Mostrar mensagens com a etiqueta Paixão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paixão. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de março de 2018

A Boa Nova da missão do verdadeiro Messias


Rumo à glorificação do Filho do homem
A Liturgia da Palavra do 5.º domingo da Quaresma, Ano B, evidencia a preocupação de Deus em facultar-nos o caminho da salvação. Para correspondermos a essa divina preocupação, temos de pautar a vida pela escuta da Palavra de Deus, perscrutando com atenção o projeto de Deus, e pela doação aos irmãos. A 1.ª leitura (Jr 31,31-34) mostra Jahwéh a propor a Israel uma nova Aliança pela qual Deus mude o coração do Povo, pois só com um coração transformado o homem será capaz de pensar, decidir e agir em consonância com as propostas de Deus. Por sua vez, a 2.ª leitura (Heb 5,7-9) apresenta Jesus, o sumo-sacerdote da nova Aliança, que Se solidariza com os homens e lhes aponta a rota da vida definitiva – a mesma que Jesus seguiu e que postula o diálogo com Deus, a descoberta dos seus desafios e propostas, a obediência radical ao seu projeto. E a perícopa do Evangelho proposta para esta Liturgia (Jo 12,20-33) – eco de Nm 21,9 e Jo 3,14-15 – convida-nos a olhar para Jesus, aprender com Ele e segui-Lo no rumo do amor radical, do dom da vida, da entrega total a Deus e aos irmãos. A via da cruz, aos olhos do mundo, é fracasso e morte, mas, de verdade, é desse caminho de amor e de doação que brota a vida verdadeira e eterna que Deus nos oferece.
***
A promessa de uma Aliança nova
No texto de Jeremias acima referenciado, fica patente a promessa do Senhor de estabelecer com Israel uma nova Aliança. A aliança sinaítica impusera obrigações escritas em tábuas de pedra, obrigações sentidas como imposição vinda de fora, que tinha de ser recordada reiteradamente. Assim, a história de Israel era tendencialmente a história das infidelidades do povo ao pacto sinaítico. A aliança nova será diferente porque as suas cláusulas serão escritas no coração, vindo todos a conhecer as suas obrigações sem a necessidade de ensino ou lembrança. E, sem coação externa, todos serão interiormente movidos a pôr em prática os preceitos da Lei gravada no coração, que não pode empedernir-se. Esta promessa inteiramente gratuita atinge-nos mediante o Messias, por quem nós invocamos o perdão de Deus e a graça de um coração novo.   
Jeremias, profeta nascido em Anatot por volta de 650 a.C., exerceu a missão profética desde 627/626 a.C. até depois da destruição de Jerusalém pelos Babilónios (586 a.C.). O cenário da sua atividade é, em geral, o reino de Judá (mormente a cidade de Jerusalém). A 1.ª fase da pregação de Jeremias abrange parte do reinado de Josias, rei preocupado com a defesa da identidade política e religiosa do Povo de Deus, pelo que leva a cabo uma profunda reforma religiosa, destinada a banir do país o culto aos deuses estrangeiros. A mensagem de Jeremias, nesta fase, sintetiza-se no constante apelo à conversão, à fidelidade a Jahwéh e à Aliança. No entanto, em 609 a.C., Josias é morto em combate contra os egípcios, sucedendo-lhe Joaquim no trono, pelo que a 2.ª fase da atividade profética de Jeremias abrange o tempo do reinado de Joaquim (609-597 a.C.), o qual, sendo um tempo de desgraça e de pecado, constitui uma fase de incompreensão e sofrimento para Jeremias. E o profeta ergue-se a criticar as injustiças sociais (algumas fomentadas pelo próprio rei) e a infidelidade religiosa (concretizada, sobretudo, na busca das alianças políticas: por exemplo, na procura da ajuda dos egípcios, que significava não confiar em Deus e, em contrapartida, colocar a esperança do Povo em exércitos estrangeiros). Jeremias está convicto de que Judá ultrapassou todas as medidas e que está iminente uma invasão babilónica que castigará os pecados do Povo de Deus. É, sobretudo, isso que ele diz aos habitantes de Jerusalém. E as suas previsões funestas concretizam-se: em 597 a.C., Nabucodonosor invade Judá e deporta para a Babilónia parte da população de Jerusalém. E, no trono de Judá, senta-se Sedecias (597-586 a.C.), sendo este reinado o tempo em que se desenrola a 3.ª fase da missão de Jeremias. Após anos de submissão à Babilónia, Sedecias experimenta a política de alianças com o Egito. E Jeremias discorda de que se confie em exércitos estrangeiros mais do que em Jahwéh. Mas nem o rei, nem os notáveis prestam atenção às advertências do profeta.
Em 587 a.C., Nabucodonosor cerca Jerusalém. Porém, um exército egípcio, vindo em socorro de Judá, faz retirar os babilónios. Face à euforia nacional, Jeremias anuncia o recomeço do cerco e a destruição de Jerusalém (cf Jr 32,2-5). Acusado de traição, o profeta é preso (cf Jr 37,11-16) e corre perigo de vida (cf Jr 38,11-13). E, enquanto ele prega a rendição, Nabucodonosor apossa-se de Jerusalém, destrói a cidade e deporta a sua população para a Babilónia (586 a.C.).
Embora seja impossível dizer com segurança o contexto em que surgiu essa mensagem que o trecho proposto para hoje apresenta, alguns comentadores dizem tratar-se dum oráculo situável na 1.ª fase da atividade profética de Jeremias (reinado de Josias) e dirigido aos israelitas do Reino do Norte. Seria a mensagem de esperança a animar esse povo que, há cerca de cem anos, tinha perdido a independência e estava sob o domínio assírio. Para outros, contudo, o texto será da época de Sedecias, entre a primeira e a segunda deportação do Povo para a Babilónia (597-586 a.C.) – época em que Jeremias descobre perspetivas teológicas novas e passa a refletir sobre um tempo novo que Deus oferecerá ao seu Povo: após a catástrofe, é possível recomeçar, pois Deus tenciona fazer uma nova Aliança com Judá. É pois, verdade que Deus está disposto a firmar nova Aliança com o seu Povo, mas diferente da sinaítica. Esta foi uma Aliança externa, gravada em pedra e que o Povo nunca interiorizou. Apresentava leis que o Povo devia cumprir; mas eram leis externas, que não atingiram o coração do Povo nem lhe mudaram substancialmente o estilo de vida. Por isso, o Povo de Deus continuou em trilhos de infidelidade a Deus, injustiça, autossuficiência, pecado. O Povo aderiu à Aliança mais com a boca do que com o coração.
Sem a adesão efetiva do coração, era impossível manter a fidelidade aos preceitos e exigências da Aliança. Ora, verificada a falência daquela Aliança, Deus seguirá outro caminho e proporá a nova Aliança (em todo o AT, esta expressão, familiar aos cristãos só surge aqui) que se estribe noutras bases. Em concreto, Deus intervirá para gravar as suas leis e preceitos no coração, no íntimo de cada membro do Povo. É o anúncio duma nova etapa totalmente decisiva que inaugurará os últimos tempos. É uma novidade essencial à eficácia da economia da Salvação.
Na antropologia semita, o coração é, a par da sede dos sentimentos, a sede dos pensamentos, projetos, decisões e ações do homem. É o centro do ser, é a consciência onde o homem dialoga consigo mesmo, toma as suas decisões, assume as suas responsabilidades. Portanto, a iniciativa de Deus possibilitará que as exigências da Aliança sejam interiorizadas por cada membro do Povo de Deus e que estejam presentes nessa sede onde nascem os pensamentos, se definem os valores, se decidem as ações. Com um “coração” assim transformado (que pensa, decide e age segundo os esquemas e a lógica de Deus), cada crente viverá na fidelidade à Aliança, na obediência aos mandamentos, no respeito pelas leis, no amor a Jahwéh. E Jahwéh será, efetivamente, o Deus de Israel; Israel será, verdadeiramente, o Povo que vive de acordo com as propostas de Deus e que testemunha Deus no meio do mundo. Com este género de relação, Jahwéh jamais será um “desconhecido” para o seu Povo. Então, Entre Deus e Israel será possível o estabelecimento de uma relação pessoal (e não apenas de grupo, de povo) de proximidade, intimidade, familiaridade. A comunhão com Jahwéh não será uma lição dificilmente aprendida, mas algo de inato e natural, que brota dum coração de pessoa em permanente diálogo com Deus.
Na última frase do texto, Deus anuncia o perdão para as faltas do seu Povo: um perdão total e sem reservas, que é o primeiro resultado desta nova relação que se estabelece entre Deus e o seu Povo. Também aqui se manifesta o “amor eterno” e pessoal de Deus.
***
“No sofrimento aprendeu a obediência”
A perícopa de hoje da Carta aos Hebreus evoca a oração do Getsémani (cf Mc 14,36) e o brado do abandono no Calvário (cf Mc 15,34). Jesus, o Filho de Deus, partilhou connosco a angústia da morte revelando-nos a compaixão divina. O grito angustiado de Jesus nasce da fé “naquele que o podia livrar da morte”. “E foi atendido”, mas não como o esperaríamos. Deus não o poupou ao sofrimento nem o preservou da morte. O modo como o Pai atendeu estas preces foi a glorificação do Filho mediante o amor total e incondicionado mostrado na prova suprema da Paixão e da Morte. Então, Jesus atingiu a plenitude da capacidade de mediação sacerdotal.
A Carta aos Hebreus é um sermão escrito de autor anónimo cujo destinatário se desconhece (o título provém das referências veterotestamentárias e ao ritual dos “sacrifícios” apresentados). Terá sido dirigida a uma comunidade cristã constituída maioritariamente por cristãos vindos do judaísmo, o que não é totalmente seguro, pois o Antigo Testamento era património comum, assumido por todos os cristãos (tanto os vindos do judaísmo como os vindos do paganismo). Trata-se, porém, de cristãos em situação difícil, expostos a perseguições por viverem em ambiente hostil à fé. E são cristãos que se deixam vencer pelo desalento: perdido o fervor inicial, cedem às seduções de doutrinas não coerentes com a fé recebida dos apóstolos. Assim, o escopo do autor é incitar a vivência do compromisso cristão e levar os crentes a crescer na fé. Para tal, expõe o mistério de Cristo do ângulo do sacerdote da Nova Aliança, a linha de rumo do Tempo Novo, e recorda a fé da Igreja.
O trecho proposto para hoje integra uma longa reflexão (cf Heb 3,1-9,28) sobre o sacerdócio de Cristo. Em concreto, a perícopa de Heb 5,1-10 aborda o sacerdócio de Cristo por comparação com o sumo-sacerdote do Antigo Testamento, elencando uma série de aspetos semelhantes e de opostos. Na perspetiva do autor, o sumo-sacerdote é um homem que, pela sua humanidade e fragilidade, é capaz de entender os pecados dos seus irmãos (“pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza” – Heb 5,2); oferece sacrifícios, “tanto pelos seus pecados, como pelos do povo”, para refazer a comunhão entre Deus e o homem (Heb 5,3); e é chamado por Deus a desempenhar esta missão, tal como sucedeu com o sacerdote Aarão (Heb 5,4). São três elementos bem patentes em Cristo, o sumo-sacerdote da nova Aliança.
Cristo, apesar de Filho de Deus, foi o homem que viveu entre os homens e experimentou a fragilidade e a debilidade deles. Chorou, sofreu, sentiu amargura, angústia e medo ante a morte, como qualquer homem. Por isso, é o sumo-sacerdote, capaz de compreender as fraquezas e as fragilidades dos homens. A partir dessa compreensão, será também capaz de dar-lhes remédio.
O seu sacerdócio realizou-se no constante diálogo com o Pai. Pela oração intensa, Ele procurou sempre, discernir e cumprir a vontade do Pai. Mesmo nos momentos mais duros e difíceis, escutou o Pai, manteve a adesão incondicional ao Pai, manifestou total disponibilidade para cumprir o projeto salvífico que o Pai queria, por Ele, oferecer aos homens. Deste modo, Jesus, na oração e pela oração, converteu toda a sua vida numa oferenda ao Pai, num “sacrifício” de doação ao Pai. Ao fazer da sua vida um dom, entrega total, “sacrifício”, Ele realizou o projeto de refazer a comunhão entre Deus e os homens. Pela obediência, ensinou os homens a viver em comunhão total com Deus, a cumprir o projeto de Deus e a amar os irmãos até ao dom total da vida. Pela obediência, eliminou o egoísmo e o pecado que afastavam os homens de Deus. Sendo, pela comunhão total com o Pai e com os homens, o modelo de Homem Novo, torna-se para quantos escutam a sua mensagem e O seguem “fonte de salvação eterna” (v. 9).
Jesus Cristo é, portanto, o sumo-sacerdote da nova Aliança. Conhece e entende as fragilidades dos homens e está apto a oferecer-lhes a ajuda necessária para que possam alcançar a salvação. Cumprindo integralmente o projeto do Pai, mostra aos homens que a via da salvação está na comunhão com Deus, na obediência radical ao projeto de Deus e no dom da vida aos irmãos. Jesus é, pois, um sumo-sacerdote que proporciona eficazmente aos homens a salvação, levando-os ao encontro de Deus e da vida plena.
***
“E, quando Eu for elevado da terra, atrairei todos a Mim”
Este episódio em que Jesus anuncia a sua hora da Paixão e a glória da cruz – a Páscoa do Senhor, apenas relatado no Evangelho de João (como chave de interpretação da missão do Salvador), identifica-nos com os “gregos” que queriam ver Jesus. Todos buscamos na vida a felicidade, o amor, a esperança, as respostas às nossas questões, a verdade, a beleza. Buscamos a referência que sirva de orientação para a nossa vida, que aclare o seu horizonte, que estabeleça o rumo certo para a felicidade. Ora, essa referência é Jesus, que nos mostra o caminho da verdadeira felicidade. Este episódio lança-nos o desafio: se alguém nos pede o que os “gregos” pediram a Filipe (“Queremos ver Jesus”), temos de saber satisfazer-lhe esse pedido. Dito de outro modo: as nossas palavras, atitudes e vida têm de suscitar nos outros o desejo de conhecer Jesus. Porém, ter a capacidade para levar outros a ver Jesus exige uma vida vivida, em todos os momentos e circunstâncias, com a coerência com que Jesus viveu.  
O trecho evangélico apresenta um aparente paradoxo: perder a vida por amor é o modo de a ganhar para os valores fundamentais e definitivos; dar a vida é o melhor modo de a receber. Ora, captar e entender esta aparente contradição (perder-ganhar, morrer-viver, dar-receber) é descobrir a Boa Nova do verdadeiro Messias. A morte de Jesus é a nossa vida, é um convite a vivermos dum modo novo, sem egoísmo, ajudando a pôr fim a todas as mortes gratuitas. Se vivermos com a coerência de Jesus, seremos luz que não se apaga, Páscoa que não passa, meta de todos os caminhos, Ressurreição. A morte de Jesus na cruz é o resultado da sua coerência de vida. A morte é para Ele e para nós a chave da verdadeira vida. A glória não está na morte, mas na vida que nasce da morte, como Lázaro cuja morte foi ensejo de glorificação para o Filho de Deus. A morte é aceite na linha da metáfora do grão de trigo cuja morte é condição da frutificação.
***
A ação referida nesta perícopa evangélica situa-nos em Jerusalém, provavelmente no próprio dia da entrada solene de Jesus na cidade santa (cf Jo 12,12-19). As multidões “que tinham chegado para a Festa” haviam aclamado Jesus como o rei/messias, encenando um rito de entronização e ovacionando Jesus como “o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel” (Jo 12,12-13). Segundo João, as pessoas colheram ramos de palma e saíram ao encontro dele – gesto ligado, no folclore religioso judaico, à Festa das dos Tabernáculos ou das Tendas, a festa que celebrava o tempo em que os israelitas viveram em tendas, pela caminhada pelo deserto, após a libertação do Egito. O autor sugere, assim, que está iminente o processo de libertação definitiva do Povo de Deus, apresentando uma chave de leitura para entender a morte próxima de Jesus. No quadro entram alguns gregos que tinham subido a Jerusalém para adorar e queriam ver Jesus. Aqui, “gregos” significará “não judeus”. Serão prosélitos (estrangeiros convertidos ao judaísmo) ou simpatizantes do judaísmo. Aqueles “gregos” dirigem-se a Filipe, de Betsaida, cidade situada na tetrarquia de Herodes Filipe e que já fora do território judeu propriamente dito. Registe-se que “Betsaida” significa “lugar de pesca” (alusão à missão dos discípulos de “pescadores de homens” – Mc 1,17). Filipe vai falar com André a propósito do pedido e os dois apresentam o caso a Jesus.
A história dos “gregos” que querem “ver Jesus” serve de pretexto a João para uma oportuna catequese sobre o que significa “ver Jesus”. Trespassado na cruz é causa de Salvação!
Os “gregos”, que vieram a Jerusalém para “adorar” a Deus no Templo, quiseram encontrar-se com Jesus, conhecer Jesus e o seu projeto. Com isto, sugere-se que o Templo e o culto antigo já não são os lugares onde o homem encontra Deus e a salvação; agora, quem está interessado em encontrar a verdadeira libertação deve dirigir-se a Jesus. Por outro lado, a salvação/libertação que Jesus trouxe tem um alcance universal e destina-se a todos os homens – mesmo aos que vivem fora das fronteiras físicas de Israel. Aqueles “gregos” não se dirigem diretamente a Jesus, mas aos discípulos, o que pode configurar um aceno à responsabilidade missionária da comunidade, encarregada da missão de levar Jesus a todos os povos da terra. O facto de Filipe falar primeiro com André e só depois irem os dois contar a Jesus o que se passa releva a dificuldade das primeiras comunidades cristãs em darem o passo para a evangelização dos pagãos. João sugere que a decisão de integrar os pagãos na comunidade não é uma decisão individual, mas decisão que a comunidade tomou após consulta ao Senhor.
Mais: quem vai ao encontro de Jesus não encontrará o messias aclamado pelas multidões, com a preocupação de gerir a carreira, manter a todo o custo o seu clube de fãs, fazer prodígios de equilíbrio para não desagradar às autoridades e não arruinar as hipóteses de êxito. No horizonte próximo de Jesus, está a cruz (a “hora”). Está cônscio de que vai sofrer morte violenta e maldita, e de que todos o abandonarão como um fracassado, mas entrega-se voluntariamente. Paradoxalmente, está cônscio de que nessa cruz se manifestará a glória do Filho do Homem. A sua morte não é um momento isolado, mas o culminar dum processo de doação total de Si, que se iniciou quando “o Verbo Se fez carne e montou a sua tenda no meio dos homens” (Jo 1,14); é o último ato duma vida de entrega total ao projeto de Deus, feita amor até ao extremo. Durante a sua existência terrena, Jesus procurou, em cada palavra e gesto, tornar o homem livre de todas as opressões, dotá-lo de dignidade, dar-lhe a vida em plenitude. Assim, suscitou o ódio do sistema opressor, interessado em manter o homem escravo. Sem se assustar com a via da morte, cumprindo até ao fim o projeto libertador de Deus em prol do homem, Jesus levou avante a luta pela libertação da humanidade. A sua morte é a consequência do seu confronto com as forças da morte que dominavam o mundo. Por outro lado, dando a vida por amor, deixa aos discípulos a última e suprema lição, a lição que eles devem aprender. Com a morte de Jesus na cruz, os discípulos aprendem o amor até ao extremo, o dom total da vida, a entrega radical ao projeto de Deus e à libertação dos irmãos.
Deste “dom” de Jesus nasce uma nova humanidade, uma humanidade que Jesus libertou da opressão, da injustiça, dos mecanismos que geram sofrimento e medo, uma humanidade que venceu o egoísmo e aprendeu que a vida é para ser dada, sem limites, por amor. Não há dúvida de que o dom da vida dá abundantes frutos de vida. Na cruz de Jesus manifesta-se, portanto, o projeto libertador de Deus para os homens. E quem quiser conhecer Jesus deve olhar para esse Homem que põe totalmente a sua vida ao serviço do projeto de Deus e que morre na cruz para ensinar aos homens o amor sem limites. Deve aprender a verdade que, para Jesus, é evidente: não se pode gerar vida sem entregar a própria vida. A vida nasce do amor que se dá até às últimas consequências. Só o amor como dom total é fecundo e gerador de vida (“se o grão de trigo caído na terra não morrer, permanece só; se morrer, produz muito fruto” – v. 24). Dizia Santo Agostinho: “Semeava Cristo e germinava a Igreja. Caiu o grão, ressuscitou o grão e o grão subiu ao céu, onde está a multidão dos grãos.” (S. Agostinho, Sermão 335 E [= LAMBOT 7], 2). Quem se ama a si mesmo e se fecha no egoísmo, quem apenas aposta em defender os seus interesses e perspetivas, perde a oportunidade de chegar à vida verdadeira, à salvação. O apego egoísta à própria vida levará ao medo de agir, à dificuldade em comprometer-se, ao silêncio face à injustiça – a uma vida de medo e de opressão, infecunda e que não vale a pena ser vivida. Ao invés, quem é livre do medo, se esquece dos seus próprios interesses e seguranças e se compromete com a luta pela justiça, pelos direitos, pela dignidade e liberdade do homem, quem ama tanto os outros que entrega a sua vida por eles, dará frutos de vida e viverá uma vida plena, que nem a morte calará.
Jesus viveu esta dinâmica da vida dada por amor, sem medo de enfrentar esse sistema de opressão e de injustiça que pensava poder manter os homens escravos através do medo da morte. Jesus está livre desse medo e, portanto, está livre para amar totalmente. Àqueles que querem “ver Jesus”, Ele propõe o mesmo caminho – o caminho do amor e da entrega total. Ser discípulo é colaborar com Jesus na libertação dos homens que ainda são escravos, mesmo que isso signifique enfrentar as forças de opressão do mundo e enfrentar a própria morte (“se alguém Me quer servir, siga-Me” – v. 26a). Quem aceitar esta proposta permanece em Jesus, entra na comunidade de Deus (v. 26b). Pode ser desprezado pelo mundo, mas será honrado por Deus e acolhido como seu filho (v. 26c).
E o texto termina com a voz do céu que glorifica Jesus (v. 28-32). É o modo de mostrar que a via da cruz, assumida por Jesus tem o selo de Deus. A “voz do céu” sela a verdade do estilo de vida proposto por Jesus é verdadeiro e assegura que Deus lhe garante a autenticidade. Confirma, assim, aos discípulos que dar a vida por amor não é via de fracasso e morte, mas de glorificação e vida, liberdade e vitória. Pela verdade, tornamo-nos livres e pelo sinal da cruz venceremos!
2018.03.15 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Morreu para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos

Hoje, dia 14 de abril, é Sexta-feira Santa ou Sexta-feira da Paixão. Neste dia de aparente desolação, os cristãos lembram o julgamento, paixão, crucifixão, morte e sepultura de Jesus Cristo, através dos ofícios litúrgicos e ações de devoção popular ou catequéticas que levam à meditação compungente do Mistério da Redenção. 
Segundo a tradição cristã, a ressurreição de Cristo aconteceu no domingo seguinte ao dia 14 de nisã, no calendário hebraico. A mesma tradição refere ser esse dia primeiro da semana (hoje denominado “domingo”) o terceiro dia desde a morte de Jesus. Assim, contando a partir do domingo e sabendo que o costume judaico, tal como o romano, contava o primeiro e o último dia, chega-se à sexta-feira como dia da morte do Senhor.
Na Igreja Católica, este dia integra o Tríduo Pascal, o mais significativo do ano litúrgico. A Igreja promove a celebração e a contemplação da paixão e morte de Cristo ou o contacto com o Cordeiro Pascal, sendo este único dia em que não se celebra, em absoluto, a Eucaristia.
Por ser o dia em que se contempla de modo especial Cristo crucificado, as rubricas da Liturgia prescrevem que, neste dia e no seguinte, se “adore” o crucifixo (Cristo pregado na cruz) com o gesto da genuflexão, ou seja, de joelhos.
Não obstante, mesmo sem a celebração da missa, realiza-se, para lá da recitação ou do canto da Liturgia das Horas, uma celebração litúrgica própria deste dia. Tal celebração, muito semelhante à celebração da Eucaristia, na sua estrutura, difere essencialmente desta pelo facto de não ter Oração eucarística (com a consagração), a mais importante parte da missa.
A celebração da morte do Senhor consiste na apresentação e adoração de Cristo crucificado, precedida por uma liturgia da Palavra, com uma especial oração universal, e seguida pela comunhão eucarística dos participantes, apenas sob a espécie de pão. No entanto, pela comunhão do Pão que dá a Vida, Corpo do Senhor, somos “batizados” no sangue de Jesus, somos mergulhados na sua morte. Unidos à fonte mesma da vida sobrenatural, ficamos cheios de força para passarmos da morte do pecado à alegria da ressurreição. Presidida por um presbítero ou bispo, paramentado como para a missa, de cor vermelha, a celebração estruturada em Liturgia da Palavra, Adoração da Santa Cruz e Sagrada Comunhão, a realizar depois das três horas da tarde, tem a sequência seguinte:
- Entrada em silêncio do presidente e ministros, que se prostram em adoração diante do altar, que deve estar totalmente desnudado (em cruz, candelabro ou velas e sem toalhas);
- Oração coleta;
- Liturgia da Palavra – leitura do livro de Isaías (quarto cântico do servo de Javé, Is 52,13-53,12), salmo 31 (30) – com o refrão “Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito” –, leitura da Epístola aos Hebreus (Hebr 4,14-16; 5,7-9), aclamação ao Evangelho e leitura do Evangelho da Paixão segundo João (Jo 18,1-19,42, geralmente em forma dialogada);
- Homilia e silêncio para reflexão e oração pessoais;
- Oração Universal, mais longa e solene do que a da missa, seguindo o esquema – formulação da intenção, silêncio, oração do presidente;
- Adoração da Cruz – apresentação da cruz aos fiéis com fórmula cantada três vezes, osculação e adoração, ao som de cânticos (antífonas de adoração, impropérios e hino à cruz);
- Pai Nosso e embolismo;
- Comunhão dos fiéis presentes, a partir da sagrada espécie de pão tomada da consagração da missa do dia anterior (aos doentes a comunhão pode ser levada a qualquer hora);
- Oração depois da comunhão;
- Oração, de bênção e de pedido de perdão, sobre o povo;
- Retirada em silêncio.
Em muitas comunidades, a seguir ou em outro momento aprazado, realiza-se a Procissão do Enterro, também conhecida como Procissão do Senhor Morto, em que são cantados motetos em latim ou em vernáculo. Noutros lugares ainda, é recitada a Via-Sacra, chegando a sê-lo de forma teatralizada.
Toda a liturgia deste dia se processa em função de Cristo crucificado. Assim, a liturgia da Palavra visa introduzir os fiéis no mistério do sofrimento e morte de Jesus, que assim aparece como ação livre de Cristo pela salvação de toda a humanidade. O Cristo morto na cruz, por sentença condenatória devida à insciência e maldade dos homens, é o mesmo da Última Ceia dado em comunhão – mistério da fé – corpo entregue por nós, sangue derramado por nós e por toda a humanidade para remissão dos pecados.
A “adoração” da cruz, símbolo da salvação, pretende dar expressão concreta à adoração de Cristo crucificado por parte da assembleia sagrada que representa a humanidade pecadora. A Cruz deixou de ser o sinal de infâmia e da escravidão para ser o “sinal do amor universal de Deus” e símbolo do nosso resgate, da nossa liberdade. Nela adoramos Jesus Cristo, o Salvador que nela foi suspenso. É a Ele que exprimimos o nosso reconhecimento com o ósculo do afeto da fé, é a Ele, que nos reconciliou com o Pai, que pedimos a força para levarmos a nossa cruz.
A comunhão eucarística constitui a forma mais perfeita de união com o Mistério Pascal de Cristo e um ponto culminante na união dos fiéis com Cristo crucificado. O facto de se comungar do pão consagrado no dia anterior vem exprimir e reforçar a unidade de todo o Tríduo Pascal. Através do corpo sacramental do Senhor Crucificado e ressuscitado, ficamos também mais unidos ao seu Corpo Místico, ou seja, a Igreja ou o Cristo que sofre e morre nos seus membros à semelhança de Cristo-cabeça deste corpo.
A Igreja exorta ainda os fiéis a que, neste dia, observem alguns sinais de penitência, em memória da morte de Cristo e em solidariedade com os irmãos que não têm. Assim, convida-nos à prática do jejum e da abstinência de carne ou de comidas opimas e mais agradáveis ao paladar.
***
Jesus morreu, ou melhor, deixou-se flagelar, cravar de espinhos e crucificar na Cruz até à morte, não por prazer (Se é possível afasta de mim este cálice…, mas faça-se a tua vontade não a minha!), mas para cumprir, em obediência livre, a vontade do Pai que se exprimia no desígnio de salvação de todos os pecadores. É eloquente o texto da 1.ª Carta de Pedro que nos dá conta das razões do suplício do Senhor:
Ele não cometeu pecado, nem na sua boca se encontrou engano; ao ser insultado, não respondia com insultos; ao ser maltratado, não ameaçava, mas entregava-Se Àquele que julga com justiça; subindo ao madeiro. Ele levou os nossos pecados no seu corpo, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: pelas suas chagas fostes curados. Na verdade, éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes ao Pastor e Guarda das vossas almas.” (1Pe 2,22-25).
O Evangelho de João põe na boca de Caifás, que era Sumo Sacerdote naquele ano e que disse: “Vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo e não pereça a nação inteira” (cf Jo 11,49-50). E o evangelista comenta essa tirada de Caifás no sentido de que “ele não disse isto por si mesmo, mas, como era Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus devia morrer pela nação” (Jo 11,51). E acrescentou à razão dada pela negativa o motivo de ordem mais positiva: “E não só pela nação, mas também para congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11,52).
A morte de Jesus é, pois, uma morte vicária, já que Ele pagou por nós, pela nação inteira, e tem em vista a condução das ovelhas dispersas ou desgarradas de volta ao seu Pastor e Guarda (texto de Pedro) ou, nas palavras de João, congregar na unidade os filhos de Deus que estavam dispersos”. Como símbolo da unidade que não devia ser quebrada temos a túnica inconsútil de Jesus, que os soldados resolveram não dividir ou rasgar, mas lançar à sorte, enquanto repartiram entre si, como despojos do crucificado, as suas vestes (cf Jo 19,23-24).
***
Porém, quase desde os primórdios, os discípulos não souberam manter a unidade. Todos a apregoam. A túnica inconsútil anda à sorte nas mãos ora duns, ora doutros. E o panorama é o das heresias, dos cismas ou das diversas e antagónicas confissões de fé no mesmo Cristo.
Por isso, é preciso jurar em definitivo em redor da Cruz a unidade dos cristãos, fazer o esforço ecuménico e torna-lo irreversível. Mas não basta. É preciso ir mais além e congregar em torno do Crucificado todos os homens num diálogo paciente e respeitador das diversas idiossincrasias. O valor da Cruz é universal. Assim, a modo do que preconiza a oração universal do dia de hoje, aos pés da Cruz, temos de rezar e nos comprometer por e com: o fortalecimento da unidade da Igreja; a eficácia da ação do Santo Padre e a sua proteção; a santificação dos ministros da Igreja e de todo o povo de Deus; o aumento da fé e da sabedoria dos catecúmenos; a congregação de todos os cristãos na unidade; a condução dos judeus à plenitude da redenção; a iluminação com a luz de Deus de todos os que não creem em Cristo; a revelação aos ateus dos sinais da presença de Deus nas obras da criação; a orientação do espírito e do coração dos governantes; o conforto dos atribulados; e o socorro dos defuntos.   
Na verdade, além de consumar pela Cruz a sua obra redentora, o Senhor constitui para nós um exemplo a seguir (Dei-vos o exemplo para que façais como Eu fiz” – Jo 13,15). A este respeito Pedro ensina:
Mas se, fazendo o bem, sofreis com paciência, isso é uma coisa meritória diante de Deus. Ora, foi para isto que fostes chamados; visto que Cristo também padeceu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos. (1Pe 2,20-21).
Por isso, como o Senhor Jesus, também nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos. De facto, “não há maior prova de amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).
Cristo não é propriamente e apenas um mártir, como faziam crer os escritores românticos. Ele é o mesmo o redentor. Não foi morto apenas pro ódio à fé, mas porque Se disse filho de Deus, Rei, Messias e porque vinha para dar testemunho da Verdade, na certeza de que aqueles que são da Verdade ouvem a sua voz. Na Cruz, Ele tornou-se caminho, verdade e vida. Os mártires pela fé no Evangelho são testemunhas de Cristo morto e redivivo e são seguidores deste caminho de calvário e de cruz, para que, tal como o grão de trigo que, lançado à terra, nasce, cresce e dá muito fruto, assim o mundo fique polvilhado de discípulos de Cristo pelo apagamento e pela morte dos heróis da Missão, para que o mundo creia e seja mais humano, justo e fraterno.
***
Cristo “rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso, Deus O elevou acima de tudo e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, que há no céu, na terra e sob a terra; e toda a língua proclame queJesus Cristo é o Senhor!”, para glória de Deus Pai.

2017.04.14 – Louro de Carvalho

domingo, 9 de abril de 2017

Domingo de Ramos inaugura a Semana Santa, a Semana Maior

“Antes da Páscoa vêm os Ramos” é um provérbio português que revela a sabedoria de quem não atrapalha o tempo e sabe esperar colocando cada coisa no seu tempo e no seu lugar.
Porém, em termos teológicos e espirituais, deve ter-se em conta que a Páscoa da Ressurreição não seria possível sem o domingo que celebra a entrada triunfal de Jesus na sua cidade de Jerusalém, aclamado com hossanas Àquele que vem em nome do Senhor, o Messias, o Rei de Israel. Eram as multidões ruidosas e as vozes inocentes das crianças que O aclamavam. Na verdade, como canto o Salmo 8, “da boca das crianças e dos pequeninos” o Senhor fez uma fortaleza contra os seus inimigos, para fazer calar os adversários rebeldes.
E, quando Jesus percebeu que os inimigos desta manifestação teofânica pretendiam calar este arruído popular, sentenciou: “se eles se calarem, gritarão as pedras” (Lc 19,40).   
Era preciso que se cumprisse o que foi dito pelo profeta: “Dizei à filha de Sião: Aí vem o teu Rei, ao teu encontro, manso e montado num jumentinho, filho de uma jumenta” (Mt 21,4-5).
Por isso, ao aproximarem-se de Jerusalém e chegados a Betfagé, junto ao monte das Oliveiras, Jesus mandou dois discípulos à aldeia que estava em frente deles para trazerem uma jumenta presa e, com ela, um jumentinho; e que, se alguém os questionasse, respondessem: ‘O Senhor precisa deles, mas logo os devolverá’ (cf Mt 21,1-3).
Os discípulos fizeram como Jesus lhes ordenara: trouxeram a jumenta e o jumentinho, puseram as capas sobre eles e Jesus sentou-Se em cima. Grande multidão estendia as capas no caminho; outros cortavam ramos das árvores e espalhavam-nos pelo chão e aclamavam-No (cf Mt 21,6-9).
Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou em alvoroço. E perguntavam quem era ele. E a multidão respondia: “É Jesus, o profeta de Nazaré, da Galileia” (cf Mt 21,10-11).
Assim, na procissão dos ramos, a anteceder a Missa, uma das sugestões de cânticos – a par dos salmos processionais 24 (23), pertencente ao género literário dos salmos do reino, próximos dos salmos reais, mas relativos à entronização simbólica de Javé como rei (com os temas da procissão, das portas do santuário e da chegada da glória de Deus), e 47 (46), em honra da realeza de Javé e em que se afirma a soberania universal do Deus de Israel e se convidam todos os povos a um louvor unânime – pode entoar-se o hino a Cristo Rei, cujo refrão é:
Glória, honra e louvor a Jesus Cristo, 
Que é nosso Rei e nosso Redentor. 
Como as crianças de Jerusalém, 
     Cantemos ao que vem 
     Em nome do Senhor.
E as estrofes:
1. Louvam os Anjos no alto dos Céus, 
Os homens cantam com ramos e palmas: 
Bendito seja o Filho de David, 
Senhor do mundo e Rei das nossas almas. 
2. Exulta o universo de alegria, 
Aclamando a vitória do Deus forte: 
O Cordeiro votado ao sacrifício 
É o Senhor que vai vencer a morte. 
3. A alegria do povo resgatado, 
Que celebra o triunfo de Jesus, 
Seja um dia perfeita e gloriosa 
Na claridade da eterna luz. 
***
A aclamação na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém é efémera, mas é um sinal revelador do que há de ser no fim dos tempos e traduz o significado profundo da Morte, Sepultura, Descida à Mansão dos Mortos e Ressurreição do Senhor. Uma réplica para a multidão da cena da transfiguração operada apenas perante Pedro e os dois filhos de Zebedeu entre Moisés, o da Lei e Elias, o da Profecia (vd Mt 17,1-9; Mc 9,2-10; Lc 9,28-36; 2 Pe 1,16-18). Trata-se de cenas que antecedem no discurso e na ação a Ressurreição de Jesus. Só que a entrada de Jesus em Jerusalém já era para se efetuar a sua entrega pelos homens na obediência à vontade do Pai: “por nós, homens e por nossa salvação…”.
Disse hoje, na sua homilia, o Papa Francisco que “este Jesus, cuja entrada na Cidade Santa estava prevista nas Escrituras nos termos em que aconteceu, não é um iludido que apregoa ilusões, um profeta ‘new age’, um vendedor de fumaça – Longe disso! – mas é um Messias bem definido, com a fisionomia concreta do servo, o servo de Deus e do homem que caminha para a paixão; é o grande Padecente da dor humana”.
Por isso, o domingo de Ramos, como porta de passagem para a Semana Santa, é também o domingo da Paixão. E, neste ano A, pôde ser proclamado e escutado em assembleia litúrgica o relato da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 26,14 – 27,66).
Com efeito, após a leitura do Livro de Isaías (Is 50,4-7), em que se contemplou o Servo que, feito discípulo, Se entregou para dar alento aos abatidos, e da Carta de São Paulo aos Filipenses, que nos ensina que Jesus Cristo, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas Se aniquilou e Se tornou semelhante aos homens, vimos como São Mateus vê em Cristo o cumprimento das profecias veterotestamentária sobre o Messias.
E, como dizia o sacerdote que presidiu à celebração eucarística em que participei, não vamos fixar-nos na traição de Judas nem na postura da tríplice negação de Pedro – temos é de as esconjurar da nossa vida –, mas devemos fixar-nos na confissão do centurião e daqueles que com ele guardavam Jesus no Calvário: “Este era verdadeiramente o Filho de Deus”. Ora, como sabemos, o centurião e os subalternos pensavam que este momento era o fim de Jesus. Porém, nós estamos seguros de que Ele não só era, mas é o Filho de Deus, o Senhor. De facto, como prega a Carta aos Filipenses, “porque Se rebaixou a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte e morte de cruz, é que Deus O elevou acima de tudo e Lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome, para que, ao nome de Jesus, se dobrem todos os joelhos, os dos seres que estão no céu, na terra e debaixo da terra; e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fl 2,8-11).
Da leitura da Paixão, devo destacar aqui e agora, não só a postura do traidor, que tantas vezes assumimos, quando nos afastamos da vida cristã ou atraiçoamos o próximo, ou a negação de Cristo, como fez Pedro, por vergonha ou respeito humano, com o receio de que nos critiquem, mas a atitude de achincalhamento ao Senhor.
Na verdade, os soldados do Governador levaram Jesus para o pretório, reuniram à sua volta toda a coorte, tiraram-Lhe a roupa e envolveram-No num manto vermelho, teceram uma coroa de espinhos, puseram-Lha na cabeça e colocaram uma cana na sua mão direita. Depois, ajoelhando escarneciam-No, dizendo: “Salve, Rei dos judeus!” (Mt 27,27-30).
Ora, nós fazemos isto a cada passo. Quantas vezes não apoucamos a figura de Jesus! Desencantam-me as procissões do Senhor dos Passos ou do Senhor da Aflição ou do Senhor da Cana Verde – rodeadas de foguetório, disputas, intrigas, bailaricos e gastos desnecessários. Torna-se obscena a atitude que tantas vezes tomamos contra a dignidade das pessoas: violência doméstica, violência no namoro, maus tratos a crianças, mulheres e idosos, tráfico de seres humanos ou de seus órgãos, exploração de trabalhadores, especialmente mulheres e crianças, criação de meninos-soldados, prostituição, abuso sexual de menores, piropos achincalhantes. Não estamos a apresentar assim tantas vezes um Cristo desnudo ou com o manto de escárnio? Não pomos em cima da cabeça do rei da criação, que tiritando chora, como dizia Alexandre Herculano, a coroa de espinhos?
A escuta do relato da Paixão de Jesus terá de nos interpelar também hoje a nós, mesmo que o terrorismo nos esteja a assustar e a condicionar a vida e as atitudes. Aliás, quem sabe se os atos terroristas não vêm na sequência do apagão do Evangelho por parte dos que se dizem cristãos!
***
Talvez seja oportuno refletir nas palavras que Francisco dirigiu aos participantes na celebração da Eucaristia de hoje, no quadro da sua homilia:
“Enquanto festejamos o nosso Rei, pensemos nos sofrimentos que Ele deverá padecer nesta Semana. Pensemos nas calúnias, nos ultrajes, nas ciladas, nas traições, no abandono, no julgamento iníquo, nas bastonadas, na flagelação, na coroa de espinhos... e, por fim, no caminho da cruz até à crucifixão.”.
Mas o Papa não esquece o desafio claro previamente lançado aos discípulos:
Se alguém quer vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me (Mt 16,24). Nunca prometeu honras nem sucessos. Os Evangelhos são claros. Sempre avisou os seus amigos de que a sua estrada era aquela: a vitória final passaria sempre pela paixão e pela cruz. E, para nós, vale o mesmo. Para seguir fielmente a Jesus, peçamos a graça de o fazer não por palavras, mas com as obras e de ter a paciência de suportar a nossa cruz: não a recusar nem jogar fora, mas, com os olhos fixos n’Ele, aceitá-la e carregá-la dia após dia.”.
Depois, “este Jesus, que aceita ser aclamado, mesmo sabendo que O espera o ‘crucifica-o!’, não nos pede que O contemplemos apenas nos quadros, nas fotografias, ou nos vídeos que circulam na rede”. Insiste o Pontífice:
“Está presente em muitos dos nossos irmãos e irmãs que hoje, sim hoje, padecem tribulações como Ele: sofrem com um trabalho de escravos, sofrem com os dramas familiares, as doenças... Sofrem por causa das guerras e do terrorismo, por causa dos interesses que se movem por detrás das armas que não cessam de matar. Homens e mulheres enganados, violados na sua dignidade, descartados.... Jesus está neles, em cada um deles, e com aquele rosto desfigurado, com aquela voz rouca, pede para ser enxergado, reconhecido, amado.”.
E o Papa avisa, para que ninguém se confunda ou distraia:
“Não há outro Jesus: é o mesmo que entrou em Jerusalém por entre o acenar de ramos de palmeira e oliveira. É o mesmo que foi pregado na cruz e morreu entre dois malfeitores. Não temos outro Senhor além d’Ele: Jesus, humilde Rei de justiça, misericórdia e paz.”.
***
Boa Semana Santa!

2017.04.09 – Louro de Carvalho

sábado, 26 de março de 2016

A partir da Cruz…

A partir da Cruz…

A partir da Cruz, não mais a vida pode ficar como dantes. Importa meditar e recolher as lições que em torno da Cruz nos são disponibilizadas.
***
Na sua homilia da missa crismal em quinta-feira santa deste ano de 2016, o Papa contrapôs à possibilidade de as palavras de Jesus na sinagoga de Nazaré serem aclamadas com uma salva de palmas – por assinalarem o “hoje” (cf Lc 4,21) do cumprimento da profecia isaítica (cf Is 61,1-9) – o facto de os sentimentos dos seus conterrâneos se situarem realmente “no lado oposto”.
É certo que a primeira reação foi a do testemunho de todos em seu favor e admiração com as “palavras repletas de graça que saíam da sua boca” (Lc 4,22). Porém, não se fez esperar a pergunta insidiosa a instalar a dúvida: “Não é este o filho de José, o carpinteiro?” E a dúvida deu lugar ao furor (Lc 4,28), a ponto de O quererem precipitar do cimo do penhasco. Seguiu-se, não a postura do povo de grata aceitação das palavras de Neemias com o choro alegre pela reconstrução das muralhas de Jerusalém, mas o cumprimento da profecia do velho Simeão a Maria: será “sinal de contradição” (Lc 2,34). De facto, as palavras e gestos de Jesus suscitam a revelação daquilo que cada homem e mulher trazem no seu coração, aberto ou fechado.
Por isso, o Papa alerta para a necessidade de escolha quando e onde “o Senhor anuncia o evangelho da Misericórdia incondicional do Pai para com os mais pobres, os mais marginalizados e oprimidos”. E a escolha deve recair no “bom combate da fé” (cf 1Tm 6,12), não “contra os seres humanos, mas contra o demónio (cf Ef 6,12), inimigo da humanidade”.
E, ao sublinhar que, “passando pelo meio dos que O queriam liquidar, seguiu o seu caminho (cf Lc 4,30), esclarece:
“Jesus não combate para consolidar um espaço de poder. Se destrói recintos e põe as seguranças em questão, é para abrir uma brecha à torrente da Misericórdia que deseja, com o Pai e o Espírito, derramar sobre a terra. Uma Misericórdia que move de bem para melhor, anuncia e traz algo de novo: cura, liberta e proclama o ano de graça do Senhor.”.
Para caraterizar a misericórdia divina, Francisco recorda a dinâmica do gesto do bom Samaritano, que, ao contrário de outros que passaram antes, “usou de misericórdia” (cf Lc 10,37): “comoveu-se, aproximou-se do ferido, faixou-lhe as feridas, levou-o para a pousada, pernoitou e prometeu voltar para pagar o que tivessem gasto a mais”. O dinamismo da misericórdia firma-se no encadeamento dos pequenos gestos, alargando-se sucessivamente em amor-ajuda.
***
Na celebração da Ceia do Senhor, em Castelnuovo di Porto (Roma), o Papa referiu, antes do lava-pés a refugiados, que “os gestos falam mais que as imagens e as palavras”. E contrapôs dois tipos de gestos no caminho da Cruz: o de Jesus, que serve e lava os pés aos mais pequenos; e, ao invés, o de Judas, que trai o Senhor, vendendo-O aos inimigos por 30 moedas e entregando-lho com o beijo hipócrita. E pretende enquadrar no gesto de Cristo todos em conjunto: “muçulmanos, hindus, católicos, coptas, evangélicos” – que “são irmãos e filhos do mesmo Deus” e por quem o Senhor entregou a sua vida na cruz.
Mas este gesto contrapõe-se aos gestos de guerra, de destruição – vividos há dias numa das cidades da Europa – como muitos outros que se espalham pelo mundo inteiro. São gestos similares ao de Judas. Porém, enquanto este era motivado pelo vil dinheiro, os agora mencionados são obra dos fabricantes e traficantes de armas, ávidos de sangue e não de paz, de guerra e não de fraternidade.
Epidermicamente, os gestos de Jesus e de Judas até são parecidos: lava-pés e beijo. Porém, enquanto Jesus lava os pés dos discípulos, judas vende-O e entrega-O por dinheiro. Também agora, de um lado, diz o Papa, estamos nós “todos em conjunto, de diversas religiões, diversas culturas, mas filhos do mesmo Pai, irmãos”; do outro, “aqueles pobres compram armas para destruir a fraternidade”.
A partir do gesto do lava-pés, como a partir da Cruz, é preciso que todos e cada um ultrapassem a sua história pessoal de “tantas cruzes, tantas dores” e ganhem “um coração aberto que deseje a fraternidade”. Importa que, na língua religiosa de cada um, irrompa a prece ao Senhor para que “esta fraternidade contagie o mundo” de modo que não estejam mais em causa “as 30 moedas para matar o irmão”, mas sempre esteja de pé “a fraternidade e a bondade”.
E, parafraseando o salmista (vd Sl 133/132), depois de saudar cada um, “de todo o coração”, no fim da missa, recordou e apelou a que se faça ver “como é belo viver, todos em união como irmãos”, embora “com culturas, religiões e tradições diferentes”. E esta irmandade tem um nome: “paz e amor”.
***
Voltando à homilia da missa crismal, em contexto de semana santa e de ano jubilar da misericórdia, é preciso não esquecer que a Cruz de Cristo é o cume da misericórdia divina. Por isso, o Bispo de Roma assegura, contra a violência e a indiferença:
“A Misericórdia do nosso Deus é infinita e inefável; e expressamos o dinamismo deste mistério como uma Misericórdia ‘sempre maior’, uma Misericórdia em caminho, uma Misericórdia que todos os dias procura fazer avançar um passo, um pequeno passo mais além, avançando na terra de ninguém, onde reinavam a indiferença e a violência”.
À sombra da Cruz, cada um, contemplando a vida com o olhar de Deus, fará “um exercício de memória descobrindo como o Senhor usou de misericórdia para connosco”, muito mais do que pensávamos. Depois, devemos “encorajar-nos a pedir-Lhe que dê um pequeno passo mais, que Se mostre ainda mais misericordioso no futuro, lançando-lhe o clamor. “Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia e dai-nos a vossa salvação” (Sl 85/84,8).
Esta atitude de súplica leva-os “sair dos nossos recintos” e a crer que “é próprio do coração de Deus transbordar de misericórdia” espargindo “de tal modo que a sua ternura sempre abunde, porque Ele “prefere ver algo desperdiçado a que falte uma gota; prefere que muitas sementes acabem comidas pelas aves a que falte à sementeira uma única semente, visto que todas têm a capacidade de dar fruto abundante, ora a 30, ora a 60, e até mesmo 100 por uma”.
E o Papa recorda aos sacerdotes a sua índole de “testemunhas e ministros da Misericórdia cada vez maior do nosso Pai”; a sua “doce e reconfortante tarefa de a encarnar como fez Jesus”, que passou pelo mundo, “andou de lugar em lugar, fazendo o bem e curando” (At 10,38), de mil e uma maneiras, para que chegue a todos”. Mais instou ao contributo de cada um “para inculturá-la, a fim de que cada pessoa a receba na sua experiência pessoal de vida e possa, assim, compreendê-la e praticá-la – de forma criativa – no modo de ser próprio do seu povo e da sua família”.
Depois e, porque é Deus quem dá o exemplo, expôs dois âmbitos em que o Senhor Se excede em misericórdia: o do encontro; e o do perdão, “que nos faz envergonhar e nos dá dignidade”.
O primeiro âmbito é o do encontro, em que Ele Se dá “totalmente e de um modo tal que, em cada encontro, passa diretamente à celebração duma festa”. E ilustra este âmbito com a parábola do Pai Misericordioso (cf Lc 15,11-32), em que sublinha:
“Ficamos estupefactos ao ver aquele homem que corre, comovido, a lançar-se ao pescoço do filho; vendo como o abraça e beija e se preocupa em lhe pôr o anel que o faz sentir-se igual, e as sandálias próprias de quem é filho e não assalariado; e como, a seguir, põe tudo em movimento, mandando que se organize uma festa”.
A seguir, comenta a maravilha desta superabundância da graça e sugere a nossa justa atitude:
Ao contemplarmos, sempre maravilhados, esta superabundância de alegria do Pai, a quem o regresso do filho consente expressar livremente o seu amor, sem hesitações nem distâncias, não temeremos em exagerar no nosso agradecimento. A justa atitude podemos apreendê-la daquele pobre leproso que, vendo-se curado, deixa os seus nove companheiros que vão cumprir o que ordenou Jesus e regressa para se ajoelhar aos pés do Senhor, glorificando e dando graças a Deus em alta voz (cf Lc 17,11-19).”
E, concluindo, explicita a ação e efeitos da misericórdia, suscitando a justa resposta da gratidão:
“Restaura tudo e restitui as pessoas à sua dignidade originária. Por isso, a justa resposta é uma efusiva gratidão: é preciso iniciar imediatamente a festa, vestir o traje, eliminar os ressentimentos do filho mais velho, alegrar-se e festejar… Porque só assim, participando plenamente naquele clima festivo, será possível depois pensar bem, pedir perdão e ver mais claramente como se pode reparar o mal cometido.”
O segundo âmbito é o próprio perdão. E este perdão não se circunscreve às “dívidas incalculáveis”, como a do servo que lhe suplica e se mostra mesquinho com o companheiro (Mt 18,23-35), “mas faz-nos passar diretamente da vergonha mais envergonhada para a dignidade mais alta, sem qualquer etapa intermédia”. Assim:
O Senhor deixa que a pecadora perdoada Lhe lave, familiarmente, os pés com as suas lágrimas (cf Lc 7,36-50). Logo que Simão Pedro se confessa pecador pedindo-Lhe para Se afastar dele, Jesus eleva-o à dignidade de pescador de homens (cf Lc 5,10).”
Ao contrário – e o Pontífice põe-nos o dedo na ferida – nós tendemos para a separação das duas atitudes: “quando nos envergonhamos do pecado, escondemo-nos e caminhamos com os olhos em terra, como Adão e Eva” (cf Gn 3,7-8); e, ao sermos elevados a qualquer dignidade, “procuramos encobrir os pecados e gostamos de nos mostrar, de quase nos pavonearmos”.
Pelo que o Papa propõe a seguinte postura:
“A nossa resposta ao perdão superabundante do Senhor deveria consistir em manter-nos sempre naquela saudável tensão entre uma vergonha dignificante e uma dignidade que sabe envergonhar-se: atitude de quem procura, por si mesmo, humilhar-se e abaixar-se, mas é capaz de aceitar que o Senhor o eleve para benefício da missão, sem se comprazer”.
E dá como exemplo a atitude de Pedro, “que se deixa interrogar longamente sobre o seu amor e, ao mesmo tempo, renova a sua aceitação do ministério de apascentar as ovelhas que o Senhor lhe confia” (cf Jo 21,15-19).
Depois, vê na Igreja e, em especial nos sacerdotes a concretização daquele ponto da profecia de Isaías, realizada por Jesus de Nazaré: “E vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e nomeados ministros do nosso Deus” (Is 61,6). E assegura que “é o povo pobre, faminto, prisioneiro de guerra, sem futuro, um resto descartado (cf 2Rs 19,31), que o Senhor transforma em povo sacerdotal”. Assim, os sacerdotes e os demais cristãos (segundo a sua própria condição) devem identificar-se com “aquele povo descartado, que o Senhor salva”, e lembrar-se das “multidões inumeráveis de pessoas pobres, ignorantes, prisioneiras, que estão naquela situação porque outros as oprimem”. Por outro lado, apresenta-nos como necessário recordar:
“Cada um de nós sabe em que medida tantas vezes somos cegos, estamos privados da luz maravilhosa da fé, não porque nos falte o Evangelho ao alcance da mão, mas pelo excesso de teologias complicadas. Sentimos que a nossa alma morre sedenta de espiritualidade e não por falta de Água Viva – que nos limitamos a sorver aos goles – mas por um excesso de espiritualidades sem compromisso, espiritualidades superficiais.”
Se também nos sentimos prisioneiros, não estamos “cercados – como tantos povos – por muros intransponíveis de pedra ou barreiras de aço, mas por um mundanismo virtual que se abre e fecha com um simples clique”. E, se nos sentimos oprimidos, não é “por ameaças e empurrões, como muitas pessoas pobres, mas pelo fascínio de mil e uma propostas de consumo a que não conseguimos renunciar para caminhar, livres, pelas sendas que nos conduzem ao amor dos nossos irmãos, ao rebanho do Senhor, às ovelhas que aguardam pela voz dos seus pastores”.
Ora, Jesus vem resgatar-nos de todas estas opressões, sejam elas exógenas, sejam endógenas.
***
Por fim, gostaria de reter da alocução do Santo Padre, do final da via-sacra no Coliseu de Roma em sexta-feira santa, os traços essenciais do hino anafórico Ó Cruz de Cristo (anáfora apenas interrompida por duas vezes) que a preenche. Como é difícil respigar uns pontos como essenciais em detrimento de outros, ele aqui vai transcrito na sua dupla vertente, em boa simbiose, de espiritualidade intensa e de zelosa preocupação social, bem como na antítese entre o significado antigo de instrumento e sinal de maldição e o novo sentido de vitória e bênção.
Ó Cruz de Cristo
Ó Cruz de Cristo, símbolo do amor divino e da injustiça humana, ícone do sacrifício supremo por amor e do egoísmo extremo por insensatez, instrumento de morte e caminho de ressurreição, sinal da obediência e emblema da traição, patíbulo da perseguição e estandarte da vitória.
Ó Cruz de Cristo, ainda hoje te vemos erguida nas nossas irmãs e nos nossos irmãos assassinados, queimados vivos, degolados e decapitados com as espadas barbáricas e com o silêncio velhaco.
Ó Cruz de Cristo, ainda hoje te vemos nos rostos exaustos e assustados das crianças, das mulheres e das pessoas que fogem das guerras e das violências e, muitas vezes, não encontram senão a morte e muitos Pilatos com as mãos lavadas.
Ó Cruz de Cristo, ainda hoje te vemos nos doutores da letra e não do espírito, da morte e não da vida, que, em vez de ensinar a misericórdia e a vida, ameaçam com a punição e a morte e condenam o justo.
Ó Cruz de Cristo, ainda hoje te vemos nos ministros infiéis que, em vez de se despojarem das suas vãs ambições, despojam mesmo os inocentes da sua dignidade.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos corações empedernidos daqueles que julgam comodamente os outros, corações prontos a condená-los até mesmo à lapidação, sem nunca se darem conta dos seus pecados e culpas.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos fundamentalismos e no terrorismo dos seguidores de alguma religião que profanam o nome de Deus e o utilizam para justificar as suas inauditas violências.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje naqueles que querem tirar-te dos lugares públicos e excluir-te da vida pública, em nome de certo paganismo laicista ou mesmo em nome da igualdade que tu própria nos ensinaste.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos poderosos e nos vendedores de armas que alimentam a fornalha das guerras com o sangue inocente dos irmãos e que dão de comer aos seus filhos o pão ensanguentado.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos traidores que, por trinta dinheiros, entregam à morte qualquer um.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos ladrões e corruptos que, em vez de salvaguardarem o bem comum e a ética, se vendem no miserável mercado da imoralidade.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos insensatos que constroem depósitos para armazenar tesouros que perecem, deixando Lázaro morrer de fome às suas portas.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos destruidores da nossa ‘casa comum’ que, egoisticamente, arruínam o futuro das próximas gerações.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos idosos abandonados pelos seus familiares, nas pessoas com deficiência e nas crianças desnutridas e descartadas pela nossa sociedade egoísta e hipócrita.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje no nosso Mediterrâneo e no Mar Egeu feitos um cemitério insaciável, imagem da nossa consciência insensível e narcotizada.
Ó Cruz de Cristo, imagem do amor sem fim e caminho da Ressurreição, vemos-te ainda hoje nas pessoas boas e justas que fazem o bem sem procurar aplausos nem a admiração dos outros.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos ministros fiéis e humildes que iluminam a escuridão da nossa vida como velas que se consumam gratuitamente para iluminar a vida dos últimos.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos rostos das religiosas e dos consagrados – os bons samaritanos – que abandonam tudo para faixar, no silêncio evangélico, as feridas das pobrezas e da injustiça.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos misericordiosos que encontram na misericórdia a expressão mais alta da justiça e da fé.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nas pessoas simples que vivem jubilosamente a sua fé no dia-a-dia e na filial observância dos mandamentos.
O Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos arrependidos que, a partir das profundezas da miséria dos seus pecados, sabem gritar: Senhor, lembra-Te de mim no teu reino!
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos Beatos e nos Santos que sabem atravessar a noite escura da fé sem perder a confiança em ti e sem a pretensão de compreender o teu silêncio misterioso.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nas famílias que vivem com fidelidade e fecundidade a sua vocação matrimonial.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos voluntários que generosamente socorrem os necessitados e os feridos.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos perseguidos pela sua fé que, no sofrimento, continuam a dar testemunho autêntico de Jesus e do Evangelho.
Ó Cruz de Cristo, vemos-te ainda hoje nos que sonham com um coração de criança e que trabalham cada dia para tornar o mundo um lugar melhor, mais humano e mais justo.
Em ti, Santa Cruz, vemos Deus que ama até ao fim, e vemos o ódio que domina e cega os corações e as mentes daqueles que preferem as trevas à luz.
Ó Cruz de Cristo, Arca de Noé que salvou a humanidade do dilúvio do pecado, salva-nos do mal e do maligno! Ó Trono de David e selo da Aliança divina e eterna, desperta-nos das seduções da vaidade!
Ó grito de amor, suscita em nós o desejo de Deus, do bem e da luz.
Ó Cruz de Cristo, ensina-nos que o amanhecer do sol é mais forte do que a escuridão da noite.
Ó Cruz de Cristo, ensina-nos que a aparente vitória do mal se dissipa diante do túmulo vazio e perante a certeza da Ressurreição e do amor de Deus que nada pode derrotar, obscurecer ou enfraquecer.
Amém!
***
Aqui ficam os parâmetros fundamentais da postura dos cristãos ante a Cruz e a partir dela. É possível segui-los se aceitarmos ter em nossa casa a mãe do discípulo que nos foi legada no alto da cruz (cf Jo19,26-27; At 1,14) e se, olhando para “aquele que trespassaram” (Jo 19,37; Zc 12,10; Ap 1,7), quisermos usufruir da água e sangue que jorraram do lado aberto de Cristo morto na cruz (cf Jo 19,34) para podemos dar alegre testemunho da ressurreição (cf At 4,33).
Santa Páscoa!

2016.03.26 – Louro de Carvalho