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sábado, 29 de junho de 2019

“Fátima, Hoje que caminhos?”


Foi a questão dominante do Simpósio Teológico-Pastoral 2019, que decorreu no Salão do Bom Pastor, Centro Pastoral de Paulo VI, do Santuário de Fátima, de 21 a 23 de junho – três dias de reflexão, diálogo e celebração, cada um deles organizado em torno de um núcleo temático: o 1.º dia, a condição do peregrino; o 2.º dia, a peregrinação a Fátima; e o 3.º dia, a Igreja peregrina.  
As intervenções dos oradores distribuíram-se por 10 conferências: cinco no dia 21; três no dia 22; e duas no dia 23. As do 1.º e 2.º dias foram seguidas de diálogo.
As conferências do 1.º dia foram subordinadas aos seguintes títulos: “Leitura dos movimentos migratórios na atualidade”, por Paulo Rangel; “O homo viator na contemporaneidade”, por Lídia Jorge; “A Criação como paradigma da Peregrinação, por José Rui Teixeira; Fátima: um espaço global e multirreligioso”, por Helena Vilaça; e Turismo, peregrinação, hospitalidade”, por José Paulo Abreu. Os trabalhos do dia terminaram com a celebração da Missa, na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima [sexta-feira da semana XI do Tempo Comum, São Luís Gonzaga, Memória Obrigatória], às 18,30 horas; e, depois do jantar, às 21 horas, realizou-se o Serão Cultural, no Centro Pastoral de Paulo V, em torno do tema “Exodus – Geometrias da Libertação”, com Celina Tavares (voz e guitarra), José Miguel Costa (piano) e  José Rui Rocha (leituras).
O 2.º dia, iniciado com uma oração em comum, foi preenchido com três conferências subordinadas aos seguintes títulos: “A peregrinação a Fátima. Uma leitura de antropologia teológica”, por António Martins; Os Papas peregrinos de Fátima”, por Marco Daniel Duarte; e “São Francisco Marto: peregrinação e páscoa,  no centenário da sua morte” por Adrian Attard, da Academia Pontifícia Mariana Internacional. A meio da tarde, desenvolveu-se um painel temático em torno de “As marcas da peregrinação a Fátima”, desdobrado em três itens: “Da bênção dos doentes” por José Manuel Pereira de Almeida; “Do serviço do lava-pés”, por Ana Luísa Castro; e “Das procissões de Fátima: a luz, o silêncio e o adeus”, por Carlos Cabecinhas.
Depois do subsequente diálogo, procedeu-se à celebração da Missa, na Capela da Morte de Jesus, no piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade [Missa votiva de Nossa Senhora de Fátima]. E, às 21,30 horas, foi o Rosário e a Procissão das Velas, a partir da Capelinha das Aparições.
O 3.º (e último) dia iniciou-se com a celebração da Missa, às 9 horas, na Basílica da Santíssima Trindade [Missa do Domingo XII do Tempo Comum]. Seguiu-se a 9.ª conferência “Variações sobre a Igreja peregrina. Da Lumen Gentium ao pontificado de Francisco”, por Benito Mendez Fernandez; e 10.ª conferência “Maria pôs-se a caminho: caminhos de hoje da Peregrina da fé”, por Nunzio Capizzi. Recorde-se que este é o tema da JMJ de 2022, em Lisboa.
Na apresentação do programa, Marco Daniel Duarte (diretor do Museu do Santuário de Fátima e do Departamento de Estudos e Presidente da Comissão Organizadora do Simpósio) referia que, ao longo de um século, a “condição de peregrino” do ser humano é uma das grandes verdades que Fátima tem proclamado e que, “a partir da Cova da Iria” essa condição será “a mais clarividente metáfora da própria vida humana”, que se ilustra “no espaço”, mas que “ganha pleno e inquestionável sentido, sobretudo no tempo que o ser humano percorre desde o nascimento ao óbito”. E, atento ao que se passa em Fátima, rumo a Fátima e a partir de Fátima, considerava:
A imagem das incontáveis fileiras de homens e mulheres que rumam ao Santuário de Fátima, a pé ou de carro, de mota ou de bicicleta, de avião ou de barco ou até de forma espiritual a partir de outros polos de culto dedicados à Virgem de Fátima espalhados pelo mundo, somada ao trilho luminoso e branco das procissões das velas e das procissões do adeus, é, de facto, uma das mais expressivas imagens para a definição do ‘homo viator’, quer o leiamos no contexto do Cristianismo de sinal católico, quer o leiamos no contexto das inquietações várias – religiosas ou não – que povoam os fóruns académicos e a vida quotidiana”.
Nesse sentido, “investigadores de diferentes academias, nacionais e estrangeiras”, olharam para a humanidade peregrina para “analisarem desafios antigos e desafios novos” e se debruçarem “sobre a condição peregrina”, “sobre a peregrinação a Fátima” e “sobre a Igreja peregrina”. 
A agência Ecclesia, em abril, citando um comunicado que lhe fora enviado, dizia que “o sentido de peregrinar” nortearia o encontro que o Santuário de Fátima estava a organizar para o decurso de três dias com a presença de investigadores nacionais e estrangeiros “convidados a olhar a humanidade peregrina” e a analisar os “desafios inerentes à condição de peregrino”. Relevava a intervenção de Adrian Attard, da Academia Pontifícia Mariana Internacional, no 2.º dia, e as do Padre Benito Mendez Fernandez delegado para o ecumenismo da diocese de Mondoñedo-Ferrol, província eclesiástica de Santiago de Compostela, e do Frei Nunzio Capizzi, Professor da Pontifícia Universidade Gregoriana. E considerava que o tema do Simpósio se insere na reflexão proposta pelo Santuário para o presente ano pastoral “Dar graças por peregrinar em Igreja”, que se integra “no triénio 2017-2020, sob o tema “Tempo de Graça e Misericórdia”, e transcrevia significativos segmentos textuais da explicação programática do Presidente da Comissão Organizadora do Simpósio.
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Na sessão de abertura, o Cardeal Dom António Marto, Bispo da diocese de Leiria-Fátima, que denominou a vida de “aventura”, enquanto “viagem no desconhecido”, começou por dizer:
Procuramos segurança e estabilidade, no meio da mudança rápida e vertiginosa dos acontecimentos, procuramos uma felicidade que não se evapore, há toda uma busca pelo sucesso, por bens, por prestígio”.
E, afirmando que é “este anseio, que de algum modo invade o íntimo de cada humano” e “faz dele ser peregrino”, observou:
Assim, o peregrinar é geralmente um movimento externo, físico, que desloca cada pessoa de um lugar para outro. No entanto, é possível falar de peregrinação interior, aspeto esse que coloca o peregrino na linha da reflexão cristã da interioridade. Tendo em conta os dados sociológicos, não se pode negar que existe hoje uma intensa busca de espiritualidade que se declina em vários códigos interpretativos.”.
Colocando-se na perspetiva dos crentes”, o purpurado caraterizou a peregrinação como uma “parábola da existência humana entendida à luz da fé”, visto que, “no anseio de sentido, latente no coração humano, vemos um desejo ardente de Deus, porque só Ele nos pode encher e satisfazer de modo definitivo, tornar-nos felizes, livres e satisfeitos”. E, apresentando os lugares de peregrinação como “lugares de graça onde, de várias formas se pode fazer a experiência da riqueza e da beleza dos diversos aspetos do peregrinar”, discorreu:
A peregrinação pode ser uma experiência bela e surpreendente de Deus, de interioridade e de renovação espiritual, de evangelização e de testemunho. Deste modo, o peregrino deixa o seu lugar e o seu ritmo quotidiano, (...) e o seu coração abre-se à medida que caminha, tudo adquire nova dimensão, seja o tempo, os encontros que são preciosos como partilha de vida interior, o silêncio que fala da própria vida e de Deus; o próprio Deus é, por vezes, surpresa ou faz acontecer surpresas.”.
Depois, considerou que a peregrinação ao Santuário de Fátima tem particularidades singulares, que lhe são atribuídas pelo conteúdo da Mensagem, na sua dimensão mística e profética, mas também por alguns aspetos simbólicos caraterísticos, como é imagem da Virgem Peregrina, que já deu a volta ao mundo por 16 vezes, percorreu 645.000 Km, e é, hoje, “verdadeiro ícone da peregrinação, juntamente com o mar de luz da procissão das velas, e o adeus de Fátima”.
O prelado leiriense-fatimita salientou ainda a afluência de peregrinos de “quase todos os povos do mundo e de todas as culturas e até de outras religiões”, que chegam a Fátima por ser um “lugar com o ambiente de silêncio e de oração e com os lugares de referência como é a Capelinha das Aparições ou os Valinhos” – tudo o que levou Bento XVI a dizer-lhe pessoal e textualmente: “Não há nada como Fátima em toda a Igreja católica no mundo”. E concluiu:
Fátima abre caminhos para cá chegar e abre caminhos para quem daqui parte para a Igreja e para o mundo, pela dimensão mística da mensagem, face a um certo eclipse cultural de Deus no ocidente, e pela dimensão profética urge a atenção ao problema sempre atual da paz pela cultura do encontro, do diálogo e da reconciliação e pela ação correspondente de uma Igreja em saída da sua autorreferencialidade para as periferias do mundo”.
Antes, o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário, dera as boas-vindas aos cerca de 250 participantes, a quem apresentou o “caminho a que o peregrino se lança” como “símbolo da experiencia humana”. E, depois, justificou o uso da “metáfora da peregrinação” para “refletir acerca da experiencia de fé”, sustentando que a experiencia da peregrinação “não permite apenas aceder à mais profunda compreensão da fé, mas também oferece uma bela metáfora da vida em Igreja”.
Por seu turno, o presidente da Comissão Organizadora do Simpósio, começou por afirmar que, “entre as verdades que Fátima tem proclamado, ao longo de um século, está a de que o ser humano continua a exercer a sua condição de peregrino” e reiterou que “a imagem das incontáveis fileiras de homens e mulheres que rumam ao Santuário de Fátima” é “uma das mais expressivas imagens para a definição do ‘homo viator’, quer o leiamos no contexto do Cristianismo de sinal católico, quer o leiamos no contexto das inquietações várias – religiosas ou não – que povoam os fóruns académicos e a vida quotidiana”.
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Para o carmelita Adrian Attard, que não compareceu, mas enviou o texto que Isabel Varanda leu, a conversão proposta por Fátima deve-se “ao testemunho da existência cristiforme dos videntes”, que se “associaram a Jesus, mediante o Espírito, à história da liberdade de Jesus, ou seja, à sua fé obediencial ao Pai”. Por isso, o seu testemunho “mostra-nos” como a vida quotidiana pode tornar-se ocasião para alcançar a fé. Ora, “quando se reconhece a presença de Cristo que, na sua liberdade, vem ao nosso encontro no concreto da vida real, Ele torna-se a pedra angular para o significado de toda a vida pessoal”. E Attard vincou:
O caminho que cada um está chamado a realizar coloca-o misteriosa e progressivamente num espaço cada vez mais amplo que lhe permite alcançar o mais profundo de si mesmo, sem esquecer aquele que está ao seu lado”.
À distância de cem anos da sua morte, São Francisco Marto continua a ser uma “figura singular” que “conferiu à infância uma importância decisiva, vivendo-a em toda a sua profundidade e plenitude”, manifestada “na proximidade a Deus e ao seu mistério”. Com efeito, “no cumprimento de cada dever, nos atos de mortificação, em todas as ocasiões de zelo, de oblação, de abnegação e de caridade que se lhe apresenta, Deus colocou no coração de Francisco a sua vontade, e este cooperou eficazmente no processo de assimilação ao seu Senhor”. Por isso, “a vida do santo menino ajuda-nos a insistir em alguns pontos de interesse antropológico-espiritual e a clarificar algumas perspetivas para o futuro” – esclareceu.
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É de relevar algo do teor do painel temático da tarde do dia 22, marcado por três intervenções.
O reitor do Santuário, sublinhando o sentido da procissão como “uma caminhada comum” sinal da condição peregrina da Igreja enquanto povo de Deus, disse:
A luz da procissão das velas; o silêncio da procissão do silêncio (exclusiva de Fátima) e a saudade expressa no adeus à Virgem constituem marcas importantes no imaginário deste lugar”.
Em Fátima, particularmente, a procissão é uma forma “de aproximação” à veneranda imagem de Nossa Senhora e, simultaneamente, um  momento de oração, meditação e peregrinação. A este respeito, o Padre Cabecinhas vincou a especial relação entre estas procissões e a própria Mensagem de Fátima, nomeadamente a Procissão das Velas que remete para a “luz de Deus”, relatada nas memórias da Irmã Lúcia por variadas vezes, em concreto, quando descreve a experiência de Francisco, tocado pela Luz de Deus. Já a Procissão do Adeus, sendo um rito de despedida, “um adeus emotivo” dos peregrinos a Nossa Senhora, representa um aspeto indelevelmente ligado à `alma portuguesa: a saudade. E há uma outra procissão, criada por razões funcionais, mas que hoje é um dos momentos mais belos e que mais dizem da experiência que se faz em Fátima: o silêncio. Trata-se da procissão de regresso da imagem à Capelinha, depois da missa da Vigília na noite dos dias 12, entre maio e outubro, durante a qual milhares de peregrinos rezam em silêncio, “o silêncio orante caraterístico de Fátima”. É a mais recente das procissões, mas tornou-se “marcante nos rituais processionais do Santuário”, sendo que, “para muitos, é este silêncio que faz da Cova da Iria um lugar especial”.
Em todos estes momentos, concluiu o reitor, os peregrinos são “os grandes protagonistas de Fátima”. Os peregrinos “criaram estes rituais e são eles que os protagonizam”, quer quando levam as velas acesas, quer “quando se movimentam no recinto para ficarem mais próximos da imagem, quer ainda quando acenam os lenços brancos para se despedirem”.
Outra das “marcas” da peregrinação a Fátima é a bênção dos doentes, no final da missa, particularmente nas grandes celebrações. A partir do Evangelho de São Marcos, o médico e sacerdote José Manuel Pereira de Almeida apresentou este gesto litúrgico como a “expressão da proximidade de Jesus” para com todos os doentes e os que são frágeis. E afirmou:
Jesus, no Santíssimo Sacramento, passa bem junto dos doentes para lhes dizer a Sua proximidade e o Seu amor. E eles – tal como os Pastorinhos – confiam-lhe as suas dores, os seus sofrimentos, o seu cansaço. (…) Como discípulos do Senhor, cada doente quer viver a sua vida como um ‘dom’. Naquele momento podem dizer-Lhe de novo, como os Pastorinhos, que querem oferecer-se a Deus de todo o coração.”.
Depois, assegurou que “a nossa vida de comunhão com Jesus corresponde a vivermos com Ele e como Ele na terra”. E lembrou as palavras  do Papa Francisco, antes da bênção dos doentes em Fátima, no final da missa de canonização dos santos Francisco e Jacinta, a 13 de maio de 2017:
Jesus sabe o que significa o sofrimento, compreende-nos, dá-nos força e consola-nos. Por isso, a bênção dos doentes é a certeza de que Jesus está presente, nos compreende, nos dá força e nos consola.”.
Por fim, foi relevado o lava-pés como outra das grandes ‘marcas’ de Fátima. Ana Luísa Castro (médica religiosa da Aliança de Santa Maria e diretora do Posto de Socorros do Santuário) apresentou o gesto como “um primeiro desejo” dos que, movidos pela compaixão para com os primeiros peregrinos” (um grupo “de cavalheiros e senhoras” que, em 1924, haveriam de formar a Associação de Servitas de Nossa Senhora de Fátima), lançaram mãos à obra no apoio e assistência” a quem chegava a pé. E frisou que o serviço “cabe no desejo de excesso, suscitado por Deus, podemos dizer, então nesse carisma, de se sacrificar para dignificar o outro, para o servir, ao jeito de Jesus na Última Ceia, mas também como única forma de realização plena do que se é chamado a ser em Cristo”.
Tendo atravessado já várias fases, o serviço do lava-pés assiste hoje a uma redução da procura pelos peregrinos. As razões para “esta curva descendente” podem ser consideradas de ordem prática, mas há “outras que nos devem interpelar”, pois deriva da forma “como hoje o homem se coloca diante de Deus”. Com efeito, “temos dificuldade em reconhecer que somos frágeis, que precisamos que nos lavem os pés”, convictos da “autossuficiência” inerente ao homem de hoje, que privilegia o ritmo frenético imposto pelas mãos ao invés da “lentidão que os pés pedem”.
E, porque “os pés feridos são a manifestação física de um mundo interior magoado”, exortou:
Deixemos que os pés definam os nossos mapas, aceitemos percorrer um caminho interior, lento e esforçado, mas que permite ir experimentando os cheiros, as cores e os sons que a vida tem para dar (…).Temos que reaprender a usar os pés”.
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Na sua conferência, Marco Daniel Duarte considerou que “os Papas, ao virem a Fátima, deixam transfigurar o seu olhar” num lugar onde “a ritualidade transcende a mensagem”. Para o historiador, quem quiser compreender melhor Fátima na sua plenitude “deve analisar os discursos dos Papas em Fátima e a propósito de Fátima”.
O orador disse que os Papas, mesmo antes de iniciarem o ciclo das viagens pontifícias a Fátima, fizeram-se representar pelos seus delegados.
Paulo VI foi o primeiro a visitar a Cova da Iria, numa peregrinação de profundo “culto à Mãe de Deus”. Ao chegar a Fátima, lembrou a sua condição de “peregrino entre peregrinos” e, através dessa presença, “sentiu a força histórica da Irmã Lúcia de Jesus”, justamente pelas ovações dos peregrinos ali presentes. E ofertou o seu báculo, um gesto que merece “atenção”, porque não é “comum” um Papa proceder desta forma.
João Paulo II foi o segundo Papa a visitar a Cova da Iria e “nada previa que se fizesse peregrino em tão pouco tempo de pontificado”. Em Fátima, teve um gesto simbólico pondo-se de joelhos aos pés de Nossa Senhora e orando na Capelinha das Aparições, um ano depois do atentado e na hora em que ele aconteceu, num “profundo momento de silêncio”. O investigador falou da “relação física” de João Paulo II com a Imagem de Nossa Senhora, presente na Capelinha, onde “ele frente a frente mete no coração a humanidade e trata Maria como uma Mãe, gesto vivível nos seus discursos e orações”. O investigador lembrou a “gratidão” presente nos gestos e nas palavras do Santo Padre, que assumiu uma imagem de peregrino, com gestos idênticos aos dos outros peregrinos.
Em 2010, Bento XVI foi o primeiro a falar do Centenário das Aparições de Fátima, dando indicações orientadoras que o Santuário seguiu. Consagrou ali os sacerdotes ao Coração de Maria. E afirmou o Santuário de Fátima como coração espiritual de Portugal. 
Francisco esteve em Fátima, em maio de 2017, 100 anos depois da 1.ª aparição de Maria. E “um dos primeiros gestos foi o silêncio, seguindo-se a entrega de três ramos de rosas, cuja origem ainda hoje não sabemos, e posteriormente a Rosa de Ouro”. Bergoglio foi o “primeiro Papa a caminhar no Recinto de Oração sem ser num percurso celebrativo”. E, “na bênção aos doentes, o Papa Francisco deu um novo sentido à expressão Jesus escondido”.
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E ressaltam do Simpósio alguns elementos importantes: a dimensão da condição de peregrino do ser humano e da Igreja; as três marcas de Fátima (três procissões – velas, adeus e silêncio; bênção dos doentes; e lava-pés); e a condição de peregrinos dos Papas, iguais aos outros (rezam, cantam, fazem ofertas, acenam adeus, cumprem promessas, celebram datas significativas, caminham…) e diferentes deles (pontificam, pregam, abençoam, são aclamados…). É Fátima em conexão com Jesus Cristo e a Santíssima Trindade, em Igreja e pelo mundo.
2019.06.29 – Louro de Carvalho   


terça-feira, 19 de março de 2019

José era um homem diferente, um homem singular


A 19 de março, Solenidade Litúrgica de São José, recorda-se o homem justo e dócil capaz de ouvir a Deus, que o Senhor escolheu para esposo de Maria e pai putativo de Jesus e que a Igreja assume como padroeiro universal.
A este respeito, o cardeal Gianfranco Ravasi, biblista e presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, considerando escassos os textos bíblicos relativos a José, assegura neste silêncio se encontra a força deste excelso protetor da Santa Igreja e ressalta a força eloquente do silêncio, quase tanto como a Mãe de Jesus, a qual de olhar atento e profundo sabia, na discrição, “conservar todas estas coisas, ponderando-as no seu coração” (Lc 2,19).
Em entrevista ao Vatican News, o purpurado refere que o silêncio de José se opõe à palavra “gritada, brutal e agressiva, como estamos acostumados a ver”, sendo que, assim, o pai adotivo de Jesus “permanece um exemplo e uma advertência constante”.
Pelos vistos, uma das representações do santo carpinteiro que mais encanta o Papa Francisco é aquela em que o justo aparece dormindo. E, sublinhando que “a figura de São José tem uma presença limitada”, mas que o seu silêncio é extremamente eloquente, Ravasi explica:
Ele está em primeiro plano somente em relação ao início da vida de Jesus. O Evangelho de Mateus dedica-lhe a Anunciação do Anjo (…). Podemos dizer que é somente no início absoluto de sua existência, da existência de Cristo, que apare essa figura. Aparece por duas razões e aqui entramos também na questão da ‘desobediência’. Aparece, em primeiro lugar, porque é ele quem tem essa ascendência, o que naturalmente no mundo oriental era bastante vago, com David e, portanto, dá a linha davídica a Jesus, introduzindo-o no grande rio do messianismo. Por outro lado, é ele quem vive a experiência do vínculo com Maria e dessa surpresa que abala sua vida, e ele sentir-se-ia pronto para romper o vínculo com Maria, como se desobedecesse a esse projeto que tinha construído: de estar junto com essa moça, com essa mulher. (…) Está pronto para interromper esse projeto comum, mas é nessa escolha que irrompe a Anunciação, que muda radicalmente o seu projeto e o torna obediente por excelência: torna-se instrumento fundamental para o reconhecimento de Jesus no contexto social, como pai putativo.”.
À questão sobre o que José pode dizer numa sociedade onde a palavra conta muito, o cardeal, reconhecendo que este homem é diferente de muitas outras personagens evangélicas, sublinha a sua centralidade inicial, caraterizada pela mudez, sem proferir uma única palavra, e discorre:
Em relação a Maria temos 6 frases, digamos 5 frases e um canto, o ‘Magnificat’. Na verdade, é pouco também para Maria, pois são frases breves as cinco palavras de Maria. Ao contrário, para José temos o silêncio absoluto. Eu diria que o ‘preferir’ é uma lição constante dentro dos Evangelhos, como Jesus prefere os últimos. Como dizia o poeta francês, Paul Valéry, preferir sempre a palavra ‘moindre’, a menor, a mais delicada em relação à palavra gritada, brutal e agressiva que estamos acostumados a ver no âmbito político, na informática, onde domina, não só a agressividade, mas também a vulgaridade. A palavra que é acesa até ficar quente. Sabemos bem que a palavra é uma ‘criatura viva’: dizia outro poeta francês, Victor Hugo, e como tal pode também ferir, se não às vezes, até matar.”.
Ao caso de Francisco ser muito devoto de São José e ter consigo sempre imagem pequena em que o santo está dormindo, o biblista e presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, diz:
Sabemos que existe também na iconografia. Bassano, por exemplo, representou José dormindo que recebe a anunciação ou recebe os sonhos que, como sabemos, na linguagem bíblica são uma maneira de representar uma comunicação transcendente, espiritual: não é necessariamente tudo o que concebemos através da visão psicanalítica, a leitura onírica com uma interpretação ‘científica’. Enquanto para a tradição bíblica e para toda a antiga tradição oriental, é uma maneira de expressar a profunda experiência religiosa, portanto, uma experiência espiritual, ascética e mística, essa figura já é significativa, porque José é por excelência o homem que recebe essas mensagens à noite, nos momentos dramáticos da existência de seu filho oficial, seu filho jurídico.”.
E conclui salientando algo de relevante sobre a vida de José:
É por esse motivo que podemos dizer que seja, mais uma vez, uma figura sugestiva, porque tem a capacidade de ir em profundidade, sem muita conversa. Os evangelhos apócrifos acrescentam muitos detalhes, mas há um evangelho apócrifo chamado ‘José, o carpinteiro’ que representa sua morte: José deitado numa espécie de névoa do fim da vida, que tem Cristo ao seu lado. Ele diz as últimas palavras em relação a Maria: ‘Eu amei essa mulher com ternura” e depois morre.”.
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Neste dia 19 de março de 2019, a Cidade do Vaticano aponta São José como o inspirador de muitos Papas, graças ao seu estilo de vida e peculiaridade de guardião silencioso, embora tendo em conta a época e da experiência pessoal.
Foram muito longas as etapas que levaram a Igreja a estabelecer o culto de São José, desde Sisto V que, no final do século XV, fixou a data da festa para 19 de março até à última decisão de Francisco que, no 1.º de maio de 2013, confirmando a vontade Bento XVI, decretou o acréscimo do nome de São José, Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, nas Orações eucarísticas II, III e IV (antes, João XXIII estabelecera, a 13 de novembro de 1962, a introdução no Cânone romano da Missa, ao lado do nome de Maria e antes dos Apóstolos). Foi João XXIII, que, desejando confiar ao “pai” terreno de Jesus o Concílio Vaticano II, escreveu, em 1961, a Carta Apostólica Le Voci, em que faz uma espécie de sumário da devoção a São José sustentada pelos seus predecessores. Não são opacas operações de “burocracia” litúrgica. Por trás de cada novo decreto colhe-se um sentimento e uma consciência eclesial cada vez mais enraizada como, por exemplo, como sucedeu a Pio XII, que podem chegar a marcar também na vida civil. O 1.º de maio de 1955 era domingo e a Praça São Pedro estava repleta de fiéis. Pio XII faz um discurso enérgico aos exortando todos a orgulharem-se da identidade cristã face às ideologias dominantes. No final, em homenagem ao santo que trabalha, surpreendeu com um “presente” entusiasmante:
Para que todos entendam este significado (…) queremos anunciar a Nossa determinação de instituir – como de facto instituímos – a festa litúrgica de São José operário, marcando-a no dia 1.º de maio. Trabalhadores e trabalhadoras, agrada-vos o nosso dom? Temos certeza de que sim, porque o humilde artesão de Nazaré não só personifica junto de Deus e da Santa Igreja a dignidade do trabalhador, mas é também sempre providente guardião vosso e das vossas famílias” (Festa de São José Operário – 1.º de maio de 1955).
Quatro anos mais tarde a Igreja era guiada por João XXIII, que desejou assumir o nome de “Papa José”. Só não o fez, porque “não é usado entre os Papas”. Porém, o desejo revela a nostalgia e a forte devoção que Roncalli tinha por São José:
Faz com que também os teus protegidos compreendam que não estão sós no seu trabalho, mas saibam descobrir Jesus ao seu lado, acolhê-Lo com a graça, custodiá-Lo com a fé como Tu o fazes. E faz com que, em cada família, em cada fábrica, oficina, onde quer que trabalhe um cristão, tudo seja santificado na caridade, na paciência, na justiça, na busca do fazer bem, para que desçam abundantes dons da celeste predileção.” (19 de março de 1959).
Paulo VI não se chama José, mas de 1963 a 1969 em particular, não deixa de celebrar uma Missa na solenidade de 19 de março. Cada homilia sua torna-se peça que forma retrato pessoal com que Paulo VI se mostra fascinado pela “completa e submissa dedicação” do homem dos riscos à missão do homem “talvez tímido” dotado “duma grandeza sobre-humana que encanta”.
São José, um homem ‘comprometido’ como se diz agora, por Maria, a eleita entre todas as mulheres da terra e da história, sempre sua virgem esposa, também fisicamente sua mulher, e por Jesus, em virtude da descendência legal, não natural, sua prole. A ele, os pesos, as responsabilidades, os riscos, as preocupações da pequena e singular sagrada família. A ele o serviço, a ele o trabalho, a ele o sacrifício, na penumbra do quadro evangélico, no qual nos agrada contemplá-lo, e certamente, sem dúvida, agora que tudo conhecemos, chamá-lo feliz, bem-aventurado. Isso é Evangelho. Nele os valores da existência humana assumem medidas diferentes da que somos acostumados a apreciar: aqui o que é pequeno torna-se grande.” (Homilia de 19 de março de 1969).
Em 26 anos de pontificado João Paulo II falou de São José em muitíssimas ocasiões e disse que Lhe rezava intensamente todos os dias. A devoção ao esposo sublime sintetiza-se na Exortação Apostólica Redemptoris Custos, de 15 de agosto de 1989, no centenário da Quamquam Pluries (de Leão XIII). Aí, aprofunda a vida de José em vários aspetos, sobretudo o do matrimónio cristão no qual oferece uma profunda leitura das relações entre os dois esposos de Nazaré.
A dificuldade de se aproximar do mistério sublime da sua comunhão esponsal levou todos, desde o século II, a atribuir a José uma idade avançada e a considerá-lo guardião, mais do que esposo de Maria. É o caso de supor, ao invés, que na época ele não fosse um homem idoso, mas que a sua perfeição interior, fruto da graça, o levasse a viver com afeto virginal a relação esponsal com Maria.” (Audiência Geral de 1996).
De José não se conhecem palavras, só o silêncio: é o pai silencioso. Bento XVI aprofunda a aparente ausência de José, de que extrai a riqueza de vida completa, dum homem fundamental que marcou, com o seu exemplo, sem proclamações, o crescimento do homem-Deus:
Um silêncio graças ao qual José, em união com Maria, custodia a Palavra de Deus (…) um silêncio marcado pela oração constante, oração de bênção do Senhor, de adoração da sua santa vontade e de confiança sem reservas à sua providência. Não se exagera quando se pensa que do próprio ‘pai’ José, Jesus tenha tomado – no plano humano – a robusta interioridade que é pressuposto da autêntica justiça, a ‘justiça superior’, que ele um dia ensinará aos seus discípulos.” (Angelus de 2005).
Da Casa de Santa Marta, na “paróquia” de Santa Ana, no Vaticano, Francisco refletiu muito sobre o “Santo da ternura” a quem confia todas as suas preocupações e referiu-se-lhe como ao “homem que custodia”, que “faz crescer”, “que leva adiante toda a paternidade, todo o mistério, mas não pega nada para si”. E, a 20 de março de 2017, sublinhou que José é o homem que age também quando dorme porque sonha o que Deus quer. Por isso, advertiu:
Hoje gostaria de pedir que nos conceda a todos a capacidade de sonhar, porque quando sonhamos coisas grandes, bonitas, aproximamo-nos do sonho de Deus, do que Deus sonha sobre nós. Que conceda aos jovens – porque ele era jovem – a capacidade de sonhar, de arriscar e de cumprir as tarefas difíceis que viram nos sonhos. E conceda a nós a fidelidade que em geral cresce numa atitude correta, cresce no silêncio e na ternura que é capaz de guardar as próprias debilidades e as dos outros.”.
A silhueta de José estendida no sono, ao lado da mesa onde estuda e assegura as necessidades da Igreja, está ali para recordar que também num sonho pode se esconder a voz de Deus. O Papa tem ao seu lado, desde sempre, nos quartos onde morou a estátua de São José dormindo. Até essa estátua está sobre a sua escrivaninha na Casa Santa Marta. Esta imagem e a devoção de Francisco pelo que ela representa tiveram uma imprevista popularidade mundial quando, há anos, o Pontífice falou durante o Encontro Mundial das Famílias em Manila. Uma confidência que revela total confiança na força mediadora do pai putativo de Jesus e admiração pelo papel e pelo estilo que José sempre encarnou expressou-se nestes termos:
Amo muito São José, porque é um homem forte e silencioso. Na minha escrivaninha, tenho uma imagem de São José que dorme e, quando tenho um problema, uma dificuldade, escrevo um bilhetinho e meto-o debaixo de São José, para que o sonhe. Este gesto significa: reza por este problema! (Encontro com as famílias em Manila – 16 de janeiro de 2015).
Depois de Pedro, houve muitos Papas com os nomes de João, Bento, Leão, Pio, Gregório, Estêvão, Bonifácio, Inocêncio, Clemente, Urbano, Alexandre, Paulo, mas nenhum com o nome de José. Porém, muitos deles, especialmente no último século, o tiveram como nome de Batismo, como se os chamados para custodiar Jesus fossem um viático para os chamados para custodiar a Igreja. No início do século XX, José Melchiorre Sarto torna-se Pio X. Mais tarde sobem ao trono de Pedro Angelo José Rocalli, Karol Józef Wojtyla e Joseph Ratzinger. Francisco não se chama José, mas celebra, com a Missa da sua solenidade, inicia solenemente o seu ministério petrino a 19 de março de 2013, a quatro dias da eleição.
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O padre Rafhael Silva Maciel, da Arquidiocese de Fortaleza e residente em Roma, propõe, no Vatican News, uma reflexão sobre o “santo mudo de palavras, mas falante pelas ações”.
Na verdade, celebrar o Patrono da Igreja Universal é motivo de alegria, mesmo no ambiente quaresmal. Efetivamente, “José é um dos mais claros exemplos de disponibilidade e de entrega sem reservas a Deus”, pois, como diz São João Paulo II, recebeu Maria e “recebeu-A com o Filho que havia de vir ao mundo, por obra do Espírito Santo; demonstrou deste modo uma disponibilidade de vontade, semelhante à disponibilidade de Maria, em ordem ao que Deus lhe pedia por meio do seu mensageiro” (João Paulo II, Exortação Apostólica “Redemptoris Custus”, n. 3). José é, pois, diferente dos outros santos. Um santo é geralmente conhecido pelo seu legado – escritos ou palavras transmitidas para futuro pelos seguidores e discípulos. Mas este não tem escritos, discípulos ou palavras para quem quer que seja. É o “santo mudo de palavras e falante pelas ações”, cujo silêncio tem “especial eloquência”, graças à qual se pode captar “perfeitamente a verdade contida no juízo que dele nos dá o Evangelho: o justo” (Mt 1,19; cf João Paulo II, ib, n.17).
Este homem justo, não querendo difamar Maria, resolveu deixá-la secretamente; avisado pelo anjo do Senhor, fez como ele lhe ordenou e recebeu sua esposa; subiu até à Judeia, a Belém, por ser da casa e linhagem de David, para se recensear com Maria, sua esposa, que estava grávida; deram-lhe o nome de Jesus indicado pelo anjo antes de ter sido concebido; levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor e oferecerem em sacrifício duas rolas ou duas pombas; seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele; tomando o menino e a mãe, partiu para o Egito, onde permaneceu até à morte de Herodes; tomou o menino e a mãe e voltou para a terra de Israel; retirou-se para a Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré; os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa;  aos 12 anos do menino, subiram até lá e ele ficou em Jerusalém, sem que os pais dessem conta; tendo-o procurado e, não o encontrando; voltaram a Jerusalém, à sua procura; encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas; e, ao vê-lo, ficaram assombrados. (cf Mt 1,19.24; 2,14.15.21.22-23; Lc 2,1-21.22.24.41-52)
Importa considerar que o silêncio de José não é passivo e inexpressivo, mas ativo, operante, pois os Evangelhos falam do que ‘fez’ e “permitem-nos auscultar nas suas ‘ações’, envoltas pelo silêncio, um clima de profunda contemplação” (João Paulo II, id, n. 25). Ele é um mestre de vida interior: sabendo da grandeza do Criador, adora o mistério que lhe foi confiado: com a esposa, orientar, educar o Filho de Deus e cuidar dele. Desta vida de recolhimento, diz João Paulo II:
Lhe provêm ordens e consolações singularíssimas: dela lhe decorrem também a lógica e a força, própria das almas simples e límpidas, das grandes decisões, como foi a de colocar imediatamente à disposição dos desígnios divinos a própria liberdade (...).” (João Paulo II, id, n. 26).
Assim, José ensina a calar para ouvir a voz e a vontade do Senhor, entender os seus desígnios e anunciar o Evangelho. O homem de silêncio, homem de oração, homem justo, fez a experiência do amor da verdade (“do puro amor de contemplação da Verdade divina que irradiava da humanidade de Cristo”) e das exigências do amor (“do amor igualmente puro do serviço, requerido pela proteção e pelo desenvolvimento dessa mesma humanidade”). (João Paulo II, id, n. 27). José é dos silenciosos para quem falar é perder tempo, que têm enorme senso de Deus, do Ser sem medida e da loucura de Amor.
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Por fim, transcrevo a suposta confidência de Maria a Lucas em provável diálogo sobre os episódios dos Evangelhos da Infância, sobre se José estranhara a conceção miraculosa de Jesus:  
Como não estranhar? Só que ele era um homem diferente. Tentei explicar-lhe, no entanto ele não compreendeu. Nem poderia. Mas não gritou, não me excluiu nem me acusou. Se fosse outro, talvez não suportasse. Preservando-me do julgamento social, afastou-se secretamente. Mas foi iluminado e, por fim, acolheu-me, abraçou-me, chorou e juntos levámos para a frente o projeto de Deus.”.
E mais adiante, aquando do nascimento (São assim os desígnios de Deus):
O José, por vezes, perguntava: ‘Não é ele o escolhido? Porque é preterido? Para quê nascer nestas condições miseráveis?’ O meu filho devia nascer numa casa ou hospedaria confortável, mas, diante de tantas perguntas sem resposta, eu limitava-me a aceitar o inevitável” (cf Augusto Cury, O homem mais inteligente da História, Lisboa: Bertrand Editora, 2017, pgs 117.118).
2019.03.19 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Em Fátima, a Capela do Mundo


Cedo se começou a dizer que o pequeno e modesto altar de Fátima se tornou Altar do Mundo, pois, como há séculos os portugueses demandavam as diversas partes do mundo em regime de aventura buscando outras paragens e culturas para semear a fé e obter vantagens comerciais, há umas boas décadas a esta parte, vêm das mais diversas partes do orbe terráqueo homens e mulheres postar-se e ajoelhar ante o altar da Senhora do Rosário de Fátima a dirigir ao Senhor louvores, gratidão e preces, almejando a conversão e participando no sacrifício eucarístico como banquete que nutre a alma e cimenta a unidade dos filhos de Deus enquadrados pela Igreja.
Porém, 2019, o ano centenário da edificação da Capela que a Senhora aparecida ali recomendou sublinha a Capela das Aparições como a Capela do Mundo, uma vez que em torno daquele minúsculo templete se foram agregando inúmeros peregrinos que vinham manifestar a sua fé por entre as agruras da vida e as condições periclitantes por que passava o país e o mundo.   
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Assim, o Santuário de Fátima apresenta uma nova exposição temporária que mostra os 100 anos da Capelinha das Aparições e que a apresenta como um dos mais importantes e emblemáticos ícones do Santuário de Fátima. Esta 7.ª exposição temporária desenvolvida pelo Museu do Santuário é comissariada por Marco Daniel Duarte, diretor do Museu do Santuário de Fátima, e conta com a conceção arquitetónica de Joana Delgado e o design de Inês do Carmo
A “Capela Mundi” foi efetivamente inaugurada na tarde de 1 de dezembro passado e poderá diariamente ser visitada de forma gratuita até 15 de outubro de 2019, entre as 9 horas e as 18. Até 2 de janeiro de 2019, o Museu do Santuário de Fátima assegurará visitas guiadas aos sábados às 11,30 horas e às 15,30.  Na 1.ª quarta-feira de cada mês, entre maio e outubro,  serão realizadas visitas temáticas, com um orador convidado, a saber nos dias 1 de maio, 5 de junho, 3 de julho, 7 de agosto, 4 de setembro e 2 de outubro.
Assente numa aturada pesquisa histórica, a mostra sugere e propõe ao visitante uma narrativa que se desenvolve em 9 núcleos expositivos, que desvelam chaves de leitura sobre o modo como uma pequena capela branca se tornou no centro das atenções de boa parte da humanidade. Através dum constante diálogo metafórico entre peças de arte contemporânea e antiga, de várias disciplinas artísticas – pintura, escultura, ourivesaria e tapeçaria –, a exposição apresenta a Capelinha como resultado da insistência popular junto da hierarquia religiosa de então, em fazer cumprir o pedido da Virgem, deixado na 6.ª Aparição, a de 13 de outubro de 1917, do qual as crianças videntes se afirmavam depositárias: “façam aqui uma capela”.
Possibilita uma visita virtual ao interior da Capelinha (a remodelação da envolvente em 1980 veda o acesso ao interior da Capela), através duma réplica construída à escala real, numa reconstituição intimista onde estão expostas as gavetas originais do pequeno móvel do altar. No exterior, a volumetria representativa da Capelinha (deixada branca a sublinhar a simbologia da sua cor) é circunscrita por uma barra cronológica de fotografias que mostra a evolução da paisagem da Capelinha até à atualidade. E, entre as peças diretamente ligadas à Capelinha, estão: uma carta, datada de 1919, onde um peregrino pede ao pároco de Fátima que se cumpra o pedido da Senhora para a construção da Capelinha; a carta onde o pároco de Fátima comunica ao Bispo de Leiria o atentado à bomba que destruiu parcialmente a Capelinha, em 1922, bem como um fragmento da porta da Capelinha, recolhido após aquele episódio; terra, pedras e argamassas recolhidos do local onde está a peanha que suporta a Imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, a marcar o lugar exato das Aparições; os pilares do antigo alpendre da Capelinha e uma réplica do azulejo do seu alçado oriental; e várias fotos, fornecidas pelo Santuário, de que se destacam: a da primeira missa celebrada na Capelinha, em 13 outubro de 1921; a da Rosa de ouro oferecida pelo Papa Paulo VI; a da Custódia oferecida por peregrinos polacos, em 2017, de ouro e prata dourada, vidro, fragmentos de meteorito e de pedra do solo lunar; a da História Trágico-marítima, tomo primeiro, por Bernardo Gomes de Brito, da Biblioteca Geral da universidade de Coimbra; e as das esculturas de Santa Jacinta Marto e Santo Francisco Marto, por Sílvia Patrício, em madeira de cedro e latão fundido.
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São 100 anos em 9 núcleos, no Convivium de Santo Agostinho (piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade). O início do percurso, I núcleo, sublinha o lugar de Maria como Mãe da Igreja. Sob o título “Contínua presença”, expõe a pintura da Assunção da Virgem Maria, bem como a coroa de prata que constou do trono do retábulo da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.
O II núcleo, com a réplica da Capelinha à escala real, faz memória do pedido da Virgem para a construção da Capelinha, transportando-o para o sentido da edificação da Mensagem deixada por Nossa Senhora aos Pastorinhos, na Cova da Iria.
A concretização do pedido de Nossa Senhora num edifício de arquitetura arcaica e popular e a forma como ele resistiu ao tempo estão em relevo no III núcleo, que, ao percorrer os vários projetos de remodelação e de reedificação do espaço, termina com uma imagem de Santo Agostinho, patrono da Diocese de Leiria-Fátima, a segurar uma edificação, que pretende simbolizar a chancela eclesiástica da iniciativa popular de construção da Capelinha.
No IV núcleo, uma vitrina apresenta um conjunto de terços artísticos feitos de prata, ouro, marfim e coral são, bem como a 1.ª fotografia da Capelinha das Aparições, uma outra da 1.ª Missa ali celebrada, a 13 de outubro de 1921, e uma série de três imagens que mostram o estado em que a capela ficou, após o atentado de 1922.
No V núcleo, que apresenta a Capelinha como “Lugar de oração: o louvor, a súplica, a entrega e a gratidão”, estão expostas placas votivas que os peregrinos foram oferecendo à Senhora ao longo do último século, bem como as três rosas de ouro que os Papas Paulo VI, Bento XVI e Francisco – também eles peregrinos de Fátima – ofereceram ao Santuário de Fátima.
No VI núcleo é metaforicamente abordado o templo edificado como imagem teológica de um templo maior, constituído por “pedras vivas” que formam a Igreja, e é apresentado o projeto do alpendre que protege a Capelinha desde 1982, inspirado nos pálios litúrgicos, e que, desde então, a apresenta como relíquia: concita mais peregrinos à sua volta, embora não entrem.
O VII núcleo, que apresenta a “Capela como lugar da nova evangelização”, confina-se a uma sala onde é projetada a transmissão em direto da Capelinha das Aparições, numa constatação de Fátima como espaço da nova evangelização pelos milhares de peregrinos que seguem Fátima diariamente através do digital, e onde também está o andor histórico que transportou a Imagem de Nossa Senhora de Fátima, até ao ano passado, altura em que foi para restauração, num processo que se pode ver num vídeo que ali é reproduzido.
A área expositiva extravasa o espaço do Convivium de Santo Agostinho, para apresentar um pequeno barco de pesca num dos espelhos de água da Galilé dos Apóstolos, ficando congregadas as referências ao mar no VIII núcleo, com a apresentação da metáfora da capela como farol sob o tema “Capela em alto mar: a barca de Maria” – uma instalação de arte contemporânea: uma boia salva-vidas gigante em forma de coração, decorada com pétalas de flores; ex-votos de pescadores e o terço oferecido a Nossa Senhora pelos pescadores de Caxinas (Vila do Conde), resgatados dum naufrágio em 2011 – havendo também, neste espaço, um diálogo com o espelho de água exterior pela reprodução no vidro de diferentes perspetivas da forma arquitetónica da Capelinha, a última das quais, na forma da estrela das vestes da Imagem da Senhora, numa referência ao tema da exposição temporária do próximo ano pastoral.
Na conclusão, o IX e último núcleo, sob o título “Capelinha = pequena Igreja”, centra-se no diminutivo que, desde cedo, é utilizado na designação da capela edificada na Cova da Iria a pedido da Senhora, sendo apresentada, através de peças evocativas dos santos Pastorinhos, a Mensagem de Fátima como uma luz “que uma boa parte da humanidade acredita ser transformadora do coração humano”. (cf Santuário de Fátima, Nova exposição temporária mostra 100 anos de Capelinha das Aparições, in https://www.fatima.pt/pt/news/nova-exposicao-temporaria-mostra-100-anos-de-capelinha-das-aparicoes).
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Segundo a Rádio Renascença (RR), a mostra apresenta peças de valor histórico e artístico, não só do espólio do Museu do Santuário, como de outras instituições, museus e arquivos da Igreja Católica, bibliotecas ou palácios do Estado português, bem como de diferentes organismos eclesiais, como paróquias, congregações religiosas, confrarias e dioceses (de Portugal e de Espanha). E o “sapo.pt” especifica que algumas são “peças âncora” da mostra, como: “Promessas”, de José Malhoa; “Agnus Dei”; de Josefa de Óbidos; e “História Trágico-Marítima”, de Maria Helena Vieira da Silva (que estará patente no Santuário a partir de maio).
Algumas peças, segundo Marco Daniel Duarte, nunca foram expostas: eram objetos “que estiveram dentro do perímetro da Capelinha das Aparições”, mas que “já há várias décadas não podem ser vistos, porque foram retirados e também porque o espaço da Capelinha deixou de ser acessível ao comum dos peregrinos”. Para o Comissário da exposição, “alguns desses objetos têm apenas valia antropológica enquanto alguns outros têm valia artística e material”.
Trata-se duma exposição – diz a RR – que evoca os 100 anos da Capelinha das Aparições, que se completam em 2019, e que, segundo o Comissário, “vai mostrar vários ângulos dessa Capelinha ao longo de nove núcleos”. Marco Daniel Duarte explicita:
A expressão Capela Mundi faz logo acontecer uma projeção sobre aquilo que se pretende com esta exposição, mostrar que, embora seja uma capela de pequenas dimensões, com perímetro muito reduzido, ela tem uma presença simbólica na atualidade de tal maneira forte que é um ponto de atração gravitacional para quem vem a Fátima”.
A Capelinha das Aparições, o coração do Santuário de Fátima, por ter sido construída a partir de um desejo que os pastorinhos garantiram ter sido transmitido por Nossa Senhora, concita em seu redor as mais visíveis manifestações de fé e piedade dos peregrinos. Para lá das orações em comum e das celebrações litúrgicas que ali ocorrem, nota-se, a ritmo constante, as mais diversas ações de piedade e de culto devoto num ambiente de recato, recolhimento e compostura, a que muito se assemelha a gruta de Massabielle junto ao rio Gave de Pau, em Lourdes.
A abrir a exposição encontra-se um barco que “nos remete para um tópico que vai estar presente ao longo de toda a exposição, que é a questão de uma Capela que vai estar a ser vista como um farol em alto-mar nas horas inquietas”. Para Marco Daniel Duarte, comissário da exposição e diretor do museu do Santuário de Fátima, “é assim que a Igreja Católica vê a presença de Maria na humanidade, como intercessora”.
Entre as peças, contam-se uma maqueta à escala natural da Capela das Aparições aonde os visitantes poderão entrar, o terço utilizado pelos pescadores das Caxinas, uma relíquia da azinheira das aparições, a coroa do trono do retábulo da Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, um fragmento da porta da Capelinha das aparições após a dinamitação de 6 de março de 1922, as rosas de ouro oferecidas pelos Papas e placas com mensagens de agradecimento dos peregrinos por graças concedidas pela virgem Maria.
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Segundo o “sapo.pt” trata-se duma exposição no Santuário de Fátima a assinalar “os 100 anos da Capelinha das Aparições, uma construção singela, à imagem de muitas outras ermidas, que conseguiu resistir a uma dinamitação e a tentações da Igreja de a tornar mais erudita” – num equilíbrio entre arte contemporânea, arte antiga e objetos inéditos, que aponta para vários ângulos e perspetivas da história da Capela. E sublinhou o diretor do Museu do Santuário:
É uma peça de origem popular, aceite pela hierarquia, que não é trabalhada em gabinete de arquitetura, mas que tem uma força gravitacional e simbólica que, ao longo de um século, transporta dos mais diversos pontos do globo pessoas para a sua intimidade”.
Num dos núcleos encontram-se uma caixa de esmolas e uma carta dum crente ao padre a simbolizar a importância da iniciativa popular nos primeiros anos após as aparições de Nossa Senhora aos três pastorinhos – relevância reforçada com uma homenagem, no final da exposição, a Maria Carreira, primeira guardiã da capela, na convicção de que “Fátima tem uma componente, logo à nascença, mais do que popular, laical”, sendo a partir da força laical que “Fátima sobrevive e se impõe”, como sublinha Marco Daniel Duarte.
De facto, o cariz popular desta capela acaba por estar muito vincado na exposição, como é o caso de algumas das 400 placas votivas que estavam na capelinha e que foram retiradas nos anos 1970, onde se podem ler agradecimentos de peregrinos em várias línguas e onde surge até uma referência à guerra colonial. E, para o diretor do Museu do Santuário, é na força dessa iniciativa popular inicial que reside a explicação de a capela, de desenho simples, ter aguentado um século, embora a Igreja tenha manifestado reiteradamente a ideia de a reformular com uma arquitetura mais erudita, como mostra a exposição, com desenhos de propostas de outra capela.
E Marco Daniel Duarte discorre:
É, de facto, intrigante, como é que um edifício que, do ponto de vista artístico, não tenha qualquer valia que a diferencia de tantas outras ermidas que estão no nosso país de norte a sul. Uma ermida que não tem configuração artística de uma época específica consegue sobreviver a essa tentação que a Igreja teve ao longo das épocas de tornar a capela mais erudita. A resposta só pode ser dada a partir do conceito da verdade do que está feito. Aquela capela é um sinal feito por mãos populares, por iniciativa popular que queria de facto corresponder a um pedido que entendia ser do Céu. A constituição desse pedido leva a que ganhe essa força de tal maneira emblemática que a fez resistir a qualquer traçado erudito.”.
Capela Mundi” faz naturalmente referência a 1922 e ao momento em que a Capelinha das Aparições foi dinamitada, “numa ação de dolo para destruir aquilo que era o símbolo mais forte do Santuário de Fátima”, como refere o responsável da exposição, que apresenta um pedaço da porta destruída nesse episódio. Efetivamente nada podemos poderes contra Deus.
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Tudo isto testifica que não foi a Igreja que impôs Fátima, mas foi Fátima quem se impôs à Igreja e que, como refere o Papa Francisco, citando um bispo italiano, a piedade popular, expressa e acalentada no Santuário, “é o sistema imunitário da Igreja”, que “nos salva de muitas coisas”, na linha de Paulo VI, que a entendia como algo rico de valores, se bem orientada.
2018.12.12 – Louro de Carvalho