Mostrar mensagens com a etiqueta Paixão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paixão. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de junho de 2019

Enquanto os abençoava, afastou-Se deles e foi elevado ao Céu


A Ascensão do Senhor, solenidade agendada pela Igreja para a quinta-feira que perfaz os 40 dias do tempo pascal (contados à maneira hebraica e romana) ou para o domingo seguinte, nos países em que a predita quinta-feira não é feriado, reporta-se ao mistério de Cristo que se relaciona com a pessoa e a missão do Filho de Deus. Este, fazendo-Se homem, “por nós homens e para nossa salvação” (do símbolo niceno-constantinoplitano), veio morar com os homens durante algum tempo na visibilidade da condição humana. Chegada a hora que o Pai fixara, voltou para Ele, mas passando pelo sofrimento, morte e ressurreição (trilogia que Lucas sintetiza com o verbo “paskheîn”) para que tenhamos a vida e a tenhamos em abundância (cf Jo 10,10). Por isso, este mistério diz respeito a toda a humanidade, ao mundo inteiro, a cada homem e a cada mulher.
Para referirmos a Ascensão de Jesus, recorremos a imagens da fisicidade (elevou-se, subiu, foi para o alto…). São expressões não tomandas à letra, mas que significam só que Jesus está na glória com o Pai, como diz a fé, a oferecer-nos os inefáveis benefícios que a exaltação de Cristo traz ao mundo – bens celestes que procedem do Espírito Santo prometido por Cristo que subiu ao Céu.  
No Ano C, o episódio da Ascensão é lido no final do 3.º Evangelho (Lc 24,46-53) e no início dos Atos dos Apóstolos (At 1,1-11). Enquanto o 3.º Evangelho reporta a um só dia a ressurreição e a ascensão, o livro dos Atos separa as duas vertentes do mistério por 40 dias (número simbólico da perfeição) a designar o tempo da duração do inteiro ensinamento do Ressuscitado aos discípulos, cujo tema central é o Reino de Deus, como referem várias passagens dos Evangelhos (sobretudo os sinóticos) – tempo simbólico que remete para o dos grandes acontecimentos da economia da salvação, por exemplo, os 40 anos da travessia do Sinai e os 40 dias e as 40 noites da passagem de Jesus pelo deserto, levado pelo Espírito Santo, antes de iniciar a sua pública pregação.    
***
O livro dos Atos dos Apóstolos dirige-se, na década de 80 (cerca de 50 anos após a morte de Jesus) a comunidades que vivem em contexto de crise. Passara a fase da expectativa pela vinda iminente do Cristo glorioso para instaurar o Reino e uma certa desilusão apoderou-se das comunidades cristãs. Além disso, surge alguma confusão resultante de questões doutrinais; e da monotonia resulta uma vida cristã pouco empenhada e pouco entusiasmante, o que induz as comunidades a instalarem-se na mediocridade. Com efeito, continua igual o mundo, como continua adiada a esperada intervenção vitoriosa de Deus. E os cristãos interrogam-se sobre quando se concretiza plena e inequivocamente o plano divino de salvação. E neste quadro psicossocial se insere o texto tomado para 1.ª leitura (At 1,1-11) na Liturgia da Palavra da Solenidade da Ascensão, curiosamente comum a cada um dos três anos do ciclo (Anos A, B e C).
Não levando à letra as expressões tiradas da fisicidade e tendo em conta o número simbólico dos 40 dias, verificamos que Lucas, funcionando como catequista, adverte que o desenvolvimento do projeto de salvação em Cristo passa (após a ida de Jesus para junto do Pai onde intercede por nós) para as mãos da Igreja, animada e guiada pelo Espírito. Longe de estar concluída a edificação do “Reino”, ela é uma tarefa que é preciso concretizar na história e que exige o empenho contínuo de todos os crentes, com a orientação das lideranças. Os cristãos, quais discípulos chamados ao seguimento de Jesus e ao apostolado, são instados a redescobrir o seu papel para se tornarem capazes de testemunhar o projeto de Deus, na fidelidade ao “caminho” que Jesus percorreu.
O trecho em referência inicia-se com um prólogo (vv. 1-2) que relaciona os “Atos” com o 3.º Evangelho na referência ao mesmo Teófilo a quem foi endereçado o Evangelho e na alusão a Jesus, aos seus ensinamentos e à sua ação no mundo (tema central do 3.º Evangelho). E o prólogo apresenta os protagonistas do livro – o Espírito Santo e os apóstolos (ambos vinculados com Jesus) – e menciona o facto de Jesus ter sido arrebatado ao Céu. Na verdade, tal como prometera o envio do Espírito Santo, também apareceu vivo aos apóstolos depois da sua Paixão, deu-lhes várias provas da ressurreição e falou-lhes do Reino de Deus.
Depois do prólogo, surge o tema da despedida de Jesus (vv. 3-8). Lucas, na sua catequese, começa por fazer referência aos “quarenta dias” que mediaram entre a ressurreição e a ascensão, durante os quais Jesus falou aos discípulos acerca do Reino de Deus. Como foi dito, número 40 é um número simbólico, o número que define o tempo necessário para um discípulo aprender e repetir as lições do mestre, definindo aqui o tempo simbólico de iniciação ao ensinamento do Ressuscitado, levando à releitura do ensinamento anterior à Paixão, mas agora à luz e segundo os critérios da ressurreição, pelo a impertinente (e atual) tentação do messianismo político e espetacular (“É agora que vais restaurar o reino de Israel?”) é rejeitada liminarmente por Cristo.
As palavras de despedida de Jesus (vv. 4-8) sublinham duas vertentes: a vinda do Espírito e o testemunho (em grego “martýrion”) que os discípulos são chamados a dar “até aos confins do mundo”. Está aqui sintetizada a experiência missionária da comunidade lucana: o Espírito irá derramar-se sobre a comunidade crente e dará a força para testemunhar Jesus em todo o mundo, de Jerusalém a Roma, atingindo diversas paragens. É o programa que Lucas desenvolve ao longo do livro, posto na boca do Ressuscitado. O autor mostra com o livro que o testemunho e a pregação da Igreja estão entroncados no próprio Jesus e são impulsionados pelo Espírito.
O último tema é a Ascensão (vv. 9-11), passagem que deve ser interpretada de modo que, pela roupagem dos símbolos, a mensagem apareça com toda a clareza.
Em primeiro lugar, a elevação de Jesus ao Céu (v. 9a). Não se trata de descolagem da terra por parte da pessoa de Jesus, mas dum facto teológico (não de reportagem): na verdade, a ascensão é um modo de afirmar que a exaltação de Jesus é total e atinge dimensões supraterrenas; é o modo literário de descrever o culminar de uma vida vivida para Deus, que “reentra”, por assim dizer, na glória da comunhão com o Pai. Depois, temos a nuvem (v. 9b) que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. Ora, a nuvem, pairando entre o céu e a terra, é, no Antigo Testamento, um símbolo da presença de Deus (cf Ex 13,21.22; 14,19.24; 24,15b-18; 40,34-38). Por outro lado, ao mesmo tempo, esconde e manifesta: sugere o mistério do Deus escondido e presente, cujo rosto o Povo não vê, mas cuja presença adivinha nos acidentes da caminhada. Céu e terra, presença e ausência, sombra e luz, divino e humano, são dimensões agora sugeridas a propósito do Ressuscitado elevado à glória do Pai, mas que se mantém na caminhada com os discípulos.
Por sua vez, os discípulos ficam pasmados a olhar para o céu (v. 10a), o que significa a expectativa da comunidade que espera ansiosamente a segunda vinda de Cristo, a fim de levar a cabo o projeto de libertação do homem e do mundo. Mas talvez seja precisa ação.
Talvez por isso e por fim, surgem dois homens vestidos de branco (v. 10b). Na brancura que sugere o mundo de Deus, indica-se que o testemunho destes homens vem de Deus, tal como o testemunho dos discípulos, pois têm de branquear as suas túnicas no sangue do Cordeiro (cf Ap 7,14). Recordo, a este respeito, que o Padre Laureano Alves, passionista, frisou hoje, em Santa Maria da Feira, a vertente grega do conceito de martírio: o mártir é não só aquele que dá a vida, com o derramamento de sangue por causa de Cristo e do seu Evangelho, mas também aquele que, seguindo-O, dá testemunho de Cristo ressuscitado pela palavra, atitudes e comportamentos, podendo, se necessário for, chegar ao martírio ou testemunho pelo sangue. Na verdade, entre os gregos, “mártyros” era quem, tendo visto e ouvido, não podia deixar de prestar o seu depoimento, correndo os riscos que isso comportava.      
Então os referidos homens de branco instam os discípulos a continuar no mundo, animados pelo Espírito, a obra libertadora de Jesus; pois, agora, é a comunidade dos discípulos que tem de continuar, na história, a obra de Jesus, com a esperança na segunda e definitiva vinda do Senhor.
O sentido fundamental da Ascensão não é a contemplação cómoda ou supina da elevação de Jesus, mas o apelo ao seguimento das pegadas de Jesus – Caminho, Verdade e Vida –, olhando para o futuro com entrega inequívoca à concretização do seu plano salvador no mundo.
***
O Evangelho da Ascensão no Ano C (Lc 24,46-53) situa-nos no dia da Ressurreição. Cristo já se manifestara aos discípulos de Emaús (cf Lc 24,13-35) e aos onze, reunidos no cenáculo (cf Lc 24,36-43). Agora, seguem-se as últimas instruções de Jesus (cf Lc 24,44-49) e a Ascensão (cf Lc 24,50-53).
Ao invés de “Atos”, ressurreição, aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos e ascensão são postas no mesmo dia, o que será mais adequado em termos teológicos. Com efeito, Ressurreição e Ascensão não se podem diferenciar; são modos humanos de falar da passagem da morte à vida junto de Deus. Todavia, como “Atos” é posterior, Lucas aprimora o discurso na linha temporal das exigências da aprendizagem discipular e na perspetiva da necessidade de os corações se preparem para a livre receção do dom de Deus a culminar na infusão e efusão do Espírito Santo.  
Também este trecho final do livro (como o trecho inicial de “Atos”) está organizado em dois momentos: despedida dos discípulos (vv. 46-49) e ascensão (vv. 50-53).
No primeiro momento, temos as palavras de despedida. Os discípulos, feita a experiência do encontro pessoal com Jesus ressuscitado, são agora convocados para a missão: Jesus envia-os como testemunhas a pregar a “metanoia” – conversão, transformação radical da vida (mentalidade, coração, valores, atitudes, comportamentos) – e o perdão dos pecados. Não se prega a condenação, a ruína, o anátema, mas prega-se, em nome do Messias, como estava escrito no Antigo Testamento, o arrependimento e o perdão dos pecados. Ou seja, anuncia-se que Deus ama todos os homens e os convida a deixar o egoísmo, o orgulho e a autossuficiência para terem a vida de Homens Novos. Para esta enorme tarefa, os discípulos contam com a força do Alto, isto é, a ajuda e a assistência do Espírito. Estão, nas palavras de Jesus, todos os dados do que é a missão da Igreja: o testemunho apostólico tem como tema central a morte e ressurreição de Jesus, ou seja, a ação do Messias libertador anunciado pelas escrituras (vv. 44.46). De Jerusalém, este testemunho chegará a todas as nações – “percurso” que é explicitado no livro dos “Atos”.
No segundo momento, Lucas descreve a Ascensão, que situa em Betânia, havendo que realçar duas indicações de Lucas: a bênção que Jesus dá aos discípulos antes de ir para junto do Pai, bênção que sugere um dom que vem de Deus e que atinge positivamente toda a vida e toda a ação dos discípulos, capacitados para a missão pela força de Deus; e a alegria dos discípulos, alegria que é o grande sinal messiânico e escatológico e que indica o início do mundo novo, pois o projeto salvador e libertador de Deus está em marcha.
O mencionado Padre Laureano Alves chamou a atenção dos participantes na celebração da Missa para o facto de Lucas ter colocado a Ascensão em Betânia, para onde Jesus conduziu os discípulos – Betânia, terra onde estava Maria, Marta e Lázaro, que, ressuscitado por Jesus, serviu de garantia visível de que o Pai glorificaria o Filho e se glorificaria no Filho, amigos de Jesus. Assim, a Ascensão dá-se, não no Calvário, lugar de ignomínia, mas em terra de amigos, de família constituída a partir da Palavra de Jesus e do seguimento do Caminho, Verdade e Vida. Depois, enfatizou o fator da bênção e fez a remissão para a primeira bênção de que fala a Bíblia (vd Gn 1,28): tendo criado o homem e a mulher à sua imagem e semelhança, como coroa de toda a criação, “abençoando-os, Deus disse-lhes: Crescei, multiplicai-vos, enchei e submetei a terra…”. E tem razão o sacerdote, porquanto, sendo a ação de Cristo uma nova criação, segundo a qual o Filho de Deus, desceu para que o homem (todos os homens) se eleve como Ele Se eleva, esta criação mereceu a nova bênção dada por Jesus ao novos promotores da nova humanidade: têm de crescer (ou seja, receber a força do Alto) e multiplicar-se (ir por todo mundo, desde Jerusalém ao confins da Terra, fazendo discípulos em todas as nações). Se a missão de Jesus tem em Jerusalém o ponto de chegada, a missão dos discípulos tem ali o ponto de partida (para os confins).
***
Por fim, o trecho da Carta aos Efésios na 2.ª leitura (Ef 1,17-23) aparece na 1.ª parte da carta, que é talvez um dos exemplares duma “carta circular” enviada às igrejas da Ásia, quando Paulo está na prisão (em Roma, provavelmente), através de Tíquico, cerca dos anos 58/60. Veem alguns nela uma síntese da teologia paulina, num momento em que a missão do apóstolo está praticamente terminada na Ásia. O texto em causa integra uma ação de graças, em que Paulo agradece a Deus a fé dos Efésios e a caridade que eles manifestam para com todos os irmãos na fé.
A esta ação de graças, Paulo une uma fervorosa oração a Deus para que os destinatários da carta conheçam “a esperança a que foram chamados” (v. 18). E a prova de que o Pai pode realizar essa esperança, ou seja, conferir aos crentes a vida eterna como herança, é o que ele fez com Jesus: ressuscitou-O e sentou-O à sua direita (v. 20), exaltou-O e deu-Lhe soberania sobre todos os poderes angélicos (Paulo acautela-os da tendência de alguns em dar importância exagerada aos anjos, colocando-os, até, acima de Cristo – cf Cl 1,6). Tal soberania estende-se, à Igreja – o corpo do qual Cristo é a cabeça, o que é deveras significativo para afastar a Igreja da autorreferência. De facto, a ideia de que a comunidade cristã é corpoo corpo de Cristo – formado por muitos membros, já aparece nas grandes cartas, acentuando-se sobretudo a relação dos vários membros do corpo com a Cabeça e entre si (cf Rm 12,3-8; 1Cor 6,12-20;10,16-17;12,12-27), mas nas cartas do cativeiro, Paulo retoma a noção de corpo de Cristo para vincar a relação existente entre a comunidade e Cristo e entre os diversos membros da comunidade.
Neste texto, em concreto, há dois conceitos significativos que definem a relação entre Cristo e a Igreja: o de cabeça (em grego, “kephalê”) e o de plenitude (em grego, “pleroma”). Chamar a Cristo cabeça da Igreja quer dizer que os dois formam uma comunidade indissolúvel e que há entre eles comunhão total de vida e destino; que Jesus é o centro à volta do qual o corpo se articula, a partir do qual e em direção ao qual o corpo cresce, se orienta e constrói (é a origem e o fim desse corpo); e que a Igreja/corpo se submete à obediência a Cristo/cabeça: só de Cristo a Igreja depende e só a Ele deve obediência. E chamar à Igreja a plenitude de Cristo quer dizer que nela reside a totalidade de Cristo, sendo ela o recetáculo (a habitação) onde Cristo Se torna presente para o mundo: é através desse corpo (em que todos são livres e interdependentes) onde reside que Jesus continua todos os dias a realizar o projeto de salvação em prol dos homens. A partir desse corpo, Cristo enche o mundo e atrai a Si o universo, até que Cristo “seja tudo em todos” (v. 23).
Por isso, este corpo (a crescer e a multiplicar-se) tem a bênção e o acompanhamento de Jesus, uma bênção concomitante ao gesto “eucarístico” e pelo qual os discípulos reconheciam o Senhor!
2019.06.02 – Louro de carvalho

domingo, 14 de abril de 2019

A mundanidade espiritual é a mais pérfida tentação a ameaçar a Igreja


Disse-o, citando Henri de Lubac, o Papa Francisco na homilia da Missa do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, a que presidiu na Praça de São Pedro.
No início da celebração, o Pontífice deslocou-se ao centro da Praça, junto ao obelisco de origem egípcia que ficava no antigo circo romano – onde morreu, crucificado de cabeça para baixo por não se considerar digno de morrer como o Mestre, o Apóstolo Pedro – e ali abençoou as palmas e os ramos de oliveira. Depois da proclamação de apropriada perícopa do Evangelho de Lucas (Lc 19,28-40), presidiu à procissão para o altar, situado em frente à fachada da Basílica, para a celebração da Missa.
***
Na homilia sublinhou a notória contradição entre “as aclamações da entrada em Jerusalém e a humilhação de Jesus”, os clamores de júbilo e festas seguidos do encarniçamento feroz a exigir a crucifixão do Senhor. E vincou a necessidade de, animados pelo Espírito Santo, obtermos o que se pede na oração: acompanhar com fé o caminho do Salvador e ter presente o ensinamento da sua Paixão “como modelo de vida e de vitória contra o espírito do mal”. Com efeito, o Senhor ensina atitudinalmente “como enfrentar os momentos difíceis e as tentações mais insidiosas, guardando no coração uma paz que não é isolamento”, mas abandono confiante nas mãos do Pai e entrega à sua vontade de salvação, de vida, de misericórdia. Apesar de se ver, em toda a sua missão (“desde o início, nos 40 dias no deserto, até ao fim, na Paixão”), “assaltado pela tentação de ‘fazer a sua obra’, escolhendo Ele o modo e desligando-Se da obediência ao Pai”, Jesus repele tal ideia-força e obedece confiadamente ao Pai.
Acentuou o Papa:
Agora, o príncipe deste mundo tinha uma carta para jogar: a carta do triunfalismo. Mas o Senhor respondeu permanecendo fiel ao seu caminho, o caminho da humildade.”.
E vincou:
O triunfalismo procura tornar a meta mais próxima por meio de atalhos, falsos comprometimentos. Aposta na subida para o carro do vencedor. O triunfalismo vive de gestos e palavras, que não passaram pelo cadinho da cruz; alimenta-se da comparação com os outros, julgando-os sempre piores, defeituosos, falhados... Uma forma subtil de triunfalismo é a mundanidade espiritual, que é o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja (Henri de Lubac). Jesus destruiu o triunfalismo com a sua Paixão.”.
E, frisando que Jesus Se alegrou com a iniciativa do povo e com os clamores dos jovens que gritavam o seu nome, aclamando-O Rei e Messias, a ponto de retorquir a quem desejava calá-los, que, se eles se calassem, gritariam as pedras (cf Lc 19,40), Francisco realça que “humildade não significa negar a realidade, e Jesus é realmente o Messias, o Rei”. Não obstante, segundo o Pontífice, o coração de Cristo estava no caminho santo que só Ele e o Pai conhecem, o que vai da ‘condição divina’ à de servo, pois, “sabe que, para chegar ao verdadeiro triunfo, deve dar espaço a Deus; e, para dar espaço a Deus, só há um modo: o despojamento, o esvaziamento de si mesmo”, e “com a cruz, não se pode negociar: abraça-se ou recusa-se”. Ora, pela humilhação, Ele “quis abrir-nos o caminho da fé e preceder-nos nele”. E, neste sentido da precedência de Cristo no caminho da fé, o Santo Padre evocou o percurso de sua Mãe, Maria, a primeira discípula, enfatizando que “a Virgem e os santos tiveram de padecer para caminhar na fé e na vontade de Deus”. E explicitou, citando São João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater, 17:
No meio dos acontecimentos duros e dolorosos da vida, responder com a fé custa ‘um particular aperto do coração’. É a noite da fé. Mas, só desta noite é que desponta a aurora da ressurreição. Ao pé da cruz, Maria repensou as palavras com que o Anjo Lhe anunciara o seu Filho: ‘Será grande (...). O Senhor Deus vai dar-Lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim’ (Lc 1,32-33). No Gólgota, Maria depara-Se com o desmentido total daquela promessa: o seu Filho agoniza numa cruz como um malfeitor. Deste modo o triunfalismo, destruído pela humilhação de Jesus, foi igualmente destruído no coração da Mãe; ambos souberam calar. [E], precedidos por Maria, incontáveis santos e santas seguiram a Jesus pelo caminho da humildade e da obediência.”.
Depois, em Dia Mundial da Juventude, lembrando os inúmeros santos e santas jovens, especialmente os de ‘ao pé da porta’, pediu aos jovens que não se envergonhem de manifestar o seu entusiasmo por Jesus, “gritar que Ele vive, que é a vossa vida”, e que não tenham medo “de O seguir pelo caminho da cruz”. E exortou-os ao seguimento de Jesus na total confiança no Pai:
Quando sentirdes que vos pede que renuncieis a vós mesmos, que vos despojeis das próprias seguranças confiando-vos completamente ao Pai que está nos céus, então alegrai-vos e exultai! Encontrais-vos no caminho do Reino de Deus.”.
Salientando que Jesus vence mesmo a tentação de responder, de ser ‘mediático’, observou:
Nos momentos de escuridão e grande tribulação, é preciso ficar calado, ter a coragem de calar, contanto que seja um calar manso e não rancoroso. A mansidão do silêncio far-nos-á aparecer ainda mais frágeis, mais humilhados, e então o demónio ganha coragem e sai a descoberto. Será necessário resistir-lhe em silêncio, ‘conservando a posição’, mas com a mesma atitude de Jesus.”.
Com efeito, para Francisco, a guerra entre Deus e o príncipe deste mundo não se trava empunhando a espada, mas permanecendo calmos, firmes na fé. Sendo a hora de Deus, a “hora em que Deus entra na batalha, é preciso deixá-Lo agir” e “o nosso lugar seguro será sob o manto da Santa Mãe de Deus”. E o Pontífice desafia todos os crentes cristãos:
Enquanto esperamos que o Senhor venha e acalme a tempestade (cf Mc 4, 37-41), com o nosso testemunho silencioso e orante, demos a nós mesmos e aos outros a ‘razão da esperança que está em [nós]» (1Pe 3,15). Isto ajudar-nos-á a viver numa santa tensão entre a memória das promessas, a realidade do encarniçamento palpável na cruz e a esperança da ressurreição.”.
***
Da mensagem homilética de Francisco, o Vatican News destaca a evidência da mundanidade espiritual como forma subtil de triunfalismo a constituir “o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja”; a destruição do triunfalismo por Jesus com a Paixão”; o convite aos jovens, nesta Jornada Mundial da Juventude a nível diocesano, a não terem vergonha de manifestarem o seu entusiasmo por Jesus.
Depois, sobressai a antítese entre a carta do triunfalismo, jogada pelo maligno, o príncipe deste mundo, e o caminho da humildade com que o Senhor respondeu, o seu caminho, e em que permanece fiel. E, sendo verdade que Jesus aceitou a iniciativa do povo e se alegrou com os gritos dos jovens, o seu coração estava no caminho ditado pelo desígnio do Pai, o caminho da humilhação até à morte e morte de cruz, num silêncio impressionante, só interrompido pelas tradicionalmente conhecidas como as sete palavras de Jesus no alto da cruz:
- Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem (Lc 23,34).
- Ámen te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso (Lc 23,43).
- Mulher, Eis aí o seu filho...[ao discípulo]: Eis aí tua mãe... (Jo 19,26.27).
- Meu Deus, meu Deus, para que me desamparaste? (Elí, Elí, lama sabacthani? – Mt 27,46; ou Eloí, Eloí, lama sabacthani? – Mc 15,34).
- Tenho sede (Jo 9,28).
- Está consumado (Jo 19,30).
- Pai, em tuas mãos entrego meu espírito (Lc 23,46).
Referindo que Jesus sabe dar espaço a Deus e que, para tanto, se exige o despojamento, o esvaziamento de si mesmo, o Mestre soube e quis abrir-nos o caminho da fé e preceder-nos nele”, no que foi acompanhado pela Mãe e por muitos santos e santas, o Papa sublinhou que “no Gólgota, Maria se deparou com a aparente negação total daquela promessa davídica da anunciação: o seu Filho agoniza numa cruz como um malfeitor. Mas destruiu assim, o triunfalismo.
Por fim, explica o teor o triunfalismo no dizer do Papa:
O triunfalismo procura tornar a meta mais próxima por meio de atalhos, falsos comprometimentos. Aposta na subida para o carro do vencedor. O triunfalismo vive de gestos e palavras, que não passaram pelo cadinho da cruz; alimenta-se da comparação com os outros, julgando-os sempre piores, defeituosos e falhos...”.
E reitera: “Uma forma subtil de triunfalismo é a mundanidade espiritual, que é o maior perigo, a mais pérfida tentação que ameaça a Igreja. Jesus destruiu o triunfalismo com a sua Paixão”.
***
Celebrou-se também, neste domingo, a 34.ª Jornada Mundial da Juventude. Ora, as JMJ são realizadas anualmente no âmbito diocesano, no Domingo de Ramos. Este ano, o tema da Jornada Mundial da Juventude diocesana é “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). A esse propósito o Papa disse na homilia:
Queridos jovens, não tenhais vergonha de manifestar o vosso entusiasmo por Jesus, gritar que Ele vive, que é a vossa vida. Mas, ao mesmo tempo não tenhais medo de segui-lo pelo caminho da cruz. E, quando sentirdes que Ele vos pede que renuncieis a vós mesmos, para vos despojardes das próprias seguranças confiando completamente no Pai que está nos céus, então alegrai-vos e exultai! Vós estais no caminho do Reino de Deus.”.
***
À recitação da oração mariana do Angelus, no final da Missa celebrada na Praça São Pedro, o Papa saudou todas as pessoas que participaram na celebração eucarística e também as que a acompanharam pelos meios de comunicação. Ademais, quis estender a sua saudação pastoral a todos os jovens que hoje, em torno dos seus bispos, celebram a Jornada da Juventude em todas as dioceses do mundo e convidou-os a todos a rezarem pela paz e a tornarem suas e viverem quotidianamente as indicações da recente Exortação Apostólica Christus vivit, fruto do Sínodo que também envolveu muitos dos jovens seus coetâneos. Com efeito, segundo o Pontífice, cada um deles “pode encontrar inspirações fecundas para a sua vida e caminho de crescimento na fé e no serviço aos  irmãos”.
Também Francisco ofereceu aos fiéis, na Praça São Pedro, um Terço de madeira de oliveira feito na Terra Santa para a Jornada Mundial da Juventude no Panamá, em janeiro passado, e para este Domingo de Ramos. E considerou:
No contexto deste domingo, quis oferecer a todos vós reunidos na Praça de São Pedro, um Terço especial. As contas desse Terço de madeira de oliveira foram feitas na Terra Santa expressamente para o Encontro Mundial da Juventude no Panamá, em janeiro passado, e para o Dia de Hoje. Por isso, renovo o meu apelo aos jovens e a todos a que rezem o Terço pela paz, especialmente pela paz na Terra Santa e no Oriente Médio.”.
Por fim, o Papa pediu à Virgem Maria que nos ajude a viver bem a Semana Santa.
***
Na verdade, é conveniente que a vivência desta semana nos torne mais discípulos, mais amigos do Senhor, mais irmãos dele e uns dos outros e mais apóstolos no sentido de que a proposta de salvação chegue a toda a gente, sobretudo na promoção de mais liberdade e dignidade para todos os seres humanos independentemente do credo que professem, da cor étnica de que são portadores, da condição social que lhes bateu à porta e da filiação ou da independência política em que fazem questão de se abrigar. Porque o Senhor veio para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância. E nós somos vocacionados para este serviço à vida, à dignidade e à liberdade de todos e de cada um. Sem isto, não há fraternidade e a igualdade estará cada vez mais distante.
Temos, pois, que ser contemplativos e ativos num doseamento adequado às nossas reais possibilidades e às necessidades dos outros.
2019.06.14 – Louro de Carvalho

sábado, 13 de abril de 2019

Salva-nos na fraqueza, mas com dignidade e determinação!


A lógica de Jesus Cristo, que é a lógica de Deus, baralha-nos se nos ativermos aos critérios de salvação ditados e praticados pelo mundo. Com efeito, admiramos, aplaudimos e vitoriamos aqueles e aquelas que rompendo com determinação e força as raias da mediania ou as fronteiras da rotina se distinguem pela heroicidade pomposa. E era isto que os israelitas – e os próprios discípulos de Jesus – esperavam do Messias prometido: destruir pelo fogo os inimigos, abatê-los à espada e constituir uma corte de honrarias em que os apóstolos seriam os príncipes com a nobre missão de bem legislar, exercer o poder executivo com pompa e circunstância e julgar, obviamente para condenar. Mas não é assim a via escolhida por Jesus em obediência ao desígnio e à vontade do Pai. E a liturgia do Domingo de Ramos mostra-no-lo à saciedade. 
***
Dois momentos marcam esta dominga: a comemoração da entra triunfal de Jesus na Cidade Santa, com a proclamação duma perícopa lucana (Lc 19,28-40); e a celebração da Missa, com a proclamação de passagens do Profeta Isaías (Is 50,4-7), da Carta de Paulo aos Filipenses (Fl 2,6-11) e da Paixão de Jesus segundo Lucas (Lc 22,14 – 23,56).
***
Da entrada solene, diz o Evangelista que Jesus subia para Jerusalém à frente dos discípulos e, junto de Betfagé e de Betânia e perto do Monte das Oliveiras, enviou dois discípulos para que da povoação que estava em frente tomassem um jumentinho preso que ninguém montara ainda porque precisava dele. Levaram-no a Jesus e, lançando as capas sobre o jumentinho, fizeram montar Jesus. Durante a caminhada, o povo estendia as capas na via e toda a multidão começou a louvar alegremente a Deus em alta voz por todos os milagres que viu, clamando: “Bendito o Rei que vem em nome do Senhor. Paz no Céu e glória nas alturas!” (cf Lc 1,68; 2,14). Os fariseus bem protestaram exigindo que Jesus repreendesse os discípulos, ao que Ele retorquiu: “Eu vos digo: se eles se calarem, clamarão as pedras”.
Esta é uma cena verdadeiramente messiânica, pois realiza a profecia de Zacarias (Zc 9,9) – “Exulta de alegria, filha de Sião! Solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti; Ele é justo e vitorioso; vem, humilde, montado num jumento, sobre um jumentinho, filho de uma jumenta” – e a multidão aclama o Senhor com o Salmo de entronização do Rei-Messias (Sl 118/117,26), um salmo coletivo de ação de graças com um esquema ritual muito claro, começando fora do templo (v 1-18) e, passadas as ‘portas da justiça’ (v 19-20), proclamando a ação de graças (v 21-25) e seguindo com a bênção (v 26-27) e um convite final que renova o chamamento inicial ao louvor, porque Ele vem para salvar e não como poderio político-militar.
O Senhor entra montado sobre um pobre animal, mas determinado, sabendo que tinha direito a ele porque dele precisava. E, em resposta a quem o clamor da multidão incomodava utilizou a fórmula proverbial, clara e enérgica “clamarão as pedras”, bem ao seu jeito do Mestre, a garantir a dignidade messiânica e a realeza que lhe é inerente – realidade tão notória que, se a cegueira humana levar a obnubilá-la, a própria natureza muda a proclamará. Além disso, como Jesus já tinha cumprido a missão profética explícita do anúncio da Boa Nova e havia instruído os Apóstolos, não havia motivo para temer qualquer tumulto popular por se apresentar solenemente como o Messias-Rei. Assim, os “Hossanas” e o clamor de “Paz no Céu e glória nas alturas” têm aqui pleno cabimento.
***
Entrando na liturgia da Missa, a fraqueza salvadora do Messias adensa-se.
Isaías (Is 50,4-7) introduz-nos no mistério do Servo de Deus, que sofre por todos nós. Mas foi pelas suas chagas que fomos curados. Desde sempre, a Igreja aplicou este hino profético a Jesus, o servo sofredor, “obediente até à morte e morte de Cruz”, como assume o discurso paulino.
É pertinente registar que o Messias se apresenta como tendo recebido a graça de falar como um discípulo (fala daquilo que aprendeu) e, nessa condição humilde, sabe dizer “uma palavra de alento aos que andam abatidos” e apresentar-se aos que O insultam e ferem, sabendo e confiando que o Senhor vem em seu auxílio. 
É um trecho do II Isaías e corresponde aos primeiros 4 vv do 3.º poema do Servo de Javé (Is 50,4-9). Embora não seja aqui nomeado, deduz-se do contexto imediato deste canto que é o próprio servo quem está a falar e é a figura profética de Jesus Cristo. O trecho consta de três estrofes iniciadas com a mesma fórmula: ‘O Senhor Deus’; na 1.ª, sublinha-se a docilidade de discípulo; na 2.ª, o sofrimento que esta docilidade acarreta; e, na 3.ª, a fortaleza no meio da dor.
O servo fala como um discípulo, mas não é um discípulo qualquer; é um discípulo do Senhor (cf Is 54,13), instruído pelo próprio Deus. A este respeito, dirá Jesus: “A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou” (Jo 7,16; cf 14,24).
O servo-discípulo confessa que não resistiu nem recuou e não desviou o rosto de quem O insultava e Lhe batia. Com efeito, mesmo os grandes profetas e santos tiveram consciência de opor alguma resistência, embora sem rebeldia, à ação de Deus, como Moisés e Jeremias (cf Ex 3,11; 4,10; Jr 1,6). Ao invés, este servo, como Jesus o fez, identifica-Se plenamente com a vontade do Pai (cf Jo 4,34; Lc 22,42). E os evangelistas deixam ver como o pleno cumprimento deste hino profético se deu no relato da Paixão do Senhor (vd Mt 26,67; 27,26-30; Mc 15,19; Lc 22,63-64; etc.).
Como resposta da assembleia a esta proclamação profética, surgem alguns versículos do Salmo 22 (21) em que se intercala o refrão “Meu Deus, meu Deus, para que (ina ti ou eis ti) me abandonaste?”. É um salmo individual de súplica e exprime de tal modo a experiência do sofrimento, que se tornou modelo de densidade religiosa. Segundo Mateus (27,46), em hebraico, e Marcos (15,34), em aramaico, Jesus utilizou as suas primeiras palavras como oração suplicante e confiante quando se encontrava na cruz; e vários outros versículos são aproveitados na narração da Paixão de Jesus (vd Mt 27,35.43.46). Por isso, o salmo ficou intimamente ligado à Cristologia. Na tradição cristã foi ganhando um timbre messiânico, mercê de alguns versículos missionários e comunitários (vd vv 23.24.26-32), que contraditam a situação anterior de abandono, escárnio e ultraje. Mas a sua ressonância messiânica está ligada à leitura especificamente cristã que dele se fez, pois depende da mais profunda valorização teológica do sofrimento pessoal – um aspeto menos notório no messianismo real. 
Seja como for, o salmo sintetiza a paixão de Jesus: “Trespassaram as minhas mãos e os meus pés. Cercou-me um bando de malfeitores”. O refrão “Meu Deus, meu Deus, para que me abandonaste?” traduz a tristeza e a angústia mortal do nosso Salvador, mas não é interrogação de desespero, mas a oração do Filho, que por nosso amor se oferece ao eterno Pai: “Pai nas vossas mãos entrego o meu espírito”. Segundo os estudiosos, o judeu piedoso, ao enunciar a epígrafe dum salmo ou de um hino, assumia todo o seu conteúdo, que recitaria mentalmente.
***
Paulo (Fl 2,6-11) apresenta um dos hinos cristológicos mais antigos. Os primeiros cristãos, contemplando o amor infinito de Jesus, podiam cantar o esvaziamento ou a humilhação divina (Kénosis): “Cristo Jesus, que era de condição divina, assumiu a condição de servo e aniquilou-se até à morte e morte de Cruz! Por isso Deus O exaltou!”. Porém, este aniquilamento não foi uma derrota humilhante, mas um ato inteiramente voluntário, pois, mais que apresentar-Se como Deus, quis fazer-Se homem, até nas condições mais humilhantes, mas sem perder a dignidade, o que mostra de muitos modos, para que nós possamos ter o à vontade de aceder ao mistério de Deus. Por isso, Deus Exaltou-O com a gloriosa Ressurreição. E a esta exaltação sublime corresponde a glória do seu nome: Jesus é o Senhor e toda a língua proclama a sua divindade, humanidade e senhorio.
Como se deixou entrever, o trecho paulino constitui um admirável hino à humilhação e exaltação de Cristo, que muitos pensam ser anterior à Carta aos Filipenses e a mais antiga confissão de fé explícita na divindade de Cristo que consta dos escritos do Novo Testamento.
Existindo em forma (morfê) de Deus, Jesus possuía a glória e a majestade, atributos divinos na linguagem bíblica. E, como observa Heinrich Schlier, a expressão em forma de Deus não quer dizer que Deus tenha uma forma como a têm os homens, mas que Jesus “tinha um ser como Deus, era um ser divino”. A frase “Não considerou usurpação ser igual a Deus” tem dois sentidos: um sentido positivo, pois o termo grego harpagmós pode ser considerado como roubo ou usurpação que se faz de algo (aqui, a condição divina), ou um sentido passivo, sendo harpagmós algo a roubar algo, algo que é cobiçado. A Vulgata e a Nova Vulgata traduzem: “não considerou uma usurpação (rapina) o ser igual a Deus” (sentido ativo). Todavia, os Padres Gregos consideram o termo grego com sentido passivo e teríamos: “não considerou como algo cobiçado (harpagmón). Pensam alguns que Paulo quer realçar o contraste entre a atitude soberba dos primeiros pais que, sendo homens, quiseram ser iguais a Deus (cf Gn 3,5.22) e a de Jesus que, sendo Deus, Se quis fazer “semelhante aos homens” (v 7).
Assim, vem o aniquilamento ou esvaziamento de a si próprio. Na verdade, Jesus, ao fazer-Se homem, não Se despojou da natureza divina, mas da glória ou manifestação da majestade que Lhe competia mercê da união hipostática (na pessoa do eterno Filho de Deus, a natureza humana e a divina estão misteriosamente unidas). Por isso, a condição de servo que assumiu não é a condição social de escravo, mas a forma (morfê) de se conduzir, própria do pobre e dependente, cumprindo a figura do “Servo de Javé”, de que fala Isaías. Também Se tornou semelhante aos homens, aparecendo como homem, não só, como queriam os docetas, na aparência (skhêmati), mas no sentido da semelhança (en homoiômati) com os outros homens, em tudo igual exceto no pecado (cf Heb 4,15). E “humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz”. É o máximo da kénosis, num crescendo de humilhação em humilhação: feito homem, assume a condição de servo, obedece com a obediência que vai até à morte, e não uma morte qualquer, mas a dum malfeitor, a morte de cruz. Mas este aniquilamento – escândalo da Cruz – não é uma derrota, o desfecho duma história trágica. É, antes, o sublime paradoxo da sua exaltação: foi por isso que Deus (o Pai, ho Theós) O exaltou acima de tudo o que existe, o que redundou na glorificação da humanidade de Jesus com a sua Ressurreição e Ascensão. A esta exaltação corresponde o nome que Lhe é dado por Deus, o nome com que passa a ser invocado pelos crentes de todos os tempos, nome não só usado na sua vida terrena e que consta da sentença de condenação à morte de cruz, mas nome com que o próprio Deus é designado nos LXX, “o Senhor”. Por tudo isto,  todos devem reconhecer e proclamar e a divindade de Jesus (toda a língua proclame que Jesus Cristo é Senhor – sem artigo, no grego) e o seu domínio sobre toda a criação (“no céu, na terra e nos abismos, para glória de Deus Pai”). E, com este esvaziamento divino, que vai da Incarnação à Redenção, fica patente que Jesus não é o simples servo do Senhor que vem a ser exaltado por Deus, mas Ele é Deus que Se abaixa e, depois, vem a ser exaltado; e fica patente que a fé na divindade de Jesus não é fruto de tardia elaboração teológica, pois a epístola é, quando muito, do ano 62 (se não é mesmo de cerca de 56, como quer a generalidade dos estudiosos), estes versículos fariam parte dum anterior hino litúrgico a Cristo.
***
A parte da vida de Jesus relatada mais pormenorizadamente e com grande intensidade dramática pelos quatro Evangelistas é a sua Paixão. Nela culmina toda a vida e obra redentora de Cristo. Os padecimentos que o Senhor abraçou voluntariamente evidenciam, de modo significativo, o seu amor infinito por todos e cada um de nós (cf Gl 2,20) e enorme gravidade dos nossos pecados (cf Gl 1,4). Do longo relato lucano da Paixão (Lc 22,14 – 23,56), é referir, antes de mais, que o autor do 3.º Evangelho é o único a mencionar o suor de sangue na agonia de Jesus e a presença do anjo a confortá-Lo, bem como o pedido ao Pai para que perdoe àqueles homens porque não sabem o que fazem e a oração do bom ladrão, a quem o Senhor perdoa e oferece o paraíso.
Os pormenores do relato de Lucas põem em evidência a misericórdia e a preocupação de Jesus pelos outros, quando era Ele quem devia merecer toda a atenção em horas tão aflitivas. Assim, no relato da Ceia, temos: a manifestação do desejo ardente de Jesus em celebrar esta Páscoa e a remissão para o Reino de Deus (22,15-16); a conservação do item do ritual judaico da bênção e entrega do 1.º cálice (22,17); a oração especial para que a fé de Pedro não desfaleça, com o encargo pastoral de confirmar na fé os seus irmãos (22,31-32); o episódio das duas espadas (Lc 22,35-38); a cura do criado ferido pela espada de Pedro (22,51); a comparência de Jesus perante Herodes (23,6-12), que O tratou com desprezo; a declaração da inocência de Jesus por Pilatos (23,13-16); o conforto de Jesus às mulheres a caminho do Calvário (23,27-31); o pedido de perdão ao Pai para os que O crucificam (23,34); o diálogo com o ladrão arrependido, com a promessa de entrada imediata no Paraíso (23,40-43); a cisão, ao meio, do véu do santuário (23,45); as palavras de Jesus ao expirar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (23,46); o regresso do Calvário por parte da multidão contrita a bater no peito (23,48); o regresso das mulheres do túmulo, que preparam perfumes e essências, mas observando o repouso sabático (23,56).
Lucas narra que a multidão dos discípulos aclamava alegremente Jesus em razão de “todos os milagres que tinham visto”. Em contrapartida, os fariseus pedem ao Mestre que repreenda os discípulos, ao que Jesus replica: “Se eles se calarem, clamarão as pedras!”. De facto, com os discípulos, ou sem eles (que O abandonaram) a criação dará o seu testemunho: a terra estremecerá, o sol perderá a sua luz e o dia transformar-se-á em noite. É que Jesus é Senhor de todo o universo e a sua Redenção beneficiará todas as criaturas: “Ao nome de Jesus todos se ajoelhem no Céu, na terra e nos abismos”.
Jesus Cristo é o Senhor! E, porque é de condição divina e ama até ao fim, tem pleno conhecimento da sua missão. Pré-anunciara a sua morte em Jerusalém: “Devo seguir o meu caminho, porque não se admite que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13,33). E agora oferece àqueles e àquelas que ama o alimento do seu Corpo, que vai ser entregue e do seu Sangue que vai ser derramado. Ofereceu a sua vida pelos homens: “amou-nos até ao fim”.
Como Lhe corresponder na nossa vida? Que devemos fazer pelos outros para sermos com Ele?
 2019.04.13 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

A teimosia em não aceitar o verdadeiro messianismo de Jesus


Para os estudiosos da Bíblia, a profissão de fé adiantada por Simão Pedro, em Cesareia de Filipe, de que Jesus é o “Messias” (Mc 8,29), o “Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16) ou o “Messias de Deus” (Lc 9,20), marca um momento de viragem no percurso dos discípulos com o Mestre. Com efeito, parecia que, a partir desta confissão de fé que reconhece em Jesus o Messias de Deus, estavam criadas as condições para o aprofundamento do mistério de Cristo, mas efetivamente não estavam. No entanto, o Senhor prossegue a sua propedêutica, sabedor de que o Espírito Santo iria, a seu tempo, abrir os olhos e os ouvidos dos discípulos para entenderem as Escrituras e fortalecê-los com a força do Alto a fim de serem verdadeiros arautos do Evangelho em todo o mundo.
***
Depois de os interpelar sobre o que por ali diziam os outros quem era Jesus, o desafio que Jesus lançou aos discípulos sobre “quem dizeis vós que eu sou” era pertinente. Eles, porém, sabiam dizer o que os outros pensavam e diziam, mas tinham receio de dizerem o que pensavam eles próprios, até que Pedro se adiantou e o professou em nome de todos.
O texto de Marcos não se expande como o de Mateus, em que sobre a rocha petrina o Senhor edificará a Igreja. Aqui, apenas ordena que não digam nada a ninguém.
Logo a seguir, fica patente que Pedro não percebe e não aceita o genuíno messianismo de Jesus. Quando o Mestre faz o primeiro anúncio da Paixão, Morte e Ressurreição, em virtude da rejeição dos homens, é Pedro quem se adianta e, interpretando os interesses dos homens em detrimento dos interesses de Deus, começou a repreendê-lo, pois não percebia e não aceitava outro estatuto para o Messias que não fosse o cumprimento do desígnio político de restaurar e consolidar a independência e supremacia de Israel, como esperavam tantos.
Porém, o messianismo de Jesus, o que liberta o homem do pecado e das suas consequências, é o profetizado em Isaías (Is 50,5-9): saber dar palavras de alento aos desanimados, mas, para isso, passar pela experiência do sofrimento, aprendendo como os discípulos, apresentando as espáduas e a face aos que lhe arrancam a barba, não desviando o rosto dos que o ultrajam e lhe cospem e sentindo que o Senhor Deus vem em seu auxílio. Este será o caminho para que todos os inimigos caiam “esfrangalhados como roupa velha, roída pela traça”. 
E é num panorama destes que Jesus lança o repto à multidão:
Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. […] Quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, há de salvá-la. […] Quem se envergonhar de mim e das minhas palavras entre esta geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, com os santos anjos.” (Mc 8,34.35b.38).
***
Depois da transfiguração perante Pedro, Tiago e João num monte elevado, em que se fez ouvir a voz do Pai, “Este é o meu Filho muito amado: escutai-o” (Mc 9,9), Jesus “ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos. E eles guardaram a recomendação, discutindo uns com os outros o que seria ressuscitar de entre os mortos” (Mc 9,10). Não estavam a perceber mesmo nada!
Entretanto, o Mestre não desistiu de instruir os discípulos e fez pela segunda vez o anúncio da sua morte, limite extremo da humildade, dedicação e amor pelos amigos (“Prova de amor maior não há do que dar a vida pelos seus amigos” – Jo 15,13), dizendo-lhes: 
“«O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens que o hão de matar»; mas, três dias depois de ser morto, ressuscitará. E eles, como não entendiam esta linguagem, tinham receio de o interrogar.” (Mc 9,310-31).
Porém, os discípulos, teimando no reinado político como os demais reinados, discutiam entre si em segredo (porque se envergonhavam de o propalar em alta voz) sobre quem seria o maior no Reino dos Céus. Por isso, quando chegaram a Cafarnaum e estando em casa, Jesus interpelou-os sobre o que discutiam pelo caminho – interpelação que os deixou em silêncio porque, no caminho, tinham discutido uns com os outros sobre qual deles era o maior. Foi então que chamou os Doze e disse: ‘Se alguém quiser ser o primeiro, há de ser o último de todos e o servo de todos’. E, colocando um menino no meio deles, abraçou-o e disse-lhes: ‘Quem receber um destes meninos em meu nome é a mim que recebe; e quem me receber, não me recebe a mim mas àquele que me enviou’. (cf Mc 9,33-37). Recorde-se que, ao tempo, as crianças nem sequer eram consideradas pessoas, não tendo voz ativa em matéria alguma.
No Evangelho de Mateus (vd Mt 20,20-28), que situa o ensinamento depois do seu 3.º anúncio da Paixão e Ressurreição, foi a mãe de João e Tiago quem pediu ao Senhor que ordenasse que se sentasse um à sua direita e o outro à sua esquerda no seu Reino. Porém, Jesus perguntou-lhes se podiam beber o cálice que Ele estava para beber. E, tendo respondido que sim, Jesus replicou:
Na verdade, bebereis o meu cálice, mas sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence a mim concedê-lo: é para quem meu Pai o tem reservado”.
E, porque os outros dez ficaram indignados com os dois irmãos, Jesus chamou-os e disse-lhes:
Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem entre vós quiser fazer-se grande seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão.”.
Marcos (Mc 10, 35-45), tal como Mateus, também desenvolve esta lição do serviço a seguir ao 3.º anúncio da Paixão e Ressurreição, mas por iniciativa dos filhos de Zebedeu e não por iniciativa da mãe – o que Lucas (Lc 22,24-27) insere a seguir ao anúncio da traição de Judas.
***
Pensando na índole predominantemente política do Reino, quando o destacamento romano e os guardas ao serviço dos sumos-sacerdotes e dos fariseus, munidos de lanternas, archotes e armas, entrou no Horto das Oliveiras para prender Jesus, Simão Pedro, que trazia uma espada, desembainhou-a e arremeteu contra um servo do Sumo-Sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Mas Jesus, chamando a atenção para o caráter singular do seu Reino, disse a Pedro: “Mete a espada na bainha. Não hei de beber o cálice de amargura que o Pai me ofereceu?” (cf Jo 18,3.10.11). E, depois de Jesus preso, Pedro negou o Mestre; e, ao verem Jesus a responder no Sinédrio e no Tribunal de Pilatos com a multidão a clamar pela crucifixão, todos, desiludidos, fugiram. Apenas João, o Discípulo predileto, se manteve firme junto à Cruz (cf Jo 19,25-27).
Ainda para mais, quando as mulheres disseram aos apóstolos que Jesus tinha ressuscitado, pensaram que se tratava de um desvario delas e não acreditaram nelas (cf Lc 24,11). E, mesmo no momento da Ascensão, perguntaram-lhe se era então que ia restaurar o Reino de Israel. Mas Jesus respondeu-lhes (cf At 1,6):
Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo.” (At 1,7-8).    
Apesar de tudo, Jesus não desistiu deles – Ele nunca desiste – e deixou que viesse o Espírito Santo reensiná-los e dar-lhes a força necessária para a missão até aos confins do mundo. Nunca foram as dúvidas e as confusões dos discípulos que O fizeram parar.
***
Sobre o tema falou o Papa na homilia da Missa no Parque Santakos em Kaunas (Lituânia).
Marcos dedica parte considerável do seu texto ao ensinamento dirigido aos discípulos, como se, como acentua Francisco, “Jesus quisesse que os seus renovassem a sua opção, sabendo que este seguimento comportaria momentos de provação e sofrimento”. E, nas três ocasiões em que anunciou a sua Paixão, eles “expressaram a sua perplexidade e resistência”, mas “o Senhor quis, nessas três ocasiões, “deixar-lhes” o correto ensinamento.
Na verdade, “a vida cristã sempre atravessa momentos de cruz”, que parecem, por vezes, “intermináveis”. E, falando na Lituânia, o Papa referiu que “as gerações passadas viram gravar a fogo o tempo da ocupação, a angústia daqueles que eram deportados, a incerteza por aqueles que não voltavam, a vergonha da delação, da traição”, aplicando-se-lhes o teor do Livro da Sabedoria (cf Sab 2,20-20) na passagem que mostra o justo perseguido e a sofrer insultos e tormentos só por ser bom, com o agravo de não sentir a presença defensora de Deus. Também, nesse sentido, o povo lituano “pode corroborar em uníssono com o apóstolo Tiago, na passagem da sua Carta: cobiçam, matam, invejam, lutam e fazem guerra” (cf Tg 4,2).
E tem razão Francisco: a Paixão de Cristo espelha-se no sofrimento das pessoas e dos povos.
Porém, como sublinha o Papa, os discípulos não queriam ouvir falar “de sofrimento e de cruz” pois o seu interesse era poder e glória, “o modo mais comum de se comportar daqueles que não conseguem curar a memória da sua história e, talvez por isso mesmo, não aceitam sequer comprometer-se no trabalho do momento presente”. E veja-se como o Pontífice classifica esta atitude da parte de quem discute “sobre quem mais brilhou, quem foi mais puro no passado, quem possui mais direito do que os outros a ter privilégios”:
É uma atitude estéril e vã, que se recusa a envolver-se na construção do presente, perdendo o contacto com a dolorosa realidade do nosso povo fiel. Não podemos ser como aqueles peritos espirituais que se limitam a julgar de fora e passam o tempo inteiro a falar sobre o que se deveria fazer.”.
Ora, prosseguindo, a homilia papal assinala a proposta de Jesus de um antídoto contra as lutas de poder e recusa do sacrifício: põe no centro, equidistante, “um rapazinho que habitualmente ganhava alguns trocados prontificando-se para recados que ninguém queria fazer”, hoje personalizado talvez nas “minorias étnicas da nossa cidade” ou nos “desempregados que são forçados a emigrar”, nos “idosos abandonados” ou nos “jovens que não encontram um sentido na vida, porque perderam as suas raízes”. E ensinou os discípulos o que é essencial: acolher estas crianças, estes que não têm protagonismos; e, neste acolhimento, acolhe-se Cristo e o Pai.
Depois, requer-se a atitude de despojamento e de saída, para a qual Francisco deu um exemplo visualizante para um ensinamento programático: 
Lá, na cidade de Vilna, tocou ao rio Vilna oferecer as suas águas e perder o nome relativamente ao Neris; aqui, é o próprio Neris que perde o nome oferecendo as suas águas ao Nemunas. É precisamente disto que se trata: ser uma Igreja ‘em saída’, não ter medo de sair e gastar-se mesmo quando parece que nos dissolvemos, não ter medo de nos perdermos atrás dos mais pequenos, dos esquecidos, daqueles que vivem nas periferias existenciais. Mas sabendo que aquele sair implicará também em determinados casos deter o passo, colocar de lado anseios e urgências para saber olhar nos olhos, escutar e acompanhar quem ficou na beira da estrada. Às vezes, será necessário comportar-se como o pai do filho pródigo, que permanece junto da porta à espera do seu regresso, para lhe abrir logo que chegue.”.
Mais explicou porque ansiamos por receber Jesus na sua palavra, na Eucaristia, nos pequeninos:
Para que Ele reconcilie a nossa memória e nos acompanhe num presente que continue a apaixonar-nos pelos seus desafios, pelos sinais que nos deixa; para que O sigamos como discípulos, porque nada há de verdadeiramente humano que não tenha ressonância no coração dos discípulos de Cristo e, assim, sentimos como nossas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e dos atribulados (GS, 1). E porque, como comunidade, nos sentimos verdadeira e intimamente solidários com a humanidade […] e com a sua história, queremos doar a vida no serviço e na alegria e, assim, fazer saber a todos que Jesus Cristo é a nossa única esperança.”.
***
Também o reitor do Santuário de Fátima afirmou, na Missa dominical, celebrada no Recinto de Oração, perante milhares de peregrinos portugueses e estrangeiros que, apesar do calor, peregrinaram à Cova da Iria, que “servir e dar a vida é o maior sinal de grandeza dos cristãos”.
Com efeito a linguagem do serviço, “como atitude e disposição” para se dar sem reservas, “não colher simpatias”, é a marca distintiva do “ser cristão e seguir a Jesus”.
Contudo, o sacerdote, lembrando que a História dos homens é predominantemente marcada pelo desejo de domínio, “de sermos maiores, de impormos a nossa vontade ou desejarmos o reconhecimento”, confessou: “Se perguntarmos a alguém se quer ser servo, a resposta é que não”. Efetivamente não é o exemplo do serviço o que vem da parte dos que estão no topo.
Segundo o Padre Carlos Cabecinhas, “a ideia de servir não reúne nem simpatias nem consensos, mas a verdadeira grandeza  a que devemos aspirar é sermos servos”. Porém, nos termos evangélicos, “uma vida centrada em nos próprios é uma vida perdida e, pelo contrário, uma vida doada aos outros, feita de serviço, é uma vida grande e ganha”. E “desta sabedoria que vem do Alto dá-nos exemplo Jesus Cristo,  que se fez servo de Deus”.
Depois, lembrando o exemplo de Nossa Senhora e dos santos Pastorinhos Francisco Marto e Jacinta Marto, o responsável pelo Santuário fatimita referiu:
Jesus foi sempre o servo por excelência: serviu o Pai e serviu os homens e as mulheres. Ser cristão e seguidor de Jesus implica necessariamente assumir esta atitude, por mais difícil que seja e é. […] Na escola de Maria também os Pastorinhos adotaram este modelo: eles não procuraram aplausos ou reconhecimento; em momento algum quiseram ser os primeiros a não ser diante do amor a Deus.”.
Ora, “tal como os Pastorinhos fizeram da sua vida uma doação a Deus, com uma atenção privilegiada aos outros”, também nós somos convidados a “experimentar a verdadeira grandeza: servir e dar a vida”. E “é isto que significa ser grande” – disse ainda a partir do Evangelho Marcos (Mc 9,30-37), proclamado em toda a Igreja no XXV domingo do Tempo Comum no Ano B e que exorta os cristãos a seguirem Jesus, imitando-o nas suas atitudes.
***
À luz do Evangelho fica, pois, condenado o clericalismo enquanto elite demolidora dentro da Igreja, muito semelhante ao escol fabricado pelas sociedades civis, gerador e fautor dos mecanismos de sustentação no poder político e económico, tantas vezes criador de situações e atos de repressão, opressão e descarte. E, de igual modo, se contraindica o carreirismo, que, ao invés do serviço, almeja a ascensão na estrutura a ponto de conseguir o domínio antievangélico.
Sendo assim, é de questionar como semanários, escolas teológicas, conventos e outros centros de formações não combatem eficazmente o carreirismo e não promovem a conversão das mentalidades, corações, atitudes e comportamentos à glória de Deus e ao serviço abnegado aos irmãos. Mas também é de destacar e apreciar o trabalho generoso de tantos e tantas que, abjurando de qualquer forma de protagonismo, se esforçam por fazer valer, na dedicação, dor e sofrimento, os interesses de Deus e a dignidade de todos e de cada um dos irmãos e irmãs.  
2018.09.23 – Louro de Carvalho