.
É digno de nota que participaram nas celebrações de Fátima, nesta peregrinação de julho, 72 grupos de peregrinos, oriundos de: Portugal, Espanha, França, Itália, Polónia, Alemanha, Reino Unido, Bélgica, Áustria, Hungria, Malta, Brasil, Colômbia, Estados Unidos da América, Líbano, Costa do Marfim, Ilhas Maurícias, Coreia do Sul e Filipinas. Além dos grupos inscritos, participou nesta celebração de sábado um grupo de cerca de 100 tripulantes do Navio Amerigo Vespucci da Marinha Italiana, acompanhados pelo capelão do navio, Dom Pietro Folino Gallo.
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Dom Daniel Batalha Henriques, presidente da Peregrinação Internacional Aniversária de julho, presente na sobredita cerimónia de abertura, considerou-se um peregrino no meio dos peregrinos, a celebrar o aniversário da terceira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos. A este respeito, agradecendo à Virgem Maria o longo caminho percorrido em segurança por muitos dos peregrinos ali presentes, disse:
Chegar a Fátima é unir-se em oração, como uma grande família e faz nos exclamar ‘que bom é estar aqui’. (…) Chegamos aqui de alma cheia de sentimentos profundos de gratidão e súplica, trazemos a nossa história, o nosso passado e presente, com alegria e provações, e sobretudo com tantas memórias que nos tocam.”.
O prelado lembrou os peregrinos, que toda vida caminharam até Fátima e que hoje, pela idade ou pela enfermidade, não podem estar presentes, pedindo orações pelas intenções de cada um desses irmãos. O recém-ordenado bispo disse também que recebeu o convite de Dom António Marto para presidir à peregrinação como um “sinal a consagrar” o seu ministério episcopal.
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Na homilia da Missa da noite de 12 de julho, Dom Daniel Henriques pediu união em oração pelos cristãos perseguidos por causa da sua fé. Depois, desafiou os fiéis presentes a interpretar a terceira parte do segredo de Fátima à luz das perseguições religiosas feitas a muitos cristãos. E, ao definir a oração como lugar de abertura ao próximo, este Bispo auxiliar de Lisboa pediu união em oração pelos cristãos perseguidos, alertando para o perigo do silêncio e do comodismo das sociedades ocidentais perante este drama.
Depois de lembrar as intenções de cada um dos presentes na vinda à Cova da Iria, começou por apresentar a fraternidade e a oração como a essência que deve guiar aqueles que vêm a Fátima. E, apresentando, à luz do pensamento do Papa Francisco, a oração como um lugar que se projeta no próximo e onde “não há espaço para o individualismo”, disse:
Ser peregrino de Fátima é aceitar alargar o coração, recusando mantê-lo fechado na individualidade de cada um ou no círculo restrito da família e dos amigos. É aceitar reaprender a arte de rezar na escola de Jesus e de Maria, mesmo que rezar nos pareça já algo tão familiar e definitivamente assimilado”.
Com base na 1.ª leitura, que relatava a situação dramática do Povo de Israel no cativeiro da Babilónia, o prelado pediu união em oração pelos cristãos perseguidos por causa da fé, alertando para o comodismo que carateriza as sociedades ocidentais. E, sublinhando a atitude ativa que o Santo Padre tem vindo a assumir no sentido de envolver a Igreja numa corrente de oração e de empenho continuado por esta causa, observou:
Estes cristãos, compreensivelmente, não entendem o silêncio que parece prevalecer sobre o seu drama nos países ditos desenvolvidos, que tão orgulhosamente defendem a sua supremacia no que diz respeito à defesa dos direitos humanos. Nem tão pouco entendem o silêncio acomodado de tantos cristãos desses países, acomodados e entretidos com as suas rotinas quotidianas, onde o que importa é salvaguardar uma vida tranquila e sem sobressaltos.”.
Na conclusão, o Presidente desta Peregrinação Internacional Aniversária evocou a aparição de 13 de julho de 1917, centrando-se na última parte da visão que Nossa Senhora deu a contemplar aos Pastorinhos e que ficou conhecida como o “terceiro segredo de Fátima”, sobre o qual desafiou os peregrinos a uma interpretação à luz da perseguição que atualmente é feita a muitos cristãos, tal como desde os primórdios. E declarou:
Na sua linguagem profética, quase em estilo bíblico, [a terceira parte do Segredo de Fátima] relata a parte sangrenta e dramática da história da Igreja no século XX, no que aos mártires da fé diz respeito. Mas podemos ver também nele o caminho da Igreja ao longo da História, desde o martírio de Santo Estêvão, o primeiro mártir ou de São Pedro, o primeiro Papa até aos anos já decorridos depois do ano 2000, em que foi revelado o Segredo.”.
Assumindo que “o caminho de Jerusalém e o caminho do Calvário serão sempre o caminho da Igreja”, apontou para a vida dos “mártires de hoje e de sempre” como exemplos de santidade que inspiram a uma vida mais próxima de Deus.
A Peregrinação Internacional Aniversária de julho, que evoca a 3.ª aparição de Nossa Senhora aos videntes Lúcia, Francisco e Jacinta, a 13 de julho de 1917, na Cova da iria, continuou pela madrugada, com uma vigília de oração, animada pelos jovens da diocese de Leiria-Fátima. E o dia 13 começou com a procissão eucarística, às 7 horas, seguida da recitação do Rosário, na Capelinha das Aparições, de onde, às 10 horas, partiu a procissão com a imagem de Nossa Senhora para o altar do Recinto de Oração, onde foi celebrada a Missa Internacional Aniversária, concelebrada por um cardeal, 7 bispos e 110 sacerdotes e que terminou com a Bênção aos Doentes e ao Povo e com a com Procissão do Adeus.
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Na homilia da Missa do Adeus, o Bispo auxiliar de Lisboa Dom Daniel Henriques desafiou os peregrinos presentes no Recinto do Santuário de Fátima a serem “instrumentos” do amor “consolador” de Deus junto dos mais próximos.
Evocando a memória da 3.ª aparição da Virgem, a 13 de julho de 1917, o prelado afirmou que, face ao “vazio asfixiante”, ao “frenesim alienante” e à “aridez estéril de tantos dos nossos dias, consumidos em trabalho e lutas sem fim”, os cristãos devem deixar-se contagiar pelo amor de Deus e levá-lo aos mais próximos, tornando-se “fonte de consolação”. E garantiu:
As consolações de Deus não se esgotam em nós próprios. É a própria consolação de Deus que, através de nós, deve iluminar e confortar o coração de quantos se encontram atribulados.”.
Na verdade, segundo o relato da vidente Lúcia, Nossa Senhora, na sua 3.ª aparição, fez aos pastorinhos o pedido insistente de oração, penitência e conversão em ordem à Paz no mundo e ofereceu-lhes o Seu Imaculado Coração como refúgio e caminho para Deus.
A partir da liturgia do dia, o Presidente da Peregrinação citou São Paulo para afirmar a certeza da presença permanente do amor de Deus, mesmo nos momentos das maiores tribulações da vida e, interrogando, adiantou:
Quem não experimentou já as sombrias horas de tribulação e de angústia?! Quem não sentiu já o seu coração envolto em tristeza e ansiedade? É esta a nossa condição humana: se vivemos momentos de serenos de tranquilidade, recordamos que nem sempre assim estivemos e bem sabemos que uma cortina negra como breu pode cair, repentina, sobre a nossa vida e de quantos nos são próximos.”.
Prosseguindo, observou:
Nesses momentos, sem sabermos como, sentimo-nos habitados por uma paz que tem a sua origem, não na supressão dos problemas nem em qualquer discernimento racional, mas numa presença consoladora e inefável, que nos fez sentir como uma criança ao colo da mãe”.
A garantir que “este conforto nos vem, na medida em que nos soubermos associar aos sofrimentos de Cristo”, uma vez que “participar nos seus sofrimentos é participar das suas consolações”, exortou:
Associemo-nos aos sofrimentos de Cristo no seu Corpo, que é a Igreja, no sofrimento que Ele padece nos seus membros. Acolhamos a consolação da parte de Deus que nos vem por esta entrega. Assim consolados, tornemo-nos nós também consoladores, em palavras e gestos concretos carregados de ternura e compaixão.”.
E concluiu deixando uma garantia:
O Senhor promete-nos uma vida feliz, bem-aventurada, se soubermos abraçar como missão e vocação tanto daquilo que o mundo rejeita como infortúnio e maldição, se soubermos acolher os contextos penosos e difíceis, abraçando-os e vivendo-os com amor”.
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Nesta celebração foi, ainda, dirigida uma palavra aos doentes participantes na Eucaristia, não pelo Presidente da Peregrinação (não é a primeira vez que isto acontece), mas, desta vez, pela médica missionária Patrícia Bernardino, que, lembrando a singular importância de cada um, que se encontra numa situação de fragilidade, disse ter a certeza do amor de Deus “que a todos oferece consolo e ternura” e advertiu:
Mesmo nos tempos de maior fragilidade e sem aparente sentido, se descobrimos que somos amados e cuidados pessoalmente por Jesus, a esperança e a paz podem renascer no silêncio do nosso coração (…) Quando aceitamos o convite a permanecer com Ele, as nossas vidas podem ser verdadeiramente livres, profundamente alegres, cheias de sentido e valor, como dão testemunho as vidas dos Pastorinhos.”.
Na verdade, “Jesus ama-nos também a nós até́ à totalidade do que somos, ama-nos como somos, na inteireza da nossa natureza frágil, imperfeita e sempre incompleta” esclareceu a comunicadora, lembrando que, tal como no dia 13 de julho de 1917, Nossa Senhora revelou aos pastorinhos “como Deus olha e se compadece do nosso mundo ferido e renova o convite da entrega total da vida a Deus, como caminho do Coração que repara e colabora na transformação orante da realidade”, também hoje sabemos que “somos introduzidos na mesma missão de Jesus, somos amados para amar, para consolar a Deus e fazer nosso o Seu olhar compadecido para com todos os nossos irmãos”.
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Pelo exposto se vê que Fátima corresponde à identidade do Santuário como “lugar sagrado onde a proclamação da Palavra de Deus, a celebração dos Sacramentos, em particular da Reconciliação e da Eucaristia, e o testemunho da caridade exprimem o grande compromisso da Igreja para com a evangelização”, desde “o primeiro anúncio até́ à celebração dos mistérios sagrados” e “se torna manifesto o poder da ação com a qual a misericórdia de Deus age na vida das pessoas”. A sua identidade específica “decorre da natureza própria dos santuários cristãos” e “está indelevelmente modelada pelos traços fundamentais da mensagem associada às aparições de Nossa Senhora e à experiência espiritual que viveram os três videntes”:
A afirmação do primado de Deus com o convite a adorar o mistério do seu amor trinitário; o anúncio da misericórdia divina que se inclina sobre os sofrimentos da humanidade; a denúncia do mal e o apelo à conversão dos corações a Deus; a oração, particularmente pela paz no mundo; a reparação como chamamento à solidariedade e à corresponsabilização no amor pela salvação do mundo; a apresentação do Coração Imaculado de Maria como sinal e expressão da bondade de Deus; e o amor à figura do Papa, garante da unidade das igrejas particulares”.
E o Santuário “é, na sua essência, um local de peregrinação surgido do acontecimento fundante das mariofanias em 1917, que deu origem a um dinamismo espiritual ligado à devoção a Nossa Senhora do Rosário de Fátima e que se desenvolve de forma atenta aos sinais dos tempos, iluminado nomeadamente pela vida dos Santos Francisco e Jacinta” (cf art.º 7.º dos Estatutos).
E está claro que, no âmbito das opções pastorais, o Santuário
- Coloca especial empenho no acolhimento dos peregrinos e na preparação das peregrinações comunitárias; acolhe, com especial solicitude e cuidado, os peregrinos doentes, os portadores de deficiência e os que apresentam especiais fragilidades; e socorre os pobres, atendendo às suas necessidades, e acolhe os marginalizados.
- Enquanto lugar de evangelização, privilegia a proclamação da Palavra de Deus e a celebração dos sacramentos, em particular da Reconciliação e da Eucaristia; e, tendo em conta a dimensão eucarística da Mensagem de Fátima, dá especial relevo ao culto eucarístico, nomeadamente à adoração eucarística.
- Favorece a expressão da piedade popular no quadro das tradições de oração, devoção e entrega à misericórdia de Deus inculturadas na vida de cada povo.
- Sabendo que o santuário pode ser verdadeiro refúgio para cada um se redescobrir a si mesmo e reencontrar a força necessária para a própria conversão, proporciona condições de descanso, silêncio e contemplação; e, enquanto memória viva e eficaz da obra de Deus na história humana, preserva a memória dos acontecimentos fundantes, aprofundando o seu significado, e documenta a história deste lugar, como testemunho de fé dos que aqui peregrinam.
- Na sua ação pastoral de evangelização e catequese, põe em relevo a mensagem ligada ao acontecimento que está na origem deste Santuário, explicitando a atualidade da mensagem, e desenvolve linhas de espiritualidade específicas do seu carisma próprio; e, em sintonia com a secular tradição da Igreja, recorre a iniciativas culturais e artísticas de qualidade, que são instrumentos de inculturação da mensagem evangélica, segundo a via pulchritudinis como modalidade peculiar da evangelização da Igreja. (cf art.º 19.º dos Estatutos).
Enfim, que Fátima se evangelize sempre e evangelize fazendo de Cristo a sua referência e faça com que os peregrinos entrem no âmago do “coração da vida”, como quer Dom José Tolentino Mendonça.
2019.07.13 – Louro de Carvalho

sábado, 29 de junho de 2019

“Fátima, Hoje que caminhos?”


Foi a questão dominante do Simpósio Teológico-Pastoral 2019, que decorreu no Salão do Bom Pastor, Centro Pastoral de Paulo VI, do Santuário de Fátima, de 21 a 23 de junho – três dias de reflexão, diálogo e celebração, cada um deles organizado em torno de um núcleo temático: o 1.º dia, a condição do peregrino; o 2.º dia, a peregrinação a Fátima; e o 3.º dia, a Igreja peregrina.  
As intervenções dos oradores distribuíram-se por 10 conferências: cinco no dia 21; três no dia 22; e duas no dia 23. As do 1.º e 2.º dias foram seguidas de diálogo.
As conferências do 1.º dia foram subordinadas aos seguintes títulos: “Leitura dos movimentos migratórios na atualidade”, por Paulo Rangel; “O homo viator na contemporaneidade”, por Lídia Jorge; “A Criação como paradigma da Peregrinação, por José Rui Teixeira; Fátima: um espaço global e multirreligioso”, por Helena Vilaça; e Turismo, peregrinação, hospitalidade”, por José Paulo Abreu. Os trabalhos do dia terminaram com a celebração da Missa, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima [sexta-feira da semana XI do Tempo Comum, São Luís Gonzaga, Memória Obrigatória], às 18,30 horas; e, depois do jantar, às 21 horas, realizou-se o Serão Cultural, no Centro Pastoral de Paulo V, em torno do tema “Exodus – Geometrias da Libertação”, com Celina Tavares (voz e guitarra), José Miguel Costa (piano) e  José Rui Rocha (leituras).
O 2.º dia, iniciado com uma oração em comum, foi preenchido com três conferências subordinadas aos seguintes títulos: “A peregrinação a Fátima. Uma leitura de antropologia teológica”, por António Martins; Os Papas peregrinos de Fátima”, por Marco Daniel Duarte; e “São Francisco Marto: peregrinação e páscoa,  no centenário da sua morte” por Adrian Attard, da Academia Pontifícia Mariana Internacional. A meio da tarde, desenvolveu-se um painel temático em torno de “As marcas da peregrinação a Fátima”, desdobrado em três itens: “Da bênção dos doentes” por José Manuel Pereira de Almeida; “Do serviço do lava-pés”, por Ana Luísa Castro; e “Das procissões de Fátima: a luz, o silêncio e o adeus”, por Carlos Cabecinhas.
Depois do subsequente diálogo, procedeu-se à celebração da Missa, na Capela da Morte de Jesus, no piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade [Missa votiva de Nossa Senhora de Fátima]. E, às 21,30 horas, foi o Rosário e a Procissão das Velas, a partir da Capelinha das Aparições.
O 3.º (e último) dia iniciou-se com a celebração da Missa, às 9 horas, na Basílica da Santíssima Trindade [Missa do Domingo XII do Tempo Comum]. Seguiu-se a 9.ª conferência “Variações sobre a Igreja peregrina. Da Lumen Gentium ao pontificado de Francisco”, por Benito Mendez Fernandez; e 10.ª conferência “Maria pôs-se a caminho: caminhos de hoje da Peregrina da fé”, por Nunzio Capizzi. Recorde-se que este é o tema da JMJ de 2022, em Lisboa.
Na apresentação do programa, Marco Daniel Duarte (diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos e Presidente da Comissão Organizadora do Simpósio) referia que, ao longo de um século, a “condição de peregrino” do ser humano é uma das grandes verdades que Fátima tem proclamado e que, “a partir da Cova da Iria” essa condição será “a mais clarividente metáfora da própria vida humana”, que se ilustra “no espaço”, mas que “ganha pleno e inquestionável sentido, sobretudo no tempo que o ser humano percorre desde o nascimento ao óbito”. E, atento ao que se passa em Fátima, rumo a Fátima e a partir de Fátima, considerava:
A imagem das incontáveis fileiras de homens e mulheres que rumam ao Santuário de Fátima, a pé ou de carro, de mota ou de bicicleta, de avião ou de barco ou até de forma espiritual a partir de outros polos de culto dedicados à Virgem de Fátima espalhados pelo mundo, somada ao trilho luminoso e branco das procissões das velas e das procissões do adeus, é, de facto, uma das mais expressivas imagens para a definição do ‘homo viator’, quer o leiamos no contexto do Cristianismo de sinal católico, quer o leiamos no contexto das inquietações várias – religiosas ou não – que povoam os fóruns académicos e a vida quotidiana”.
Nesse sentido, “investigadores de diferentes academias, nacionais e estrangeiras”, olharam para a humanidade peregrina para “analisarem desafios antigos e desafios novos” e se debruçarem “sobre a condição peregrina”, “sobre a peregrinação a Fátima” e “sobre a Igreja peregrina”. 
A agência Ecclesia, em abril, citando um comunicado que lhe fora enviado, dizia que “o sentido de peregrinar” nortearia o encontro que o Santuário de Fátima estava a organizar para o decurso de três dias com a presença de investigadores nacionais e estrangeiros “convidados a olhar a humanidade peregrina” e a analisar os “desafios inerentes à condição de peregrino”. Relevava a intervenção de Adrian Attard, da Academia Pontifícia Mariana Internacional, no 2.º dia, e as do Padre Benito Mendez Fernandez delegado para o ecumenismo da diocese de Mondoñedo-Ferrol, província eclesiástica de Santiago de Compostela, e do Frei Nunzio Capizzi, Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. E considerava que o tema do Simpósio se insere na reflexão proposta pelo Santuário para o presente ano pastoral “Dar graças por peregrinar em Igreja”, que se integra “no triénio 2017-2020, sob o tema “Tempo de Graça e Misericórdia”, e transcrevia significativos segmentos textuais da explicação programática do Presidente da Comissão Organizadora do Simpósio.
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Na sessão de abertura, o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que denominou a vida de “aventura”, enquanto “viagem no desconhecido”, começou por dizer:
Procuramos segurança e estabilidade, no meio da mudança rápida e vertiginosa dos acontecimentos, procuramos uma felicidade que não se evapore, há toda uma busca pelo sucesso, por bens, por prestígio”.
E, afirmando que é “este anseio, que de algum modo invade o íntimo de cada humano” e “faz dele ser peregrino”, observou:
Assim, o peregrinar é geralmente um movimento externo, físico, que desloca cada pessoa de um lugar para outro. No entanto, é possível falar de peregrinação interior, aspeto esse que coloca o peregrino na linha da reflexão cristã da interioridade. Tendo em conta os dados sociológicos, não se pode negar que existe hoje uma intensa busca de espiritualidade que se declina em vários códigos interpretativos.”.
Colocando-se na perspetiva dos crentes”, o purpurado caraterizou a peregrinação como uma “parábola da existência humana entendida à luz da fé”, visto que, “no anseio de sentido, latente no coração humano, vemos um desejo ardente de Deus, porque só Ele nos pode encher e satisfazer de modo definitivo, tornar-nos felizes, livres e satisfeitos”. E, apresentando os lugares de peregrinação como “lugares de graça onde, de várias formas se pode fazer a experiência da riqueza e da beleza dos diversos aspetos do peregrinar”, discorreu:
A peregrinação pode ser uma experiência bela e surpreendente de Deus, de interioridade e de renovação espiritual, de evangelização e de testemunho. Deste modo, o peregrino deixa o seu lugar e o seu ritmo quotidiano, (...) e o seu coração abre-se à medida que caminha, tudo adquire nova dimensão, seja o tempo, os encontros que são preciosos como partilha de vida interior, o silêncio que fala da própria vida e de Deus; o próprio Deus é, por vezes, surpresa ou faz acontecer surpresas.”.
Depois, considerou que a peregrinação ao Santuário de Fátima tem particularidades singulares, que lhe são atribuídas pelo conteúdo da Mensagem, na sua dimensão mística e profética, mas também por alguns aspetos simbólicos caraterísticos, como é imagem da Virgem Peregrina, que já deu a volta ao mundo por 16 vezes, percorreu 645.000 Km, e é, hoje, “verdadeiro ícone da peregrinação, juntamente com o mar de luz da procissão das velas, e o adeus de Fátima”.
O prelado leiriense-fatimita salientou ainda a afluência de peregrinos de “quase todos os povos do mundo e de todas as culturas e até de outras religiões”, que chegam a Fátima por ser um “lugar com o ambiente de silêncio e de oração e com os lugares de referência como é a Capelinha das Aparições ou os Valinhos” – tudo o que levou Bento XVI a dizer-lhe pessoal e textualmente: “Não há nada como Fátima em toda a Igreja católica no mundo”. E concluiu:
Fátima abre caminhos para cá chegar e abre caminhos para quem daqui parte para a Igreja e para o mundo, pela dimensão mística da mensagem, face a um certo eclipse cultural de Deus no ocidente, e pela dimensão profética urge a atenção ao problema sempre atual da paz pela cultura do encontro, do diálogo e da reconciliação e pela ação correspondente de uma Igreja em saída da sua autorreferencialidade para as periferias do mundo”.
Antes, o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário, dera as boas-vindas aos cerca de 250 participantes, a quem apresentou o “caminho a que o peregrino se lança” como “símbolo da experiencia humana”. E, depois, justificou o uso da “metáfora da peregrinação” para “refletir acerca da experiencia de fé”, sustentando que a experiencia da peregrinação “não permite apenas aceder à mais profunda compreensão da fé, mas também oferece uma bela metáfora da vida em Igreja”.
Por seu turno, o presidente da Comissão Organizadora do Simpósio, começou por afirmar que, “entre as verdades que Fátima tem proclamado, ao longo de um século, está a de que o ser humano continua a exercer a sua condição de peregrino” e reiterou que “a imagem das incontáveis fileiras de homens e mulheres que rumam ao Santuário de Fátima” é “uma das mais expressivas imagens para a definição do ‘homo viator’, quer o leiamos no contexto do Cristianismo de sinal católico, quer o leiamos no contexto das inquietações várias – religiosas ou não – que povoam os fóruns académicos e a vida quotidiana”.
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Para o carmelita Adrian Attard, que não compareceu, mas enviou o texto que Isabel Varanda leu, a conversão proposta por Fátima deve-se “ao testemunho da existência cristiforme dos videntes”, que se “associaram a Jesus, mediante o Espírito, à história da liberdade de Jesus, ou seja, à sua fé obediencial ao Pai”. Por isso, o seu testemunho “mostra-nos” como a vida quotidiana pode tornar-se ocasião para alcançar a fé. Ora, “quando se reconhece a presença de Cristo que, na sua liberdade, vem ao nosso encontro no concreto da vida real, Ele torna-se a pedra angular para o significado de toda a vida pessoal”. E Attard vincou:
O caminho que cada um está chamado a realizar coloca-o misteriosa e progressivamente num espaço cada vez mais amplo que lhe permite alcançar o mais profundo de si mesmo, sem esquecer aquele que está ao seu lado”.
À distância de cem anos da sua morte, São Francisco Marto continua a ser uma “figura singular” que “conferiu à infância uma importância decisiva, vivendo-a em toda a sua profundidade e plenitude”, manifestada “na proximidade a Deus e ao seu mistério”. Com efeito, “no cumprimento de cada dever, nos atos de mortificação, em todas as ocasiões de zelo, de oblação, de abnegação e de caridade que se lhe apresenta, Deus colocou no coração de Francisco a sua vontade, e este cooperou eficazmente no processo de assimilação ao seu Senhor”. Por isso, “a vida do santo menino ajuda-nos a insistir em alguns pontos de interesse antropológico-espiritual e a clarificar algumas perspetivas para o futuro” – esclareceu.
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É de relevar algo do teor do painel temático da tarde do dia 22, marcado por três intervenções.
O reitor do Santuário, sublinhando o sentido da procissão como “uma caminhada comum” sinal da condição peregrina da Igreja enquanto povo de Deus, disse:
A luz da procissão das velas; o silêncio da procissão do silêncio (exclusiva de Fátima) e a saudade expressa no adeus à Virgem constituem marcas importantes no imaginário deste lugar”.
Em Fátima, particularmente, a procissão é uma forma “de aproximação” à veneranda imagem de Nossa Senhora e, simultaneamente, um  momento de oração, meditação e peregrinação. A este respeito, o Padre Cabecinhas vincou a especial relação entre estas procissões e a própria Mensagem de Fátima, nomeadamente a Procissão das Velas que remete para a “luz de Deus”, relatada nas memórias da Irmã Lúcia por variadas vezes, em concreto, quando descreve a experiência de Francisco, tocado pela Luz de Deus. Já a Procissão do Adeus, sendo um rito de despedida, “um adeus emotivo” dos peregrinos a Nossa Senhora, representa um aspeto indelevelmente ligado à `alma portuguesa: a saudade. E há uma outra procissão, criada por razões funcionais, mas que hoje é um dos momentos mais belos e que mais dizem da experiência que se faz em Fátima: o silêncio. Trata-se da procissão de regresso da imagem à Capelinha, depois da missa da Vigília na noite dos dias 12, entre maio e outubro, durante a qual milhares de peregrinos rezam em silêncio, “o silêncio orante caraterístico de Fátima”. É a mais recente das procissões, mas tornou-se “marcante nos rituais processionais do Santuário”, sendo que, “para muitos, é este silêncio que faz da Cova da Iria um lugar especial”.
Em todos estes momentos, concluiu o reitor, os peregrinos são “os grandes protagonistas de Fátima”. Os peregrinos “criaram estes rituais e são eles que os protagonizam”, quer quando levam as velas acesas, quer “quando se movimentam no recinto para ficarem mais próximos da imagem, quer ainda quando acenam os lenços brancos para se despedirem”.
Outra das “marcas” da peregrinação a Fátima é a bênção dos doentes, no final da missa, particularmente nas grandes celebrações. A partir do Evangelho de São Marcos, o médico e sacerdote José Manuel Pereira de Almeida apresentou este gesto litúrgico como a “expressão da proximidade de Jesus” para com todos os doentes e os que são frágeis. E afirmou:
Jesus, no Santíssimo Sacramento, passa bem junto dos doentes para lhes dizer a Sua proximidade e o Seu amor. E eles – tal como os Pastorinhos – confiam-lhe as suas dores, os seus sofrimentos, o seu cansaço. (…) Como discípulos do Senhor, cada doente quer viver a sua vida como um ‘dom’. Naquele momento podem dizer-Lhe de novo, como os Pastorinhos, que querem oferecer-se a Deus de todo o coração.”.
Depois, assegurou que “a nossa vida de comunhão com Jesus corresponde a vivermos com Ele e como Ele na terra”. E lembrou as palavras  do Papa Francisco, antes da bênção dos doentes em Fátima, no final da missa de canonização dos santos Francisco e Jacinta, a 13 de maio de 2017:
Jesus sabe o que significa o sofrimento, compreende-nos, dá-nos força e consola-nos. Por isso, a bênção dos doentes é a certeza de que Jesus está presente, nos compreende, nos dá força e nos consola.”.
Por fim, foi relevado o lava-pés como outra das grandes ‘marcas’ de Fátima. Ana Luísa Castro (médica religiosa da Aliança de Santa Maria e diretora do Posto de Socorros do Santuário) apresentou o gesto como “um primeiro desejo” dos que, movidos pela compaixão para com os primeiros peregrinos” (um grupo “de cavalheiros e senhoras” que, em 1924, haveriam de formar a Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima), lançaram mãos à obra no apoio e assistência” a quem chegava a pé. E frisou que o serviço “cabe no desejo de excesso, suscitado por Deus, podemos dizer, então nesse carisma, de se sacrificar para dignificar o outro, para o servir, ao jeito de Jesus na Última Ceia, mas também como única forma de realização plena do que se é chamado a ser em Cristo”.
Tendo atravessado já várias fases, o serviço do lava-pés assiste hoje a uma redução da procura pelos peregrinos. As razões para “esta curva descendente” podem ser consideradas de ordem prática, mas há “outras que nos devem interpelar”, pois deriva da forma “como hoje o homem se coloca diante de Deus”. Com efeito, “temos dificuldade em reconhecer que somos frágeis, que precisamos que nos lavem os pés”, convictos da “autossuficiência” inerente ao homem de hoje, que privilegia o ritmo frenético imposto pelas mãos ao invés da “lentidão que os pés pedem”.
E, porque “os pés feridos são a manifestação física de um mundo interior magoado”, exortou:
Deixemos que os pés definam os nossos mapas, aceitemos percorrer um caminho interior, lento e esforçado, mas que permite ir experimentando os cheiros, as cores e os sons que a vida tem para dar (…).Temos que reaprender a usar os pés”.
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Na sua conferência, Marco Daniel Duarte considerou que “os Papas, ao virem a Fátima, deixam transfigurar o seu olhar” num lugar onde “a ritualidade transcende a mensagem”. Para o historiador, quem quiser compreender melhor Fátima na sua plenitude “deve analisar os discursos dos Papas em Fátima e a propósito de Fátima”.
O orador disse que os Papas, mesmo antes de iniciarem o ciclo das viagens pontifícias a Fátima, fizeram-se representar pelos seus delegados.
Paulo VI foi o primeiro a visitar a Cova da Iria, numa peregrinação de profundo “culto à Mãe de Deus”. Ao chegar a Fátima, lembrou a sua condição de “peregrino entre peregrinos” e, através dessa presença, “sentiu a força histórica da Irmã Lúcia de Jesus”, justamente pelas ovações dos peregrinos ali presentes. E ofertou o seu báculo, um gesto que merece “atenção”, porque não é “comum” um Papa proceder desta forma.
João Paulo II foi o segundo Papa a visitar a Cova da Iria e “nada previa que se fizesse peregrino em tão pouco tempo de pontificado”. Em Fátima, teve um gesto simbólico pondo-se de joelhos aos pés de Nossa Senhora e orando na Capelinha das Aparições, um ano depois do atentado e na hora em que ele aconteceu, num “profundo momento de silêncio”. O investigador falou da “relação física” de João Paulo II com a Imagem de Nossa Senhora, presente na Capelinha, onde “ele frente a frente mete no coração a humanidade e trata Maria como uma Mãe, gesto vivível nos seus discursos e orações”. O investigador lembrou a “gratidão” presente nos gestos e nas palavras do Santo Padre, que assumiu uma imagem de peregrino, com gestos idênticos aos dos outros peregrinos.
Em 2010, Bento XVI foi o primeiro a falar do Centenário das Aparições de Fátima, dando indicações orientadoras que o Santuário seguiu. Consagrou ali os sacerdotes ao Coração de Maria. E afirmou o Santuário de Fátima como coração espiritual de Portugal. 
Francisco esteve em Fátima, em maio de 2017, 100 anos depois da 1.ª aparição de Maria. E “um dos primeiros gestos foi o silêncio, seguindo-se a entrega de três ramos de rosas, cuja origem ainda hoje não sabemos, e posteriormente a Rosa de Ouro”. Bergoglio foi o “primeiro Papa a caminhar no Recinto de Oração sem ser num percurso celebrativo”. E, “na bênção aos doentes, o Papa Francisco deu um novo sentido à expressão Jesus escondido”.
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E ressaltam do Simpósio alguns elementos importantes: a dimensão da condição de peregrino do ser humano e da Igreja; as três marcas de Fátima (três procissões – velas, adeus e silêncio; bênção dos doentes; e lava-pés); e a condição de peregrinos dos Papas, iguais aos outros (rezam, cantam, fazem ofertas, acenam adeus, cumprem promessas, celebram datas significativas, caminham…) e diferentes deles (pontificam, pregam, abençoam, são aclamados…). É Fátima em conexão com Jesus Cristo e a Santíssima Trindade, em Igreja e pelo mundo.
2019.06.29 – Louro de Carvalho