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domingo, 27 de janeiro de 2019

A Palavra de Deus, fulcro da comunidade, é geradora de alegria e festa


A liturgia do 3.º domingo do tempo comum, no Ano C, releva a Palavra de Deus como fulcro da comunidade, em torno do qual gravita a vida toda dos crentes, comprometidos que estão, pessoalmente e em comunidade, com o desígnio divino. É a Palavra de Deus o centro da nossa escuta, reflexão, ação e disponibilidade ao serviço de Deus e do próximo.
Não é uma doutrina abstrata, pasto e deleite da intelectualidade, mas o conteúdo da fé cujo núcleo essencial é o anúncio libertador de Deus a todos os homens que incarna em Jesus Cristo e nos cristãos ao estilo do seu Mestre e Senhor. Eles, constituídos pela Palavra como discípulos, rapidamente se dão conta da obrigação que lhes é outorgada de testemunhas, arautos, apóstolos e missionários, para o que necessitam de receber a força do Alto, sendo também Igreja orante.
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Os livros de Neemias e de Esdras (inicialmente, formavam uma unidade) são do período subsequente ao regresso do exílio da Babilónia. A transição do século IV aC para o V era ainda de miséria e desolação para Jerusalém, cidade agora sem muralhas e sem portas, sombra negra da cidade bela que fora. E Neemias, alto funcionário do rei Artaxerxes, sabendo das notícias de Jerusalém, obtém do rei autorização para ali se instalar. E inicia a sua atividade pela reconstrução da muralha (cf Ne 3-4) e pelo combate às injustiças dos ricos sobre os pobres (cf Ne 5), passando, depois, à restauração do culto (cf Ne 8-9).
É, pois, no contexto de preocupação cultual que se posiciona o trecho que serve de 1.ª leitura da Liturgia desta dominga (Ne 8,2-4a.5-6.8-10).
Quem tem a missão da Palavra tem de se preparar e de preparar tudo; proclamar ou fazer proclamar a Palavra clara e distintamente; refletir a Palavra e explicá-la de modo acessível, de forma que ela toque a assembleia que escuta (e a cada pessoa) e lhe questione a vida; e, depois, a Palavra deve acolhida com veneração e respeito e levar à mudança de vida.
Neemias convoca todo o Povo para uma assembleia “na praça sita diante da Porta das Águas”, para a escuta da leitura da Lei, pois é mister recordar ao Povo o compromisso fundante que assumiu com o seu Deus, a fim de se preparar o futuro novo que Neemias antevê para Jerusalém e para o Povo de Deus. O texto elege como questão essencial a relevância da Palavra de Deus na vida da comunidade, objetivo para que os diversos pormenores apontam:
- O hagiógrafo destaca a convocação mesmo de toda a comunidade para a escuta da Palavra: homens, mulheres e crianças em idade “de compreender”, já que a Palavra de Deus, dirigida a todos sem exceção, a todos questiona e põe em causa.
- O cenário físico releva o estrado de madeira feito de propósito que põe o leitor em plano superior; e o cenário dinâmico dá lugar de desataque à abertura do Livro da Lei de forma solene e ao posicionamento de todos, que se levantam em atitude de respeito e veneração pela Palavra – modelo da comunidade cujo fulcro é a Palavra de Deus e onde tudo e todos se dispõem em função do papel que a Palavra de Deus ocupa na vida da comunidade.
- Depois, vem o guião da “celebração da Palavra”: aclamação da Palavra pela assembleia; leitura clara e distinta da Lei pelos levitas; explicação da Lei ao povo pelos levitas, de modo acessível, de maneira que se possa compreender o que foi lido; e a resposta do Povo: confrontados com a Palavra, todos choram, o que revela, certamente, uma comunidade que se deixa pôr em causa pela Palavra, confrontando a vida com a Palavra proclamada e sentindo a urgência da conversão, porque a Palavra é eficaz e provoca a transformação da vida.
- E tudo termina em grande festa: o dia “consagrado ao Senhor” é um dia de alegria e de festa para a comunidade que se alimentou da Palavra e passa a alimentar-se fisicamente em família partilhando com quem não tem, pois um dos componentes da festa é a partilha.
Assim se exemplifica como a Palavra deve estar no centro da vida comunitária e, uma vez proclamada, é geradora de alegria e de festa.
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O Evangelho (Lc 1,1-4;4,14-21) apresenta-nos Cristo como a Palavra que Se faz pessoa no meio dos homens para levar a libertação e a esperança às vítimas da opressão, do sofrimento e da miséria. E, depois da Ascensão de Jesus, é a comunidade que tem a missão de anunciar ao mundo essa Palavra libertadora. É a comunidade que, atenta às moções do Espírito, gera modelos de oração, de testemunhas qualificadas, de apóstolos destemidos, de arautos eloquentes e de missionários ativos que percorrem todos os caminhos andados e não andados.   
Começamos, neste 3.º domingo do Tempo Comum, no Ano C, a leitura contínua do evangelho de Lucas, que nos acompanhará até ao final do ano litúrgico. Depois do ciclo do Natal e antes do ciclo da Páscoa onde se escutam, de forma descontínua, alguns episódios do evangelho de Lucas, o Tempo Comum oferece-nos, de forma ininterrupta, domingo após domingo, episódio após episódio, a vida e a mensagem de Jesus. Tal leitura contínua, além de nos proporcionar o ensejo de contemplar de perto os mistérios da vida do Senhor, constitui um convite à entrada na aventura fascinante do seguimento de Jesus à luz do evangelho lucano.
O Evangelho desta dominga é constituído por duas passagens evangélicas diferentes.
A primeira (1,1-4) é um prólogo literário à laia dos escritores helénicos da época em que o evangelista apresenta a obra: fruto de investigação cuidada (método) dos “factos que se realizaram entre nós” (assunto), a fim de que os crentes de língua grega (a quem o Evangelho de Lucas se dirige) (destinatários) verifiquem “a solidez da doutrina em que foram instruídos” (finalidade).
Talvez porque iniciamos a leitura ininterrupta do evangelho de Lucas, a liturgia da Igreja houve por bem oferecer-nos, na primeira parte do evangelho deste domingo e antes da narração do início do ministério de Jesus, o prólogo do evangelho lucano. Na verdade, os quatro primeiros versículos deste trecho são os versículos introdutórios da obra lucana, em que o evangelista oferece um prólogo com a apresentação da obra.
O evangelho não é fruto da imaginação mas, como se disse, o resultado de acurada investigação “dos factos que se realizaram entre nós”. Assim, o evangelho de Lucas não nos oferece mitos e lendas, mas um acontecimento histórico concreto: o acontecimento Jesus de Nazaré. E Lucas dedica a obra ao “ilustre Teófilo”. Porém, não se trata dum tratado de História como se entende nos tempos hodiernos, mas de um percurso catequético, fundado nos dados históricos, é certo, porém, centrado em vetores fundantes, como a ação do Espírito Santo, a premência da oração, a mística do Reino, o relevo da misericórdia, a universalidade da salvação, a tomada de partido pelos mais fracos, o papel da mulher, a certeza da entrada no Paraíso…  
E pode afirmar-se que, na figura de Teófilo, Lucas dedica a sua obra a todos os crentes, a todos os amigos de Deus para os ajudar no seu seguimento do Senhor. Lucas sente-se na necessidade de colocar por escrito o resultado da investigação para que tenhamos conhecimento seguro do que nos foi ensinado, ou seja, a grande finalidade do evangelho é fortificar a fé dos crentes.
Lucas sente que não pode reservar para si aquilo que as “testemunhas oculares e ministros da Palavra” lhe transmitiram. Por isso, escreve a Teófilo – que significa “amigo de Deus” e pode ser uma pessoa singular influente na comunidade ou a antonomásia da mesma comunidade – para que tenha conhecimento seguro do que lhe foi ensinado. Com Teófilo e sua comunidade cristã, somos convidados por Lucas e pelos outros evangelistas a crer na Palavra, esta Palavra que muitos assinaram com o seu sangue. Não basta conhecê-la; é preciso obedecer-lhe e pô-la em prática para desenvolvimento da fé pessoal, do incremento da vida comunitária e do testemunho e da ação missionária fora de portas. Lucas não pergunta que erros tenhamos cometido, mas interpela-nos como amigos de Deus que dizemos ser e sugere que tiremos consequências desta força da Salvação oferecida a todos gratuitamente.
Na década de 80, desaparecidas as “testemunhas oculares” de Cristo, o cristianismo começa a defrontar-se com heresias e desvios doutrinais, que põem em crise a identidade cristã. Era, por isso, mister recordar aos crentes as suas raízes e a solidez da doutrina recebida de Jesus pela via do testemunho legítimo, que é a tradição apostólica.  
A segunda passagem evangélica (4,14-21), que é programática, apresenta o início da pregação de Jesus, que Lucas coloca em Nazaré, tendo como cenário de fundo o do culto sinagogal, no sábado. A celebração na sinagoga consistia em orações e leituras da Lei e dos Profetas, com o respetivo comentário. Os leitores eram membros instruídos da comunidade ou, como no caso de Jesus, visitantes conhecidos pelo competente saber na explicação da Palavra.
O núcleo do relato em causa está na proclamação dum texto do Trito-Isaías (cf Is 61,1-2) que descreve como concretizará o Messias a sua missão. Neste texto, Lucas expõe o programa que Jesus Se propõe realizar no meio dos homens, como proposta de libertação dirigida a todos os oprimidos. O ponto de partida é a leitura do texto referenciado, que apresenta o profeta anónimo que, em Jerusalém, consola os exilados, como um “ungido de Deus”, possuído do Espírito do Senhor, com a missão de gritar a “boa notícia” de que a libertação chegou ao coração e à vida de todos os prisioneiros do medo, do desânimo, do sofrimento, da injustiça e da opressão. Por outro lado, Jesus faz a atualização da profecia, apresentando-Se como o “profeta” que Deus ungiu com o seu Espírito para realizar esta missão libertadora. “Cumpriu-se hoje esta profecia”!
O projeto de Deus em prol dos prisioneiros do egoísmo, da injustiça e do pecado começa, portanto, a cumprir-se na ação de Jesus. Na sequência, Lucas descreve a atividade de Jesus na Galileia como o anúncio (em palavras e em gestos) da “boa notícia” dirigida preferencialmente aos pobres e marginalizados (leprosos, doentes, publicanos, mulheres…), anunciando a chegada do fim de todas as escravidões e o tempo novo da vida e da liberdade para todos.
Lucas anuncia ainda, neste texto programático, o futuro caminho da Igreja e as condições da sua fidelidade a Cristo. A comunidade crente toma consciência, através deste texto, de que a sua missão é a mesma de Cristo e consiste em levar a “boa notícia” da libertação aos mais pobres, débeis e marginalizados do mundo. Ungida pelo Espírito e seguindo Jesus, a Igreja leva a cabo esta missão.
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São Jerónimo interpela-nos com o seguinte comentário:
Lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as santas Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em ‘comer a minha carne e beber o meu sangue’, embora estas palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?”.
Nestes termos, deveremos interrogar-nos:
Quantas vezes desperdiçamos, por negligência e distração, a Palavra que Deus dirige a cada um de nós na Liturgia da Palavra, esquecendo que, ‘quando na Igreja se lê a Sagrada Escritura é Ele [Cristo] quem fala (GS, 7)’?
Para nos orientarmos na proclamação e escuta da Palavra, a 1.ª leitura deste domingo, retirada do livro de Neemias, como já foi visto, indica-nos três verbos representativos de três momentos que marcam o itinerário correto da relação com a Palavra de Deus: ler, explicar e compreender
Antes de mais, é necessário ler. Mas esta leitura não é uma leitura qualquer. A leitura da Palavra de Deus não pode improvisar-se; tem, antes, de ser uma leitura cuidada, programada e didática. Esdras escolheu com cuidado o local da reunião e da proclamação da Palavra de Deus. O povo reuniu-se no lugar pré-determinado, longe do ruído da cidade e com uma boa acústica. Os que liam a Palavra de Deus não a liam de qualquer modo, mas de forma clara e distinta. Além disso, havia um estrado de madeira, feito de propósito para essa ocasião a fim de que o leitor pudesse ser visto e ouvido por todos.
A seguir, vem a explicação. Com efeito, como reza um provérbio antigo, “toda a palavra da Bíblia tem setenta rostos”. Por isso, requer-se um trabalho de exegese, que desenterre todos os tesouros que se encontram em cada página da Escritura. Assim, a homilia não é algo acessório, dispensável e quanto mais curta melhor. É, antes, um momento de extrema importância na liturgia da Palavra: “é parte da liturgia e muito recomendada: é um elemento necessário para alimentar a vida cristã” (IGMR, 65). É nela que se desenterram os tesouros escondidos nas leituras proclamadas. Por conseguinte, tem de haver grande cuidado quer do sacerdote na preparação e execução da homilia quer dos fiéis na sua escuta.
Por fim, vem a compreensão, não a compreensão meramente intelectual, mas a compreensão nutrida pela inteligência e pelo coração. A escuta da Palavra de Deus deve-nos conduzir, como conduziu o povo sob a direção de Neemias, ao exame de consciência, ao arrependimento e à conversão. As lágrimas que o povo derramou sinalizam a consciência do não seguimento da Palavra e exprimem sinceramente o arrependimento. Não é só às lágrimas de arrependimento que a leitura da Palavra de Deus nos conduz; a Palavra proclamada é geradora de festa, de alegria e de felicidade: “Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza”. E o facto de Deus hoje nos dirigir a sua palavra salvadora e Se interessar por nós é fonte de alegria e de festa. Além disso, a Palavra de Deus não é uma palavra de condenação, mas de salvação.
Com efeito, a Palavra de Deus encarnada e definitiva é Jesus de Nazaré que a segunda parte do evangelho, já comentada, nos apresenta ao iniciar do seu ministério público. Jesus inicia-se publicamente participando no culto da sinagoga. Aí proclama o texto de Isaías sobre o ungido do Senhor e onde se indica a missão do Messias: anunciar a boa-nova, proclamar a redenção, dar a vista, restituir a liberdade e proclamar o ano da graça. Faltou “o dia da vingança do nosso Deus”, o que irritou os ouvintes viam aqui a truncação do texto profético, que Jesus omitiu deliberadamente, pois não veio para condenar, mas para recuperar o que estava perdido.
Depois da leitura, Jesus, como verdadeiro mestre, senta-se e faz a sua homilia sobre a Palavra que acabara de proclamar. Porém, não comenta o texto do profeta; reinterpreta-o e proclama o seu cumprimento. Na verdade, em Jesus de Nazaré cumprem-se as promessas da salvação, com Ele começa o eterno ‘hoje’ da salvação, continuado pela oração e ação da Igreja.
Por isso, façamos festa e alegremo-nos, partilhando a alegria e os haveres! 
2019.01.27 – Louro de Carvalho

domingo, 23 de setembro de 2018

A relevância da Epístola de Tiago


Nos domingos XXII, XXIII, XXIV, XXV e XXVI do Tempo Comum no Ano B, tomam-se para 2.ª leitura da Liturgia da Palavra da Missa dominical consideráveis e significativos trechos da Epístola de Tiago. Pelo que ela apresenta de polémico e pertinente, convém uma referência, ainda que modesta, esta peça do Novo Testamento (NT).
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Pertinência da epístola e problemas de canonicidade
A Epístola de Tiago não foi recorrentemente comentada ao longo dos séculos, provavelmente pela sua índole de exortação moral e sabor judaico: só duas vezes menciona o nome de Jesus (1,1; 2,1) e propõe como modelos apenas figuras do Antigo Testamento (AT): Abraão, Job, Raab, Elias. Mas atualmente merece especial interesse dos estudiosos por apresentar uma exposição viva e espontânea da mensagem no ambiente das primitivas comunidades cristãs de origem judaica e revelar uma série de contrastes que despertam a atenção. É uma das epístolas católicas do Novo Testamento (NT), assim designadas porque foram escritas como cartas circulares, isto é, para serem lidas em várias igrejas, ao contrário das Epístolas de Paulo, enviadas a igrejas específicas ou a determinadas personalidades. Entretanto, fica evidenciado pelo conteúdo que o autor dirige os seus conselhos aos cristãos judeus recém-convertidos.
Não foi originalmente confirmada como livro inspirado pela autoridade da Igreja. No começo do século IV, Eusébio de Cesareia afirmava que ela ainda é contestada por alguns. Na Reforma Protestante, alguns teólogos, como Martinho Lutero, argumentavam que a Epístola não deveria integrar o NT canónico, devido à alegada controvérsia entre a “justificação pelas obras”, ali contida, e a “justificação pela fé” pregada nas cartas paulinas. Lutero via aí uma contradição com a doutrina do sola fide (“só pela fé”). Na África, desconhecem-na Tertuliano e Cipriano; e o catálogo de Mommsen (cerca do ano de 360) não a contém. Não figura no cânone de Muratori, editado por Ludovico Antonio Muratori, e é muito duvidoso que tenha sido citada por Clemente Romano ou pelo autor do Pastor de Hermas. Foi, porém, incluída entre os 27 livros do NT relacionados por Atanásio de Alexandria e, posteriormente, confirmada por uma série de concílios no século IV. E, nas igrejas de língua siríaca, foi apenas no decurso do século IV que a epístola foi introduzida no cânone do Novo Testamento. Mas, mesmo não tendo canonicidade, não criou problemas no Egito, onde Orígenes a citou como inspirada. Com o passar dos tempos a maior parte das denominações do Cristianismo considerou-a como uma epístola canónica do NT.
Só se percebe que é epístola pelo primeiro versículo, pois tem o aspeto de homilia. Mostra grande afinidade com os livros do AT, mormente os Sapienciais (Pr, Sb e Sir), Proféticos (Is, Jr e Ml) e com os escritos judaicos (Pirqê Abot, Testamento dos 12 Patriarcas, etc.). Mas está impregnada do espírito cristão. Nela se contam 29 dependências do Sermão da Montanha (Mt 5-7), duas alusões ao Batismo (1,21; 2,7) e à lei da liberdade (1,25; 2,12), a relação entre a fé e as obras, problema candente no cristianismo (2,14-26), a única referência expressa do NT à Unção dos Enfermos (5,14-15) e a insistência na perfeição (1,4.17.25; 2,22; 3,2), como em Mateus.
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Estilo e linguagem
O autor exprime-se num grego de alto nível, só comparável ao da Epístola aos Hebreus. O texto contém muitos hebraísmos expressos em construções tipicamente hebraicas (1,22; 2,12; 4,11), paralelismo, parataxe, genitivo de qualidade (1,25; 5,15); e tem, efetivamente um vocabulário rico (63 palavras não aparecem no resto do NT, 45 encontram-se nos Setenta e 4 estão ausentes do grego helenístico) e utiliza os recursos retóricos da diatribe cínico-estoica, pequenos diálogos com um interlocutor imaginário (2,14-26), interrogações retóricas (2,4.5b.14.16; 3,11-12; 4,4.5) e interpelações incisivas (1,16.19; 4,13; 5,1), mais de 60 imperativos, paradoxos e contrastes (1,26; 2,13.26; 3,15; 4,12) e frequentes exemplos e comparações – o que dá à Epístola grande vivacidade, fazendo pensar em escritores como Epicteto ou Séneca.
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A questão da autoria e do tempo da escrita
Havia vários homens importantes no Novo Testamento que se chamavam Tiago. O autor identifica-se somente como “Tiago, servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo” (Tg 1,1).
É mencionado Tiago, irmão de Jesus, no Evangelho de Mateus (Mt 13,55) e no de Marcos (Mc 6,3). Esse Tiago tornou-se seguidor do Senhor após a Ressurreição. Estava entre os discípulos que, no cenáculo, esperavam a vinda do Espírito Santo e “perseveravam de modo unânime em oração e súplica” (At 1,14). Segundo o relato do historiador Flávio Josefo, teria sido martirizado nas mãos dos judeus no ano 63 d. C, pensando alguns que é este o autor da Epístola. Assim dum homem nessa posição de responsabilidade e autoridade haver-se-ia de esperar uma carta pastoral de conselhos práticos concernentes a questões que afetavam a vida espiritual da Igreja, sendo exatamente isto que é encontrado na Epístola. E outros supõem que o autor seria o outro apóstolo Tiago, filho de Alfeu (Mt 10,3), o que é visto com hesitação pelos antigos eruditos, sendo que os modernos ainda o discutem, inclinando-se para a negativa.
Todavia, esta epístola terá sido escrita pelo apóstolo Tiago, filho de Zebedeu (Mt 10,2; Mc 13,17; Lc 6,14), que Herodes Agripa I ordenou à morte em 44 d. C. (At 12,2). Contudo, alguns eruditos repudiam esta tese, que é a comummente seguida.
Também, por exemplo, os Padres Capuchinhos sustentam que a hipótese de um escrito posterior pseudoepigráfico não oferece probabilidade, pois um estranho que se quisesse servir dum nome notável não deixaria de apelar para títulos tão importantes como “Apóstolo” ou “Irmão do Senhor”, coisa que o autor não faz, limitando-se a apresentar-se modestamente como “servo de Deus e do Senhor Jesus Cristo” (1,1). Assim, a teoria de a Epístola ser um escrito judaico retocado por cristãos, como alguns defenderam, é destituída de base sólida, dado que tem um cunho cristão. A Tradição da Igreja é unânime em atribuí-la a um Apóstolo do Senhor, de nome Tiago; e, se a perfeição do grego utilizado não condiz com um Tiago palestino, isto poderia dever-se à redação cuidada dum culto secretário judeo-cristão ligado ao Apóstolo. Mas o autor também não deve ser Tiago Maior, o Apóstolo irmão de João, pois foi martirizado muito cedo (em 42 ou 44). E alguns pensam que tão pouco é o outro Apóstolo do mesmo nome, o filho de Alfeu (vd Mc 3,18 par.), mas um terceiro Tiago, “o irmão do Senhor”, homem de grande prestígio, ligado aos Apóstolos e chefe da comunidade de Jerusalém (At 12,17; 15,13-21; 21,18-25; Gl 1,19; 2,9.12), o qual, após a Ressurreição, passou a crer em Jesus. A identificação habitual destes dois Tiagos (o Menor, “filho de Alfeu” e “o Irmão do Senhor”) só se teria dado no correr dos séculos, a partir do que se diz em Gl 1,19: “Não vi nenhum outro Apóstolo, exceto Tiago, irmão do Senhor”.
Trata-se, enfim, de uma questão largamente discutida, pois este texto de Gálatas pode entender-se de outra maneira, traduzindo, em vez de “exceto Tiago”, por “mas somente Tiago”.
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Quanto ao tempo da escrita da Epístola, não há evidências, na Epístola ou de fontes externas, que ajudem a determinar com exatidão a data em que ela foi escrita. Contudo, alguns estudiosos conservadores argumentam que pode ter sido escrita em 45 d. C., enquanto outros acreditam que fora escrita em 62 d. C. Há ainda datas mais recentes baseadas no facto de o autor não fazer qualquer menção do problema da admissão de gentios na Igreja, posto que é conhecido que Tiago estava profundamente preocupado com esta questão numa época posterior. Esses que propõem uma data posterior encaram as doutrinas evangélicas contidas na Epístola como sendo para uma Igreja que está a dar os primeiros passos na fé, o que favorece a tese da datação posterior às cartas aos Gálatas e aos Romanos, em que Paulo tratou de assuntos doutrinários fundamentais. Entretanto, o aspecto-chave não é o ano exato, mas o período. Se, como indicam os relatos históricos extrabíblicos, Tiago foi martirizado em 63 d. C., a epístola claramente foi escrita antes dessa data.
Entretanto, a maioria dos estudiosos adota a seguinte posição: trata-se do primeiro escrito cristão, dos fins da década de 40, pois tem um aspeto muito primitivo, como se vê ao chamar à comunidade cristã “sinagoga” (traduzível por “assembleia” – 2,2), parecendo mesmo ignorar, como se disse, a crise judaizante e a conversão dos pagãos. Outros pensam que foi escrita por volta do ano 60, pouco antes da morte de Tiago, irmão do Senhor, que se deu pelo ano 62 ou 63, pois pensam que Tg 2,14-26 pressupõe as Epístolas de Paulo aos Romanos e aos Gálatas, que alguns deturpavam para justificarem uma vida fácil.
Não parece ter base suficientemente sólida classificá-la como um escrito tardio: a ausência de elementos do primeiro anúncio (kerigma) não serve para estabelecer a data, mas a natureza do documento, e as semelhanças com Mateus não exigem uma redação posterior.
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Do universo dos destinatários
Na aplicação simbólica do autor provavelmente referida aos judeus que aceitaram Jesus como Messias e Salvador através da pregação do Evangelho. Tiago dirige a epístola “às doze tribos dispersas entre as nações” (1,1). No contexto judaico, o termo “doze tribos” designa a totalidade do Povo de Israel. O uso do termo “dispersão” pode figurar uma alusão às primeiras perseguições sofridas pela Igreja que levaram os convertidos a Cristo a espalharem-se por diversas regiões palestinas e extrapalestinas, em conexão com o segmento “entre as nações”. Além disso, Tiago, ao usar tal construção, poderia ter em mente todo o “Israel Espiritual” que abrange os diversos fiéis a Cristo Jesus em diversas etnias, culturas, e regiões.
Os destinatários desta Epístola são nominalmente “as doze tribos da Dispersão” (1,1), mas não seriam nem os judeus da emigração fora da Palestina – os da Diáspora em sentido próprio, havendo quem pense mesmo em judeus helenizados de tendência essénia – nem os cristãos em geral, dispersos pelo mundo (a “Diáspora” em sentido figurado). Seriam os judeo-cristãos da Diáspora, embora sem excluir outros cristãos em contacto com Tiago.
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Da estrutura e do conteúdo
Como escrito tipicamente didático e moral, a Epístola não obedece a um plano doutrinal previamente elaborado. Os temas sucedem-se ao correr da pena, sempre com a preocupação dominante de apelar a que os fiéis vivam o espírito cristão em todas as circunstâncias de um modo coerente com a fé, em perfeita unidade de vida, pois o comportamento dos cristãos tem de ser um reflexo da sua fé.
O material está organizado em cinco capítulos. O primeiro consta de saudação aos destinatários (1,1), a atitude cristã perante as provações com relevância para o benefício a tirar delas (1,2-18) e a necessidade de pôr em prática a Palavra (1,19-27), de modo que não sejamos apenas ouvintes mas praticantes; o segundo a borda o tema da caridade para com todos (2,1-13) e o da fé com obras (2,14-26); no terceiro, sobressaem os temas do domínio da língua (3,1-12), com vista à remoção da maledicência, e o da verdadeira sabedoria (3,13-18); o quarto trata da origem das discórdias (4,1-12) e da necessidade de evitar a presunção (4,13-17); e o quinto exibe as advertências aos ricos (5,1-6), exortação quanto à vinda do Senhor (7-12), exortação sobre a unção dos enfermos, a confissão dos pecados e a oração (13-18) e uma advertência final sobre o mérito que alguém alcança por conseguir a conversão de quem se desvie da verdade (19-20).
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Observa-se frequentemente que esta Epístola é o livro com as mais marcantes caraterísticas judaicas do NT. Mercê desse aspeto e da ênfase no comportamento piedoso, é comparada à literatura sapiencial  do AT, como se disse. Em razão da sua preocupação com a justiça social, Tiago é recorrentemente tratado como o Amós do NT. Nota-se, ainda, profunda similaridade dos ensinamentos do autor com os ensinamentos de Jesus no Sermão da Montanha  (Tg 5,12; 5,2; 4,11.12; cf Mt 5,34-37; 6,19; 7,1; Lc 6,20-26.37-42); fator que é assim visto por Doremus Almy Hayes:
Tiago é aquele que faz menos menção acerca de Jesus do que qualquer outro autor do Novo Testamento, contudo, em compensação, o seu discurso é o que mais se assemelha ao discurso do Mestre quando comparado ao discurso dos outros escritores”.
Os cristãos judeus a quem Tiago se dirige enfrentavam problemas pessoais e outros maiores nas suas comunidades congregações devido a religiosidade e hipocrisia de alguns. Nesse contexto, os cristãos, que despendiam absoluta atenção aos ricos (1,9-11; 2,1-13), passavam por grandes provações e tentações (1,2.9-15) e outros eram despudoradamente roubados pelos ricos (5,1-6). Os cristãos judaicos, por terem passado muitos anos apegados a religião local, ainda competiam por cargos de liderança nas comunidades confirmando a sua imaturidade na fé em Cristo.
A principal dificuldade da Igreja era o facto de muitos dos cristãos judeus não viverem de acordo com a profissão de fé em Jesus Cristo (1,22-25) e a maledicência causar problemas sérios (1,26; 4,11-12), a ponto de gerar conflitos e divisões (3,14). Além disso, existia um problema no atinente à mentalidade mundana reinante e à necessidade de renovação da mente (1,27).
Entretanto, Tiago não discute uma série de problemas variados aleatoriamente; todos esses conflitos têm uma só causa: a imaturidade espiritual. Com efeito, os cristãos referidos pelo autor, em síntese, não estavam a crescer e a amadurecer espiritualmente, fator que aponta para o tema central da epístola: as caraterísticas de uma vida cristã madura.
Em várias ocasiões Tiago usa o termo perfeito, palavra que significa madurocompleto (1,4.17.25; 2,22; 3,2); ao fazer menção de um “perfeito varão” (3,2) não se refere ao indivíduo impecável, mas ao indivíduo maduro e equilibrado. O autor exorta os seus leitores a que se desenvolvam sobre o alicerce da Salvação perfeita de Cristo e cresçam em maturidade, enumerando algumas caraterísticas de um cristão maduro: é paciente em meio à provação (cap. 1), sendo a paciência, segundo o que se observa na Epístola, o cerne duma vida cristã próspera e ideal; pratica a verdade na caridade (cap. 2); controla sua língua (cap. 3); é um pacificador, não um contendedor (cap. 4); e ora em face dos problemas (cap. 5).
E exorta quem já possui maturidade espiritual a que auxilie o mais fraco na fé a voltar a prática do verdadeiro evangelho de Cristo e assim tal irmão receberá de Deus a devida recompensa:
Meus irmãos, se algum de vós se desviar da verdade e alguém o trouxer de volta, lembre-se disto: Quem converte um pecador do erro do seu caminho, salvará a vida dessa pessoa e fará que muitíssimos pecados sejam perdoados” (Tg 5,19-20).
O escrito de Tiago é a Escritura de referência (Tg 5,13-15) para a prática da unção dos enfermos:
Se algum de vós estiver doente, chame os anciãos da igreja, a fim de que estes orem sobre a pessoa enferma, ungindo-a com óleo em o Nome do Senhor; e a oração, feita com fé, curará o doente, e o Senhor o levantará”.
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Como foi dito, esta Epístola é o único escrito do NT a referir expressamente o Sacramento da Unção dos Doentes (5,13-15), que não aparece como um piedoso costume, mas como um dos Sacramentos instituídos por Cristo. De facto, a unção é feita apenas pelos presbíteros da Igreja, em nome do Senhor e obtém efeitos sobrenaturais, como o perdão dos pecados.
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A questão relacionada com a passagem do cap. 2,14-26
A intensa vertente de ensino do autor da Epístola a incidir nos resultados práticos da fé cristã, às vezes, torna-o um aparente oponente de Paulo no que toca à salvação, visto que este enfatiza que a salvação é resultado exclusivo da fé (Rm 4), pensamento aparentemente contrário ao que Tiago defende. Tamanha é a aparente contradição entre os dois escritos no assunto relativo a salvação, que  Lutero, pretenso adepto do pensamento de Paulo, designou a Epístola de Tiago como contrária a fé cristã e a denominou de “epístola de palha”.
Entretanto, ao analisar-se cautelosamente a Epístola e o pensamento do autor, nota-se a ocorrência de diferenças linguísticas em função do público-alvo: Paulo escreveu a gentios e Tiago a cristãos judeus. Neste aspeto, Tiago usa a palavra ‘fé’ referindo-se a um consentimento marcadamente intelectual, ao passo que o uso paulino do termo ‘fé’ se refere à convicção que transporta consigo o consentimento da vontade. Quando Paulo menciona ‘obras’, refere-se às obras da Lei, isto é, as obras do legalismo judaico, que nunca poderiam dar salvação, enquanto Tiago usa o mesmo termo referindo-se às boas ações que fluem naturalmente dum coração coerente com a fé professada e cheio de amor por Deus e pelo próximo.
É evidente nas Escrituras que os ensinamentos de Paulo e os de Tiago são substancialmente concordes, porquanto Paulo também escreve:
Pois, diante de Deus, não são os que simplesmente ouvem a Lei considerados justos, mas os que obedecem à Lei, estes serão declarados justos” (Rm 2,13).
Portanto, os ensinamentos de Tiago retratam a fé como força transformadora, que molda cada cristão à imagem de Cristo – mudança exteriorizada através do viver santo, justo, e reto (Tg 1,4). Por conseguinte, não há contradição com a teologia paulina, mas sim complemento: enquanto Paulo retrata o “primeiro” estágio da vida cristã, a redenção, Tiago versa o “segundo” estágio, os frutos da redenção na vida dos remidos.
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Na aplicação litúrgica dominical do Tempo Comum no Ano B
No XXII domingo (Tg 1,17-18.21b-22.27), afirma-se que toda a dádiva vem do Alto, que é necessário sermos não apenas ouvintes da Palavra (expressa no conjunto dos livros santos, que têm o seu ápice no Evangelho), mas seus praticantes em coerência da fé que professamos, e que a verdadeira religião consiste no compromisso com os oprimidos, explorados, marginalizados e descartados – expressos em “os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” – (sob pena de a nossa religiosidade ser vã) e em não nos deixarmos contaminar pela mundanidade.   
No XXIII domingo (Tg 2,1-5), condena-se contundentemente o nosso comum procedimento de discriminação de pessoas e grupos, mesmo na assembleia litúrgica, a imagem sacramental da Igreja – o que significa traição à pessoa de Jesus Cristo e banalização da celebração litúrgica por idolatria às pessoas e grupos socialmente qualificados e ignorância e desprezo pelos marginalização – pobres, doentes, incultos e descartados.   
No XXIV domingo (Tg 2,14-18), ensina-se-nos que, para ter fé, não basta aderir intelectualmente a um Credo, mas é preciso estar numa atitude de acolhimento à inspiração e graça divinas. E, em coerência com esta atitude de acolhimento, importa seguir a exigências da fé que, em comunhão eclesial, professamos e com a qual nos comprometemos. Se é certo que não são as obras da Lei de Moisés que nos salvam, mas a fé em Cristo redentor, também é certo que a fé, enformada pelo amor ao próximo como Cristo fez, ensinou e mandou, exige a prática das boas obras que o Evangelho prescreve e a que a leitura atenta dos Sinais dos Tempos nos induz aqui e agora. A relação entre a fé frutificante em boas obras é a roupagem do homem perfeito.     
No XXV domingo (Tg 3,16 – 4,3), sobressai a ideia-força de que a Sabedoria, tal como a fé, vem do Alto e, se intensamente pedida e cultivada, constitui um antídoto poderoso conta a inveja e a rivalidade, que levam à desordem e às más ações. Por outro lado, a sabedoria enquanto dom do Espírito Santo leva-nos a saber o que e como rezar. Sem ela, arriscamos a pedir e a não receber porque pedimos mal, porque pedimos o mal (a satisfação das nossas paixões e a disseminação dos males e vícios) ou porque pedimos sendo maus. Ora, Deus chamou-nos por meio do Evangelho para alcançarmos a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo.
No XXVI domingo (Tg 5,1-4), ressoa a invectiva lucana contra os ricos (cf Lc 6,24-25a). Tiago insurge-se contra o amontoar de riquezas por duas razões: a religiosa e a social. Por um lado, o Evangelho de Cristo sublinha o primado do Reino dos Céus, vindo o resto por acréscimo; por outro, a corrida ao lucro, sobretudo de forma desenfreada e ilícita, é causa de miséria, opressão, repressão, desigualdades e injustiça social e económica, podendo gerar cobiças, contendas, guerras e assassinatos. Além disso, o trabalhador merece o salário condigno, sem o qual a penúria do explorado e faminto se levantará ao céu contra o devedor injusto e fraudulento.
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Concluindo
Em suma, a leitura congruente da Epístola de Tiago, o Amós do NT, poderá vir a ser receita eficaz contra a injustiça social galopante num mundo de conflito que tende a abafar a grande generosidade das almas e o labor profícuo das instituições. Pode ser o melhor antídoto contra a corrupção, que tende a meter-se em todos os escaninhos da atividade humana. E apetece concluir como Tiago escreve na Epístola: “Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes, no qual não há mudanças nem períodos de sombra. Por sua livre decisão, nos gerou com a palavra da verdade, para sermos como que as primícias das suas criaturas (1,17-18). E como conclui a incentivar ao apostolado junto do irmão: “Se algum de vós se extravia da verdade e alguém o converte, saiba que aquele que converte um pecador do seu erro salvará da morte a sua alma e obterá o perdão de muitos pecados (5,19-20).
Prosit!
[cf Alves, H. (coordenador), Nova Bíblia dos Capuchinhos, Difusora Bíblica, Lisboa/Fátima: 1997, pgs 1990-1997; Den Bern, A. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Vozes, Petrópolis: 1985, pg 1507; Leahy, T. “Epistola de Santiago”, in Comentario Biblico “San Jeronimo”, Cristiandad, Madrid: 1972, pgs 291-312; CEP, Missal Popular Dominical, Gráfica de Coimbra, Coimbra: 1994, pgs 944.956.967-968.981.994; CEP, Missal Quotidiano Dominical e Ferial, Paulus, Lisboa: 2016, pgs 1854.1888.1923.1961.1997; https://pt.wikipedia.org/wiki/Ep%C3%ADstola_de_Tiago]
2018.09.22 – Louro de Carvalho