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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

A universalidade da salvação por vontade de Deus


O povo hebreu pensava que a salvação estava reservada única e exclusivamente para si, dado que Deus o escolhera como povo da conquista e da sua predileção. Esquecia-se de que Deus o escolhera para fazer a experiência visível de salvação, tendo-o como seu povo e o povo tendo-O como seu Deus, único, vivo e verdadeiro, pois os demais deuses eram falsos, mortos e plurais, ou seja, não eram deus nem deuses. Porém, tal experiência era exemplar para todas as nações
Contra esta mentalidade cerrada e exclusivista vem a Liturgia da Palavra deste 21.º domingo do Tempo Comum no Ano C. Deus, nosso Salvador, que não faz aceção de pessoas, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (cf At 10,34; Rm 2,11; 1Tm 2,4-5).
Começando pela célebre passagem do profeta Isaías (Is 66,18-21), é de acentuar que o hagiógrafo considera que todas as nações são chamadas a integrar o Povo de Deus. E, nessa ótica, intenta compor a visão escatológica que o texto patenteia: no mundo novo que vai chegar, são todos convocados por Deus para integrar o seu Povo. Na verdade, diz o Senhor: Eu virei reunir todas as nações e todas as línguas, para que venham contemplar a minha glória. Eu lhes darei um sinal e de entre eles enviarei sobreviventes às nações.”.
A predita visão escatológica compreende as seguintes etapas: primeiro, Deus virá para iniciar o processo de reunião das nações (v. 18); a seguir, dará um sinal e enviará missionários (escolhidos de entre os povos estrangeiros) para que anunciem a glória do Senhor, mesmo às nações mais distantes (v. 19); depois, as nações responderão ao sinal do Senhor e dirigir-se-ão ao monte santo de Jerusalém (Jerusalém é, na teologia judaica, o centro do mundo, o lugar onde Deus reside no meio do Povo e onde irromperá a salvação definitiva, o texto de Lucas prévio à Ascensão o assume), trazendo como oferenda ao Senhor os israelitas dispersos no meio das nações (v. 20); por fim, o Senhor escolherá de entre os que chegam (dos judeus regressados da Diáspora e dos pagãos que escutaram o convite do Senhor para integrar a comunidade da salvação) sacerdotes e levitas para O servirem (v. 21).
O contexto político que envolvia o povo não facilitava uma visão tolerante e acolhedora em relação às outras nações. Dizer que todos os povos são convocados por Deus, que a todos oferece a salvação era algo de escandaloso para os judeus; e era inaudito dizer que Jahwéh escolheria de entre eles missionários para os enviar ao encontro das nações e inconcebível dizer que Deus escolheria, de entre os pagãos, sacerdotes e levitas que entrassem no espaço sagrado e reservado do Templo (onde um pagão que entrasse era réu de morte) para o serviço do Senhor.
Assim, esta passagem bíblica proclama a universalidade da salvação, que reclama o espírito ecuménico, o afã missionário e a escolha de sacerdotes e levitas também de entre os missionados. É o paralelismo e a reciprocidade na missão universal. 
Depois, vem o texto da Carta aos Hebreus (Heb 12,5-7.11-13). Depois de apelar aos crentes a esforçarem-se, como atletas, para chegarem à vitória, a exemplo de Jesus Cristo (cf Heb 12,1-4), o emissor epistolar convida os cristãos, que são todos filhos de Deus, a aceitar as correções e repreensões de Deus, como atos pedagógicos do Pai preocupado com a felicidade dos filhos. A questão fundamental gravita em torno do sentido do sofrimento e das provas que os crentes têm de suportar (sobretudo incompreensões e perseguições). A mentalidade religiosa popular considerava o sofrimento como castigo de Deus para o pecado do homem (cf Jo 9,1-3); mas, segundo a Carta aos Hebreus, o sofrimento não é castigo, mas medicina, pedagogia, que Deus utiliza para nos amadurecer e ensinar. Deus serve-Se desses meios para nos mostrar o sem sentido de certos comportamentos; desse modo, demonstra a sua solicitude paternal. Os sofrimentos, como sinais do amor que Deus nos tem, são uma prova da nossa condição de “filhos de Deus”. De facto, além de nos mostrarem o amor de Deus, as provas aperfeiçoam-nos, transformam-nos, levam-nos a mudar a nossa vida. Por essa transformação, pouco a pouco nos tornamos interiormente capazes da santidade de Deus, aptos para recebê-la. Por isso, quando chegam, devem ser consideradas como parte do projeto salvador de Deus para todos nós, portadoras de paz e de salvação. E devem levar-nos ao agradecimento e à alegria.
A conclusão apresenta-se em forma de exortação. Citando Is 35,3, o autor da Carta aos Hebreus convida todos os crentes a confiar e a vencer o temor que desalenta e paralisa – o que se faz levantando as nossas mãos fatigadas e os nossos joelhos vacilantes e dirigindo os nossos passos por caminhos direitos.
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Por fim, o pequeno texto do Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30) apresenta-nos Jesus a dirigir-Se para Jerusalém ensinando nas cidades e aldeias por onde passava. E, na perspetiva da catequese lucana, as palavras de Jesus, a partir da questão “Senhor, são poucos os que se salvam?”, posta na boca de alguém não identificado, constituem uma reflexão sobre a salvação (vd Am 5,3; Is 10,19-22). A pergunta pode ser um recurso estilístico de Lucas, que reconstruiu a seguinte secção sobretudo com base na fonte Q.
A salvação era, na realidade, uma questão muito debatida nos ambientes rabínicos. Para os fariseus da época de Jesus, a “salvação” era uma realidade reservada ao Povo eleito e só a ele; e, nos círculos apocalípticos, a visão era mais pessimista, sustentando que muito poucos estavam destinados à felicidade eterna. Porém, como Jesus falava de Deus como o Pai cheio de misericórdia, cuja bondade acolhia a todos, especialmente os pobres e os débeis, era legítimo tentar saber o que pensava Jesus sobre a matéria.
Jesus não responde diretamente à pergunta, pois, mais do que falar em números, como todos querem (e no nosso tempo são os números em absoluto ou em percentagens e em estatísticas que mandam), a propósito da “salvação”, é importante definir as condições de pertença ao “Reino” e estimular nos discípulos a decisão pelo “Reino”. Ora, na ótica de Jesus, entrar no “Reino” implica, em primeiro lugar, o esforço por “entrar pela porta estreita” (v. 24) – imagem sugestiva para significar a renúncia a uma série de fardos que “engordam” o homem e que o impedem de viver na lógica do “Reino”. Estão neste caso o egoísmo, o orgulho, a riqueza, a ambição, o desejo de poder e de domínio, enfim, tudo aquilo que impede o homem de embarcar numa lógica de serviço, de entrega, de amor, de partilha, de dom da vida, impede a adesão ao “Reino”.
Para significar aquele esforço, Lucas utiliza o verbo agônízomai, que implica luta, dispêndio de forças (cf Jo 18,36; 1Cor 9,25; 1Tm 4,10). Deus quer a salvação de todos e tomou a iniciativa de a conceder, mas não dispensa o que pode cada um fazer em prol dessa salvação, pois ninguém a tem por direito de nascimento ou por qualquer outro critério que não o da fé.
Para explicitar melhor o ensinamento acerca da entrada do “Reino”, Lucas põe na boca de Jesus uma parábola em que o “Reino” é descrito na linha da tradição judaica, como o banquete em que os eleitos estarão lado a lado com os patriarcas e os profetas (vv. 25-29). Quem se sentará à mesa do “Reino”? Todos aqueles que acolherem o convite de Jesus à salvação, aderirem ao seu projeto e aceitarem viver, no seguimento de Jesus, uma vida de doação, de amor e de serviço. Nenhum critério de raça, geografia, laços étnicos ou cultura barrará a alguém a entrada no banquete do “Reino”: a única coisa verdadeiramente decisiva é a adesão a Jesus. Os que não acolherem o convite ficarão, logicamente, fora do banquete do “Reino”, ainda que se considerem muito santos e tenham pertencido, institucionalmente, ao Povo eleito. Jesus está a falar para os judeus e a sugerir que não é pelo facto de pertencerem a Israel que têm a entrada no “Reino assegurada”. E a parábola aplica-se igualmente aos “discípulos” que, na vida real, não queiram despir-se do orgulho, do egoísmo, da ambição, para percorrerem, com Jesus, o caminho do amor e do dom da vida. Por isso, garante:
Hão de vir do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus. Há últimos que serão dos primeiros e primeiros que serão dos últimos.”.
No atinente à universalidade da salvação é pertinente citar o apóstolo Paulo:
Recomendo, pois, antes de tudo, que se façam preces, orações, súplicas e ações de graças por todos os homens, pelos reis e por todos os que estão constituídos em autoridade, a fim de que levemos uma vida serena e tranquila, com toda a piedade e dignidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. (1Tm 2,1-4). Deus não faz aceção de pessoas. (Rm 2,11).
E Pedro declara:
Reconheço, na verdade, que Deus não faz aceção de pessoas, mas que, em qualquer povo, quem o teme e põe em prática a justiça, lhe é agradável (At 10,34-35).
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Na manhã deste domingo, dia 25, antes da Oração Mariana do Angelus, o Papa comentou o Evangelho do dia e convidou os cristãos a terem uma vida coerente: aproximar-se de Jesus e dos Sacramentos, como também ir à igreja. Isto, porque para entrar no Paraíso é preciso passar por uma ‘porta estreita’, a da fé, aberta a todos, mas que exige uma dedicação pelo bem e pelo próximo, contra o mal e a injustiça.
Os milhares de peregrinos que acompanharam a oração com Francisco na Praça São Pedro ou ao redor do mundo viram a preocupação do Pontífice em relação aos incêndios na Amazónia, mas também meditaram sobre o Evangelho (cf Lc13,22-30). 
O trecho de Lucas, como foi dito acima, “apresenta Jesus que passa ensinando pelas cidades e povoados, até Jerusalém, onde sabe que vai morrer na cruz para a salvação de todos os homens”. Nesse contexto, alguém perguntou a Ele se era verdade que poucos se salvariam, uma questão muito debatida naquele período, devido às diversas maneiras de interpretação das Escrituras. E Jesus respondeu, convidando “a usar bem o tempo presente” e fazendo “todo o esforço possível para entrar pela porta estreita”. E o Papa Francisco inferiu:
Com essas palavras, Jesus mostra que não é questão de número, não existe o ‘número fechado’ no Paraíso! Mas trata-se de atravessar, desde já, a passagem certa, e essa passagem certa é para todos, mas é estreita.”.
E o Santo Padre alarga-se no comentário:
Esse é o problema. Jesus não quer nos iludir, dizendo: ‘Sim, ficai tranquilos, é fácil, existe uma bonita estrada e, lá no final, um grande portão...’. Não diz isso: fala-nos da porta estreita. Diz-nos as coisas como são: a passagem é estreita. Em que sentido? No sentido de que, para se salvar, é preciso amar a Deus e ao próximo, e isso não é confortável! É uma ‘porta estreita’ porque é exigente, o amor é exigente sempre, requer empenho, ou melhor, ‘esforço’, isto é, uma vontade decidida e perseverante de viver segundo o Evangelho. São Paulo chama isso de ‘o bom combate da fé’ (1Tm 6,12). É preciso o esforço de todos os dias, de cada dia para mar Deus e o próximo."
Jesus usa uma parábola para se explicar melhor e para insistir em fazer o bem nesta vida, independentemente do título e do cargo que se exerce:
O Senhor vai-nos reconhecer não pelos nossos títulos. ‘Mas olha, Senhor, que eu participava daquela associação, que eu era amigo de tal monsenhor, de tal cardeal, de tal padre...’. Não, os títulos não contam, não contam. O Senhor vai-nos reconhecer somente por uma vida humilde, uma vida boa, uma vida de fé que se traduz nas obras.”.
O Papa, então, continua motivando-nos e conduzindo-nos para esse percurso diário.
Para nós, cristãos, isso significa que somos chamados a instaurar uma verdadeira comunhão com Jesus, rezando, indo à igreja, aproximando-nos dos Sacramentos e nutrindo-nos com a sua Palavra. Isso mantém-nos na fé, nutre a nossa esperança, reaviva a caridade. E, assim, com a graça de Deus, podemos e devemos dedicar a nossa vida pelo bem dos irmãos, lutar contra qualquer forma de mal e de injustiça.”.
Maria, Porta do céu
E, a finalizar, uma referência a Maria, Porta do Céu. O Papa diz que a primeira pessoa a ajudar- nos nessa dedicação pelo bem é a Nossa Senhora:
Ela atravessou a porta estreita que é Jesus, acolheu-O com todo o coração e seguiu-O todo todos os dias da sua vida, inclusive quando não entendia, inclusive quando uma espada perfurava a sua alma. Por isso, invocamo-La como ‘Porta do céu’: Maria, Porta do céu; uma porta que reflete exatamente a forma de Jesus: a porta do coração de Deus, coração exigente, mas aberto a todos nós.”.
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Também o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que presidiu à eucaristia dominical no Recinto de Oração do Santuário de Fátima, disse que Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno”.
O purpurado convidou os peregrinos presentes a fazerem uma reflexão sobre a liturgia deste domingo e começou por lembrar a situação retratada no Evangelho, em que alguém no meio do povo coloca a questão: “São muitos ou poucos os que se salvam?”. E explicou:
Jesus desloca a questão de outra forma para não nos deixar distrair do essencial; e o mais importante não é saber se são muitos ou se são poucos os que se salvam, o mais importante é saber o caminho que conduz à salvação e à verdadeira vida, e como nós hoje e aqui recebemos este fruto da salvação”.
Jesus usa uma imagem “simples” para responder à questão: “procurai por entrar pela porta estreita que leva à vida” e prelado leiriense-fatimita questionou “Que porta é esta? Onde se encontra?”. E continuou aduzindo que a imagem da porta “evoca imediatamente a porta da nossa casa, do nosso lar, da nossa família, porque quando atravessamos essa porta entramos num ambiente familiar onde sentimos o calor do amor, da ternura e do acolhimento”. E disse:
É em casa, em família que sentimos segurança e proteção, e Jesus é a porta que nos introduz na família de Deus, onde sentimos o calor do amor e misericórdia de Deus muito próximo de nós”.
O Bispo de Leiria-Fátima disse que essa porta de Jesus “está sempre aberta a todos sem distinção e sem exclusão, e o Senhor espera-nos sempre à Sua porta, como um pai ou uma mãe que abre a porta da casa aos seus filhos”.
Na liturgia, a porta apresentada é estreita, porque requer que “deixemos de fora aquilo que nos impede de entrar por ela, os nossos egoísmos, comodismos, orgulhos, atitudes soberbas, ressentimentos, ódios, rancores que se acumularam no nosso coração, a nossa indiferença para com os outros, as injustiças, as omissões de atenção, amor e solidariedade”. “É uma porta de misericórdia, uma porta da conversão, mesmo daquelas falsas seguranças onde por vezes apoiamos a nossa vida, que pensamos que asseguram a nossa salvação” – reiterou.
Dom António Marto alertou os 10 grupos de peregrinos, que se anunciaram no Santuário, para o facto de que “Deus não quer cristãos de etiqueta ou de fachada, para quem a fé é apenas um adorno, como quem traz algo na lapela”; Deus apela à “vida, à relação fraterna, em casa, nas obras de misericórdia, na promoção da justiça e bem comum”.
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Enfim, tal como o profeta, os apóstolos, os evangelistas, também o Papa e o Bispo de Leiria-Fátima falam da universalidade da Salvação e do caminho de autenticidade que pela vontade de Deus e pelo esforço dos crentes leva à vida plena de cada homem e mulher e de todos, pois todos somos filhos do mesmo Deus, que nos quer fazer imergir na sua comunidade de amor.
2019.08.25 – Louro de Carvalho

domingo, 31 de março de 2019

Não somos empregados de Deus, mas filhos, pois Ele é Pai, não patrão


O título tem a ver com o propósito do filho mais novo presente no parabólico episódio do Pai misericordioso (Lc 15,11-32), a 3.ª e a maior pérola da parábola da misericórdia relatada no cap. 15 do Evangelho de Lucas proclamando e meditado no 4.º domingo da Quaresma no Ano C.
Diz o rapaz, caído em si:
Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome! Vou-me embora, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não mereço ser chamado teu filho, mas trata-me como um dos teus trabalhadores’.”.
Reconhecendo que já não tinha a dignidade de filho, sujeitava-se a ser um trabalhador do patrão. Aliás, o filho mais velho (repare-se que o pai, face à reclamação da parte que lhe cabia da herança, distribuiu os seus bens pelos dois filhos), como pretexto para não entrar na festa com o irmão regressado, acusou o pai de nunca lhe ter dado um cabrito para se banquetear com os amigos, quando “sempre te servi, sem nunca transgredir uma ordem tua” (disse roído de inveja), mas para o filho que estoirou todos os bens do pai com mulheres de má vida (o narrador só tinha falado em vida dissoluta), mandara matar o vitelo gordo. O filho mais velho tratava o pai como um patrão, que dá ordens, paga mal e faz aceção de pessoas; e omite a equanimidade do pai que distribuiu os bens pelos filhos, embora mantendo o mais velho em casa. Porém, o pai misericordioso, paciente e compassivo tem atitude magnânima, a paterna. Ao filho mais novo corre a abraçá-lo, ouve a confissão de pecado contra si e contra o céu e o reconhecimento explícito de que não merecia ser filho, mas não deixa continuar pedindo que o trate como um trabalhador. Manda, antes, revesti-lo da túnica (veste de família nobre), calçar as sandálias (calçado de homens livres) e pôr o anel no dedo (insígnia da dignidade filial e da confiança) e fazer festa com o vitelo gordo, música e danças. E, como o filho mais velho não queria entrar na festa, veio cá fora instar com ele, ouviu-o e esclareceu-o:
Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu. Mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado.”.
Na verdade, o pai sabe que tem dois filhos diferentes e quer deixar marcada a funda noção de que são irmãos. E, como este pai é a personificação do Pai celeste, Jesus ensinou-nos a dizer, não “Senhor”, mas “Pai”.
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Assim, a nota comum às leituras desta dominga é o amor do Pai, que salva os que o procuram. A 1.ª leitura (Jos 5,9a.10-12), a propósito da circuncisão dos israelitas, convida-nos à conversão, princípio de vida nova na terra da felicidade, liberdade e paz. Essa vida nova do homem renovado é dom do Deus que nos ama e convoca para a felicidade. Ele salva o povo israelita do cativeiro, porque o ama e porque, apesar das suas fraquezas e desânimos, ao longo da travessia do deserto, o mesmo povo se vai mantendo fiel. Salva cada um de nós, apesar das quedas e fracassos, se O procurarmos com o desejo sincero de reconciliação. A 2.ª leitura (2Cor 5,17-21) convida-nos a acolher a oferta de amor que Deus por Jesus. Só reconciliados com Deus e com os irmãos podemos ser criaturas novas em quem se manifesta o homem Novo. E o Evangelho (Lc 15,1-3.11-32) – depois de referir que, enquanto os publicanos e os pecadores (em quem se vê o filho pródigo), se aproximavam todos de Jesus, para O ouvirem, os fariseus e os escribas (em quem vemos o filho mais velho) murmuravam entre si – apresenta-nos o Deus, o Papá que ama de forma gratuita, com amor fiel e eterno, apesar das escolhas erradas e da irresponsabilidade do filho rebelde – amor sempre à espera, sem condições, para acolher e abraçar o filho que decide voltar. É um amor entendido na linha da misericórdia divina e não na linha da justiça dos homens.
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O livro de Josué narra a instalação do Povo de Deus na Terra Prometida. Com recurso ao género épico (relatos enfáticos, exagerados, maravilhosos) apresenta a tomada de posse de Canaã como passeio triunfal do Povo com Deus à frente e vinca a ação de Javé que, pelo seu poder, cumpre as promessas feitas aos antepassados e entrega aquela Terra ao seu Povo.
No texto desta liturgia, os israelitas, vindos do deserto e acabados de atravessar o Jordão, estão em Guilgal, lugar que devia situar-se a nordeste de Jericó. Aproxima-se a 1.ª Páscoa na Terra Prometida, que só os circuncidados podem celebrar. Por isso, Josué faz o Povo passar pela circuncisão, sinal da aliança de Deus com Abraão e de pertença ao Povo eleito. É neste contexto que surgem as palavras de Deus a Josué referidas na 1.ª leitura. Temos, pois, o Povo renovado que reafirmou a sua ligação ao Deus da aliança. É uma espécie de “conversão” coletiva, que põe um ponto final no “opróbrio do Egito” e assinala um “tempo novo” para o Povo de Deus.
A questão central gravita em torno da vida nova que começa para o Povo de Deus. A Páscoa, celebrada nessa terra livre, marca o início da nova etapa. Israel é, agora, o Povo eleito, comprometido com o Senhor, livre da escravidão, que inicia uma vida nova nessa Terra de Deus onde “corre o leite e o mel”.
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Cerca de 56/57, chegaram a Corinto missionários que se diziam apóstolos e criticavam Paulo, lançando a confusão querendo impor aos pagãos convertidos as práticas da Lei moisaica ou, como dizem outros, condenando a severidade de Paulo e apoiando o laxismo da vida. Paulo, informado do desafio à validade do seu ministério, dirigiu-se à pressa para Corinto, disposto a enfrentar o problema, tendo aí sido gravemente injuriado por um membro da comunidade (cf 2Cor 2,5-11;7,11). A seguir, parte para Éfeso, donde envia Tito a Corinto, passado algum tempo, a tentar a reconciliação. Tito regressa com notícias animadoras: o diferendo foi ultrapassado e os coríntios estão novamente em comunhão com Paulo, aliviado e de coração em paz, escreve esta Carta aos Coríntios fazendo a tranquila apologia do seu apostolado.
O texto desta dominga integra a 1.ª parte da carta (2Cor 1,3-7,16), onde o apóstolo analisa as suas relações com os Coríntios, transparecendo aqui a necessidade premente de reconciliação. Com efeito, a palavra-chave é “reconciliação”. Mas, para lá da reconciliação entre coríntios e Paulo, é necessária a reconciliação entre coríntios e Deus. Daí o veemente apelo do apóstolo a que os coríntios se deixem reconciliar com Deus. Na verdade, foi “em Cristo”, que Deus ofereceu aos homens a reconciliação, pelo que aderir à proposta de Cristo é acolher a oferta de reconciliação que Deus fez. É desta reconciliação que Paulo se fez “embaixador” e arauto, passando o seu ministério por apelar a que se reconciliem com Deus para nascerem para a vida nova. É evidente que este apelo é para os cristãos de todos os tempos, pois os homens, que necessitam de viver em paz uns com os outros, dificilmente o conseguirão, se não viverem em paz com Deus.
A perícopa finaliza com a referência à eficácia reconciliadora da morte de Cristo, sendo que, pela cruz, Deus nos arrancou do domínio do pecado e nos transformou em homens novos. Ou seja, ao ser morto na cruz pela Lei, Cristo mostrou como a Lei produz morte e, ao mesmo tempo, ensinou-nos o amor total, o amor que se dá a todos e a cada um.
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A parábola do Evangelho é rica em imagens que ajudam a descobrir quem somos e quem é o Deus que nos salva. Pelos três intervenientes nela (o Pai, figura central e dois irmãos muito parecidos entre si e nada parecidos com o Pai), Jesus revela-nos o mistério de Deus misericordioso e o que nós somos levados a ser consoante sigamos os caprichos humanos ou as moções do Espírito.
Os filhos – um e outro – não conhecem o Pai. O mais novo vê-o como entrave à sua autonomia, pede-lhe a herança, como se já estivesse morto. Foge para longe da casa do Pai. E, quando decide regressar – abençoadas bolotas – quer apenas ser tratado como um trabalhador, a quem o patrão paga o salário devido; não espera receber de graça o amor do Pai. O mais velho perde-se na própria casa, vendo o Pai como o patrão de quem espera a recompensa pelo serviço, desempenho e obediência. Custa aos dois aceitar a condição de filhos e deixar-se converter pelo amor do Pai. Por sua vez, o pai sofre com a decisão do filho mais novo de se afastar, mas não o impede; espera, com paciência, que ele volte de livre vontade; tudo perdoa e alegra-se no quando o filho vem ao reencontro. Este pai é imagem do Pai que temos nos céus.
Todos nós desempenhámos já o papel do filho mais novo que – ressentido, por a ‘sua’ virtude não ser devidamente apreciada – toma a decisão de se afastar do pai e viver uma falsa e aparente liberdade – liberdade falsa que traz, mais tarde ou mais cedo, a desilusão, que o filho pródigo sentiu e, depois, teve a coragem de reconhecer o erro e, acreditando na benevolência do pai, regressou a casa com a esperança de ser acolhido. A parábola repete-se com cada um de nós no lugar deste filho. Pecamos, quando rejeitamos a vontade de Deus e nos afastamos d’Ele. O pecado é sempre um corte de relação – da relação com Deus, fonte de vida. Ora, para tal afastamento há o remédio da reconciliação. Procurá-la é ato de liberdade, que postula o reconhecimento do pecado e a vontade de reencontrar a corrente de amor que nos une ao Pai.
Se nos custa perdoar, é porque são sabemos amar. E então será fácil identificarmo-nos com o filho mais velho da parábola, que não tinha aprendido a amar. Cumpria por obrigação, servia o pai por dever, mas não comungava com ele na vida. Não partilhou da sua angústia, quando o irmão mais novo se afastou, como não partilhava a alegria do pai, quando o irmão regressou a casa. Antes, acusava o irmão (que não reconhecia como tal) de coisas que nem terá feito e acusava mentirosamente o pai de forreta. Tudo por inveja! Ora, o amor verdadeiro revela-se na comunhão de vida. Deus ama-nos assim: chamando-nos a partilhar da Sua vida, a vida da graça, e partilhando a nossa, ao assumir, em Jesus, a nossa humanidade.
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A Reconciliação é muito mais que o perdão do pecado: é um desafio para a mudança de vida. Os três textos da liturgia de hoje referem a vida nova que o homem convertido quer viver. Paulo chega a dizer: “se alguém está em Cristo, é uma nova criatura; as coisas antigas passaram; tudo foi renovado” (2Cor 5,17). Já no AT, o Povo de Deus era chamado a uma mudança total. Nas planícies de Jericó não tiveram mais o maná como alimento. Antes, colheram os frutos da terra e trabalharam a própria terra para poderem continuar a alimentar-se do trabalho das suas mãos (cf Js 5). O paradigma desta mudança está na mudança do filho mais novo a quem o pai pôde confiar a gestão dos bens. Mais que parábola do perdão, esta história é a parábola da confiança. Quem é pródigo no acolher, no apoiar, no promover é o pai de família que, apesar das falhas do filho, o recebe de braços abertos e lhe confia o anel do brasão. Mas este pai vai também ao encontro do filho mais velho para que, vencida a arrogância, seja capaz de abraçar o irmão.
Para Monsenhor Vítor Feytor Pinto, a história do filho mais novo tem duas partes. A primeira é vivida no egoísmo do jovem que exige a herança, esbanja os haveres, tem vida dissoluta e acaba a guardar porcos. O egoísmo de querer salvar-se leva-o recorrer ao pai, mas a pensar no próprio interesse, pois referia que os trabalhadores da casa tinham pão em abundância. A segunda parte é pautada pelo amor do pai que se preocupa, espera o regresso, o acolhe de braços abertos, lhe faz uma festa e lhe confia a gestão dos bens ao entregar-lhe o anel com que se selavam as escrituras. O que move o pai é o amor sem fronteiras, é a ternura de Deus. Mesmo quando se Lhe recorre por interesses pessoais, a generosidade de Deus exagera na confiança, por acreditar na mudança de vida de todo aquele que O procura.
O egoísmo existe no filho mais velho que se preocupa com as festas que não teve, com o cabrito que não comeu, com o reconhecimento que sente não lhe ter sido dado. Mas o pai vai ao encontro dele para o reintegrar na casa comum. O seu argumento é amoroso, este teu irmão estava morto e reviveu; estava perdido e encontrou-se” (Lc 15,32).
É esta a tradução do amor que Deus tem pelo homem pecador. A sua ternura paterna não violenta a nossa liberdade, antes a respeita. Mas não descansa enquanto não reconquistar o nosso afeto e nos recriar na dignidade de filhos muito amados, na alegria da Sua Mesa. O Pai é, na parábola, o verdadeiro cais do encontro. Oferece o perdão, isto é, o dom perfeito, e faz a festa porque vê o regresso do filho mais novo como um reencontro, uma nova páscoa, o parto duma nova criatura (cf 2Cor 5,17): “estava perdido e foi encontrado, estava morto e voltou à vida” (cf Lc 15,27.32). Depois, o Pai sai ao encontro do filho mais velho, para que este supere a lógica do dever, do “deve e haver”, se assuma como filho e aceite o irmão. Para o Pai, um e outro são filhos; não são assalariados; um e outros são amados, não em função dos méritos, mas pela grandeza infinita do amor paterno. Este Pai – afinal o Pai que está nos Céus – anseia a plena revelação dos Seus filhos como filhos de Deus (cf Rm 8,19).
Estamos como na história de Jonas, que inspira esta caminhada de cais em cais até cair de vez nos braços do Pai, como nosso verdadeiro cais de encontro e porto de abrigo. Revê-se na figura do filho mais novo Jonas que, à primeira chamada, foge para Társis, para longe de Deus, até cair em si, no meio da tempestade, e perceber que a sua fuga é causa de dor de todos os que tem à sua volta. A figura de Jonas é a cara esculpida em carrara do filho mais velho. Mas também Jonas, ressentido e mal-humorado, fica irritado por Deus ser misericordioso, paciente e cheio de bondade, sente pena dum rícino que nasce numa noite e numa noite morre, mas não compreende que Deus que Se compadeça de Nínive, onde há mais de 120 mil pessoas que não distinguem a mão direita da esquerda (cf Jn 4,10-11). A este Jonas (como ao filho mais velho, teimoso e rígido, que não compreende a misericórdia do Pai) Deus poderia ter dito: “Desenvencilha-te com a tua rigidez e fica para aí com a tua teimosia”. Mas não. Vai ter com Jonas para o instar, para o converter ao Seu amor. Porque é o Deus que não teme perder estatuto para ganhar os Seus filhos.
Por isso, não podemos ter medo de atracar decididamente nos braços do Pai como nosso cais de encontro, para alcançar em Cristo, morto e ressuscitado, “o porto da misericórdia e da paz” .
Com a parábola, Jesus mostra o que queria dizer quando rezava a Deus e Lhe chamava “Abbá”, “paizinho”, “papá”, e dizia-o com a mesma ou melhor ternura com que cada um de nós dirá “papá” ou “mamã”. Na verdade, o Pai da parábola tem modos de agir que recordam o coração da mãe, porque são sobretudo as mães que perdoam aos filhos, os defendem e continuam a amar mesmo quando eles já não o mereceriam. Isto quer dizer que Deus nos procura, mesmo que não O procuremos, nos ama ainda que O tenhamos esquecido. Deus é não só Pai, mas é como a mãe, que nunca deixa de amar o filho. Por isso, podemos sempre voltar para Ele como filhos, como quem regressa ao cais do encontro a dizer-Lhe: “Abbá”, “Papá”, “Paizinho”. Tu dizes-lhe: “Pai” e Ele responder-te-á: “Filho, tudo o que é meu é teu” (Lc 15,31). Esta será sempre a Sua resposta. Por isso, nunca nos podemos esquecer, todos os dias, em todas as horas, de dizer e de rezar como Jesus: “Abbá, ó Pai”, para nos tornarmos verdadeiramente filhos de Deus.
2019.03.31 – Louro de Carvalho

domingo, 25 de setembro de 2016

A parábola do rico opulento e do pobre Lázaro

É o tema da riqueza ou do perigo das riquezas que leva o evangelista a inserir no seu relato evangélico a parábola do rico que se banqueteava lautamente e se vestia de luxuosas roupas e de Lázaro pobre, abandonado e chagado (16,19-31) – que só conhecemos através de Lucas.
É a segunda das parábolas acerca das riquezas, sendo a primeira a do administrador infiel, à qual são apostas considerações de caráter moralizante sobre a postura mais inteligente dos filhos das trevas que a dos filhos da luz ou sobre a necessidade de fazer amigos com as coisas vãs para que sejamos, depois, recebidos no Reino. É verdade que Lucas apresenta Jesus a contar uma outra (12,16-21) a propósito do valor das riquezas e da excessiva confiança nas mesmas: a colheita fora enorme, alargaria tulhas e celeiros e dormiria em paz depois de se banquetear e regalar. Morreu na insensatez acumulando tesouros ante si e o mundo mas sem cuidar da riqueza perante Deus.
Jesus dirige-se aos fariseus, que eram amigos do dinheiro (v.14) e troçavam de Jesus, mas pensavam salvar-se através do minucioso cumprimento da Lei (11,37ss). Este homem rico parece-se bastante com o administrador infiel (16,1-8a), pois, ambos parecem ter êxito de momento e ignoram como é perigoso manejar o dinheiro esquecendo os interesses superiores.
A parábola ora em questão segue de forma livre um conto egípcio trazido para a Palestina por judeus de Alexandria, onde era apreciado, passando a ser glosado pelos rabinos e que Jesus adaptou às ideias que pretendia incutir. A descrição minuciosa, depois da caraterização das personagens (v.19) tem alguns elementos não visualizáveis neste mundo (vv. 20-24), mas aduzidos por Lucas para evidenciar a finalidade da narrativa, assente no contrate das duas personagens – o rico e o pobre – e duas saídas distintas: o rico, que goza neste mundo, sofre no outro; ao invés, o pobre, que neste mundo pena, depois vive na felicidade perpétua. As lições vêm a vv.25-31.
Trata-se de um género de parábola algo diverso do usual (aliás como a parábola do rico insensato – vd 12,13-31, já evocada). Jesus traduz na linguagem plástica da narrativa parabólica a lição que já dera nas bem-aventuranças e nas correspondentes invectivas do sermão da montanha (vd 6,20-26). Ao invés do pobre, o rico é condenado por não ouvir os apelos, que lhe vêm do Alto, à conversão e ao arrependimento e não pela riqueza em si. Ou seja, deixa-se arruinar pela total fruição dos bens terrenos esquecendo totalmente Deus e todas as exigências superiores.
Porém, no atinente à finalidade, são de considerar duas vertentes: a possibilidade da condenação do rico, já que as riquezas não garantem a salvação (mentalidade corrente do Antigo Testamento), comportando a parábola o apelo à conduta moralmente correta na fidelidade à Lei e a Deus e na prática das boas obras; e a denúncia do mau uso das riquezas, com o desprezo pelos pobres, sendo que o rico que assim procede não se salva, ao passo que o pobre, por ser pobre aos olhos de Deus (’ani) e por quem Ele toma partido, se salva porque se submete à vontade de Deus.
Todavia, a parábola não acolhe a mera possibilidade; apresenta factos, de condenação e de salvação. A condenação supõe um mau uso das riquezas, já que estas, em si, não são boas nem más. A moralidade delas resulta do uso. De igual modo se fala da pobreza, que não é, em si, nem boa nem má (ou melhor: é má enquanto degrada o homem, fragilizando-lhe a vida ou suprimindo-lha), dependendo da maneira religiosa como se encara. Ora esta narrativa constitui, do ponto de vista do acolhimento a Deus, um dos melhores comentários às palavras de Jesus, “Bem-aventurados os pobres!” (6,20) e às de Maria, “Encheu de bens os famintos e mandou os ricos de mãos vazias.” (1,53), e apresenta um elemento doutrinal de grande valor: a insistência na importância do testemunho de Moisés dos profetas (v.31) sobre a existência e o valor de duas sortes distintas no sheol, contrariando a posição dos saduceus e frisando a crença na outra vida.
Como crítica à sociedade classista com fosso profundo e extenso entre pobres e ricos, denuncia o isolamento a que se remete o rico, votando à solidão do abandono o pobre e propõe a conversão dum e a dignificação de outros. Abrindo o coração à Palavra, o rico volta-se para o pobre e olhando o pobre poderá voltar-se para a Palavra. Teremos a transformação social.
***
Vejamos agora mais detalhadamente o texto.
- Vestido de púrpura e linho fino (v. 19): Lãs tingidas de púrpura são de Tiro e são roupas de exterior; e o linho é do Egito e faz as roupas interiores finas. Um terratenente judeu era um rendeiro de Yahvé. Devia prestar-lhe contas e não esbanjar os bens.
- Lázaro (v. 20): É caso único em que a personagem parabólica tem nome (em hebraico: ’Eli-‘ezer), “Deus é auxílio”). Alguns manuscritos tardios atribuem nome também ao rico: Nínive e Fíneas.  
- Eram os cães (v.21): É certo que os cães vinham lamber as feridas a Lázaro, o que hoje nos parece bem. Contudo, é de considerar que, ao tempo e no mundo bíblico, o cão era visto como animal imundo. Tanto assim é que são chamados de cães os pagãos, os sodomitas e os escravos (vd Dt 23,2; Mt 15,26; Ap 22,15) – pormenor que mostra a situação humilhante e miserável em que vivia o mendigo, que jazia à porta do rico como o cão, sem entrar. Porém, os cães ainda comiam os restos que resultavam da limpeza dos pratos do rico e as migalhas que lhe caíam da mesa, ao passo que a Lázaro até isso era vedado. É grave a cega indiferença do ricalhaço pela miséria e ansiedade do pobre.
- Para o seio de Abraão (v.22): Na linguagem veterotestamentária, “morrer” era significado com a expressão “ir para (ou juntar-se) aos pais”. Na literatura posterior aparecem outras perífrases, como: “ir para o pai Abraão”, “ser assumido por Abraão, Isaac e Jacob”, em que se pensa na vida eterna. Os ditos do Senhor, aqui como noutros lugares, exprimem estas mentalidades judaicas sem que sejam constitutivos de juízos de valor sobre a veracidade e objetividade de tais mentalidades. A imagem sugere o banquete escatológico ou a comunhão íntima com Abraão e com Deus (ideias da literatura rabínica) em que se releva o estado de afeição ao Pai dos crentes (e a Deus). Lázaro foi ali levado pelos anjos. Na literatura dos mestres não se diz ir para o paraíso, mas ser-se levado para ele pelos anjos – ideia que se mantém nas antífonas das exéquias.
- No inferno (v.23): (grego, hades; hebraico, sheol). Reino tenebroso do além-túmulo, morada dos mortos. No judaísmo desenvolvido, pela fé na ressurreição e na retribuição preterterrena, é o lugar da pena dos malvados e toma a designação de geena. Henoch fala de setores contíguos – que podem ver-se – para os bons e para os maus, o que aumenta o sofrimento dos condenados, mas parece implicar que ali permaneçam até à ressurreição geral e ao juízo final, ideia rabínica pela qual, após as batalhas apocalípticas da era messiânica, amanheceria para todos a idade que há de vir, o que não é exato. A Vulgata traduz de forma inexata que o rico sepultus est in inferno. Ora “inferno” eram os lugares inferiores donde nada se avistaria. Por isso, os vocábulos sheol e hades (ou a geena) exprimem melhor a ideia.
- Pai (v.24). Abraão é o pai do povo eleito (cf 1,73; 3,8) e seus méritos beneficiam toda a sua descendência a ponto de, segundo a doutrina rabínica, arrancar do sheol mesmo os indignos.
- Filho, lembra-te (v.25): Nesta conclusão abraâmica não se vê apenas a inversão de sortes a ocorrer na outra vida (o rico passa de feliz a infeliz e o pobre passa de miserável a bem-aventurado), mas também a cominação da pena para sempre devido a uma vida passada em satisfações proporcionadas pelas riquezas da iniquidade e vazia de Deus. 
- Há um grande abismo (v.26). À letra, “está fixado de modo estável”. É a ideia da eterna inelutabilidade, dependente da disposição divina, na separação entre a classe dos condenados e a dos bem-aventurados. Trata-se de lugares intransponíveis e, sobretudo, estados irreversíveis. É o “capricho” do que é eterno.
- Peço-te, então… (v.27). Este pedido de recurso destaca a culpabilidade do rico, que negligenciou a vontade de Deus expressa nas Escrituras. O rico, perante a iminência do advento do Reino, queria que ao menos os seus seis irmãos se salvassem. Porém, tal não se consegue pelo envio de anjo ou de fantasma, de que se foge e/ou em que não se crê. E, na verdade, este mundo está dotado dos elementos de informação e apelo mais que suficientes para que os homens se coloquem nos caminhos da salvação.
- Se um morto ressuscitar (v.31). O caso não é meramente hipotético. Quando Lázaro, irmão de Maria e de Marta, for chamado à vida por Jesus, os judeus não vão acreditar (cf Jo 11,47-48), postura semelhante se verificará aquando da ressurreição do Senhor (cf Mt 28,11-15). É ineficaz a ação miraculosa se subestimarmos os bens espirituais ante os bens materiais. Porém, não basta o conhecimento da Lei, que tem de cumprir-se com humilde compunção, mas deve também ensinar-se que os acontecimentos maravilhosos que vão ocorrer com a ressurreição dos mortos não salvam automaticamente os homens. Nem o facto de ter sido enviado o Messias – Jesus Cristo – tocou o íntimo de muitos homens.
***
A avareza, o luxo e o supérfluo de uns tantos continuam a contrastar escandalosamente com a miséria, a nudez, a falta de dinheiro, a fome e a inacessibilidade de mais de dois terços da humanidade, a quem os bens deste mundo lhe são devidos por direito e não por favor. É este o fardo que pesa sobre nós.
Hoje são os atuais apóstolos da Palavra que ajudam a ler a coerência de Jesus e da Escritura. O milagre por excelência dos novos Moisés e Profetas não é o prodígio nem a ressurreição, mas a mudança exterior e interior de libertação do homem e da sociedade e a justiça que lograrem obter. Só a Palavra de Deus anunciada pelos novos apóstolos e confirmada pelas novas testemunhas – em palavras e atos, no contexto deste mundo, apreciado de bíblia e jornal na mão – será o instrumento de revelação, coerência, discernimento, descoberta e acolhimento de Deus e do seu Cristo, no Espírito. Será o decisivo sinal capaz de fazer nascer a fé e realizar a conversão total. Para tanto, há que poder e querer contrapor à visão secularizada do mundo e da vida, a cosmovisão cristã, empapada na palavra de Deus e alimentada na oração e sacramentos!

Cf Bíblia Pastoral (Ed. São Paulo, 1993:1421); Lancellotti, Boccali. Comentário a Evangelho de São Lucas (Vozes, 1979: 164-165); Missal Popular vol I (Gráfica de Coimbra, 5.ª ed., 1994: 998-999);Nova Bíblia dos Capuchinhos (Difusora Bíblica, 1998: 1706-1707); Stuhlmueller, Carroll, CP. “Evangelio según san Lucas”, in Comentario Biblico San Jeronimo, Tomo III (Dir. Brown, Raymond E., SS et alii, Ed Cristiandad, 1971: 383-384); Truchon, Raymond. Para ler as Parábolas (Ed. Perpétuo Socorro, 1992: 192-195); Tuya, Manuel de, OP. “Evangelios 2.º”, in Nacar-colunga. Biblia Comentada V (BAC, 1971:159-161)

2016.09.25 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Escândalo: padre afasta funcionária por não trabalhar ao domingo

O JN de 28 de abril traz em primeira página a escandalosa notícia vazada em epígrafe. Um padre chegou ao desplante de punir uma trabalhadora por ela se recusar a trabalhar ao domingo e, questionado pelo jornal, remeteu-se ao silêncio.
Vamos a ler o desenvolvimento na página 20 e, afinal, a montanha pariu um rato. Na verdade, uma auxiliar de Centro Social e Paroquial, recusou o novo horário de trabalho numa instituição que tem uma valência que implica o trabalho por turnos, o que postula a prestação de serviço também em sábado, feriado e domingo – não todos os sábados, feriados e domingos. Compete à direção o estabelecimento do horário de trabalho, obviamente que, se possível, com a concordância do trabalhador. O caso terá sido objeto de processo disciplinar, intervenção de polícia, perda de salário, proibição de entrada nas instalações e, desde agora, de ação judicial.
Trata-se de situações recorrentes no campo laboral – o que deverá ser apreciado em termos de direito do trabalho e provavelmente à luz das liberdades, direitos e garantias pessoais.
Quem se ficasse pela leitura de títulos poderia erradamente ser induzido a pensar que um sacerdote teria querido proibir uma cristã do cumprimento do preceito do descanso dominical, contrariando quer o 3.º mandamento da Lei de Deus, quer o 2.º mandamento da Igreja.
***
Que nos dizem os tais mandamentos?
O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (CCIC), nos seus números 453 e 454, resume o conteúdo dos preceitos atinentes à santificação semanal do Dia do Senhor, respondendo a duas questões: como santificar o domingo; e porque é importante reconhecer civilmente o domingo como dia festivo. Assim:
– “Os cristãos santificam o domingo e as festas de preceito participando na Eucaristia do Senhor e abstendo-se das atividades que o impedem de prestar culto a Deus e perturbam a alegria própria do dia do Senhor ou o devido descanso da mente e do corpo. São permitidas as atividades ligadas a necessidades familiares ou a serviços de grande utilidade social, desde que não criem hábitos prejudiciais à santificação do domingo, à vida de família e à saúde.” (n.º 453).
 – “Para que todos possam gozar de repouso suficiente e tempo livre, que lhes permitam cuidar da vida religiosa, familiar, cultural e social; para dispor de tempo propício à meditação, reflexão, silêncio e estudo; e para fazer boas obras, servir os doentes e os anciãos” (n.º 454).
E, na alínea b) do apêndice, a atinente a fórmulas de doutrina católica, enuncia como o primeiro dos cinco preceitos da Igreja: “participar na Missa, aos domingos e festas de guarda e abster-se de trabalhos e atividades que impeçam a santificação desses dias”. 
É um preceito (tanto no decálogo como na doutrina católica) de dupla vertente: a prestação de culto e a observância do repouso. Porém, é de notar que a observância do repouso está concebida em função quer da criação da oportunidade da prestação do culto a Deus e do revigoramento espiritual da pessoa humana, quer das necessidades de prestação do apoio e serviço à família quer de serviços de grande utilidade social.
Já, quando estudávamos a catequese pelos catecismos nacionais organizados por Amílcar do Amaral, nos ensinavam as situações em que estávamos dispensados do preceito dominical. Da missa dispensavam-nos o estado grave de doença própria ou de família e a distância excessiva; do repouso, os serviços urgentes ou os inadiáveis deveres de justiça e caridade. Todavia, nunca ficávamos dispensados da oração nem de perder de vista o sentido cristão do repouso, incompatível como o ócio puro e simples e sobretudo se pecaminoso.
***
Talvez seja conveniente ver o que efetivamente nos diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC), à luz do qual se elaborou o CCIC. Assim, quanto ao dever do repouso, o n.º 2185 estabelece:
“Aos domingos e outros dias festivos de preceito, os fiéis abstenham-se de trabalhos e negócios que impeçam o culto devido a Deus, a alegria própria do Dia do Senhor, a prática das obras de misericórdia ou o devido repouso do espírito e do corpo”.
Em termos da atenção solidária, o n.º 2186, dispõe:
“Os cristãos que dispõem de tempos livres lembrem-se dos seus irmãos que têm as mesmas necessidades e os mesmos direitos, e não podem descansar por motivos de pobreza e de miséria. O domingo é tradicionalmente consagrado, pela piedade cristã, às boas obras e aos serviços humildes dos doentes, enfermos e pessoas de idade.” […]. “O domingo é um tempo de reflexão, de silêncio, de cultura e de meditação, que favorecem o crescimento da vida interior e cristã”.
Quanto aos afazeres que dispensam da obrigação do repouso dominical, o CIC estabelece:
“As necessidades familiares ou uma grande utilidade social constituem justificações legítimas em relação ao preceito do descanso dominical. Mas os fiéis estarão atentos a que legítimas desculpas não introduzam hábitos prejudiciais à religião, à vida de família e à saúde”. “O amor da verdade procura o ócio santo: a necessidade do amor aceita o negócio justo” (vd 2185).
Sobre outras formas de santificação do domingo, fica estabelecido:
“Os cristãos também santificarão o domingo prestando à sua família e vizinhos tempo e cuidados difíceis de prestar nos outros dias da semana” (vd 2186).
O próprio CIC prevê situações em que não é possível cumprir o preceito do repouso dominical, seja por o domingo não ser feriado nalguns países, seja por haver trabalhos que têm de continuar a ser feitos ao domingo. Por isso, vêm ao caso dois números que estabelecem, por um lado, o comportamento do cristão que se vê impossibilitado de cumprir o preceito e, por outro, a obrigação que impende sobre todos relativamente à criação de condições propícias à observância do repouso dominical.
Relativamente ao primeiro caso, o n.º 2188 dispõe sobre a postura cívica e cristã:
“No respeito pela liberdade religiosa e pelo bem comum de todos, os cristãos devem esforçar-se pelo reconhecimento dos domingos e dias santos da Igreja como dias feriados legais. Devem dar a todos o exemplo público de oração, respeito e alegria, e defender as suas tradições como uma contribuição preciosa para a vida espiritual da sociedade humana. Se a legislação do país ou outras razões obrigarem a trabalhar ao domingo, que este dia seja vivido, no entanto, como sendo o dia da nossa libertação, que nos faz participantes da reunião festiva, da assembleia de primogénitos inscritos nos céus” (Heb 12,22-23).
E, relativamente ao segundo, estabelece o n.º 2187, no atinente a diversos agentes e situações:
“Santificar os domingos e festas de guarda exige um esforço comum. Todo o cristão deve evitar impor a outrem, sem necessidade, o que possa impedi-lo de guardar o Dia do Senhor. Quando os costumes (desporto, restaurantes, etc.) e as obrigações sociais (serviços públicos, etc.) reclamam de alguns um trabalho dominical, cada um fica com a responsabilidade de um tempo suficiente de descanso. Os fiéis estarão atentos, com moderação e caridade, para evitar os excessos e violências originados às vezes nas diversões de massa. Não obstante as pressões de ordem económica, os poderes públicos preocupar-se-ão em assegurar aos cidadãos um tempo destinado ao repouso e ao culto divino. Os patrões têm obrigação análoga para com os seus empregados.
Penso não ser necessário lembrar a razão pela qual o cristianismo, embora reconhecendo que o dinamismo do repouso sabático se relaciona com a ordem divina e responde a uma necessidade do homem, transferiu o preceito da santificação do Dia do Senhor para o primeiro dia da semana. Com efeito, foi em primeiro dia da semana que o Senhor ressuscitou e que, depois, em dia homólogo irrompeu o Pentecostes – constituindo ambos os factos a nova e mais relevante criação (em obra e repouso).
***
Sendo assim, o sacerdote e a direção do Centro Social e Paroquial aludidos não podem ser penalizados pela questão do descanso semanal da funcionária, mas por outros eventuais motivos: se a trataram com equidade, se a ouviram, se o processo foi organizado de forma correta, etc. No entanto, não excluo a hipótese de tribunal superior vir a dar razão à funcionária por motivos do respeito pelo exercício de um direito. Já quando um tribunal superior, em tempos, deu razão a uma procuradora que recusou trabalhar ao sábado por motivos religiosos, eu me perguntava sobre o que sucederia se todos os católicos recusassem trabalhar ao domingo. É óbvio que os cristãos não teriam razão e os tribunais não podem confundir direitos pessoais com a dispensa de prover às necessidades públicas, sendo mais papistas que o Papa.
***
E que diz o Papa a este respeito?
Na audiência geral do passado dia 27 de abril, apresentou a sua reflexão sobre a parábola dita do bom samaritano (cf Lc 10,25-37). Um doutor da Lei, abeirando-se de Jesus para o experimentar, pergunta-lhe o que fazer para ter a vida eterna (v. 25). Jesus pede-lhe a ele a resposta. E o legista responde com os mandamentos: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu pensamento; e ao teu próximo como a ti mesmo (v. 27). E Jesus, anuindo, responde: “Faz isto e viverás!” (v. 28).
À pergunta do legista pergunta sobre quem seria o seu próximo, Jesus respondeu com a “parábola do homem que descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores. Prefiro chamar-lhe assim a chamar-lhe parábola do bom samaritano, já que também nos ensina, por antífrase, através do comportamento de outros. 
A parábola – diz o Papa – “põe em cena um sacerdote, um levita e um samaritano”, ou seja, dois homens “ligados ao culto do templo” e “um judeu hebreu cismático”, tido como “estrangeiro, pagão e impuro”.
O sacerdote e o levita deparam-se com um homem espancado, abandonado e moribundo, mas, apesar de a Lei prescrever a obrigação do socorro, deixaram-se levar pela pressa do serviço do Templo e pelo receio de se contaminarem com sangue impuro. Desviam-se, pois, e seguem por outra via. O Pontífice, pelos apartes que faz, mostra que hoje os comportamentos são parecidos em muitos casos, enuncia aqui logo um primeiro ensinamento:
“Não é automático que quantos frequentam a casa de Deus e conhecem a sua misericórdia saibam amar o próximo. Não é automático! Tu podes conhecer a Bíblia inteira, podes conhecer todas as rubricas litúrgicas, podes conhecer toda a teologia, mas do conhecer não nasce espontaneamente o amar: o amar segue outro caminho; é necessária a inteligência, mas também algo mais...”.
Sacerdote e levita não advertiram que não existe culto autêntico se não se traduzir em serviço ao próximo. Assim:
“Nunca podemos esquecer: ante o sofrimento de tantas pessoas extenuadas pela fome, pela violência e pelas injustiças, não podemos permanecer espectadores. Que significa ignorar o sofrimento do homem? Significa ignorar Deus! Se não me aproximo daquele homem, daquela mulher, daquela criança, daquele idoso ou daquela idosa que sofre, não me aproximo de Deus.”
Porém, o samaritano, isto é, o desprezado, que também tinha “os seus compromissos e afazeres”, “encheu-se de compaixão” (v. 33). O coração “estava sintonizado com o coração do próprio Deus”. E a “compaixão” (‘padecer com’) é “característica essencial da misericórdia de Deus”, que “padece ao nosso lado, sente os nossos próprios sofrimentos”.
Assim, “nos gestos e ações” do samaritano (e não nos do sacerdote ou do levita), “reconhecemos o agir misericordioso de Deus em toda a história da salvação”, pois, como diz o Papa:
“É a mesma compaixão com a qual o Senhor vem ao encontro de cada um de nós: Ele não nos ignora, conhece as nossas dores, sabe como temos necessidade de ajuda e de consolação. Aproxima-se de nós e nunca nos abandona”.
Com efeito, o samaritano comporta-se com verdadeira misericórdia: cura as feridas do homem, leva-o para a hospedaria, cuida pessoalmente dele e provê à sua assistência – o que “nos ensina que a compaixão, a caridade, não é um sentimento incerto”, mas implica “cuidar do outro até pagar pessoalmente por ele”, ou seja, “comprometer-se dando todos os passos necessários para se aproximar do outro até se identificar com ele: Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Não basta pensar ou sentir quem é o meu próximo, mas é preciso que eu queira e saiba ser próximo de quem precisa.
A novidade da mensagem de Cristo em torno do preceito, “amarás o teu próximo como a ti mesmo”, é justamente esta: tornar-se próximo do outro sem esperar que ele seja próximo nosso. Por isso, “Jesus inverte a questão do doutor da Lei” ao perguntar: “Qual destes três parece ter sido o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?” (v. 36). E o legista respondeu sem inequívoco: “Aquele que foi misericordioso para com ele” (v. 27). No início, “para o sacerdote e para o levita o próximo era o moribundo”; mas, “no final, o próximo é o samaritano que se fez próximo”. Por isso, o Pontífice comenta:
“Tu podes tornar-te próximo de quem quer que se encontre em necessidade, e sê-lo-ás se no teu coração sentires compaixão, ou seja, se tiveres a capacidade de padecer com o outro”.
Quando o legista perguntou quem seria o seu próximo, certamente esperava uma resposta que remetesse para os parentes, amigos, compatriotas ou correligionários. Ora Jesus, ao pregar o perdão a dar sempre a todos os que nos ofendem (Mt 18,21), ao mandar amar até os inimigos e rezar pelos que nos perseguem e caluniam (Mt 5,44), rejeita a ideia da enunciação de “uma regra clara” que nos “permita classificar os outros em próximos e não próximos, naqueles que podem tornar-se próximos e em quantos não podem tornar-se tais”. E, reparando que o doutor da Lei percebeu que tinha de ser ele a tornar-se próximo de quem precisa, despediu-o dizendo: “Vai, e também tu faz o mesmo!” (Lc 10, 37).
Por isso, no final da sua reflexão catequética, Bergoglio diz-nos que a “parábola é para todos nós uma dádiva maravilhosa, mas também um compromisso”, pois, “a cada um de nós, Jesus repete o que disse ao doutor da Lei”. Pelo que “somos todos chamados a percorrer o mesmo caminho do bom samaritano, que é a figura de Cristo”, o qual se debruçou “sobre nós”, se fez “nosso servo”, e assim “nos salvou, para que também nós pudéssemos amar-nos como Ele nos amou”.
***
Talvez o Evangelho e a reflexão catequética de Francisco forneçam os critérios de apreciação justa do caso do padre e da funcionária, a qual também parece ter problemas familiares.

2016.04.29 – Louro de Carvalho