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domingo, 22 de setembro de 2019

O Livro do Profeta Amós: palavras de Amós, que foi pastor de Técua


A 1.ª leitura da Liturgia da Palavra do 25.º domingo do Tempo Comum no Ano C é uma passagem do livro do profeta Amós (Am 8,4-7) que denuncia os comerciantes sem escrúpulos, preocupados em ampliar cada vez mais as suas riquezas, que pensam em explorar a miséria e o sofrimento dos pobres. E Amós avisa que Deus não está do lado de quem, pela obsessão do lucro, escraviza os irmãos. Ou seja, a exploração e a injustiça não passam em claro aos olhos de Deus.
Dada a pertinência do livro hoje e porque tem réplicas atualizadas no 3.º Evangelho e na Carta de Tiago, propõe-se uma reflexão sobre a intenção e o conteúdo do Livro de Amós.
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O Profeta
Amós pertence ao conjunto do chamado “livro dos doze”, expressão usada para referir os doze profetas menores da Bíblia Hebraica. Vem a seguir Joel (que vem depois de Oseias) e antes de Abdias. O Seu nome é único no Antigo Testamento (AT): 'āmos. E ocorre 7 vezes (1,1; 7,8.10.11.12.14; 8,2). Não deve ser confundido com o Amós ('āmôs), pai do profeta Isaías (2Rs 19,2.20). A identificação com o Leão – metáfora que aponta para a ferocidade da palavra que exige mudança irrevogável – aparece mais de uma vez no livro (1,1; 3,4.8.12; 5,19) e parece indicar ora a palavra de Deus, ora a palavra do profeta.
Era natural de Técua, localidade situada no deserto do reino de Judá, a 8 km a sudeste de Belém. Em 1,1 diz-se que era pastor e, em 7,14 reafirma-se esta profissão e afirma-se que também cultivava sicómoros. O mister de pastor faz dele um homem pobre e alegadamente sem cultura. Mas o livro mostra que conhece bem a geografia e certos acontecimentos dos países vizinhos, a História sagrada do seu povo e toda a problemática social, política e religiosa de Israel.
Economicamente, não deveria ser um assalariado; provavelmente guardava os rebanhos e cultivava os terrenos que eram propriedade sua. Não era um profeta convencional e profissional; não tinha qualquer relação com a profecia e com os grupos proféticos. Não narrando o livro diretamente a sua vocação, faz-lhe referência em 7,14-15. O Senhor enviou-o a profetizar Israel, isto é, ao Reino do Norte, não se sabe quando, mas foi em tempos do rei Jeroboão II (século VIII a. C.), quando o rei de Judá era Juzias, provavelmente entre os anos 760-750 a.C. Chamado por Deus, deixa a sua terra e parte para o reino vizinho para gritar à classe dirigente a sua denúncia profética. A rudeza de discurso, aliada à integridade e afoiteza da fé, traz algo do ambiente duro do deserto e contrasta com a indolência e o luxo da sociedade israelita da época. Deve ter pregado em várias localidades do reino do Norte até chocar com a oposição dos dirigentes em Betel (7,10-13), nomeadamente Amacias, o que lhe dificultou o exercício da ação profética.
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A época
Após a divisão dos dois reinos, a seguir à morte de Salomão, o reino do Norte viveu períodos de grande instabilidade, sujeito aos constantes ataques dos reinos arameus do Norte, às lutas internas e à consequente perda de territórios e influência. A situação alterou-se no início do século VIII: quando a Assíria começou a expandir-se, atacou Damasco, o que permitiu a Israel recuperar alguns territórios e reorganizar-se internamente.
Governava então em Israel Joás e, logo a seguir, Jeroboão II, seu filho, em cujo reinado houve um certo progresso social e económico e tranquilidade política: as conquistas de Jeroboão II alargaram consideravelmente os limites do reino e permitiram a entrada de tributos dos povos vencidos; a população aumentou; os recursos agrícolas cresceram; o comércio e a indústria (sobretudo a mineira e a têxtil) desenvolveram-se significativamente; as construções da burguesia urbana atingiram um luxo e magnificência até então desconhecidos (os palácios eram luxuosos). Amós dá-nos conta deste progresso.
No entanto, a melhoria económica tem o seu reverso da medalha. A prosperidade e o bem-estar das classes favorecidas contrastam com a miséria das classes baixas. O sistema de distribuição estava nas mãos de comerciantes sem escrúpulos que, aproveitando o bem-estar económico, especulavam com os preços, diminuíam as medidas e falseavam as balanças. Com o aumento dos preços dos bens essenciais, as famílias de menores recursos endividavam-se e acabavam por se ver espoliadas das suas terras em favor dos grandes latifundiários. O pequeno proprietário via-se sufocado pelos interesses dos poderosos. A classe dirigente, rica e poderosa, dominava os tribunais e subornava os juízes, impedindo que o tribunal fizesse justiça aos mais pobres e defendesse os direitos dos menos poderosos. Acentuava-se a divisão entre ricos e pobres e a ambição dos ricos não conhecia fronteiras: geravam-se injustiças sociais gritantes e os pobres ficavam à mercê dos que detinham o poder. Empréstimos com juros, hipotecas, serviço como escravo, falsificação dos pesos e das medidas no comércio, corrupção nos tribunais, luxo desmedido dos ricos...
Tudo isto continua, com as mesmas ou com novas modalidade, no nosso século XXI com a contrafação na produção, desvio da distribuição de produtos essenciais, tráfico de influências, especulação financeira e imobiliária e esmagamento dos trabalhadores com baixíssimos salários e aumento do custo de vida. E Amós, que denunciava todas estas situações, teria muito que fazer hoje entre nós.
Com a decomposição social, vem a corrupção religiosa: santuários pagãos, falsidade do culto (tanto se adorava o Senhor como outras divindades; praticava-se o culto para encobrir as injustiças sociais), falsa segurança e complexo de superioridade por pertencer ao povo escolhido. É nesta situação de prosperidade económica e política, de injustiças e desigualdades sociais, de paganismo e corrupção religiosa que atua o profeta. O objeto da palavra do profeta são as injustiças sociais.

O livro
O livro de Amós desenvolve-se em 9 capítulos e o modo como o livro se organiza reflete um longo processo de composição. Não obstante, uma análise mais profunda deixa aparecer a vastidão do problema. São muitos os modos dos estudiosos para dividir o livro. Pela sua relevância, apresentam-se duas. A divisão em quatro partes; e a divisão em três secções.

A divisão em quatro partes
Depois do título (1,1) e de um breve prólogo (1,2), o livro de Amós divide-se em quatro partes:
I. Oráculos contra sete nações vizinhas de Israel e contra Judá e Israel (1,3-2,16).
II. Oráculos contra Israel (3,1-6,14). Nesta parte encontram-se as principais críticas de Amós à corrupção social e religiosa e o anúncio do castigo (3,13-15; 5,1-3.16-20; 6,8-14).
III. Castigos divinos (7,1-9,10). São cinco visões, das quais as primeiras quatro começam com a mesma fórmula e a quinta é diferente. No meio das visões encontra-se a narração da expulsão de Amós do santuário de Betel (7,10-17) e outros oráculos (8,1-14; 9,7-10).
IV. Esperança messiânica como oráculo de salvação (9,11-15):
Virão dias em que o lavrador seguirá de perto o ceifeiro e o que pisa os cachos seguirá o semeador. Os montes destilarão mosto; todas as colinas se derreterão. Restaurarei o meu povo de Israel. Hão de reconstruir e habitar as cidades devastadas. Plantarão vinhas e beberão do seu vinho, cultivarão pomares e comerão dos seus frutos. Hei de plantá-los na sua terra e nunca mais serão arrancados da terra que lhes dei!”. 
No livro predomina o tom poético, excetuando o v. 1 do cap. 1, todo o cap. 7 e os três primeiros versículos do cap. 8. Lê-lo como poema e ter alma de poeta ajudam à sua interpretação.
O tema dominante do livro de Amós, segundo alguns, é a denúncia o castigo. Nas duas primeiras visões vê-se que o profeta intercede e pede perdão pelo povo; mas, nas outras três, já não há remédio e que a catástrofe é iminente. No entanto, dá a solução e aponta a esperança.
Segundo Amós, são contrários ao plano de Deus na História o luxo e a ostentação da riqueza, a exploração dos pobres e dos oprimidos, a fraude e todo o tipo de injustiças sociais, o culto sem o necessário compromisso ético, o sincretismo religioso e as falsas seguranças apoiadas na eleição de Israel. E, como Deus não tolera estes abusos, a única forma de fazer o povo sentir estes males é o castigo por meio da invasão militar. Ora, dizer isto em tempos de Jeroboão II, numa época de prosperidade económica, pareceria obra de louco. Porém, décadas mais tarde (em 722), as tropas assírias conquistam a Samaria e o Reino de Israel desapareceu do mapa.
Amós não se limita a anunciar o castigo; explica porque é que ele vai acontecer, e aponta a única saída possível: buscar o Senhor para viver (vd 5,6); buscar o bem e não o mal (vd 5,14). Lutar por uma sociedade mais justa é, para o profeta, o meio de escapar do castigo. E é notável a sua descrição do Dia do Senhor, apresentado como um dia de trevas e de calamidade, mesmo para o povo eleito (8,8-14) – parecido com Joel e diferente de Abdias (este anuncia o triunfo de Israel). Os evangelistas e, com eles, a Igreja Apostólica interpretam o martírio de Cristo, o Eleito de Deus, à luz destes textos de Amós (Mt 27,45-46; Mc 15,33-41; Lc 23,44-49; Jo 19,36-37).

Na perspetiva das três secções
Secção A (1,3-2,16). Parece que um dos principais critérios para tal afirmação parte da observação de que uma fórmula é repetida nesses textos: 1,3.6.9.11.13; 2,1.4.6 – “Assim falou o Senhor”. Assim, em hebraico, kōh 'āmar Yhwh (assim falou YHWH) 'āl she lōshāh pîshe 'ēy (por três pecados de) w e 'al ’ar e bā'āh (por quatro).
Secção B (3,1-6,14). Os autores observam que os oráculos são bem marcados com a presença do verbo ouvir, em hebraico a raiz shāma‘: Ouvi esta palavra que YHWH falou contra vós, filhos de Israel (3,1). Ouvi esta palavra, vacas de Basã (4,1). Ouvi esta palavra que eu sentencio sobre vós, como lamento, casa de Israel (5,1). Com a expressão “vacas de Basã” o profeta refere ironicamente as mulheres de Samaria que não se preocupam com os pobres. Ainda nesta secção, é notável o uso da interjeição “ai” que se constitui, em exegese bíblica, como indicativo de um género literário de condenação ou juízo. Encontra-se em 5,18 e 6,1.
Secção C (7,1-9,15). Apresenta 5 relatos de visões do profeta (7,1-3; 7,4-6; 7,6-9; 8,1-3 e 9,1-4) e a promessa de restauração final (9,11-15).
Como se vê, a diferença na divisão do livro fica-se aqui pela junção de duas partes da anterior divisão na secção C. O importante é que no livro de Amós as distancias se encurtam.
No livro fica bem patente a preocupação social do profeta. A situação dos habitantes de Israel no século VIII a.C. acusa uma despreocupação com os pobres e isso é motivo da condenação desencadeada pelo profeta. Note-se que a divisão do livro não funciona apenas como motivo literário: é uma espécie de funil a atingir os destinatários da mensagem de castigo.
Cabe agora ver as particularidades de cada uma destas secções. Com efeito, de um lado, há um grande número de géneros literários no livro: notas biográficas, oráculos contra nações vizinhas de Israel e oráculos contra o próprio Israel, lamentos e convites ao arrependimento, relatos de visões, mensagens de esperança e algumas passagens que parecem ser fragmentos de hinos. Por outro lado, uma série de termos e expressões marcam mudanças de tonalidade e obrigam a perceber novas formas e novos modos de expressão da palavra do profeta.
Na secção A, a primeira informação, no v. 1, parece funcionar como um título geral do livro, pois menciona os dois elementos principais: palavras e visão. Traz algumas referências pessoais e informações sobre Amós. São comuns entre os profetas notas como essa (vg.: Os 1,1; Is 1,1 e Jr 1,1). Nesta secção, fica patente a preocupação principal do profeta com os crimes cometidos pelas nações vizinhas de Israel e pelo próprio Israel. A lista referente aos crimes e castigos faz desfilar aos nossos olhos a índole beligerante das palavras de Amós contra tais crimes cometidos contra a pessoa humana. Há exceção apenas para Judá (2,4-5) cujo crime é não ter seguido a lei (Torah) de YHWH. Todavia, há coerência na palavra de Amós, visto que seguir a lei é, sobretudo, resgatar a importância e o valor do ser humano.
Surge nestas linhas uma curiosa numerologia bíblica: pode ser identificada nos oráculos contra as nações (2,6-8) uma lista de 7 transgressões, bem como 7 anúncios de castigo (2,14-16). Há 7 anúncios de acusação e 7 de castigo. E os oráculos dirigidos às 7 nações sugerem o clímax (7+1) para a oitava nação, isto é, Israel. Estes oráculos contra as nações parecem refletir os “famosos textos egípcios de execração, onde se quebravam vasos que traziam a inscrição dos nomes dos inimigos”, o que denota a origem cultual dos oráculos.
A Secção B mostra um conjunto de oráculos contra Israel com palavras muito duras. É de anotar que o processo de afunilamento começa a ficar visível na obra, dado que a última nação citada, na secção anterior, foi Israel. Nesta altura, o profeta denuncia a corrupção do ambiente social e a do culto. Nota-se, numa extremidade do texto, a marcação com o verbo ouvir (3,1; 4,1; 5,1) e, na outra, com a interjeição “ai” (5,18; 6,1). O centro (5,1-17) pode ser identificado como elo entre as ditas extremidades. Assim, o destaque de 3,1-4,13 é o mandato de ouvir a palavra do Senhor. A parte intermediária é, assim, o ponto central e culminante da secção.
O profeta olha em perspetiva negativa todas as ações de Israel: é Israel que pratica a violência e a opressão (3,9-10); e é traçada com palavras excessivamente hostis (3,14-15; 4,4-5) a corrupção cultual. Israel vira suas costas ao convite de volta e arrependimento (4,6-11), o que leva a um ato final do julgamento terrivelmente ameaçador: “Portanto, prepara-te para encontrar teu Deus, Israel” (4,12). É ameaça àqueles que odeiam a justiça e a sinceridade (5,10).
A secção C é marcada pelo ciclo das 5 visões, que aparecem, respetivamente, em 7,1-3 (sobre os gafanhotos); 7,4-6 (sobre o fogo); 7,7-9 (sobre o fio de prumo); 8,1-3 (sobre o cesto de frutos maduros); e 9,1-4 (destruição do santuário). Uma das principais questões desta parte da obra é a busca de resposta para a dimensão e alcance do juízo presente nas 5 visões, mais terrível na última. E a hipótese é a de que pode ser encontrado, nos textos que antecedem o relato visionário (7,1-8,14), o motivo ou motivos para o juízo anunciado em 9,1-4. Seriam motivos ligados exatamente ao descuido com o pobre e à prática da injustiça social e cultual.
Nesta secção encontra-se o confronto, com narrativa em 3.ª pessoa, entre o profeta e o sacerdote Amacias, sacerdote de Betel (7,10-17). É, como se viu, a segunda nota biográfica do livro (a primeira em 1,1-2), que se impõe com grande importância. Um ponto de destaque na neste texto é o seu posicionamento entre a 3.ª visão e a 4.ª, posicionamento que gera perguntas pelo facto de se tratar de um texto narrativo que interrompe a série de visões desta secção. Parece pertencer ao conjunto geral do livro face aos muitos pontos de contacto com o material à sua volta no ciclo das visões.  
Após as 4 primeiras visões, vêm alguns oráculos (8,4-14), aos quais se segue a 5.ª visão (9,1-4). Em 9,5-6, temos uma doxologia, um fragmento de hino, que se harmoniza com 4,13 e 5,8-9. Vêm, em 9,7-10, palavras de juízo. E o último texto do livro (9,11-15) apresenta fortes traços de redação muito posterior ao tempo de Amós cuja análise tem sido tema de debate.
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Concluindo 
A destruição vertical de Israel, ou seja, a que parte das forças diretivas do povo, induz a desestruturação do poder social. O contexto histórico de tranquilidade e expansão de Israel no século VIII a. C. pode lançar luzes importantes. A religiosidade do povo e a certeza do olhar favorável de Deus (4,4; 5,5.21-23) deixa transparecer que tudo está correto. Todavia esse bem-estar e pretensa paz têm as suas raízes na injustiça social: a indiferença à situação de pobreza e a provocação do seu aumento, com a ausência de perspetiva moral e ética da parte do poder.
Amós dirige-se, em 8,4-14, a um grupo de difícil identificação. Porém, nota-se que esse grupo é distinto daquela categoria que abrange os indigentes, pobres e fracos. E esta observação induz que muitos pontos têm de ser levados em conta tendo em vista a perspetiva social que não privilegiava os pobres da terra. A apropriação ilícita e o acúmulo de bens merecem ataque decidido e ferrenho por parte do profeta. Certamente que a opressão ao pobre constitui o ponto central da pregação condenatória de Amós.
Os comerciantes lamentam-se por terem que esperar a passagem do sábado e das festas porque perdem dinheiro (8,5), que poderia ser ganho com a exploração. Em lugar do culto a Deus, o que está em jogo é o enriquecimento ilícito às custas dos pequenos. Mais uma vez se observa a ligação do culto com a exploração social. E há uma particular acusação contra os que compram e necessitados com prata e o pobre com um par de sandálias (8,6). Já se havia condenado os que vendem o justo (2,6). Parece tratar-se de um comércio de escravos e, se a interpretação é procedente, é significativo que uma das possibilidades de fuga, na 5.ª visão, seja o cativeiro (shebî). Para lá são levados os prisioneiros que perdem, como os escravos, os seus direitos. Deus não tolera a exploração humana que chega ao ponto do comércio de vidas, ao engano de incautos e indefesos, à repressão de opostos.
O livro aponta para o desenvolvimento e condenação da injustiça, injustiça que alastra gerando a miséria e a morte, enquanto se erguem cânticos de festa no santuário. A palavra profética procura pôr termo a esta estrutura de pecado e exploração que, como uma cárie, corrói o povo. Isso não está tão distante do século XXI, pelo contrário, parece até refleti-lo com luzes ainda mais brilhantes. E os profetas de agora – não tão frequentes como é desejável – ou não são ouvidos ou são escarnecidos. E, em muitos lugares, são torturados e mortos, às vezes até por quem se diz amigo de Cristo, cujo sacrifício parece teimar em não chegar, por culpa dos homens, a todas as pessoas, lugares e tempos.

(cf 25.º Domingo do Tempo Comum – Ano C, https://www.dehonianos.org/portal/25o-domingo-do-tempo-comum-ano-c0/; Altamir Celio de Andrade, A Estrutura Literária do Livro de Amós,

2019.09.22 – Louro de Carvalho

terça-feira, 28 de agosto de 2018

“A Igreja não pode ficar no pecado”


Ao invés de muita comunicação social portuguesa e estrangeira – para quem o Papa Francisco, por mais que diga e faça, mais deve – Dom Joaquim Mendes, Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa e Presidente da Comissão Episcopal do Laicado e da Família, sintetiza a visita papal à Irlanda dizendo que o Pontífice levou a Dublin uma mensagem ‘muito forte’ e que ‘a Igreja não pode ficar no pecado’, como referiu à agência Ecclesia hoje, 28 de agosto.
Dom Joaquim Mendes, que participou no IX Encontro Mundial de Famílias, realçou a “experiência marcante” de  “alegria e beleza” e de “sofrimento por toda a situação que a Igreja Católica está a viver”, salientando, sobre o desenvolvimento do encontro e sobre a questão dos abusos sexuais que marcou a participação do Papa no evento, como não podia deixar de ser:
Por um lado, foi a vivência de uma Igreja que é família de famílias e de uma Igreja que ama as famílias, mas depois há esse aspeto doloroso, que a Igreja carrega, de uma Igreja que é santa e pecadora”.
Obviamente que a viagem apostólica internacional teve como objetivo primeiro a participação papal neste grande evento de famílias (de 21 a 26 de agosto), com a presença de milhares de famílias dos mais variados continentes, incluindo de Portugal, e com o Papa nos últimos dois dias do evento. Todavia, Francisco inseriu no seu discurso várias e acutilantes mensagens conexas com os casos de abusos sexuais de menores, envolvendo membros do clero e religiosos, na Irlanda e em outros países, sendo o caso da Pensilvânia o grito mais recente.  
O referido Bispo Auxiliar de Lisboa, que acompanhou a comitiva lusa até à Irlanda, realçou a importância de Francisco ter abordado uma problemática que “toca a todos” quantos fazem parte do “corpo eclesial”, que obviamente “confunde e envergonha”, mas para a qual “é preciso olhar”. E, a este respeito, declarou:
O participar desta dor, desta situação toda muito penosa, marcou também este encontro. Ver a santidade da família, a beleza, a alegria, a esperança da família, o reacender do dom do matrimónio, ao serviço da vida e no testemunho do amor, mas, por outro lado, esta parte mais escura, esta sombra pesada.”.
E o prelado sublinhou que, desde o seu primeiro discurso após aterrar em Dublin até ao último encontro com as comunidades no Phoenix Park, o Papa Bergoglio mostrou o empenho da Igreja Católica em erradicar das suas estruturas o estigma dos abusos sexuais contra menores e em pedir perdão pelas falhas cometidas. Tanto assim foi que “o ato penitencial que o Papa fez na missa final” foi mesmo “muito forte”, como recorda Dom Joaquim Mendes, que participou concelebrando. E, apesar de considerar esta “uma marca forte que fica”, admite que “não é suficiente”. Segundo o Presidente da Comissão Episcopal do Laicado e da Família, face a esta problemática, a Igreja Católica deve prosseguir no desenvolvimento de mecanismos que permitam prevenir mais as situações de abuso e de encobrimento de abusos. No entanto, frisou que “a Igreja não pode ficar no pecado”, mas tem de aproveitar o bem enquanto motor de mudança e de regeneração. E, neste sentido, sustentou:
Há muita gente santa, que dá a vida e que defende a dignidade humana, que defende a dignidade dos pobres, das crianças. Não podemos tomar uma parte pelo todo.”.
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Quanto ao programa do IX Encontro Mundial de Famílias (de Portugal inscreveram-se cerca de 60 casais com os filhos), o prelado realça a oportunidade de reforço do papel da Família enquanto “comunidade de vida e de amor” e a sua bela ambição de “contagiar outras” para este caminho. E referiu:
Foi admirável ver famílias inteiras com três, quatro, cinco filhos, com os pais; algumas traziam também os avós. Pessoas que amam, que valorizam a família, que têm uma experiência de família. E, neste sentido, são também uma luz e uma esperança para a Igreja e para o mundo.”.
E destacou a partilha e a troca de experiências que se gerou, sobretudo durante os dias do Congresso Pastoral dedicado à Família, inspirado na exortação apostólica do Papa, ‘A Alegria do Amor” (Amoris laetitia), e nos vários momentos de encontro com Francisco. São experiências que mostraram a “sintonia” que existe “entre a experiência das famílias e a mensagem ou a proposta do Papa, na Amoris Laetitia”. Sublinhou, em relação a esta matéria, este responsável pastoral, que espera que a riqueza do encontro não se perca aqui:
Foi muito interessante ouvir testemunhos de famílias a dizerem  que se reencontraram na Amoris Laetitia. E estou certo de que os casais que participaram vieram tocados e reforçados na sua vivência e realidade como esposos e como famílias.”.
Fez votos por “que estas famílias contagiem outras na descoberta da família como caminho de amor, como comunidade, como Igreja doméstica, como espaço de crescimento e de realização”. E perspetivou a linha de ação, assegurando:
Nós temos de reforçar, a todos os níveis, social, político, temos de reforçar as famílias e apoiar as famílias e acompanhar as famílias para que elas possam cumprir a sua missão de cuidar da vida dos filhos, acompanhar, proteger, defender. Isto é uma missão de todos.”.
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Já no dia 20, véspera do Encontro, Dom Joaquim Mendes assinalava que a intenção era “celebrar, refletir e rezar a realidade da família”, com casais de todo o mundo e os seus filhos, num caminho, num processo de receção, de aprofundamento e reflexão da ‘Amoris Laetitia’, constituindo “sempre uma oportunidade para pôr em evidência a força do Evangelho da família”. Nestes termos, observava:
Vai ser uma experiência forte que marca profundamente as famílias. A participação nos encontros internacionais impulsiona, dinamiza, impele-nos a envolver e a partilhar.”.
E Ana Oliveira, da Pastoral Familiar do Patriarcado, explicava que desde 2010 ficaram “muito entusiasmados” por existir este tipo de dinâmica em casal para “as famílias cristãs”, uma vez que a experiência do casal, enquanto jovens nos grupos juvenis e na Jornada Mundial da Juventude, sentiam “a força que trazia à experiência pessoal e crescimento”. E Manuel Oliveira sublinhava a “oportunidade” de ouvir “testemunhos” e conhecer “experiências de outras pessoas” que vão permitir “caminhar de forma mais interessante no caminho de Cristo”.
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Também à margem do aludido Congresso Pastoral, a Comissão para a Família e para a Vida, do CCEE (Conselho das Conferências Episcopais da Europa), reuniu pela 1.ª vez no dia 22, em Dublin, na Irlanda. Segundo o comunicado então enviado à agência Ecclesia, a sessão serviu sobretudo para “traçar algumas das linhas orientadoras” para este setor pastoral da Igreja Católica na Europa, “linhas essas que serão apresentadas na próxima assembleia plenária do CCEE, que terá lugar em Poznan, na Polónia, entre 13 e 16 de setembro”.
Na sessão, presidida pelo Arcebispo de Santo André e de Edimburgo, Dom Leo Cushley, foram apresentados os bispos e delegados responsáveis pela pastoral da família nas 15 conferências episcopais que fazem parte do CCEE, incluindo Portugal, que, no atinente ao Conselho, está atualmente representado pelo Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e Cardeal-Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, e, no respeitante ao setor da Família, temos Dom Joaquim Mendes.
A Comissão para a Família e para a Vida, do Conselho das Conferências Episcopais da Europa, foi criada em 2017 tendo como principal missão “a promoção do Evangelho da Família”.
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Na linha do que frisou Dom Joaquim Mendes, “a Igreja não pode ficar no pecado”, permito-me uma reflexão um tanto desalinhada em relação à onda corrente.
Parece-me que Francisco, o homem que trabalha incansavelmente, com um bom punhado de colaboradores, na eminentíssima reforma da Igreja, nalguns aspetos parece estar a bater num ninho de vespas. E a linha ultraconservadora parece ter-lhe apanhado o ponto fraco.
O Papa, na sequência de algumas intervenções corajosas do seu predecessor imediato, está a fazer guerra sem tréguas aos casos de pedofilia e de abuso sexual de menores (que são coisas diferentes, dependendo da idade das vítimas) por parte de clérigos e religiosos. E aí tem toda a razão. Estes atos, por vezes tornados hábitos, além de serem crimes hediondos e inadmissíveis, contrariam a missão orientadora do clérigo – diácono, padre ou bispo – e do religioso, o frade (resta saber se algumas religiosas não incorrem em atos similares), que é uma orientação catequética, santificadora e diretiva. Ora, neste aspeto, o Papa, os bispos e os colaboradores mais próximos têm a obrigação de escalpelizar tais atos/hábitos com palavras claras e acentuada vigilância.
Porém, face ao conhecimento dos casos em concreto, penso haver demasiadas críticas inconsistentes e algumas mesmo inumanas. Tudo tem de passar pela advertência e, porque a emenda em casos destes se torna difícil, segundo dizem alguns peritos, o caso pode ter de passar pela ablação das responsabilidades pastorais autónomas, podendo, em caso de arrependimento, propósito firme de emenda e reparação tanto quanto possível dos danos, o exercício das ordens continuar sob tutela e acompanhamento por parte de outrem. Não obstante, o juízo nos tribunais do Estado, que pode redundar em condenação, com a respetiva cominação de pena ou em absolvição, como o juízo nos tribunais eclesiais, que pode redundar na supressão do exercício das ordens ou na demissão da comunidade conventual, deve partir da acusação consistente e baseada em provas. E, diga-se o que se disser, o arguido (réu noutros ordenamentos jurídicos) deve ser ouvido e ter suficientes garantias de defesa e de recurso para instâncias superiores.
Neste sentido, em minha opinião, o bispo diocesano ou o superior do religioso, enquanto devem, se virem matéria e provas para tal, encaminhar o processo para o competente tribunal romano, em última instância a Congregação para a Doutrina da Fé (no caso de bispos parece que também é primeira instância), têm a obrigação de prover à defesa do arguido nos tribunais estatais. Isto porque os clérigos trabalham ao serviço da diocese e os religiosos ao serviço da sua comunidade, sendo que respetivamente o bispo e o superior são, para os devidos efeitos, a entidade patronal e tutelar. Não se deixa esta gente entregue a si própria! São pessoas.
Mas o que se vê por aí é bem diferente. Muitos querem que, mal se levantem rumores, o indiciado seja logo punido, criticando o bispo que providencie à defesa ou que esta interponha recurso. Esquecem que o crime sexual tem variantes diversas – todas más –, mas de gravidade diferente. Olhar lascivo ou mera ação táctil libidinosa (Nem sempre é clara a fronteira entre esses e os sãos apaparicos de familiares!são bem diferentes da ação sexual explícita (táctil múltipla, oral, anal, vaginal…). Longe vai o tempo em que os moralistas diziam que, no caso do pecado contra o sexto mandamento do decálogo, havia sempre matéria grave, quer se tratasse de ato solitário quer de ato cooperativo. Ora, o juízo que se faz hoje em relação a clérigos faz-me recordar as páginas centrais de um dos números da revista Miriam, nas décadas 60/70 do século XX em que o 6.º mandamento do decálogo grafado em numeração romana – VI – abrangia as duas páginas centrais, sendo que os outros mandamentos em numeração romana eram grafados em carateres muito pequenos. E vinha a legenda “Made in Portugal”. Hoje seria “Factum toto in orbe”. Com efeito, relativamente a casos já transitados em julgado nos tribunais portugueses, há jornalistas que perguntam o que fizeram os bispos a esses padres, sabendo-se que não são estes quem tem o veredicto final quanto à cessação das ordens. E deve ter-se em conta o aforismo, in dubio pro reo.
Outro aspeto que me faz confusão é a denúncia. Obviamente que não é isto o que o Papa deseja, mas, à sombra do seu desejo, tentou-se instalar um mecanismo inquisitorial, aplaudido e desejado por muitos dos que vêm criticando, por vezes de forma acrítica a inquisição. Houve dioceses que apelaram publicamente a que os fiéis denunciassem casos de abuso por parte de clérigos aos serviços diocesanos, deixando público o endereço. Além do mais, esqueceu-se o mecanismo previsto no Evangelho de Mateus (leia-se: Mt 18,15-18).
E, sobre o encobrimento por parte dos Bispos, remarei contra a corrente, mas não aceito a onda: o bispo é pai na fé, pontífice e pastor; e, por força da ordenação, estabeleceu-se entre o padre ou diácono e o Bispo e seus sucessores uma relação de comunhão, que a denúncia apressada e inconsistente às instâncias superiores ou aos tribunais estatais quebra para sempre. Pelo menos, dê-se ao bispo o direito a colocar-se no dilema: se não denuncia, encobre; se denuncia, perde o capital de confiança e pode incorrer no mecanismo do aforismo “summum ius, summa iniuria”. E o exemplo vem do caso do pai ou mãe que sabe que o filho cometeu um crime que ninguém conhece. Entrega-o às autoridades ou encobre-o? Em nome da justiça, deveria denunciá-lo, mas, em nome da relação familiar, parece não o dever fazer. Perante ambas atitudes más, penso que seria aceitável que o pai conversasse com o filho e o aconselhasse a entregar-se, protestando cuidar da sua defesa.
Acusar os bispos de atual ou antigo encobrimento pode de ricochete virar-se contra quem não deve. Agora é notícia que um antigo núncio apostólico (embaixador da santa Sé num determinado país) vem acusar Francisco de ter conhecimento de casos de abuso sexual que alegadamente lhe foram reportados, sem que tenha havido uma atitude consentânea. Pensa o referido diplomata, um bispo, que é o Papa que se pronuncia pessoalmente perante factos concretos. E conclui, sem suporte científico, que 80% dos casos de abuso sexual se devem à homossexualidade desses sacerdotes. Como é que ele sabe? Será que os padres não se metem com meninas e raparigas. Porque não diz, como alguns, que isso se deve ao celibato? Mas o acusante vai mais longe ao querer envolver o Papa no apoio ao lóbi gay, só porque ele disse que não é isso que lhe importa, ou seja, não lhe importa se um indivíduo é gay ou não, mas se é crente e tenta viver segundo o Evangelho. Obviamente que as outras pessoas também estão chamadas à castidade segundo as suas condições de vida.
Como deram conta que acusar o Papa de heresia não cola, atêm-se a outras considerações para o denegrirem. De facto, ele, por si, pouco mais pode fazer do que falar claro e duro. De resto, quantos bispos, padres e leigos se mobilizaram para a eficaz prevenção dos abusos sexuais e o sadio acompanhamento? Depois, abuso de menores… há que saber de que idade. Menor de 17 anos não é tão manipulável (E há menores bem sabias!). Não haverá um pouco de corrida à indemnização e de encobrimento dos abusos sexuais que passam na sociedade civil e em seitas?   
Talvez tenhamos de olhar para a recomendação de Santo Agostinho “condenar os erros mas poupar as pessoas”, ou escalpelizar o pecado, mas como diz Dom Joaquim Mendes, a Igreja não pode ficar no pecado”.  
2018.08.28 – Louro de Carvalho         

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Do precursor ao apóstolo


A solenidade do Nascimento de São João Batista dá azo a reflexão na linha do enunciado vertido em epígrafe. Com efeito, no hino de Vésperas, dirigindo-nos ao Santo, rezamos:
Um mensageiro vindo das alturas / Vosso nome bendito anunciou, / Profetizando o vosso ministério / Precursor”.
O Evangelho da Missa da Vigília (repare-se que esta é das poucas solenidades com textos próprios para a Missa da Vigília – as outras são: a do Natal, a da Páscoa, a do Pentecostes, a de São Pedro e São Paulo e a da Assunção de Nossa Senhora), tomado de Lucas, no atinente ao anúncio do nascimento de João (Lc 1,5-17), refere que o anjo Gabriel apareceu ao sacerdote Zacarias já de avançada idade, que oficiava no Templo, a predizer-lhe que Isabel, sua esposa, estéril e de idade avançada (eram um casal justo e cumpridor irrepreensível  de todos os mandamentos e leis do Senhor) iria conceber e dar à luz um filho, ao qual ele poria o nome de João. E, ante a estupefação de Zacarias, o mensageiro marcou detalhadamente a missão de João como precursor, o que vai à frente:
Será cheio do Espírito Santo desde o seio materno e reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus. Irá à frente do Senhor, com o espírito e o poder de Elias, para fazer voltar os corações dos pais a seus filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, a fim de preparar um povo para o Senhor”. 
E o Evangelho da Missa do Dia, também de Lucas (Lc 1,57-66.80) mostra Zacarias aquando da circuncisão do menino (8 dias de pois do seu nascimento) a colocar por escrito (pois tinha emudecido) a ordem do anjo “João é o seu nome”, tal como Isabel tinha dito aos circunstantes. Depois, abriu-se-lhe a boca e soltou-se-lhe a língua; e, começando a falar, bendisse a Deus, com a admiração de todos, que se encheram de temor e levaram  a que por toda a região montanhosa da Judeia se tenham divulgado estes factos. 
Por outro lado, o cântico do “Benedictus”, proferido por Zacarias na mesma ocasião, se bem revela que este nascimento significa a visita misericordiosa de Deus ao seu povo e a redenção do mesmo povo pela mão dum salvador poderoso que aí vem e que nos fará viver em santidade e justiça todos os dias da nossa vida na presença do Senhor, também precisa que João não é o Salvador, mas o menino que será chamado profeta do Altíssimo porque irá à frente do Senhor a preparar os seus caminhos e a dar a conhecer ao povo a salvação pela remissão dos pecados.
Assim e por isso, o precursor “será grande aos olhos do Senhor e cheio do Espírito Santo desde o seio materno” e “muitos se alegrarão com o seu nascimento” (Lc 1,15.14), pois foi enviado por Deus para dar testemunho da luz e preparar o povo para a vinda do Senhor (cf Jo 1,6-7; Lc 1,17).
Na sua estrita e importante missão de precursor, João advertiu: Eu não sou o Messias” (Jo 1,20). E declarou: Eu sou a voz de quem grita no deserto:Retificai o caminho do Senhor’, como disse o profeta Isaías” (Jo 1,23; cf Mt 3,3; Mc 1,2-3). E Lucas refere ainda os resultados esperados:
Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.” (Lc 3,5-6).
Assim, João justificou:
Eu batizo com água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. É aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias.” (Jo 1,26).
Ou de outro modo, enfatizando a conversão e referindo o poder judicativo do Messias:
Eu batizo-vos com água, para vos mover à conversão; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de lhe descalçar as sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na sua mão a pá de joeirar; limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo inextinguível.” (Mt 3,11-12; cf Mc 1,7-8; Lc 3,16-17).
No dia seguinte, coube-lhe fazer a apresentação presencial de Jesus. Vendo que Ele se dirigia ao seu encontro, exclamou, frisando o dado nuclear da messianidade, o resgate pascal do pecado:
Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! É aquele de quem eu disse: ‘Depois de mim vem um homem que me passou à frente, porque existia antes de mim’.” (Jo 1,29-30).
Mais, depois do Batismo que João ministrou a Jesus, também Lhe cedeu alguns dos seus discípulos com vista à realização da messianidade, pois, como refere o evangelista,
No dia seguinte, João encontrava-se de novo ali com dois dos seus discípulos. Então, pondo o olhar em Jesus, que passava, disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus!’. Ouvindo-o falar assim, os dois discípulos seguiram Jesus, o qual se voltou e, notando que o seguiam, perguntou-lhes o pretendiam. Eles disseram: ‘Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?’. Ele respondeu-lhes: ‘Vinde e vereis’. Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia.” (Jo 1,35-39).
Mais tarde, surge um novo testemunho do Batista sobre Jesus. Tendo Jesus ido com os seus discípulos para a região da Judeia, onde convivia com eles e batizava, e, estando João a batizar em Enon, perto de Salim, vinha gente ter com um e com outro para ser batizada, em razão da abundância da água. Levantou-se, então, uma discussão entre os discípulos de João e um judeu acerca dos ritos de purificação. Foram, pois ter com João a dizer-lhe ciosamente: ‘Aquele que estava contigo na margem de além-Jordão e de quem deste testemunho está a batizar e toda a gente vai ter com Ele’ (cf Jo 3,22-23.25-26). Aí, João esclareceu desinteressada e perentoriamente:
Um homem não pode tomar nada como próprio, se isso não lhe for dado do Céu. Vós mesmos sois testemunhas de que eu disse: ‘Eu não sou o Messias, mas apenas o enviado à sua frente.’ O esposo é aquele a quem pertence a esposa; mas o amigo do esposo, que está ao seu lado e o escuta, sente muita alegria com a voz do esposo. Pois esta é a minha alegria! E tornou-se completa! Ele é que deve crescer, e eu diminuir.” (Jo 3,27-30).
Ficou, assim replasmado em definitivo, neste segmento, o papel do precursor com a afirmação humilde e designiacional da necessidade do crescimento do Messias e da diminuição funcional daquele que foi enviado à sua frente com uma missão propedêutica. Quantos, porém, ao longo do tempo, não souberam circunscrever-se à missão de precursores e se quiseram empoleirar na função de Messias ou de seus lídimos lugares-tentes, com todos os poderes e honras!
***
E Jesus confirma a missão precursora do Batista e tece largos elogios à sua personalidade e ao cumprimento cabal da sua missão propedêutica e antropagógica.
Assim, para Jesus, João é um profeta e mais que um profeta: aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho. Tanto assim é que entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Batista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele, porque o Reino é arrebatado pelos simples, pelos humildes e pelos persistentes. Desde o tempo do Batista até agora, o Reino do Céu tem sido objeto de violência e os violentos apoderam-se dele à força. Todos os Profetas e a Lei anunciaram isto até João. E, quer se acredite quer não, ele é o Elias que estava para vir (cf Mt 11,9-14; Lc 7,26-28). 
Por outro lado, o Mestre faz saber – em resposta a um pedido de esclarecimento de emissários que vinham da parte do precursor, ora preso nas masmorras herodianas – que o Messias estava já em franca atividade missionária a Patre e especificou os sinais:
Ide contar a João o que vedes e ouvis: Os cegos veem e os coxos andam, os leprosos ficam limpos e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa-Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontra em mim ocasião de escândalo.” (Mt 11,4-6; Lc 7,22-23).
Com efeito, nessa altura, Jesus curava a muitos das suas doenças, padecimentos e espíritos malignos e concedia vista a muitos cegos (Lc 7,21) – totalmente em consonância com a missão messiânica plasmada no cap. 4 de Lucas na sequência da profecia de Isaías, cumprida em Jesus: 
O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19).
No Evangelho de Mateus, o ensinamento de Jesus compendia-se nas Bem-aventuranças, que abrem o discurso do Sermão da Montanha (vd Mt 5,1-12); e, no de João, a finalidade da vinda de Jesus ao mundo é que todos “tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). E isto pode ser dito e redito de muitos modos a teor do Evangelho, mas basta que retenhamos o segmento fixado perentoriamente no Evangelho de Marcos “o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos” (Mc 10,45; cf Mt 20,28) e o apelo do Mestre vertido no Evangelho de João:
Se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Na verdade, dei-vos exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também.” (Jo 13,14-15). Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.” (Jo13, 34-35).
***
E pronto. Já percebemos tacitamente como a missão do discípulo que se fez apóstolo (pois ninguém pode ser apóstolo se não for discípulo; e é insensato e inútil ser discípulo sem ser apóstolo…) passa necessariamente por assumir a missão messiânica com a humildade do precursor e com a alegria de quem tem o privilégio de estar com o esposo e ouvir a sua voz. Com efeito, tanto João como Jesus anunciavam a chegada e a proximidade do Reino de Deus e pediam a adesão ao mistério e projeto do Reino através da metanoia da mente, da do coração, da das atitudes e comportamentos pessoais e da das estruturas sociais.
Por outro lado, é mister do discípulo-apóstolo estar disponível para, à semelhança do Mestre, servir e dar a vida para que todos tenham a vida e a tenham em abundância. E isto implica ser fiel à unção recebida do Espírito do Senhor para estar em saída levando a Boa Nova aos pobres, proclamando a libertação aos cativos, recuperando a vista dos cegos, fazendo andar os coxos, com que fiquem limpos os leprosos, os surdos ouçam e os mortos ressuscitem, mandando em liberdade os oprimidos e proclamando o tempo do favor e graça da parte do Senhor.
Os apóstolos têm o mandato do Senhor, que implica saída, ação e confiança:
Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.” (Mt 28,19-20; cf Mc 16,19-20).
Mas este mandato, além do ensino e do Batismo, implica a compreensão profunda das Escrituras, o revestimento da força do Alto (para ir em saída), a pregação e a aceitação do perdão e o testemunho no Espírito Santo. Com efeito, em Lucas (26,45-49), pode ler-se:
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto.
E, no Evangelho de João, estabelece-se a conexão entre a paz, a alegria, o afastamento do medo, o envio, o dom do Espírito Santo e o perdão dos pecados – tudo dádivas pascais. Com efeito, na aparição aos Onze na tarde da Ressurreição, Ele mostrou-se O que fora morto e agora redivive:
Veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: ‘A paz esteja convosco!’ Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. E Ele voltou a dizer-lhes: ‘A paz convosco! Assim como o Pai me enviou, também Eu vos envio a vós.’. Em seguida, soprou sobre eles e disse-lhes: ‘Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos’.” (Jo 20,19-23).
Por conseguinte, se ensinam e santificam e encaminham, fica confirmada, na missão, a dupla qualidade dos discípulos de Luz do Mundo e Sal da Terra (cf Mt 5,13-16), mantendo e renovando constantemente o vigor transformador do sal, para que não sejam considerados servos inúteis, e fazendo brilhar a luz discipular diante dos homens, de modo que, vendo as boas obras, glorifiquem o Pai, que está no Céu. 
E, de facto, Pedro sintetizou bem no discurso do Pentecostes a súmula do anúncio – “Deus estabeleceu como Senhor e Messias a esse Jesus por vós crucificado” (At 2,36) – e o resultado da aceitação da pregação – “Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis, então, o dom do Espírito Santo” (At 2,38)
Em suma, o essencial do apostolado está na seguinte verificação: Com grande poder, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles” (At 4,33). Se isto acontecer, os que abraçam a fé terão “um só coração e uma só alma” e não haverá “ninguém necessitado” (cf At 4,32.34), porque a doutrina e o dinamismo das bem-aventuranças se evidenciarão. Importa que os apóstolos escutem o Espírito e também aceitem, a jusante, a humildade e a determinação que o precursor teve a montante – que o Mestre cresça. Na verdade, o apóstolo tem de ser, perante muitos, um verdadeiro precursor em relação a Jesus, ou seja, um verdadeiro propedeuta, um pedagogo – não uma autorreferência – e, em sentido recíproco, um veículo da graça e do favor misericordioso para cada um dos redimidos. Graças sejam, entretanto dadas a Deus pela plêiade de precursores/apóstolos que têm feito ao longo da História discípulos de Cristo e obreiros e educadores da paz!
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Poderá ser neste espírito que os crentes tenham, desta feita, celebrado João Batista, o único santo, com a Virgem Maria, de quem a Liturgia celebra o nascimento para a terra – o que se deve à missão única, que, na História da Salvação, foi confiada a este homem, santificado, no seio de sua mãe, pela presença do Salvador (que ia no ventre de Maria aquando da sua visita a Isabel), que mais tarde, dele fará um belo elogio (Lc 7,28), como foi referido. 
Elo de ligação entre a Antiga e a Nova Aliança, João foi acima de tudo, o enviado de Deus, uma testemunha fiel da Luz, aquele que anunciou Cristo e o apresentou ao mundo. Profeta por excelência, a ponto de não ser senão uma “Voz” de Deus, é o Precursor imediato de Cristo: vai à Sua frente a apontar, com a palavra e com o exemplo da vida, as condições necessárias para se alcançar a Salvação. 
A Solenidade do Precursor é, pois, um convite a que reconheçamos Cristo, Sol que nos vem visitar na Eucaristia, a que dêmos testemunho d’Ele, com o ardor, o desprendimento e a generosidade do Batista e a que interiorizemos a tarefa de discípulos e a missão de apóstolos.
2018.06.25 – Louro de Carvalho