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domingo, 24 de novembro de 2019

A cruz de Jesus como trono redentor


O Ano Litúrgico termina com a celebração da Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo. E, no Ano C, é proclamada e comentada, na Liturgia da Palavra, a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 23,35-43) em que a realeza do Senhor é reconhecida precisamente no alto da cruz, que no topo sustentava o letreiro em que se lia (em hebraico, grego e latim): “Este é o Rei dos Judeus”.
O letreiro, como era hábito, indicava a razão por que o supliciado fora condenado à morte de cruz, modalidade de morte reservada, no Império Romano, a malfeitores (e) escravos. Assim, deveria concluir-se que Jesus fora crucificado por ser o Rei dos Judeus ou por se ter arrogado essa condição. Na verdade, parece não ser assim. Apresentado ao Sinédrio pelos que, às ordens dos chefes judaicos, O manietaram, reiterou a declaração de que é o Filho de Deus, o que levou a que O considerassem réu de morte. Mas esta era uma declaração inócua para os romanos. Por isso, havia que aproveitar, da pregação que Jesus fazia às multidões sobre o Reino que anunciava e de que se apresentava como titular na linha davídica, o móbil de acusação junto do tribunal romano. E então a acusação de que se valem é que se dizia o Rei dos Judeus, o que Pilatos não reconhecia como motivo para condenação à morte. Até O interrogou e Ele lhe disse que tinha um reino que não é deste mundo. E Pilatos, que não via motivo para O mandar crucificar, mandou açoitá-Lo para acalmar a fúria da multidão e levá-la a desistir do pedido de morte para Aquele que não tinha cometido crime algum.
Porém, ante a multidão ululante (bem ensaiada) que dizia a Pilatos que, se não crucificasse Jesus de Nazaré, não era amigo de César, o único soberano que reconheciam, o Governador imperial, temendo a eventual ira de César, entregou Jesus para a crucifixão e proveu a guarda e algozes para a execução da sentença da pena capital.        
***
Assim, em dia de Cristo Rei, somos convidados a contemplar a cruz do Senhor e interrogarmo-nos sobre o que ali vemos e sobre o que nos pode hoje dizer a cruz.
Vemos pendente do madeiro Jesus, que passou pelo fundo fazendo o bem a todos os que Dele se aproximavam e anunciando o Reino de Deus, cujo núcleo central é a o perdão dos pecados. Está desnudo e com a pele esbatida por exangue, depois da flagelação, da coroação de espinhos – mantém na cabeça a coroa que foi bem calcada pelas batedelas dos soldados – e da apresentação ao povo com um manto de púrpura e uma cana a servir de cetro. Aquele que é Rei, mas cujo reino não é deste mundo, foi tratado ao pé da letra do que disse a Pilatos: com objetos conotados com a realeza, mas dela desligados pela pobreza de materiais, pela adoração em chacota e pela dor torturante que infligiam em vez de servirem de motivo de adorno e expressão de grandeza.
O Senhor está na cruz, despojado e exangue. Mas isso não chega. Os chefes do povo, para lá do sofrimento que lhe infligiram, ainda gozam satisfeitos: “Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito”. Os soldados, que repartiram entre si as vestes do crucificado e sortearam a túnica, troçavam d’Ele e, aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: “Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo”. Até um dos malfeitores, que sofria o mesmo suplício O provocava desafiando: Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós.”. Temos em torno do crucificado aqueles que têm medo de perder o poder, o estatuto e que, levados pela inveja ou pela insegurança, perseguem, torturam, matam e, depois, gozam o panorama. Temos aqueles que, dominados pelo dinheiro que lhes possam dar ou pela subserviência, torturam e matam, desculpando-se com o cumprimento de ordens vindas de cima. Não foi assim que se defendeu o Marquês de Pombal no tempo da Viradeira? E temos aqueles que, tendo praticado crimes horrendos, desafiam os justos a interceder por eles e os acusam de fracos, passivos ou incompetentes. 
Porém, o Evangelho de Lucas não nos deixa marinar neste olhar para a cruz. Quer que vejamos o outro lado. Depois de nos mostrar a oração de Jesus ao Pai a rogar que lhes perdoe, porque não sabem o que fazem (cf Lc 23,34) e antes de evidenciar a oração de entrega ao Pai, “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46), e antes de nos dar da reação de fé do centurião, Verdadeiramente, este homem era justo!” (Lc 23,47), explicita a cena nuclear do espetáculo da cruz. O malfeitor arrependido repreendeu o outro, assumindo que os dois estavam a pagar pelos crimes que praticaram, mas que este é inocente, nada fez de mal. E, não satisfeito com a repreensão ao outro, passa à súplica: “Jesus, lembra-te de mim quando estiveres ao teu Reino”. E o Senhor, porque o seu Reino não ocupa espaço como os reinos mundanos nem tem, como eles, limites no tempo, garantiu: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso”. 
Que vemos, pois, na cruz, que nos diz a cruz? Disse hoje, dia 24, na homilia da Missa em Nagasáqui, o Papa Francisco:  
No último domingo do Ano Litúrgico, unimos as nossas vozes à do malfeitor que, crucificado com Jesus, O reconheceu e proclamou rei. Lá, no momento menos triunfal e glorioso, no meio dos gritos de zombaria e humilhação, aquele delinquente foi capaz de levantar a voz e fazer a sua profissão de fé. (…) Por um instante, o passado tortuoso do ladrão parece ganhar um novo significado: acompanhar de perto o suplício do Senhor; e este instante limita-se a corroborar a vida do Senhor: oferecer sempre e por toda a parte a salvação.”.
Assim, o Calvário, “perante a morte do inocente, transforma-se, graças à atitude do bom ladrão, numa palavra de esperança para toda a humanidade”. É o local do arrependimento e do perdão, que tem de ser transferido para as nossas vidas. E a cruz é o trono da redenção, que tem de se instalar no nosso coração de pessoas e no centro nevrálgico da comunidade eclesial, para atrair todos ao coração de Cristo, de modo que, por Ele, subam até ao Pai. Por isso, o convite da cruz é a que todos olhem para Aquele que trespassaram e, até que Ele volte, anunciemos a sua morte e proclamemos a sua ressurreição. E, nesta linha, estão os mártires e confessores de antanho como os mártires e confessores da fé, de hoje, que são muitíssimos, embora poucos os notem.
2019.11.24 – Louro de Carvalho

terça-feira, 2 de julho de 2019

Importância do foro interno e a inviolabilidade do sigilo de confissão


A Santa Sé, mediante Nota da Penitenciaria Apostólica, assinada pelo Cardeal Mauro Piacenza, Penitenciário-Mor, e por Monsenhor Krzysztof Nykiel, regente, divulgada a 1 de julho (mas aprovada pela Santo Padre a 21 de junho e ultimada a 29 pela Penitenciaria), reafirma importância do foro interno e a inviolabilidade do segredo de Confissão, reforçando que não se admite qualquer exceção no âmbito eclesial, nem na esfera civil, já que “provém diretamente do direito divino revelado e está enraizada na própria natureza do sacramento”.

Nestes termos, “qualquer ação política ou iniciativa legislativa que forçasse a inviolabilidade do sigilo sacramental constituiria uma inaceitável ofensa contra a libertas Ecclesiae” (que não recebe a legitimidade dos Estados, mas de Deus) e configuraria “violação da liberdade religiosa, juridicamente fundante de todas as outras liberdades, incluída a liberdade de consciência de cada cidadão, quer penitente, quer como confessor”.
De facto, o progresso técnico-científico crescente – a que não corresponde um desenvolvimento da formação ética do homem, no crescimento do homem interior, de que resulta que o progresso propalado não seja verdadeiro progresso – leva a que no campo das comunicações privadas e de media de massa cresçam as possibilidades técnicas, mas não o amor pela verdade, o esforço na  sua busca, o sentido de responsabilidade ante Deus e os homens; delineia-se preocupante desproporção entre meios e ética. Assim, a hipertrofia comunicativa volta-se contra a verdade, contra Deus e contra o homem, contra Jesus Cristo, Deus feito homem e a Igreja, sua presença histórica e real. E difundiu-se, nos últimos tempos, uma certa “ânsia” por informação, sem apreço pela sua real confiabilidade e oportunidade, a ponto de o “mundo da comunicação” quase querer “substituir” a realidade, quer condicionando a sua perceção quer manipulando a sua compreensão. Daí, o alerta de que “dessa tendência, que pode assumir traços inquietantes de morbidade, não está imune a estrutura eclesial, que vive no mundo e, às vezes, assume os seus critérios”, sendo que, também entre os crentes, são frequentemente empregadas energias preciosas na busca por ‘notícias’ – ou de verdadeiros ‘escândalos’ – adequados à sensibilidade de determinada opinião pública, com finalidades e objetivos que certamente não pertencem à natureza teândrica da Igreja” – o que vai “em grave detrimento do anúncio do Evangelho”, pelo que “é preciso humildemente reconhecer que, às vezes, nem as fileiras do clero, até as mais altas hierarquias, estão isentas dessa tendência”.
Invocando como último tribunal  a opinião pública, muitas vezes é divulgada informação de todo tipo, atinente também às esferas mais privadas e reservadas, que dizem respeito à vida da Igreja, induzem ou favorecem julgamentos temerários, arruínam ilegitimamente e de forma irreparável a boa reputação dos outros, bem como o direito de cada pessoa defender a sua intimidade (cf can. 220 CIC). Nesse cenário, as palavras de Paulo aos Gálatas soam bem atuais:
Sim, irmãos, fostes chamados para a liber­dade. Porém, não façais da liberdade um pretexto para servirdes à carne [...]. Mas, se vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros!” (Gl 5,13-15).
É um contexto em que se desenha “um certo ‘preconceito negativo’ para com a Igreja Católica, cuja existência é culturalmente apresentada e socialmente reentendida, por um lado, à luz das tensões que podem verificar-se dentro da própria hierarquia e, por outro, a partir dos recentes escândalos de abusos, perpetrados por alguns membros do clero”. E convém referir que a febre do apelo à denúncia parecia dar azo a que valia tudo para obviar aos abusos sexuais por parte de membros do clero. Teve que vir o Papa, por várias vezes, reafirmar a inviolabilidade do sigilo sacramental, o que não foi suficiente para impedir ou travar algumas tentações de decisores políticos para obter, pela via da revelação do sigilo, a verdade sobre determinados crimes e situações de intriga. Assim, a Penitenciaria Apostólica, enquadra a questão no contexto teológico – e não só no âmbito antropológico como alguns críticos sustentam, o que permitiria a abertura de exceções diversas em casos de força maior – e esclarece alguns conceitos.
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No âmbito teológico, a Nota refere, entre outras coisas:
Com a Encarnação, o Filho de Deus uniu-se de certo modo a cada homem; com seus gestos e palavras, iluminou a sua mais alta e inviolável dignidade; em si mesmo, morto e ressuscitado, restaurou a humanidade decaída, vencendo as trevas do pecado e da morte; para os que nele creem,  abriu o relacionamento com o Pai; com a efusão do Espírito Santo,  consagrou a Igreja, comunidade de crentes, como seu verdadeiro corpo e fê-la participar do próprio poder profético, real e sacerdotal, para que seja no mundo como a extensão da sua própria presença e missão, anunciando aos homens de todos os tempos a verdade, guiando-os ao esplendor da sua luz, permitindo que a sua vida seja verdadeiramente por ele tocada e transfigurada”.
Agora, na custódia do sigilo sacramental e da discrição ligada ao foro extrassacramental interno e aos outros atos de ministério, resplandece a síntese entre dimensão petrina e mariana na Igreja. Com Pedro, a esposa de Cristo guarda, até ao fim da história, o ministério institucional do poder das chaves; e, como Maria, conserva “todas estas coisas em seu coração” (Lc 2,51b), sabendo que nelas reverbera a luz que ilumina todo homem e que deve ser preservada, defendida e protegida no espaço sagrado entre a consciência pessoal e Deus.
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No concernente à precisão e esclarecimento de conceitos, a Penitenciaria Apostólica é clara:  
1. Sigilo sacramental
Francisco reafirmou a indispensabilidade e indisponibilidade do segredo sacramental, dizendo:
A própria Reconciliação é um bem que a sabedoria da Igreja sempre salvaguardou com toda a sua força moral e jurídica com o sigilo sacramental. Ele, se nem sempre é compreendido pela mentalidade moderna, é indispensável para a santidade do sacramento e para a liberdade de consciência do penitente, que deve ter a certeza, em qualquer momento, de que o diálogo sacramental permanecerá no segredo do confessionário, entre a própria consciência que se abre à graça e Deus, com a mediação necessária do sacerdote. O sigilo sacramental é indispensável e nenhum poder humano tem jurisdição sobre ele nem o pode reivindicar para si.”.
Este inviolável sigilo provém do direito divino e está enraizado na natureza do sacramento, a ponto de não admitir qualquer exceção na esfera eclesial e ainda menos na civil. Na celebração do Sacramento da Reconciliação, acontece a essência do cristianismo, da Igreja: o Filho de Deus fez-se homem para nos salvar e envolveu, como instrumento necessário de salvação, a Igreja e, nela, escolheu os sacerdotes, os chamou e constituiu como seus ministros. Por isso, a Igreja sempre ensinou que os sacerdotes, na celebração dos sacramentos, agem “in persona Christi capitis”: Cristo permite-lhes usar o seu “eu”. E a união com o seu “eu” realiza-se nas palavras da consagração e no “eu te absolvo”, porque nenhum de nós poderia absolver dos pecados. É, pois, o “eu” de Cristo (de Deus) o único que pode absolver. E cada penitente que vai ao sacerdote confessar os próprios pecados, testemunha o mistério da encarnação e a essência sobrenatural da Igreja e do sacerdócio ministerial, pelo qual o Cristo Ressuscitado vem ao encontro dos homens, toca sacramentalmente – realmente – a vida deles e os salva. Por esta razão, a defesa do sigilo por parte do confessor, se necessário usque ad sanguinis effusionem, representa um ato de lealdade para com o penitente, mas sobretudo o testemunho dado à unicidade e à universalidade salvífica de Cristo e da Igreja.
E a matéria do sigilo é exposta e regulada nos cann. 983-984 e 1388, § 1 da CIC e no cân. 1456 do CCEO, bem como no n. 1467 do Catecismo da Igreja Católica, onde se afirma que a Igreja declara, como dado irredutível que deriva da santidade do Sacramento instituído por Cristo, “que todo o sacerdote que ouve confissões é obrigado a guardar segredo absoluto sobre os pecados que os penitentes lhe confessaram, sob severíssimas penas”. Nunca lhe é permitido “trair o penitente com palavras ou de qualquer outro modo” (cân. 983, § 1 CIC), tal como lhe é proibido “fazer uso dos conhecimentos adquiridos pela confissão com agravo do penitente, excluído qualquer perigo de revelação” (cân. 984, § 1 CIC). E a doutrina especifica o teor do sigilo:
Todos os pecados, tanto do penitente como de outros conhecidos pela confissão do penitente, quer mortais como veniais, quer ocultos como públicos, enquanto manifestados a fim de absolvição e, portanto, conhecidos pelo confessor em virtude da ciência sacramental”.
Portanto, o sigilo sacramental abrange tudo o que o penitente tenha acusado, mesmo que o confessor não conceda a absolvição. Com efeito, o sacerdote toma consciência dos pecados do penitente “não como homem, mas como Deus”, a tal ponto que simplesmente “não sabe” o que lhe foi dito em confissão, porque não o escutou enquanto homem, mas em nome de Deus. Assim, o confessor poderia “jurar”, sem prejuízo para a consciência, “não saber” o que sabe só como ministro de Deus. Ademais, este sigilo vincula o confessor interiormente, a ponto de lhe ser proibido recordar voluntariamente a confissão. O sigilo atinge ainda quem, de alguma forma, tenha vindo a saber dos pecados da confissão:
À obrigação de  observar o segredo são chamados também o intérprete, se houver, e todos os outros aos quais, de alguma forma, tenha chegado a notícia dos pecados da confissão” (cân. 983, § 2 CIC).
Este sigilo é tal que  impede o sacerdote de divulgar o conteúdo da confissão com o próprio penitente, fora do Sacramento, “salvo explícito (mas melhor se não pedido) o consentimento por parte do penitente”. É que o sigilo vai além da disponibilidade do penitente, que não tem o poder de aliviar o confessor da obrigação do sigilo, porque esse dever vem diretamente de Deus.
Todavia, a defesa do sigilo sacramental e a santidade da confissão não constituem qualquer forma de conivência com o mal; representam, antes, o verdadeiro antídoto contra o mal que ameaça o homem e o mundo; e são a real possibilidade de se render ao amor de Deus, de deixar-se converter e transformar por ele, aprendendo a corresponder-se concretamente na própria vida. Por outro lado, nunca é permissível colocar ao penitente, como condição de absolvição, a obrigação de se expor à justiça civil, em virtude do princípio incorporado em toda a ordem jurídica, segundo a qual “nemo tenetur se detegere” (ninguém é obrigado a revelar a sua culpabilidade). Porém, pertence à estrutura do Sacramento da Reconciliação, como condição para sua validade, o sincero arrependimento e o firme propósito de emendar e não reiterar o mal cometido; e, face a um penitente que tenha sido vítima do mal dos outros, será do interesse do confessor instruí-lo sobre os seus direitos, bem como sobre os instrumentos jurídicos concretos a utilizar para denunciar o facto no foro civil e / ou eclesiástico e invocar a justiça.
2. Foro extrassacramental interno e direção espiritual
Também pertence ao âmbito jurídico-moral do foro interno o “foro interno extrassacramental”, (oculto, mas externo ao Sacramento da Penitência). Nele a Igreja também exerce a sua missão, não perdoando pecados, mas concedendo graças e rompendo vínculos jurídicos (como as censuras) e ocupando-se de quanto diz respeito à santificação (ou seja, à esfera íntima e pessoal de cada fiel). A este foro pertence a direção espiritual, em que o fiel confia a via de conversão e santificação a sacerdote, consagrado/a ou leigo/a. O sacerdote exerce tal ministério em virtude da missão que tem de representar Cristo, conferida pelo Sacramento da Ordem e exercida na comunhão hierárquica da Igreja, por meio dos tria munera: ensinar, santificar e governar; os leigos fazem-no em virtude do sacerdócio batismal e do dom do Espírito Santo. O fiel abre o segredo da sua consciência ao diretor ou acompanhante espiritual, para ser orientado e apoiado na escuta e cumprimento da vontade de Deus. Por isso, também este âmbito exige sigilo ad extra, inerente ao teor das conversas espirituais e derivante do direito de cada pessoa ao respeito pela própria intimidade (cf can. 220 CIC). Embora só de modo análogo ao que sucede no Sacramento da Confissão, o diretor espiritual é posto a par da consciência do fiel, em virtude do seu especial relacionamento com Cristo, por via da santidade da vida e, se clérigo, da mesma Ordem recebida. Como testemunho da confidencialidade concedida à direção espiritual, considera-se a proibição, sancionada pelo direito, de pedir não só o parecer do confessor, mas também o do diretor espiritual, para admissão às Ordens sacras ou para demissão do seminário de candidatos ao sacerdócio (cf cân. 240, § 2 CIC; cân. 339, § 2 CCEO). Também a instrução Sanctorum Mater (de 2007), relativa aos inquéritos diocesanos ou eparquiais nas Causas dos Santos, proíbe admitir para testemunhar os confessores, para proteger o sigilo sacramental, e os diretores espirituais do Servo de Deus, por quanto lhes tenha vindo ao conhecimento no foro de consciência, fora da confissão sacramental. Tal confidencialidade será tanto mais natural para o diretor espiritual, quanto mais ele aprender a reconhecer e a comover-se ante o mistério da liberdade do fiel que, por meio dele, se dirige a Cristo; o diretor espiritual deverá conceber a própria missão e a própria vida ante Deus, a serviço da sua glória, para o bem da pessoa, da Igreja e para a salvação do mundo.
3. Segredos e outros limites próprios da comunicação
De outra natureza, em relação ao âmbito do foro interno, sacramental e extrassacramental, são as confidências feitas sob sigilo, bem como o segredo profissional de certas categorias de pessoas (vg: médicos, enfermeiros, farmacêuticos, advogados…), na sociedade civil e na estrutura eclesial, em virtude de especial ofício em prol dos indivíduos ou da comunidade. Tal segredo deve, por força da lei natural, ser sempre preservado, exceto, como afirma  o n. 2491 do CIC (Catecismo da Igreja Católica), em casos excecionais em que a sua retenção causasse a quem o confia, ou o recebe ou a um terceiro, prejuízos muito graves e só evitáveis ​​pela  sua divulgação.  
Caso particular de sigilo é o do “segredo pontifício”, que vincula por força do juramento ligado ao exercício de alguns ofícios ao serviço da Sé Apostólica. Se o juramento de segredo sempre vincula coram Deo quem o emitiu, o juramento do “segredo pontifício” tem como ratio última o bem público da Igreja e a salus animarum, sendo que esse bem e as exigências da salus animarum (incluindo o uso de informações que não se enquadram no sigilo) podem e devem ser corretamente interpretadas só pela Sé Apostólica, na pessoa do Romano Pontífice, que o Senhor constituiu como princípio visível e fundamento da unidade da fé e da comunhão da Igreja.
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No que tange a outros âmbitos de comunicação, públicos ou privados, em todas as suas formas e expressões, a Igreja sempre indicou como critério fundamental a “regra de ouro” referida no Evangelho de Lucas: “O que queres que os homens te façam, faz tu também a eles” (Lc 6,31). Assim, na comunicação da verdade ou no silêncio em relação a ela, quando quem a questiona não tem o direito de a conhecer, é preciso conformar sempre a vida ao preceito do amor fraterno, tendo diante dos olhos o bem e a segurança dos outros, o respeito pela vida privada e o bem comum. E, como dever peculiar de comunicação da verdade, ditado pela caridade, salienta-se a “correção fraterna”, nos seus vários passos, ensinada pelo Senhor, a qual permanece o horizonte de referência, quando necessária e de acordo com o que as circunstâncias permitem e exigem:
Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, tu e ele a sós! Se ele te ouvir, terás ganho o teu irmão. Se ele não te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, de modo que toda questão seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhasSe ele não vos der ouvidos, di-lo à igreja.” (Mt 18,15-17).
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O exposto consta da Nota em referência, reforçada pela explicação do Cardeal Mauro Piacenza em entrevista ao Vatican News.
2019.07.02 – Louro de Carvalho

domingo, 28 de abril de 2019

As credenciais do Ressuscitado


Jesus ressuscitou, o que significa para os crentes que triunfou da morte, do pecado e da morte. A verdade que Jesus é no sentido mais vital e existencial triunfou sobre a mentira cujo pai é o demónio, que é também o autor do mal e da escravização. E, possuidor destas arras de triunfo, o Senhor Jesus desceu à morada dos mortos a oferecer a salvação a todos aqueles que a esperavam consciente ou inconscientemente. Isto para dizer que a ação redentora de Cristo não se aplica apenas aos que se aproximassem do mistério apenas depois de Ele ter entregado o seu espírito nas mãos do Pai, mas a todos e todas, em qualquer tempo ou lugar em que vivam. 
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Porém, com que sinais Se mostra o Ressuscitado? Ou seja, quais são as credenciais ou os recursos instrumentais que o Senhor mostra para que acreditemos?
Os evangelistas apontam o túmulo vazio, mas o Evangelho de João aponta, além disso, a boa ordem espelhada nos panos de linho espalmados no chão e no “lenço que […] tivera em volta da cabeça” e que “não estava espalmado no chão juntamente com os panos de linho, mas de outro modo, enrolado noutra posição” (vd Jo 20,4.7). Mas, quando apareceu a Maria Madalena, ela só O reconheceu quando Ele disse o nome “Maria”. E Jesus incumbiu-a de uma tarefa: “Não me detenhas, pois ainda não subi para o Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: ‘Subo para o meu Pai, que é vosso Pai, para o meu Deus, que é vosso Deus’.” (cf Jo 20,16.17-18).
O Evangelho de Marcos apresenta um jovem de túnica branca a dizer às mulheres que não se assustassem e fossem dizer a Pedro e aos outros discípulos que Ele ressuscitou e que os precede na Galileia (vd Mc 16,6-7).    
O Evangelho de Mateus apresenta o terramoto como aquando da morte na cruz e um anjo resplandecente, que anuncia a ressurreição; e o Mestre que usa da palavra a saudar as mulheres que tinham ido ao túmulo, lhe estreitaram os pés, quando Se lhes deu a conhecer, se prostraram diante d’Ele e a quem mandou: “Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão” (cf Mt 28,9.10).
Por sua vez, Lucas apresenta dois homens de trajes resplandecentes, que lembram às mulheres o teor da promessa: “Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia, dizendo que o Filho do Homem havia de ser entregue às mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia” (Lc 24,6-7).
Para já, apontamos como sinais do Ressuscitado: o sepulcro vazio; a boa ordem dos elementos deixados no túmulo; o resplendor de anjo, jovem e homens (Quem não se lembra da transfiguração a prenunciar a ressurreição gloriosa?); a palavra; o apelo ao abandono do medo, quer por parte de Jesus, quer por parte dos que testemunharam a ressurreição junto das mulheres; o terramoto; a promessa da ressurreição; a pronúncia do nome da interlocutora (Deus conhece o nome de cada um de nós e chama-nos pelos nossos nomes); a referência à Galileia, onde tudo começou e aonde é preciso voltar para refazer a caminhada à luz da nova realidade; e a afirmação da fraternidade entre Jesus e os discípulos (ide, ou vai, dizer aos meus irmãos; o meu Pai que é vosso Pai… Antes, os discípulos eram servos; na Ceia, passaram a ser amigos; e, com a ressurreição, passaram a ser irmãos). 
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Mas há mais. O Evangelho de Lucas apresenta-nos o episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-34). Ao caminharem abatidos e circunspectos, apareceu-lhes Jesus, que lhes explicou tudo o que havia de acontecer ao Messias, “começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas”. Porém, eles, apesar de lhes arder o coração, quando Ele lhes falava pelo caminho e lhes explicava com detalhe as Escrituras, não O reconheceram. Só O reconheceram quando “se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, lho entregou”.      
E, segundo Lucas, quando apareceu aos Onze (Lc 24,36-43), além de os saudar com a paz, para que O reconhecessem, mostrou as marcas da sua Paixão e Morte, dizendo:
Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho. 
E comeu diante deles um pedaço de peixe assado que Lhe deram.
Por seu turno, João, no capítulo 21 do seu Evangelho, apresenta Jesus que aparece aos discípulos na margem do lago. Foi João que O reconheceu ao ver a enorme quantidade de peixes (a pesca que resultou foi lançada à ordem do aparecido, lembrando a pesca milagrosa de outrora em que Simão Pedro era vocacionado para a pesca de homens). E todos O reconheceram quando “ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão” – reconhecimento corroborado quando Ele “Se aproximou, tomou o pão e lho deu, fazendo o mesmo com o peixe”.      
E a segunda parte do capítulo 20 do Evangelho de João (Jo 19,20-29) tem uma súmula especial das marcas com que o Ressuscitado Se apresentou: pôs-Se no meio dos discípulos (que estavam em casa com as portas fechadas); saudou-os desejando-lhes a paz; mostrou-lhes as mãos e o peito; renovou o desejo de paz; proferiu o envio; insuflou o sopro do Espírito Santo; e confiou-lhes o encargo da oferta do perdão dos pecados.
Fica bem claro que o Ressuscitado aparece e fala. Explica, faz o milagre como dantes, come com os discípulos, pronuncia a bênção como na Ceia, dá a paz, mostra as marcas da Paixão. E, como a Páscoa não pode ficar realidade privativa dum grupo, envia-os a seguir as moções do Espírito Santo (rezando e falando) e a oferecer o dom pelo qual veio ao mundo, o do perdão.    
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Há, porém, uma outra marca do Ressuscitado: a compaixão pelo homem que não entende a generosa liberalidade de Deus. Coitado de quem se recusa a acreditar ou lança desafios a Deus que seriam intoleráveis na lógica do Antigo Testamento!
Tomé não estava com eles quando Jesus veio. E, quando os outros diziam ter visto o Senhor, respondeu que, se não visse o sinal dos pregos nas suas mãos e não metesse o dedo nesse sinal dos pregos e a mão no seu peito, não acreditaria. Mas Jesus respondeu ao desafio da incredulidade. Oito dias depois, estando as portas fechadas, veio, pôs-se no meio deles, saudou-os como na visita anterior e disse a Tomé: “Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. E não sejas incrédulo, mas fiel.”.
Foi quando Tomé, caindo em si, exclamou: “Meu Senhor e meu Deus!”. Ao que Jesus replicou: “Porque me viste, acreditaste. Felizes os que creem sem terem visto!”.
Não é, pois, sem razão, que o II domingo da Páscoa é denominado o Dia da Divina Misericórdia. Com efeito, como o pastor zeloso é capaz de deixar as 99 ovelhas no deserto e vai à procura da ovelha perdida e, carregando-a ao ombro, chega ao pé dos amigos e insta-os à alegria pelo encontro, ou como o bom samaritano se abeirou do homem ferido e prostrado na valeta, também o Ressuscitado vem à procura do incrédulo para lhe mostrar a realidade da ressurreição através das marcas da Paixão e desafiando-o a ver e palpar.
Por isso, o Padre Laureano Alves dizia hoje na Igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, que as marcas da Morte do Senhor perduram para depois ressurreição. E eu acrescento “como dados instrumentais do apelo à fé e como garantia da certeza da nossa futura ressurreição. Na verdade, o Ressuscitado não é um fantasma nem outro homem que não o Crucificado, o que andou pelo mundo fazendo o bem. E, se o sinal eucarístico – da toma do pão, bênção e partilha – dado pelo Ressuscitado é eloquente, não podemos esquecer que esse sinal tem a marca da morte e da ressurreição, porque é corpo do Senhor entregue por nós e o seu sangue derramado por nós e pela multidão. E, não podemos deixar de vincar que, se a morte do Senhor causou o medo e a dispersão, o facto da ressurreição gera a alegria porque o Senhor está connosco.     
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Triunfando das limitações terrenas, o Ressuscitado aparece aos discípulos, agora irmãos, dando-lhes, na efusão do Espírito Santo, a paz e a alegria da salvação e a missão do anúncio a todos os homens.
No I domingo da Páscoa, a festa baseava-se nas notícias trazidas pelas mulheres que foram ao túmulo e nos apóstolos que foram verificar o fenómeno do túmulo vazio, tendo o discípulo amado visto e acreditado. Ouvimos o anúncio da Ressurreição do Senhor e com toda a Igreja deixamo-nos invadir pela alegria.

No II domingo, a festa baseia-se na realidade vivenciada pelo coletivo apostólico e na confissão de Tomé a quem Jesus condescendeu em mostrar as chagas pelas quais fomos curados.
Depois, temos a visão apocalíptica (Ap 1,9-19), em que João reconhece o Ressuscitado no Filho de homem vestido com longa túnica cingida de cinta de ouro. Ouve o Senhor dizer-lhe “Eu sou Aquele que vive. Aquele que possui a vida que domina a morte e liberta quem quer”. É o Rei, o Sacerdote, Aquele em quem e por quem somos ensinados. Por isso, a Igreja proclama com toda a certeza a ressurreição de Cristo, mostrando com a perícopa dos Atos dos Apóstolos (At 5,12-16) que, no cumprimento do que diz o Evangelho de Marcos, “o Senhor cooperava com eles [os apóstolos], confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam”, se juntavam em massa “homens e mulheres, acreditando no Senhor, a ponto de trazerem os doentes para as ruas e os colocarem em enxergas e catres, a fim de que, à passagem de Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles; e a multidão vinha também das cidades próximas de Jerusalém, transportando enfermos e atormentados por espíritos malignos, e todos eram curados”.
Porém, o Evangelho de João, ao mostrar-nos Tomé quer dizer-nos que nós somos como ele: temos muita dificuldade em acreditar sem ver, sem experimentar. Como Ele, queremos ter sinais de que o Senhor está vivo. Dificilmente nos basta a fé que vem pelo ouvido. Ora, é bom que recordemos a frase sentenciosa do Senhor: “Felizes aqueles que creem mesmo sem terem visto”.
O Evangelho diz-nos que, oito dias depois da primeira aparição de Jesus aos discípulos no dia da Sua Ressurreição, estando Tomé com eles, Jesus reaparece, saúda-os e aproxima-Se de Tomé como se viesse propositadamente para o convencer, lembrando-lhe as suas exigências, a sua necessidade de experimentar, propondo-lhe que o faça. Tomé reconhece-O imediatamente e prostra-se diante d’Ele, dizendo: “Meu Senhor e meu Deus” – um belo ato de adoração.
O incrédulo sincero não precisou de tocar o corpo de Cristo, bastou-lhe que Ele Se apresentasse e lhe propusesse fazê-lo para ficar convencido da realidade. O que convenceu Tomé não foi a experiência de meter as mãos nas chagas do Senhor, mas o modo modesto, humilde e cheio de dignidade como Jesus Se apresentou, uma presença muito particular do Senhor em que se estabeleceu a mútua comunicação pessoal, o encontro que deixa marcas no coração.
E o encontro com o Senhor capacita o apóstolo para, animado pelo Espírito Santo, rezar e ir ao encontro dos homens a pregar e a oferecer o perdão como o grande fruto da Páscoa!
2019.04.28 – Louro de Carvalho

sábado, 13 de abril de 2019

Salva-nos na fraqueza, mas com dignidade e determinação!


A lógica de Jesus Cristo, que é a lógica de Deus, baralha-nos se nos ativermos aos critérios de salvação ditados e praticados pelo mundo. Com efeito, admiramos, aplaudimos e vitoriamos aqueles e aquelas que rompendo com determinação e força as raias da mediania ou as fronteiras da rotina se distinguem pela heroicidade pomposa. E era isto que os israelitas – e os próprios discípulos de Jesus – esperavam do Messias prometido: destruir pelo fogo os inimigos, abatê-los à espada e constituir uma corte de honrarias em que os apóstolos seriam os príncipes com a nobre missão de bem legislar, exercer o poder executivo com pompa e circunstância e julgar, obviamente para condenar. Mas não é assim a via escolhida por Jesus em obediência ao desígnio e à vontade do Pai. E a liturgia do Domingo de Ramos mostra-no-lo à saciedade. 
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Dois momentos marcam esta dominga: a comemoração da entra triunfal de Jesus na Cidade Santa, com a proclamação duma perícopa lucana (Lc 19,28-40); e a celebração da Missa, com a proclamação de passagens do Profeta Isaías (Is 50,4-7), da Carta de Paulo aos Filipenses (Fl 2,6-11) e da Paixão de Jesus segundo Lucas (Lc 22,14 – 23,56).
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Da entrada solene, diz o Evangelista que Jesus subia para Jerusalém à frente dos discípulos e, junto de Betfagé e de Betânia e perto do Monte das Oliveiras, enviou dois discípulos para que da povoação que estava em frente tomassem um jumentinho preso que ninguém montara ainda porque precisava dele. Levaram-no a Jesus e, lançando as capas sobre o jumentinho, fizeram montar Jesus. Durante a caminhada, o povo estendia as capas na via e toda a multidão começou a louvar alegremente a Deus em alta voz por todos os milagres que viu, clamando: “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas!” (cf Lc 1,68; 2,14). Os fariseus bem protestaram exigindo que Jesus repreendesse os discípulos, ao que Ele retorquiu: “Eu vos digo: se eles se calarem, clamarão as pedras”.
Esta é uma cena verdadeiramente messiânica, pois realiza a profecia de Zacarias (Zc 9,9) – “Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti; Ele é justo e vitorioso; vem, humilde, montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta” – e a multidão aclama o Senhor com o Salmo de entronização do Rei-Messias (Sl 118/117,26), um salmo coletivo de ação de graças com um esquema ritual muito claro, começando fora do templo (v 1-18) e, passadas as ‘portas da justiça’ (v 19-20), proclamando a ação de graças (v 21-25) e seguindo com a bênção (v 26-27) e um convite final que renova o chamamento inicial ao louvor, porque Ele vem para salvar e não como poderio político-militar.
O Senhor entra montado sobre um pobre animal, mas determinado, sabendo que tinha direito a ele porque dele precisava. E, em resposta a quem o clamor da multidão incomodava utilizou a fórmula proverbial, clara e enérgica “clamarão as pedras”, bem ao seu jeito do Mestre, a garantir a dignidade messiânica e a realeza que lhe é inerente – realidade tão notória que, se a cegueira humana levar a obnubilá-la, a própria natureza muda a proclamará. Além disso, como Jesus já tinha cumprido a missão profética explícita do anúncio da Boa Nova e havia instruído os Apóstolos, não havia motivo para temer qualquer tumulto popular por se apresentar solenemente como o Messias-Rei. Assim, os “Hossanas” e o clamor de “Paz no Céu e glória nas alturas” têm aqui pleno cabimento.
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Entrando na liturgia da Missa, a fraqueza salvadora do Messias adensa-se.
Isaías (Is 50,4-7) introduz-nos no mistério do Servo de Deus, que sofre por todos nós. Mas foi pelas suas chagas que fomos curados. Desde sempre, a Igreja aplicou este hino profético a Jesus, o servo sofredor, “obediente até à morte e morte de Cruz”, como assume o discurso paulino.
É pertinente registar que o Messias se apresenta como tendo recebido a graça de falar como um discípulo (fala daquilo que aprendeu) e, nessa condição humilde, sabe dizer “uma palavra de alento aos que andam abatidos” e apresentar-se aos que O insultam e ferem, sabendo e confiando que o Senhor vem em seu auxílio. 
É um trecho do II Isaías e corresponde aos primeiros 4 vv do 3.º poema do Servo de Javé (Is 50,4-9). Embora não seja aqui nomeado, deduz-se do contexto imediato deste canto que é o próprio servo quem está a falar e é a figura profética de Jesus Cristo. O trecho consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula: ‘O Senhor Deus’; na 1.ª, sublinha-se a docilidade de discípulo; na 2.ª, o sofrimento que esta docilidade acarreta; e, na 3.ª, a fortaleza no meio da dor.
O servo fala como um discípulo, mas não é um discípulo qualquer; é um discípulo do Senhor (cf Is 54,13), instruído pelo próprio Deus. A este respeito, dirá Jesus: “A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7,16; cf 14,24).
O servo-discípulo confessa que não resistiu nem recuou e não desviou o rosto de quem O insultava e Lhe batia. Com efeito, mesmo os grandes profetas e santos tiveram consciência de opor alguma resistência, embora sem rebeldia, à ação de Deus, como Moisés e Jeremias (cf Ex 3,11; 4,10; Jr 1,6). Ao invés, este servo, como Jesus o fez, identifica-Se plenamente com a vontade do Pai (cf Jo 4,34; Lc 22,42). E os evangelistas deixam ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor (vd Mt 26,67; 27,26-30; Mc 15,19; Lc 22,63-64; etc.).
Como resposta da assembleia a esta proclamação profética, surgem alguns versículos do Salmo 22 (21) em que se intercala o refrão “Meu Deus, meu Deus, para que (ina ti ou eis ti) me abandonaste?”. É um salmo individual de súplica e exprime de tal modo a experiência do sofrimento, que se tornou modelo de densidade religiosa. Segundo Mateus (27,46), em hebraico, e Marcos (15,34), em aramaico, Jesus utilizou as suas primeiras palavras como oração suplicante e confiante quando se encontrava na cruz; e vários outros versículos são aproveitados na narração da Paixão de Jesus (vd Mt 27,35.43.46). Por isso, o salmo ficou intimamente ligado à Cristologia. Na tradição cristã foi ganhando um timbre messiânico, mercê de alguns versículos missionários e comunitários (vd vv 23.24.26-32), que contraditam a situação anterior de abandono, escárnio e ultraje. Mas a sua ressonância messiânica está ligada à leitura especificamente cristã que dele se fez, pois depende da mais profunda valorização teológica do sofrimento pessoal – um aspeto menos notório no messianismo real. 
Seja como for, o salmo sintetiza a paixão de Jesus: “Trespassaram as minhas mãos e os meus pés. Cercou-me um bando de malfeitores”. O refrão “Meu Deus, meu Deus, para que me abandonaste?” traduz a tristeza e a angústia mortal do nosso Salvador, mas não é interrogação de desespero, mas a oração do Filho, que por nosso amor se oferece ao eterno Pai: “Pai nas vossas mãos entrego o meu espírito”. Segundo os estudiosos, o judeu piedoso, ao enunciar a epígrafe dum salmo ou de um hino, assumia todo o seu conteúdo, que recitaria mentalmente.
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Paulo (Fl 2,6-11) apresenta um dos hinos cristológicos mais antigos. Os primeiros cristãos, contemplando o amor infinito de Jesus, podiam cantar o esvaziamento ou a humilhação divina (Kénosis): “Cristo Jesus, que era de condição divina, assumiu a condição de servo e aniquilou-se até à morte e morte de Cruz! Por isso Deus O exaltou!”. Porém, este aniquilamento não foi uma derrota humilhante, mas um ato inteiramente voluntário, pois, mais que apresentar-Se como Deus, quis fazer-Se homem, até nas condições mais humilhantes, mas sem perder a dignidade, o que mostra de muitos modos, para que nós possamos ter o à vontade de aceder ao mistério de Deus. Por isso, Deus Exaltou-O com a gloriosa Ressurreição. E a esta exaltação sublime corresponde a glória do seu nome: Jesus é o Senhor e toda a língua proclama a sua divindade, humanidade e senhorio.
Como se deixou entrever, o trecho paulino constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos pensam ser anterior à Carta aos Filipenses e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.
Existindo em forma (morfê) de Deus, Jesus possuía a glória e a majestade, atributos divinos na linguagem bíblica. E, como observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas que Jesus “tinha um ser como Deus, era um ser divino”. A frase “Não considerou usurpação ser igual a Deus” tem dois sentidos: um sentido positivo, pois o termo grego harpagmós pode ser considerado como roubo ou usurpação que se faz de algo (aqui, a condição divina), ou um sentido passivo, sendo harpagmós algo a roubar algo, algo que é cobiçado. A Vulgata e a Nova Vulgata traduzem: “não considerou uma usurpação (rapina) o ser igual a Deus” (sentido ativo). Todavia, os Padres Gregos consideram o termo grego com sentido passivo e teríamos: “não considerou como algo cobiçado (harpagmón). Pensam alguns que Paulo quer realçar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram ser iguais a Deus (cf Gn 3,5.22) e a de Jesus que, sendo Deus, Se quis fazer “semelhante aos homens” (v 7).
Assim, vem o aniquilamento ou esvaziamento de a si próprio. Na verdade, Jesus, ao fazer-Se homem, não Se despojou da natureza divina, mas da glória ou manifestação da majestade que Lhe competia mercê da união hipostática (na pessoa do eterno Filho de Deus, a natureza humana e a divina estão misteriosamente unidas). Por isso, a condição de servo que assumiu não é a condição social de escravo, mas a forma (morfê) de se conduzir, própria do pobre e dependente, cumprindo a figura do “Servo de Javé”, de que fala Isaías. Também Se tornou semelhante aos homens, aparecendo como homem, não só, como queriam os docetas, na aparência (skhêmati), mas no sentido da semelhança (en homoiômati) com os outros homens, em tudo igual exceto no pecado (cf Heb 4,15). E “humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz”. É o máximo da kénosis, num crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de servo, obedece com a obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz. Mas este aniquilamento – escândalo da Cruz – não é uma derrota, o desfecho duma história trágica. É, antes, o sublime paradoxo da sua exaltação: foi por isso que Deus (o Pai, ho Theós) O exaltou acima de tudo o que existe, o que redundou na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o nome que Lhe é dado por Deus, o nome com que passa a ser invocado pelos crentes de todos os tempos, nome não só usado na sua vida terrena e que consta da sentença de condenação à morte de cruz, mas nome com que o próprio Deus é designado nos LXX, “o Senhor”. Por tudo isto,  todos devem reconhecer e proclamar e a divindade de Jesus (toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor – sem artigo, no grego) e o seu domínio sobre toda a criação (“no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai”). E, com este esvaziamento divino, que vai da Incarnação à Redenção, fica patente que Jesus não é o simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, mas Ele é Deus que Se abaixa e, depois, vem a ser exaltado; e fica patente que a fé na divindade de Jesus não é fruto de tardia elaboração teológica, pois a epístola é, quando muito, do ano 62 (se não é mesmo de cerca de 56, como quer a generalidade dos estudiosos), estes versículos fariam parte dum anterior hino litúrgico a Cristo.
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A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente e com grande intensidade dramática pelos quatro Evangelistas é a sua Paixão. Nela culmina toda a vida e obra redentora de Cristo. Os padecimentos que o Senhor abraçou voluntariamente evidenciam, de modo significativo, o seu amor infinito por todos e cada um de nós (cf Gl 2,20) e enorme gravidade dos nossos pecados (cf Gl 1,4). Do longo relato lucano da Paixão (Lc 22,14 – 23,56), é referir, antes de mais, que o autor do 3.º Evangelho é o único a mencionar o suor de sangue na agonia de Jesus e a presença do anjo a confortá-Lo, bem como o pedido ao Pai para que perdoe àqueles homens porque não sabem o que fazem e a oração do bom ladrão, a quem o Senhor perdoa e oferece o paraíso.
Os pormenores do relato de Lucas põem em evidência a misericórdia e a preocupação de Jesus pelos outros, quando era Ele quem devia merecer toda a atenção em horas tão aflitivas. Assim, no relato da Ceia, temos: a manifestação do desejo ardente de Jesus em celebrar esta Páscoa e a remissão para o Reino de Deus (22,15-16); a conservação do item do ritual judaico da bênção e entrega do 1.º cálice (22,17); a oração especial para que a fé de Pedro não desfaleça, com o encargo pastoral de confirmar na fé os seus irmãos (22,31-32); o episódio das duas espadas (Lc 22,35-38); a cura do criado ferido pela espada de Pedro (22,51); a comparência de Jesus perante Herodes (23,6-12), que O tratou com desprezo; a declaração da inocência de Jesus por Pilatos (23,13-16); o conforto de Jesus às mulheres a caminho do Calvário (23,27-31); o pedido de perdão ao Pai para os que O crucificam (23,34); o diálogo com o ladrão arrependido, com a promessa de entrada imediata no Paraíso (23,40-43); a cisão, ao meio, do véu do santuário (23,45); as palavras de Jesus ao expirar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (23,46); o regresso do Calvário por parte da multidão contrita a bater no peito (23,48); o regresso das mulheres do túmulo, que preparam perfumes e essências, mas observando o repouso sabático (23,56).
Lucas narra que a multidão dos discípulos aclamava alegremente Jesus em razão de “todos os milagres que tinham visto”. Em contrapartida, os fariseus pedem ao Mestre que repreenda os discípulos, ao que Jesus replica: “Se eles se calarem, clamarão as pedras!”. De facto, com os discípulos, ou sem eles (que O abandonaram) a criação dará o seu testemunho: a terra estremecerá, o sol perderá a sua luz e o dia transformar-se-á em noite. É que Jesus é Senhor de todo o universo e a sua Redenção beneficiará todas as criaturas: “Ao nome de Jesus todos se ajoelhem no Céu, na terra e nos abismos”.
Jesus Cristo é o Senhor! E, porque é de condição divina e ama até ao fim, tem pleno conhecimento da sua missão. Pré-anunciara a sua morte em Jerusalém: “Devo seguir o meu caminho, porque não se admite que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13,33). E agora oferece àqueles e àquelas que ama o alimento do seu Corpo, que vai ser entregue e do seu Sangue que vai ser derramado. Ofereceu a sua vida pelos homens: “amou-nos até ao fim”.
Como Lhe corresponder na nossa vida? Que devemos fazer pelos outros para sermos com Ele?
 2019.04.13 – Louro de Carvalho